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quinta-feira, abril 02, 2015

TERESA CÁRDENAS, SARAMAGO, ANDERSEN, ZOLA, SHAKESPEARE, CASANOVA & UMA DE DUAS

 


UMA DE DUAS (OU A FILHA PERDEU O PAI & A DOR DA IRMÃ CAÇULA) – Imagem: Mulher sentada, do pintor francês Georges-Pierre Seurat (1859-1891) – O primeiro regresso fora doloroso: recebera a notícia do pai hospitalizado sob assistência da irmã caçula. Findava o seu desterro de anos da terra natal e milhares de quilômetros percorridos para se defrontar com uma situação dramática. Moveu Deus e o mundo, resgatou os parentes e, graças a uma assistência milagrosa, o transporte aéreo devolveu-lhe ao amparo do exílio voluntário. Era onde se sentia em casa e dedicar-se à enfermidade paterna. Seus esforços resultaram inúteis e tudo começou com a amputação do dedo mindinho do pé esquerdo; depois a lombada do pé, a metade da canela, nem mais coxa para uma muleta. Logo se foi a outra perna, destruindo o ventre, os pulmões, as faces. Restaram as sobrancelhas pro velório, choros solidários entre as irmãs. Meses depois, a irmã caçula alegou precisão de desanuviar e rever as amigas de infâncias. Não havia mais parentes na terra natal, mesmo assim ela bateu o pé na insistência e, por fim, foi-se na viagem. A solidão reinou por um bom tempo, até que o telefone estridulou com uma notícia para lá de desagradável. Era a vez do segundo regresso para a localidade que ganhara prestígio na sua antipatia. Durante a viagem teve de trocar de condução e, à espera do ônibus, encontrou-se com uma estranha que logo abriu conversa. Desabafaram, lavaram a alma juntas, choraram suas sinas. Dali em diante seguiram juntas até tomarem destinos opostos com o desembarque. Promessas mútuas de reencontro, desejo de boa sorte e até mais. Chegou ao hospital e, como era enfermeira, logo teve acesso à irmã caçula em coma. Que houve? Estupro, espancamento torturante. Quem fizera isto? Sabe-se apenas que o responsável por aquele crime havia sido preso, não sabendo-se de quem se tratava. Jurou vingança, mas ocupou-se logo nas providências de cuidar da irmã e logo transferi-la para o seu habitat. Não foi fácil, demorou-se a recuperação e, desta vez, a assistência milagrosa não aconteceu. Mais de um mês e meio depois, faziam a viagem de volta num ônibus. Resignada compreendeu que seus últimos anos seriam apenas para servir dos cuidados familiares e assim havia de ser, afinal a irmã caçula era a última parente que lhe restara. A terra natal não lhe fora nunca berço para existência, tanto que mal adolescera e saiu de casa em busca vida melhor. Tanto lutou que conseguiu emprego e estabilidade. Cada um dos seus parentes foram sucumbindo, findava muito pouco para apagar aquela cidade da memória. Dedicou-se ao que restara com uma jura: nunca mais voltaria ao local onde nascera.  Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Fomos arrancados da África, mesclados, não temos árvore genealógica... Pensamento da escritora cubana Teresa Cárdenas, autora do poema Conte algo que não sei: No princípio, o universo era todo branco. \ Até o dia em que que alguém o puxou por uma ponta e o virou, \ como uma página. \ Foi o que descobri em meus novos escritos. \ São contos do início dos tempos, \ nos quais volto para além da minha ancestralidade \ e recrio o mundo, \ reviro os mitos africanos e os demais. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU:Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara... Pensamento do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

