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domingo, janeiro 09, 2022

MAURICIO ROSENCOF, MONIKA LUNIAK, MICHAEL PALMER & GENINHA ROSA BORGES

 

 

TRÍPTICO DQP – Diário da memória... - Ao som dos álbuns Open Source (2020), Fullblast (2009) e No Gravity (2005), do compositor e multi-instrumentista Kiko Loureiro. – Um dia noutro como se o futuro fosse o presente que insistia no passado. Não mais ontem, chega! Agora arrombava inclemente com o que os alienômanos insistem em manter de suas platitudes, mimetizam o que ouso, emulam o que detesto. Se o tom distópico é mais que sinfonia inaudível, meus olhos sabem o que não viram. De resto um voo sem águia por companhia, pés nas folhas e o aroma da infância era eu menino da beira do rio, rompendo o que restava de ínvia mata feito aquela pequenina Maelys que se deparou com a nudez pálida de Brune Renault, dada pelo Cadavre exquis (2012) da Léa Mysius. Ali fiquei a vê-la desacordada entre juncos, como se fosse esperança de quem se realiza no destaque pros olhos do paraíso. Cuidei dela por horas, na verdade fui mais buliçoso que providente, até arrastá-la ao abrigo inventado da minha solidão de nunca mais voltar para casa. Estendida na cama improvisada cultuei como se morta não estivesse. Sim, aquela pele era tudo dos seus despojos acaso eu pudesse renascê-la do meu íntimo de sonhos pouco prováveis. Foram dois dias até mexer as pálpebras e me achar mais desamparado, como se espantasse com minha companhia jamais vista. Aos poucos recobrou os sentidos e revitalizada disse-me buscar os faróis da alma de RuPaul que nunca soubera e que vicejou porque podia ser Béatrice Lourmel, a tenente da Transferts (2017). Viu-me os olhos perdidos e me disse John Green reticente: Meus pensamentos são estrelas que eu não consigo arrumar em constelações... A verdade resiste à simplicidade. O que fazer diante daquilo era o que mais me chamava atenção e adormeci entre seus braços e seios, não previa reencontro nem quando.

 


A viúva inominada... - Imagem: arte da pintora polonesa Monika Luniak. - Não, era outra e sequer sabia a razão pela qual revia depois de décadas insones e anos perdidos, aquela viúva cujo nome não poderia ser dito nem lembrado. Estava coberta por um véu que recaía da cabeça ao peito, deixando à mostra apenas os lábios aliciadores e parte da face desmaiada. Enviou uma mensagem distante por um pombo-correio porque se aproximava o Carnaval do Arlequim de Miró e eu era o seu convidado. Nem bem o abraço ardente, alisou minhas faces, deu-me as costas e saiu com um aviso de espera. Logo revia Bagoas a me saudar com a notícia da blitzkrieg no Império Bizantino: Ah, apronte-se que vamos pro Cabaré Voltaire! Hem? Era tudo muito desconexo, aliás, como a vida sempre foi em mim: um quarto escuro. A lembrança era a voz dela ao meu ouvido. Vi-a chegar do inopinado: o Violino d’Ingres: ela como se fosse a minha Kiki do eu Ray. Levou-me nua a passear pelo adro do grande pátio das Murtas, na arquitetura de sonhos do palácio Jenna el-Arif que nunca vira antes, e percorremos o estreito onde jorram jatos de água até atravessar a sala da Bênção, a das Duas Irmãs, para chegar na dos Segredos com suas alcovas e banheiras de mármore. Levou-me até o gineceu onde escravas aguardavam-na para o hammam. Dispensou todas, exceto o eunuco que a encaminhou à terma privada. Sentou-se sobre um banco de mármore para sauna e o serviçal untou seu corpo com ocra esfregada para depois enxaguá-la com massagem. Encerrando o ritual enrolou-a numa toalha de esponja cor de romã e a fez repousar. Tudo assistia. O emasculado piscou um olho: Aprenda. Deu-lhe hidromel e depois poliu seus dentes com pedra-pome, com a oferta de uma mistura de nácar, casca de ovos e carvão moído. Mascava bételes e viu-me ali desconfortável. Sorriu-me enquanto cochichava algo ao ouvido do escravo e saiu com um adeusinho na ponta dos dedos. Ele atravessou comigo corredores que deram num amplo salão. Lá estavam várias pessoas estranhas. O poeta Abu Nuwas que disse cheio de graça: Menos de cinco é a solidão; mais de cinco, é o bazar! Todos riram. E fui convocado à festança enquanto o semíviro me confidenciava ser ele o seu amante, advertindo que seria jamais de bom tom servir juntar duas iguarias que não combinassem, demonstrando ser um excelente conhecedor tanto da exegese corânica como da arte culinária, lançando-se em uma longa e brilhante dissertação gastronômica. Apenas foi interrompido pela muito simpática poeta Zamab que falava doutro, o Al-Shereshi: A morte apodera-se de todos. O luto é mais triste que a brancura dos cabelos. Viu-me e sorriu. Depois ela recitou poemas sobre sexo e vinho, e contou de uma sessão do hammam que foi a mais dura prova de sua vida: Se eu soubesse antes o que me iriam fazer passar, eu teria sem dúvida renunciado ao casamento. E contou sua desdita. Todos riram e ela recitou O colar da pomba e a triste sina de Ibn Hazm. Houve quem mencionasse sobre a caminhada aviltante, e ouviu por resposta que só se salva da Lei de Talião nos Lupanares de Andaluzia. Gargalhadas de todos quando apareceu alguém que soou como interdito. Apenas sei que era abstêmio e ofereceram-lhe uma bebida com a indicação no rótulo: Suco de frutas, Lojas de Ishaq al-Wasoto. Serviu-se e sentou-se com empolgação, agarrando a garrafa e virando copos, um atrás do outro, alegando sede dumas três garrafas. Assim dispuseram e dali a pouco o estranho desmoronou completamente embriagado. Quem? Silêncio total. Arrastaram-no não sei para onde. Fiquei só, avalie.

