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quinta-feira, março 28, 2019

FLORBELA ESPANCA, MARIO VARGAS LLOSA, HEISENBERG, SALLY MANN & GRUPO TIA


AS CARTAS, BELA FLOR – Ah, bela flor da Vila Viçosa, ouço a sua voz no soneto ao vento com todo furor e desventuras que não caberiam em cem milhões de versos, cantando a vida e a morte desde a infância para que tudo fosse entressonhos não mais que reais. Já errava em mim inquieta com o calor do ventre e dos seios juvenis, trocando olhares para cair nas estradas, adolescendo a misteriosa descoberta. Para quem a viu desde mocinha numa viagem em alto mar, pernas e coxas roliças, poemas como quem se abre à vida e eu seduzido pelo despudor do ofertório de sua emanação de pagã extasiante. Ah, musa alentejana, a deusa em carne e osso soltando versos cheios de paixão e dor, como quem me dava o corpo prometido à morte para que eu tragasse o vinho forte de seus beijos na dança de ritual da dádiva, num livro das mágoas diante da impotência dos interditos, enquanto a vibração do cio escandalizava numa epifania essencial. O poema dito que era d’ele era meu e em mim como carta para longe no mistério do amor. Confesso renascido aos seus pés em súplica pela estrela cadente. E o livro sempre meu, ninguém entendia a alma do poeta e não sabíamos de nós dois quem amava e quem era amado. O seu reino meu ficou para além do seu exílio na sóror saudade às horas rubras dos sensuais e ardentes beijos nas noites quentes da sua temperatura amorosa em chamas, pela charneca em flor e o movimento dos nervos na sinfonia da volúpia, a rir e chorar no fremente corpo pela loucura e fantasia ao mais alto bradar até o infinito dos sonhos dos seus querentes e divinos braços erguidos de mulher. As minhas mãos ateias tateavam o alvoroço da sua tempestade e a minha boca desfolhava o seu ventre à torre erguida ao grito para que não fosse grave e triste o grande amor, guardando-se no Reliquae como um jardim com sua alma e amor, para que seus olhos flamejassem a sua obscena vitalidade nos sonetos fanáticos não mais que eu obsessivo amante amado, enquanto inteira no meu rosto, entregue às minhas mãos, a morar dentro de mim. Descortinamos as máscaras do destino para quem sofria da perda de sempre, malogro recorrente no dominó preto, com todas as cartas derrubando barreiras e tabus na transgressão de si com seus arroubos sensuais. Eu mesmo não sabia que viver era não saber que se vive e a vi diante do espelho procurando sentido para a vida e para si, porque não se esquecia de viver, porque simplificava para poder ser feliz, arrancando tudo, esmagando-se, reduzindo-se, em seus próprios destroços com todos os astros que moravam lá no alto. O teu adeus indesejável eu pude ver em Matosinhos, solene Diário do último ano com o poema sem título a me dizer que não haveria mais gestos novos nem novas palavras no suicídio de seu derradeiro aniversário. Ah, bela flor guardada em mim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Na ciência, pode-se reconhecer a ordem central pelo fato de podermos usar metáforas como ‘a natureza foi feita de acordo com tal plano’. É nesse contexto que minha ideia da verdade relaciona-se com o conteúdo efetivo da experiência religiosa. Sinto que essa ligação tornou-se muito mais evidente desde que compreendemos a teoria quântica. [...].
Trecho extraído da obra A parte e o todo: encontros e conversas sobre física, filosofia, religião e política (Contraponto, 1996), do físico e Prêmio Nobel de 1932, Werner Heisenberg (1901-1976), uma autobiografia intelectual de um dos mais importantes cientistas do século XX, relembrando os debates sobre física, filosofia, religião e política que travou com Einstein, Bohr, Planck, Dirac, Pauli, entre outros, narrando sua experiência pessoal durante o regime nazista e o esforço alemão para dominar a energia atômica ainda durante a guerra. Noutra de suas obras, A imagem da natureza na física moderna (Livros do Brasil, 1962), ele expressa que: [...] O grande rio da ciência, que atravessa a nossa época, brota de duas fontes situadas no terreno da antiga filosofia, e, embora mais tarde muitos outros afluentes tenham desaguado neste rio, contribuindo para engrossar o seu fecundo caudal, a sua origem é, não obstante, sempre claramente reconhecível. [...] Quem queira chegar até ao fundo das coisas em qualquer especialidade [...] se chocará com aquelas fontes antigas e daí tirará grandes benefícios para o seu próprio trabalho, por ter aprendido com os gregos a pensar de uma maneira geral, a transportar os problemas para o plano teórico [...]. Por fim, na sua obra Philosophic problems of nuclear science (Faber and Faber, 1952), ele assinala que: [...] A ciência moderna tem seguido algumas tendências da filosofia natural grega, pois tem reconsiderado uma série de problemas com que a filosofia havia se debatido em seus inícios [...]. Existem, especificamente, duas ideias da antiga filosofia grega que na atualidade ainda determinam o curso da ciência e que são, por essa razão, de especial interesse para nós: a convicção de que a matéria consiste de pequenas unidades indivisíveis, os átomos, e a crença na força de estruturas matemáticas [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O GRUPO TEATRO IDEIA AÇÃO (TIA)
O premiado grupo Teatro Ideia Ação (TIA), formado pelos atores Marcelo Militão, Mariana Abreu, Mário Ferrolho, Sofia Militão, Renan Leandro, Aline Ferraz, Vicente Goulart & Karen Gonçalves, desenvolve um trabalho continuado há 15 anos, com a proposta de teatro popular e de intervenção social. Uma de suas características mais marcantes é a viabilidade para a itinerância, todos seus espetáculos são concebidos e pensados tanto na questão estética como material para seu objetivo maior, circular, ir ao encontro do público onde quer que ele esteja, seja nas grandes metrópoles, nos teatros, nas praças, nas favelas, no sertão, enfim, levar a sua arte aonde público e artista, numa comunhão, virem um só. Além disso, o grupo desenvolve uma linha de pesquisa na arte popular, na rua, na periferia e no teatro comunitário e trabalha com cenopoesia, palhaçaria e mamulengo. No decorrer de sua trajetória o Grupo TIA já ganhou mais de 10 prêmios e apresentou em diversas localidades do país e no exterior para um público superior a 500 mil pessoas. Atualmente, desenvolve seus estudos e trabalhos na periferia de Canoas. E realiza e produz o FESTIA - Festival Internacional de Teatro em Canoas. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa estadunidense Sally Mann que é autora de diversos livros de fotografias e que desenvolve um trabalho em preto-e-branco de grande formato. 
Veja mais aqui & aqui.
&
A obra do escritor, jornalista e político peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Os poemas da poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) aqui, aqui & aqui.


