Mostrando postagens com marcador Autran Dourado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Autran Dourado. Mostrar todas as postagens

terça-feira, julho 07, 2020

ISABEL ALLENDE, DELAUME, SUELI CARNEIRO, CLAUDE SIMON, DORIS SALCEDO, TILA CHITUNDA & ALFAZEMA DE SABRINA FIDALGO



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: SER MELHOR QUE ANTES - A cada dia, a reinvenção de mim mesmo. Ao acordar, sou outro que sempre fui e não mais, tentando ser melhor nas relações, no trabalho, enfim, na vida. Sempre me pego fazendo coisas impensadas e, depois de rever, poderiam ter sido evitadas, apesar de não terem causado dano algum, acho. Como vou pela intuição, muitas vezes acerto; outras, nem tanto. Quando vou ver, hora de refazer a destroçada, valendo-me de William Faulkner: Não se incomode apenas para ser melhor do que seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que a si mesmo. Não fui, não sou nem nunca pensei ou quis ser melhor que outrem ou quem quer que seja. Basta a batalha comigo para que seja melhor que antes.

DUAS: COMO O MUNDO DÁ VOLTAS – Ainda ontem um poderio determinado, hoje não mais: sombras de Goya. O mando eterno, pensam; olvidam do efêmero. Frida Kahlo que o diga: Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparece. Cada tictac é um segundo da vida que passa, foge, e não se repete. E há nele tanta intensidade, tanto interesse, que o problema é só sabê-lo viver. Que cada um o resolva como puder. Para mim todo amanhã é agora; depois de amanhã, nunca mais.

TRÊS: O PATRIOTISMO BESTA QUADRADA DO BIRITOALDO – Escapulia trocando as pernas altas horas da noite, furtivamente decilitrado, quando foi instado por uma batida da patrulha. Queimou ruim ao ser encarcado: Sou bandido não! Um dos policiais tentou explicar da necessidade de isolamento social e utilização de máscara por conta da pandemia, ele se fazendo de mouco, assomando-se nos gestos ao ser tratado por cidadão pela autoridade: Cidadão uma porra! Calma, senhor. Sou o maior empeleiteiro da freguesia. Ao ser humano requer cidadania, meu senhor. Cidadania é pra zé-ruela, sou patriota e estou nos meus direitos! Como não houve como contê-lo, foi recolhido à delegacia. Lá, o delegado que se achava poeta naquela noite, tascou Maupassant na lata dele: Se a guerra é uma coisa horrível, não seria o patriotismo a ideia-mãe que a nutre? Biritoaldo olhou pros lados, cuspiu no chão, encarou o casacudo e bafejou: Essa ladainha eu não entendo não, sei que estou nos meus direitos. Recolhe esse aí pra ele esfriar o quengo, soldado! Dia seguinte, pelas 11, saiu ele com a cara mais lisa para se trancar no departamento da vergonha. Uma semana depois de escondido sem dar as caras, lá ia todo murcho, com o rabinho entre as pernas: E aí, Birito, onde tu tava, desgraçado? Tava comendo merda! Ora, só sendo, tu só faz bosta mesmo, num é? Foi-se, lá com ele, remoendo tudo. Autran Dourado que o diga: Ninguém sabe o que se passa dentro de ninguém, somos muralhas uns para os outros. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Para mim, o grande desafio é sempre o mesmo: como começar uma frase, como a continuar, como a completar. Pensamento do escritor francês Claude Simon (1913-2005), premio Nobel de Literatura de 1985. Ele é autor da obra La Bataille de Pharsale (Minuit, 1969), da qual recolhi o trecho: [...] Após o qual cada um dos fantasmas sai do escritório e O. faz uma cruz na frente de um nome em uma lista... primus ex dextro hornu procucurrit - o primeiro que ele lançou da ala direita - milicianos e milícias circenses centum et viginti voluntarii ejusdem centuriae sunt prosecuti - e cento e vinte soldados de elite, voluntários do mesmo centurião correu para o seu / Plutarco e Lucain confirma o fato; cf. Plutarco, Ces., XLIV; Pomp., LXXI: "O primeiro, Crastinus, sai da corrida, arrastando para trás os cento e vinte homens que ele comandava"; e Lucain, Phars., VII, 470-473: "Que os deuses não te dêem a morte, que é o castigo reservado a todos, mas, após o seu destino fatal, o sentimento da sua morte, Crastinus, você, cujo mortos brandiam a lança que travava o combate e os primeiros tingiram a Tessália com sangue romano [...]. Sobre sua trajetória, encontrei o documentário Os Homens-livro: Claude Simon de Roland (1988), dirigido por Roland Allard.

 

OUTROS DITOS

O sujeito não diz mais: eles. O sujeito nem sequer diz: na televisão. O sujeito não diz mais. Ele repete. E ele faz da voz da televisão sua. O sujeito não pensa mais: ele secreta. Uma substância corrosiva que amolece sua carne e confunde seu cérebro. De agora em diante: ele aparece... Para entender um movimento, é preciso analisar suas frases e entender sua composição. É preciso ter tempo de sobra para obter clareza...

Pensamento da escritora francesa Chloé Delaume (Nathalie Dalain), que no seu livro Mes bien chères soeurs (Points, 2019), ela expressa que: […] A linguagem sempre foi uma reserva privada. Quem a possui terá poder. [...]. Veja mais aqui.

 

A CONSTRUÇÃO DO OUTRO, DE SUELI CARNEIRO

[...] o dispositivo de racialidade opera a redução e/ou a negação dos “eus” na dinâmica das relações entre a diversidade humana. A multiplicidade de identidades que entrecortam os indivíduos, contemporaneamente ditadas por suas diferentes inserções ocupacional, de gênero, de classe etc., desaparecem quando adentro o negro. O negro chega antes da pessoa, o negro chega antes do indivíduo, o negro chega antes do profissional, o negro chega antes do gênero, o negro chega antes do título universitário, o negro chega antes da riqueza. [...]

Trecho extraído da tese de doutoramento sob a temática A construção do outro como não-ser como fundamento do ser (USP, 2005), da filósofa, escritora e ativista antirracista Sueli Carneiro. Veja mais aqui.