CONTOS DE MAGREB – Na coletânea Contos árabes (Cultrix, 1962), organizada por Jamil Almansur Haddad, encontrei entre os contos de Magreb – histórias populares contadas nas praças da região compreendida entre Marrocos, Argélia e Tunísia -, a História da jovem que nasceu de uma maçã, na tradução do organizador em parceria com José Paulo Paes: Era uma vez uma mulher que nunca tinha tido filhos. Seu marido, que desejava muito que ela os tivesse, dirigiu-se um dia à casa de um feiticeiro e disse: - Minha mulher é estéril. Eu quero um remédio que a cure. O feiticeiro deu-lhe duas maçãs e disse: - Fazei-a comer estas maçãs e ela ficará gravida, porem tu não podes comer. Levando as maçãs achou-as tão belas e tão odorosas que não resistiu à tentação e comeu uma. Depois deu outra à sua mulher. Imediatamente ela ficou grávida: mas à medida que seu ventre aumentava, a perna do seu marido se intumescia e tomava proporções enormes. Enfim, chegou o termo do nono mês: a mulher deu à luz um filho. Quanto ao marido, no mesmo momento as dores o tomavam na perna e de vergonha foi ocultar-se na solidão do deserto. Ao mesmo tempo que a sua mulher dava à luz a seu filho, sua perna fendeu-se e dali saiu uma menina bela como o dia. Ela tinha cabelos tão longos que cobriam inteiramente seu corpo. Sem mais ocupar-se dela, ele a abandonou ali e voltou para casa. Ora, uma gazela seguida dos seus pequenos que ela aleitava, passando por lá, ouviu os vagidos da criança. Aproximou-se, fê-la mamar e adotou-a. a menina cresceu com as pequenas gazelas. Um dia um rei que caçava percebeu o rebanho de gazelas e espantou-se ao ver esse animal estranho que parecia uma menina e vivia em pleno deserto. Fez preparar dois pratos de cuscuz, um com sal e outro sem sal e fê-los depositar perto da fonte onde as gazelas bebiam. E pensou: - Se este ser for humano, comerá o cuscuz salgado; se é uma jenniya comerá a comida sem sal porque os jenniyas não comem comida salgada. No dia seguinte, foi ver o que havia comido esse ser estranho e quando se certificou de que se tratava de um ser humano, procurou caçá-la. Agarrando-a depois, levou-a para casa, vestiu-a de suntuosos vestidos, fez construir um palácio para ela e desposou-a. mas suas outras mulheres, em numero de seis, ficaram muito ciumentas da nova desposada. Mostraram-se, no entanto, muito amigas para afastar dela toda a desconfiança e a atraiam frequentemente para as suas casas. Um dia o rei, vendo reinar concórdia em sua casa, decidiu visitar seus estados e recolher impostos. Recomendou às suas mulheres de bem se entenderem entre elas e partiu. Então elas combinaram a perda da jovem esposa. Um dia elas lhe disseram: - Vem que te pentearemos. A jovem sentou-se perto delas e deixou-se pentear. Mas sucessivamente cada uma delas lhe plantou um alfinete na cabeça e, instantaneamente, a pequena rainha foi metamorfoseada em pássaro e voou sob a forma de pomba. Ora, o rei, antes de sua partida, tinha começado a construção de um pavilhão no jardim e recomendado aos seus trabalhadores que o terminassem antes da sua volta. Mas a partir desse dia, a pomba vinha pousar sobre a parede construída durante a jornada e cantava: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Quando terminou sua queixa, voou e logo o muro, sobre o qual ela havia pousado, ruía. Os pedreiros ficaram muito infelizes e queriam agarrar o pássaro, o que lhes era impossível. Enfim o rei voltou. Quando chegou em casa dirigiu-se logo aos aposentos da jovem rainha que o amava. Achou-o vazio e as mulheres disseram: - Após a tua partida ela foi reunir-se às gazelas. Então o rei quis retirar-se para o pavilhão que havia mandado construir no jardim, e ficou surpreso ao achá-lo inacabado e no mesmo estado em que estava quando de sua partida. Chamou o chefe dos pedreiros e lhe disse: - O que acontece aqui? Merece que te faça cortar a cabeça. Eu havia ordenado terminar a construção quando da minha volta. Nesse momento, a pomba chegou ao muro e pôs-se a cantar: Nasci de uma maçã / e foi meu pai que me gerou. / fui nutrida por uma gazela / presa por um rei que comigo casou. / Suas perversas mulheres vararam-me a cabeça, / e eu agora mudei em pomba. Depois voou, o muro ruiu e o chefe dos trabalhadores disse ao rei: - Viste a razão. Isto vem acontecendo todos os dias após a tua partida; trabalhamos o dia inteiro e à tarde vem a pomba que canta a sua canção, e o muro tomba. Queríamos agarrá-la mas ela se esquiva e eu nada pude fazer. Então o rei disse: - Num dos quartos que terminaram, ireis pôr todos os grãos que agradam aos pombos, e deixarás as janelas e as portas abertas para que essa pomba possa entrar e alimentar-se. Depois colocou no interior do quarto dois guardas perto de cada entrada, com ordem de fechar as portas e janelas logo que o pássaro entrasse ali. E no dia seguinte ele próprio veio para apanhar a pomba. Mas ela, que o havia percebido na véspera, deixou-se apanhar sem dificuldade. Quando o rei a prendeu, ele pôs-se a chorar e a acaricia-la, e a pomba também cantou sua canção. De repente, passando-lhe docemente a mão pela cabeça, o rei encontrou seis alfinetes e arrancou-os. Logo a pomba retomou a forma de donzela, em toda a sua beleza. O rei apanhou-a nos braços e ambos choraram lágrimas de felicidade. Depois o rei lhe disse: - Conta-me o que houve. E quando ela terminou ele disse: - Decide da sorte delas. Farei o que quiseres. Então ela pediu: - Quero que a primeira seja transformada em trave da entrada do meu quarto, para que eu pise nela todos os dias. A segunda, em cadeira para as abluções para que eu me sente nela todos os dias. A terceira, em outra viga que eu pisarei no banheiro. A quarta, para o mesmo objetivo na cozinha. A quinta, a mesma coisa no estábulo. E a sexta, em tábua para o meu leito. Isto foi feito e ela viveu longos dias felizes com o rei... e minha história acabou. Veja mais aqui, aquiaqui.

Imagem: Pleiades (1920), do pintor e escultor do Surrealismo alemão Max Ernst (1891-1976). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Ouvindo Red dirt girl (Nonesuch/Warner Broos, 2000), da cantora e compositora estadunidense Emmylou Harris.



A LITERATURA DE ANDERSEN – Uma das leituras que povoou a minha infância foi a do escritor dinamarquês de histórias infantis Hans Christian Andersen (1805-1875), que iniciou sua carreira literária escrevendo poesias, publicando o seu primeiro romance Inspirador, em 1837, seguindo-se toda a obra dedicada ao universo infanto-juvenil de grande sucesso até hoje. Veja detalhes aqui, aquiaqui e aqui.

