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sexta-feira, fevereiro 22, 2019

JOAQUIM CARDOZO, MICHEL ONFRAY, SCHOPENHAUER, PANMELA CASTRO & MATA DE XARETA


AS ABUSÕES DA MATA DE XARETA - Noite escura, mata ínvia, um silêncio macabro, só ao longe silvos, uivos, gorjeios, roncos de suçuarana, rosnados de porcos, urros de bois e de bichos descomunais e ferozes a voarem da imaginação para amedrontar. Qualquer coisa que bulisse, tremedeira de perder a razão. Só a pisada nas folhas e galhos, os escorregões de ninguém não vê nada na escuridão. Algumas pedras pareciam vivas e se não eram se passavam por metais brilhosos e seixos. Reza forte pode ajudar, fé em Deus que tudo vai dar. Quem vai pra mata tem que levar cachorro, apetrechos, armas e munição da boa, senão, senão. Quem bem souber leva seus talismãs às mãos. Qualquer coisa sem nome pode surgir de repente, convém prevenir e se não souber de cor um folheto de cordel, mais precaução, quem sabe fantasmas furtivos servirão para a corrupção de mentirosos como eu. E Xareta nunca foi diferente, alta noite em pleno meio dia. De só se ouvir de tudo: do bicho-preguiça e morcegos, capivara e tamanduá, jaguatirica e quati, paca e cotia, jandaia e gato-maracajá, saguis e pererecas, jiboia e cobra-coral, lontra e urutau, capivara e jacaré, cágado e jararaca, passarinhos de todo tipo e tamanho a chilrear safadosos; borboletas e xexeus para enganar os bestas; de bacurau e onças, sapos-cururus e raposas, caranguejeiras e mariposas, vagalumes e um monte de coisa que mete medo só de passar sem se vê. Até o que não existe nessa hora aparece para dar sinal de vida. Segura a fraqueza, o frio na barriga. Coragem é coisa pra ter depois de passar no brejo, um tombo aqui e acolá, e de topar com o que for, de levar carreira do Boitatá, o Mabaê-Tata, com seus olhos grandes e morada no fundo dos rios. É que ele depois de escapar do dilúvio escondido num buraco, mas que na verdade era a alma malvada com seu facho cintilante incendiando o mato de um lado pra outro, na perseguição dos notívagos; de Lobisomem que era o sétimo filho e aparecia em noite de lua cheia pelo pacto das forças do mal atacando as pessoas; do Labatut esfaimado com seus pés redondos, mãos compridas, cabelos longos e assanhados, o olho na testa e dentes de elefante, os cães a ladrar com aquele que morava no fim do mundo, saía ligeiro da lua e vinha com seus passos pesados e retinentes rugindo na ventania, uma monstruosidade abocanhando a presa: pior que o Lobisomem, pior que a Burrinha, pior que a Caipora, pior que o Cão-coxo; da Mula-sem-cabeça com choro pungente e fogo pela venta e boca, freios de ferro e a maldição de mulher que dormiu com o padre, e de quinta pra sexta na encruzilhada, chupava os olhos, unhas e dedos de quem por ela passasse; do moleque preto Caipora que era que nem o capeta de preto, peludo, ossudo, empunhando um ferrão e fazendo alarido com sua voz fanhosa e esganiçada por aí no ecou ecou; do gentiozinho Curupira que era o Pai-do-mato, com seus cabelos vermelhos compridos, os pés virados para trás, de cocar e tanga de penas, armado de arco e flechas, montado num porco do mato para açoitar e matar quem encontrasse pela frente; da burrinha de padre que desencantou moça bonita nua, chega dava gosto de ver a sedução; da Cabra-Cabriola, perna cabeluda, saci e chupa-cabra. Tinha até uns Ets brocos que nem sabiam aonde estavam, só pra assombrar quem lá fosse, de não querer ir mais de jeito nenhum. Tudo isso a muito tempo de antes, matas que havia e nem se vê mais. Êta, Xareta! Ao descobrir seus mistérios ela desapareceu tal como as sereias e a esfinge. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] no mesmo palco onde filosofam à sua maneira, por gestos mais que pelo verbo, mais com ação que com a retórica, encontramos também, do lado da moral, aqueles que, longe do acesso fácil às manchetes e da profissão aberta de cínico patenteado, denunciam o mundo tal ele caminha, recusam o real em sua crueldade, sua violência e seu parentesco com a morte. Modestos, discretos e silenciosos, confundidos na massa, instalam o filósofo da lanterna ao lado dos sem-documento, dos sem-teto, dos desprovidos, dos rejeitados, dos desempregados, dos pobres, dos estrangeiros e dos sem-diploma, daqueles de quem nunca se fala e a quem falta toda voz. [...]
Trecho de Em face do consenso, a salvação passa pela revolta (Zahar, 1999), do filósofo francês Michel Onfray, fundador da Universidade Popular de Caen. Veja mais aqui.

