TANTO JUNTOU
& BABAU! – Imagem: Alongtimealone,
do pintor, gravurista e escultor
estadunidense Nathan Oliveira (1928-2010) - Anclotinato
era tinhoso, sabido, astucioso, menino feito os pés da doida, duma vivacidade surpreendente.
Tanto que foi crescendo de ninguém se dar conta, aprendeu a ler na cacunda dos
outros e a escrever com a munheca alheia. De tão liso, passava pito, chegava na
frente, maior mangação: se era pintomba, aos cachos mais que qualquer; manga
rosa, de tuia; abacate, aos montes. Vendia de tudo, até do vizinho. Juntava os
trocados escondidos a sete chaves, ninguém que soubesse. Esmolava até, se
possível, só pra dar o gostinho de manhar engodo. Mais taludo, fazia que dava
com a direita o que escondia com a esquerda, ladino, enrolador. Tapiava todo
mundo, incólume. Adolescia engabelando quem lhe aparecesse na frente, e na
maior lábia aplicou das suas e embuchou uma, duas, três. Quando falaram em
casório, ele deu maior pinote. E assim foi, daqui pra acolá, engravidando as
achegadas. Nem sabia dos rebentos até o dia que aportou em Alagoinhanduba e o seu
cerco se fechou. Danou-se! Casar de mesmo, nunca; amancebou-se com uma das
reboculosas vítimas, produzindo uma infieira de bruguelo de não ter mais fim. Trocava
de mulher, bastava não querer mais da encheção de saco. Ardiloso, jamais perdia
tempo nem sucumbia em contratempos, aprontava e só. Chegava a hora dos meninos
pra escola, e ele: Eu só estudei até a segunda série ginasial e aprendi de tudo
com a vida, a minha escola é a vida. A mulher insistia, ele botou a filharada
em escola pública, era de graça. Gastar não era com ele, nunca gostou de perder
nada, mesmo quando foi reprovado três vezes no segundo ginasial, abandonando e
aprendendo com a cara e a coragem o que pra ele era o suficiente para aprender:
tirar proveito dos bestas e enricar, só. Acossado pelo desvio de um dos rebentos
metido a sabochão, ele berrou: Menino, vá pra escola pra ser gente, vá! Nem deu
tempo o menino virar as costas e ouvir dele: Se eu descobrir quem inventou
estudo, eu mando matar. O menino saiu confuso, o que aprendia na escola,
desaprendia com ele. Mais tivesse de desatino, mais disparate prosperava.
Exemplo que é bom, ao contrário. Até o dia que ele botou todos os filhos que
tinha por enteados pra correr mundo afora. Ficou sozinho na sua mancebia,
lapadas e peiadas diárias, com prevenção pra não vê-la mojada. Esperto, sequer
sabia o que possuía, tudo oculto, ninguém que desse ciência, valha-me, nada de
olho gordo no seu quinhão, para tanto, lamuriava muito, maldizia da vida,
sempre a provocar a caridade de desavisados. Mão de figa, ralhava a mulher da
vez. Ele, nem nem. Um dia ele teve um troço e bateu as botas. Fizeram farra nas
sua fortuna, um tesouro quase perdido, agora festa nos seus restos mortais. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
terça-feira, dezembro 19, 2017
NIETZSCHE, CALLADO, TEILHARD DE CHARDIN, EUCLIDES DA CUNHA, AL DI MEOLA, PETRARCA, ALISA WEILERSTEIN, NATHAN OLIVEIRA, BRIAN BOOTH CRAIG & CULTURA DE PERNAMBUCO
TANTO JUNTOU
& BABAU! – Imagem: Alongtimealone,
do pintor, gravurista e escultor
estadunidense Nathan Oliveira (1928-2010) - Anclotinato
era tinhoso, sabido, astucioso, menino feito os pés da doida, duma vivacidade surpreendente.
