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segunda-feira, outubro 10, 2016

FROMM, POE, GREENAWAY, FELLINI, EUCLIDES DA CUNHA & ZÉ CELSO, MAYA BEISER, MARTHA GRAHAM, GERALDO CARNEIRO, NIETZSCHE, RIOPELLE, MILHAZES, CLÉSINGER, GARRIDO, BESNARD & ASTECAS


INEDITORIAL: DE PERTO NINGUÉM É MESMO NORMAL! - Salve, salve, gentamiga! De perto ninguém é normal meeeeeesmo! De noite ainda dá pra tapiar: toda gata é parda e qualquer trubufu vira miss da hora – feito as fotos que o povo posta nos perfis das redes sociais, maior lindura! Quem, qual Ulisses, nunca já foi enfeitiçado pelo canto mavioso de sereias descoladas pelos descaminhos prazerosos tarde da noite, hem? Quando vai ver, tête-à-tête, vixe! Basta a primeira fresta da claridade pra se ver agarrado com Urutau que deixa ecoando no quengo o seu sinistro canto: foi, foi, foi, foi. A certidão da lasqueira: merda feita, culpa peita. Lascou, feito visita de mais de três dias: chatura braba. Por educação não dá nem pro pé na bunda e correr da raia; fica e vai descobrindo outras particularidades nada simpáticas. Aí finda genuflexo pelamordedeus abrir um buraco no chão e se socar dentro. Adianta nada! Primeiro, não existe mulher feia, no máximo descuidada ou mal ajambrada – qualquer banho de loja e fica nos trinques, evidentemente, porque se Deus criou algo para rivalizar consigo mesmo, com o Sol, as estrelas, o infinito e todas as maravilhas do mundo, esse ser é a mulher. Anote e aprenda. E, segundo, não adianta apelar pra pena de morte porque aí vira suicídio e não tem a menor graça. Está lembrado daquela cena do Foucault? O condenado, um cavalo amarrado em cada membro, assim: um em cada braço, outros em cada perna e um apertado no gogó, cada um para direções opostas, um pipoco e eles partem cada qual pro seu lado, deixando o desgraçado só os trapos arrastado pelo chão, devidamente esquartejado. Viu? Talqualmente. Mas como hoje é dia da Saúde Mental, preze pela sua e leve a sério. Afinal, endoidecer faz parte, desendoidecer vez em quando, melhor ainda! E vamos aprumar pras novidades do dia: na edição de hoje destaque pra arte do pintor e escultor Jean-Paul Riopelle, O coração do homem de Erich Fromm, a civilização dos Astecas, A carta roubada de Edgar Allan Poe, o cinema de Peter Greenaway homenageando Federico Fellini, a entrevista de Geraldo Carneiro, a Gaia Ciência de Nietzsche, a música de Maya Beiser, a coreógrafa Martha Grahan, a escultura de Auguste Clésinger, Os sertões de Euclides e de José Celso Martinez Corrêa, a fotografia de Luiz Garrido, Congresso de Psicologia do Vale do São Francisco, a pintura de Paul-Albert Besnard & a croniqueta As mil faces do disfarce. Vamos aprumar a conversa & veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
A poesia nossa de cada dia, Mario de Andrade, Gerardo Mello Mourão, Jacques Tati, Camille Saint-Saëns, Empédocles de Agrigento, Jeremy Lipking, Ismael Nery & Maria Claudia Maciel aqui.

E mais:
Tolinho & Bestinha, Giuseppe Verdi, Nora Roberts, Harold Pinter, Franco Zeffirelli, Maria Teresa Horta, Charles Knight, Ed Wood, Richard Senoner, Dolores Fuller, Neuropsicologia & aprendizagem aqui.
Big Shit BÔbras: quando deram um jorge e depois uma júlia num encontro de quarto grau com um ET - a reaparição do padre Bidão! (será?!) aqui.
O contrato social de Rousseau aqui.
Tolinha & Bestinha: Quando Bestinha se vê enrolado num namorico de virar idílio estopolongado aqui.
As trelas do Doro: escambau aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a adversidade aperta, o biltre bota o rabinho entre as pernas aqui.

DESTAQUE: 
Arte do pintor e escultor canadense Jean-Paul Riopelle (1923-2002). Veja mais aqui.