A POESIA DE JOAQUIM CARDOZO
SÓ – Sou o mais só/ o mais só deste mundo, / por isso contra mim / os galos cantam / ladram os cães... / facilmente / sem trabalho em mim mesmo me absorvo / indefinidamente.
AINDA TERESA – Professora da vida e do amor / quanta coisa aprendi que tu sabias / quantas vezes me lembrei de ti / em passagens de longe, inda por longe; / doce Teresa das feiras do Bacurau / onde se ceava sarapatel de porco / em longos tempos, em longas eras, / - Teresa, professora de ternuras e carinhos.
HINO AO SOL – Sobre a folhagem mais uma vez / passa o esplendor do sol. Manhã! / Folhagem que nas águas permanece / no esplendor do sol nos flamboyants. / Este Hino que canto exalto e louvo / dá-me a visão do que vai surgir: / é o curso dos ciclos permanentes / no fundo do universo a reluzir.
Poemas extraídos da obra Um livro aceso e nove canções sombrias (Civilização Brasileira/Massao Ohno, 1981) do poeta, dramaturgo, engenheiro civil, desenhista, professor e editor Joaquim Cardozo (1897-1978). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista e grafiteira Panmela Castro, mais conhecida como Anarkia Boladona, a rainha do grafitti brasileiro. 
Veja mais aqui & aqui.
&
A obra do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
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quarta-feira, setembro 21, 2016

ONFRAY, VIVIANE MOSÉ & NIETZSCHE, NATALIA GUTMAN, DÉBORA MASSMANN, BIERRENBACH & SCHENDEL

INEDITORIAL: COLOCANDO OS PINGOS NOS IIIIIS! – Olá, gentamiga desse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada! Salve, salve! Em tempos de temerança, nada pior que perder a esperança! Qualé, meu? Nunca é tarde pra gente fazer desse país um Brasil melhor, nunca é tarde. Vamos em frente, desesperar jamais. Eu mesmo digo logo: quanto mais me decepciono, quanto mais degusto de revestrés, mais insisto, persisto, resisto e persevero! Primeiro recadinho: no Dia da Árvore, olhelá – atenção dendroclastas de plantão, não tem como comprar oxigênio por aí não, viu? Ou planta e cuida, ou vamos aprender a viver no deserto ou embaixo d’água, ta? No Dia do Radialista, uma reflexão: que é que estão fazendo com o rádio, hem? PelamordeDeus, gente!  Agora vamos pras novidades, pois hoje tem de tudo: o Grupo de Pesquisa de Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, a poética da geografia na teoria da viagem de Michel Onfray, a poesia de Viviane Mosé, o discurso e a argumentação de Débora Massmann, mais uma da Gaia Ciência de Nietzsche,  a fotografia de Cris Bierrenbacj, a arte de Mira Schendel, a música da Natalia Gutman e outra do doutor Zé Gulu passando aperto com questões de paternidade. No mais, vamos aprumar a conversa & Tataritaritatá. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Revolução copernicana ao contrário, Luis Cernuda, Herberto Sales, Radamés Gnatalli, Norma Benguell, Roberto Szidon, Stella Miranda, Wilman Emir Causa Acero, Appolonia Saintclair, Literatura Infantil & A democracia na América Latina aqui.
E mais:
Ramakrishna Paramahamsa, Maria João Pires, Rodolfo García Vazquez, Woody Allen, Richard Bach, Lilia Silvestre Chaves, Cléo de Páris, Apollonia Sainclair & Miklos Mihalovits aqui.
Fecamepa: a cana dos coronéis aos mamoeiros aqui.

