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sábado, agosto 08, 2026

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Fábula hodierna... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascínio por Pandora que se assanhava toda por Epimeteu que paquerava Io que sonhava com o primeiro. O vértice do quarteto oscilava circulante, quem o alvo virava e o outro alheio girava a roda viva vagava e demorou pra dar certo a dança do amor. Não foi bem assim, mais ou menos, o resumo da ópera. Os irmãos eram ferreiros empregados na oficina do poderoso tirano Barão. E pelo façanhoso labor, eles conquistaram tanto a estima do déspota, como da população sempre agraciada por ações levadas e tidas por heroicas. As irmãs órfãs de mães diferentes carregavam o materno luto de terem sido ceifadas misteriosamente, suspeitando-se remoção de óbices diante das ameaças que representavam para o próprio desumano Barão. Nem se conheciam direito: uma fugiu quando a outra ainda crescia. Por conta da situação de abandono das meninas, elas foram providentemente apadrinhadas pelo influente, deixando-as no convívio da distinta Baronesa Puxencolhe, um álibi, afastava qualquer suspeita. Até aí, tudo bem. A mais velha, Io, ao debutar ganhou uma festa dionisíaca, Beltane – um carnaval fora de época e sem data fixa em Alagoinhanduba, realizada conforme a veneta do autocrata, no qual premiava homenageados, anunciava decisões e benfeitorias, condenava desafetos (quem caísse na antipatia de suas raivosas psicoses era introduzido num manequim de vime, o famoso crematório e saudava queimadas), às brasas escaldantes, aos ruídos atroadores do corifeu aeropagita dos horríveis rituais dos Bitus com todos os Sibitos, Rebitos & outros Priquitos animando a função estrambólica, entoando solfejos regados a urros, espasmos, tosses, esturros, estaladas de língua, peidos, arrotos, sovacadas, toc toc, marcação de pés nas pisadas e fricção dos instrumentos inusitados e fumegantes: Vamos tocar fogo! Foda-se! O evento infernal era colorido com a dança das parcas, das fúrias, das ninfas e das harpias. As erínias atiçavam os esponsais levados pelas eumênides, as moiras conduziam a maratona das lampadofórias, as górgonas abriam as narrativas de Hesíodo, os espetáculos de Ésquilo encenando a titanomaquia e o confronto olímpico, os louvores do centauro Quirão, os plangentes e denunciadores ditirambos de Frínico, e o povo ouriçado com as atrações de suas ordálias, Panem et circenses, tudo presidido pelo convidado juiz, o eminente famigerado doutor Teje-preso, gestor das pendengas. Era o maior regabofe e os dois acoloiados combinavam: Qual o crime deste? Não fui com a cara. Sacrifiquem! Em polvorosa, a multidão embriagava-se com o festival de horrores. Posso sacrificar todos? Deve! E enquanto o juiz sentenciava, o Barão dava uma escapulida, livrando-se da vigilância ciumenta da consorte e, às escondidas, encontrava Io na penumbra, prometendo-lhe presente desejado, pelo qual ela se viu ultrajada, maculada pelo asqueroso abuso, condenada a ser perseguida e tão marcada de jamais esquecer em toda sua vida de fugitiva eterna. A mais nova, Pandora, também de mãe apedrejada por suposta ordem do próprio Barão, tornara-se a queridinha da madrinha. Ao debutar, os olhos do usurpador caíram sobre sua graça, malogrando a cada investida. E ao flagrá-la receptiva com um sujeito desconhecido, logo interviu: Ah, minha afilhada preferida! Ô padrinho. Quem é esse? Sou, Epimeteu, seu servil, majestade. Ah, tenho que lhe premiar pelos bons serviços; por isso, você terá a mão dessa minha protegida e a cerimônia será amanhã na abertura dos festejos de Beltane, meus presentes de núpcias! Epimeteu não cabia em si e logo correu para dar as boas novas ao irmão, Prometeu: Cuidado, nunca aceite presentes do Barão, são de grego, todos. Está com ciúmes, você tem uma caidinha pela Pandora! Não é isso. Quase se estranharam às ofensas, mas deixaram pra lá, porque logo amanheceria e era o dia da festa. Feliz Epimeteu dava tudo que tinha até ficar de mãos vazias, o coração inchado de amor. No final da tarde, ele lá, os esponsais foram convocados ao tablado nobre, o juiz os declarou marido e mulher por força da sua lei, e o Barão os presenteou: para ele, uma salamandra de fogo – Que coisa mais bonitinha! E, pra ela: um jarro hermético para sacralizar o matrimônio eterno e que nunca deveria ser aberto. Quando os dois felicitaram os presentes aos beijos, o Barão cobrou: A jus primae noctis. Hum? Desconsolados, depois dessa noite o casal perdeu paz. Foi durante o cerimonial que o Barão já refeito de sua arrogância flagrou a aproximação de Prometeu e Io e partiu para desavença. Estava furioso porque Prometeu desconfiava do seu fatum e tinha caído nas graças de todos dando com a língua nos dentes, a ponto de ser mais bem quisto que o próprio absolutista, o que seria um desagravo funesto, e, ainda por cima, Io era desertora: Aquela vaca me paga! E veio o traiçoeiro golpe: Hefesto aprisionou Prometeu no rochedo do Cáucaso, lá no monte Etna na inóspita Cítia, estraçalhando aos poucos seu fígado de herói decaído, enquanto Argos Panoptes vigiava com seus 100 olhos, e assumia a paternidade da prisioneira sacerdotisa Io, martirizando-a num cativeiro com o ataque de insetos picantes. Foi preciso a intervenção de Heracles na agonia dos vitimados e fuga dos casais pelo Bósforo, Ilíria, Trácia, Micenas, Eubeia, Síria afora até sumirem para lugar incerto e não sabido e serem esquecidos pela fúria do ditador. Anos se passaram e no apogeu doutra festa, fez-se escuridão: Pandora abriu o jarro. Curiosa: será o fim do mundo? O diabo veio cobrar a conta. A praga e a revolta da pilombeta, a escuridão contaminava, atormentados pelo beijo homicida do amor letal. O tempo passa rápido e o esquecimento, a vida muda muito, as histórias ficam. Até mais ver.