SONETOS DE SHAKESPEARE – No livro Sonetos (Martin Claret, 2006), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), destaco dois deles, o primeiro: Dos seres ímpares ansiamos prole / para que a flor do belo não se extinga, / e se a rosa madura o tempo colhe, / fresco botão sua memória vinga. / Mas tu, que com os olhos teus contrais, / nutres o ardor com as próprias energias / causando fome onde a abundância jaz, / cruel rival, que o próprio ser crucias. / Tu, que do mundo és hoje o galardão, / arauto da festiva natureza, / matas o teu prazer inda em botão / e, sovina, esperdiças na avareza. / Piedade, senão ides, tu e o fundo / do chão, comer o que é devido ao mundo. O segundo soneto: Dois amores – de paz e desespero - / e tenho que me inspiram noite e dia: / meu anjo bom é um homem puro e vero; / o mau, uma mulher de tez sombria. / Para levar a tentação a cabo, / o feminino atrai meu anjo e vive / a querer transformá-lo num diabo, / tentando-lhe a pureza com a lascívia. / Se há de meu anjo corromper-se em demo / suspeito apenas, sem dizer que seja; / mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo / que o anjo no fogo já do outro esteja. / Nunca sabê-lo, embora desconfie, / até que o meu anjo se contagie. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

NANA – O livro Nana: história natural e social de uma família sob o segundo império (Hemus, 1982), do escritor naturalista e libertário francês Émile Zola (1840-1902), é o nono volume da coleção Les Rougon-Macquart, conta a história de uma medíocre artista de teatro que faz fortuna por possuir um corpo de Vênus voluptuosa e vulcânica e se torna uma prostituta de luxo e cortesã da sociedade francesa, atraindo, corrompendo e arruinando ricaços e poderosos que se enfeitiçam por sua beleza. Da obra destaco o trecho: [...] Era ainda a mesma voz avinagrada, mas agora ela to­cava tanto a corda, não diremos sensível, mas sensual do público, que arrancava dele, por momentos, um leve estremecimento. Naná escondera o sorriso, que lhe iluminava a pequena boca vermelha, e resplandecia nos seus grandes olhos, de um azul muito claro. Em certos versos um pouco arrebatados, uma gulodice lhe arrebitava o nariz, cujas narinas róseas palpitavam, enquanto uma chama lhe passava nas faces. Ela continuava a balançar-se, não sabendo fazer mais do que isso. E já não achavam aquilo mau de todo, pelo contrário; os homens assestavam os binóculos. Quando ia terminar a copla, a voz faltou-lhe por completo, e percebeu que não poderia chegar ao fim. Então, sem se inquietar, sa­racoteou as ancas, que desenharam uma forma redonda sob a sua fina túnica, enquanto, de busto dobrado, o pescoço estirado para trás, estendia os braços. Rebentaram aplausos. Imediatamente ela se voltou, tornando a subir, deixando ver a nuca, onde os cabelos ruivos se ordenavam como no velo de um animal; os aplausos tornaram-se furiosos. O final do ato foi mais frio. Vulcano queria esbofetear Vénus. Os deuses estavam em concílio e decidiram proceder a uma sindicância na Terra, antes de atenderem os maridos enganados. Era ali que Diana, surpreendendo as palavras ternas entre Vénus e Marte, jurava não lhes tirar os olhos de cima durante a viagem. Havia também uma cena em que o Amor, representado por uma garota de doze anos, respondia a todas as perguntas: "Sim, mamãe... Não, mamãe...", num tom choramingas, com os dedos no nariz. Depois, Jú­piter, com a severidade de um professor que se enfada, fechava o Amor num quarto escuro, ordenando-lhe que conjugasse vinte vezes o verbo amar. O final agradou imenso, um coro em que a companhia e a orquestra se saíram brilhantemente. Mas descia o pano, e a claque tentou em vão obter uma volta; toda a gente se levantara, dirigindo-se já para as portas.Veja mais aqui, aquiaqui.

CASANOVA DE FELLINI – O aventureiro e escritor italiano, Giovani Jacopo Casanova (1725-1798), envolveu-se em inúmeras intrigas e aventuras com jogatina e libertinagens, desde o seu interesse pela carreira eclesiástica, findou expulso do seminário de Veneza. Depois tornou-se secretário de um cardeal, soldado, violinista, viajante, sendo, então, adotado por um rico senador, empenhando-se na busca da pedra filosofal. Com novas viagens finda preso e condenado pela Inquisição por magia, impiedade e maçonaria. Encerrado na prisão dos Piombi, consegue, ao cabo de cinco meses de maquinações, uma espetacular fuga para Paris onde introduziu a loteria e torna-se financista, quando faz grande fortuna até montar uma fábrica de tecidos que lhe arruína. Passa então a viajar por toda Europa, adotando o nome de Chevalier de Seingalt até ser expulso novamente de Veneza, fixando-se no castelo de Dux como conservador da biblioteca, aonde escreve suas famosas memórias. Tornou-se autor de versos, libretos de ópera, trabalho de matemática e filologia. Nas suas memórias ele descreve a vida dissoluta que levou e o mundo que conheceu. Pelo grande número de conquistas amorosas que narra, seu nome tornou-se tão provençal quanto o de Don Juan. Essas memórias foram publicadas em alemão, em 1882. Foi considerado por muito tempo como um autor pornográfico, obtendo reconhecimento posterior de grande escritor, pelo destaque de suas memórias que apresentam um retrato vivo da vida e dos costumes da Europa no sec. XVIII. Em 1976, o cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) realiza o filme contando sua história, com roteiro do próprio diretor e de Bernardino Zapponi, e música de Nino Rota. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.