 

ILHA SOB O MAR, DE ISABEL ALLENDE

[…] Todos nós temos uma reserva insuspeita de força interior que surge quando a vida nos põe à prova. [...] O escravo que dança é livre... enquanto dança [...] Há espaço no coração humano para todas as divindades. [...] A música é um vento que sopra para longe os anos, as memórias e o medo, esse animal agachado que carrego dentro de mim. [...] Bato o chão com a sola dos pés e a vida sobe pelas minhas pernas, espalha-se pelo meu esqueleto, toma posse de mim, afasta a angústia e adoça a minha memória. O mundo estremece. [...].

Trechos extraídos da obra Island Beneath the Sea (Harpervia, 2020), da escritora chilena Isabel Allende (Isabel Allende Llona), autora dos livros The Sum of Our Days: A Memoir (2007), Portrait in Sepia (2000), Paula (1994) e Eva Luna (1987), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

 

ALFAZEMA, DE SABRINA FIDALGO
[...] Trata do dilema da foliã Flaviana (Shirley Cruz) que tenta se livrar de um amante (Victor Albuquerque) da noite anterior que se recusa a sair debaixo de seu chuveiro. O filme é uma comédia que se utiliza da metalinguagem do cinema para rir de si mesmo [...]
ALFAZEMA – O premiado curta-metragem de ficção, Alfazema (2019), é a segunda parte da Trilogia do Carnaval, da cineasta Sabrina Fidalgo, iniciado com o também premiado média-metragem Rainha (2016). Ela iniciou sua carreira com o curta-documentário Sonar 2006 - Special Report (2006) e, sobre si mesma, ela se define: Sou uma artista, mulher, negra, brasileira, latino-americana que escolheu o cinema nos papéis de diretora, roteirista e atriz/performer para se expressar. Na verdade eu me expresso de várias maneiras artisticamente. Sou desenhista autodidata e também tenho muita vontade de focar nas artes-plásticas. Amo música, tanto que tenho como hobby a pesquisa musical e sou DJ nas horas vagas. Na verdade eu tenho muitas referências e paixões e em vários momentos artísticos, escolhi o cinema, dentre outros motivos, porque é um lugar no qual posso estar diretamente envolvida com tudo o que eu gosto: música, artes plásticas, interpretação, fotografia e o próprio cinema em si. Foi um processo até chegar a essa conclusão. Mas o amor pelo cinema eu cultivo desde criança. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Centrei toda minha obra na violência política. No início de cada trabalho há um testemunho. Então todas as obras, todas as instalações que faço estão relacionadas a isso. Parto sempre de um testemunho real e em cima disso vou construindo algo que já não é tão precisamente sobre essa vítima, mas que leva a uma memória que é algo um pouco mais amplo sobre esse tipo de eventos.
DORIS SALCEDO - A arte da artista colombiana Doris Salcedo, que trabalha com instalações que envolvem esculturas com objetos cotidianos, como móveis de madeira e peças de vestuário, esculturas de memória, unindo o passado ao presente. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte da diretora, roteirista, produtora de cinema e TV, Tila Chitunda (Alice Chitunda), que é autora de dos documentários Fotográfica (2016), Nome de Batismo: Alice (2017) e Nome de Batismo: Frances (2019), afora desenvolver projetos, entre eles Mulheres no Cinema – Encontro e Ciclo de Formação (2018) e de ter atuado como produtora do documentário Pernambucanos (2007), entre outros.
&
A música de Lenine aqui.
A obra do escritor Pelópidas Soares (1922-2007) aqui.
Pontes imaginárias sob o céu do manguetown: influências do Mangue Beach sobre as políticas públicas no entorno do Rio Capibaribe – uma análise do circuito da Poesia e do Carnaval Multicultural, do geógrafo doutorando pela UFRJ, David Tavares Barbosa aqui.
A poesia de poeta e professor Admmauro Gommes aqui.
Os mortos de Sincorá aqui.
Proezas do Biritoaldo aqui.
&
Jaqueira aqui & aqui.