AS MIL FACES DO DISFARCE (Imagem: da artista plástica Beatriz Milhazes)– A face em prantos, mil disfarces ruindo nas lágrimas. Novas poses, máscaras de nunca antes. Tantas revelações emergem noutras muitas mentiras, um passo além do tempo: erros, avanços, recuos, giro de pião. Refaz-se, está na hora de encarar a vida, sai enchendo o mundo de pernas. Pros outros, ah, só simpatia de campeão, firmeza de tronco inarredável, retidão inexorável, amigo de todas as horas. Assim o dia: caras e bocas. Ao entardecer, o suplício. De noite, o retorno à míngua particular. Sozinho, no escuro se espreme. Resolve definitivamente encarar o espelho - fica de cabelo em pé e contata: pior que Dorian Gray. Não sustenta o olhar à sua própria efígie. Dá um passo atrás e ousa levantar os olhos, buscando forças pro inevitável: dar de cara consigo mesmo. Impossível esquivar-se. E repele, nega-se a si mesmo, jamais ver-se a si próprio. Cabisbaixo ouve Os homens ocos de Eliot e deplora. O Poema em linha reta de Pessoa, o seu libelo. Não, nega tudo, nega-se. E se debate, reprimindo-se, imolando-se até a autocomiseração. Reduzido a nada, cinzas de si, chega, junta os cacos dentro da alma e tenta se reerguer. É hora de reagir e vai pra rua espantar seus demônios, expulsá-los aos ventos. Sua dor ficou na porta aberta esquecida e a esmo descarrila até se assustar com um jovem que dá uma tapa carburando as ideias na beira da praia enluarada. Revolve seu ódio, reprime, prende e humilha, até deixá-lo recluso e incomunicável. Estufa o peito de moralista que demoniza a maconha, a putaria, a roubalheira, as folganças irresponsáveis, a incredulidade sarcástica e a propensão inata à maldade. Por desassombro põe a mão sobre a Bíblia, faz o sinal da cruz e segue pra primeira igreja, ajoelhado devoto por exaltadas orações, pedindo perdões pra livrar-se dos castigos e segue de alma lavada pra impor sua justiça a todo mundo, enretando tudo o que, a seu devido ver e achar, está desenretado. Aparentemente apaziguado segue adiante. Perambula na madrugada e o dia amanhece no trabalho. Quando se dá conta está às voltas com o que sempre foi: inventa pinóias, propaga boatos, arma cruzetas, aplica embuste, incrimina o alheio e surrupia o tomado fácil. Punhos fechados no tórax, a vida nos bolsos: um Alexander DeLarge reincidente que auto-absolvido de todas as culpas, circula impune ao som da nona de Beethoven a se glorificar lavando a alma. Ao espelho, nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.
 
UMA MÚSICA: 
Curtindo o álbum Almost Human (eOne Music, 2006), da violoncelista, cantora & produtora israelense Maya Beiser.

O CORAÇÃO DO HOMEM & SAÚDE MENTAL - [...] a ciência criou um novo objeto para o narcisismo - a técnica. O orgulho narcisista do homem em ser o criador de um mundo de coisas dantes não-sonhado, o descobridor do rádio, televisão, força atômica, viagem espacial, e até em ser o destruidor potencial do globo inteiro, deu-lhe um novo objeto para o auto engrandecimento narcisista. [...]  A saúde mental se caracteriza pela capacidade de amar e criar, pela libertação dos vínculos incestuosos com o clã e o solo, por uma sensação de identidade baseada no sentimento de si mesmo como o sujeito e o agente das capacidades próprias, pela captação da realidade interior e exterior, isto é, pelo desenvolvimento da objetividade e da razão.Trecho extraído da obra O coração do homem: seu gênio para o bem e para o mal (Guanabara, 1981), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagens: a arte da dançarina e coreógrafa estadunidense Martha Graham (1894-1991). Veja mais aqui.

PERNSAMENTO DO DIA: Apesar das maravilhas que lhes ocasionava Topilzin, os Toltecas se recusavam a adora Quetzalcoatl, pelo menos como deus único. Temiam as terríveis represálias do sanguinário Tezcatlipoca, seu deus tradicional, sedento de sangue humano dos sacrifícios que Ce Acatl Topilzin Querzalcoatl lhe recusava havia tanto tempo. A preocupação se apoderou deles de tal maneira, que começaram a conspirar contra seu encantador príncipe-deus. Durante esse tempo, Tezcatlipoca se aliava a dois outros deuses do mal e multiplicava, os sortilégios para forçar Topilzin a deixar Tula. Chega mesmo a entrar na câmara obscura do templo onde o jovem príncipe-deus estava em oração. Ele estendeu um espelho mágico que inventara. Olhando-se nele, Topilzin Quetzalcoatl viu um abominável velho enrugado e teve medo: - Se os meus me vêem assim, fugirão. Para acalmá-lo apareceu a divindade maléfica Coyotlinahual (feiticeiro-coiote): - Vou te ajudar a parecer diferente – diz-lhe ele. E o disfarça com uma máscara, de tintura vermelha e penas. Durante esse tempo, o terceiro deus mau Ilhuimecal preparou, em sua caldeirinha infernal, um grande pirão de tomates, pimentão, cebolas, chile, milho e feijão. Misturou tudo num vaso de barro, acrescentando mel selvagem com pulque, álcool terrivelmente embriagador. Convidado a jantar pelos três deuses, Quetzalcoatl, por delicadeza, provou o pirão, decidido, no entanto, a não beber. Apenas o prato estava de tal maneira picante, que não pôde comer. Molhando o dedo na bebida, passou-o sobre os lábios irritados. Depois, com os quatro dedos, repetiu a operação. A seguir usando a mão em concha, bebeu avidamente... Levantou-se, dançou e eufórico pediu: - Vão procurar minha irmã, a adorável Quetzalpetlatl (Trança de Penas), para que bebamos juntos... quando despertou, muito mais tarde, sua irmã repousava despida a seu lado, cabelos despenteados... Quetzalcoatl, horrorizado, compreendeu que, durante a embriaguez, perdera sua castidade e com ela sua dignidade sacerdotal. Trecho extraído da obra A civilização dos astecas (Otto Pierres, 1975), do jornalista e escritor francês Jean Marcilly. Veja mais aqui.