HOMENAGEM DO DIA
RAINHA ZENÓBIA
Imagem: Zenobia in Chains (1859) da escultora estadunidense Harriet Hosmer (1830-1908). Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

A bela, guerreira e digna Zenóbia (Bat-Zabbai, sec. III), rainha de Palmira que foi derrotada, levada prisioneira para Roma pelo Imperador Aureliano. Veja mais aquiaqui.


Veja mais sobre:
As dez vidas e a cabeça roubada, A natureza das coisas de Bernardino Telesio, a música de Joana Holanda, a arte de Kevin Taylor, a pintura de Pedro Américo & Odilon Redon aqui.

E mais:
Dalzuíta: o infortúnio da prima da Vera aqui.
Os pipocos da loucura de Robimagaiver aqui, aqui e aqui.
A paixão avassaladora quando ela é a terrina do amor aqui.
Brincarte do Nitolino, O calor das coisas de Nélida Piñon, a poesia de Augusto dos Anjos, a música de Igor Stravinski, a pintura de Joan Miró, o teatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farme, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabús aqui.
Cordel do meio ambiente aqui.
Na avenida Jatiúca, Maceió, O império do efêmero de Gilles Lipovetsky, a História da feiúra de Umberto Eco, o Deserto do real de Slavoj Žižek, Moema, a música de Quinteto Armorial, a poesia de Juareiz Correya, a pintura de Victor Meirelles & Felicien Rops, o cinema de Michael Winterbottom & Anna Louise Friel aqui.
Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, as Fronteiras do Universo de Phillip Pullman, As contantes universais de Gilles Cohen-Tannoudj, a música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a pintura de Willow Bader, a arte de Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Samco aqui.
Mais que tudo o amor, a poesia de Pablo Neruda, o teatro de Antonin Artaud, o pensamento de Pierre Gringore, a música de Ana Rucner, a fotografia de Daniel Ilinca, Mariza Lourenço & Luciah Lopez aqui.
Brincando com a garotada, Lagoa Manguaba, a música de Maria Josephina Mignone, a poesia de & William Blake & Joana de Menezes, a literatura de Luiz Antonio de Assis Brasil, a pintura de Thomas Saliot & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Doro: querem me matar, O bom dia para nascer de Otto Lara Resende, a comunicação interpessoal de John Powell, a poesia de Gilberto Mendonça Teles, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha, a Pena & Poesia de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O Homo ludens de Johan Huizinga, Todas as coisas de Quim Monzó, a psicanálise de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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terça-feira, janeiro 20, 2015

SARA TEASDALE, AMOS TUTUOLA, LILA RIPOLL & SELMO VASCONCELLOS

 