quinta-feira, abril 19, 2018

BAUDELAIRE, SOLJENÍTSIN, AUTRAN DOURADO, BERGMAN, JAYME GRIZ, VISCOTT, JOÃO GILBERTO & COSEY FANNI TUTTI

A GENTE NÃO SABE O QUE DIZ, NEM SABE O QUE QUER – Não é verão: Sol quente de tinir! Sol quente de rachar o chão! A insolação chega deixava a paisagem esturricada com tudo se movendo no céu azul de nenhuma nuvem, provocando fleuma pelo mormaço. O sapo Aderbal que não era sonso nem nada, estava de pernas pro ar à beira do Jereré, esperando que dele brotasse laminha que fosse, ah, nada, estava era sequinho, e ele se abanando esbaforido pelo suor, de quase morrer de inanição. Ah, isso não pode continuar assim. E tomou providência aprumando a gravata borboleta e o cinturão, futucando um e outro pruma reunião emergencial. Quando viu que ninguém levava a sério sua convocação, tornou a chamar na grande cada um do seu rol de amizade. Primeiro foi o compadre Asdrubal que chegou curioso: Que é que há, compadre? Nessa hora, Nallah apareceu invocada: Que alvoroço é esse, hem? Quando Aderbal foi abrindo a boca, Nallah deu-lhe um cascudo e perguntou pro Asdrubal: Como vai, compadre? Vou bem, comadre. Qual a novidade? Num sei, comadre, tô aqui a chamado do compadre Aderbal. Que é que estais aprontando, hem, presepeiro duma figa? Como ela falou alto pro marido, chamou atenção e logo foi juntando o Kid Malvadeza, Popó, o Lobizonzo, o Olho-de-ximbra, afora vizinhos doutras paragens que aproximaram curiosos para o espremido dela no folgado. Oba, hoje vai ter espetáculo de graça! Vai mesmo! Só quero ver o circo pegar fogo! Eu aposto na Nallah, e você? Quem é doido de apostar no Aderbal, hoje ele não escapa. E as apostas cresciam, enquanto Aderbal queria se explicar: Ôpa, atenção todos! Atenção, por favor! Só quando Nallah deu uma patada daquelas atômicas nas pedreiras que todos pararam assustados: É agora – disseram em uníssono, óóóóóóóóóóóóó! Atenção todos, vejam só: não é verão e que coisa é essa da gente passar mais de seis anos sol a pino, hem? Todos de boca aberta: óóóóóóóóó! Temos de fazer alguma coisa, senão vamos ser assados vivos! Óóóóóóó! A gente vai ter que ter um lero com o São Pedro prele abrir as portas do céu e arriar uma chuvinha pra gente se refrescar, num é não? Óóóóóóóó! Acho que o velhinho deve está cochilando e se esqueceu da gente aqui, nesse forno do inferno! Óóóóóóóó! Vamos preparar uma comissão pra gente ir lá reivindicar nossos direitos. Assim formaram a comitiva e foram até o céu ter com São Pedro. O alvoroço da chegada assustou o velhinho que cochilava: Sumpêdo! Sumpêdo! Que foi, que foi? Sumpêdo, o sinhô s’isqueceu da gente! Como assim? Faz mais de seis anos que num chove. Como pode? Ô Sumpêdo! Ói pra gente, dê um jeito na terra rachada de Sol, mande uma chuvinha, vá! Lá a gente só tem verão e isso de ano a ano, num chove desde seis anos atrás! O santo disse: Tudo a seu tempo, chuva só no inverno. Por favor, Sumpêdo, veja aí nos seus registros. O santo pacientemente levantou-se com dificuldade, foi com a maior má vontade até a sala do tempo e admirou-se: Eita, dessa vez o cochilo passou do ponto, realmente havia me esquecido! Ah, desculpem, meus filhos, podem ir, logo logo vou mandar uma chuvinha para minorar seus sofrimentos. Chuvinha? Ah, é modo de dizer! Tá certo, santo. E se despediram, retornando cada qual pro seu habitat. Também não é inverno: De repente, chuva, chuva, chuva, chuva. No começo, todo mundo feliz. Lá se vai um dia, chuva; dois, e tome chuva; três dias, maior tempestade; uma semana, parece mais um dilúvio; um mês, um ano, tudo esborrando, chuva, chuva, chuva. Do jeito que vai, morre tudo com o bucho cheio d’água! Chuva de danar a paciência! Chuva de sapo pedir aos céus clemência! Eita! Lá se reúnem de novo a comissão e, a muito custo chegam ao céu: Sumpêdo, mô fio, quer matar a gente afogado é? Não! Vai lá conferir: eu só mandei chuva pruns dias. Ah, santo, já faz mais de ano que é só chuva e chuva! Vixe, cochilei de novo, foi? Ajuda gente, Sumpêdo. E foi e mexeu, nada. Daqui a pouco ele volta coçando o cocuruto: Péssima notícia, Mãe Natura endoideceu! Como é que pode? Pois é. O que foi que houve? O bicho homem está alardeando que a Mãe Natura quer acabar com a gente, que precisamos dar um jeito nela. Como é que pode? Ah, já sei, a culpa é do bicho homem, esse só faz matar a gente, explorar a terra, sacrificar a vida. O que é que a gente faz? Quem pode contra o bicho homem? Eles estão matando a gente, a Terra e eles mesmos, o que a gente vai fazer de mesmo, hem? Quem pode com o bicho homem? Mãe Natura endoideceu e se ela que é Mãe, que é Sábia, que é Única, a cabeça perdeu... quanto mais eu, quanto mais eu! PS: texto baseado no poema Nordeste, do poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, violonista e compositor João Gilberto: 50 Anos de Bossa Nova ao vivo, Voz & Violão e Live In Tokyo; da artista performática, músico e escritora inglesa Cosey Fanni Tutti: Time to tell, Ritual awakening & Licking the juice; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Os outros não estão aqui para nos servir ou para serem bem-sucedidos com as perdas e as más barganhas que você sofreu; eles estão neste mundo para descobrirem seu caminho da melhor maneira que puderem. As expectativas irrealistas que você tiver sobre o comportamento das outras pessoas, as farão sentir-se usadas e tratadas como objetos sem sentimento nem direitos próprios. [...]. Trecho extraído da obra Linguagem dos sentimentos (Summus, 1982), do psiquiatra, escritor e empresário estadunidense David Viscott (1938-1996).

ARTE & VERDADE - [...] Tenho plena confiança que conseguirei cumprir meu dever de escritor em todas as circunstâncias, e até mesmo do túmulo com mais sucesso e de maneira mais irrefutável do que em vida. Ninguém pode impedir a marcha da verdade, e para defendê-la eu estou pronto a aceitar até mesmo a morte. Mas será possível que as repetidas lições não acabarão por ensinar-nos que não podemos deter a pena do escritor durante toda a sua vida? [...]. Extraído da obra Soljenitsin: a luta contra o silêncio (Artenova, 1973) de Zhores Medvedev, sobre o escritor, dramaturgo e historiador russo Alexander Soljenítsin (1918-2008). Veja mais aqui.

ÓPERA DOS FANTOCHES - [...] A primeira vez, o homem falava pouco, mas era muito delicado. Só diz uma coisa, se eu sabia de um hotel para aonde a gente pudesse ir. Eu digo que não sei, quando sabia. O que eu conheço fica longe daqui, diz ele. Tanto faz, digo. Vamos de táxi. Muito bom, há muito tempo não ando de táxi. No quarto ele se revela falante, quer saber da minha vida. Eu conto, aumentando, dramática. Ele deve ter ficado com pena de mim. Por que eu me humilhei, quando não tinha necessidade? Às vezes tenho vontade terrível de me humilhar, de ser abjeta. Então acontece: ele tira do bolso a carteira, produz uma nota. Não quero aceitar. Não sou prostituta, digo. Ele insiste, simpático. O inverno está apertando, é para comprar um casaco de lã para a menina, diz ele depois de eu ter dito que tinha uma filha. [...]. A segunda vez, pior. De chapéu na cabeça, ele diz qual é o seu preço? Dê quanto quiser, digo. Ele tira uma nota graúda da carteira. Assim eu fico sabendo quanto valho. Ou seria generosidade dele, por causa da história que contei? [...] O perigo da vida que eu estava levando era se um dia descobrissem tudo. [...]. Trechos extraídos da obra Ópera dos fantoches (Francisco Alves,1994), do escritor, advogado e jornalista Autran Dourado (1926-2012). Veja mais aqui.