sábado, junho 04, 2016

VARGAS LLOSA, THIAGO DE MELLO, NATALIA GONCHAROVA, EDUARDO PONTI, MÁRIO SOUTO MAIOR, YAN PIERRE, SHELLEY BAIN, TAHA MALASI & VIDEOINSTALAÇÃO


TERRA DO QUE SOU, VIDA QUE ME CABE - (Imagem: The Earth Is My Mother by Shelley Bain) - Sou filho deste chão, semente do mundo que brota a cada renascer do Sol no céu de todas as estrelas que alumiam todo caminho das estradas que sei que sou e voo aos infinitos recônditos de mim. Sou das águas essa nascente, fogo do universo feito, vento que sopra de todas as direções, a poeira das pedras, ventania dos temporais. A corrente dos mares, morros de Sol poente, galhos e florais. As nuvens de besouros, a seiva dos troncos, as raízes dos matagais. A música dos pássaros, as abusões das florestas, o sopro dos vendavais. O movimento das pedras, a corrente dos brejos, a atração dos metais. A neblina das matas, o limite das colinas, o reino dos animais. As larvas vulcânicas, a fundura oceânica, o ninho dos corais. A vertigem dos abismos, o clarão dos dias, escuridão das noites, os cardumes fluviais. As flores primaveris, a trilha das formigas, as chuvas invernais. A queda das cachoeiras, as areias do deserto e das praias, o capim rasteiro, mangues ovados, charcos vitais. O sal do suor, o doce da fruteira, lençóis, aquíferos, os contornos dos litorais. Os córregos, penhascos, viveiros, falésias e grutas, os restos mortais. A rotação, translação, a precessão lunissolar, as geleiras, ondas sísmicas, as folhas outonais. As rochas basálticas, as câmaras magmáticas, as temperaturas estivais. Sou filho deste chão, semente do mundo, a expressão da nave mãe: Terra mulher que nasce do que sou, vida que me cabe. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: a arte da proeminente figurinista, artista gráfica e pintora do cubo-futurismo russo Natalia Goncharova (1881-1962). Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Tatá (Antro, 2004), do guitarrista Eduardo Ponti.