Tanto que foi crescendo de ninguém se dar conta, aprendeu a ler na cacunda dos
outros e a escrever com a munheca alheia. De tão liso, passava pito, chegava na
frente, maior mangação: se era pintomba, aos cachos mais que qualquer; manga
rosa, de tuia; abacate, aos montes. Vendia de tudo, até do vizinho. Juntava os
trocados escondidos a sete chaves, ninguém que soubesse. Esmolava até, se
possível, só pra dar o gostinho de manhar engodo. Mais taludo, fazia que dava
com a direita o que escondia com a esquerda, ladino, enrolador. Tapiava todo
mundo, incólume. Adolescia engabelando quem lhe aparecesse na frente, e na
maior lábia aplicou das suas e embuchou uma, duas, três. Quando falaram em
casório, ele deu maior pinote. E assim foi, daqui pra acolá, engravidando as
achegadas. Nem sabia dos rebentos até o dia que aportou em Alagoinhanduba e o seu
cerco se fechou. Danou-se! Casar de mesmo, nunca; amancebou-se com uma das
reboculosas vítimas, produzindo uma infieira de bruguelo de não ter mais fim. Trocava
de mulher, bastava não querer mais da encheção de saco. Ardiloso, jamais perdia
tempo nem sucumbia em contratempos, aprontava e só. Chegava a hora dos meninos
pra escola, e ele: Eu só estudei até a segunda série ginasial e aprendi de tudo
com a vida, a minha escola é a vida. A mulher insistia, ele botou a filharada
em escola pública, era de graça. Gastar não era com ele, nunca gostou de perder
nada, mesmo quando foi reprovado três vezes no segundo ginasial, abandonando e
aprendendo com a cara e a coragem o que pra ele era o suficiente para aprender:
tirar proveito dos bestas e enricar, só. Acossado pelo desvio de um dos rebentos
metido a sabochão, ele berrou: Menino, vá pra escola pra ser gente, vá! Nem deu
tempo o menino virar as costas e ouvir dele: Se eu descobrir quem inventou
estudo, eu mando matar. O menino saiu confuso, o que aprendia na escola,
desaprendia com ele. Mais tivesse de desatino, mais disparate prosperava.
Exemplo que é bom, ao contrário. Até o dia que ele botou todos os filhos que
tinha por enteados pra correr mundo afora. Ficou sozinho na sua mancebia,
lapadas e peiadas diárias, com prevenção pra não vê-la mojada. Esperto, sequer
sabia o que possuía, tudo oculto, ninguém que desse ciência, valha-me, nada de
olho gordo no seu quinhão, para tanto, lamuriava muito, maldizia da vida,
sempre a provocar a caridade de desavisados. Mão de figa, ralhava a mulher da
vez. Ele, nem nem. Um dia ele teve um troço e bateu as botas. Fizeram farra nas
sua fortuna, um tesouro quase perdido, agora festa nos seus restos mortais. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.sexta-feira, março 13, 2015
JUNG, SEFÉRIS, VARGAS LLOSA, FITO PÁEZ, JAWLENSKY, CACASO, DANA DELANY & BIG SHIT BÔBRAS!!!!
BBB: O BIG SHIT BÔBRAS – Na atualidade a maior emergência
cultuada pelos Fabos do Fecamepa é o Big
Shit Bôbras: o voyeurismo que dá andamento na privatização do público e,
por consequência, publiciza o privado, renovando o individualismo possessivo e
transformando-o no umbigocentrismo catatônico na pipocada dos shopaholics com
suas oniomanias. Essa é a festa carnavalizante dos que não estão nem aí para
quem pintou a zebra e dos que arvoram no ditado ora, faça-me um favor pra viver
plenamente a felicidade disso tudo! Veja mais aqui. E mais aqui & aqui.
