Mostrando postagens com marcador Maceió. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maceió. Mostrar todas as postagens

terça-feira, março 05, 2024

BIRGITTA JÓNSDÓTTIR, TERRY EAGLETON, JASON STANLEY & O CORONEL DE MACAMBIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do show Brasilidades, do grupo Octeto Feminino do Brasil, criado em 2020, por iniciativa da trompista Paula Graziele Guimarães, e formado por trompistas de quatro estados brasileiros: Paula de Campos, Tayanne Sepulveda, Amanda Vieira, Tamires Kamisaka e Jessica Alves (SP), Isabelle Menegasse (RJ), Paula Guimarães (BA) e Jaqueline Louzada (PA).

 

HOJE DE TANTOS ONTENS & QUASE NENHUM AGORAMANHÃ... - Era terça-feira e Jajá saíra para trabalhar. No trajeto, ao cruzar com a algazarra da criançada escolar, lembrou-se dos tempos das travessuras infantis pelo Jaraguá, das timbungadas nas ondas da Jatiúca, das traquinagens juvenis na Ponta Verde, das bebericagens na Pajuçara, ah, ali era o paraíso, o melhor lugar do mundo. Madurava encantado até o dia em que já taludo, quase homem feito, leu Dora Marsden: A vida é festa e conflito: esse é o seu entusiasmo... Firmou seu jeito e não endureceu o coração diante das coisas desagradáveis que testemunhou. Tomou partido pelo que achava certo e, de certa forma, reiterava Miriam Makeba: Eu apenas digo ao mundo a verdade. E se a minha verdade então se torna política, não posso fazer nada sobre isso... Ah, santa Mama África! Assim o fez e era assim mesmo que militava no expediente d’A Voz do Povo, enfrentando oligarquias e prisões, atentados, retaliações e humilhações. Segurou firme e não se dobrou. Destemido, cassado, peregrinou na clandestinidade. E virou coisa que muita gente esqueceu ou prefere não lembrar, se escondendo atrás do medo e emulando chacotas, quando, na verdade é o que é de memória para uso diário. Na vera, ele teve a coragem da vida para viver, como se repetisse Nelly Arcan: Eu nunca consenti com este corpo que fui acusado de arrastar até minha morte... Não fosse isso, sim, Jajá teria reaparecido. Sim, porque era mesmo terça-feira, saiu do Catumbi e nunca chegou ao trabalho, nem jamais foi visto. Ouviu-se que ele foi capturado por estranhos e lançado ao mar a 200 milhas da costa. Como assim? Outros corrigiam que ele fora incinerado numa caldeira duma usina de cana-de-açúcar. Não pode! Engrossando a confusão teve quem asseverasse mesmo que foi morto, esquartejado e jogado num rio de Avaré. Que confusão! Ninguém sabia, qualquer um estava sujeito às emboscadas, chacinas, restos nas valas de Perus para familiares contarem os mortos, como ainda hoje. O fato é que ele saiu de casa para trabalhar e desapareceu – documentos queimados para quem foi destruído e sabia lá mais quem era, já havia perdido tudo de si e sem ninguém. Ao ouvir a conversa, uma jovem curiosa: Afinal, quem é Jajá? Jayme Amorim Miranda (1926-1975). Ah, pensei que fosse algum conhecido! E saiu com o desdém de quem teimava olvidar das lições deontem e de hoje. Tortura nunca mais! Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

O CAMALEÃO - Sou uma bruxa do destino \ sem roca. \ Sou um soldado com um coração mole. \ Sou uma senhora vagabunda\ com uma casa de caracol nas costas. \ Sou um piloto sem asas. \ Eu sou um elfo espacial no planeta Terra. \ Eu sou a prostituta dos seus pensamentos. \ Eu sou a deusa que surge do oceano espumante\ na concha dos seus sonhos. \ Eu sou o camaleão,\ derreto-me na imagem\ com a mesma facilidade com que uma gota de água doce\ se mistura com água salgada.\

O POEMA DA AVENTURA - Nas profundezas da montanha \ as aventuras se escondem. \ Eles são de todas as formas e feitios. \ Todos têm um final excelente,\ pois quem vive a vida em aventura\ vê o mundo de uma forma extraordinariamente especial. \ Para atrair as aventuras para os padrões do hábito\ basta fechar os olhos\ e pedir que te abracem. \ Você também pode imaginar que é transparente\ e sente o vento fluindo através de você\ em vez de ir contra você. \ Ou imagine que há pequenas asas nas suas costas\ e cada vez que você dá um novo passo você salta um pouco. \ Talvez a própria vida seja uma grande aventura\ se você usar os óculos de sol corretos.