PESQUISA
Galalaus & batorés (EdUFPE, 1981), do escritor, advogado, pesquisador e folclorista Mário Souto Maior (1920-2001), tratando a respeito da briga entre grandes e pequenos, o Clube dos Baixinhos, os galalaus, os batorés e uma série de verbetes recolhidos do anedotário popular. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
Elogio da madrasta (Objetiva, 2009), do escritor e jornalista peruano, Premio Nobel de Literatura de 2010, Mario Vargas Llosa, contando a história vivida entre a sensual e elegante Lucrécia e dom Rigoberto num idílio de fantasia e sexo, envolvendo a paixão do filho dele pelos encantos da madrasta. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.
Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.
Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.
Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde posssas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.
Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.
Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.
Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.
Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.
É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.
Poema Sugestão (In: Vento Geral - Civilização Brasileira, 1984), do premiadíssimo e traduzido poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Videoinstalação: projeção Nu descendo uma escada (2008), de Rachel Mascarenhas e Ana Paula Pessoa.

Veja mais sobre Rio São Francisco – O Velho Chico, Lampião, Dias Gomes, Turíbio Santos, Ítala Nandi, Hugo Carvana, Neila Tavares, Natalia Goncharova, Even Ruud, Cláudio Manuel da Costa, Isabel Lustosa & Paulette Goddard aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e artista visual Yan Pierre.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Fragile Earth, By Dr Taha Hassaballa Malasi.
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

sábado, março 28, 2015

GORKI, CASCUDO, LLOSA, SARAH VAUGHAN, DIANNE WIEST, BARKS & MACEIÓ.


MACEIÓ, UMA ELEGIA PARA OS QUE OUSAM SONHAR – Foto: Jannyne Barbosa - A cidade emerge no meu riso matinal e o sol faz paradeiro na minha alma desafortunada. Os meus passos reviram ruas e redimem meus pesares, remorsos e alucinações. Tudo é lindo nessa paradisíaca paragem! Tudo muito lindo premiando o meu devaneio. E eu recito loas pelas beiradas da ideia, pelas abissais paralelas do meu exílio atrevido na minha presença castigada. Nesse lindo cenário eu vou de corpo e alma e me sou todo. Vou pelas transversais, avenidas e perpendiculares, a reconhecer a punição da vida no que de vário se faz real pelo esplendor do mar, onde se lavam culpas que eram festa no negrume do asfalto, onde se pezunham esperanças na imensidão do espaço, onde se constroem todas as avenças e desavenças de nada. É outro dia sempre e a gente a sonhar com o estrondo da felicidade mesmo que tudo seja apenas feito de partidas e chegadas no desencontro dos anseios. É outro dia sempre e a gente com o plano de voo circunscrito na incerteza, como se a regra desse jogo fosse sempre o confronto da distância entre começar e acabar, sem ter prorrogação na morte súbita indesejada. É outro dia e sempre a cidade emerge na minha finitude atlântica que bordeja pelas apaziguadoras ruas breves da Mangabeiras e se arrasta na expectativa da Jatiúca, aderna pelo emaranhado da Ponta Verde, singra pela beira-mar da Pajuçara e dá nos cotovelos rentes com a fabularia do Jaraguá. É lá onde me eternizo nas cinzas. Adiante está a lama do Salgadinho empestando a Avenida onde uma guerra oculta cospe mulheres paridas e deserdadas dos arredores do Tabuleiro dos Martins e homens ciclópicos que ululam desmemoriados de tudo sem nada, oriundos do longe mais distante das bandas de lá além do Mundaú e que povoam a superfície perversa da exclusão. E me refaço porque é outro dia e sempre me esforço subindo a rodoviária até o Farol onde contemplo de tudo: a fantástica panorâmica, o silêncio dos roncos cansados, a espera dos madrugadores por condução, a perspectiva que bate as botas em Cruz das Almas e o meu desejo que escorre descendo o Riacho Doce e se esquece dos pleitos que se tornaram causas inúteis revogadas previamente pelos tribunais de então. Mas é outro dia sempre e as crianças no meio fio da madrugada com seu cobertor de mar e de noite com sonhos incertos no barulho do trânsito indômito. É outro dia e um punhado de adultos amontoam o teatro cristão com o berreiro dos desentoados em preces devotadas com seus sotaques e timbres nas rezas por seus dissabores, por remoetas embaçadas, por sacrifícios ostentatórios, pela salvação das almas da ignomínia. E tudo parece um abstrato aceno de paradoxais festeiros na celebração da tragédia pelas mesquinharias políticas, pela soberba nos limites onde o canavial impera ao lado dos alguns poucos privilégios de gados e miséria nos pastos de outro tabuleiro, onde amadurece a desimportância da oportunidade e todos são escravos do passado mesmo que se achem senhores de si e do futuro, mesmo que a vida seja um lapso de tempo nas causas perdidas. Mesmo assim a cidade emerge e meu coração se avexa com o tumulto do dia e se esboroa pela tarde e faz aconchego na noite que anuncia outro dia para um mais que desejoso amanhã. Amanhã que já será hoje, hoje que já é ontem e tudo que esquecerá. E esquecendo não veja criança estendida na calçada da manhã, nem pedinte mendigando no semáforo, nem velho sendo xingado nas filas, nem violência como efeito da desigualdade, porque os adultos precisam acordar ciosos de si a vingarem o humano à revelia dos mandos no sonho de todos os sonhos. A verdade é que a cidade emerge nos meus olhos e já é outro dia. Mesmo assim continuo atrevido e teimoso de sonhos, enquanto o meu coração bate buliçoso e atônito pelas ruas de Maceió, entoando uma elegia para os que ainda ousam sonhar. (© Luiz Alberto Machado. In: Poesia de Alagoas. Recife: Bagaço, 2007); Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. E mais também aqui & aqui.