 

Martha Nussbaum: Ao contarmos histórias sobre a vida de outros, aprendemos a imaginar o que outra criatura poderia sentir em resposta a diversos acontecimentos. Ao mesmo tempo, identificamo-nos com essa outra criatura e aprendemos algo sobre nós mesmos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Charles Bukowski: Todos nós vamos morrer, todos nós — que circo! Só isso deveria nos fazer amar uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados por trivialidades; somos consumidos pelo nada... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Fernando Arrabal: À luz da questão chamei imagens/fantasmas - o que estava vendo e me senti apaixonado pelo resultado final... Turbulência mais uma vez me cercou tanto que eu poderia ter algumas utopias... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Se te pareço noturna e imperfeita \ Olha-me de novo. Porque esta noite \ Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. \ E era como se a água \ Desejasse \ Escapar de sua casa que é o rio \ E deslizando apenas, nem tocar a margem. \ Te olhei. E há tanto tempo \ Entendo que sou terra. Há tanto tempo \ Espero \ Que o teu corpo de água mais fraterno \ Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta \ Olha-me de novo. Com menos altivez. \ E mais atento.

Poema extraído da obra Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), da escritora e dramaturga Hilda Hilst (Hilda de Almeida Prado Hilst – 1930-2004), destacando em sua lírica o amado e a amada, dos quais nasce o encontro e as expectativas direcionadas um ao outro. Veja mais aqui.

 

MOMENTO CERTO - […] A beleza da escrita é que você compete consigo mesmo, não com outra pessoa. [...] A inveja é algo muito feio e muito perigoso. Você precisa se proteger dela todos os dias. [...] Ele queria todos os prêmios e elogios para si, mas não queria trabalhar para conquistá-los. Ela se perguntava quantas pessoas como ele existiam no mundo, invejando os outros pelo que tinham e não podiam... […] A angústia é algo maravilhoso para os escritores e levará você a escrever seus melhores livros. Mas a felicidade o deixará preguiçoso e acomodado. Você se esquecerá de suas prioridades e ficará aí parado, sem fazer nada... [...]. Trechos extraídos da obra The Right Time (Palgrave Macmillan, 2017), da escritora estadunidense Danielle Steel (Danielle Fernandes Dominique Schuelein-Steel), autora de obras tais como: The Duchess (2017), Against All Odds (2017), Steel, Friends Forever (2012), Happy Birthday (2011), The Wedding (1997), The Gift (1994), No Greater Love (1991) e Wanderlust (1986), entre outros.

 

A CIÊNCIA DO TRABALHO COLETIVO - [...] Nossos cérebros produzem 20 watts de potência a qualquer momento. Em todo o mundo, isso representa mais de 155 bilhões de watts de capacidade humana para resolução de problemas, conexão e inovação. Imagine o que poderíamos alcançar se pudéssemos acessar esse poder coletivo? Imagine os projetos que poderíamos realizar, as criações que poderíamos conceber, os problemas que poderíamos resolver, como poderíamos transformar nossos mundos para melhor? Como espécie, nunca nos deparamos com problemas tão complexos ou difíceis quanto os que enfrentamos agora. Recorrendo à neurociência, podemos identificar estratégias que nos permitam reunir nossa capacidade cerebral e desenvolver soluções à altura desses desafios – juntos. [...]. Trecho do ensaio The Science of Collective Working - The interconnected working methods of the future and how we can harness the power of collective intelligence (Selfridges Group, 2023), da neurocientista, escritora, radialista e pesquisadora britânica Hannah Critchlow, que sobre inteligência coletiva e o pensamento de "nós" expressa: […] Quando fazemos a transição do pensamento centrado no 'eu' para o centrado no 'nós', nossa visão de mundo se transforma, nossa imaginação se liberta e cada um de nós é capaz de contribuir com sua perspectiva única para o acervo de inteligência da humanidade. [....] Estamos em um momento crucial de nossa evolução. A abrangência e a complexidade dos problemas que enfrentamos... exigem o engajamento de todas as mentes. Sobre o cérebro, o destino e o livre-arbítrio: As pessoas nascem com um cérebro que molda sua percepção e aquilo que estão biologicamente programadas para considerar gratificante... Nossos cérebros apresentam falhas que levam a suposições e erros... Sobre o cérebro no século XXI e a incerteza: É fundamental encararmos a incerteza e a ambiguidade com uma mentalidade voltada para as possibilidades — em vez de medo ou pessimismo — e enxergarmos oportunidades nessas situações... Embutido em nossos cérebros, existe um mecanismo extraordinário conhecido como plasticidade sináptica.... Ela é autora das obras Consciousness: A Ladybird Expert Book (2018) e The Science of Fate: The New Science of Who We Are - And How to Shape our Best Future (2019) e sua pesquisa acadêmica tem se concentrado em neurociência celular e molecular.