Poemas da escritora, artista, editora e ativista islandesa Birgitta Jónsdóttir.

 

COMO LER LITERATURA - [...] Vivemos em um mundo em que não há nada que não possa ser narrado, mas também nada que precise ser narrado. [...] Gostamos de pensar nos indivíduos como únicos. No entanto, se isto for verdade para todos, então todos partilhamos a mesma qualidade, nomeadamente a nossa singularidade. O que temos em comum é o fato de sermos todos incomuns. Todo mundo é especial, o que significa que ninguém é. A verdade, porém, é que os seres humanos são incomuns apenas até certo ponto. Não existem qualidades que sejam peculiares a uma pessoa sozinha. Lamentavelmente, não poderia haver um mundo em que apenas um indivíduo fosse irascível, vingativo ou letalmente agressivo. Isto ocorre porque os seres humanos não são fundamentalmente tão diferentes uns dos outros, uma verdade que os pós-modernistas relutam em admitir. Temos muitas coisas em comum simplesmente pelo fato de sermos humanos, e isso é revelado pelos vocabulários que temos para discutir o caráter humano. Compartilhamos até mesmo os processos sociais pelos quais nos individualizamos. [...] O prazer é mais subjetivo do que a avaliação. Se você prefere pêssegos a peras é uma questão de gosto, o que não é verdade se você considera Dostoiévski um romancista mais talentoso do que John Grisham. Dostoiévski é melhor que Grisham no sentido de que Tiger Woods é um jogador de golfe melhor que Lady Gaga. [...] O teatro pode nos ensinar alguma verdade, mas é a verdade da natureza ilusória da nossa existência. Pode alertar-nos para a qualidade onírica das nossas vidas, a sua brevidade, mutabilidade e falta de bases sólidas. Como tal, ao lembrar-nos da nossa mortalidade, pode fomentar em nós a virtude da humildade. [...] O artístico está, portanto, muito próximo do ético. Se ao menos pudéssemos compreender o mundo do ponto de vista de outra pessoa, teríamos uma noção mais completa de como e por que ela age daquela maneira. Estaríamos, portanto, menos inclinados a censurá-los de algum ponto de vista externo altivo. Compreender é perdoar. [...] As obras literárias são peças de retórica e também de relatórios. Eles exigem um tipo de leitura peculiarmente vigilante, que esteja alerta ao tom, ao humor, ao ritmo, ao gênero, à sintaxe, à gramática, à textura, ao ritmo, à estrutura narrativa, à pontuação, à ambiguidade – na verdade, a tudo o que está sob o título de “forma”. [...] O erro mais comum que os estudantes de literatura cometem é ir direto ao que diz o poema ou romance, deixando de lado a forma como o diz. Ler assim é deixar de lado a “literariedade” da obra – o fato de ser um poema, uma peça ou um romance, em vez de um relato da incidência da erosão do solo em Nebraska [...] Se nos inspirarmos apenas na literatura que reflete os nossos próprios interesses, toda leitura se torna uma forma de narcisismo. [...] Arranhe um estudante e você encontrará um selvagem. [...]. Trechos extraídos da obra How to Read Literature (Yale University Press, 2014), do filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

COMO FUNCIONA O FASCISMO – [...] A política fascista invoca um passado mítico puro, tragicamente destruído. Dependendo de como a nação é definida, o passado mítico pode ser religiosamente puro, racialmente puro, culturalmente puro ou todas as opções acima. [...] A política fascista pode desumanizar grupos minoritários mesmo quando não surge um estado explicitamente fascista. [...] Na política fascista, as mulheres que não se enquadram nos papéis tradicionais de gênero, os não-brancos, os homossexuais, os imigrantes, os “cosmopolitas decadentes”, aqueles que não têm a religião dominante, são, na sua própria existência, violações da lei e da ordem. Ao descrever os negros americanos como uma ameaça à lei e à ordem, os demagogos nos Estados Unidos conseguiram criar um forte sentido de identidade nacional branca que requer protecção contra a “ameaça” dos não-brancos. [...] Os perigos da política fascista advêm da forma particular como desumaniza segmentos da população. Ao excluir estes grupos, limita a capacidade de empatia entre outros cidadãos, levando à justificação de tratamentos desumanos, desde a repressão da liberdade, prisão em massa e expulsão até, em casos extremos, o extermínio em massa. [...] Os nazistas acreditavam que o movimento das mulheres fazia parte de uma conspiração judaica internacional para subverter a família alemã e, assim, destruir a raça alemã. O movimento, afirmava, estava a encorajar as mulheres a afirmar a sua independência económica e a negligenciar a sua tarefa adequada de produzir filhos. Estava espalhando as doutrinas femininas do pacifismo, da democracia e do “materialismo”. Ao encorajar a contracepção e o aborto e, assim, reduzir a taxa de natalidade, estava a atacar a própria existência do povo alemão. [...] A política fascista não conduz necessariamente a um Estado explicitamente fascista, mas mesmo assim é perigosa. A política fascista inclui muitas estratégias distintas: o passado mítico, a propaganda, o anti-intelectualismo, a irrealidade, a hierarquia, a vitimização, a lei e a ordem, a ansiedade sexual, os apelos ao coração e o desmantelamento do bem-estar público e da unidade. [...] Para o fascista, as escolas e universidades existem para doutrinar o orgulho nacional ou racial, transmitindo, por exemplo (onde o nacionalismo é racializado) as conquistas gloriosas da raça dominante. [...] a política fascista cria um estado de irrealidade, em que teorias da conspiração e notícias falsas substituem o debate fundamentado. [...]. Trechos extraídos da obra How Fascism Works: The Politics of Us and Them (Random House, 2018), do filósofo Jason Stanley. Veja mais aqui.