O SOL NOSSO – O poeta simbolista grego da geração
neogrega de 1930, Giórgos Seferiádhis ou simplesmente Giórgos Seféris (1900-1971), recebeu o Prêmio Nobel de Literatura
de 1963. Do seu livro Diário de bordo
(Poesia Moderna da Grécia – Guanabara, 1986), destaco O Sol nosso, numa tradução de José Paulo Paes: Este sol era o meu e era o teu: o sol que partilhamos. / Quem sofre
atrás da dourada cortina de seda? Quem está morrendo? / Uma mulher gritava
batendo o peito murcho: “Seus covardes, / pegaram meus filhos e os fizeram em
pedaços, mataram-nos, vocês, / enquanto olhavam, com estranha expressão no
rosto, os vagalumes da noite, / absortos numa cisma cega”. / O sangue secava na
mão que enverdecia sob as árvores / um guerreiro dormia apertando contra si a
lança que lhe iluminava o flanco. / Este sol era o nosso, nada víamos além da
franja de ouro / mais tarde vieram os mensageiros ofegantes sujos / balbuciando
sílabas confusas / vinte dias e noites sobre a terra estéril, só espinhos, /
vinte dias e noites sentindo o sangue empapar o ventre dos cavalos / sem
deterem-se um minuto para beber água de chuva. / Disseste que repousassem
primeiro, depois falassem, a luz te havia ofuscado. / Expiraram dizendo “Não
temos tempo” e tocando alguns raios; / tu bem sabias que ninguém repousa. /
Uivava uma mulher “Covardes”, como um cão na noite; / teria sido outrora bela
como és, / com a úmida boca, as veias vivas sob a pele, / com o amor. / Este
sol era o nosso; tomaste-o inteiro, não querias seguir-me / e foi por trás do
ouro que fiquei sabendo destas coisas. / Não tínhamos tempo. Os mensageiros
disseram a verdade. Veja mais aqui, aqui e aqui.
DOS SERTÔES À GUERRA DO FIM
DO MUNDO – Imagem: Foto de líder social de Canudos, Antônio Conselheiro, do fotógrafo Flávio de Barros. - Tudo começou
quando, em 1896, o líder social Antônio Vicente Mendes, o Antônio Conselheiro (1830-1897), um peregrino com dimensões
messiânica que se transformara na expressão de um mundo de crenças primitivas e
miséria, liderando, às margens do Rio Vaza-Barris, o arraial de Canudos, um
vilarejo no sertão da Bahia, que atraiu milhares de sertanejos, entre
camponeses, índios, escravos recém-libertos, resultando na Guerra de Canudos,
um verdadeiro genocídio do Exército da República. Por essa razão, em 1897,
chega a Canudos o escritor Euclides da
Cunha (1866-1909) para fazer a cobertura dos últimos acontecimentos de
combate e à queda do arraial. Procurando contar a verdadeira história e
desmistificando a campanha política que se fizera em torno do acontecimento,
denunciando a barbárie e provando que Canudos não era um problema político, mas
uma questão social, o autor publicou Os
sertões (1902). Na esteira desse mesmo tema, o escritor, jornalista e
político peruano Mario Vargas Llosa,
Prêmio Nobel de Literatura de 2010, escreveu o seu livro A Guerra do Fim do Mundo: a saga de Antônio Conselheiro na maior
aventura literária do nosso tempo (Francisco Alves, 1981), dedicado a
Euclides da Cunha e Nélida Piñon, cujo fragmento destaco: A multidão continuou atrás do Conselheiro ao logo do Vaza-Barris, por
esses campos que os escolhidos tinham lavrado, enchido de milho, mandioca,
pasto, cabras, ovelhas e vacas. Desapareceria tudo isso, arrasado pela heresia?
Também viu fossos no meio dos roçados, e homens armados. O Conselheiro, de pé,
sobre um montinho, falava claramente da guerra. Vomitariam água em vez de balas
ou fuzis dos maçons? Ela sabia que as palavras do Conselheiro não deviam ser
tomadas em sentido literal, porque frequentemente eram comparações, símbolos
difíceis de decifrar, que só se podiam identificar claramente com os fatos
quando estes ocorriam. Parara de chorar, acenderam tochas. Um aroma suave
dominava o ambiente. O Conselheiro explicou que o cavalo branco do Corta-cabeças
não era novidade para o crente, pois não estava escrito no Apocalipse que viria
e seu cavaleiro levaria um arco e uma coroa para vencer e conquistar? Mas suas
conquistas cessariam às portas de Belo Monte por intercessão de Nossa Senhora.