DESTAQUE: NEUROFILOSOFIA & NEUROCIÊNCIA COGNITIVA
Realizou-se na última segunda, dia 19 de setembro, mais uma reunião do Grupo de Pesquisa de Neurofilosofia e Neurociência Cognitiva, em que se ressaltou a realização do curso As pensadoras: as grandes mulheres filósofas da história, que prosseguirá nesta quarta, dia 21/09, das 17 às 19hs, no auditório do prédio Íris III – do curso de Direito do Centro Universitário Cesmac -, sobre o tema As mães da igreja e pensadoras cristãs medievais, ministrado pelo professor e coordenador do grupo Álvaro Queiroz. Em seguida deu-se andamento no tratamento e levantamento dos dados atinente ao estudo sobre a temática Epidemiologia do suicídio no município de Maceió, desenvolvido pela professora e coordenadora do Grupo, Janne Eyre Araújo de Melo Sarmento. Logo após foi dado andamento ao estudo Equoterapia & Autismo, desenvolvimento pelo psicólogo Weverky Farias. Foram abertos então os debates, ficando definida a data de 24 de setembro, a partir das 8hs, no Centro Universitário Cesmac, para a próxima reunião, contando com a presença da professora e orientadora do Grupo, a professora doutora Daniela Botti. Veja mais aqui.

CONVERSA DE BAR & FILHO NÃO RECONHECE PAI – Anclotinato era um dos assíduos acompanhantes dos devaneios intelectuais do doutor Zé Gulu. Claro, com um nome desse, dizia o ilustre pensador, não há castigo pior. Na faculdade tive colegas como Arsênico, Aschelminto, 1 2 3 de Oliveira 4, coisas do tipo. Isso é lá graça pra ninguém. E Anclotinato às gargalhadas. Ô, meu fio, num tinha um nomezinho melhor, não? Isso é lá graça pra ninguém? E você não diz nada? Hômi, seu minino, sô sujeito curau das brenhas. Saí do campo pra Sumpaulo com dezoito anos, me despedindo dos pais pra nunca mais. Naquela terra de doido, arrumei colocação de servente no Tribunal de Justiça. Um juiz distinto se afeiçoou de mim, passei de recadista para escriturário, depois escrevente e já tinha destinação certa pras ciências jurídicas. Estava tudo indo muito bem encaminhado, quando um tio meu odontólogo, me fez virar dentista da noite pro dia. Troquei o certo pelo duvidoso. Cinco anos no batente da faculdade, tinha futuro promissor: a clientela do tio. Cheio das gaitas me engracei por uma japonesa. Bastou uma massagem, casei-me com ela no outro dia por causa das suas perícias sexuais. Concorrência braba, resolvi montar consultório na minha terra, findei na capital: endinheirado com as novidades. Fui enfeitiçado pela secretária do consultório, resultado: a japa me expulsou de casa armada dum rifle e acabei metido numa camisa de onze varas. A amásia montou casa e trouxe família do interior com tudo: pai, mãe, irmãos, filharada. Não havia fábrica de dinheiro que desse. Pra reaver o apartamento, tive que botar tudo pra correr sob ameaça de golpe com polícia e tudo. Falido e sem um tostão furado, tive que recomeçar de vida aqui em Alagoinhanduba, como quem puxa só desgraça e miséria. Dentista do município, fui aos poucos reorganizando a vida e resolvi fazer Direito na capital. Cinco anos indo e vindo, formei-me, comecei uma nova carreira. Hoje dá pro gasto, recém-amigado com uma mulher que me compreende, tentando manter o equilíbrio da vida. Só tenho um desgosto: um dia procurei meu filho, o único que tive com a japonesa, ele me virou as costas, dizendo-me que não tem pai, só mãe. É duro isso, meu único filho não quer me ver nem pintado a ouro. Foi aí que o doutor Zé Gulu, compreendendo as lágrimas que lavavam a face do coitado, apertou-lhe a mão com firmeza, deu-lhe um abraço e saiu: - Inté mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Doutor Zé Gulu aqui, aqui e aqui.