BELEZA - Sou mais bela, ó mortais! Que um sonho de granito, / e meu seio, onde cada um geme de dor, / foi feito para o poeta inspirar um amor / semelhante à matéria, isto é, mudo e infinito. / Reino no azul como uma esfinge singular; / meu coração é neve e ao mesmo tempo arminho; / odeio o que se move e faz o desalinho, / e não sei o que é rir, nem sei o que é chorar. / Os poetas, ante as minhas grandes atitudes, / que aos monumentos mais altivos emprestei, / consumirão o ser nos estudos mais rudes; / pois para esses servis amantes reservei / um puro espelho em que é mais bela a realidade: / meu olhar, largo olhar de eterna claridade. Poema do escritor, tradutor, crítico de arte e poeta francês, Charles Baudelaire (1821 - 1867). Veja mais aqui.

GRITOS E SUSSURROS
O DIÁRIO DE AGNES – Entre outras coisas quero cobrir o rosto com as mãos e nunca mais retirá-las. Que posso fazer com esta solidão? Os longos dias, as noites silenciosas e insones.  Que posso fazer com todo este tempo que irrompe sobre mim? Então prefiro penetrar em meu desespero e deixá-lo queimar-me. Pois tenho reparado que se tento evitá-lo ou mantê-lo do lado de fora, as coisas tornam-se apenas mais difíceis. É melhor abrir-se, receber aquilo que castiga ou faz mal. Não cochilar ou desviar-se como eu fazia antes. Quando escrevo sobre a solidão, sou, aliás, injusta. Anna é minha amiga e camarada. E eu creio que a sua solidão é pior do que a minha. Eu ainda posso consolar-me com a pintura, a música e os livros. Anna não tem nada. por vezes, tento falar com ela dela mesma. Mas ela fica tímida e se tranca. [...]. Trecho extraído da obra Gritos e sussurros (Nórdica, 1977), do dramaturgo e cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), lançado no cinema em 1972, contando a história de Agnes que lentamente morre de câncer, mas suas irmãs estão tão profundamente imersas em suas próprias dores psíquicas que não podem oferecer-lhe o apoio de que ela precisa. Maria está devastada com a culpa do suicídio do marido, causada pela descoberta de seu caso extraconjugal. A autodestrutiva e suicida Karin vê sua irmã com repulsa. Apenas Anna, a empregada profundamente religiosa que perdeu o filho jovem, parece ser capaz de oferecer a Agnes consolo e empatia. Veja mais aqui.
III Prêmio Henrique José de Souza de Literatura & muito mais na Agenda aqui.
&
Da cana sou alma doce & fel, a literatura de Jack London, Ligas camponesas de Fernando Antônio Azevedo & Trabalhadores nos canaviais de Lúcio Vasconcellos de Verçoza aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

sábado, dezembro 02, 2017

THOMAS MANN, JOSUÉ DE CASTRO, AUTRAN DOURADO, MARIA CALLAS, TONINHO HORTA, JESSIER, BARBARA HEINISCH, TEATRO PERNAMBUCANO, CONTRAPONTO & VENTUROSA