A ARTE DE ONILDO ALMEIDA

[...] Eu costumo dizer que toda cidade tem feira e toda feira é igual. Mas, na verdade, não é. A de Caruaru, quando você procura uma coisa no comércio que não encontra, vai para a feira. É uma feira que tem tudo [...].

Trecho da matéria entrevista da jornalista Cibelle Tenório, Conheça Onildo Almeida, o homem que levou a Feira de Caruaru ao mundo (Agência Brasil, 2025), com o compositor, poeta, músico e radialista Onildo Almeida, que lançou os álbuns A feira de Caruaru nº 2 (1957), Casamento antigo (1957) e Zé Dantas e Vaquejada (1962), autor de mais de 530 canções escritas e gravadas por diversos artistas, com gêneros que vão desde o forró, xaxado e xote, interpretadas por Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros. Veja mais aqui.


 

TUNGA, TUNGANDO A VIDA – Destaque da trajetória do premiado O escultor, desenhista e artista performático Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão – 1952-2016), um dos artistas mais emblemáticos e representativos da arte contemporânea. Trata-se de uma síntese de sua vida, principais obras, prêmios nacionais e internacionais, exposições no Brasil e no mundo. Confira aqui.


O PLANETA & A QUESTÃO AMBIENTAL – Os debates atinentes à temática do planeta e a questão ambiental na contemporaneidade transitam entre as reflexões que incidem sobre crescimento econômico e a sustentabilidade socioambiental, a governança global, as mudanças climáticas e a transição energética, justiça socioambiental e a conservação, a biodiversidade e o desenvolvimento sustentável, notadamente a respeito da sobrevivência humana, o equilíbrio ambiental e as projeções escatológicas de extinção diante ação predatória humana. Nesta postagem reflexões de Lorraine Daston, Alexandria Villaseñor, Tim Marshall, Carlo Rovelli, Caroline Dean, Carolyn Porco, Sophia Kianni, Jamie Margolin, Xiye Bastida, Kaka Werá, entre outros. Veja aqui.


NITOLINO NO VALUNA - Uma historieta infanto-juvenil que marca o início das aventuras do Nitolino, na companhia de Pai Lula & toda trupe Falange, Falanginha, Falangeta, pelo Valuna. O objetivo da turma é chegar na Serra do Quati, local indicado como a nascente do Rio Una. Acompanhe aqui.



 

CONSTISTÓRIA, POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS (Imagem: Acervo ArtLAM) – Da série Colam, uma reunião do meu trabalho autoral, unindo arte visual e musical, por meio de poemagens & versagens construídas com as obras O Livro das Janelas e da Crônica de Amor, com o tema musical Nênia de Abril. Verifique aqui.


AS TRELAS DO DORO (Imagem: arte de Rollandry Silvério) – Reunião das principais presepadas do arteiro Doro, dando conta de suas iniciativas mais extraordinárias, situações mais periclitantes e propósitos malabaristas, ocorridos desde a sua participação no Big Shit Bôbras, no Fecamepa com sua candidatura a presidente e do seu exótico cotidiano na cidade de Alagoinhanduba. Observe aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui & aqui.



 



quarta-feira, outubro 11, 2023

BIRUTĖ MAR, KRISTIN HANNAH, NARGES MOHAMMADI & PARADOXOS AZUIS.

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

O som pode realmente atuar como um gatilho para a memória e, em seguida, trazê-lo de volta a um lugar e hora específicos. Eu queria trazer essas vozes do passado para o presente.

Ao som do premiado We Shall Be All (Prêmio Turner de 2010) e Pledge (2002), instalações sonoras da artista escocesa Susan Philipsz.

 

 

PONTO DE DEBREAGEM, ARS ENVENIEND... - Versos soavam dos meus ossos, poema da carne – quantos pesos e muitas medidas. Nunca fui poeta, apenas vitimado. Sempre enfrentei o perigo da estagnação e do nada, embora imerso numa sufocante estase nada revigorante. Nunca temi a roda do arrependimento, era o sisifismo: os mistérios são muitos menos novidades, simulações apenas, simulacros do inacessível. O que não era poesia nem música o que seria se mexia dentro da gente e parecia outra coisa, laivos do futuro, talvez. Inaugurei o que poderia ser de festa e o olho no dilema: a jornada do herói imigrante condenado à queda, tal qual Bastian da História sem fim de Petersen – da obra de Michael Ende, quando, na verdade, apenas um leitor voraz na trama da Continuidade dos parques de Cortázar: jamais poderia me safar do sórdido, como se coagido pelos estudantes do colégio Marquês de Arapongas. Talvez essa a minha punição de Prometeu, a sanção nas opções de Camus. Optei por me rebelar à doença niilista e o absurdo, a fugir sobrecarregado – era eu na overwhelmed de Valéria Duca... Não me rendi jamais e fui ter com a imperatriz da fantasia, atingido pelo inesperado: lá estava eu dislálico diante de Nora Roberts: Algumas pessoas querem o simples, o banal e o tranquilo. Isso não faz com que as pessoas que querem o complicado, o extraordinário e o emocionante sejam gananciosas ou egoístas. Querer é querer, qualquer que seja o sonho... Apesar de parecer-me sardônica, não era: incentivava meus sonhos. Qual intrigante, e daí? Pessoas vivem, nenhum extremismo nem empolgação, pausas regulares, humor sombrio no julgamento dos outros. Interpelou-me Harriet Hosmer: Palavras são coisas frias e formais... Eu honro toda mulher que tenha força o suficiente para sair do caminho batido quando ela sente que sua caminhada encontra-se em outro... Tanto quis ao menos beletrista em estado de graça, impossível para quem pretenso Macunaíma – sirvo lá pra grande coisa... Disse-me então Mercè Rodoreda: É bom que, antes de escrever, se viva... Sim, as cartas da vida, o que foi abolido e a pedra de toque. Apesar de sempre tropeçar no meu próprio calcanhar dizia sempre me mandassem a bola que resolveria a parada. Era aquele que se achava pronto e toda vez me atrapalhava mãos pelas pernas. Sei, sempre jogaram às minhas costas, quase me convenci ser eu próprio meu inimigo, dei para isso minha ausência. O amor nunca foi fácil porque não será jamais um jogo. Conto meus botões, até mais ver.