UMA MÚSICA
Curtindo os álbuns Cello Concerto & Portrait Séries, da violoncelista russa Natalia Gutman. Veja mais aqui.

PESQUISA: A POÉTICA DA GEOGRAFIA NA TEORIA DA VIAGEM -  [...] Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. [...] Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta o véu do ser. [...] Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente a mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la. [...] A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha do destino. [...] Toda documentação alimenta a iconografia mental de cada um. A riqueza de uma viagem requer, a montante, a densidade de uma preparação – assim como as experiências espirituais convidam a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade capaz de infundir. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. [...] Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera a vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela. [...] Nem a sós, nem com vários: circular com o amigo permite evitar a angústia multiplicada do trajeto solitário, da barreira das línguas estrangeiras, dos incômodos burocráticos nas fronteiras com funcionários e policiais de todo o mundo. O estrangeiro que circula livremente num país inquieta as autoridades, sobretudo onde não reina a democracia, isto é, na maioria dos lugares do planeta. A amizade serve de tônico necessário para a conjuração do estado de fragilidade consubstancial ao afastamento do domicílio, longe das referências habitualmente tranqüilizadoras do animal em nós. No exercício da amizade, o outro é o estranho menos estranho possível. [...] No detalhe da viagem, a amizade permite a descoberta de si e do outro.  [...] um poema bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiência vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou sei, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação. [...] Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser. [...]. Trecho extraído da obra Teoria da viagem: poética da geografia (L&PM, 2009), do filósofo francês Michel Onfray, realizando um elogio à arte de viajar como expediente para filosofar, uma vez que, para ele, só é possível a partir de uma experiência autobiográfica resgatando os significados de sair em busca do desconhecido. Com essa obra ele remonta à história de Caim (agricultor, sedentário) e Abel (pastor, nômade), estabelecendo dois polos entre os quais todos oscilam: nomadismo versus sedentarismo, e amor ao movimento versus paixão pelo imobilismo, pelo enraizamento.

UM LIVRO, UMA LEITURA: VIDA/TEMPO 
Quem tem olhos pra ver o tempo? / Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele / Soprando sulcos? / O tempo andou riscando meu rosto / Com uma navalha fina. / Sem raiva nem rancor / O tempo riscou meu rosto com calma. / Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante. / Acho que ganhei presença. / Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando. / Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim / Por falar em sexo quem anda me comendo / É o tempo. Na verdade faz tempo, mas eu escondia / Porque ele me pegava à força, e por trás./ Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo, se você tem que me comer Que seja com o meu consentimento.  E me olhando nos olhos. Acho que ganhei o tempo. De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando.
Vida/tempo, poema extraído do livro Toda palavra (Record, 2008), da poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista Viviane Mosé. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: DISCURSO & ARGUMENTAÇÃO - [...] O discurso constitui assim um lugar de formulação e de projeção de visões de mundo: é o espaço em que as relações entre palavras e entre frases constroem, a cada enunciação, um modo diferente de apreender a realidade, de representá-la e de verbalizá-la. A cada enunciação, portanto, um novo esquema de significações e de representações, um novo microuniverso conceitual é expresso. Nessa perspectiva, o autor compreende que toda a argumentação, ao expor um ponto de vista, uma opinião ou uma tese, expressa uma visão de mundo pessoal, um modo subjetivo de perceber a realidade e de enunciá-la. Nesse sentido, o discurso e a argumentação constituem o lugar em que cada sujeito constrói, representa e expressa o seu modo de perceber e de categorizar a realidade. Discurso e argumentação apresentam-se como atores do mundo. Através deles, as diferentes visões de mundo são construídas e representadas discursivamente de forma distinta a cada enunciação. [...] é no espaço da controvérsia que a argumentação se consolida à medida que se estabelece a interação entre os interlocutores, ou seja, à medida que se considera o outro como um sujeito capaz de reagir e de interagir discursivamente pelo exercício da negociação e do entendimento através do debate. Trecho do artigo Argumentação: em busca de um conceito, da professora e pós-doutora em Semântica, Débora Massmann, destacando os discursos jurídico, político e midiático, entre outros, extraído da obra Línguas e instrumentos lingüísticos (RG/Unicamp, 2009).