É SIM E COMO É QUE NÃO PODE – Imagem: arte da pintora e perfomer alemã Barbara Heinisch. - Quando Jadinelson – Jadí pros da sua laia - bateu as botas que chegou à encruzilhada entre as portas do céu, o buraco do inferno e o estreitinho pinguelo do purgatório, bateu-lhe uma dúvida: Pronde é que vou mesmo? E ficou ali, no osso do mucumbu, sem saber qual deles escolhia. É que sua vida não havia sido nada daquilo que imaginava que fosse, de não saber ao certo, se pulava pra santa paz, se tostava inturido pagando os pecados de vez, ou se pinotava pra coluna do meio amargando a eterna dúvida: Estou num verdadeiro mata-burro! Tudo começou quando ele deu aquela empenada de se enrabichar pras bandas da Cecíclia – a angelical feiosa Cezinha, a que arriou desmantelando sua vida numa estrepitosa paixonite -, não prevendo ele as afolozadas voltas que a vida dá. Cristão filho de Deus, como ele se dizia reiteradamente, não entendia o que havia feito pra pagar tão pesado quinhão. Resolveu, então, dá um freio nas ideias e refletir no amiudado para saber adonde é que estava a causa de tudo que tanto atormentava no meio das nuvens. Tantos constrangimentos repassados, até teve cócegas afetivas no seu combalido coração, com as lembranças de como foi que ela pousou faceira, de repente, como um anjinha bem safadinha às suas vistas. Pense num aperreio: ela nem aí pra sua secura idílica. Não fosse o amigo carne e unha, Lalau – o Venceslau pros que não são da roda -, aliado às coiteiras ajeitadas da sua amantíssima namorada, Lolinha – respeitosamente tratada por dona Locidalva -, ele não teria sabido como fazer com aquele estrupício de paixão. Emplacou namoro de pular noivado, casando-se com o prestimoso apadrinhamento do casal amigo. Nem bem dois meses, já anunciava festivamente o embuchamento da então esposa, com uma cachaçada de arrasar quarteirão: É homem, macho como o pai! A gravidez aos altos e baixos, idas e vindas, o menino rebenta e ele todo ancho, nem levava mais em conta os apertos de todos os dias, semanas, meses, anos. Estava ele agora premiado com o sonho de ser pai e isso era o que valia, pronto! A vida passa, o tempo lá e cá, o menino cresce e a fuchicagem come no centro: Esse menino desmunheca! Como? Isso mesmo! Sai pra lá comboio de enredeiro! Rapaz, esse menino acende a fluorescente! Hem? Ele queima a rodela! Vai ter briga. Esse menino, sei não a quem puxou! E Jadí foi conferir a boataria: olhou, cismou, quase teve um troço, fez que não viu, relevou, chateou-se, não morreu por conta do sempre providencial pitaco do Lalau: Rapaz, se levar a sério o que a mundiça diz, você que morre do coração. É mesmo. Convenceu-se e deixou a coisa escorrer na calha, até o dia em que a boataria passou dos limites e ele se virou pra mulher e gritou: A culpa é sua, desgraçada! Ela nem ligou, já era culpada mesmo de um monte de coisas que nem entendia. Foi aí que o próprio Lalau segredou: Meu compadre, abre o olho: o menino está fazendo fila da macharia nos requedros das quebradas. Como é? Ele está servindo de quenga pra lavagem da jega! Hem? Ô bicho burro da gota: o macho do teu filho está soltando o frosquete! Vixe! Danou-se! Quer me matar de vergonha, é? Foi um Deus nos acuda! Esse menino só me dá vexame! A coisa enfeiou dele perder o senso e a razão: tomou todas de virada e quando chegou em casa arriou a lenha pra cima da mulher, findando na deportação do primogênito: Agora ele vai dar o furico na casa de caixa pregos, aqui não! Então, desterrado pro fim do mundo, o seu Sydnelson assumiu de vez a SySy – com dois ipsilones no meio dos dois esses, como ele afetadamente pronunciava. E transformou-se na dama desvaraida das noites, viúva dos perdidos, cachorra dos sebosos, quenga dos desvalidos, atriz no picadeiro das mariposas, dadeira de todas as safadezas embaixo do lençol: Essa é a viada mais despranaveada de todas! E ela desfilava reboladeira toda espaçosa a ponto de seduzir gregos e troianos às centenas toda de manhã, de tarde e de noite madrugada a dentro, direto feito cantiga de grilo, de não se saciar da safadeza todos os dias, até feriados e dias santos, o que era o maior escândalo. Era um escarcéu. Eis que um dia lá, quando se preparava para a cirurgia de remoção dos penduricalhos e troca dos documentos, ninguém sabe que milagre dos remédios, a espalhafatosa biba se acordou assim, sem mais nem menos, macho dos brabos como se ruidoso e destemido halterofilista, distribuindo bofetada para quem ousasse escárnio com qualquer menção à Sysy: - agora valente Sidnelson, pra quem não sabe. Alguém assobiasse dormia certamente com o maluvido esquentado pra aprender a respeitar. Como é que é? Nunca ouvi falar de ex-gay! Sou muito macho! - e carimbava a munhecada de deixar uma roncha no olho do intrometido que aparecesse com insinuação. Logo ele conheceu Ranuza, uma galeguinha bem arrumada de peito, cardan e beiço, chega dava gosto de ver os dois no maior dos agarrados, aos beijos e apertões. Menino, essa eu nunca vi! Agora veja. Tanto é que Jadinelson estava lá no meio das nuvens, se perguntando: Como é que pode, hem? É sim e por que não? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais 

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com com a cantora lírica estadunidense de origem grega, Maria Callas – La Divina (1923-1977) & Best Colection – Casta Diva, Madame Butterfly, La Traviata, Mimi & Mio bambino caro; & do compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta: Foot On The Road (1994). Veja mais 

PENSAMENTO DO DIA – [...] Em realidade, passamos a nos habituar com o desumano. Aprendemos a tolerar o intolerável. Acomodamo-nos a uma realidade social repleta de carências e cheia de ausências. A palavra política provoca um silêncio gritante. O arco-iris do futuro se nos apresenta inteiramente incolor. Ao purgarm,os essa nova ordem coletiva, caminhamos indignados, mas com uma intrigante conformação, esperando que algum milagre aconteça nas nossas vidas e compreendamos melhor a teia de complexidade que é a realidade, porquento nas nossas míopes visões tudo isso não passa de uma (dês)ordem geral. Trecho de O poder dos mercados: até pouco tempo atrás, a economia nacional era uma entidade soberana, agora o domínio é dos mercados, extraído da obra Contraponto: poder, política, economia e costumes (CEPE, 2006), do economista, professor universitário, editor e analista consultor Carlos Alberto Fernandes.

VENTUROSA – O município de Venturosa é administrativamente formado pelos distritos sede e Grotão e pelos povoados de Ingazeira e Tara Velho, está inserido no Planalto da Borborema, situado nos domínios da Bacia Hidrográfica do Rio Ipanema e seus tributários são os rios dos Bois e Cordeiro, e os riachos do Meio, Carrapateira, da Luiza, das Cabeceiras, Chã de Souza, da Pedra Fixa e Simão. Todos os cursos d'água são intermitentes. O município conta ainda com o açude Ingazeira. O município foi denominado de vila de Venturosa já próximo de ser emancipada. Logo em seguida, foi elevada a categoria de cidade, localizando-se a Pedra Furada, que é uma das mais belas paisagens da região e que faz parte do pólo Buíque/Pesqueira/Venturosa que é um dos sete pólos de ecoturismo de Pernambuco. Em 1985, a Prefeitura de Venturosa construiu o Parque Pedra Furada que dispõe de infraestrutura básica, situada no parque municipal, no qual o mirante oferece paisagens de grande beleza. A cidade possui também outros sítios arqueológicos de grande valor histórico-cientifico, como a pedra do Tubarão, onde foram descobertos um cemitério de índios pré-históricos; Peri-peri ou Morro dos Ossos, formados por dois grandes blocos de granito, que afloram em meio a uma planície e que possuem em suas paredes inúmeras pinturas rupestres. Veja mais aqui.