Imagens: a arte do escultor e pintor francês Auguste Clésinger (1814-1883).

A CARTA ROUBADA - [...] O mundo material – prosseguiu Dupin – contem muitas analogias estritas com o imaterial e, desse modo, um certo matiz de verdade foi dado ao dogma retório, a fim de que a metáfora, ou símile, pudesse dar vigor a um argumento, bem como embelezar uma descrição. [...] Há um jogo de enigmas – replicou ele – que se faz sobre um mapa. [...] lançara mão do compreensível e sagaz expediente de não tentar escondê-la de modo algum. [...] uma carta solitária [...] numa letra diminuta, feminina, ao próprio ministro. [...] apanhei o documento, meti-o no bolso e o substituí por um fac-símile (quanto ao que se referia ao aspecto exterior) preparado cuidadosamente em minha casa, imitando facilmente a inicial “D” por meio de um selo feito de miolo de pão. [...] O pretenso lunático era um homem que estava a meu serviço. [...] rumo à sua própria ruína política. Sua queda será tão precipitada quanto desastrada. [...] Fácil é a descida para o inferno... um projeto tão funesto, se não é digno de Atrée, é digno de Thyest. [...]. Trechos do conto A carta roubada, extraído da obra Histórias extraordinárias (Abril, 1978), do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1840). Veja mais aqui e aqui.

OS SERTÕES - Um dos mais controversos espetáculos teatrais das últimas décadas, foi o premiadíssimo Os Sertões, baseado na clássica obra do escritor Euclides da Cunha (1866-1909), do não menos ousado e aclamado ator, dramaturgo e diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa. O espetáculo possui duração de 30 horas, dividido nas peças A Terra, O Homem 1, O Homem 2, A Luta 1 e A Luta 2, e foi realizado em comemoração aos 50 anos de criação do legendário Teatro Oficina. O projeto foi amadurecido pelo dramaturgo durante mais de duas décadas, sendo concluído em 2001, para realizar uma temporada nos mais diversos palcos brasileiros. As cinco peças teatrais de Os Sertões foram ganhadoras do Prêmio Shell (2002), Prêmio Bravo Prime de Cultura (2005) e Prêmio Shell (2005), nas mais diversas categorias. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

8½ WOMEN – O filme 8½ Women (1999), do cineasta do cineasta e artista multimídia britânico Peter Greenaway, é uma homenagem direta às mulheres dos filmes do cineasta e artista plástico italiano Federico Fellini (1920-1993), apresentando uma cena em que pai e filho discutem as fêmeas enquanto assistem ao filme. Esse ótimo filme conta a história de um pai e filho que são bilionários, donos de cassinos luxuosos no Japão, que contratam oito mulheres para servirem de acompanhantes ou supostas esposas. Durante o enredo, num mundo de requintada estranheza, eles passam a descobrir como melhor se relacionarem com elas em suas diferentes e bizarras características. Um ótimo filme como toda obra do cineasta que merece aplausos de pé. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagens: a arte do premiado fotógrafo Luiz Garrido.

AGENDA: I CONGRESO DE PSICOLOGIA DO VALE DO SÃO FRANCISCO – Acontecerá no dia 31 de outubro e 2 de novembro, no Complexo Multieventos da Univasf, campus Juazeiro-BA, com apoio da Univasf e do Conselho Federal de Psicologia (CFP), o I Congresso de Psicologia do Vale do São Francisco, sobre a temática A prática da psicologia no Vale do São Francisco: aspectos teóricos, éticos e políticos, com o objetivo de integrar os conhecimentos das abordagens teórico-metodologicas da Psicologia e das suas diversas áreas de atuação. No evento será discutido a respeito dos atuais desafios da formação, da pesquisa e da atuação do psicólogo na região, possibilitando a participação de estudantes, profissionais e de áreas afins, com relação aos saberes construídos e as possíveis transformações do cenário regional. Informações pelo fone (87)2101-6868 ou pelo mail congrepsidovale2016@gmail.com. Veja mais aqui e aqui.


