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terça-feira, julho 07, 2020

ISABEL ALLENDE, DELAUME, SUELI CARNEIRO, CLAUDE SIMON, DORIS SALCEDO, TILA CHITUNDA & ALFAZEMA DE SABRINA FIDALGO



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: SER MELHOR QUE ANTES - A cada dia, a reinvenção de mim mesmo. Ao acordar, sou outro que sempre fui e não mais, tentando ser melhor nas relações, no trabalho, enfim, na vida. Sempre me pego fazendo coisas impensadas e, depois de rever, poderiam ter sido evitadas, apesar de não terem causado dano algum, acho. Como vou pela intuição, muitas vezes acerto; outras, nem tanto. Quando vou ver, hora de refazer a destroçada, valendo-me de William Faulkner: Não se incomode apenas para ser melhor do que seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que a si mesmo. Não fui, não sou nem nunca pensei ou quis ser melhor que outrem ou quem quer que seja. Basta a batalha comigo para que seja melhor que antes.

DUAS: COMO O MUNDO DÁ VOLTAS – Ainda ontem um poderio determinado, hoje não mais: sombras de Goya. O mando eterno, pensam; olvidam do efêmero. Frida Kahlo que o diga: Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparece. Cada tictac é um segundo da vida que passa, foge, e não se repete. E há nele tanta intensidade, tanto interesse, que o problema é só sabê-lo viver. Que cada um o resolva como puder. Para mim todo amanhã é agora; depois de amanhã, nunca mais.

TRÊS: O PATRIOTISMO BESTA QUADRADA DO BIRITOALDO – Escapulia trocando as pernas altas horas da noite, furtivamente decilitrado, quando foi instado por uma batida da patrulha. Queimou ruim ao ser encarcado: Sou bandido não! Um dos policiais tentou explicar da necessidade de isolamento social e utilização de máscara por conta da pandemia, ele se fazendo de mouco, assomando-se nos gestos ao ser tratado por cidadão pela autoridade: Cidadão uma porra! Calma, senhor. Sou o maior empeleiteiro da freguesia. Ao ser humano requer cidadania, meu senhor. Cidadania é pra zé-ruela, sou patriota e estou nos meus direitos! Como não houve como contê-lo, foi recolhido à delegacia. Lá, o delegado que se achava poeta naquela noite, tascou Maupassant na lata dele: Se a guerra é uma coisa horrível, não seria o patriotismo a ideia-mãe que a nutre? Biritoaldo olhou pros lados, cuspiu no chão, encarou o casacudo e bafejou: Essa ladainha eu não entendo não, sei que estou nos meus direitos. Recolhe esse aí pra ele esfriar o quengo, soldado! Dia seguinte, pelas 11, saiu ele com a cara mais lisa para se trancar no departamento da vergonha. Uma semana depois de escondido sem dar as caras, lá ia todo murcho, com o rabinho entre as pernas: E aí, Birito, onde tu tava, desgraçado? Tava comendo merda! Ora, só sendo, tu só faz bosta mesmo, num é? Foi-se, lá com ele, remoendo tudo. Autran Dourado que o diga: Ninguém sabe o que se passa dentro de ninguém, somos muralhas uns para os outros. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Para mim, o grande desafio é sempre o mesmo: como começar uma frase, como a continuar, como a completar. Pensamento do escritor francês Claude Simon (1913-2005), premio Nobel de Literatura de 1985. Ele é autor da obra La Bataille de Pharsale (Minuit, 1969), da qual recolhi o trecho: [...] Após o qual cada um dos fantasmas sai do escritório e O. faz uma cruz na frente de um nome em uma lista... primus ex dextro hornu procucurrit - o primeiro que ele lançou da ala direita - milicianos e milícias circenses centum et viginti voluntarii ejusdem centuriae sunt prosecuti - e cento e vinte soldados de elite, voluntários do mesmo centurião correu para o seu / Plutarco e Lucain confirma o fato; cf. Plutarco, Ces., XLIV; Pomp., LXXI: "O primeiro, Crastinus, sai da corrida, arrastando para trás os cento e vinte homens que ele comandava"; e Lucain, Phars., VII, 470-473: "Que os deuses não te dêem a morte, que é o castigo reservado a todos, mas, após o seu destino fatal, o sentimento da sua morte, Crastinus, você, cujo mortos brandiam a lança que travava o combate e os primeiros tingiram a Tessália com sangue romano [...]. Sobre sua trajetória, encontrei o documentário Os Homens-livro: Claude Simon de Roland (1988), dirigido por Roland Allard.