QUEM NÃO TEM REMÉDIO REMEDIADO ESTÁ – A família Silva mora nos “mangues” da cidade do Recirfe, num “mocambo” que o chefe da família fez quando chegou de cima. A família é originária do sertão. Desceu do Cariri, na seca, perseguida pela fome. Fez uma paradinha no brejo, para tentar o trabalho das usinas, mas não se pôde agüentar com os salários dessa zona, sem ter direito a plantar senão cana. Sem ter, nem ao menos o recurso do xiquexique e da macambira, como no sertão, para quando a fome apertasse. Nesse tempo espalharam pelo interior um boato que o governo tinha criado um ministério para defender os interesses do trabalhador e que com os fiscais da lei, a vida na cidade estava uma beleza, trabalhador ganhando tanto que dava para comer até matar a fome. A família Silva ouviu esta estória, acreditou piamente e resolveu descer para a cidade, para gozar das vantagens que o governo bom oferece aos pobres. Logo de chegada a família ouviu que a coisa era outra. Não havia dúvida que a cidade era bonita, com tanto palácio e as ruas fervilhando de automóveis. Mas a vida do operário, apertada como sempre. Muita coisa pros olhos, pouca coisa pra barriga. O caboclo Zé Luís da Silva não quis desanimar. Adaptou-se: "Quem não tem remédio, remediado está." Entrou na luta da cidade com todas as forças de que dispunha, mas as forças dele não rendiam que desse para a família viver com casa, roupa e comida. Casa só de 80 mil réis para cima, para comida uns 150 e os salários sem passarem de 5 mil réis por dia. Começou o arrôcho. Só havia uma maneira de desapertar: era cair no mangue. No mangue não se paga casa, come-se caranguejo e anda-se quase nu. O mangue é um paraíso. Sem o cor-de-rosa e o azul do paraíso celeste, mas com as cores negras da lama, paraíso dos caranguejos. No mangue o terreno não é de ninguém. É da maré. Quando ela enche, se estira e se espreguiça, alaga a terra toda, mas quando ela baixa e se encolhe, deixa descobertos os calombos mais altos. Num deles, o caboclo Zé Luís levantou o seu mocambo. As paredes de varas de mangue e lama amassada. A coberta de palha, capim seco e outros materiais que o monturo fornece. Tudo de graça encontrado ali mesmo numa bruta camaradagem com a natureza. O mangue é um camaradão. Dá tudo, casa e comida: mocambo e caranguejo. Agora, quando o caboclo sai de manhã para o trabalho, já o resto da família cai no mundo. Os meninos vão pulando do jirau, abrindo a porta e caindo no mangue. Lavam as ramelas dos olhos com a água barrenta, fazem porcaria e pipi, ali mesmo, depois enterram os braços na lama a dentro para pegar caranguejos. Com as pernas e os braços atolados na lama, a família Silva está com a vida garantida. Zé Luís vai para o trabalho sossegado, porque deixa a família dentro da própria comida, atolada na lama fervilhante de caranguejos e siris. Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo. Tudo aí, é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive o homem e a lama que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive nela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez. Nesta placidez de charco, identificada, unificada no ciclo do caranguejo, a família Silva vai vivendo, com a sua vida solucionada, como uma das etapas do ciclo maravilhoso. Cada elemento da família marcha dentro desse ciclo até o fim, até o dia de sua morte. Nesse dia os vizinhos piedosos levarão aquela lama que deixou de viver, dentro dum caixão pro cemitério de Santo Amaro, onde ela seguirá as etapas do verme e da flor. Etapas demasiado poéticas, cheias duma poesia que o mangue não comportaria. Parte-se aparentemente, neste dia, o ciclo do caranguejo, mas os parentes que ficam, derramam caridosos as suas lágrimas no mangue para alimentar a lama que alimenta o ciclo do caranguejo. Texto O ciclo do carangueijo, extraído da obra Documentário Nordeste (Brasiliense, 1957), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais 

A VERDADE & A BELEZA - [...] A verdade e a beleza devem ser postas em relação; tomadas em si mesmas, sem o apoio que mútuamente se prestam, são valores mui instáveis. A beleza que não se fundasse na verdade, que não pudesse apelar para ela, que não nascesse dela a não vivesse graças a ela, seria pura quimera - e "que é a verdade"? Tirados dum mundo de fenômenos, duma visão do mundo submetida a múltiplas condições, nossos conceitos, como o discerne e o reconhece a filosofia crítica, não são para use transcendente mas só imanente; esse material de nosso pensamento e, com maior razão, os juízos que nos permite construir, não são meios adequados para quem quer apreender a própria essência das coisas e a verdadeira conexão do mundo a da existência. Mesmo que, por uma experiência intimamente vivida, se determine mais convencida a mais convincentemente o que está na base dos fenômenos ainda não se terá trazido à luz a raiz das coisas. Só isto encoraja o espírito humano a tentar este ensaio, que se lhe impõe a isto o justifica; é a hipótese necessária de que também o nosso próprio ser, o nosso mais profundo Eu, é um elemento desse "substractum" do mundo, que aí deve ter raízes e que, por conseguinte, dele talvez se tirem alguns dados que permitam esclarecer a ligação do mundo dos fenômenos a da essência verdadeira das coisas. [...] Texto escrito pelo escritor alemão e Prêmio Nobel de Literatura de 1929, Thomas Mann (1875-1955). Veja mais 

AQUELA DESTELHADA – [...] Destelhada sozinha na rua era uma, em companhia de dona Pequetita era outra. Sozinha, andava ligeira e desempenada, deselegante e sem jejto, o corpo bambolenate todo apoiado ora num pé, ora noutro. Se encontrava algum conhecido, parava e destramelava a língua, contava os casos mais estúrdios e desataviados, que ninguém entendia direito, tão matéria de desmiolação eram as suas conversas. [...] Num instante Aquela Destalhada foi sumindo, sumindo, minguando, e virou um monte de ossos, fantasticamente encolhida. Todo mundo viu que, apesar dos surpreendentes cuidados de dona Pequetita, tinha chegado a sua vez. [...]. Conto extraído da obra Melhores contos (Global, 2001), reunidos do escritor, advogado e jornalista Autran Dourado (1926-2012), organizado por João Luiz Lafetá. Veja mais 