Imagem: Girl of the Ancient Temeculas Art, do ilustrador e criador da arte sequencial estadunidense Carl Barks (1901-2000)

Ouvindo: O som brasileiro de Sarah Vaughan (RCA Victor, 1978), da cantora de jazz estadunidense Sarah Vaughan (1924-1990). Veja mais aqui.

BURRINHA DE PADRE – Imagem: J. Lanzelloti. In: Estórias e lendas do Norte e Nordeste (Edigraf, s/d) - No livro Geografia dos mitos brasileiros (José Olympio, 1947), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), encontrei a lenda Burrinha do Padre narrada assim: Certo morador de Canguaretama, no Rio Grande do Norte, fazendo longa viagem por solitária estrada, encontrou, assustadíssimo, uma burrinha de padre, daquelas de que ouvira contar nos compridos serões familiares. Sabia, portanto, que transfigurada nesse animal, estava uma mulher de leviano procedimento, pois transformar-se em burrinha é o castigo da moça que se amanceba com vigário da freguesia, embora não seja amaldiçoada antes do padre dizer a missa. Enfeitiçada, ela se torna semelhante a qualquer outra burra. Apenas com uma larga lista branca no pescoço, como sinal. No seu fadário, corre velozmente, acompanhada de um barulho de ferros entrechocados que se ouve à distância. Ela não cessa um só momento de correr e de relinchar. Se alguém a encontra no caminho e tanta fazê-la parar, é morto a coices. Cada coice de suas patas é pior que um tiro. Mas um ferimento que na burrinha se faça e brote sangue, quebra o encanto e a mulher volta à forma humana. Então, aparece inteiramente nua. Somente despida é que a manceba pode ser atingida pela penitencia. O padre com quem vive, ou com quem tem relações amorosas, é revelado por uma visagem que apresenta as suas feições e monta no lombo da burrinha. Quando o morador de Canguaretama encontrou a burrinha, tentou subjuga-la. Empenhou-se com ela numa luta de morte. Acabou por feri-la com o seu cacete armado de aguilhão. Ao brotar o sangue, ela se transformou em mulher, em quem ele reconheceu certa mocinha rica, de família de muito relevo social. Regressa à sua casa, com a manceba desencantada, deu-lhe roupas para a agasalhar e foi leva-la à residência dos pais. Estes a receberam com demonstrações de alegria. Chegaram mesmo a dar-lhe uma bela soma em dinheiro, para que ele guardasse segredo sobre o caso e não desse com a língua nos dentes. No entanto, logo depois, o pobre teve de mudar-se para o município de Goianinha, a fim de livrar-se das emboscadas com que a antiga burrinha pretendia vingar-se da fama que a cercava de ter um dia sofrido da tal moléstia... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PEQUENOS BURGUESES – A peça em quatro atos Pequenos Burgueses (Abril, 1979), do escritor e dramaturgo russo Máximo Gorki (1868-1936), foi concebida em 1900 quando o autor se encontrava preso, evidenciando uma predominante situação que constatava a lenta deterioração da pequena burguesia: uma multidão cinza e entediada. As personagens da peça vivem num meio mesquinho, revelando-se quase sempre impotentes em vencer as barreiras desse meio: o único elemento comum a todas elas. Na peça destaco o diálogo entre os personagens Pertchiki, Teteriev e Bessemenov: PERTCHIKIN - Ah, eu não conto. Eu só digo que se não houvesse velhos, não haveria estupidez no mundo... Velho pensa como pau verde queimando, mais fumaça do que fogo! (Pólia olha carinhosamente o pai e acaricia seu ombro). TETERIEV – Aprovado. BESSEMENOV – É, é assim mesmo... Vá! Continue mentindo! (Piotr e Tatiana, parando de conversar, observam, sorrindo, a Pertchikin) PERTCHIKIN – Os velhos são antes de mais nada uns cabeças duras... peguem um velho, ele vê que está enganado, não entende nada... mas admitir? Ah, não admite.... ah! O orgulho! Eu vivi, ele diz; só de calça, só de calça eu já usei umas 40... e de repente eu não entendo mais nada, como é isso? É absurdo! E lá recomeça: sou velho, estou certo, tenho a razão... mas onde a razão? Seu espírito está cansado enquanto que os jovens estão vivos, têm miolo [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