 

COLAR DO SILÊNCIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

água pura derramada \ - mas turvo no chão havia gotas - \ algumas - de memória

linda que retorna de viagens distantes \ de cidades desconhecidas sorrindo para si mesmo \ misteriosamente silencioso linda, \ isso só antes da expressão

já está desolado, já amanheceu \ já crepúsculo da manhã \ alguns pensamentos de repente \ alguns pulsos de luz semeando tempo, \ mãos, corpos \ doce perturbação cidade derretendo \ colar do silêncio

de todas as minhas vidas \ Eu me lembro de um outono \ na memória daquele outono \ Eu espio por uma janela ribeirinha \ naquela janela \ Eu vejo um trecho aberto de estrada \ naquela estrada \ Eu encontro uma pegada \ naquela pegada \ Eu construo uma casa naquela casa \ Eu planto minha samambaia de infância \ naquela samambaia \ Eu sonho com uma flor brilhante naquela flor \ Eu vejo uma gota caída naquela gota \ Eu reconheço um rosto velho naquela cara \ - Eu ouço minha própria voz

Poema da atriz e escritora lituana Birutė Mar.

 

O ROUXINOL - […] Se aprendi alguma coisa nesta minha longa vida, é isto: no amor descobrimos quem queremos ser; na guerra descobrimos quem somos. [...] Os homens contam histórias. As mulheres vão em frente. Para nós foi uma guerra sombria. Não houve desfiles para nós quando tudo acabou, nem medalhas ou menções em livros de história. Fizemos o que era necessário durante a guerra e, quando ela acabou, juntamos os cacos e recomeçamos nossas vidas. [...] Mas o amor tem que ser mais forte que o ódio, ou não haverá futuro para nós. [...] As feridas cicatrizam. O amor dura. Nós permanecemos [...] Sempre pensei que era isso que eu queria: ser amada e admirada. Agora acho que talvez eu gostaria de ser conhecido. [...]. Trechos extraídos da obra The Nightingale (11 x 17, 2021), da escritora estadunidense Kristin Hannah.

 

ATIVISMO – Pensamentos e sonhos não morrem. A crença na liberdade e na justiça não perece com a prisão, a tortura ou mesmo a morte e a tirania não prevalece sobre a liberdade. Continuarei os meus esforços até alcançarmos a paz, a tolerância para uma pluralidade de pontos de vista e os direitos humanos. Não estou desesperado nem perdi a motivação. Não podemos parar de tentar. Ainda espero e acredito profundamente que os esforços incansáveis dos nossos ativistas da sociedade civil acabarão por dar frutos. Matar, prender ou negar os direitos de um ser humano não é injustiça contra uma pessoa; ela acorrenta e mata toda uma sociedade. Pensamento da ativista iraniana e Prêmio Nobel da Paz, Narges Mohammadi.

 

PARADOXOS AZUIS

Sobreponha à palavra o abrupto da alma. \ E se livre da ausência de peso \ do verbo abstrato...

Extraído da obra Paradoxos azuis (CriaArt, 2023), do poeta Vital Corrêa de Araújo, organização, seleção e prefácio do poeta e professor Admmauro Gommes. Veja mais aqui e aqui.

 