CREOLINALDA, A REENCARNAÇÃO DE FRINEIA... – (Imagem: art by Hamish Blakely) Creolinalda vivia todo dia só de escrever no diário e resolveu partir pra ação. Sim, justo no dia que tomou conhecimento da vida de Frineia Mnesarete, que colhia alcaparras e tinha vários nomes - entre eles o de memória da virtude, que ela mesmo mudou porque comparavam-na com uma rã. Em verdade chamavam-na de Saperdion, nome que depois até assumiu. Era uma cortesã de extraordinária beleza e muito rica da Beócia. Uma história fascinante aos seus olhos e, tal qual ela, para lá de injustiçada: Sou a reencarnação dela. E pesou prós e contras, aferiu o resultado e mandou ver assumindo a persona. Começou encarando logo um conflituoso enfrentamento com seu pai Epicles – até nisso, talqualzinho. Depois deu um trato nas madeixas, hidratou a pele, vestiu-se dum maiô menor que o seu tamanho e, pôs por cima, um vestido provocativo com decote pronunciado, saias soltas e colado dos quadris aos ombros. Pronta foi desfilar pelas ruas provocando olhos esbugalhados com seu rebolado: Pronde ela vai tão faceira? Foi até à margem do rio, exibiu sua formosura, soltou os cabelos, despiu-se e entrou nua nas águas, à vista do povo que a perseguia. Milagre! Para quem presenciou era a ressurreição de Afrodite. Os marmanjos da cidade testemunharam em peso, todos pendurados delirantes - uns às quedas de maduro; outros se sustentavam entre galhos e capoeiras, como podiam. Lá pras tantas ela emerge exuberantemente faceira, veste-se e retorna desfilando para sua residência. Por dias foi o assunto dominante nas fofocas simpatizantes e antipatizadas da cidade. Não faltou assédio dos mais atarantados machos, até um ricaço que chegou com um buquê de flores, coração na carteira e chamando-a de Sapozinho. Artistas assediavam-na para posar em suas pretensas obras de artes e não se fez de rogada: foi Maria Madalena para os pincéis de Apeles, foi Vênus para as telas de Praxíteles, foi santa beldade nua para os desenhos de Knidos. Essa moça virou puta! -, gritava-lhe o pai revoltado com uma ruma de descarados poetas a sacudir-lhe versos apaixonados. Não faltaram à sua porta saraus apaixonados promovidos por pretensos Bilac, Baudelaire e Rilke, outros tantos poetastros com zis versos afetados, uma suposta ópera de Saint-Saens, um pretenso filme de Blasetti e a nomeação de um asteróide pelos fanáticos cientistas locais. Até um padre desencaminhou-se para exaltar com todo tipo de apologias a hetera de Téspias. Dali em diante começou a usar umas saias justas e curtas, um decote pronunciado, um rebolado cativante e, todo dia, ia tomar banho no rio para desespero de espectadores ávidos. Dizem que até Luís Gonzaga sapecou um xote tataritaritatá pra ela. Mais provocante exibia-se na janela enxugando os cabelos, esfregando-se sedutora. Como nunca usou de maquiagem, sua beleza era verdadeira e plena. As suas feições eram naturais: você é crente minha filha? Não, senhor. Prestimosa começou a ajudar senhores viúvos, passou a ser educada com os marmanjos enamorados e a ter amigas de má reputação, ganhando o opróbrio popular. Nem aí. Num disse: essa menina se perdeu mesmo! Alheia aos escárnios ela participava de apostas com outros rapagões e, quando perdia, nem se acanhava de exibir suas partes pudendas pros sortudos presentes, razão pela qual cochichavam que ela era mais bonita nas partes que não se viam. Adotou de vez, por isso, o nome de batalha Frinéia de Mnesarete. E se manteve firme. Todos queriam pintá-la, poetá-la, fotografá-la, movimentando a economia do lugar: todos queriam comprar as artes que ela inspirava, principalmente os recitais com epigramas os mais lascivos em sua homenagem e a fruição visual completa do corpo da deusa no centro da cena. Tributaram-na com um monumento: uma escultura talqualzinha ela era, virou ponto turístico de massa. Até um maníaco sexual foi flagrado e preso porque queria fazer amor ali, na frente de todo mundo, com ela. Teve até endoidados que queriam casar com a estátua, até ser roubada, mas logo descoberta: o sujeito havia sido acometido da loucura de Pingmalião e venerava para que ela envivecesse. Como? Lascou. Ao resgatá-la aos puxavanques, porque o sujeito guerreou até a morte para não devolvê-la nem a pulso. Fatos estranhos até deram conta de que das pinturas ela aparecia vivinha da silva, passando a viver maritalmente com o seu comprador. Por conta disso não faltaram jovens levados à tentação da mão hábil em sua homenagem e com suas poses impressas: vai que ela ganhasse vida na frente deles, hem? Essa era a esperança deles. Episódios de agalmatofilia retumbaram, incidentes com casos de acasalamento com a imagem e os que não conseguiam torná-la viva se matavam – foram suicídios em cadeia, tanto de jovens mancebos, como de empirocados marmanjos e provectos. Descobriu-se até um ritual devocional em sua honra, findando todos mortos exauridos de êxtase sexual. Afora os tantos de ricos que apareciam dispostos a despender grandes somas para adquiri-la, fulminados pela bancarrota. Evidente que ela se aproveitou disso e angariou fama e riqueza, afora autocelebrar-se, aparecendo furtivamente em trajes provocativos, destinados a causar agitação, ou através do uso de aparições públicas cenográficas, raras e estudadas. Seu nome passou a ser rabiscado nos muros, quando não gravado nos edifícios públicos. Eis que um dos vitimados se passou por ex ressentido pelos ciúmes e acusou-a de extorsão e traição instaurada pelo escândalo da mutilação dos Hermes. Como? Foi que um jovem não suportando ser recusado por ela, atirou no próprio pênis, decapitando-o e tornando-se eunuco dali por diante. Além disso novas acusações de gananciosa, de inescrupulosa, de monstra, exibicionista, traiçoeira e ruinosa pros apaixonados amantes sujeitos à rapacidade, vez que ela subjugava seus pretendentes, extorquia dissolutos, era o que diziam, batiam o pé. Ela nem aí. Queixas amontoavam na delegacia, ofensas ditas graves e reiteradas, a ponto do promotor exigir sua prisão e condenação à pena de morte. Foi julgada e sentenciada pela condenação: a cidade em peso acompanhou-lhe a prisão. Na hora da execução emergiu um defensor exigindo o Tribunal do Júri. Durante o julgamento público ela foi levada sob escolta policial e o acusador ao vê-la foi castigado com a mudez e nunca mais deu nem um pio pra remédio, tendo sido cassado e condenado a pagar as custas processuais. O tribunal ficou em polvorosa com a sua presença, nem o seu defensor conseguiu balbuciar qualquer palavra em sua defesa. Ela então ofereceu-se à condenação despindo-se: Podem me matar, sou condenada. Uma ovação! Ela foi absolvida sob a condição de aparecer publicamente uma vez por semana para limpar os olhos dos infelizes admiradores. Veja mais abaixo e aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - É estranho como um coração deve ser partido com frequência antes que os anos o tornem sábio... pensamento da poeta estadunidense Sara Teasdale (1884–1933), que na obra The Collected Poems (Digireads, 2012) apresenta um de seus poemas: Pensei em você e em como você ama essa beleza, \ E caminhando pela longa praia sozinho \ Ouvi as ondas quebrando em trovões medidos \ Como você e eu uma vez ouvimos seu tom monótono. \ Ao meu redor estavam as dunas ecoando, além de mim \ A prata fria e brilhante do mar \ - Nós dois passaremos pela morte e as eras se alongarão \ Antes que você ouça esse som novamente comigo. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O mal não está em falar da tristeza ou da angústia. O mal é não encontrar saída para a desesperação... Pensamento da poeta, pianista e militante comunista Lila Ripoll (1905-1967), autora do poema: Solidão brinca comigo um jogo de esconde, esconde.\ Desaparece um momento e surge não sei de onde.\ Solidão se esconde e volta, moe a vida, o sonho, o amor.\ Ah! Jogo de esconde, esconde, esconde também a dor. E doutro poema: Não me estendas a mão, \ que o tempo endureceu meu peito.\ Sou poeta. Obrigatório é para mim o sonho.\ Concede-me o direito de sonhar. Também de Pedido: Não me falem de tristezas \ que eu as conheço de cor. \ Falem-me sim de alegrias,\ que tem um gosto melhor.\ De tristezas — o meu peito \ gastou anos a chorar.\ Tirei um curso de mágoas. \ Ninguém me pode ensinar. Veja mais aqui e aqui.