A GAIA CIÊNCIA
Quer considere os homens com um olhar benevolente ou malevolente, vejo-os todos, e cada um em particular, fazer a mesma coisa: a saber, o que é útil para a sobrevivência da espécie. Ora, não é por amor a essa espécie que agem assim, mas simplesmente porque não há neles nada mais antigo, nada mais forte, mais inexorável, mais invencível que esse instinto – porque esse instinto é precisamente a essência de nossa espécie e de nosso rebanho. [...] De fato, o homem mais prejudicial pode ser o homem mais útil à conservação da espécie; com efeito, ele sustenta em si ou, por sua influência, nos outros, instintos sem os quais a humanidade estaria há muito entorpecida ou corrompida. O ódio, o prazer de ver o outro sofrer, a sede de rapina e de dominação e de tudo aquilo que se dá o nome de mal: tudo isso faz parte da espantosa economia da conservação das espécies, uma economia dispendiosa certamente, pródiga e no fundo totalmente insensata – mas que, como está provado, manteve a nossa espécie até agora. [...] É preciso amar a vida, pois...! É preciso que o homem ative sua vida e aquela do próximo, pois...! [...].
Aqueles que ensinam o objetivo da vida, extraído da Parte I da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa, ilustradora e repórter fotográfica Cris Bierrenbach.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Arte da artista plástica suíça radicada no Brasil, Mira Schendel (1919-1988)
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


quarta-feira, fevereiro 17, 2016

SYLVIA PLATH, ONFRAY, OGDEN NASH, GREEN, PROUDHON, FISHER & LITERÓTICA

 