 


Lição de sobrevivente – Imagem: gravura do artista visual sul-africano William Kentridge. – Que dia era, se sexta ou sábado, só sei que revi aquela sonhada com seus cabelos acobreados e unhas brilhantes, como se chegasse na liteira para me surpreender alta madrugada, tal Giselle Beiguelman a me falar do egoscópio e sua poétrica, como das retóricas visuais e biopolíticas do mundo covídico. Não tinha eu mais que o horror de saber qual seria o meu verso se a formiga sequer precisava do viés moral nem nunca distinguiu o carvão do diamante, nem decifrou o círculo de Giotto, ou do Ensō, muito menos da autobiografia dos versos de Michael Palmer: Às vezes temos que bater no fundo antes de descobrir a vida. Nunca compare o seu interior com outra pessoa do lado de fora. A presença dela era magnífica em todos os sentidos, meus órgãos festejavam e nem cabia em mim mesmo, já dela e para ela. Foi preciso que uma semana ou mais dias, não sei, para ter a dimensão da posse dela sobre mim. Se ouvisse Douglas Adams saberia: Não acredite em nada que você lê na rede. Exceto isto. Bem, incluindo isso, suponho. Resumindo: É um fato bem conhecido que todos que querem governar as outras pessoas são, por isso mesmo, os menos indicados para isso. E não discernia de nada, se tivesse saída ou reconhecesse um novo renascimento, nada impossível. Só que ela chegou como se fosse Geninha da Rosa Borges: nascedouro e permanência. Era nela que eu revivia o que mais desejava, não fosse a ausência quase suicida. Onde? Deu-me uns versos de Mauricio Rosencof: se este fosse meu último / poema, / insubmisso e triste, / roído mas inteiro, / uma única palavra escreveria: / companheiro. E tal como ele diria: Eu sou os que foram. E se nos perdemos mais de uma vez, a festa não era só o reencontro: era dela a alma. Foi aí que enfrentei meus monstros e o abismo outra vez na ampulheta do peito vazio, legado de xexéu escasso porque a flurona roubou a eudaimonia e o diploma – o pergaminho da superstição popular de Lima Barreto, que deu para mim o mesmo triste fim de Policarpo: Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. E essa mudança, não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Cada um agora está mais vivo que antes, apesar de tudo. Nada mais. Vidaviva, vivavida. Até mais ver.

 

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quarta-feira, fevereiro 17, 2016

SYLVIA PLATH, ONFRAY, OGDEN NASH, GREEN, PROUDHON, FISHER & LITERÓTICA

 