 

O BEBEDOR DE VINHO DE PALMA - [...] Eu era um bebedor de vinho de palma desde que eu era um menino de dez anos de idade. Eu não tinha outro trabalho além de beber vinho de palma na minha vida. - - - Mas quando meu pai percebeu que eu não conseguia fazer nenhum trabalho além de beber, ele contratou um especialista em vinho de palma para mim; ele não tinha outro trabalho além de bater vinho de palma todos os dias. Então meu pai me deu uma fazenda de palmeiras que tinha nove milhas quadradas e continha 560.000 palmeiras, e esse tapador de vinho de palma estava batendo cento e cinquenta barris de vinho de palma todas as manhãs, mas antes das 2 da tarde, eu bebia tudo; depois disso ele ia e batia outros 75 barris. [...]. Trechos extraídos da obra The Palm-Wine Drinkard (Faber & Faber, 2014), do escritor nigeriano Amos Tutuola (1920-1997), que no livro Ajaiyi and His Inherited Poverty (Faber & Faber, 2015), expressa que: […] O falcão brinca com o pombo e o pombo fica feliz, mas não sabe que está brincando com a morte. [...] Eu tinha esquecido que as coisas poderiam mudar no futuro e que essa promessa era uma dívida [...]. No livro L’ivrogne dans la brousse (Gallimard, 1952), ele expressa que: [...] A cada vez que os mortos nos viam, eles faziam ouvir barulhos desagradáveis que mostravam que eles nos odiavam e também que estavam furiosos por os ver vivos. [...]. No livro The Village Witch Doctor and Other Stories (Faber & Faber, 2014), ele traz: […] Se continuarmos a pagar "mal" por "mal", o mal nunca acabará na Terra [...]. Por fim, no livro My Life in the Bush of Ghosts (Faber & Faber, 2014): […] Tendo deixado esta vila a uma distância de uma milha, este mágico fantasma veio até mim no caminho, ele me pediu para deixar nós dois compartilharmos os presentes, mas quando eu recusei, ele mudou para uma cobra venenosa, ele queria me morder até a morte, então eu mesmo usei meu poder mágico e mudei para um longo bastão no mesmo momento e comecei a bater nele repetidamente. Quando ele sentiu muita dor e quase morreu, então ele mudou da cobra para um grande fogo e queimou este bastão até as cinzas, depois disso ele começou a me queimar também. Sem hesitar, eu mesmo mudei para chuva, então eu o apaguei imediatamente. [...]. E dele destaco o pensamento: Depois de viajarmos por dois dias e meio, chegamos à estrada dos Mortos, de onde os bebês mortos nos expulsaram, e quando chegamos lá, não pudemos viajar por ela por causa dos bebês mortos assustadores, etc., que ainda estavam lá.

 

DOIS POEMAS - O HOMEM NO MEIO SOCIAL - O Homem com toda fortaleza \ é um fraco.\ Enquanto está bem esconde\ sua fraqueza.\ Quando está só\ Busca em Deus que tenha dó. \ Reza, promete, implora,\ Fala, grita e chora. CORPO A CORPO - Foi uma luta tão limpa, \ Cristalina, transparente, evidente,\ Clarividente, serena.\ Carne contra carne,\ Músculos contra músculos,\ Sangue, sangue, sangue...\ Foi um luta tão limpa! Poemas do poeta carioca radicado em Rondônia. Selmo Vasconcellos, editor do Lítero Cultural, do jornal Alto Madeira e colaborador do Rondônia ao vivo. Ele é autor dos livros Rever verso inverso (1991), Nictêmero (1993), Pomo de discórdia (1994), Resquícios ponderados (1996) e Leonardo, meu neto (antologia,2004). Veja mais aqui e aqui.