 

OUTROS DITOS

O sujeito não diz mais: eles. O sujeito nem sequer diz: na televisão. O sujeito não diz mais. Ele repete. E ele faz da voz da televisão sua. O sujeito não pensa mais: ele secreta. Uma substância corrosiva que amolece sua carne e confunde seu cérebro. De agora em diante: ele aparece... Para entender um movimento, é preciso analisar suas frases e entender sua composição. É preciso ter tempo de sobra para obter clareza...

Pensamento da escritora francesa Chloé Delaume (Nathalie Dalain), que no seu livro Mes bien chères soeurs (Points, 2019), ela expressa que: […] A linguagem sempre foi uma reserva privada. Quem a possui terá poder. [...]. Veja mais aqui.

 

A CONSTRUÇÃO DO OUTRO, DE SUELI CARNEIRO

[...] o dispositivo de racialidade opera a redução e/ou a negação dos “eus” na dinâmica das relações entre a diversidade humana. A multiplicidade de identidades que entrecortam os indivíduos, contemporaneamente ditadas por suas diferentes inserções ocupacional, de gênero, de classe etc., desaparecem quando adentro o negro. O negro chega antes da pessoa, o negro chega antes do indivíduo, o negro chega antes do profissional, o negro chega antes do gênero, o negro chega antes do título universitário, o negro chega antes da riqueza. [...]

Trecho extraído da tese de doutoramento sob a temática A construção do outro como não-ser como fundamento do ser (USP, 2005), da filósofa, escritora e ativista antirracista Sueli Carneiro. Veja mais aqui.

 

ILHA SOB O MAR, DE ISABEL ALLENDE

[…] Todos nós temos uma reserva insuspeita de força interior que surge quando a vida nos põe à prova. [...] O escravo que dança é livre... enquanto dança [...] Há espaço no coração humano para todas as divindades. [...] A música é um vento que sopra para longe os anos, as memórias e o medo, esse animal agachado que carrego dentro de mim. [...] Bato o chão com a sola dos pés e a vida sobe pelas minhas pernas, espalha-se pelo meu esqueleto, toma posse de mim, afasta a angústia e adoça a minha memória. O mundo estremece. [...].

Trechos extraídos da obra Island Beneath the Sea (Harpervia, 2020), da escritora chilena Isabel Allende (Isabel Allende Llona), autora dos livros The Sum of Our Days: A Memoir (2007), Portrait in Sepia (2000), Paula (1994) e Eva Luna (1987), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

 

ALFAZEMA, DE SABRINA FIDALGO
[...] Trata do dilema da foliã Flaviana (Shirley Cruz) que tenta se livrar de um amante (Victor Albuquerque) da noite anterior que se recusa a sair debaixo de seu chuveiro. O filme é uma comédia que se utiliza da metalinguagem do cinema para rir de si mesmo [...]
ALFAZEMA – O premiado curta-metragem de ficção, Alfazema (2019), é a segunda parte da Trilogia do Carnaval, da cineasta Sabrina Fidalgo, iniciado com o também premiado média-metragem Rainha (2016). Ela iniciou sua carreira com o curta-documentário Sonar 2006 - Special Report (2006) e, sobre si mesma, ela se define: Sou uma artista, mulher, negra, brasileira, latino-americana que escolheu o cinema nos papéis de diretora, roteirista e atriz/performer para se expressar. Na verdade eu me expresso de várias maneiras artisticamente. Sou desenhista autodidata e também tenho muita vontade de focar nas artes-plásticas. Amo música, tanto que tenho como hobby a pesquisa musical e sou DJ nas horas vagas. Na verdade eu tenho muitas referências e paixões e em vários momentos artísticos, escolhi o cinema, dentre outros motivos, porque é um lugar no qual posso estar diretamente envolvida com tudo o que eu gosto: música, artes plásticas, interpretação, fotografia e o próprio cinema em si. Foi um processo até chegar a essa conclusão. Mas o amor pelo cinema eu cultivo desde criança. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Centrei toda minha obra na violência política. No início de cada trabalho há um testemunho. Então todas as obras, todas as instalações que faço estão relacionadas a isso. Parto sempre de um testemunho real e em cima disso vou construindo algo que já não é tão precisamente sobre essa vítima, mas que leva a uma memória que é algo um pouco mais amplo sobre esse tipo de eventos.
DORIS SALCEDO - A arte da artista colombiana Doris Salcedo, que trabalha com instalações que envolvem esculturas com objetos cotidianos, como móveis de madeira e peças de vestuário, esculturas de memória, unindo o passado ao presente. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte da diretora, roteirista, produtora de cinema e TV, Tila Chitunda (Alice Chitunda), que é autora de dos documentários Fotográfica (2016), Nome de Batismo: Alice (2017) e Nome de Batismo: Frances (2019), afora desenvolver projetos, entre eles Mulheres no Cinema – Encontro e Ciclo de Formação (2018) e de ter atuado como produtora do documentário Pernambucanos (2007), entre outros.
&
A música de Lenine aqui.
A obra do escritor Pelópidas Soares (1922-2007) aqui.
Pontes imaginárias sob o céu do manguetown: influências do Mangue Beach sobre as políticas públicas no entorno do Rio Capibaribe – uma análise do circuito da Poesia e do Carnaval Multicultural, do geógrafo doutorando pela UFRJ, David Tavares Barbosa aqui.
A poesia de poeta e professor Admmauro Gommes aqui.
Os mortos de Sincorá aqui.
Proezas do Biritoaldo aqui.
&
Jaqueira aqui & aqui.