O MILAGRE DELA, KAREN, KARA ZOR-L... – Absorto com as minhas escrevinhações, nem percebia o que se passava ao meu redor. Levantei-me, estirei os braços, estiqueis as pernas e, só ao passar para um café pequeno, esbarrei em alguém, desculpei-me pelo inadvertido e ouvi uma voz melodiosa me dizer: Nada, tudo bem. E voltei desajeitado para a mesa e o trabalho. Dali a pouco ouvi a mesma voz: Posso? Levantei as vistas e, só então, pude aquilatar aquela monumental emanação solícita. Claro! Sentou-se. Prazer, Karen Starr. Retribuí atarantado a gentileza, apresentando-me. Apertamos as mãos. Você é escritor? Tento. E conversamos preliminarmente amenidades por um longo tempo, seu olhar me fisgava hipnotizado entre sins e nãos, curiosidades, trocas. O ambiente seguia, entrava e saía gente, outras mesas ocupavam-se, ou desocupavam, conforme o tempo passava. Qual a sua história? Ainda concatenando. E demonstrou curiosidade pelos detalhes, ao que levei muito tempo para poder organizar as ideias, puxar assunto, esticar conversa e, depois de muita reviravolta, finalmente disse-lhe tratar-se mesmo de exercício diário. Mesmo? Sim, tentativas. Está sempre escrevendo? Sim, tentando. Tenho um local que seria ideal pra isso, quer ver? Adoraria. Então, vamos. Levantou-se e esperou que arrumasse as coisas, coloquei tudo dentro do bisaco e segui-a. Nossa, uma surpresa atrás da outra. Era bela, como se saísse da capa de revistas e, pelo jeito, poderosíssima, diante das minhas fraquezas. Estava abestalhado com aquela beleza magistral, olhos altivos, boca sublime, voz encantadora, coisa de quem pra lá de ágil, super-humana, o colante branco ocupando minhas vistas com sua fascinante proeminência escultural, suas formas generosas, o exuberante decote nos faustos seios, suas abundantes coxas descobertas, o cinto vermelho no realce das ancas formosas, a magia do seu encanto. Não havia como ser de outro jeito. Já na calçada vi-a estender um braço e trazer um táxi, aboletamo-nos no banco de trás e ouvi dizer um destino por mim ignorando. Enquanto singrávamos o trânsito comentávamos a loucura do tráfego, as últimas notícias e, incisivamente, mencionou a curiosidade por desvendar os motes das minhas escritas. Fiz uma explanação longa e cheia de idas e vindas, no meio das quais me perdia diante do seu olhar afetuoso e atento. Finalmente chegamos em um lugar, no qual mandou para o motorista parar e descemos. Graças, já não tinha lá mais muito o que enrolar. Diante dum portão enorme entre muros altos e amplos, ela passou a chave, abriu-me e passamos para o interior de um sítio arborizado, uma casa suntuosa no meio de muitas calçadas transitáveis. Uma matilha alvoroçada festejou a sua chegada e ela, cuidadosamente, me levou entre os cães festivos até os degraus do recinto, determinando a cainçalha ali parasse obediente: Quietos! Cruzamos a porta de uma sala enorme, cheia de artes e artefatos antigos, nos aguardava. Abriu as janelas e me dispôs uma longa mesa: Este o meu lugar de repouso. Fiquei maravilhado. Venha. E subimos uma escada encimentada e nos deparamos com uma dependência verdadeiramente equipada, um estúdio de criação: muitos livros pelas estantes, escrivaninha, pranchas, lupas, maquinário sofisticado, espaço e tudo para escrever diante do ar livre com a sombra dos arvoredos. O que achou? Nossa, nada mais aprazível! Serve pra você? Lisonjeado. Ótimo. Quer beber algo? Cerveja, se possível. Temos uísque, vinho, cerveja, o que quiser. Cerveja. Era tudo encantamento, deslumbrado. E sentamos à mesa da sala e ela começou a me entrevistar informalmente. Conversa vai e vem, confissões, depoimentos, risos, comoções. A hora avançava e mais que acordados pabulávamos madrugada adentro. Eis que o sono nos pegou, mas insistíamos em manter o papo, ela levantou-se e não voltou mais. Cochilei e a procurei pelos cômodos, não havia mais ninguém ali, os quartos e, num deles, lá estava estonteantemente debruçada sobre uma cama larga, sono profundo. Havia espaço e um travesseiro ao lado. Tirei os sapatos e, vestido como estava, deitei-me encolhido. Despertei com suas mãos escorrendo pela minha pele, aos alisados: estava nu sob o lençol. Senti seu ofuscante beijo em meus lábios, faces e queixo; seu corpo deslizava nu sobre o meu. Beijou-me os ombros, o tórax, um mimo com o nariz no meu umbigo, ósculos amáveis no meu ventre e meu sexo enrijecido esfregando-se ao seu pescoço, face e seus lábios envolveram meigamente a glande, a felação vigorosamente afável, levando-me aos píncaros da glória. Vencia-me e me apossei de seus sedosos cabelos, agarrando-a às carícias, virou-se de costas, domada, seu corpo no meu, levei-a pro lado e espragatou-se estirada provocante e montei-a, suas pernas abriram-me o caminho de suas nádegas eminentes, escancarando-se de 4, égua no cio e o trotado a explorar suas costas trazidas ao meu peito, minhas mãos tomando-lhe os auspiciosos seios pelas cavalgadas oníricas, suspiros, gemidos, galgando sua deidade tributária de todas as minhas posses, transpondo todos os limites de sua compleição, na plenitude de tê-la extasiante além do que sou e nela milênios de prazer. Veja mais abaixo & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