 

SACADOUTRAS

 

A HONRA DOS SERTÕES À MORTE – Contava eu com uns 13 pra 14 anos de idade (por aí, quase meados dos anos 1970), quando li Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909). Por esse tempo eu me tinha poeta parnasiano roxo (vixe! A gente faz cada coisa na vida, hem?), tanto que publiquei à época um poema rebuscadíssimo Fotogenia enfática de um mentecapto alógico (eita!?! Que droga é nove? Coisa de iniciante!), que foi publicado no informativo do glorioso Grêmio Cultural Castro Alves, do Colégio Diocesano. Ainda guardo comigo um exemplar desse informativo, boa lembrança desses tempos colegiais. Lembro bem que passei uma tarde inteira na varanda da casa do Gulú debatendo com ele a respeito da obra e, nesse entusiasmo escrevi uns textos e apresentamos (eu, Gulu, Ozi, Zé Ripe, Célio Carneirinho, Chicanjo Meyer e Mauricinho Melo Júnior, violas, batuques e amostramentos), o melodrama Sertão, Sertão pros alunos na quadra do colégio. Foi um sucesso! Mas falando de Euclides, disse Sílvio Romero: “[...] Da vida e do fim trágico de Euclides da Cunha, não direi por enquanto, de primeira, por falta de documentos; de segundo, por ser ainda inoportuno tratar de tão doloroso caso”, fato esse repetido por uma professora na faculdade que tinha Deus no céu e Euclides na terra, enfatizando o que dizia Darcy Ribeiro: “[...] o maior escritor brasileiro - raquítico, tímido e nervoso -, é assassinado pelo amante de sua mulher, quando tentava matá-lo. Anos depois, o assassino – um major bonitão e espadaúdo, campeão de tiro mata o filhe de Euclides. Também em legítima defesa”. É que o escritor foi envolvido num triângulo amoroso: a sua esposa Ana de Assis, a Saninha (ou melhor, Ana Emília Solon Ribeiro), tinha um amante, o tenente Dilermando de Assis, que com ela teve dois filhos. Por conta disso, o escritor na tentativa de vingar a honra, armado, invadiu a casa do traidor, deu-lhe três tiros e findou morto. O assassino conseguiu reagir, matou o escritor e foi absolvido por legítima defesa. Tempos depois, o filho de Euclídes resolveu vingá-lo, atirando nas costas do odiado que, mesmo ferido, conseguiu matá-lo: pai e filho mortos. Desse caso muitas coisas rolaram. Em 1990, a Rede Globo apresenta a minissérie Desejo, escrita por Gloria Perez, contando o caso do assassinato. Fui ver o dvd, afinal Vera Fisher protagonizava como Saninha, a esposa de Euclides. Vera é Vera, imperdível sempre, principalmente na cena com os filhos quando ela diz: “Eu não errei, eu amei!”. Depois vieram os livros Crônica de uma tragédia inesquecível: do processo Dilermando Reis, que matou Euclides da Cunha, de Walnice Nogueira (Terceiro Nome, 2007); Matar para não morrer, da historiadora Mary del Priore (Objetiva, 2009) e Matar ou morrer: o caso Euclides da Cunha, da procuradora e professora Luiza Nagib Eluf (Saraiva, 2009). Até o Mário Vargas Llosa inspirou-se na obra do escritor brasileiro para escrever o seu A guerra do fim do mundo: a saga de Antonio Conselheiro na maior aventura literária do nosso tempo (Francisco Alves, 1981). Mas Os sertões é uma obra e tanto, um dos clássicos da Literatura Brasileira, meritória de registro: começa com uma abordagem acerca da geografia do sertão baiano, assinalando que: “O sertão de Canudos é um índice sumariando a fisiografia dos sertões do norte... E o sertão é um paraíso...”. Adiante ele menciona que: “[...] O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida. Nasce do martírio secular da Terra...”, fato que o faz constatar que: “[...] O Brasil era uma terra do exílio; vasto presídio com que se amedrontavam os heréticos e os relapsos, todos os passiveis do morra per ello da sombria justiça daqueles tempos...”, arrematando que: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas...”. No final ele escreve: “Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados. Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos. Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem... Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos?... E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antonio Beatinho, que se nos entregara, confiante – e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa história? Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casaas, 5.200, cuidadosamente contadas”. Veja mais aqui.

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aquiLogo mais, a partir das 21hs (horário de Brasília), acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá com muita festa e a apresentação da querida Meimei Corrêa. E com as seguintes atrações na programação: MPB 4 & Quarteto em Cy, Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco, Elba Ramalho, Chico César, Geraldo Vandré, Cátia de França, Herbert Viana, Vital Farias, Glória Gadelha, Sonia Mello, Ricardo Machado, Mazinho, Santana o Cantador, Abdias dos Oito Baixos, Lucy Alves, Renata Arruda, Eliza Clívia, Lysia Condé, Elisete Retter, Alex Rios Silva, Mônica Brandão, Zé Ramalho, Os Vips, Roberto Luna, Roberta Miranda, Marconny Melo & muito mais! Veja mais aqui.