ENTREVISTA: GERALDO CARNEIRO – Alguns anos atrás, quando eu estava na condição de editor do Guia de Poesia do Projeto SobreSites – O diferencial humano (RJ), tive a oportunidade de entrevistar o poeta, letrista e roteirista mineiro radicado no Rio de Janeiro, Geraldo Carneiro, parceiro musical de grandes nomes da música, tais como Egberto Gismonti, Astor Piazzola, Wagner Tiso, Tom Jobim, Vinicius de Morais, Francis Hime, entre outros. Confira a entrevista aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] Um novo ideal corre à nossa frente, um ideal estranho, tentador, rico de perigos, ao qual não gostaríamos de persuadir ninguém, porque a ninguém concederíamos tão facilmente o direito a ele: o ideal de um espírito que joga ingenuamente, isto é, sem querer e por transbordante plenitude e potencialidade, com tudo o que até agora se chamou sagrado, bom, intocável, divino; para o qual o mais alto, em que o povo encontra legitimamente sua medida de valor, já significaria perigo, declínio, rebaixamento ou, no mínimo, descaso, cegueira, esquecimento temporário de si; o ideal de um bem-estar e bem-querer humano-sobre-humano, que muitas vezes parecerá inumano, quando, por exemplo, se põe ao lado de toda seriedade terrestre até agora, ao lado de toda espécie de solenidade em gesto, palavra, tom, olhar, moral e tarefa, como sua mais corporal, sua involuntária paródia - e com o qual somente, a despeito de tudo isso, começa talvez a grande seriedade, com o qual é posto o verdadeiro ponto de interrogação, o destino da alma muda de rumo, a tragédia começa...
Trecho extraído do Livro V – “O andarilho” fala - , da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nu, do pintor e gravurista francês Paul-Albert Besnard (1849-1934).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


terça-feira, janeiro 20, 2015

SARA TEASDALE, AMOS TUTUOLA, LILA RIPOLL & SELMO VASCONCELLOS

 


