quinta-feira, março 28, 2019

FLORBELA ESPANCA, MARIO VARGAS LLOSA, HEISENBERG, SALLY MANN & GRUPO TIA


AS CARTAS, BELA FLOR – Ah, bela flor da Vila Viçosa, ouço a sua voz no soneto ao vento com todo furor e desventuras que não caberiam em cem milhões de versos, cantando a vida e a morte desde a infância para que tudo fosse entressonhos não mais que reais. Já errava em mim inquieta com o calor do ventre e dos seios juvenis, trocando olhares para cair nas estradas, adolescendo a misteriosa descoberta. Para quem a viu desde mocinha numa viagem em alto mar, pernas e coxas roliças, poemas como quem se abre à vida e eu seduzido pelo despudor do ofertório de sua emanação de pagã extasiante. Ah, musa alentejana, a deusa em carne e osso soltando versos cheios de paixão e dor, como quem me dava o corpo prometido à morte para que eu tragasse o vinho forte de seus beijos na dança de ritual da dádiva, num livro das mágoas diante da impotência dos interditos, enquanto a vibração do cio escandalizava numa epifania essencial. O poema dito que era d’ele era meu e em mim como carta para longe no mistério do amor. Confesso renascido aos seus pés em súplica pela estrela cadente. E o livro sempre meu, ninguém entendia a alma do poeta e não sabíamos de nós dois quem amava e quem era amado. O seu reino meu ficou para além do seu exílio na sóror saudade às horas rubras dos sensuais e ardentes beijos nas noites quentes da sua temperatura amorosa em chamas, pela charneca em flor e o movimento dos nervos na sinfonia da volúpia, a rir e chorar no fremente corpo pela loucura e fantasia ao mais alto bradar até o infinito dos sonhos dos seus querentes e divinos braços erguidos de mulher. As minhas mãos ateias tateavam o alvoroço da sua tempestade e a minha boca desfolhava o seu ventre à torre erguida ao grito para que não fosse grave e triste o grande amor, guardando-se no Reliquae como um jardim com sua alma e amor, para que seus olhos flamejassem a sua obscena vitalidade nos sonetos fanáticos não mais que eu obsessivo amante amado, enquanto inteira no meu rosto, entregue às minhas mãos, a morar dentro de mim. Descortinamos as máscaras do destino para quem sofria da perda de sempre, malogro recorrente no dominó preto, com todas as cartas derrubando barreiras e tabus na transgressão de si com seus arroubos sensuais. Eu mesmo não sabia que viver era não saber que se vive e a vi diante do espelho procurando sentido para a vida e para si, porque não se esquecia de viver, porque simplificava para poder ser feliz, arrancando tudo, esmagando-se, reduzindo-se, em seus próprios destroços com todos os astros que moravam lá no alto. O teu adeus indesejável eu pude ver em Matosinhos, solene Diário do último ano com o poema sem título a me dizer que não haveria mais gestos novos nem novas palavras no suicídio de seu derradeiro aniversário. Ah, bela flor guardada em mim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Na ciência, pode-se reconhecer a ordem central pelo fato de podermos usar metáforas como ‘a natureza foi feita de acordo com tal plano’. É nesse contexto que minha ideia da verdade relaciona-se com o conteúdo efetivo da experiência religiosa. Sinto que essa ligação tornou-se muito mais evidente desde que compreendemos a teoria quântica. [...].
Trecho extraído da obra A parte e o todo: encontros e conversas sobre física, filosofia, religião e política (Contraponto, 1996), do físico e Prêmio Nobel de 1932, Werner Heisenberg (1901-1976), uma autobiografia intelectual de um dos mais importantes cientistas do século XX, relembrando os debates sobre física, filosofia, religião e política que travou com Einstein, Bohr, Planck, Dirac, Pauli, entre outros, narrando sua experiência pessoal durante o regime nazista e o esforço alemão para dominar a energia atômica ainda durante a guerra. Noutra de suas obras, A imagem da natureza na física moderna (Livros do Brasil, 1962), ele expressa que: [...] O grande rio da ciência, que atravessa a nossa época, brota de duas fontes situadas no terreno da antiga filosofia, e, embora mais tarde muitos outros afluentes tenham desaguado neste rio, contribuindo para engrossar o seu fecundo caudal, a sua origem é, não obstante, sempre claramente reconhecível. [...] Quem queira chegar até ao fundo das coisas em qualquer especialidade [...] se chocará com aquelas fontes antigas e daí tirará grandes benefícios para o seu próprio trabalho, por ter aprendido com os gregos a pensar de uma maneira geral, a transportar os problemas para o plano teórico [...]. Por fim, na sua obra Philosophic problems of nuclear science (Faber and Faber, 1952), ele assinala que: [...] A ciência moderna tem seguido algumas tendências da filosofia natural grega, pois tem reconsiderado uma série de problemas com que a filosofia havia se debatido em seus inícios [...]. Existem, especificamente, duas ideias da antiga filosofia grega que na atualidade ainda determinam o curso da ciência e que são, por essa razão, de especial interesse para nós: a convicção de que a matéria consiste de pequenas unidades indivisíveis, os átomos, e a crença na força de estruturas matemáticas [...]. Veja mais aqui e aqui.

O GRUPO TEATRO IDEIA AÇÃO (TIA)
O premiado grupo Teatro Ideia Ação (TIA), formado pelos atores Marcelo Militão, Mariana Abreu, Mário Ferrolho, Sofia Militão, Renan Leandro, Aline Ferraz, Vicente Goulart & Karen Gonçalves, desenvolve um trabalho continuado há 15 anos, com a proposta de teatro popular e de intervenção social. Uma de suas características mais marcantes é a viabilidade para a itinerância, todos seus espetáculos são concebidos e pensados tanto na questão estética como material para seu objetivo maior, circular, ir ao encontro do público onde quer que ele esteja, seja nas grandes metrópoles, nos teatros, nas praças, nas favelas, no sertão, enfim, levar a sua arte aonde público e artista, numa comunhão, virem um só. Além disso, o grupo desenvolve uma linha de pesquisa na arte popular, na rua, na periferia e no teatro comunitário e trabalha com cenopoesia, palhaçaria e mamulengo. No decorrer de sua trajetória o Grupo TIA já ganhou mais de 10 prêmios e apresentou em diversas localidades do país e no exterior para um público superior a 500 mil pessoas. Atualmente, desenvolve seus estudos e trabalhos na periferia de Canoas. E realiza e produz o FESTIA - Festival Internacional de Teatro em Canoas. Veja mais aqui e aqui.

A FOTOGRAFIA DE SALLY MANN
A arte da fotógrafa estadunidense Sally Mann que é autora de diversos livros de fotografias e que desenvolve um trabalho em preto-e-branco de grande formato. Veja mais aqui.
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A obra do escritor, jornalista e político peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, aqui, aqui, aqui & aqui.
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Os poemas da poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) aqui, aqui & aqui.


LILI & MAIAKOVSKI, VALIE EXPORT, RAIMUNDO MAGALHÃES JÚNIOR, JACINEIDE TRAVASSOS & ANCHIETA DALI

LILI, MULHER AMADA - Simples como um mugido, sou sem um vintém no bolso, faminto às andanças, sem teto: minha casa é a rua futurista n...