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui , aqui e aqui.
O AMOR É UMA GRANDE
FANTASIA – A comédia O amor é uma grande fantasia (Exit to Eden, 1994), é baseado no
romance homônimo da escritora estadunidense Anne Rice, adaptado por Deborah
Amelon e Bob From, dirigido por Garry Marshall e música de Patrick Doyle,
contando a atividade de um casal de policiais que deve prender contrabandista
que se escondeu, com sua cúmplice, num spa sexual. Eles assumem falsas
identidades para se hospedar no local, mas enfrentam problemas devido à
curiosidade da reprimida policial e ao impulso que o estabelecimento dá à
libido dormente de seu parceiro. Para o destaque do filme mesmo foi a atuação
da atriz estadunidense Dana Delany
que muito me envolveu. Veja mais aqui.terça-feira, janeiro 20, 2015
SARA TEASDALE, AMOS TUTUOLA, LILA RIPOLL & SELMO VASCONCELLOS
CREOLINALDA, A
REENCARNAÇÃO DE FRINEIA... – (Imagem: art by Hamish Blakely) Creolinalda vivia todo dia só de escrever
no diário e resolveu partir pra ação. Sim, justo no dia que tomou conhecimento da
vida de Frineia Mnesarete, que colhia alcaparras e tinha vários nomes - entre
eles o de memória da virtude, que ela mesmo mudou porque comparavam-na com uma
rã. Em verdade chamavam-na de Saperdion, nome que depois até assumiu. Era uma
cortesã de extraordinária beleza e muito rica da Beócia. Uma história
fascinante aos seus olhos e, tal qual ela, para lá de injustiçada: Sou a
reencarnação dela. E pesou prós e contras, aferiu o resultado e mandou ver
assumindo a persona. Começou encarando logo um conflituoso enfrentamento com
seu pai Epicles – até nisso, talqualzinho. Depois deu um trato nas madeixas,
hidratou a pele, vestiu-se dum maiô menor que o seu tamanho e, pôs por cima, um
vestido provocativo com decote pronunciado, saias soltas e colado dos quadris
aos ombros. Pronta foi desfilar pelas ruas provocando olhos esbugalhados com
seu rebolado: Pronde ela vai tão faceira? Foi até à margem do rio, exibiu sua
formosura, soltou os cabelos, despiu-se e entrou nua nas águas, à vista do povo
que a perseguia. Milagre! Para quem presenciou era a ressurreição de Afrodite.
Os marmanjos da cidade testemunharam em peso, todos pendurados delirantes - uns
às quedas de maduro; outros se sustentavam entre galhos e capoeiras, como
podiam. Lá pras tantas ela emerge exuberantemente faceira, veste-se e retorna
desfilando para sua residência. Por dias foi o assunto dominante nas fofocas
simpatizantes e antipatizadas da cidade. Não faltou assédio dos mais
atarantados machos, até um ricaço que chegou com um buquê de flores, coração na
carteira e chamando-a de Sapozinho. Artistas assediavam-na para posar em suas
pretensas obras de artes e não se fez de rogada: foi Maria Madalena para os
pincéis de Apeles, foi Vênus para as telas de Praxíteles, foi santa beldade nua
para os desenhos de Knidos. Essa moça virou puta! -, gritava-lhe o pai revoltado
com uma ruma de descarados poetas a sacudir-lhe versos apaixonados. Não
faltaram à sua porta saraus apaixonados promovidos por pretensos Bilac,
Baudelaire e Rilke, outros tantos poetastros com zis versos afetados, uma suposta
ópera de Saint-Saens, um pretenso filme de Blasetti e a nomeação de um
asteróide pelos fanáticos cientistas locais. Até um padre desencaminhou-se para
exaltar com todo tipo de apologias a hetera de Téspias. Dali em diante começou
a usar umas saias justas e curtas, um decote pronunciado, um rebolado cativante
e, todo dia, ia tomar banho no rio para desespero de espectadores ávidos. Dizem
que até Luís Gonzaga sapecou um xote tataritaritatá pra ela. Mais provocante
exibia-se na janela enxugando os cabelos, esfregando-se sedutora. Como nunca
usou de maquiagem, sua beleza era verdadeira e plena. As suas feições eram
naturais: você é crente minha filha? Não, senhor. Prestimosa começou a ajudar