CREOLINALDA, A REENCARNAÇÃO DE FRINEIA... – (Imagem: art by Hamish Blakely) Creolinalda vivia todo dia só de escrever no diário e resolveu partir pra ação. Sim, justo no dia que tomou conhecimento da vida de Frineia Mnesarete, que colhia alcaparras e tinha vários nomes - entre eles o de memória da virtude, que ela mesmo mudou porque comparavam-na com uma rã. Em verdade chamavam-na de Saperdion, nome que depois até assumiu. Era uma cortesã de extraordinária beleza e muito rica da Beócia. Uma história fascinante aos seus olhos e, tal qual ela, para lá de injustiçada: Sou a reencarnação dela. E pesou prós e contras, aferiu o resultado e mandou ver assumindo a persona. Começou encarando logo um conflituoso enfrentamento com seu pai Epicles – até nisso, talqualzinho. Depois deu um trato nas madeixas, hidratou a pele, vestiu-se dum maiô menor que o seu tamanho e, pôs por cima, um vestido provocativo com decote pronunciado, saias soltas e colado dos quadris aos ombros. Pronta foi desfilar pelas ruas provocando olhos esbugalhados com seu rebolado: Pronde ela vai tão faceira? Foi até à margem do rio, exibiu sua formosura, soltou os cabelos, despiu-se e entrou nua nas águas, à vista do povo que a perseguia. Milagre! Para quem presenciou era a ressurreição de Afrodite. Os marmanjos da cidade testemunharam em peso, todos pendurados delirantes - uns às quedas de maduro; outros se sustentavam entre galhos e capoeiras, como podiam. Lá pras tantas ela emerge exuberantemente faceira, veste-se e retorna desfilando para sua residência. Por dias foi o assunto dominante nas fofocas simpatizantes e antipatizadas da cidade. Não faltou assédio dos mais atarantados machos, até um ricaço que chegou com um buquê de flores, coração na carteira e chamando-a de Sapozinho. Artistas assediavam-na para posar em suas pretensas obras de artes e não se fez de rogada: foi Maria Madalena para os pincéis de Apeles, foi Vênus para as telas de Praxíteles, foi santa beldade nua para os desenhos de Knidos. Essa moça virou puta! -, gritava-lhe o pai revoltado com uma ruma de descarados poetas a sacudir-lhe versos apaixonados. Não faltaram à sua porta saraus apaixonados promovidos por pretensos Bilac, Baudelaire e Rilke, outros tantos poetastros com zis versos afetados, uma suposta ópera de Saint-Saens, um pretenso filme de Blasetti e a nomeação de um asteróide pelos fanáticos cientistas locais. Até um padre desencaminhou-se para exaltar com todo tipo de apologias a hetera de Téspias. Dali em diante começou a usar umas saias justas e curtas, um decote pronunciado, um rebolado cativante e, todo dia, ia tomar banho no rio para desespero de espectadores ávidos. Dizem que até Luís Gonzaga sapecou um xote tataritaritatá pra ela. Mais provocante exibia-se na janela enxugando os cabelos, esfregando-se sedutora. Como nunca usou de maquiagem, sua beleza era verdadeira e plena. As suas feições eram naturais: você é crente minha filha? Não, senhor. Prestimosa começou a ajudar senhores viúvos, passou a ser educada com os marmanjos enamorados e a ter amigas de má reputação, ganhando o opróbrio popular. Nem aí. Num disse: essa menina se perdeu mesmo! Alheia aos escárnios ela participava de apostas com outros rapagões e, quando perdia, nem se acanhava de exibir suas partes pudendas pros sortudos presentes, razão pela qual cochichavam que ela era mais bonita nas partes que não se viam. Adotou de vez, por isso, o nome de batalha Frinéia de Mnesarete. E se manteve firme. Todos queriam pintá-la, poetá-la, fotografá-la, movimentando a economia do lugar: todos queriam comprar as artes que ela inspirava, principalmente os recitais com epigramas os mais lascivos em sua homenagem e a fruição visual completa do corpo da deusa no centro da cena. Tributaram-na com um monumento: uma escultura talqualzinha ela era, virou ponto turístico de massa. Até um maníaco sexual foi flagrado e preso porque queria fazer amor ali, na frente de todo mundo, com ela. Teve até endoidados que queriam casar com a estátua, até ser roubada, mas logo descoberta: o sujeito havia sido acometido da loucura de Pingmalião e venerava para que ela envivecesse. Como? Lascou. Ao resgatá-la aos puxavanques, porque o sujeito guerreou até a morte para não devolvê-la nem a pulso. Fatos estranhos até deram conta de que das pinturas ela aparecia vivinha da silva, passando a viver maritalmente com o seu comprador. Por conta disso não faltaram jovens levados à tentação da mão hábil em sua homenagem e com suas poses impressas: vai que ela ganhasse vida na frente deles, hem? Essa era a esperança deles. Episódios de agalmatofilia retumbaram, incidentes com casos de acasalamento com a imagem e os que não conseguiam torná-la viva se matavam – foram suicídios em cadeia, tanto de jovens mancebos, como de empirocados marmanjos e provectos. Descobriu-se até um ritual devocional em sua honra, findando todos mortos exauridos de êxtase sexual. Afora os tantos de ricos que apareciam dispostos a despender grandes somas para adquiri-la, fulminados pela bancarrota. Evidente que ela se aproveitou disso e angariou fama e riqueza, afora autocelebrar-se, aparecendo furtivamente em trajes provocativos, destinados a causar agitação, ou através do uso de aparições públicas cenográficas, raras e estudadas. Seu nome passou a ser rabiscado nos muros, quando não gravado nos edifícios públicos. Eis que um dos vitimados se passou por ex ressentido pelos ciúmes e acusou-a de extorsão e traição instaurada pelo escândalo da mutilação dos Hermes. Como? Foi que um jovem não suportando ser recusado por ela, atirou no próprio pênis, decapitando-o e tornando-se eunuco dali por diante. Além disso novas acusações de gananciosa, de inescrupulosa, de monstra, exibicionista, traiçoeira e ruinosa pros apaixonados amantes sujeitos à rapacidade, vez que ela subjugava seus pretendentes, extorquia dissolutos, era o que diziam, batiam o pé. Ela nem aí. Queixas amontoavam na delegacia, ofensas ditas graves e reiteradas, a ponto do promotor exigir sua prisão e condenação à pena de morte. Foi julgada e sentenciada pela condenação: a cidade em peso acompanhou-lhe a prisão. Na hora da execução emergiu um defensor exigindo o Tribunal do Júri. Durante o julgamento público ela foi levada sob escolta policial e o acusador ao vê-la foi castigado com a mudez e nunca mais deu nem um pio pra remédio, tendo sido cassado e condenado a pagar as custas processuais. O tribunal ficou em polvorosa com a sua presença, nem o seu defensor conseguiu balbuciar qualquer palavra em sua defesa. Ela então ofereceu-se à condenação despindo-se: Podem me matar, sou condenada. Uma ovação! Ela foi absolvida sob a condição de aparecer publicamente uma vez por semana para limpar os olhos dos infelizes admiradores. Veja mais abaixo e aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - É estranho como um coração deve ser partido com frequência antes que os anos o tornem sábio... pensamento da poeta estadunidense Sara Teasdale (1884–1933), que na obra The Collected Poems (Digireads, 2012) apresenta um de seus poemas: Pensei em você e em como você ama essa beleza, \ E caminhando pela longa praia sozinho \ Ouvi as ondas quebrando em trovões medidos \ Como você e eu uma vez ouvimos seu tom monótono. \ Ao meu redor estavam as dunas ecoando, além de mim \ A prata fria e brilhante do mar \ - Nós dois passaremos pela morte e as eras se alongarão \ Antes que você ouça esse som novamente comigo. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O mal não está em falar da tristeza ou da angústia. O mal é não encontrar saída para a desesperação... Pensamento da poeta, pianista e militante comunista Lila Ripoll (1905-1967), autora do poema: Solidão brinca comigo um jogo de esconde, esconde.\ Desaparece um momento e surge não sei de onde.\ Solidão se esconde e volta, moe a vida, o sonho, o amor.\ Ah! Jogo de esconde, esconde, esconde também a dor. E doutro poema: Não me estendas a mão, \ que o tempo endureceu meu peito.\ Sou poeta. Obrigatório é para mim o sonho.\ Concede-me o direito de sonhar. Também de Pedido: Não me falem de tristezas \ que eu as conheço de cor. \ Falem-me sim de alegrias,\ que tem um gosto melhor.\ De tristezas — o meu peito \ gastou anos a chorar.\ Tirei um curso de mágoas. \ Ninguém me pode ensinar. Veja mais aqui e aqui.