SERVIÇO:
O que? Programa Tataritaritatá Especial de Ano Novo
Quando? Hoje, terça, 20 de janeiro, a partir das 21hs (horário de Brasília)
Onde? No MCLAM - blog do Programa Domingo Romântico
Apresentação: Meimei Corrêa

Imagem: Frinéia (1909), do pintor, desenhista e ilustrador brasileiro Antonio Parreiras (1860-1937)

Ouvindo: Concerto for violin, piano and string quartet in D Major, op. 21, dp compositor francês Amedée Ernest Chausson (1855-1899), com Jorge Bolet Juiliard String Quartet

Imagem: Friné em frente ao Aerópago, 1861, Jean-Léon Gérôme.



CASO DO JULGAMENTO DE FRINEIA – Frineia ou Mnesarete, ou mesmo Friné que em grego significa sapo, foi o apelido dado a uma cortesã grega, nascida em Téspias na Beócia, por volta de 400 aC. Diz-se que ela serviu de modelo para a estátua da Afrodite de Cnido, elaborada por Praxíteles e que tal ato se deve em razão de, certa vez, durante um festival em Eleusis, a hetaira ter se despido e entrado no mar à vista de todos. Em seguida, posou para Afrodite Anadyomene ou Vênus Anadyomene, do pintor Apeles, fato este que foi repetido por um sem número de pintores, inclusive a Friné devant l´Areopage, de Jean-Léon Gerome. Seguiram-se Baudelaire, Rilke, Saint-Saëns, Alessandro Blasetti, até Olavo Bilac e o nosso pintor Antonio Parreiras inspirados por ela. Essa cortesã extraordináriamente bela adquiriu não menos extraordinária riqueza e propôs a reconstrução dos muros de Tebas na condição de que contasse com a seguinte inscrição: “Destruído por Alexandre, restaurado por Friné a hetaira”. Evidente que a proposta foi devidamente rejeitada pelas autoridades. Mais ainda: foi acusada por Diodoro Perigetes de profanar os mistérios de Elêusis, ocasião em que foi defendida por Hipérides, orador que era um de seus amantes, e que, diante da constatação da causa perdida, rasgou o manto que a vestia, expondo a sua nudez, fato que acarretou a mudança no julgamento e ela foi devidamente absolvida. Existem outras versões para o caso, inclusive a de que foi ela mesma quem se desnudou e que a mudança de julgamento ocorreu porque a beleza física, naquela época, era aspecto de divindade e sinal de favor divino. Em sua homenagem, Eugéne Joseph Dalporte denominou 1201 Phyrne, ao asteroide descoberto em 15 de setembro de 1933. Veja mais aqui.

A POESIA DAS CANÇÕES DE ANA TERRA - Uma certa vez, ainda menino e fã de Luis Gonzaga, peguei pela primeira vez um elepê dele e vi que as lindíssimas músicas que ele cantava, trazia seu nome entre os autores. Cá comigo eu fiquei: - Nossa, ele é demais. Além de cantar dividamente, é autor das músicas que canta! Foi essa curiosidade que me levou a ser, mais tarde, radialista: é que eu tinha desde menino a mania de dizer o nome da música, os autores e quem cantava. Pois bem, já nos tempos de radialistas, me embalei com muitos sucessos que tocavam na rádio. Fui investigar a autoria desses sucessos e o nome de Ana Terra aparecia com demasiada frequência. Eu repetia comigo: - Essa Ana Terra é ótima! O desfile de sucessos que figuravam a sua coautoria não estava no gibi, a ponto de eu dedicar um dos meus programas Panorama, na Rádio Quilombo, um especial de 3 horas, só com músicas dela. E olhe que sobraram um bocado pelo espaço de tempo, precisaria de muito mais horas para tal. Foi aí que comecei a perseguir a escritora, roteirista, letrista, produtora e ilustradora Ana Terra, autora do livro Letras & Canções, da novela Estrela, do roteiro para longa-metragem Os campos de São Jorge e coautora de uma parceria infindável com os melhores nomes da música brasileira. Na primeira metade dos anos 2000, tive a grata satisfação de encontrá-la e solicitar uma entrevista. Ela generosamente de pronto, aceitou e a fiz publicar no meu Guia de Poesia. Confira a entrevista aqui ou aqui.


AMARCORD DE FELLINI – Entre os tantos filmes do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993), que me leveram ao prazer de revê-los muitas e tantas vezes, um deles quero destacar aqui, o Amarcord, lançado em 1973. Este filme além de ser uma comédia dramática produzida no talento de um dos maiores nomes do cinema mundial, me traz a sensação de um testemunho de vida, de amor à terra que nasceu, do bom humor e do escárnio diante da estupidez, da leitura de todas as grandiosidades e, ao mesmo tempo, dos desvarios do ser humano. Esse o meu eterno aplauso a uma grande obra de um grande cineasta. Salve, Fellini! Veja mais aqui, aquiaqui.



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A correnteza do rio me ensinou a nadar aqui.
Penedo, às margens do São Francisco aqui.
Sou deste chão como a terra, o fogo, a água e o ar, André Gide, Brian Smith, Friedrich Hundertwasser & Carol Andrade aqui.
O que era Mata Atlântica quando asfalto que mata, António Salvado, João Parahyba, Don Dixon & Nini Theiladetheilade aqui.
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Existe gente pra tudo, Os Apinajé, Harriet Hosmer, Josefina de Vasconcelos, Anelis Assumpção & Banksy aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...