terça-feira, setembro 25, 2018

FAULKNER, FELICIA HEMANS, MORIN, SCHILLER, CONSUELO DE PAULA, LILIANE DARDOT & PRAZERES DO CÉU


PRAZERES, A AMPARO DO CÉU – Imagem: arte da pintora, desenhista, gravadora e professora Liliane Dardot. - Prazeres do Céu não era filha da mãe, o pai consanguíneo assim lhe fizera: apondo-lhe o nome da consorte na maternidade em documento de registro civil. Prova viva de uma escapadela, não sofreu muito: a mãe postiça logo bateu as botas – nem deu tempo de brincar duns castigos e dela escapar duma sina nas mãos de uma madrastra. Afora isso, sua vida fora excepcional: ambidestra de nascença e possuidora de bunda pra lua, tinha o ganhador aberto: presentes e competições do que jamais se imaginasse, era sempre prestigiada, vez que o pai a tinha por meinino e a mãe por menina. E assim foi educada em casa: destemido de pular o que fosse de obstáculo, faceira de encantar a parentalha: Essa é menina-macho, a Maria Bonita da família. Exímia no tiro ao alvo de direita, de esquerda ou do jeito que fosse, até de cabeça pra baixo era certeira; escrevia e fazia tudo com as duas mãos; e se danava em rapel, enduros, trilhas de Jeep, bundacanasca, luta livre, escaladas, karatê, parapente, ciclismo, surfe, paraquedismo, futebol, capoeira, corridas e pontarias, quanto mais radical, melhor: onde botasse as vistas ou alcançava com os pés ou na mira. E era mesmo: vivia até metida no adestramento dos animais, domesticando bicho selvagem que fosse. Dia desse mesmo apareceu amontada num jacaré raivoso que findou recolhido aos de sua estimação no quarto de dormir: cobras, lacraus, onça, macacos, cágados, gansos, afora pássaros, bodes, cachorros, sapos e abelhas, tudo ensinado – dizem que até um saci Pererê ela capou e tinha amarrado ao pé da cama. Dizem. Quando era à tardinha, as amigas se reuniam cada qual com seu animal de estimação. Aí ela saía com o seu parque ecológico ambulante, tendo à frente a da sua predielação: a vaca Raínha, toda engalanada de brincos, pulseiras, chalés, cordões, laços e fitas, talqualmente a dona que não gostava nada de aparecer na granfinagem. Vale registrar que enquanto ela desfilava com o seu plantel pela praça, o povo todo se trancava de não restar um pé de gente na rua, tudo escondido. Quem era doido? O jacaré mesmo já tinha comido uns três ou quatro que inventaram de se aproximar, a cobra picou uns quinze de matar quase todos, a onça havia devorado uns duas ou três dúzias de atrevidos que se saiba, os gansos e cachorros atacavam quem tivesse pela frente e ela só dando ordem no domínio, sem poder restituir o ataque, vez que eram letais. Ninguém se atrevia de reclamar prejuízo que tivesse, seria a mais descabida petulância: Essa é os pés da doida, pega e esfola, do cabra nunca mais servir pra nada. Isso sem contar com a vingança dos bichos: arengasse com ela, era só esperar a vingança deles. Mais de uma dúzia de vezes teve gente atacada pelos maribondos do criatório dela, avalie. Não só tinha o melhor mel da região, como as abelhas dela só davam ferroadas no osso do mucumbu do desafeto, resultado: lona. Quando ela deu fé não tinha mais amigas, fã-clube, nem nada. Bateu-lhe um desespero. Pensou em mudar de vida, já que estava uma mocinha taluda, peitinhos tomando forma embaixo do primeiro sutiã, quadris ajeitando os guardados que se tornavam salientes, faces enrubecidas com os lábios de cangula pintados pelo batom, cabelos formosos caindo na testa e nos ombros, uma verdadeira perdição aos olhos dos marmanjos. Contudo, niguem tinha topete para encarar, sabiam que iam comer arroiado na mão daquela que chamavam às escondadas de Maria João: Essa engana qualquer um, vá lá e se estrepe, mô fio. Tanto ela dava mole pros desavisados e logo tomarem ciência aprumando o rumo pra casa da peste, longe dela. Chorava a coitada no colo do pai: Tem nada não, filha, é porque o seu príncipe ainda não apareceu, chegará a hora dele. E nada desse “princeso” dar as caras pras bandas dela. E assim ela comeu todo ginasial e mais da metade do colegial, quando ela caiu de amores pelo Zé Peiúdo. Isso foi quase uma fatalidade: a menina-macho virou fêmea saco de pancadas, como se a danada virada ficasse banguela – ou jogado fora as presas com dentadura e tudo -, mansa de ser domada e até achar bom levar umas lamboradas boas do bicado – é que ele só tinha coragem de enfrentá-la completamente bêbado; quando tornava a si de ressaca, tomava um susto de morrer de medo e cair fora; ela catava ele onde estivesse, de ser puxado pra casa pelos colhões. Que danado tinha ela, hem? Braba da peste, ficava mansa e dominada com o safado biritado. O amor tem cada coisa, hem? Pois é, e a salvação dela foi o Padre Bidião, foi quando ela virou Amparo do Céu. Que coisa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora, compositora, poeta e produtora Consuelo de Paula: Negra, Dança das Rosas, Coletãnea, Samba, seresta & Baião & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais dela aqui, aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] No meio do reino temível das forças e no meio do reino sagrado das leis, o instinto de criação estética vai construindo, sem que dêem por ele, um terceiro reino, feliz, do jogo e da aparência, no qual tira ao ser humano os grilhões de todas as relações e o desliga de quanto seja coação tanto no físico como no moral. [...]. do poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Veja mais aqui.

DE ANTES & HOJE - [...] Os nossos ancestrais caçadores-coletores que, ao longo de milhares de anos, desenvolveram as técnicas da pedra e, depois, elaboraram as do ouro e do metal, dispuseram e usaram, nas suas estratégias de conhecimento e de ação, um pensamento empírico/lógico/racional; produziram, acumulando e organizando, um formidável saber botânico, zoológico, ecológico, tecnológico, uma verdadeira ciência. Contudo, esses mesmos seres arcaicos acompanhavam todos os atos técnicos com ritos, crenças, mitos, magias; por isso, antropólogos do começo do século XX chegaram a crer que, fechados num pensamento mítico/mágico, esses “primitivos” ignoravam toda racionalidade. [...] Antropólogos simplistas incapazes de conceber que os seus “primitivos” moviam-se nos dois pensamentos, completamente sem confundi-los! [...] Também, ainda que nossos espíritos sejam muito diferentes daqueles dos arcaicos ou dos medievais, ainda que os dois pensamentos tenham se tornado antagônicos, vivemos não somente nessa oposição, mas também na cohabitação, na interação e nas trocas clandestinas e diárias entre eles. O problema dos dois pensamentos não é, pois, um problema original e histórico ultrapassado, mas o problema de todas as civilizações, inclusive as contemporâneas: um problema antropossocial fundamental. [...]. Trechos extraídos da obra O método 4 – as ideias (Sulina, 2005), do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. Veja mais aqui.

O SOM & A FÚRIA - [...] Ela estava molhada. A gente estava brincando no riacho e Caddy se agachou e molhou o vestido e Versh disse: “Tua mãe vai te bater por causa que você molhou o vestido.” “Vai me bater coisa nenhuma.” disse Caddy. “Como é que você sabe.” disse Quentin. “Sei porque sei.” disse Caddy. “Como é que você sabe.” “Porque ela falou que vai.” disse Quentin. “Além disso eu sou mais velho que você.” “Eu tenho sete anos.” disse Caddy. “Então eu sei.” “Eu tenho mais de sete.” disse Quentin. “Eu já estou na escola. Não é, Versh.” “Ano que vem eu também vou pra escola.” disse Caddy. “Quando chegar a hora. Não é, Versh.” “Você sabe que ela te bate quando você molha o vestido.” disse Versh. “Não está molhado não.” disse Caddy. Ficou em pé dentro d’água e olhou para o vestido. “Eu tiro.” disse ela. “Aí ele seca.” “Duvido que você tira.” disse Quentin “Tiro sim.” disse Caddy. “Melhor não tirar.” disse Quentin. Caddy veio para perto de mim e Versh e virou de costas. “Desabotoa, Versh.” disse ela. “Não faz isso não, Versh.” disse Quentin. “O vestido não é meu.” disse Versh. “Desabotoa, Versh.” disse Caddy. “Senão eu conto pra Dilsey o que você fez ontem.” Então Versh desabotoou. “Quero ver você tirar o vestido.” disse Quentin. Caddy tirou o vestido e o jogou na margem. Ela estava só de corpete e  calcinha, e Quentin deu um tapa nela e ela escorregou e caiu na água. Quando se levantou ela começou a espirrar água em  Quentin, e Quentin espirrou água em Caddy. Caiu um pouco de água em mim e em Versh e Versh me pegou e me pôs na margem. Ele disse que ia contar o que Caddy e Quentin fizeram, e então Quentin e Caddy começaram a espirrar água em Versh. Ele ficou atrás de uma moita. “Eu vou contar pra mamãe o que vocês estão fazendo.” disse Versh. Quentin subiu para a margem e tentou pegar Versh, mas Versh fugiu e Quentin não conseguiu. Quando Quentin voltou Versh parou e gritou que ia contar para a mãe. Caddy disse que se ele não contasse eles deixavam ele voltar. Então Versh disse que não ia contar, e eles deixaram ele voltar. “Agora você está satisfeita, não é.” disse Quentin. “Nós dois vamos apanhar agora.” “Eu não ligo.” disse Caddy. “Eu vou fugir.” “Vai fugir nada.” disse Quentin. “Vou fugir pra não voltar nunca mais.” disse Caddy. Comecei a chorar. Caddy se virou e disse: “Não chora.” Então eu parei. Então eles brincaram no rio. Jason estava brincando também. Estava sozinho separado dos outros. [...]. Trecho extraído da obra O som e a fúria (Com panhia das Letras, 2017), do escritor estadunidense e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1949, William Faulkner (1897-1962). Veja mais aqui.

O MAR PRA ONDE FOI - O mar, pra onde foi? – me despedindo, aqui estou / O meu mar azul, pra onde foi? / Com todos os seus barcos, velozes, singrando / Com suas livres brisas e bandeiras. / Saudades daquela voz de ondas, a primeira que / Da minha infância alegria despertou; / Do toque do sino a hora certa – do trovejar súbito – / Meu mar azul, pra onde foi? / Na serra do pastor um som de flauta ouço – / Da árvore o murmúrio ouço; - / De minha alma, emudecidos, os ecos – / Meu mar azul, pra onde foi? / Oh! Por mais profunda que seja a tua Murta, / Por mais suave e suave que teus ventos sejam, / Em mim, o coração enfermo de bater cessou – / Meu mar azul, pra onde foi? Poema da poeta britânica Felicia Hemans (1793-1835). (Tradução de Cunha e Silva Filho).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, desenhista, gravadora e professora Liliane Dardot. 
Veja mais aqui.

AGENDA
Nordestino sim senhor do poeta Pica Pau & muito mais na Agenda aqui.
&
As da Prazeres, a Amparo do Céu aqui, aqui e aqui.
&
Poetastro mete as catanas sem entender do riscado, William Faulkner, Roberto Piva, Pierre Bourdieu, Vitor da Fonseca, Alice Viveiros de Castro, Frank Furedi, Lia Chaia & Amanda Duarte, Socorro Durán, Gonzaguinha, Rachel Podger, Bia Sion & Mano Melo aqui.


segunda-feira, setembro 25, 2017

FAULKNER, PIVA, BOURDIEU, FUREDI, LIA CHAIA, VITOR DA FONSECA, PALHAÇOS, SOCORRO DURÁN & AMANDA DUARTE

POETASTRO METE AS CATANAS SEM ENTENDER DO RISCADO – Imagem: Xilogravura de Amanda Duarte. - Nada dava certo mesmo pras bandas do Doro, tudo gorava de choco e ele nem se emendava: partia pra outra. Dessa vez abandonou a candidatura a presidente, queira mais saber não de política, isso é lá coisa prum sujeito como eu! Que se danem! E saiu vasculhando o que danado ele ia fazer da vida dagora em diante. Perambulando pela feira, ele deu de cara com dois repentistas glosando o maior mote. Ficou de mutuca e acompanhando tudo: vamos sapecar umas parcelas? Vamos de galope à beira-mar, compadre! Agora um desafio malcriado! Uma taboada pequena, uma carretilha, um quebra cabeça, um gabinete repetido, nove palavras por seis, língua d’Angola, dez de adivinhação, coqueiro da Bahia, martelo alagoano, desmancha, rojão pernambucano, trava-língua, ligeira, oitava, dez de queixo caído, quadrão perguntado, mourão voltado, gemedeira, e de pé quebrado, chega, vamos emborcar a viola! Ele prestou atenção em tudo perdendo a noção do tempo: oxe, esses cabras não cantam nada. Vou ser o melhor cantador, ah, se vou! E foi ver os preços das violas, não tinha um tostão furado; valeu-se de duas folhas de compensado e caiu no maior teitei: agora vou me danar no dedilhado da maior violada. Nessa hora chega Robimagaiver e ele ensaia pra ele: ah, se quer ser poeta, o doutor lá do banco disse que a melhor poesia é o soneto. Gostei do nome, vou ser sonetista! Danou-se! E castigou no blem blem desafinando a goela das tripas coração. Foi, então, que cometeu uns versos, logo se achou o pencó do trupé, lascando uns cordéis desajeitados, até cair nas graças dum abastado comerciante que apadrinhou sua empreitada: publicar um livro. Vixe! O bocó cresceu os olhos misturando rimas de nenhuma métrica, decorando tudo a dizer como improviso – na verdade o pior goteira, um meia-tigela. Foi se deparar com o embolado do coco: ah, vou ser o mais afamado coquista! Não deu outra: garranchou numa tuia de folhas de papel na maior das garatujas, juntou tudo e foi ter com o mecenas que empurrou o calhamaço pruma gráfica e, tempos depois do ajustado e aprazado, estava ele com o opúsculo embaixo do sovaco, pra cima e pra baixo, todo ancho e virado da breca! Topou com uns doutores que se diziam poetas e logo estava reunido com o tabelião, o tenente, o contador e outros embecados que recitavam seus plectros e loas como se vates de calibre, bardos da melhor cepa. Falaram duma academia que ele fez de tudo para participar. A exigência era a publicação de um livro, oxe, moleza pra ele, depositou o seu na hora, nem leram, muito menos abriram uma página só que fosse e já deram por acadêmico. Dia lá de reunião, intrometeu-se no meio, viu de tudo que foi zoada e já se imaginava desfilando sobre o tapete vermelho da fama: agora esse povinho terá de me bajular porque virei especial dos especiais, todos terão que lamber o solado dos meus pés. Ufanou-se, maior venta empinada, peito estufado com ar desprezo e indiferença para todos, do Afredo esconjurá-lo por cu doce: agora só todo metido com um deus no bucho, metido a cheio das pregas. Doro nem nem, nada lhe atingia o espinhaço pronto pra desancar o primeiro que lhe aparecesse, só nos compadrios com letrados, dado a ser tal qual beletrista de respeito. Já não cumprimentava mais ninguém, só os seus doutos achegados, mais nada: essa bugrada só merece desprezo! Não me misturo mais não com essa gentinha porqueira. Destá. Era chegada a hora prele se amostrar diante de todos na academia, cobravam-no uma apresentação e não se fez de rogado: abriu a caixa dos peitos e lascou mastigado torando aço, rompendo pé-de-parede como se cantasse ciência, fugia da mira no meio do trabalho feito, mas mantinha a toada própria no maior caqueado da obrigação repetida e enrolada, até rapar a violada, esperando a paga e aplausos. Maior burburinho inquietante, quando um lá se levantou: isso é lá desgraça de coisa que se apresente, homem? Não deu, maior opróbrio, rabinho entre as pernas, Doro escafedeu-se de nunca mais dar as caras. Diziam maldizentes: bem empregado praquele desinfeliz, todo castigo pra corno é pouco! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com os álbuns Coisa mais maior de grande, Moleque Gonzaguinha & Caminhos do Coração, do cantor e compositor Luiz Gonzaga Junior – o Gonzaguinha (1945-1991); o Concerto para Violino de Bach, Chiacona Bertali & Elbo Telemann da violinista e maestro britânica Rachel Podger; Do samba e do jazz, The Man, Diamante verdadeiro e Sway com a atriz, locutora, escritora, cantora e compositora Bia Sion; e os poemas Quem transou com a Madonna no Brasil?, Nada vai apagar meu sorriso, Sexo em Moscou, 100 Vitrines & Picareta Cultural do poeta, ator e roteirista Mano Melo. Para conferir é só ligar o som e curtir.

ERA DA INCERTEZA: TERAPIA & VULNERABILIDADE -  [...] A invasão do ethos terapêutico nas outras profissões e formas de autoridade é particularmente admirável na relação com seus antigos competidores – as instituições religiosas. Recentemente, o Arcebispo de Canterbury afirmou que a terapia está substituindo o cristianismo nos países do ocidente. De acordo com o Arcebispo Carey, “Cristo, o Salvador” está se transformando em “Cristo, o conselheiro” [...] A politização da emoção emergiu como um importante tema na vida política contemporânea. A intromissão no sentimento das pessoas se tornou institucionalizado sob o presente sistema de governança terapêutica. Há pouca oposição a essa tendência e dificilmente alguma preocupação com as potenciais implicações autoritárias de um sistema de governo que tem como objetivo dizer às pessoas como devem se sentir [...]. Trechos extraídos da obra Cultura da Terapia: cultivando a vulnerabilidade em uma Era de Incerteza (Routledge,2004), do sociólogo britânico Frank Furedi, defendendo que a terapia deixa de se referir a estados mentais exóticos e problemas atípicos para se tornar comum em situações do cotidiano e encarada como um ideologia com objetivos que proporcionem uma espécie de reencantamento da experiência subjetiva, suprindo a vivência emocional com um significado especial, uma vez que o “emocionalismo” ajuda a reconstruir uma forma de espiritualidade bastante inusitado.

CAPITAL SOCIAL –[...] O capital social é o conjunto dos recursos reais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de interreconhecimento mútuos, ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como o conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros e por eles mesmos), mas também que são unidos por ligações permanentes e úteis. [...] acumulação de capital cultural desde a mais tenra infância – pressuposto de uma apropriação rápida e sem esforço de todo tipo de capacidades úteis – só ocorre sem demora ou perda de tempo, naquelas famílias possuidoras de um capital cultural tão sólido que fazem com que todo o período de socialização seja, ao mesmo tempo, acumulação. Por consequência, a transmissão do capital cultural é, sem dúvida, a mais dissimulada forma de transmissão hereditária de capital. [...] Trechos de O capital social: notas provisórias, do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), extraído da obra Escritos de educação (Vozes, 1998), organizado por Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A EDUCAÇÃO, A FAMÍLIA E A ESCOLA - [...] Como a vida familiar se constitui na primeira escola de aprendizagem, os pais devem investir mais na interação mediatizada para tornar as crianças e os jovens socialmente mais hábeis. Também na escola os professores, por meio da mediatização, podem criar adultos mais solidários e mais aptos a responder aos desafios complexos da sociedade futura. Em síntese, se queremos uma sociedade mais solidária, a família e a escola tem de ser mediatizadoras. [...] Trecho da obra Pedagogia mediatizadada: transferências das estratégias para novas aprendizagens (Salesiana, 2002), do professor catedrático Vitor da Fonseca, defendendo que a mediatização é a chave do desenvolvimento social e cognitivo da espécie humana, tornando-se fundamental a aplicação da pedagogia mediatizada na família e na escola. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PALHAÇOS & PALHAÇADAS - [...] O Palhaço é a figura cômica por excelência. Ele é a mais enlouquecida expressão da comicidade: é tragicamente cômico. Tudo que é alucinante, violento, excêntrico e absurdo é próprio do palhaço. Ele não tem nenhum compromisso com qualquer aparência de realidade. O palhaço é comicidade pura. O palhaço não é um personagem exclusivo do circo. Foi no picadeiro que ele atingiu a plenitude e finalmente assumiu o papel de protagonista. Mas o nome palhaço surgiu muito antes do chamado circo moderno. Aliás, seria melhor dizer “os nomes”. Uma das grandes dificuldades que a maioria dos autores encontra ao estudar a origem dos palhaços está na profusão de nomes que essa figura assume em cada momento e lugar. Clown, grotesco, truão, bobo, excêntrico, tony, augusto, jogral, são apenas alguns dos nomes mais comuns que usamos para nos referir a essa figura louca, capaz de provocar gargalhadas ao primeiro olhar [...] Esse nosso personagem imaginário sobreviveu a todas as catástrofes naturais, inclusive às construídas pelos homens. Esteve presente nas batalhas, nas festas e nos rituais mais sagrados, sempre cumprindo o mesmo papel: provocar o riso. [...] O palhaço é o sacerdote da besteira, das inutilidades, da bobeira... Tudo o que não tem importância lhe interessa. É corriqueira a cena em que o palhaço vai fazer alguma coisa muito séria e importante - como, por exemplo, tocar uma peça de música clássica - e acaba nos entretendo com algum detalhe absolutamente insignificante. [...] Durante milênios e até nos dias de hoje valorizamos a sabedoria e a capacidade para vencer, seja lá o que isso signifique. Por isso, a apologia do trabalho, da moderação, do equilíbrio. Grandes valores, sem dúvida, mas a vida não é só isso: existe a farra, a festa, o prazer! E assim o homem vai vivendo, equilibrando-se entre os contrários, compreendendo a necessidade de “ganhar o pão com o suor do seu rosto”, mas criando mecanismos para escapar das pressões cotidianas, reagir aos exageros dos puritanos e se contrapor à tristeza e à violência do mundo. Millôr Fernandes complementou Aristóteles dizendo que “o homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que é”. Pronto. A principal função do riso é nos recolocar diante da nossa mais pura essência: somos animais. Nem deuses nem semi-deuses, meras bestas tontas que comem, bebem, amam e lutam desesperadamente para sobreviver. A consciência disso é que nos faz únicos, humanos. [...] Palhaço não dá lição de moral, mas também não é amoral. Mas quem sabe a diferença? Quem conhece o limite? Acho que tudo depende do lado que escolhemos na vida e de compreender que, a todo instante, é como se um espelho aparecesse, o muro andasse, trocando os lados de lado. O que é justo num determinado momento ou situação pode ser muito injusto no momento seguinte. A Verdade nunca é absoluta, a bondade nem sempre é o melhor caminho, e por aí vão as coisas, exigindo atenção, sabedoria e um firme exercício de fidelidade aos princípios que norteiam a vida dos que escolhem ter princípios na vida. [...]. Trechos extraídos da obra Elogio da bobagem: palhaços no Brasil e no mundo (Família Bastos, 2005), da atriz, diretora de teatro e especialista em circo, Alice Viveiros de Castro.

ENQUANTO AGONIZO – [...] Foi Albert quem me contou o resto da história. Ele disse que a carroça estava parada na frente da loja de ferragens do Grummet, com as mulheres espalhadas pela rua com lenços presos ao nariz, e um bando de homens e rapazes de narizes grandes ao redor da carroça, ouvindo o xerife discutir com o homem. Era um homem alto e esguio sentado na carroça, dizendo que era uma rua pública e ele achava que tinha tanto direito como os outros, e o xerife lhe dizendo que ele teria que ir andando; as pessoas não agüentariam aquilo. Ela estava morta havia oito dias, Albert disse. Eles vinham de algum lugar lá no condado de Yoknapatawpha, tentando chegar a Jefferson com aquilo. Deve ter sido como um pedaço de queijo podre entrando num formigueiro, naquela carroça toda desconjuntada que Albert disse que o pessoal temia que de repente caísse aos pedaços antes que eles pudessem deixar a cidade, com aquele caixão feito em casa e outro sujeito com uma perna quebrada deitado num catre em cima do caixão, e o pai e um menino sentados e o xerife tentando fazê-los sair da cidade [...]. Trechos extraídos da obra Enquanto agonizo (L&PM, 2010), do escritor estadunidense e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1949, William Faulkner (1897-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMAS DE PARANOIA - A piedade: Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento / abatido na extrema paliçada / os professores falavam da vontade de dominar e da / luta pela vida / as senhoras católicas são piedosas / os comunistas são piedosos / os comerciantes são piedosos / só eu não sou piedoso / se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria / aos sábados à noite / eu seria um bom filho meus colegas me chamariam / cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio / bóia? por que prego afunda? / eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as / estátuas de fortes dentaduras / iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos / pederastas ou barbudos / eu me universalizaria no senso comum e eles diriam / que tenho todas as virtudes / eu não sou piedoso / eu nunca poderei ser piedoso / meus olhos retinem e tingem-se de verde / Os arranha-céus de carniça se decompõem nos / pavimentos / os adolescentes nas escolas bufam como cadelas / asfixiadas / arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através / dos meus sonhos. Boletim do mundo mágico: Meus pés sonham suspensos no Abismo / minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina / eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou um órfão / havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios / eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa / na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as / galerias do meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos / colégios e carros fúnebres estão desertos / pelas calçadas crescem longos delírios / punhados de esqueletos são atirados no lixo / eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente / os luminosos cantam nos telhados / eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens / mas o céu roxo é uma visão suprema / minha face empalidece com o álcool / eu sou uma solidão nua amarrada a um poste / fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago / nos pavimentos isolados meus amigos constroem  / [um manequim fugitivo / meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a / uma calota minha alma desconjuntada passa rodando. Poemas extraídos da obra Paranóia (Massao Ohno, 1963), do poeta Roberto Piva (1937-2010).

SOCORRO DURÁN
Com a escritora, professora e acadêmica da APLE, Maria do Socorro Barros y Durán, na Biblioteca Fenelon Barreto. Veja mais aqui e aqui.

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