senhores viúvos, passou a ser educada com os marmanjos enamorados e a ter
amigas de má reputação, ganhando o opróbrio popular. Nem aí. Num disse: essa
menina se perdeu mesmo! Alheia aos escárnios ela participava de apostas com
outros rapagões e, quando perdia, nem se acanhava de exibir suas partes
pudendas pros sortudos presentes, razão pela qual cochichavam que ela era mais
bonita nas partes que não se viam. Adotou de vez, por isso, o nome de batalha
Frinéia de Mnesarete. E se manteve firme. Todos queriam pintá-la, poetá-la,
fotografá-la, movimentando a economia do lugar: todos queriam comprar as artes
que ela inspirava, principalmente os recitais com epigramas os mais lascivos em
sua homenagem e a fruição visual completa do corpo da deusa no centro da cena.
Tributaram-na com um monumento: uma escultura talqualzinha ela era, virou ponto
turístico de massa. Até um maníaco sexual foi flagrado e preso porque queria
fazer amor ali, na frente de todo mundo, com ela. Teve até endoidados que
queriam casar com a estátua, até ser roubada, mas logo descoberta: o sujeito
havia sido acometido da loucura de Pingmalião e venerava para que ela
envivecesse. Como? Lascou. Ao resgatá-la aos puxavanques, porque o sujeito guerreou
até a morte para não devolvê-la nem a pulso. Fatos estranhos até deram conta de
que das pinturas ela aparecia vivinha da silva, passando a viver maritalmente
com o seu comprador. Por conta disso não faltaram jovens levados à tentação da mão
hábil em sua homenagem e com suas poses impressas:
vai que ela ganhasse vida na frente deles, hem? Essa era a esperança deles.
Episódios de agalmatofilia retumbaram, incidentes com casos de acasalamento com
a imagem e os que não conseguiam torná-la viva se matavam – foram suicídios em
cadeia, tanto de jovens mancebos, como de empirocados marmanjos e provectos. Descobriu-se
até um ritual devocional em sua honra, findando todos mortos exauridos de
êxtase sexual. Afora os tantos de ricos que apareciam dispostos a despender
grandes somas para adquiri-la, fulminados pela bancarrota. Evidente que ela se aproveitou
disso e angariou fama e riqueza, afora autocelebrar-se, aparecendo furtivamente
em trajes provocativos, destinados a causar agitação, ou através do uso de
aparições públicas cenográficas, raras e estudadas. Seu nome passou a ser
rabiscado nos muros, quando não gravado nos edifícios públicos. Eis que um dos
vitimados se passou por ex ressentido pelos ciúmes e acusou-a de extorsão e
traição instaurada pelo escândalo
da mutilação dos Hermes. Como?
Foi que um jovem não suportando ser recusado por ela, atirou no próprio pênis,
decapitando-o e tornando-se eunuco dali por diante. Além disso novas acusações
de gananciosa, de inescrupulosa, de monstra, exibicionista, traiçoeira e
ruinosa pros apaixonados amantes sujeitos à rapacidade, vez que ela subjugava
seus pretendentes, extorquia dissolutos, era o que diziam, batiam o pé. Ela nem
aí. Queixas amontoavam na delegacia, ofensas ditas graves e reiteradas, a ponto
do promotor exigir sua prisão e condenação à pena de morte. Foi julgada e
sentenciada pela condenação: a cidade em peso acompanhou-lhe a prisão. Na hora
da execução emergiu um defensor exigindo o Tribunal do Júri. Durante o
julgamento público ela foi levada sob escolta policial e o acusador ao vê-la foi
castigado com a mudez e nunca mais deu nem um pio pra remédio, tendo sido
cassado e condenado a pagar as custas processuais. O tribunal ficou em
polvorosa com a sua presença, nem o seu defensor conseguiu balbuciar qualquer
palavra em sua defesa. Ela então ofereceu-se à condenação despindo-se: Podem me
matar, sou condenada. Uma ovação! Ela foi absolvida sob a condição de aparecer
publicamente uma vez por semana para limpar os olhos dos infelizes admiradores.