terça-feira, novembro 03, 2015

BETINHO, ÉSQUILO, HESÍODO, BYINGTON, MORELEMBAUM, ETTY, LUIZ NOGUEIRA, MECA MORENO, HOLÍSTIA & PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DE SEGUNDA PRA TERÇA - Maria não sabe quais seus direitos, José nem o que é cidadania. Sim, pra que instrução? Tudo erra, avalie. Zefinha na esperança de ontens apela com veias no pescoço pro prefeito amainar sua agonia. E espera. Lasqueira de vida. E João, o que dele seria? Nem sinal de vida. Mariazinha, moça vistosa, escorreita, seios túmidos bulindo no vestido a atração que subia das pernas torneadas pelas coxas roliças, guardava na saia o desejo incontido vasculhando no ventre desnudo. Encantou Zé Barão, indomável novo rico cheio de vida nas costas. Machadeiro na cajazeira meteu-se ele, intemperança descontrolada, praquela aquela bela espécie de fêmea, mais uma pro seu álbum de figurinhas, esforço denodado de posse e gamação. Ela, inocente de sempre, deu-lhe correspondência, o idílio pras fofocas, o enleio da fábula, sem saber que em casa Marizete, até então dona de casa exemplar que não leva desaforo de nada, cuidava dos três filhos que lhe dera o marido, coisa de macho que agora, mais uma vez, beirava proutras bandas. Ele enlevado, montou-lhe teúda e manteúda, e o que era fortuito tornou costumeiro. Isso até a noite de plena calmaria em que a esposa sabedora ciosa torna-se bruxa, invade insidiosa o recinto com várias punhaladas insanas do sangue escorrer ladeira abaixo. Mariazinha, ah beauté du diable, agonizava roupão entreaberto, seios à mostra, ventre nu depois do prazer. Tudo abafado, só alucinadas sirenes com a unha riscando no asfalto, a carne arrastada no chão deixando pedaços esmagados na parede no meio de guitarras arranhando agonia de solos desafinando as ferragens que afinam a lâmina da guilhotina pra alimentar o ódio inimigo nos grilhões do bruto concreto onde tudo se gasta virando cascalho. Tudo em ebulição: o arame farpado na pele do braço. Uma caixinha de surpresas. Esse o vaivém dos que resistem agarrando os dejetos das atribulações que perduram pros soluços e gritos por salvação. Enquanto isso, do outro lado da cidade tem um posto de saúde que nem fila tem e ninguém sabe. O daqui não tem médico presse mês, só pro ano que vem. Quem tem dor de dente morre três dias pra poder vê-la passar. E quem não tem saúde pra esperar? A condução demora cada vez mais e sempre mais cheia como velhinho na fila da aposentadoria. E Nelson sonha com a moradia, será dessa vez? Ah, o prêmio da loteria e Pedro continua penseiro e Joaquim quer colocação, concluiu o Ensino Médio e aprendeu que despejo é uma ação. Conceição não sabe o que é justiça, só que tem juiz pra tudo sem que faça nada por ela. Pesarosos, se atiram nas águas revoltas da vida, querem é viver em estado de graça. Inaptos, ineptos. Assim o presente com voracidade e pra quem tem teorias nem sempre sabe a verdade: a realidade é outra, ruptura, instabilidade. Tem que dá um passo adiante. Pra onde? Ah, é tudo novidade e não tem fórmulas prontas de arroz e feijão, quantas mudanças e nada é tal qual: muitas variáveis no contexto. Quantas queixas e tudo na base do balão de ensaio. Se é árduo, é difícil, dilúvios que surgem do passado, questionamentos, reformulações. Ah, incompletude, santa inconclusão. Ninguém sabe o que fazer. E se espera por ordem e regularidade, como se situações heterogêneas dessem por caber em solução homogênea: volume maior que invólucro. Impacto do desafio: quantas perguntas, quê responder? Interações humanas, coisas que vão e que vem. Por vezes já perdi a conta, estado de coisas que nem sei mais contar na expectativa de um novo dia. Tudo passa no fluxo da vida e da morte. E vamos aprumar a conversa aqui.


Imagem: Female nude, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849).


Curtindo o álbum CelloSam3atrio - Saudade do Futuro, Futuro da Saudade (Biscoito Fino, 2014), do violoncelista, arranjador, maestro, produtor musical e compositor Jaques Morelenbaum.