O MILAGRE DELA, KAREN, KARA ZOR-L... – Absorto com as minhas escrevinhações, nem percebia o que se passava ao meu redor. Levantei-me, estirei os braços, estiqueis as pernas e, só ao passar para um café pequeno, esbarrei em alguém, desculpei-me pelo inadvertido e ouvi uma voz melodiosa me dizer: Nada, tudo bem. E voltei desajeitado para a mesa e o trabalho. Dali a pouco ouvi a mesma voz: Posso? Levantei as vistas e, só então, pude aquilatar aquela monumental emanação solícita. Claro! Sentou-se. Prazer, Karen Starr. Retribuí atarantado a gentileza, apresentando-me. Apertamos as mãos. Você é escritor? Tento. E conversamos preliminarmente amenidades por um longo tempo, seu olhar me fisgava hipnotizado entre sins e nãos, curiosidades, trocas. O ambiente seguia, entrava e saía gente, outras mesas ocupavam-se, ou desocupavam, conforme o tempo passava. Qual a sua história? Ainda concatenando. E demonstrou curiosidade pelos detalhes, ao que levei muito tempo para poder organizar as ideias, puxar assunto, esticar conversa e, depois de muita reviravolta, finalmente disse-lhe tratar-se mesmo de exercício diário. Mesmo? Sim, tentativas. Está sempre escrevendo? Sim, tentando. Tenho um local que seria ideal pra isso, quer ver? Adoraria. Então, vamos. Levantou-se e esperou que arrumasse as coisas, coloquei tudo dentro do bisaco e segui-a. Nossa, uma surpresa atrás da outra. Era bela, como se saísse da capa de revistas e, pelo jeito, poderosíssima, diante das minhas fraquezas. Estava abestalhado com aquela beleza magistral, olhos altivos, boca sublime, voz encantadora, coisa de quem pra lá de ágil, super-humana, o colante branco ocupando minhas vistas com sua fascinante proeminência escultural, suas formas generosas, o exuberante decote nos faustos seios, suas abundantes coxas descobertas, o cinto vermelho no realce das ancas formosas, a magia do seu encanto. Não havia como ser de outro jeito. Já na calçada vi-a estender um braço e trazer um táxi, aboletamo-nos no banco de trás e ouvi dizer um destino por mim ignorando. Enquanto singrávamos o trânsito comentávamos a loucura do tráfego, as últimas notícias e, incisivamente, mencionou a curiosidade por desvendar os motes das minhas escritas. Fiz uma explanação longa e cheia de idas e vindas, no meio das quais me perdia diante do seu olhar afetuoso e atento. Finalmente chegamos em um lugar, no qual mandou para o motorista parar e descemos. Graças, já não tinha lá mais muito o que enrolar. Diante dum portão enorme entre muros altos e amplos, ela passou a chave, abriu-me e passamos para o interior de um sítio arborizado, uma casa suntuosa no meio de muitas calçadas transitáveis. Uma matilha alvoroçada festejou a sua chegada e ela, cuidadosamente, me levou entre os cães festivos até os degraus do recinto, determinando a cainçalha ali parasse obediente: Quietos! Cruzamos a porta de uma sala enorme, cheia de artes e artefatos antigos, nos aguardava. Abriu as janelas e me dispôs uma longa mesa: Este o meu lugar de repouso. Fiquei maravilhado. Venha. E subimos uma escada encimentada e nos deparamos com uma dependência verdadeiramente equipada, um estúdio de criação: muitos livros pelas estantes, escrivaninha, pranchas, lupas, maquinário sofisticado, espaço e tudo para escrever diante do ar livre com a sombra dos arvoredos. O que achou? Nossa, nada mais aprazível! Serve pra você? Lisonjeado. Ótimo. Quer beber algo? Cerveja, se possível. Temos uísque, vinho, cerveja, o que quiser. Cerveja. Era tudo encantamento, deslumbrado. E sentamos à mesa da sala e ela começou a me entrevistar informalmente. Conversa vai e vem, confissões, depoimentos, risos, comoções. A hora avançava e mais que acordados pabulávamos madrugada adentro. Eis que o sono nos pegou, mas insistíamos em manter o papo, ela levantou-se e não voltou mais. Cochilei e a procurei pelos cômodos, não havia mais ninguém ali, os quartos e, num deles, lá estava estonteantemente debruçada sobre uma cama larga, sono profundo. Havia espaço e um travesseiro ao lado. Tirei os sapatos e, vestido como estava, deitei-me encolhido. Despertei com suas mãos escorrendo pela minha pele, aos alisados: estava nu sob o lençol. Senti seu ofuscante beijo em meus lábios, faces e queixo; seu corpo deslizava nu sobre o meu. Beijou-me os ombros, o tórax, um mimo com o nariz no meu umbigo, ósculos amáveis no meu ventre e meu sexo enrijecido esfregando-se ao seu pescoço, face e seus lábios envolveram meigamente a glande, a felação vigorosamente afável, levando-me aos píncaros da glória. Vencia-me e me apossei de seus sedosos cabelos, agarrando-a às carícias, virou-se de costas, domada, seu corpo no meu, levei-a pro lado e espragatou-se estirada provocante e montei-a, suas pernas abriram-me o caminho de suas nádegas eminentes, escancarando-se de 4, égua no cio e o trotado a explorar suas costas trazidas ao meu peito, minhas mãos tomando-lhe os auspiciosos seios pelas cavalgadas oníricas, suspiros, gemidos, galgando sua deidade tributária de todas as minhas posses, transpondo todos os limites de sua compleição, na plenitude de tê-la extasiante além do que sou e nela milênios de prazer. Veja mais abaixo & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

A vida começa no final da sua zona de conforto... Você só é jovem uma vez, mas pode permanecer imaturo indefinidamente... Algumas dores são físicas e outras são mentais, mas a que é ambas é a dor de dente... Para manter seu casamento transbordando de amor, sempre que estiver errado, admita; sempre que estiver certo, cale-se... Pensamento do poeta estaduniodense Ogden Nash (1902-1971). Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

Durante 20 anos, as pessoas me viram como aquela adolescente de 16 anos, louca e rebelde, que não tinha controle sobre o que diziam a seu respeito. Agora, pelo menos podem dizer que ela está com uma ótima aparência e paga seus impostos...