BATISMO DE FOGO – O premiado livro Batismo de fogo (La ciudad y los perros - Nova Fronteira, 1962), é o primeiro romance do escritor e jornalista peruano, Premio Nobel de Literatura de 2010, Mario Vargas Llosa, traz o cotidiano de quatro cadetes de um colégio militar de Lima que tentam bater o sistema, limitar o aborrecimento e ultrapassar os confinamentos da academia, acabando por desencadear uma série de eventos que resulta em uma morte. Foi adaptado para o cinema com o título original, La ciudad y los perros (1985), pelo diretor peruano Francisco José Lombardi, interpretação de Luis Álvarez, argumento de José Watanabe e texto do autor do livro. Do livro destaco o seguinte trecho: [...] Alberto voltou para a casa a pé, ensimesmado, aturdido. O agonizante inverno se despedia de Miraflores com uma neblina súbita que pairava sobre as árvores da Avenida Larco, enfraquecendo o brilho dos postes de iluminação. Espalhava-se por toda a parte, envolvendo e dissolvendo objetos, pessoas, recordações: os rostos de Arana e do Jaguar, os alojamentos, as detenções, perdiam realidade cedendo lugar a um grupo de rapazes e moças que julgava esquecidos. Conversava com essas imagens de sonho no pequeno quadrilátero de relva da esquina da Diego Ferré e nada parecia ter mudado. A linguagem e os gestos lhe eram familiares. A vida era tão harmoniosa e tolerável, o tempo passava sem sobressaltos, doce e excitante com os olhos escuros daquela garota desconhecida que brincava alegremente com ele, uma garota baixinha e delicada, de voz clara e cabelos negros. Ninguém se surpreendia por vê-lo de novo ali, já adulto. Todos tinham crescido, homens e mulheres pareciam mais integrados no mundo, mas a atmosfera continuava igual: Alberto reconhecia as preocupações de outrora, os esportes, as festas, o cinema, as praias, o amor, o humor bem comportado, a malicia sutil. O quarto estava escuro. Deitado de costas na cama, Alberto sonhava de olhos abertos. Havia bastado apenas alguns segundos para que o mundo que tinha abandonado lhe reabrisse as portas e o recebesse outra vez em seu seio, sem lhe pedir explicações, como se o lugar que ocupava entre eles tivesse sido guardado zelosamente durante aqueles três dias. Tinha recuperado seu futuro [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


UMA VIDA EM SEGREDO – O belíssimo filme Uma vida em segredo (2002), da cineasta e roteirista brasileira Suzana Amaral, é baseado no romance homônimo de Autran Dourado. A história se passa no século XIX, contando a história de uma mulher acostumada à fazenda de café e gado, Biela e que, com a morte do pai, passa a morar na cidade com familiares, tentando se adaptar à nova realidade e, ao mesmo tempo, procurando manter-se fiel à sua maneira de ser. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


HOMENAGEM DO DIA
DIANNE WIEST


Todo dia é dia da premiada atriz estadunidense Dianne Wiest, Oscar de Melhor Atriz em 1986 e 1994. Veja mais aqui.