CIÊNCIA SIMBÓLICA – No livro O novo paradigma holístico: ciência, filosofia, arte e mística (Summus, 1991), organizado por Dênis M. S. Brandão e Roberto Crema, encontro o artigo escrito pelo médico psiquiatra, conferencista e analista Carlos Byington, do qual destaco os trechos: [...] Grande parte do desenvolvimento das ciências no Ocidente, porém, se fez seguindo um caminho característico. Principalmente a partir do século XVIII, a polaridade sujeito-objeto foi considerada de modo específico para se afastar o componente subjetivo da interrelação dos fenômenos entre si. Isto foi feito tanto nas chamadas ciências da natureza quanto nas ciências humanas. [...] Acumulou-se assim um enorme saber sobre a natureza, lado a lado com um mínimo de conhecimento sobre a subjetividade. É comum encontrar-se um currículo de dezoito anos de estudo (que culminou num diploma universitário), durante o qual não foi estudado, durante um semestre sequer, a formação e o desenvolvimento da consciência. Um engenheiro pode se especializar por mais de dez anos, sem nunca aprender os padrões arquetípicos que regem o pensamento. Antropólogos, sociólogos e cientistas políticos podem chegar ao mestrado ou ao doutoramento após vinte e cinco anos de estudo (dezoito de graduação, três de mestrado e quatro de doutorado) sem saber o que significa a estruturação da consciência através de símbolos a partir de relações indiferenciadas. Um médico pode se tornar professor titular de anatomia, fisiologia ou clínica médica sem ter a menor noção do que é o corpo simbólico e sua função na estruturação normal da consciência, na formação de sintomas e na relação médico-paciente. No entanto, todos esses especialistas trabalham convencidos de que sabem como é o ser humano. Os resultados produtivos deste caminho estão aí, inegáveis na imensa aquisição do conhecimento expresso, entre outras coisas, pela tecnologia moderna. Este imenso acúmulo de saber ocorre, porem, com frequência, indiferente ao destino humano: fome e miséria em mais da metade do mundo, devastação e desequilíbrio ecológico em larga escala, uso alienante progressivo de psicotrópicos, envenenamento alimentar com pesticidas e corrida armamentista mundial com potencial genocida aterrador. À volta e no centro desta alienação humanista e holística, distinguimos a ignorância defensiva e orgulhosa sobre como se forma e d desenvolve a consciência humana, a principal reguladora do saber e da conduta. [...] A dissociação subjetivo-objetivo no Ocidente não só paralisou somente a integração da industrialização e do desenvolvimento científico-tecnológico num todo humano. Ao centralizar a problemática politico-social no regime econômico, esta dissociação impede ideologicamente a busca do regime social-democrático, mesmo quando a ela se dedica. Ao bloquear, através da formação universitária, a vivência cultural quaternária do conhecimento objetivo e da própria vida, a dissociação subjetivo-objetivo impede a vivência simbólica plena da alteridade, condição essencial para a prática da consciência cósmica. Isso nos mutila a sabedoria em vida e nos impede o preparo para a morte. Como na lenda do holandês errante de Wagner, vagamos pelo desconhecido, condenados por nosso próprio orgulho a não saber morrer. Ao descobrir a energia atômica, chegamos à posse do fogo mais íntimo da matéria. Incapazes de integrar tamanho segredo de forma construtiva na psique individual e coletiva, jazemos, como Prometeu, acorrentados na onipotência de nossa objetividade dissociada. Enquanto somos devorados pela culpa das consequências crescentes de nossa insanidade, buscamos, ainda no escuro, a integração holística da genialidade cientifica dissociada, cuja vinda se confunde cada vez mais com a esperança da sobrevivência de nossa espécie. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A DE OLHOS AZUIS – No livro Do sertão ao litoral (Catavento/Casa do Penedo, 2001), reunindo contos, crônicas e ensaios do escritor e médico pediatra alagoano Luiz Nogueira, encontro a crônica A de olhos azuis: Riacho Doce: Bar do Doquinha, num domingo de muito sol! Conversávamos, eu e alguns amigos. Os mais afoitos tomavam caipirinhas. Outros preferiam cerveja. Paras de carangueijo, sururu, peixe frito e ostras com limão chegavam, aos poucos, trazidos pelas mãos da garçonete. Quem a examinasse, com cuidado, haveria de ver a marca de um trabalho desgastante naquelas mãos ainda jovens. Mesmo o disfarce das unhas cortadas e esmaltadas – com um esmalte vermelho escuro – permitia ver o que os sabões grosseiros são capazes de fazer nas mãos de quem ainda cedo precisa garimpar a sobrevivência. Mas a garçonete, para os mais conquistadores, poderia até nem ter as mãos. Seus lindos olhos azuis faziam com que todos, de modo por vezes inconveniente, ficassem abismados. Além do mais seu corpo era esbelto, ágil e desenvolto. E nem parecia andar, quando vinha até a nossa mesa. Voava, graciosa. E isso provocou da parte de um amigo poeta: - Parece uma ave! Percebendo ser observada ela ria, discretamente, por vezes jogando para trás a cabeleira clara e esvoaçante. E então um vento inesperado e brincalhão corria sobre sua cabeleira revolvendo-a ora carinhosamente e ora de modo extravagante, semelhando os atos dos amantes. Mais de vinte anos ela não teria, com alguma certeza, diria outro amigo. Outro, mais afoito e não se controlando, afirmou: - Que seios túmidos! Ficamos a rir. Os tempos eram eram assim: a literatura adotara seios túmidos e languidez do olhar como importantes traços para uma composição poética. Também se falava em olhar mortiço, aquele iluminado pelos candelabros dos filmes de amor, os imperdíveis filmes da era hollywoodiana. Mas era estranho que aquela garçonete, moça simples e sofrida, causasse tanta sensação entre a rapaziada, se possivelmente nenhum deles desejaria para um longo caso de amor. E sobretudo para um casamento, tais os preconceitos em moda naquela época. Um outro amigo e poeta, mais calado e por vezes até pessimista, arrematou, para o espanto de todos: - Seus olhos são lindos e azuis. Mas nela poderão ser inúteis! Um longo silêncio tomou conta de todos nós. Era como se uma imensa atmosfera de fantasia houvesse se dissipado, estendida que estava sobre as nossas cabeças. Ficamos a olhar para o mar, azul tais os olhos da linda garçonete. Anos depois, terminando o curso de medicina e de plantão na maternidade a enfermeira chegou ao meu quarto, ofegante, e me disse: - Doutor, estamos com um caso difícil. A moça está dando à luz pela primeira vez. O senhor precisa ir até a sala de parto. Foi-me facílimo reconhecer naquela moça aflita para ter o seu primeiro filho a quase-esquecida garçonete. Não senti que ela me houvesse reconhecido. O que expressava, de dentro dos seus lindos olhos azuis era um humilhado pedido de socorro indigente que era naquela hora. Algumas manobras de facilitação do parto e uma linda menina, de olhos também azuis, veio ao mundo! Na manhã seguinte fui até a enfermaria. Curioso, perguntei-lhe se o seu amado já havia visto a filhinha. Ela me respondeu: - Não. Ele fugiu para São Paulo. Insisti: - Foram os seus lindos olhos azuis? E tristonha ela balbuciou: - Era do que ele mais me falava. Veja mais aqui.