 

O CORONEL DE MACAMBIRA

[...] Viva! \ Ora viva! \ A aeromoça do céu! \ A aeromoça do céu \ tem as asas da esperança \ de um futuro que há de vir! \ Viva! [...].

Trecho extraído da peça teatral O coronel de Macambira – poesias com palavras incompletas (FCCR, 2005), do poeta, dramaturgo, engenheiro civil, desenhista, professor e editor Joaquim Cardozo (1897-1978). Veja mais aqui e aqui.

 

UM OFERECIMENTO: SANTOS MELO LICITAÇÕES

Veja detalhes aqui.

Tem mais:

Curso: Arte supera timidez aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.


 


quarta-feira, dezembro 06, 2023

COLOMBE SCHNECK, ALANNA COLLEN, MYRIAM SCOTTI, TEJUCUPAPO & ARTE NA USINA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns A Dog's Purpose (Soundtrack, 2017), Their Finest (Score, 2017), Ask the river (Classical, 2020), Godmothered (Soundtrack, 2020) e Beyond the Screen (Crossover, 2023), da compositora britânica Rachel Portman.

 

SOU DA PAZ EM PÉ DE GUERRA – Em minha alma sufocada o apito ancestral. Era inevitável ouvir os lúgubres ventos ecoando os lamentos de soterrados seculares das matas devastadas, aruspícios primaveris jamais olvidados pelas indeléveis andanças. Nada mais restava e se desfazia no mormaço do meio dia daquela sexta feira no Córrego do Feijão, e um suposto terremoto trazia de longe o lixo tóxico como se reaparecesse Pompeia sobre Brumadinho no delíquio do tempo. Próximo! Ouvi ao longe a voz de Dionne Brand: Se estou em paz…não é paz, /está me acostumando com o mal... Era a dor da mulher deprimida, vítima de não sei quantas injustiças. Próximo! Seguia só. Não bastasse topar com o ermo e lá distante coisonazifacistas necrófilos escureciam o céu azul desatado, infortúnios estradafora e um rio de lama varria Bento Rodrigues do mapa naquela tarde depois de novembro e ninguém se lembrava mais das enchentes do Una de 2010. Próximo! Aplaquei um pouco a passada, olhei dos lados e, ao perscrutar, fui alertado pela Christina Rossetti: É melhor esquecer e sorrir do que recordar e entristecer-se... O silêncio é mais musical do que qualquer canção... Próximo! Era como se nunca chegasse a minha vez e as lembranças tomavam todas as formas corpóreas, próximo! E era como se eu estivesse prestes a ser despejado, abrigo embaixo da ponte, já que não tinha mais quem amasse e a companhia de quem parecesse nem mais existir, reduzindo-me a anfitrião de micróbios, bactérias, fungos, vírus, arqueias e outros sei lá quantos micro-organismos, perdido nas dimensões quânticas e a vertigem nas asas dos sonhos. Próximo! Havia alguém por perto, eu sabia, e ela era tal invisível Samantha do Her de Spike Jonze - um corpo de luz vers&prosa como gotas de chuva escorrendo poema livre na minha pele suada. Próximo! Já se fazia uma tarde cinza de quase agosto e ela me chamava: Theodore! Virei-me e pude ver-lhe o último aceno, como se fosse Mariana a deusa grávida enlameada, inexoravelmente tragada pela estrondosa tragédia. Quem veria meu lado tristonho e se parecesse divertida a minha aflição: em minha carne a dor dos mortos dali e dalém. Assim mesmo, ainda ouvia Irene Solá: Gosto de escrever pensando nas pessoas, porque é como um presente... A voz dela e a ventania forte nos meus passos perdidos por minas que são pedras falsas de areias movediças e mais me sentia lixo escorrendo pela sonda perdida: Sombras do chão no céu de Maceió... Até mais ver.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Como a chuva que cai p’ra limpar \ Nuvens carregadas que se espremem \ Tantas mulheres chovem p’ra vazar \ O que um coração quebrado sente. \ Pois que o choro nunca é fraqueza, \ natureza a cuidar do corpo, \ Levando os rejeitos para longe, \ Devolvendo o sorriso que se esconde. \ Chuva que limpa céu torrencial, \ Lágrimas que lavam a alma triste, \ Aliviam dor exponencial, \ Sem levar em conta dor que persiste. \ Desafio se há mulher que chova \ Sem transbordar angustia qu’insiste.