FÉ MENINA: DE COMO AOS POUCOS POUQUINHOS SE PALAVRA UMA MULHER – Aos poucos ela se estreia. / se espelha, se emparelha, se brecha, se avexa / se acalma, se isola, se desnuda, se tesuda / se chuvisca, se saboneta, se tateia / se depila, se orvalha, se toalha, se enxuta / se hidrata, se escova, se desodora, se fareja / se calcinha, se saia, se camiseta / se retoca, se bonita, se bendita, se viceja / se lampeja, se menina, se gata, se heroína, / se tigresa, se mulher. / Se joga na vida dele, se afeiçoa, se atina, se afina, / se imã, se clima, se bem-me-quer. / Se namora, se demora / se chega, se aprochega, se encabula, se melindra / se recata, se fasta, se dificulta / se nega, se nega, se nega... / Se titubeia, se insinua, se permite, se alua / se enfraquece, se esquece, se entrega, se chamega / se beija, se rebeija, se carícia / se ameiga, se marasma, se instiga, se descontina. / Se inflama, se faísca, se incendeia, / se inunda, se serpenteia / se galopa, se ofega, se avassala, se cora / se desnorta, se doideja, se tremelica / se transborda, se zarolha, se estardalha / se estonteia, se estronda, se estupefa / se estafa, se triunfa, se fulmina... / se glorifica. Poema extraído da obra Bandeira nordestina (Bagaço, 2006), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais 
aqui.

XADREZ NA BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Nesta sexta-feira, 01/12, realizou-se o Campeonato de Xadrez na Biblioteca Pública Fenelon, envolvendo alunos da Escola Municipal Lauro Chaves e participantes da comunidade, com apoio da Semed Palmares-PE.

Veja mais:

A literatura de Marquês de Sade aqui, aqui, aqui & aqui.
A arte de Anita Malfati aqui, aqui, aqui & aqui.
O teatro de Edmond Rostand aqui.
A arte de Otto Dix aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora e perfomer alemã Barbara Heinisch.
Veja mais aqui.

MEMÓRIA DA CENA PERNAMBUCANA
Livro tratando acerca da cena teatral pernambucana, a partir do Teatro Hermilo Borba Filho, do Tucap, do TEO, do Teatro da Criança do Recife, Vivencial Diversiones, Clube de Teatro de Pernambuco, do Tare/Marcus Siqueira Produções Artisticas, do TAM, TTTrês Produções & Grpo de Teatro Panaceia, organizado por Leidson Ferraz, Rodrigo Dourado e Wellington Júnior (Autores, 2005), com entrevistas, fotos e registros de espetáculos. Veja mais aqui & aqui.


sábado, outubro 07, 2017

DERRIDA, AUTRAN DOURADO, KALJU LEPIK, JOHN RUSKIN, IRVING PENN & CLAUDIO TOZZI

QUANDO DÁ ERRADO, MELHOR PUXAR O CARRO – Imagem: arte do pintor e desenhista Claudio Tozzi. - Judlinho não dava uma dentro, as paqueras só nos foras: quero não que você tem as meias com o dedão de fora! Como? Era mesmo. Quando não eram emendadas por remendos escandalosos, os dedos tudo aparecendo, maior vergonha quando tinha de tirar os sapatos. Ou: quero não, sua cueca tem um buraco no furico! Eita! De fato, maior risadagem: só tinha uma cueca, descolorida, desbotada, nódoa de freio no rego da bunda e o orifício no tecido por conta das rajadas de flatulências catingosas. Ou, ainda: quero não, você é o maior peidão! Pense na moganga, o rei dos borborigmos desagradáveis. Pois é, ele já vivia cabreiro: que é que falta essas meninas saberem dele, hem? Tudo sabiam: dos comichões nas partes pudendas que findavam em bronhas desajeitadas, carreira de grude na gola das camisas, sovaqueira da maior inhaca, trejeitos de variado tipo chega dava agonia em quem estivesse por perto, olhadelas indiscretas, que coisa! Estão me brechando, só pode! Sabem tudo de mim, ou tem caboeta na roda queimando o meu filme. Nada de descobrir. Aquietou-se no flerte com as colegas de classe, passou a evitar as do seu tope, todas metidas a besta, beiçudas de ventas empinadas, tudo cu-doce. Começou azarar nas outras classes, viagem perdida: ninguém queria papo com um sujeito broco xexelento daquele, ora! Já havia desistido de flertar, quando apareceu a oportunidade de invadir outro nicco: debandou pras empregadas domésticas, tratadas por ele por piniqueiras: vá escovar os dentes, meu filho! Ou: vá tirar a catinga do mijo que você só anda fedendo. Ou, então: vá arrumar o que fazer, crescer, juntar dinheiro e apareça depois disso, viu? Invocou-se, viu que não levava jeito pra namoricos. Vivia no maior aperto, só amainado certa tarde quando apareceu a professora Nedilicia! Eita! Pra ele a coisa mais linda do universo. Tomou jeito, deu uma repaginada geral e esticou os cambitos na maior dedicação. Oxe, era outro: para quem nunca vira o sujeito agarrado a livros e cadernos, os pais passaram a pensar que ele havia tomado gosto pelos estudos definitivamente. Agora vai. Era não, mas engatou primeira e ia levando como podia, aprendendo a debrear para ver se no papo engatava segunda, nada até agora. Virou aluno da primeira fila, bastava ela cruzar o batente da sala, já se levantava para apagar o quadro negro, ajudá-la a carregar os livros e cadernetas, todo oferecido e pronto para fazer o mundo rodar ao contrário, acaso fosse o desejo dela: é a professora mais encantadora do mundo! A mais bonita, a melhor! Era ele sonhando enquanto ela ministrava os assuntos para todos, sem nem dar conta da presença dele por ali. Era sempre o primeiro a responder as perguntas, nunca faltava uma aula, fazendo de tudo para chamar atenção dela. E ela, nem, nem. Resolveu, então, esperá-la na entrada da escola para ajudá-la a descer do automóvel sobrecarregada de coisas: Pode deixar, professora, eu ajudo a levar. E esmerou-se no carregamento, tornando-se o seu serviçal. E assim, todo dia, já no costume, ganhando um sorriso e até alisado no cocuruto, mais nada. Isso até o dia em que ela chegou apoquentada, estacionou na maior freada, gritou por ele e jogou meio mundo de coisas nos seus braços, com a recomendação: Pelo amor de Deus, não vá derrubar nada, por favor! Mal acabara de dizer, ele partiu na carreira e, ao atravessar a pontezinha pra entrada do colégio, desequilibrou-se de soltar tudo e findar mergulhado no esgoto, melando-se todo e botando tudo a perder. A professora teve um ataque de nervos de gritar: Isso é coisa que se faça, seu desastrado? Mudo, acabrunhado, restou apenas se levantar, sair juntando as coisas no meladeiro, tentar limpar tudo o quanto pode, murchar o rabinho entre as pernas e sair de fininho pra nunca mais. Consigo: É, não levo jeito mesmo pra nada com as mulheres. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música da cantora e compositora islandesa Björk: Vulnícura live, Travessia & Live Royal Opera House; do premiado compositor e saxofonista Livio Tragtenberg: Mirroir merengue, A dama da lua & Nervous City Orchestra; do violonista, compositor e arranjador brasileiro Paulo Bellinati: Lira brasileira, Choros & Waltzs of Brazil & Garoto; e da da cantora Marisa Ricco: Meu cais, Um sábio & Reconvexo. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] as grandes cidades da terra tornaram-se centros asquerosos de fornicação e cobiça – a fumaça que se exala de seus pecados penera na face dos céus como a fornalha de Sodoma; e sua poluição putrefaz e pulveriza os ossos e as almas da gente do campo que vive ao redor delas, como se cada uma fosse um vulcão cujas cinzas arrebentassem em pústulas sobre homens e animais [...]. Trecho da obra The Lord's prayer and the church (1880), do escritor, crítico de arte e crítico social britânico John Ruskin (1819-1900).