 

O BEBEDOR DE VINHO DE PALMA - [...] Eu era um bebedor de vinho de palma desde que eu era um menino de dez anos de idade. Eu não tinha outro trabalho além de beber vinho de palma na minha vida. - - - Mas quando meu pai percebeu que eu não conseguia fazer nenhum trabalho além de beber, ele contratou um especialista em vinho de palma para mim; ele não tinha outro trabalho além de bater vinho de palma todos os dias. Então meu pai me deu uma fazenda de palmeiras que tinha nove milhas quadradas e continha 560.000 palmeiras, e esse tapador de vinho de palma estava batendo cento e cinquenta barris de vinho de palma todas as manhãs, mas antes das 2 da tarde, eu bebia tudo; depois disso ele ia e batia outros 75 barris. [...]. Trechos extraídos da obra The Palm-Wine Drinkard (Faber & Faber, 2014), do escritor nigeriano Amos Tutuola (1920-1997), que no livro Ajaiyi and His Inherited Poverty (Faber & Faber, 2015), expressa que: […] O falcão brinca com o pombo e o pombo fica feliz, mas não sabe que está brincando com a morte. [...] Eu tinha esquecido que as coisas poderiam mudar no futuro e que essa promessa era uma dívida [...]. No livro L’ivrogne dans la brousse (Gallimard, 1952), ele expressa que: [...] A cada vez que os mortos nos viam, eles faziam ouvir barulhos desagradáveis que mostravam que eles nos odiavam e também que estavam furiosos por os ver vivos. [...]. No livro The Village Witch Doctor and Other Stories (Faber & Faber, 2014), ele traz: […] Se continuarmos a pagar "mal" por "mal", o mal nunca acabará na Terra [...]. Por fim, no livro My Life in the Bush of Ghosts (Faber & Faber, 2014): […] Tendo deixado esta vila a uma distância de uma milha, este mágico fantasma veio até mim no caminho, ele me pediu para deixar nós dois compartilharmos os presentes, mas quando eu recusei, ele mudou para uma cobra venenosa, ele queria me morder até a morte, então eu mesmo usei meu poder mágico e mudei para um longo bastão no mesmo momento e comecei a bater nele repetidamente. Quando ele sentiu muita dor e quase morreu, então ele mudou da cobra para um grande fogo e queimou este bastão até as cinzas, depois disso ele começou a me queimar também. Sem hesitar, eu mesmo mudei para chuva, então eu o apaguei imediatamente. [...]. E dele destaco o pensamento: Depois de viajarmos por dois dias e meio, chegamos à estrada dos Mortos, de onde os bebês mortos nos expulsaram, e quando chegamos lá, não pudemos viajar por ela por causa dos bebês mortos assustadores, etc., que ainda estavam lá.

 

DOIS POEMAS - O HOMEM NO MEIO SOCIAL - O Homem com toda fortaleza \ é um fraco.\ Enquanto está bem esconde\ sua fraqueza.\ Quando está só\ Busca em Deus que tenha dó. \ Reza, promete, implora,\ Fala, grita e chora. CORPO A CORPO - Foi uma luta tão limpa, \ Cristalina, transparente, evidente,\ Clarividente, serena.\ Carne contra carne,\ Músculos contra músculos,\ Sangue, sangue, sangue...\ Foi um luta tão limpa! Poemas do poeta carioca radicado em Rondônia. Selmo Vasconcellos, editor do Lítero Cultural, do jornal Alto Madeira e colaborador do Rondônia ao vivo. Ele é autor dos livros Rever verso inverso (1991), Nictêmero (1993), Pomo de discórdia (1994), Resquícios ponderados (1996) e Leonardo, meu neto (antologia,2004). Veja mais aqui e aqui.