Poema extraído da obra Mulheres chovem (Penalux, 2020), da escritora Myriam Scotti, que também assim se expressa: A gente já sabe o que esperar dos vermes, das pessoas, não.

 

DEZESSETE ANOS – [...] Manter a gravidez significaria renunciar. Quero fazer ciência política, ser jornalista no Le Monde, apresentar o jornal das 20 horas, ser debatedora no rádio, ler livros proibidos, casar e ter filhos o mais tarde possível [...]. Trecho extraído da obra Dix-sept ans (Relicário, 2015), da escritora, jornalista e cineasta francesa Colombe Schneck, que expressa: Escrevo porque é através da escrita que chegamos a uma forma de verdade. Capitulamos, ordenamos, corrigimos, arrumamos as coisas, há uma espécie de artifício, e ainda assim, é só por meio da escrita que podemos chegar à realidade. Se posso ser a mulher que sou hoje, foi porque pude fazer um aborto aos 17 anos. Veja mais aqui.

 

QUANTO DE HUMANOS SOMOS – [...] Com quase 20 mil genes, o genoma humano [...] Mas esses 20 mil genes não controlam nosso corpo sozinhos. Não estamos sós. Cada pessoa é um superorganismo, uma coletividade de espécies vivendo lado a lado, em cooperação, para controlar o corpo que nos sustenta. Nossas células, embora bem maiores em volume e peso, são superadas à razão de dez para uma pelas células dos micróbios que moram dentro da gente e sobre nosso corpo. Esses 100 trilhões de micro-organismos – conhecidos como a microbiota – são predominantemente compostos por bactérias: seres microscópicos constituídos de uma só célula. Junto com elas, há outros: vírus, fungos e arqueias. [...] Os nossos micróbios são importantes para o nosso corpo [...]. Cada um de nós contém comunidades de micro-organismos tão singulares quanto nossas impressões digitais. [...] Passamos a depender de nossos micróbios, e sem eles seríamos uma mera fração do que somos.  [...] Tanto como indivíduos quanto na sociedade como um todo, passamos do frugal ao exagero; do tradicional ao progressivo; da escassez ao excesso de luxo; da assistência médica precária aos serviços médicos de excelência; de uma incipiente a uma próspera indústria farmacêutica; da vida ativa à sedentária; do provinciano ao globalizado; do fazer-e-consertar para o reformar-se e substituir; do decoro à desinibição. [...] Muitos pais esperam transmitir o melhor de si aos seus filhos, além de proporcionar a eles o ambiente mais feliz e saudável possível. O microbioma – com sua influência genética e um controle ambiental – dá aos pais o poder de fazer as duas coisas.  [...] Acolher os micróbios que viajaram conosco por milhões de anos é o primeiro passo para aprendermos a valorizar o que realmente somos e, no fim, nos tornarmos 100% humanos. [...] Trechos extraídos da obra 10% humano: como os micro-organismos são a chave par a saúde do corpo e da mente (Sextante, 2016), da bióloga, escritora e zoóloga britânica Alanna Collen.

 

FESTIVAL ARTE NA USINA: INOVAR & EVOLUIR

De 7 a 10 de dezembro, na Usina de Arte. Veja mais aqui.

&

TEJUCUPAPO

[...] Mesmo reconhecido pelo exército como o episódio onde se deu a primeira participação de mulheres brasileiras em conflito armado, a Batalha de Tejucupapo toi banida dos livros escolares [...].