DESCONSTRUÇÃO & DIFERENÇA – [...] “Desconstruir” a filosofia seria, assim, pensar a genealogia estrutural de seus conceitos da maneira mais fiel, mais interior, mas, ao mesmo tempo, a partir de um certo exterior, por ela inqualificável, inominável, determinar aquilo que essa história foi capaz – ao se fazer história por meio dessa repressão, de algum modo, interessada – de dissimular ou interditar. Nesse momento, produz-se – por meio dessa circulação ao mesmo tempo fiel e violenta entre o dentro e o fora da filosofia (quer dizer, do Ocidente) – um certo trabalho textual que proporciona um grande prazer. [...] Nada – nenhum ente presente e in-diferante [indidifférant] – precede, pois, a différance e o espaçamento. Não existe qualquer sujeito que seja agente, autor e senhor da différance, um sujeito ao qual ela sobreviria, eventualmente e empiricamente. A subjetividade – como a objetividade – é um efeito de différance, um efeito inscrito em um sistema de différance. É por isso que o da différance lembra também que o espaçamento é temporização, desvio, retardo, pelo qual a intuição, a percepção, a consumação, em uma palavra, a relação com o presente, a referência a uma realidade presente, a um ente, são sempre diferidos. Diferidos em razão do princípio mesmo da diferença que quer que um elemento não funcione e não signifique, não adquira ou forneça seu “sentido”, a não ser remetendo-o a um outro elemento, passado ou futuro, em uma economia de rastros [...]. Trechos extraídos da obra Posições (Autêntica, 2001), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui e aqui.

AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS - [...] Podia ver o dr. Saturnino à vontade: os mínimos gestos, as mãos grandes e peludas, o timbre da fala grave e distinta, os olhos parados nas nuvens, um jeito de sonhoso. Ele se distraia, brincava girando o anel de chuveiro no dedo, olhava o céu azul estalando sem nuvens, o jardim que via pela janela, lá do alto do estrado. Os olhos detrás das lentes brilhantes dos óculos, o aro de metal. Pedro via os mínimos gestos, os seus mínimos traços, mesmo a ruga entre as sobrancelhas quando voltava a prestar atenção no que lia o escrivão, seu o Tomásio. A atenção certamente fingida, devia saber de cor e salteado aquelas páginas, ele próprio que comandou o processo. Mesmo assim o olhar preso, o ouvido atento de quem está ouvindo pela primeira vez um assunto. Será que na verdade ele finge, pra dar o exemplo? Devia ser, senão tudo não passaria de pantomima, matéria de desocupados. E no entanto ali iam dar um destino à sua vida. A assistência quieta, não se ouvia nenhum sussurro, nenhuma outra voz além da do escrivão Tomásio Preto, que apesar do nome era branco. Só uma vez todo mundo rui, e o dr. Saturnino teve de soar a campainha? Quando leu o lado do exame cadavérico. A linguagem arrevezada do dr. Viriato, que demandava interprete (seu Bê, quando na rua), falando das partes baixas da criação. Do seu cercado de balaustrada feito grade de comunhão, até os jurados riram. O padre Matias, aquele homenzarrão, se encurvava todo para lhe meter a hóstia na boca. Ele menino, depois de grande não ficava bem, podiam dizer que ele era beato ou veado. Com padre Matias não teria acontecido aquilo, o outro era novinho, padre Joel parecia um seminarista [...]. trecho da obra As imaginações pecaminosas (Record, 1982), do escritor, advogado e jornalista Autran Dourado (1926-2012). Veja mais aqui.

A POESIA LÍRICA DE KALJU LEPIK – Praga: / Se destruíres nosso povo / Que a chuva vire pedra sobre teus campos. / Que a pedra dispare brotos de pedra. / Que pão de pedra esteja em tua mesa. / Que pétreo seja o chão em que pisas. / Que pétreo seja teu céu acima. / Que o mar vire pedra. / Vire pedra como teu coração é de pedra / Contra nossa terra e nosso povo. Poema Uma poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria, do poeta lírico estoniano Kalju Lepik (1920 – 1999).

BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Batendo papo com a estudantada, a professora e escritora Socorro Durán & o diretor da Biblioteca, João Paulo Araújo.

Veja mais:
A música de Björk aqui, aqui e aqui.
Crença pelo direito de viver e deixar viver aqui.
A arte musical de Livio Tragtenberg aqui.
A poesia de Catulo da Paixão Cearense  aqui.
A arte de Paulo Bellinati aqui
O talento musical de Marisa Ricco aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo estadunidense Irving Penn (1917-2009).
Veja mais aqui.

TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

  Imagem: Fluxo dos devires , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula porcina na cabeça!... -...