Veja mais abaixo e aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS - É estranho como um coração deve ser
partido com frequência antes que os anos o tornem sábio... pensamento da poeta estadunidense Sara Teasdale
(1884–1933), que na obra The Collected Poems (Digireads, 2012) apresenta
um de seus poemas: Pensei em você e em
como você ama essa beleza, \ E caminhando pela longa praia sozinho \ Ouvi as
ondas quebrando em trovões medidos \ Como você e eu uma vez ouvimos seu tom
monótono. \ Ao meu redor estavam as dunas ecoando, além de mim \ A prata fria e
brilhante do mar \ - Nós dois passaremos pela morte e as eras se alongarão \ Antes
que você ouça esse som novamente comigo. Veja mais
aqui e aqui.
ALGUÉM FALOU: O mal não está em falar da tristeza ou da
angústia. O mal é não encontrar saída para a desesperação... Pensamento da poeta, pianista e
militante comunista Lila Ripoll (1905-1967), autora do poema: Solidão brinca comigo um jogo de esconde,
esconde.\ Desaparece um momento e surge não sei de onde.\ Solidão se esconde e
volta, moe a vida, o sonho, o amor.\ Ah! Jogo de esconde, esconde, esconde
também a dor. E doutro poema: Não me estendas a mão, \ que o tempo endureceu meu peito.\ Sou
poeta. Obrigatório é para mim o sonho.\ Concede-me o direito de sonhar.
Também de Pedido: Não me falem de tristezas \ que eu as conheço de cor. \ Falem-me
sim de alegrias,\ que tem um gosto melhor.\ De tristezas — o meu peito \ gastou
anos a chorar.\ Tirei um curso de mágoas. \ Ninguém me pode ensinar. Veja
mais aqui e aqui.
O BEBEDOR DE
VINHO DE PALMA - [...] Eu era um bebedor de vinho de palma desde
que eu era um menino de dez anos de idade. Eu não tinha outro trabalho além de beber vinho de palma na minha vida. - - - Mas quando meu pai percebeu que eu
não conseguia fazer nenhum trabalho além de beber, ele contratou um
especialista em vinho de palma para mim; ele não tinha outro trabalho além de bater vinho de palma todos os dias. Então meu pai me deu uma fazenda de
palmeiras que tinha nove milhas quadradas e continha 560.000 palmeiras, e esse
tapador de vinho de palma estava batendo cento e cinquenta barris de vinho de
palma todas as manhãs, mas antes das 2 da tarde, eu bebia tudo; depois disso ele ia e batia outros 75
barris. [...]. Trechos extraídos da obra The Palm-Wine
Drinkard (Faber
& Faber, 2014), do escritor nigeriano Amos Tutuola (1920-1997), que no livro Ajaiyi and His
Inherited Poverty (Faber & Faber, 2015), expressa que: […]
O falcão brinca com o pombo e o pombo fica feliz, mas não
sabe que está brincando com a morte. [...] Eu
tinha esquecido que as coisas poderiam mudar no futuro e que essa promessa era
uma dívida [...]. No livro L’ivrogne dans la brousse (Gallimard, 1952),
ele expressa que: [...] A cada vez que os mortos nos viam, eles faziam ouvir
barulhos desagradáveis que mostravam que eles nos odiavam e também que estavam
furiosos por os ver vivos. [...]. No livro The
Village Witch Doctor and Other Stories (Faber
& Faber, 2014), ele traz: […] Se
continuarmos a pagar "mal" por "mal", o mal nunca acabará
na Terra [...].