Trecho extraído da apresentação da obra Tejucupapo: história, teatro, cinema (Bagaço, 2004), organizado por Cláudio Bezerra. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



terça-feira, outubro 23, 2018

DORIS LESSING, MARCELA BOVIO, MACEIÓ & FERNANDO DUARTE


SOLIDABRAÇAMIGO, COMIGO – Imagem: arte do artista visual Fernando Duarte - Abraço meu cabe tudo e todos, sou solidário, pretíndio, mamelucescuro, pernambrasil, Terra e nada mais que mais um nesse UM que somos todos nós. Sou pra quem vive sem pisar a memória de todos os nossos mortos, porque deles aprendemos o que somos e nos fizeram pra sermos melhores. Sou pra quem leva a ternura no afeto e sabe de todos o direito de ser por todos. Sou pra quem faz da voz no canto do peito a suplantar a extensão da mudez e a indiferença dos surdos. Sou pra quem traz no abraço a força amiga dialógica para que possamos fazer sempre juntos o que não é de ninguém. Sou pra quem leva nas mãos estendidas o apreço de sempre solícito recolher todos os desabrigos das noites escuras. Sou pra quem ri ou chove choros, a vida não é tão fácil, viver doi e sangra e muito se cai de baixo às quedas pro nocaute de cima ou de qualquer lado dos hemisférios, porque qualquer lado é que vai daqui pra lá ou de lá pra cá e, esteja onde estiver, será sempre bem-vinda a sua presença. Sou pra quem sonha de olhos abertos ou procurando no seu voo seus anseios de viver, também sonho aos saltos e o mais bonito que se possa ter é sonhar juntos, vambora e seja lá o que Deus quiser. Sou pra quem ama ou se perde entre tristalegres momenteventos, tudo passa, só o coração fica na capacidade de amar. Sou pra quem tiver amor e nada mais que isso, o amor nos basta pra fazer valer a vida além de nossas possibilidades. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Como na esfera política, ensina-se a criança que ela é livre, é uma democrata, dispondo de vontade própria e mente livre, morando num país livre, e podendo tomar suas próprias decisões. Ao mesmo tempo, ela é prisioneira das suposições e dos dogmas de sua época, que ela não questiona, porque nunca lhe disseram que eles existiam. Quando um jovem chega à idade em que precisa escolher (continuamos a aceitar sem discutir que a escolha é inevitável) entre as artes e as ciências, ele costuma escolher as artes porque julga que nesse campo há humanidade, liberdade e opção. Ele não sabe que já se emoldurou ao sistema, não sabe que a própria escolha é resultado de uma falsa dicotomia enraizada no coração de nossa cultura. Os que o percebem e que não querem submeter-se a mais padrões, tendem a ir embora, num esforço meio inconsciente e instintivo de encontrar trabalho onde eles, como pessoas, não serão divididos entre si mesmos. Com todas as nossas instituições, que vão desde a polícia até a academia, desde a medicina até a política, prestamos pouca atenção às pessoas que se afastam, formando aquele processo de eliminação que prossegue sem cessar e que exlui, muito cedo, os que são originais e reformadores, deixando os atraídos para uma coisa que é isso que eles já são. Um jovem policial abandona a polícia porque afirma não gostar do que tem de fazer. Um jovem professor abandona o ensino e repele o seu idealismo. Este mecanismo social ocorre quase sem ser percebido, mas é uma força poderosa na manutenção rígida e opressiva de nossas instituições. [...] Talvez não exista outra maneira de educar as pessoas. Possivelmente, mas não acredito. Nesse ínterim seria útil pelo menos descrever adequadamente as coisas, chamar as coisas por seus nomes corretos. Idealmente, o que se deveria dizer a toda criança, repetidamente, durante toda a vida escolar é algo mais ou menos assim: 'Você está no processo de ser doutrinado. Ainda não criamos um sistema de educação que não seja um sistema de doutrinação. Lamentamos, mas estamos fazendo o melhor que podemos. O que lhe estão ensinando aqui é um amálgama dos preconceitos atuais e das opções desta nossa cultura. A consulta mais ligeira à história revelará que aqueles dois itens são temporários. Você está sendo ensinado por pessoas que conseguiram acomodar-se a um regime de pensamentos transmitido por seus predecessores. É um sistema autoperpetuador. Os que, dentre vocês, são mais vigorosos e individuais do que os demais, serão incentivados a ir embora e a encontrar maneiras de se educar, educando seu próprio julgamento. Os que ficarem devem sempre lembrar, sempre, em todas as ocasiões, que estão sendo amoldados para se enquadrar nas tímidas e específicas necessidades desta determinada sociedade. [...].
Trecho extraído da obra O carnê dourado (Record, 1972), da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A ARTE DE FERNANDO DUARTE
A arte do artista visual Fernando Duarte.

AGENDA
II Encontro Nacional da Associação Brasileira de Psicologia na Assistência Social (ABRAPAS): Território, Textos & Contextos & muito mais na Agenda aqui.
&
Maceió, uma elegia para os que ousam sonhar aqui.
&
Pintando na praça, Ernesto Sábato, Horas inúteis de Edwiges de Sá Pereira, Úrsula de Maria Firmina dos Reis, Admmauro Gommes & Fenelon Barreto, Vital Farias, Magda Tagliaferro, Rogerio Tutti & Mônica Salmaso aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora, compositora e violinista mexicana Marcela Bovio: The gathering, Powerless, Found & Saboteurs & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sábado, dezembro 05, 2015

MACEIÓ, GISMONTI, PRIAPEIA, LEMINSKI, BORNHEIM, PAES, EDUCAÇÃO, NEUROCIÊNCIA, PAPAI NOEL & MUITO MAIS!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PAPAI NOEL AMOLESTADO – Sabe daqueles dias de vacas magras numa apertura arrochada de estreitar o juízo de qualquer sujeito? Pois é, multipliquem dez vezes mais a penúria e saberão a medida exata do que se passava com o Doro naquele momento periclitante. Para se ter uma idéia do labirinto, ele olhou de um lado e estava a esposa com a mão de pilão, pronta para lascar-lhe o quengo. Do outro lado, uma infieira de bruguelos-de-cabelim-de-milho, tudo com um olhão graúdo pras bandas dele, acompanhado dum buá infernal. E atrás, vôte, uma penca de credores, tudo doido para pegá-lo de num aguentarem mais o toque de arrudeio do sabido em driblar os pregos. Pois bem, no meio desse cenário tão alvissareiro, Doro escapuliu para arrumar uma lavagem de roupa que minorasse sua miséria, não antes receber no maluvido um desaforo da sua gasguita mulher: - Ói, seu-destrambeiado, si num chegar cum cumida hoje im casa, vou-me prá casa da mãe, de nunca mais tu vê nem minha cara nem dus mininos, ouviu, traste? Fez-se de entendido e saiu com aquilo martelando no quengo. Pé na bunda.  Depois de muito arrastado de sandália enchendo a rua de pernas, eis que apareceu a sua salvação: precisa-se de Papai Noel. Eita! Na medida.  Aí, deu um carreirão até onde precisavam do tal, encontrando, para sua revolta, uma fila enorme já de tantos postulantes ao cargo. - Puta-qui-me-pariu, outra fila da porra!! Orra, meu! Doro apertou as pestanas, espremeu o nariz, bateu na testa, fulo da vida e ficou matutando uma saída. - Desse jeito, passa o natal e eu não saio daqui! Teve um estalo. Imaginem: a dieta do rapaz, vocês já sabem, num é? Dá para sacar o desastre. Pois foi, apalpou a pança e largou um daqueles silenciosos que saiu queimando as beiradas do cu, de arrancar uma dúzia de pregas lá nele. - Eita, esse quase me rasga! -, disse para si. Vôte! O fedor não demorou muito. Correram todos, até os atendentes, não ficando uma só alma viva ali. Até o Doro aperreou-se com a inhaca. - Orra, meu! Tô meiorando cada dia mais. Desse jeito vô sê campião de peido em quaiquer lugá do praneta! Ainda bem que estamos imunes dessa catástrofe. Bem distante, né não? Pois bem, lá para as tantas, uma atendente resolveu retornar às atividades. Ela estranhou a presença de Doro ali. - O senhor aguentou aquela fedentina? - Ah! já tô acustomado, minha fia. - Óooooo. A lasqueira era que ainda restavam resquícios da catinga no ambiente, o que fez a moça apossar-se de uma tuia de fragrâncias para desimpestar os recantos. Hora e meia, depois, tudo restabelecido, Doro, como não poderia ser diferente, foi atendido. - O senhor já trabalhou de Papai Noel? - Minha fia, eu sô o mais originá Papa Noé da históra! - O senhor possui a indumentária? - Cuma? - O senhor possui a roupa do Papai Noel? - Quiláro, minha fia, a minha rôpa é a mai originá tumbém. Todo mundo gosta. Como era o único candidato que restara da fatalidade, ficou com o cargo. Um mês vestido de papai Noel sob o pagamento milionário de um salário mínimo por proventos. E o melhor: recebeu 50% adiantados na hora e foi arrumar a indumentária. Em casa livrou-se de uma panelada nas fuças porque deitou logo o dinheiro inteirinho na vista da mulher. - Só isso? - Foi o qui eu arrecebi, ôxe! Como a mulher estava virada, não agüentou e arribara com os bruguelos no cós da saia. Doro sozinho ficou vasculhando os farrapos do seu figurino. Quando conseguiu arrumar, juntando tudo, num dava uma peça inteira de nada. Aí ele avexado, danou-se a costurar fiapo de pano de todas as espécies possíveis e inimagináveis num remendo sem fim, na maior colcha de retalhos. Foi na habilidade da agulha tudo que viesse pela frente: pano de chão com cueca rasgada, mais duas caçolas imprestáveis, três fraldas meleguentas, resto de cortina, toalha de banho, pedaço de cetim, pele de bombo, empanado de sofá, um restinho de saia, taco de borracha, sacola plástica, telas, tapetes, fiapo de cambraia, flanela, pano de copa, bonés, matulões, couro, uma bagaceira!  