A vida começa no final da sua zona de conforto... Você só é jovem uma vez, mas pode permanecer imaturo indefinidamente... Algumas dores são físicas e outras são mentais, mas a que é ambas é a dor de dente... Para manter seu casamento transbordando de amor, sempre que estiver errado, admita; sempre que estiver certo, cale-se... Pensamento do poeta estaduniodense Ogden Nash (1902-1971). Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

Durante 20 anos, as pessoas me viram como aquela adolescente de 16 anos, louca e rebelde, que não tinha controle sobre o que diziam a seu respeito. Agora, pelo menos podem dizer que ela está com uma ótima aparência e paga seus impostos...

Pensamento da jornalista, escritora e atriz estadunidense Amy Fisher (Amy Elizabeth Fisher), também conhecida como Elizabeth Bellers, a Lolita de Long Island, autora do livro If I Knew Then... (2004) e lançou o filme Amy Fisher: Totally Nude & Exposed (2009). Veja mais aqui.

 

O PODER DE EXISTIR: UM MANIFESTO HEDONISTA - [...] O que um filósofo pode apresentar como prova de si mesmo? A sua vida. Se alguém escreve um livro, mas este não vem acompanhado de uma vida filosófica, não merece o nosso tempo. A sabedoria mede-se nos detalhes: encontra-se naquilo que se diz e no que não se diz, no que se faz e no que não se faz, no que se pensa e no que não se pensa. [...] Neste universo de poderosas redes liberais, construamos utopias concretas, ilhas concebidas como bastiões de Thelema, firmes e reproduzíveis em todos os lugares, em todas as ocasiões e circunstâncias. Jardins epicuristas nômades, construídos a partir de dentro de nós mesmos. [...]. Trechos extraídos da obra La puissance d'exister: Manifeste hedoniste (Le Grand livre du mois, 2006), do filósofo francês Michel Onfray, fundador da Universidade Popular de Caen, com seu pensamento caracterizado pela razão, hedonismo e ateísmo militante. Veja mais aqui & aqui.

 

A CULPA É DAS ESTRELAS - [...] Às vezes, você lê um livro e ele te preenche com um estranho fervor evangelizador, e você se convence de que o mundo despedaçado jamais será reconstruído a menos que todos os seres humanos vivos leiam o livro. [...] Você não escolhe se vai se machucar neste mundo... mas você tem alguma influência sobre quem te machuca. Eu gosto das minhas escolhas. [...] Algumas infinitudes são maiores que outras. [...] As marcas que os humanos deixam são, com muita frequência, cicatrizes. [...] O mundo não é uma fábrica de realizar desejos. [...]. Trechos extraídos da obra The Fault in Our Stars (‎Penguin, 2012), do escritor e vlogger estadunidense John Green (John Michael Green), autor de livros como Paper Towns (2008), An Abundance of Katherines (2006) e Looking for Alaska (2005). Veja mais aqui.

 

SYLVIA PLATH – Entre os poemas do livro Ariel (1965), da poeta estadunidense Sylvia Plath (1932-1963), destaco o poema homônimo, traduzido por Ana Cândida Perez e Ana Cristina César: Estancamento no escuro / E então o fluir azul e insubstancial / De montanha e distância. / Leoa do Senhor como nos unimos / Eixo de calcanhares e joelhos!... O sulco / Afunda e passa, irmão / Do arco tenso /Do pescoço que não consigo dobrar. / Sementes / De olhos negros lançam escuros / Anzóis... / Negro, doce sangue na boca, / Sombra, / Um outro voo / Me arrasta pelo ar... / Coxas, pêlos; / Escamas e calcanhares. / Branca / Godiva, descasco / Mãos mortas, asperezas mortas. / E então / Ondulo como trigo, um brilho de mares. / O grito da criança / Escorre pela parede. / E eu / Sou a flecha, / O orvalho que voa, / Suicida, unido com o impulso /Dentro do olho / Vermelho, caldeirão da manhã. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