Pensamento da jornalista, escritora e atriz estadunidense Amy Fisher (Amy Elizabeth Fisher), também conhecida como Elizabeth Bellers, a Lolita de Long Island, autora do livro If I Knew Then... (2004) e lançou o filme Amy Fisher: Totally Nude & Exposed (2009). Veja mais aqui.

 

O PODER DE EXISTIR: UM MANIFESTO HEDONISTA - [...] O que um filósofo pode apresentar como prova de si mesmo? A sua vida. Se alguém escreve um livro, mas este não vem acompanhado de uma vida filosófica, não merece o nosso tempo. A sabedoria mede-se nos detalhes: encontra-se naquilo que se diz e no que não se diz, no que se faz e no que não se faz, no que se pensa e no que não se pensa. [...] Neste universo de poderosas redes liberais, construamos utopias concretas, ilhas concebidas como bastiões de Thelema, firmes e reproduzíveis em todos os lugares, em todas as ocasiões e circunstâncias. Jardins epicuristas nômades, construídos a partir de dentro de nós mesmos. [...]. Trechos extraídos da obra La puissance d'exister: Manifeste hedoniste (Le Grand livre du mois, 2006), do filósofo francês Michel Onfray, fundador da Universidade Popular de Caen, com seu pensamento caracterizado pela razão, hedonismo e ateísmo militante. Veja mais aqui & aqui.

 

A CULPA É DAS ESTRELAS - [...] Às vezes, você lê um livro e ele te preenche com um estranho fervor evangelizador, e você se convence de que o mundo despedaçado jamais será reconstruído a menos que todos os seres humanos vivos leiam o livro. [...] Você não escolhe se vai se machucar neste mundo... mas você tem alguma influência sobre quem te machuca. Eu gosto das minhas escolhas. [...] Algumas infinitudes são maiores que outras. [...] As marcas que os humanos deixam são, com muita frequência, cicatrizes. [...] O mundo não é uma fábrica de realizar desejos. [...]. Trechos extraídos da obra The Fault in Our Stars (‎Penguin, 2012), do escritor e vlogger estadunidense John Green (John Michael Green), autor de livros como Paper Towns (2008), An Abundance of Katherines (2006) e Looking for Alaska (2005). Veja mais aqui.

 

SYLVIA PLATH – Entre os poemas do livro Ariel (1965), da poeta estadunidense Sylvia Plath (1932-1963), destaco o poema homônimo, traduzido por Ana Cândida Perez e Ana Cristina César: Estancamento no escuro / E então o fluir azul e insubstancial / De montanha e distância. / Leoa do Senhor como nos unimos / Eixo de calcanhares e joelhos!... O sulco / Afunda e passa, irmão / Do arco tenso /Do pescoço que não consigo dobrar. / Sementes / De olhos negros lançam escuros / Anzóis... / Negro, doce sangue na boca, / Sombra, / Um outro voo / Me arrasta pelo ar... / Coxas, pêlos; / Escamas e calcanhares. / Branca / Godiva, descasco / Mãos mortas, asperezas mortas. / E então / Ondulo como trigo, um brilho de mares. / O grito da criança / Escorre pela parede. / E eu / Sou a flecha, / O orvalho que voa, / Suicida, unido com o impulso /Dentro do olho / Vermelho, caldeirão da manhã. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