Fez o palitó assim, mais a calça. Ajeitou uma botina velha caindo aos pedaços numa batedeira dos infernos. E, ao cabo de três dias, estava com tudo pronto. No dia marcado ele chegou lá. Dirigiu-se ao camarim improvisado e foi se aprontar. Duas horas depois ele chegava no recinto na maior macacada! O Zé do Caixão nunca estivera mais lindo. Para filme de terror estava na medida. - Cadê o papai Noel? -, perguntou uma funcionária. - Ói eu aqui, dona moça! Vôte, a moça quase teve um troço do susto! - Isso é lá papai Noel que se apresente, moço? -, disse depois que consegiu se recompor do acidente. - E ocê qué mió qui isso, é? Sou o mai originá dos originais! - Para o Anticristo o senhor está perfeito! Para festa de assombração, para serenata no cemitério, coisa do tipo. - Ói, num me abufeli qui tô ficando nervoso! Depois de muito renhenhém, o cara teve permissão de assombrar as criancinhas. E quando foi se aproximando da platéia, levou um trupicão ao pisar no cadarço da bota, de sentar a venta no chão. Tei bei! - Empurra não, empurra não! -, dizia ele com ele mesmo para gargalhada da garotada que avançou em cima dele. Ôxe, tome assédio. E só se via a meninada: - Bicho feio! Bicho feio! - É a mãe d´ocês, seus porrinhas! Aí foi que o negócio pegou fogo! Os peraltinhas acharam de agarrá-lo, dando chute, pernada, dedada, beliscada, mordida, e ele revidando tudo no maior bafafá. O negócio ficou tão feio que teve de ter a interferência de uns dez seguranças para contornar o rebuceteio. Situação contornada, Doro ainda bufava quando teve de acocorar-se para atacar os cadarços da bota. Foi pior: o pano não aguentou e abriu um rasgão na roupa de deixá-lo de bunda de fora. Maior alvoroço! Quem estava e quem não estava nem aí, revestiu-se da maior risadagem.Fatalidade maior não haveria de acontecer. Porém, como tudo é possível, o pior ainda estava por vir. Doro estava escondido quando a organização mandou que ele fosse se atrepar no teto do prédio, para descer de lá de cima com todo o glamour que a ocasião exige. Havia para mais de zis crianças. Ele lá, cai mas num cai. Quando se agarra na corda, faz aquela averiguação de profissional, desconfia que a corda num agüenta e reclama: - Esse barbante num pode com eu não? - Bora, só tem esse aí, te vira, cara! Doro fez a maior cara feia, mas como não tinha jeito. O jeito mesmo era despencar lá de cima e matar logo um bocado de presepeiro lá embaixo e pronto, receber a outra metade do dinheiro e ir para casa com meio mundo de fratura exposta. Missão cumprida. Nada. Ele segurou na corda e começou a deslizar, descendo ao som daquelas canções natalinas e com o maior aparato de iluminação e efeitos visuais. - S´eu dispencá daqui, caio im cima das mininada, aí é só no macio. Eles morre, mas eu fico aparado qui só numa almofada com esses trelosos. No meio do estardalhaço todo, ele enganchou-se na armação, passando horas pendurado. Só se via a bunda branca reluzindo lá em cima. O cara passou o maior aperto, suando frio, o estatelar-se no chão, o medo, tudo duma só vez. Isso dava um remoído no estômago a ponto de deixar a merda pronta para arrombar com tudo. Não deu outra. Primeiro veio aquela flatulência arrochada. Póiiiiiiin! Depois, meu, o desgraceiro estava feito. A corda partiu-se e lá vem Doro carregado de bosta altura abaixo. Ploft! Só se viu o salpicado abundante em todas as direções. - Eita, o Papai Noel trouxe o saco cheio de merda! - Não meu, é que ele é feito de bosta mesmo!! Pelo andar da carruagem, dá para notar que o evento teve que contar com a intervenção da tropa de choque e o corpo de bombeiros para recompor tudo. Maior vexame. Doro ainda com a cara mais lisa conseguiu balbuciar: - É, num deu. Só na outra. Veja mais aqui e aqui.