 

SACADOUTRAS

 

A HONRA DOS SERTÕES À MORTE – Contava eu com uns 13 pra 14 anos de idade (por aí, quase meados dos anos 1970), quando li Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909). Por esse tempo eu me tinha poeta parnasiano roxo (vixe! A gente faz cada coisa na vida, hem?), tanto que publiquei à época um poema rebuscadíssimo Fotogenia enfática de um mentecapto alógico (eita!?! Que droga é nove? Coisa de iniciante!), que foi publicado no informativo do glorioso Grêmio Cultural Castro Alves, do Colégio Diocesano. Ainda guardo comigo um exemplar desse informativo, boa lembrança desses tempos colegiais. Lembro bem que passei uma tarde inteira na varanda da casa do Gulú debatendo com ele a respeito da obra e, nesse entusiasmo escrevi uns textos e apresentamos (eu, Gulu, Ozi, Zé Ripe, Célio Carneirinho, Chicanjo Meyer e Mauricinho Melo Júnior, violas, batuques e amostramentos), o melodrama Sertão, Sertão pros alunos na quadra do colégio. Foi um sucesso! Mas falando de Euclides, disse Sílvio Romero: “[...] Da vida e do fim trágico de Euclides da Cunha, não direi por enquanto, de primeira, por falta de documentos; de segundo, por ser ainda inoportuno tratar de tão doloroso caso”, fato esse repetido por uma professora na faculdade que tinha Deus no céu e Euclides na terra, enfatizando o que dizia Darcy Ribeiro: “[...] o maior escritor brasileiro - raquítico, tímido e nervoso -, é assassinado pelo amante de sua mulher, quando tentava matá-lo. Anos depois, o assassino – um major bonitão e espadaúdo, campeão de tiro mata o filhe de Euclides. Também em legítima defesa”. É que o escritor foi envolvido num triângulo amoroso: a sua esposa Ana de Assis, a Saninha (ou melhor, Ana Emília Solon Ribeiro), tinha um amante, o tenente Dilermando de Assis, que com ela teve dois filhos. Por conta disso, o escritor na tentativa de vingar a honra, armado, invadiu a casa do traidor, deu-lhe três tiros e findou morto. O assassino conseguiu reagir, matou o escritor e foi absolvido por legítima defesa. Tempos depois, o filho de Euclídes resolveu vingá-lo, atirando nas costas do odiado que, mesmo ferido, conseguiu matá-lo: pai e filho mortos. Desse caso muitas coisas rolaram. Em 1990, a Rede Globo apresenta a minissérie Desejo, escrita por Gloria Perez, contando o caso do assassinato. Fui ver o dvd, afinal Vera Fisher protagonizava como Saninha, a esposa de Euclides. Vera é Vera, imperdível sempre, principalmente na cena com os filhos quando ela diz: “Eu não errei, eu amei!”. Depois vieram os livros Crônica de uma tragédia inesquecível: do processo Dilermando Reis, que matou Euclides da Cunha, de Walnice Nogueira (Terceiro Nome, 2007); Matar para não morrer, da historiadora Mary del Priore (Objetiva, 2009) e Matar ou morrer: o caso Euclides da Cunha, da procuradora e professora Luiza Nagib Eluf (Saraiva, 2009). Até o Mário Vargas Llosa inspirou-se na obra do escritor brasileiro para escrever o seu A guerra do fim do mundo: a saga de Antonio Conselheiro na maior aventura literária do nosso tempo (Francisco Alves, 1981). Mas Os sertões é uma obra e tanto, um dos clássicos da Literatura Brasileira, meritória de registro: começa com uma abordagem acerca da geografia do sertão baiano, assinalando que: “O sertão de Canudos é um índice sumariando a fisiografia dos sertões do norte... E o sertão é um paraíso...”. Adiante ele menciona que: “[...] O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida. Nasce do martírio secular da Terra...”, fato que o faz constatar que: “[...] O Brasil era uma terra do exílio; vasto presídio com que se amedrontavam os heréticos e os relapsos, todos os passiveis do morra per ello da sombria justiça daqueles tempos...”, arrematando que: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas...”. No final ele escreve: “Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados. Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos. Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem... Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos?... E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antonio Beatinho, que se nos entregara, confiante – e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa história? Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casaas, 5.200, cuidadosamente contadas”. Veja mais aqui.

PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aqui. Logo mais, a partir das 21hs (horário de Brasília), acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá com muita festa e a apresentação da querida Meimei Corrêa. E com as seguintes atrações na programação: MPB 4 & Quarteto em Cy, Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco, Elba Ramalho, Chico César, Geraldo Vandré, Cátia de França, Herbert Viana, Vital Farias, Glória Gadelha, Sonia Mello, Ricardo Machado, Mazinho, Santana o Cantador, Abdias dos Oito Baixos, Lucy Alves, Renata Arruda, Eliza Clívia, Lysia Condé, Elisete Retter, Alex Rios Silva, Mônica Brandão, Zé Ramalho, Os Vips, Roberto Luna, Roberta Miranda, Marconny Melo & muito mais! Veja mais aqui.

