quarta-feira, junho 16, 2021

JAMES JOYCE, BERENICE ABBOTT, A DANÇA DA FILHA & DIA LÁ DE ALAGOINHANDUBA

 

 

TRÍPTICO DQP – Diário de lembranças - Ao som do álbum Bloomsday (Cult, 2018), do produtor musical instrumental estadunidense Esbe. - Era madrugada, cabeça ao travesseiro estrelado e nos meus olhos entreabertos e sonolentos o onírico amanhecer dublinense de Eveline. Lá estava ela com Nora e contávamos os mortos porque o jovem artista ainda brincarte de sonhar, não saberia o que da vida fora feito. Não sabia onde estava Ulysses, só ouvia o Monólogo de Molly porque estávamos todos exilados no meu país em que tudo se perdia e se esfacelava. Nem ouvíamos o aviso de que não se devia confiar nas aparências: é que pensávamos ser aqui o éden e não passava de uma lenda do Hy-Breazil. Perdíamos a festa, Bloomsday, só do Finnegans Wake: … Primeiro falamos. Depois falimos. E que ela chova agora se quiser. Brava ou leve, como ela queria. Restavam leitoras de James, leituras de Joyce. Tão logo evaporou o devaneio, sumiram... Sem ao menos qualquer despedida, foram embora, e eu estava condenado aqui, fazendo o meu diário de lembranças: andanças pelo país para conhecer melhor a indigência e os perigos do Brasil: armadilha de bumerangue – todos gritam e ninguém se ouve, mãos vazias e chorar por nós mesmos.

 


Dois passos & a dança da filha - Imagem: The dancer Lucia Joyce (1927), da fotógrafa estadunidense Berenice Abbott (1898-1991) & Bloomsday – Dublin & Ao som de Bloomsday, do álbum I Guess We Live Here Now (Independent, 2021), da compositora e cantora estadunidense Samantha Crain. – Mal despertei e ela dançava pelo quarto, pés descalços e túnica, passos euritmicos de Dalcroze e imersão da Akademia, como se fosse da comuna de Neuilly, o coração aberto e a vida solta uma nova era. Quem aquela? Não havia como saber, só quando ela falou da sua vida enquanto rodopiava o seu fascínio no meu coração. Era a filha perdida, tornou-se a dançarina notável Lúcia: Sou eu quem é o artista. E eu embalado pela vanguarda dos seus gestos, a me dizer que foi enterrada no meio de uma história conturbada de incesto e extravagâncias. Era ela a musa trágica de Trieste - Carl Jung que o diga: ele e o pai dela protagonizaram farpas e raios que abalaram o planeta. Do outro lado surgiu o enamorado Samuel Beckett agitando as mãos enlouquecidamente: A mulher irlandesa! Um pouco de justiça, senhores! E mostrava para guardar a foto da sua performance de peixe prateado yeatsiano pelo resto da vida. E mais hipnotizado com a sua dança grega, mais me dizia das lições do movimento livre de Margaret Morris, o treinamento físico com Kitten - Kathleen Neel e a recusa da oferta de emprego da irmã de Duncan, a Elizabeth, para lecionar na escola de Darmstadt, perto de Frankfurt. E dançou La petite marchande d'allumettes (The Little Match Girl, 1928), do cineasta Jean Renoir (1894-1979), enquanto se desmanchava pela série de namoricos e noivados rompidos e o idílio com Mary Wigman. Desabou desconsolada, o colapso nervoso quando o irmão Giorgio a levou para ser encarcerada em manicômios, camisas de força e soro bovino. Não sabia da morte do pai dela, seu único defensor – aquele mesmo que mantinha reservas, considerava impróprio dançar no palco. A mãe nunca a visitara e o irmão apenas uma única vez, aprisionada no asilo de St Andrew, em Northampton. Vi quando o sobrinho Stephen guardou seu romance, poesia e correspondências com o pai e destruiu tudo da Biblioteca Nacional da Irlanda. Os amigos seguiram os passos e destruíram sua correspondência, silenciando-a, roubando-lhe o arbítrio e tornando-a um espaço vazio supino. Revi tudo dela no livro Lucia Joyce: To Dance in the Wake (St. Martins, 2003), da escritora Carol Loeb Shloss, e no curta-metragem Lucia Joyce: Full Capacity (2020), da cineasta Deirdre Mulrooney, estrelado por Evanna Lynch. Nunca imaginara aquilo tudo, não era sonho, o travesseiro revelara.

 


Três dias lá... – Levantei-me assustado, o que estava acontecendo comigo? Sei lá! Se não me livrara do espelho de Wang Tu, agora, cada vez mais, refém do travesseiro de Chen-Tsi-Tsi. Onde estava? Quem sabe... Fui ver: em Alagoinhanduba era Dia Lá, aquele que se comemorava dia 29 de fevereiro ou 31 de abril. Eita! Às vezes se esqueciam do evento e folgavam de novo no segundo semestre num dia que desse na veneta, emendando outros feriados, na farra de correr bicho, desenvultar assombração e gente se envultar na força da Teibei. O Dia Lá era tão arrepiado que teve uma vez começou às vésperas do carnaval e só terminou na sexta-feira santa, isso porque Jesuisis do Jegue passou da conta nos birinaites e bateu as botas assim do nada: o choro foi tamanho, morreu de novo aquele que nasceu no alinhamento dos planetas do dia 5 de fevereiro de 1962. Como é? Sim. Foi mesmo? Tais brincando! Na vera, tal como o Giro, lembra? Eita, quem o Anticristo? Sei lá. Ninguém nunca mais viu o Giro. Olha lá, o Jesuisis ressuscitou de novo. Foi mesmo? Agorinha, olhelelá! Benzodeus. E agora? É Dia Lá, vambora que ainda tem muita festa para comemorar! Tome cipoada para cima: Simbora putada! Até mais ver.

 

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