POEMA ENAMORADO À TERRA NATAL & OUTROS VERSOS – O conterrâneo poeta, compositor, artesão, produtor cultural e estudioso da poesia popular Meca Moreno, é autor dos livros Universos (1986) e Giramundo (2005), membro da União dos Cordelistas de Pernambuco (Unicordel) e escreve no portal Interpoética, entre outras atividades artísticas. Da sua lavra destaco inicialmente o Poema enamorado à terra natal: Deste-me as primeiras alegrias, / as primeiras tristezas / e as primeiras safadezas / de menino levado / a correr pelos teus campos e colinas, / sem a preocupação com o amanhã / a nadar afoito / nas águas ainda límpidas / do caudaloso Una, / com um eterno sorriso na face, / a saudade ainda fresca do dia que passou / e a profunda vontade / de não mais findar / aqueles movimentos / livres qual sabiá / a gorjear um canto lindo, / compartilhando comigo / a sombra da frondosa ingazeira / que derramava galhos / sobre o volumoso leito hídrico / de estada tão vital, / deixando-me fascinado / com tão sublime momento / e dando-me motivos para continuar / a descobrir um novo irmão a cada minuto, / transformando-me / no mais feliz dos seres, / na esperança de ver nascer um novo dia / pra começar tudo outra vez. / Deste-me também / o primeiro amor... / a primeira dor. / Foste testemunha ocular / das primeiras lágrimas / de dor... / de amor. / Inspiraste os meus primeiros versos / minhas primeiras fantasias / sonhos e esperanças. / És cúmplice / da minha primeira mentira / e foi contigo / que aprendi tantas verdades / mesmo quando encoberto / pelo manto azulado de tua noite / calma e serena, / como a minha / consciência ingênua / de menino pássaro, / iluminada / pelo esplendor lúcido / da poética e eterna / namorada dos homens... / ... e do sol: / a lua! / Lua que tantas vezes / eu mirei curioso / na esperança de ver São Jorge / sobre o seu cavalo, / numa eterna luta / contra o dragão lunático; / lua essa que no teu céu / é sempre mais bonita / do que em qualquer / outro lugar do mundo / e que continua / a encantar o sol / os homens / e os sonhos deste menino / que tanto te quer. Também o belo poema A fonte e o rio: Eu queria ser a fonte / pra tua sede matar. / Acariciar teu corpo / e assim me deliciar. / Eu queria ser o rio / pra entre as pedras, correr. / Acariciar teu leito, / no teu grande mar morrer. / Eu queria ser a fonte / para o teu rosto espelhar; / molhar os teus lábios quentes / meu líquido em ti jorrar. / Ser aquele rio imenso, / os teus campos irrigar / e nas curvas do teu corpo, / as águas perenizar. / Eu queria ser a fonte / para te dar esperança; / mesmo depois da partida, / ficar na tua lembrança. / Eu queria ser o rio / pra atravessar tuas florestas, / deslizar entre os teus montes / e te dar o que me resta. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PROMETEU ACORRENTADO – Na obra Teogonia: a genealogia dos deuses (Iluminuras, 2006), o poema mitológico de 1022 versos hexâmetros escrito pelo poeta oral grego Hesíodo (750-650aC), no qual se encontra a descrição da origem do mundo que se constitui o mito cosmogônico dos gregos, com a geração sucessiva dos deuses e, na parte final, o envolvimento destes com os homens originando os heróis. Nesse mito, as deidades representam fenômenos ou aspectos básicos da natureza humana, expressando assim as ideias dos primeiros gregos sobre a constituição do universo. Entre os relatos da obra está a narrativa de que Júpiter, ao assumir o governo do universo, tornando-se deus supremo, cogitava de conservar a espécie humana em uma condição próxima da animalidade irracional, senão destruí-la, substituindo-a por outra, de sua criação. Contrariando, porém os desígnios da suprema potestade, o titã Prometeu, condoído da sorte da humanidade consegue apoderar-se de uma faísca do fogo celeste, com o que dotou o homem da razão e da faculdade de cultivar a inteligência, as ciências e as artes. Como punição por esse crime, Júpiter ordena que Prometeu seja acorrentado a um rochedo, na inóspita região da Cítia, no Cáucaso, e ali permaneça pelos séculos adiante, a menos que consinta em revelar, aos emissários do irritado nume, os segredos terríveis que só ele conhece, e que permitiriam a Júpiter devassar os mistérios de seu próprio futuro e evitar uma queda semelhante à que causou a ruina de Cronos, Saturno, seu pai e antecessor no domínio do orbe. Prometeu, porém, conhecedor desses arcanos do Fatum (significando o que prevê), resiste aos mais atrozes sofrimentos, como imortal que é, procedendo com uma altivez extraordinária, sem proferir um só queixume enquanto Vulcano, cumprindo as ordens de Júpiter, o prende, por meio de cadeias indestrutíveis, ao inacessível penedo. O poder (Krakós), que determina e fiscaliza a execução dessas ordens cruéis, instiga e ameaça o próprio Vulcano, que se mostra penalizado pela tortura a que, bem a seu pesar, está sujeitando a um deus, seu parente. Retiram-se os deuses, enviados por Júpiter (inclusive a Violência, personagem mudo) – e só então Prometeu solta os seus brados de revolta e desespero, na solidão em que se encontra. Surgem, então, as Ninfas, filhas do Oceano, que ali foram ter, atraídas pelo rumor dos martelos de Vulcano. A seu pedido, o infeliz Prometeu conta-lhes o