FILOSOFIA DA MISÉRIA, DE PIERRE PROUDHON - [...] Ó povo dos trabalhadores, povo deserdado, vexado e proscrito! Povo que é aprisionado, que é julgado e que é morto! Povo ultrajado, povo marcado! Não sabes que mesmo para a paciência, mesmo para a dedicação, há um limite? Não deixar de dar ouvidos a estes oradores do misticismo que te dizem para rezar e esperar, pregando a salvação pela religião ou pelo poder e cuja palavra veemente e sonora te cativa? Teu destino é um enigma que nem a força física, nem a coragem da alma, nem as iluminações e o entusiasmo, nem a exaltação de nenhum sentimento podem resolver. Aqueles que te dizem o contrário enganam-te e seus discursos servem apenas para retardar a hora de tua liberação, que está prestes a soar. O que são o entusiasmo e o sentimento, o que é uma poesia vã diante da necessidade? Para vencer a necessidade há apenas a necessidade, razão última da natureza, pura essência da matéria e do espírito. Assim, a contradição do valor, nascida da necessidade do livre arbítrio, deveria ser vencida pela proporcionalidade do valor que é outra necessidade e ambas produzem-no por sua união a liberdade e a inteligência. Mas, para que esta vitória do trabalho inteligente e livre produzisse todas as consequências, seria necessário que a sociedade atravessasse uma longa peripécia de tormentos. Haveria necessidade de que o trabalho, para que aumentasse seu poder, se dividisse; e, pelo fato desta divisão, há necessidade de degradação e empobrecimento do trabalhador.  Haveria a necessidade de que esta divisão primordial se reconstituísse em instrumentos e combinações científicas e necessidade de que, por esta reconstrução, o trabalhador subalternizado perdesse, juntamente com o salário legítimo, até o próprio exercício da indústria que o alimentava. Haveria necessidade de que a concorrência viesse então emancipar a liberdade prestes a perecer; e necessidade de que esta libertação conduzisse a uma vasta eliminação dos trabalhadores. Haveria a necessidade de que o produtor, enobrecido por sua arte como outrora o guerreiro o era por suas armas, erguesse bem alto a sua bandeira, para que a coragem do homem fosse honrada tanto no trabalho quanto na guerra e haveria necessidade de que do privilegiado logo nascesse o proletário. Haveria necessidade de que a sociedade tomasse então sob sua proteção o plebeu vencido, mendigo e sem asilo e necessidade de que esta proteção se convertesse em uma nova série de suplícios. Encontraremos em nosso caminho outras necessidades ainda, que desaparecerão, como as primeiras, sob necessidades maiores, até que por fim chegue a equação geral, a necessidade suprema, o fato triunfador que deve estabelecer para sempre o reino do trabalho. Mas esta solução não pode sair nem de um golpe de mão e nem de uma transação vã. É tão impossível associar o trabalho e o capital quanto produzir sem capital e sem trabalho; é tão impossível criar a igualdade pelo poder quanto suprimir o poder e a igualdade e fazer uma sociedade sem povo e sem polícia.  É preciso, eu repito, que uma fORÇA MAIOR invertesse as fórmulas atuais da sociedade; que seja o TRABALHO do povo e não a sua bravura ou os seus sufrágios quem, por uma combinação científica, legal, imortal e inelutável submeta o capital ao povo e lhe entregue o poder. FILOSOFIA DA MISÉRIA – A obra Sistemas das contradições econômicas ou filosofia da miséria, do filósofo político, economista e anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), trata a respeito de temas como ciências econômicas, oposição do fato e do direito na economia das sociedades, insuficiência das teorias e da crítica, constituição do valor e definição da riqueza, oposição do valor de utilidade e do valor da troca, aplicação da lei da proporcionalidade dos valores, primeira época das evoluções econômicas, a divisão do trabalho, efeitos antagonistas do princípio de divisão, importância dos paliativos, as máquinas, do papel das máquinas na sua relação com a liberdade, origem do capital e do assalariado, preservativos contra a influência desastrosa das máquinas, a concorrência, efeitos subversivos da concorrência e a destruição da liberdade por ela, remédios contra a concorrência, a necessidade do monopólio, desastres no trabalho e perversão nas ideias causadas pelo monopólio, a polícia ou o imposto, antinomia do imposto e consequências desastrosas e inevitáveis do imposto. Veja mais aqui.

REFERÊNCIA
PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistemas das contradições econômicas ou filosofia da miséria. São Paulo: Ícone, 2003.


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