sexta-feira, março 29, 2019

THIAGO DE MELLO, MARCELO GLEISER, PRISCILA ROXXO, AGLAÉ GIL, LUCIANA MALLON & DIAS QUE NÃO SEI!


DIAS QUE NÃO SEI – São mais de ontens nesse tempo de hoje, muitos anteontens seculares e nenhum amanhã possível. Não há como visualizar um túnel sequer para buscar a luz nesse breu vigente. Não me valho dos estandartes ameaçadores, mas há de convir, a cena é imprópria. O que se vê são bocas canhoneiras degoladas com suas ventas dilatadas, expondo sangue na saliva, armados de ódio e facas até os dentes nas cabeças de granadas, e delas ouvem-se os estrondos por dedos fuzilantes para inúteis como eu ou qualquer um. Pelo que se vê, os daqui vivem apenas dos boatos que chegam aos pelotões contaminando as ouças e a terra, nenhum gemido de arrependimento, enquanto os noturnos e solitários remorsos corroem o tino nas bandeiras hostis que drapejam: os algozes pensam que ficarão para sempre, e impunes, incólumes, e se gabam apenas das vozes ébrias de cívicos comensais, fieis aos cargos e cetros, donos da razão e fogo nas faces para gritos de terror no país que é só do azul ou cor de rosa, onde ou se é a favor ou do contra. Coisas que vão de lá para cá e vice-versa, porque o meu país é grande, tão gigantesco quanto inútil para quem dele vive – serve apenas a poucos, muito pouco, entretanto -, tão sujeito aos salteadores, tão vulnerável aos imprestáveis carregados de pólvora, nenhum valhacouto aqui. Há quem esteja feliz com tudo isso, não duvido. Em todo canto estão fechados os olhos das janelas, portas apagadas, muros insensíveis, como se emurchercesse a humanidade: mais bicho selvagem que gente com seus desmatados sorrisos de festas urgentes e efêmeras, olhares quais queimadas devastadoras com a arma escondida por trás da bandeira branca. Parece mais que todos viraram coveiros nas valetas dos instantes e fingem piedade na horagá, presos pelos testículos. Por isso, só importa o louro da vitória quando, na verdade, todos estão derrotados no meio de uma verdadeira festa de matanças invisíveis. Ainda se ouve: Caros senhores! E relincham em festas de gala, a se esbaterem famulentos na vulgaridade, como um punhado de lombrigas a se lambuzarem no repasto, cheirando vidas e sortes e nisso quantos esmagados pela cortesia dos falsos com as pálpebras fechadas da razão. Cada qual sua caverna e seu umbigo, senão. Sei e não se salva quase alma alguma entre os que se consolam com o embuste e o engodo para gozo dos fanfarrões: ouvem apenas o que dizem os alto-falantes dos carros de som barulhentos, assistem hipnotizados aos anúncios imperdíveis da tevê e acreditam piamente nos noticiários, sequer dão conta de quanto insulto nos capítulos novelescos desse inferno e tudo bem, apesar do dia ensolarado tudo é muito turvo e quase desespero pelas ofensas, venenos, estupidez tumultuada - catingas de inexistentes Américas mundializadas sobre cadáveres dançantes e desmiolados por pancadas e bumbos: tudo fede a luxo e lixo, quanta muleta para verter a última gota de sangue. Ninguém sabe. Estou pronto para ser enterrado vivo, acorrentado à minha cidade, pisoteado e insepulto. Morrerei de fome ou de passado, cabeça pendurada no esquecimento, ao lado dos que respiram ou não, tanto faz, não há vergonha para quem morre. O amor verdadeiro não cabe no céu, onde vigora o bom comportamento e a mentira. Não há suborno para a alma, dinheiro é ouro de tolo. Esses os dias que não sei, horas que são lâminas e retalham a carne, ainda é possível chorar pelo país, por enquanto; e o mundo, quem sabe. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Várias ideias foram propostas nas duas últimas décadas, algumas delas extremamente inspiradas e belas. Entretanto, elas devem aguardar sua confirmação através de experimentos antes de serem aceitas pela comunidade científica. [...] Um dos aspectos agridoces da pesquisa científica é que a Natureza não revela seus segredos muito facilmente. [...] Algo mais é necessário, e várias ideias têm sido propostas para lidar com esses problemas de nossas teorias atuais. As ideias mais promissoras tentam combinar relatividade e mecânica quântica de uma forma ou outra. [...] Bem, perto da singularidade cosmológica, a própria geometria do Universo deve ser tratada através da mecânica quântica; com isso, os conceitos de tempo e espaço também se tornam nebulosos. [...].
Trechos extraídos da obra A dança do universo: dos mitos de criação ao Big Bang (Companhia das Letras, 1997), do físico, astrônomo e escritor brasileiro Marcelo Gleiser. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE PRISCILA ROXXO
A arte da grafiteira, artista visual, militante feminista e ativista Priscila Roxxo. Veja mais aqui.

A POESIA DE AGLAÉ GIL
SUA CHUVA: Tenho sede / de água de chuva / de lágrima sua / com todo o sal / que puder haver. / Me dê  para beber / a água santa / da terra nua / e eu, / profana, / mato a sede / com o que choveu / de você, / em mim.
Poema da poeta e fotógrafa Aglaé Gil que é autora do livro Memórias de uma fruta madura (2015), é formada em Letras/Português e atua como revisora de textos. Veja mais aqui.
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A ARTE DE LUCIANA ROCIO MALLON
A FLOR FUNCIONÁRIA TRABALHARÁ MAIS TEMPO PARA SE APOSENTAR: Era uma fez uma flor chamada Gazânia / Que é esforçada, guerreira e nada ordinária / Como ela sempre trabalhou oito horas por dia / Com sua alma batalhadora e espontânea / Esta flor recebeu o apelido de funcionária / Porém esta fama pode ser momentânea / Seu marido é o delicado e forte cravo / Que um dia já foi um sofrido escravo / Hoje os dois moram num jardim particular / Cada um tem uma nobre parte no doce lar / O problema é que com a reforma da aposentadoria / Agora a flor funcionária terá que trabalhar durante anos / Por isto ela ficará aberta mais de oito horas por dia / Para realizar todos os seus sonhos e planos / Agora talvez ela receba o apelido de escrava / Não por ser mulher de um escravo cravo / Ela trabalha no jardim e também em casa / Deixando seu marido todo confuso e parvo.
Poema da escritora Luciana do Rocio Mallon, que é autora do livro Lendas Curitibanas (2019), formada em Letras e atua como focalizadora do curso de Danças das Divas de Cinema e Novelas, realçando a ligação entre Dança e Poesia. Veja mais aqui.
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A obra do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello aqui, aqui & aqui.


MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine...