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quarta-feira, outubro 10, 2018

MERCÊ RODOREDA, VICTOR JARA, CLAUDIO TOZZI & TEJE PRESO


DO QUIPROCÓ PRO BOTA PRA QUEBRAR – Imagem: A multidão, arte do pintor e desenhista Claudio Tozzi. - Alagoinhanduba amanheceu de pernas pro ar. Bastou o doutor Teje Preso entrar por uma porta para assumir o Judiciário da Comarca, o prefeito Zé Peiúdo, pela segunda vez, arribou pegando o corujão pela outra. Como é que pode? Quando deram pelo sumiço do chefe do Executivo local, avisaram-no imediatamente: Calhorda, eu pego ele. Zé Corninho ao ser localizado para assumir o comando, foi logo desqualificado: Ah, esse é um bunda mole, dispara. Aí o magistrado aproveitou a ocasião, reuniu todo mundo ao seu redor e berrou: Eu sou a Lei! Tenho dito e dou fé. E zarpou para a prefeitura. No caminho, saiu distribuindo prisões no grosso e no varejo. Quem tinha ou não tivesse culpa no cartório, torou aço. Bastava uma camisa com botão fora da casa, ou uma tatuagem, uma cara suspeita, uma careta mal dada, um gesto efusivo, ou o que fosse que desagradasse o juiz, não dava outra: teje preso! E era na hora sacudido na cadeia para mofar até o dia que ele desse na veneta ou no tutano. E ele só covocando a cabroeira que não sabia para onde é que ele ia. Parou de repente, chamou os cheleleus e perguntou: Onde fica o Palácio Episcopal? Ali. Vamos lá. E foi dar uma alertada ao Bispo em pessoa, mandando o bafo ao pegá-lo pela beca, esfregando o dedo na lata dele: Corte certo comigo, senão tomo tudo; o meu sonho é assumir o triunvirato: Executivo, Judiciário e Eclesiástico, porque o Legislativo vou fechar agora. Foi um buruçu. Na hora o prelado tremeu tanto de findar com uma caganeira da peste, desaparecendo de vez. Foi-se. Dirigiu-se à Câmara de Vereadores e chegando lá mandou ver: Camboio de desocupados, a partir de hoje quem manda sou eu! E arrastou-los todos para a sua posse. Chegando ao Palácio do Capim, sede da Administração Pública local, ele autonomeou-se Rei Teje Preso, o Imperador de Alagoinhanduba. Pronto. Todos, a partir de então, eram os seus súditos e tinham de saudá-lo de joelhos, cabeça baixa e fazendo reverência à sua majestade. Foi até a sacada do gabinete, armado de um megafone e vociferou pra população em polvorosa: Aqui ninguém entra, ninguém sai. E sumiu lá pra dentro. Ninguém entendeu nada. E o doutor Teje Preso pintou miséria: quem tinha duas casas ficou com uma; quem tinha dois engenhos, ficou com um; quem tinha uma ou mais lojas, ficou com apenas uma; e assim por diante, uma verdadeira reforma agrária feita e o que era tomado por desapropriação era destinada a presídios, campos de concentração e serviços forçados. Ninguém escapava das penas inventadas arbitrariamente por ele, mesmo o mais inocente riso: Tá mangando de quem? Ué? Teje Preso. Na lei de sua excelência doente mental ou aleijado, cego, surdo, mudo, era sacrificado por ser considerado desperdício. E com pena de morte instituída – brincasse não, se ele amanhecesse de bom humor, qualquer um que fosse preso era só cadeia; se ele amanhecesse cagando raio, fuzilamento para quem quer que ele achasse devido -, as mulheres eram tratadas como subgente, os morenos e mais escuros eram a experiência que queimou – só os brancos, dependendo da lua dele, que podiam zanzar; e se desmunhecasse, pau no lombo até os urubus atacarem o insepulto, e por aí vai. Três meses depois foi que deram fé: um muro com mais de trinta metros de altura foi construído por toda dimensão do município. Teve gente que escapuliu pelo ladrão, mas a grande maioria ficou encerrada: Aqui é o cárcere. Tanto é que desde então ninguém mais teve notícia do povinho bom de Alagonhianduba, até sumiu do mapa, hem, hem. Que coisa! Ninguém se quer se lembra. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Quando ouvia alguém falar: essa pessoa é feita de cortiça, não sabia  que queria dizer. Para mim cortiça era rolha. Se não entrasse na garrafa, depois de destampá-la eu a afinava com uma faca como se apontasse um lápis. E a cortiça rangia. E era difícil de cortar porque não era nem dura nem mole. E por último entendi o que as pessoas queriam dizer quando falavam essa pessoa é de cortiça… porque eu tinha virado uma pessoa assim. Não porque fosse de cortiça, mas porque tive de me fazer de insensível, como cortiça. […] Tive de me fazer de cortiça para poder seguir em frente. [...] mas o que acontecia comigo era que eu não sabia muito bem por que estava no mundo. [...] Eu ouvia muito admirada porque via um outro Cintet e fiquei pensando que a guerra mudava os homens [...]
Trechos extraídos da obra A praça do diamante (Planeta, 2003), da escritora espanhola Mercê Rodoreda (1908-1983).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e desenhista Claudio Tozzi. 
Veja mais aqui, aqui e aqui.

AGENDA
Antologia Conexão IV & muito mais na Agenda aqui.
&
O estopô calango do Teje Preso aqui.
&
Curou, morreu, João Cabral de Melo Neto, Friedrich Nietzsche, Rosário Fusco, Michel Maffesoli, Barbara Marczewska, Pintando na Praça & Paulo Profeta, Tōru Takemitsu, Maria Helena de Andrade, Paulinho Nogueira & Isabella Taviani aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do poeta, compositor, professor, diretor de teatro, cantor, músico e ativista político chileno Victor Jara (1932-1973): El derecho di vivir en pazm Deja la vida volar, La población & Manifesto & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.


sábado, outubro 07, 2017

DERRIDA, AUTRAN DOURADO, KALJU LEPIK, JOHN RUSKIN, IRVING PENN & CLAUDIO TOZZI

QUANDO DÁ ERRADO, MELHOR PUXAR O CARRO – Imagem: arte do pintor e desenhista Claudio Tozzi. - Judlinho não dava uma dentro, as paqueras só nos foras: quero não que você tem as meias com o dedão de fora! Como? Era mesmo. Quando não eram emendadas por remendos escandalosos, os dedos tudo aparecendo, maior vergonha quando tinha de tirar os sapatos. Ou: quero não, sua cueca tem um buraco no furico! Eita! De fato, maior risadagem: só tinha uma cueca, descolorida, desbotada, nódoa de freio no rego da bunda e o orifício no tecido por conta das rajadas de flatulências catingosas. Ou, ainda: quero não, você é o maior peidão! Pense na moganga, o rei dos borborigmos desagradáveis. Pois é, ele já vivia cabreiro: que é que falta essas meninas saberem dele, hem? Tudo sabiam: dos comichões nas partes pudendas que findavam em bronhas desajeitadas, carreira de grude na gola das camisas, sovaqueira da maior inhaca, trejeitos de variado tipo chega dava agonia em quem estivesse por perto, olhadelas indiscretas, que coisa! Estão me brechando, só pode! Sabem tudo de mim, ou tem caboeta na roda queimando o meu filme. Nada de descobrir. Aquietou-se no flerte com as colegas de classe, passou a evitar as do seu tope, todas metidas a besta, beiçudas de ventas empinadas, tudo cu-doce. Começou azarar nas outras classes, viagem perdida: ninguém queria papo com um sujeito broco xexelento daquele, ora! Já havia desistido de flertar, quando apareceu a oportunidade de invadir outro nicco: debandou pras empregadas domésticas, tratadas por ele por piniqueiras: vá escovar os dentes, meu filho! Ou: vá tirar a catinga do mijo que você só anda fedendo. Ou, então: vá arrumar o que fazer, crescer, juntar dinheiro e apareça depois disso, viu? Invocou-se, viu que não levava jeito pra namoricos. Vivia no maior aperto, só amainado certa tarde quando apareceu a professora Nedilicia! Eita! Pra ele a coisa mais linda do universo. Tomou jeito, deu uma repaginada geral e esticou os cambitos na maior dedicação. Oxe, era outro: para quem nunca vira o sujeito agarrado a livros e cadernos, os pais passaram a pensar que ele havia tomado gosto pelos estudos definitivamente. Agora vai. Era não, mas engatou primeira e ia levando como podia, aprendendo a debrear para ver se no papo engatava segunda, nada até agora. Virou aluno da primeira fila, bastava ela cruzar o batente da sala, já se levantava para apagar o quadro negro, ajudá-la a carregar os livros e cadernetas, todo oferecido e pronto para fazer o mundo rodar ao contrário, acaso fosse o desejo dela: é a professora mais encantadora do mundo! A mais bonita, a melhor! Era ele sonhando enquanto ela ministrava os assuntos para todos, sem nem dar conta da presença dele por ali. Era sempre o primeiro a responder as perguntas, nunca faltava uma aula, fazendo de tudo para chamar atenção dela. E ela, nem, nem. Resolveu, então, esperá-la na entrada da escola para ajudá-la a descer do automóvel sobrecarregada de coisas: Pode deixar, professora, eu ajudo a levar. E esmerou-se no carregamento, tornando-se o seu serviçal. E assim, todo dia, já no costume, ganhando um sorriso e até alisado no cocuruto, mais nada. Isso até o dia em que ela chegou apoquentada, estacionou na maior freada, gritou por ele e jogou meio mundo de coisas nos seus braços, com a recomendação: Pelo amor de Deus, não vá derrubar nada, por favor! Mal acabara de dizer, ele partiu na carreira e, ao atravessar a pontezinha pra entrada do colégio, desequilibrou-se de soltar tudo e findar mergulhado no esgoto, melando-se todo e botando tudo a perder. A professora teve um ataque de nervos de gritar: Isso é coisa que se faça, seu desastrado? Mudo, acabrunhado, restou apenas se levantar, sair juntando as coisas no meladeiro, tentar limpar tudo o quanto pode, murchar o rabinho entre as pernas e sair de fininho pra nunca mais. Consigo: É, não levo jeito mesmo pra nada com as mulheres. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música da cantora e compositora islandesa Björk: Vulnícura live, Travessia & Live Royal Opera House; do premiado compositor e saxofonista Livio Tragtenberg: Mirroir merengue, A dama da lua & Nervous City Orchestra; do violonista, compositor e arranjador brasileiro Paulo Bellinati: Lira brasileira, Choros & Waltzs of Brazil & Garoto; e da da cantora Marisa Ricco: Meu cais, Um sábio & Reconvexo. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] as grandes cidades da terra tornaram-se centros asquerosos de fornicação e cobiça – a fumaça que se exala de seus pecados penera na face dos céus como a fornalha de Sodoma; e sua poluição putrefaz e pulveriza os ossos e as almas da gente do campo que vive ao redor delas, como se cada uma fosse um vulcão cujas cinzas arrebentassem em pústulas sobre homens e animais [...]. Trecho da obra The Lord's prayer and the church (1880), do escritor, crítico de arte e crítico social britânico John Ruskin (1819-1900).

DESCONSTRUÇÃO & DIFERENÇA – [...] “Desconstruir” a filosofia seria, assim, pensar a genealogia estrutural de seus conceitos da maneira mais fiel, mais interior, mas, ao mesmo tempo, a partir de um certo exterior, por ela inqualificável, inominável, determinar aquilo que essa história foi capaz – ao se fazer história por meio dessa repressão, de algum modo, interessada – de dissimular ou interditar. Nesse momento, produz-se – por meio dessa circulação ao mesmo tempo fiel e violenta entre o dentro e o fora da filosofia (quer dizer, do Ocidente) – um certo trabalho textual que proporciona um grande prazer. [...] Nada – nenhum ente presente e in-diferante [indidifférant] – precede, pois, a différance e o espaçamento. Não existe qualquer sujeito que seja agente, autor e senhor da différance, um sujeito ao qual ela sobreviria, eventualmente e empiricamente. A subjetividade – como a objetividade – é um efeito de différance, um efeito inscrito em um sistema de différance. É por isso que o da différance lembra também que o espaçamento é temporização, desvio, retardo, pelo qual a intuição, a percepção, a consumação, em uma palavra, a relação com o presente, a referência a uma realidade presente, a um ente, são sempre diferidos. Diferidos em razão do princípio mesmo da diferença que quer que um elemento não funcione e não signifique, não adquira ou forneça seu “sentido”, a não ser remetendo-o a um outro elemento, passado ou futuro, em uma economia de rastros [...]. Trechos extraídos da obra Posições (Autêntica, 2001), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui e aqui.

AS IMAGINAÇÕES PECAMINOSAS - [...] Podia ver o dr. Saturnino à vontade: os mínimos gestos, as mãos grandes e peludas, o timbre da fala grave e distinta, os olhos parados nas nuvens, um jeito de sonhoso. Ele se distraia, brincava girando o anel de chuveiro no dedo, olhava o céu azul estalando sem nuvens, o jardim que via pela janela, lá do alto do estrado. Os olhos detrás das lentes brilhantes dos óculos, o aro de metal. Pedro via os mínimos gestos, os seus mínimos traços, mesmo a ruga entre as sobrancelhas quando voltava a prestar atenção no que lia o escrivão, seu o Tomásio. A atenção certamente fingida, devia saber de cor e salteado aquelas páginas, ele próprio que comandou o processo. Mesmo assim o olhar preso, o ouvido atento de quem está ouvindo pela primeira vez um assunto. Será que na verdade ele finge, pra dar o exemplo? Devia ser, senão tudo não passaria de pantomima, matéria de desocupados. E no entanto ali iam dar um destino à sua vida. A assistência quieta, não se ouvia nenhum sussurro, nenhuma outra voz além da do escrivão Tomásio Preto, que apesar do nome era branco. Só uma vez todo mundo rui, e o dr. Saturnino teve de soar a campainha? Quando leu o lado do exame cadavérico. A linguagem arrevezada do dr. Viriato, que demandava interprete (seu Bê, quando na rua), falando das partes baixas da criação. Do seu cercado de balaustrada feito grade de comunhão, até os jurados riram. O padre Matias, aquele homenzarrão, se encurvava todo para lhe meter a hóstia na boca. Ele menino, depois de grande não ficava bem, podiam dizer que ele era beato ou veado. Com padre Matias não teria acontecido aquilo, o outro era novinho, padre Joel parecia um seminarista [...]. trecho da obra As imaginações pecaminosas (Record, 1982), do escritor, advogado e jornalista Autran Dourado (1926-2012). Veja mais aqui.

A POESIA LÍRICA DE KALJU LEPIK – Praga: / Se destruíres nosso povo / Que a chuva vire pedra sobre teus campos. / Que a pedra dispare brotos de pedra. / Que pão de pedra esteja em tua mesa. / Que pétreo seja o chão em que pisas. / Que pétreo seja teu céu acima. / Que o mar vire pedra. / Vire pedra como teu coração é de pedra / Contra nossa terra e nosso povo. Poema Uma poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria, do poeta lírico estoniano Kalju Lepik (1920 – 1999).

BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Batendo papo com a estudantada, a professora e escritora Socorro Durán & o diretor da Biblioteca, João Paulo Araújo.

Veja mais:
A música de Björk aqui, aqui e aqui.
Crença pelo direito de viver e deixar viver aqui.
A arte musical de Livio Tragtenberg aqui.
A poesia de Catulo da Paixão Cearense  aqui.
A arte de Paulo Bellinati aqui
O talento musical de Marisa Ricco aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo estadunidense Irving Penn (1917-2009).
Veja mais aqui.

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...