FILOSOFIA DA MISÉRIA, DE PIERRE PROUDHON - [...] Ó povo dos trabalhadores, povo deserdado, vexado e proscrito! Povo que é aprisionado, que é julgado e que é morto! Povo ultrajado, povo marcado! Não sabes que mesmo para a paciência, mesmo para a dedicação, há um limite? Não deixar de dar ouvidos a estes oradores do misticismo que te dizem para rezar e esperar, pregando a salvação pela religião ou pelo poder e cuja palavra veemente e sonora te cativa? Teu destino é um enigma que nem a força física, nem a coragem da alma, nem as iluminações e o entusiasmo, nem a exaltação de nenhum sentimento podem resolver. Aqueles que te dizem o contrário enganam-te e seus discursos servem apenas para retardar a hora de tua liberação, que está prestes a soar. O que são o entusiasmo e o sentimento, o que é uma poesia vã diante da necessidade? Para vencer a necessidade há apenas a necessidade, razão última da natureza, pura essência da matéria e do espírito. Assim, a contradição do valor, nascida da necessidade do livre arbítrio, deveria ser vencida pela proporcionalidade do valor que é outra necessidade e ambas produzem-no por sua união a liberdade e a inteligência. Mas, para que esta vitória do trabalho inteligente e livre produzisse todas as consequências, seria necessário que a sociedade atravessasse uma longa peripécia de tormentos. Haveria necessidade de que o trabalho, para que aumentasse seu poder, se dividisse; e, pelo fato desta divisão, há necessidade de degradação e empobrecimento do trabalhador.  Haveria a necessidade de que esta divisão primordial se reconstituísse em instrumentos e combinações científicas e necessidade de que, por esta reconstrução, o trabalhador subalternizado perdesse, juntamente com o salário legítimo, até o próprio exercício da indústria que o alimentava. Haveria necessidade de que a concorrência viesse então emancipar a liberdade prestes a perecer; e necessidade de que esta libertação conduzisse a uma vasta eliminação dos trabalhadores. Haveria a necessidade de que o produtor, enobrecido por sua arte como outrora o guerreiro o era por suas armas, erguesse bem alto a sua bandeira, para que a coragem do homem fosse honrada tanto no trabalho quanto na guerra e haveria necessidade de que do privilegiado logo nascesse o proletário. Haveria necessidade de que a sociedade tomasse então sob sua proteção o plebeu vencido, mendigo e sem asilo e necessidade de que esta proteção se convertesse em uma nova série de suplícios. Encontraremos em nosso caminho outras necessidades ainda, que desaparecerão, como as primeiras, sob necessidades maiores, até que por fim chegue a equação geral, a necessidade suprema, o fato triunfador que deve estabelecer para sempre o reino do trabalho. Mas esta solução não pode sair nem de um golpe de mão e nem de uma transação vã. É tão impossível associar o trabalho e o capital quanto produzir sem capital e sem trabalho; é tão impossível criar a igualdade pelo poder quanto suprimir o poder e a igualdade e fazer uma sociedade sem povo e sem polícia.  É preciso, eu repito, que uma fORÇA MAIOR invertesse as fórmulas atuais da sociedade; que seja o TRABALHO do povo e não a sua bravura ou os seus sufrágios quem, por uma combinação científica, legal, imortal e inelutável submeta o capital ao povo e lhe entregue o poder. FILOSOFIA DA MISÉRIA – A obra Sistemas das contradições econômicas ou filosofia da miséria, do filósofo político, economista e anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), trata a respeito de temas como ciências econômicas, oposição do fato e do direito na economia das sociedades, insuficiência das teorias e da crítica, constituição do valor e definição da riqueza, oposição do valor de utilidade e do valor da troca, aplicação da lei da proporcionalidade dos valores, primeira época das evoluções econômicas, a divisão do trabalho, efeitos antagonistas do princípio de divisão, importância dos paliativos, as máquinas, do papel das máquinas na sua relação com a liberdade, origem do capital e do assalariado, preservativos contra a influência desastrosa das máquinas, a concorrência, efeitos subversivos da concorrência e a destruição da liberdade por ela, remédios contra a concorrência, a necessidade do monopólio, desastres no trabalho e perversão nas ideias causadas pelo monopólio, a polícia ou o imposto, antinomia do imposto e consequências desastrosas e inevitáveis do imposto. Veja mais aqui.

REFERÊNCIA
PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistemas das contradições econômicas ou filosofia da miséria. São Paulo: Ícone, 2003.


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