SERVIÇO:
O que? Programa Tataritaritatá Especial de Ano Novo
Quando? Hoje, terça, 20 de janeiro, a partir das 21hs (horário de Brasília)
Onde? No MCLAM - blog do Programa Domingo Romântico
Apresentação: Meimei Corrêa

Imagem: Frinéia (1909), do pintor, desenhista e ilustrador brasileiro Antonio Parreiras (1860-1937)

Ouvindo: Concerto for violin, piano and string quartet in D Major, op. 21, dp compositor francês Amedée Ernest Chausson (1855-1899), com Jorge Bolet Juiliard String Quartet

Imagem: Friné em frente ao Aerópago, 1861, Jean-Léon Gérôme.



CASO DO JULGAMENTO DE FRINEIA – Frineia ou Mnesarete, ou mesmo Friné que em grego significa sapo, foi o apelido dado a uma cortesã grega, nascida em Téspias na Beócia, por volta de 400 aC. Diz-se que ela serviu de modelo para a estátua da Afrodite de Cnido, elaborada por Praxíteles e que tal ato se deve em razão de, certa vez, durante um festival em Eleusis, a hetaira ter se despido e entrado no mar à vista de todos. Em seguida, posou para Afrodite Anadyomene ou Vênus Anadyomene, do pintor Apeles, fato este que foi repetido por um sem número de pintores, inclusive a Friné devant l´Areopage, de Jean-Léon Gerome. Seguiram-se Baudelaire, Rilke, Saint-Saëns, Alessandro Blasetti, até Olavo Bilac e o nosso pintor Antonio Parreiras inspirados por ela. Essa cortesã extraordináriamente bela adquiriu não menos extraordinária riqueza e propôs a reconstrução dos muros de Tebas na condição de que contasse com a seguinte inscrição: “Destruído por Alexandre, restaurado por Friné a hetaira”. Evidente que a proposta foi devidamente rejeitada pelas autoridades. Mais ainda: foi acusada por Diodoro Perigetes de profanar os mistérios de Elêusis, ocasião em que foi defendida por Hipérides, orador que era um de seus amantes, e que, diante da constatação da causa perdida, rasgou o manto que a vestia, expondo a sua nudez, fato que acarretou a mudança no julgamento e ela foi devidamente absolvida. Existem outras versões para o caso, inclusive a de que foi ela mesma quem se desnudou e que a mudança de julgamento ocorreu porque a beleza física, naquela época, era aspecto de divindade e sinal de favor divino. Em sua homenagem, Eugéne Joseph Dalporte denominou 1201 Phyrne, ao asteroide descoberto em 15 de setembro de 1933. Veja mais aqui.

A POESIA DAS CANÇÕES DE ANA TERRA - Uma certa vez, ainda menino e fã de Luis Gonzaga, peguei pela primeira vez um elepê dele e vi que as lindíssimas músicas que ele cantava, trazia seu nome entre os autores. Cá comigo eu fiquei: - Nossa, ele é demais. Além de cantar dividamente, é autor das músicas que canta! Foi essa curiosidade que me levou a ser, mais tarde, radialista: é que eu tinha desde menino a mania de dizer o nome da música, os autores e quem cantava. Pois bem, já nos tempos de radialistas, me embalei com muitos sucessos que tocavam na rádio. Fui investigar a autoria desses sucessos e o nome de Ana Terra aparecia com demasiada frequência. Eu repetia comigo: - Essa Ana Terra é ótima! O desfile de sucessos que figuravam a sua coautoria não estava no gibi, a ponto de eu dedicar um dos meus programas Panorama, na Rádio Quilombo, um especial de 3 horas, só com músicas dela. E olhe que sobraram um bocado pelo espaço de tempo, precisaria de muito mais horas para tal. Foi aí que comecei a perseguir a escritora, roteirista, letrista, produtora e ilustradora Ana Terra, autora do livro Letras & Canções, da novela Estrela, do roteiro para longa-metragem Os campos de São Jorge e coautora de uma parceria infindável com os melhores nomes da música brasileira. Na primeira metade dos anos 2000, tive a grata satisfação de encontrá-la e solicitar uma entrevista. Ela generosamente de pronto, aceitou e a fiz publicar no meu Guia de Poesia. Confira a entrevista aqui ou aqui.


AMARCORD DE FELLINI – Entre os tantos filmes do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993), que me leveram ao prazer de revê-los muitas e tantas vezes, um deles quero destacar aqui, o Amarcord, lançado em 1973. Este filme além de ser uma comédia dramática produzida no talento de um dos maiores nomes do cinema mundial, me traz a sensação de um testemunho de vida, de amor à terra que nasceu, do bom humor e do escárnio diante da estupidez, da leitura de todas as grandiosidades e, ao mesmo tempo, dos desvarios do ser humano. Esse o meu eterno aplauso a uma grande obra de um grande cineasta. Salve, Fellini! Veja mais aqui, aqui e aqui.



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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

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