Veja mais sobre:
Padre Bidião & Doro discutem o reino do Fecamepa, a literatura de Tariq Ali, a música de Karin Fernandes, a pintura de Sigmar Polke & Orly Cogan aqui.

E mais:
As presepadas do Zé Corninho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A literatura de Monteiro Lobato aqui, aqui, aqui e aqui.
O teatro de Jerzy Grotowski, a poesia de Antero de Quental, a literatura de Patrícia Galvão – Pagu & Monteiro Lobato, a música de Uakti & Sacudindo Choro, a pintura de Jean-Baptiste Debret, o cinema de Norma Benguel & Carla Camurati aqui.
A menina dos olhos do bocejo eterno, a pintura de Aldo Palazzolo & muito mais aqui.
A professora, A sociedade da mente de Marvin Minsky, A lenda do mel de Ralph Whiteside Kerr, o teatro de Henrik Ibsen, a música de Lenine, a poesia de Columbina - Yde Schloenbach Blumenschein, a pintura de Carlos Leão, o cinema de Jean-Jacques Beineix & Valentina Sauca aqui.
A poesia & a música de Bee Scott aqui.
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Aurora, a canção, A natureza humana de Alfred Adler, Zaratustra & Friedrich Nietzsche, A logoterapia de Viktor Frankl, a poesia de Gregory Corso, o teatro de Tennessee William, a música de Hermeto Pascoal, a pintura de Gaston Guedy, o cinema de Pedro Almodóvar & Leona Cavalli aqui.
A literatura de João Guimarães Rosa, a poesia de Affonso Romano de Sant´Anna, a música de Dmitri Shostakovich & Mstislav Rostropovich, o teatro de Maria Helena Kühner, o serviço social de Marilda Vilela Yamamoto, Pra Frente Brasil, a arte de Gloria Swanson & a pintura Albert Marquet aqui.
Espera, A condição humana de Karl Jaspers, A crise das ciências de Hilton Japiassu, a literatura de João do Rio & Marquês de Sade, a música de Regina Schlochauer, o teatro de Dario Fo, a entrevista de Bráulio Tavares, a pintura de Anthea Rocker & Aaron Czerny, a fotografia de Herbert Matter, a arte de Ghada Amer, a escultura de Diogo de Macedo, Jazz & Cia Grupo de Dança, Dicionário Tataritaritatá, O que sou de praça na graça que é dela & O brasileiro é só um CPF Fabo arrodeado de golpes por todos os lados aqui.
De golpe em golpe a gente vai aprendendo, O coração humano de Goethe, Iniciações tibetianas de Alexandra David-Néel, O trabalho de André Gorz, a música de Franz Schubert & Mitsuko Uchida, a escultura de Horatio Greenough, a arte de Lygia Clark & Marina Abramović, A prática e a teoria de José Paulo Netto, a fotografia de Carl Warner, a arte de Simone Spoladore & Laura Barbosa & John Currin, o cinema de Mohsen Makhmalbaf, a coreografia de Anna Halprin, a entrevista de Tchello d’Barros, Oficina de Cordel, Vitalina & Tomé: o vexame da maior presepada & Do jeito que esse mundão vai só deus na causa aqui.
Tantas fazem & a gente é quem paga o pato, A condição pós-moderna de Jean-François Lyotard, a História de Georges Duby, a literatura de George Orwell & Alfredo Flores, Nietzsche e a psicologia, a pintura de Balthus, a música de PJ Harvey,a fotografia de Marta Maria Pérez Bravo & Richard Murrian, A dona da História de João Falcão, a arte de Marco Cochrane, a entrevista de Virna Teixeira, O infortúnio da prima da vera & Quando a bronca dá na canela, o melhor é respirar fundo à flor d’água pra não morrer afogado aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...