Por fim, no livro My Life in the Bush of Ghosts (Faber & Faber, 2014): […] Tendo deixado esta vila a uma distância de uma milha, este mágico fantasma
veio até mim no caminho, ele me pediu para deixar nós dois compartilharmos os
presentes, mas quando eu recusei, ele mudou para uma cobra venenosa, ele queria
me morder até a morte, então eu mesmo usei meu poder mágico e mudei para um
longo bastão no mesmo momento e comecei a bater nele repetidamente. Quando ele sentiu muita dor e quase
morreu, então ele mudou da cobra para um grande fogo e queimou este bastão até
as cinzas, depois disso ele começou a me queimar também. Sem hesitar, eu mesmo mudei para chuva,
então eu o apaguei imediatamente. [...]. E
dele destaco o pensamento: Depois de viajarmos por dois dias e meio,
chegamos à estrada dos Mortos, de onde os bebês mortos nos expulsaram, e quando
chegamos lá, não pudemos viajar por ela por causa dos bebês mortos
assustadores, etc., que ainda estavam lá.
DOIS POEMAS - O HOMEM NO MEIO SOCIAL - O Homem com toda
fortaleza \ é um fraco.\ Enquanto está bem esconde\ sua fraqueza.\ Quando está
só\ Busca em Deus que tenha dó. \ Reza, promete, implora,\ Fala, grita e chora.
CORPO A CORPO - Foi uma luta tão limpa, \ Cristalina, transparente, evidente,\ Clarividente,
serena.\ Carne contra carne,\ Músculos contra músculos,\ Sangue, sangue,
sangue...\ Foi um luta tão limpa!
Poemas do poeta carioca radicado em Rondônia. Selmo Vasconcellos, editor
do Lítero Cultural, do jornal Alto Madeira e colaborador do Rondônia ao vivo. Ele
é autor dos livros Rever verso inverso (1991), Nictêmero (1993), Pomo
de discórdia (1994), Resquícios ponderados (1996) e Leonardo, meu
neto (antologia,2004). Veja mais aqui e aqui.
SACADOUTRAS
A HONRA DOS SERTÕES À MORTE – Contava eu com uns 13 pra 14 anos de idade (por aí, quase meados dos
anos 1970), quando li Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909). Por esse
tempo eu me tinha poeta parnasiano roxo (vixe! A gente faz cada coisa na vida,
hem?), tanto que publiquei à época um poema rebuscadíssimo Fotogenia enfática de um mentecapto alógico (eita!?! Que droga é
nove? Coisa de iniciante!), que foi publicado no informativo do glorioso Grêmio
Cultural Castro Alves, do Colégio Diocesano. Ainda guardo comigo um exemplar
desse informativo, boa lembrança desses tempos colegiais. Lembro bem que passei
uma tarde inteira na varanda da casa do Gulú debatendo com ele a respeito da
obra e, nesse entusiasmo escrevi uns textos e apresentamos (eu, Gulu, Ozi, Zé
Ripe, Célio Carneirinho, Chicanjo Meyer e Mauricinho Melo Júnior, violas,
batuques e amostramentos), o melodrama Sertão,
Sertão pros alunos na quadra do colégio. Foi um sucesso! Mas falando de
Euclides, disse Sílvio Romero: “[...] Da
vida e do fim trágico de Euclides da Cunha, não direi por enquanto, de
primeira, por falta de documentos; de segundo, por ser ainda inoportuno tratar
de tão doloroso caso”, fato esse repetido por uma professora na faculdade
que tinha Deus no céu e Euclides na terra, enfatizando o que dizia Darcy
Ribeiro: “[...] o maior escritor
brasileiro - raquítico, tímido e nervoso -, é assassinado pelo amante de sua
mulher, quando tentava matá-lo. Anos depois, o assassino – um major bonitão e
espadaúdo, campeão de tiro mata o filhe de Euclides. Também em legítima defesa”.