que fizera, e explica a razão do suplicio a que fora condenado. O próprio Oceano ali vai ter, e, comovido, procura confortar a vítima da cólera de Zeus, aconselhando-lhe prudência, e submissão, e prometendo, sob tais condições, intervir junto ao supremo senhor do Olimpo em favor do desgraçado. Prometeu rejeita esses bons ofícios e procura dissuadir Oceano de tal proposito. O diálogo que entre os dois se trava contém afirmações de impressionante beleza. Depois de um longo diálogo entre o herói decaído, e o coro que deplora seu sofrimento, surge a figura horrível de Io. Filha de Ínaco, rei de Argos, Io era sacerdotisa de Juno, quando Júpiter por ela se apaixonou. Com o proposito de iludir a esposa, o deus olímpico transformou a jovem numa ovelha de extraordinária beleza. Vendo-a, após a metamorfose, Juno pediu, e obteve do esposo que lhe cedesse a ovelha; e, zelosa, suspeitando já de alguma coisa, confiou-a à guarda do cão Argos, de cem olhos. A mando de Júpiter, porém, Mercúrio consegue iludir a vigilância de Argos, e retira Io da prisão onde se achava. Foi então que, descobrindo o embuste, Juno, irritada, resolve que um moscardo de medonho aspecto persiga, sem cessar, a pobre Io, que, desesperada, foge atravessando campos, mares e desertos, galgando serranias e atingindo os confins do mundo. Bem se compreende o extraordinário efeito que o autor alcançou pondo, um diante do outro, a Prometeu, condenado à eterna imobilidade, e Io, condenada a não parar nunca em sua corrida louca, ambos vítimas da iniquidade e da prepotência dos numes. Prometeu, como prova de sua infalibilidade em devassar o destino humano, refere o que se passou com Io até aquele momento, e profetiza os seus ingentes padecimentos ainda futuros, e sua final libertação. Reaparece o medonho inseto, e a pobre Io prossegue, desatinada, em sua fuga. No último ato da tragédia, é o próprio Mercúrio, filho e emissário de Júpiter, que vem ter junto ao desgraçado prometeu e, renovando as ameaças tremendas do deus supremo, tenta arrancar do acorrentado titã os segredos que ele conhece e guarda. Mas esse esforço é baldado. Dando provas de uma coragem que toca as raias do sublime, o revoltado herói resiste ainda, em resposta plena de altivez, e de audaciosa ironia. Comunica-lhe, então, Mercúrio a última determinação do irado Zeus: Prometeu teria seu suplício aumentado pelo abutre que viria, diariamente, devorar-lhe o fígado, até que um raio, expedido por Júpiter, precipitasse nos abismos do Tártaro o acorrentado prisioneiro, sob o peso da derruída penedia. E com comovente brado, Prometeu, que, presciente, já ouve o fragor da horrenda catástrofe, termina a tragédia grega que faz parte da trilogia do dramaturgo e poeta trágico Ésquilo (525-466aC), da qual destaco a parte final: PROMETEU: Eu já sabia de tudo, tudo, o que ele acaba de me anunciar!... que um inimigo sofra todo mal que lhe pode fazer o outro, nada mais natural. Pois que caiam sobre mim os raios fulminantes; que os ventos furiosos inflamem os céus; que a tempestade, agitando a terra em seus fundamentos, abale o mundo; que os flagelos sem exemplo confundam as vagas do oceano com as estrelas da abobada celeste; que Júpiter, usando seu invencível poder, precipite meu corpo nos abismos do Tártaro; faça ele o que fizer!... eu hei de viver! [...] Com efeito, não foi uma ameaça, apenas: a terra põe-se a tremer... o soturno ronco já se faz ouvir... turbilhões de poeira se erguem... todos os furacões desencadeados parece que estão contra mim! Contra mim, é que Júpiter desfecha tão horrendo cataclismo. Ó minha augusta mãe: ó tu, divino éter que cercais o universo de luz eterna... vede que injustos tormentos me fazem sofrer! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA – Acaba de ser lançado o documentário Betinho: a esperança equilibrista (2015) – vencedor do Festival de Cinema do Rio de Janeiro -, dirigido por Victor Lopes, que conta a trajetória do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, desde seu nascimento em 1935, em Bocaiúva, no sertão mineiro, até 1997, quando morre vítima das complicações da Aids. O filme narra histórias de vida e cidadania de um líder social que uniu o Brasil para enfrentar a fome e a miséria, problemas que atingiam mais de 40% de brasileiros na década de 1990. Betinho foi o criador da Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria e Pela Vida e estimulou a criação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), da Presidência da República. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do ilustrador Armando Lemos, extraído do livro Universos (1986), de Meca Moreno e Alfredo Moraes.
Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Egberto Gismonti, Rolando Boldrin, Chopin, Chico Buarque & Milton Nascimento, Edson Natale & Alex Braga, Mulheres de Hollanda, Max de Castro, João Só, Fábio Lima, Beto Saroldi & Eduardo Dusek, Sonia Mello, Jarbas Barros, Antônio Jardim & Andréia Pedroso, Paulynho Duarte, Ju Mota, Jussanam, Ricardo Machado, Frederico Amitrano, Denise Dalmacchio, Vinny, Maxine Nightingale, Paul Mauriat, Edson Lopes, Eduardo Santhana & Isolda, Chiko Queiroga & Ana Vitória, Pedrinho Piri & muito mais. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...