É que o escritor foi envolvido num triângulo amoroso: a sua esposa Ana de
Assis, a Saninha (ou melhor, Ana Emília Solon Ribeiro), tinha um amante, o tenente
Dilermando de Assis, que com ela teve dois filhos. Por conta disso, o escritor na
tentativa de vingar a honra, armado, invadiu a casa do traidor, deu-lhe três
tiros e findou morto. O assassino conseguiu reagir, matou o escritor e foi
absolvido por legítima defesa. Tempos depois, o filho de Euclídes resolveu
vingá-lo, atirando nas costas do odiado que, mesmo ferido, conseguiu matá-lo:
pai e filho mortos. Desse caso muitas coisas rolaram. Em 1990, a Rede Globo
apresenta a minissérie Desejo,
escrita por Gloria Perez, contando o caso do assassinato. Fui ver o dvd, afinal
Vera Fisher protagonizava como Saninha, a esposa de Euclides. Vera é Vera,
imperdível sempre, principalmente na cena com os filhos quando ela diz: “Eu não errei, eu amei!”. Depois vieram
os livros Crônica de uma tragédia
inesquecível: do processo Dilermando Reis, que matou Euclides da Cunha, de
Walnice Nogueira (Terceiro Nome, 2007); Matar para não morrer, da historiadora Mary del Priore
(Objetiva, 2009) e Matar ou
morrer: o caso Euclides da Cunha, da
procuradora e professora Luiza Nagib Eluf (Saraiva, 2009). Até o Mário Vargas
Llosa inspirou-se na obra do escritor brasileiro para escrever o seu A guerra do fim do mundo: a saga de Antonio
Conselheiro na maior aventura literária do nosso tempo (Francisco Alves,
1981). Mas Os sertões é uma obra e
tanto, um dos clássicos da Literatura Brasileira, meritória de registro: começa
com uma abordagem acerca da geografia do sertão baiano, assinalando que: “O sertão de Canudos é um índice sumariando a
fisiografia dos sertões do norte... E o sertão é um paraíso...”. Adiante
ele menciona que: “[...] O martírio do
homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia
geral da vida. Nasce do martírio secular da Terra...”, fato que o faz
constatar que: “[...] O Brasil era uma
terra do exílio; vasto presídio com que se amedrontavam os heréticos e os
relapsos, todos os passiveis do morra per ello da sombria justiça daqueles
tempos...”, arrematando que: “O
sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos
mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro
lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o
desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas...”. No
final ele escreve: “Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao
esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo,
caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que
todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança,
na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados. Forremo-nos à
tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta
página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la
vacilante e sem brilhos. Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto,
a par de uma perspectiva maior, a vertigem... Ademais, não desafiaria a
incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem
mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos
pequeninos?... E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra
humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os
prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antonio Beatinho,
que se nos entregara, confiante – e a quem devemos preciosos esclarecimentos
sobre esta fase obscura da nossa história? Caiu o arraial a 5. No dia 6
acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casaas, 5.200, cuidadosamente
contadas”. Veja mais aqui.
PROGRAMA
TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar
todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e
radialista Meimei Corrêa na Rádio
Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aqui. Logo mais, a partir das 21hs (horário de Brasília), acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá com muita festa e a apresentação da querida Meimei Corrêa. E com as seguintes atrações na programação: MPB 4 & Quarteto em Cy, Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco, Elba Ramalho, Chico César, Geraldo Vandré, Cátia de França, Herbert Viana, Vital Farias, Glória Gadelha, Sonia Mello, Ricardo Machado, Mazinho, Santana o Cantador, Abdias dos Oito Baixos, Lucy Alves, Renata Arruda, Eliza Clívia, Lysia Condé, Elisete Retter, Alex Rios Silva, Mônica Brandão, Zé Ramalho, Os Vips, Roberto Luna, Roberta Miranda, Marconny Melo & muito mais! Veja mais aqui.GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS
Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
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