Imagem Polynesian-girl-nude, do artista plástico estadunidense Ralph Burke Tyree (1921 – 1979)

 Curtindo o álbum Feixe De Luz: "Todo começo é involuntário" (EMI, 1988), do compositor e arranjador Egberto Gismonti e Academia de Danças. Veja mais aqui, aqui e aqui.

NEUROCIÊNCIA & EDUCAÇÃO - No livro Neurociência e educação: como o cérebro aprende (Artmed, 2011), de Ramon M. Consenza e Leonor B. Guerra, destaco os trechos do capítulo O diálogo desejável: A educação tem por finalidade o desenvolvimento de novos conhecimentos ou comportamentos, sendo mediada por um processo que envolve a aprendizagem. Comumente, diz-se que alguém aprende quando adquire competência para resolver problemas e realizar tarefas, utilizando-se de atitudes, habilidades e conhecimentos que foram adquiridos ao longo de um processo de ensino-aprendizagem. Ou seja, aprendemos quando somos capazes de exibir, de expressar novos comportamentos que nos permitem transformar nossa prática e o mundo em que vivemos, realizando-nos como pessoas vivendo em sociedade. [...] As neurociências estudam os neurônios e suas moléculas constituintes, os órgãos do sistema nervoso e suas funções específica, e também as funções cognitivas e o comportamento que são resultantes da atividade dessas estruturas. [...] Embora muitas vezes se observe certa euforia em relação às contribuições das neurociências para a educação, é importante esclarecer que elas não propõem uma nova pedagogia nem prometem soluções definitivas para as dificuldades da aprendizagem. Podem, contudo, colaborar para fundamentar práticas pedagógicas que já se realizam com sucesso e sugerir ideias para intervenções, demonstrando que as estratégias pedagógicas que respeitam a forma como o cérebro funciona tendem a ser as mais eficientes. Os avanços das neurociências possibilitam uma abordagem mais científica do processo ensino-aprendizagem, fundamentada na compreensão dos processos cognitivos envolvidos. [...] O trabalho do educador pode ser mais significativo e eficiente quando ele conhece o funcionamento cerebral. [...] Com conhecimento científico, intercâmbio de experiências, julgamento crítico, disposição e energia, mas sem euforia excessiva, poderemos nos tornar, em breve, educadores de muito mais sucesso. Veja mais aqui, aqui , aqui e aqui.

VAI E VEM DE AIS – No livro Gozo fabuloso (DBA, 2004), do poeta, critico literário, tradutor e professor Paulo Leminski (1944-1989), encontro o conto Vai e vem de ais: Gilda cozinhava meu coração, minha empregada ia e vinha, enchia minha cabeça de uma vontade fazer loucuras naquele corpo moreno, agarrar, apalpar, enfiar a mão dentro daquele decote rechonchudo, cheirar tudo, aquela pele irresistível, estalar um beijo naquela boca sem vergonha, tirar peça por peça, as coxas, deve ter umas coxas de mulher de boate, um gosto de noite estrelada debaixo do sovaco, meter o nariz naquelas penugens ruivas, a calcinha, dava tudo pra tirar a calcinha de Gilda, ver aparecerem aquelas gostosuras de mulher, as duas bolas de carne mais lindas que já vi, os pelos explodindo sobre seu sexo, carnudo como fatias de uma fruta madura, Gilda se abrindo pra mim, mergulhador nos mares de fêmea, fundo, mais fundo, vibrando lá dentro, derretendo de prazer, Gilda deve ser muito quente, deve gostar de curtir um love, um homem dos bons, penetrando, indo até o fim, até o fundo, voltando, acelerando, botando meu fogo lá dentro dela, amassando sua cinturinha frágil, não, Gilda deve ter uma cintura forte, deve se mexer que é uma diaba, mulher do povo é que é fêmea, minha mulher, coitada, se esforça, mas não há nada como o talento, Gilda tem cara de quem gosta, ela me olha, eu perco a calma, dá vontade de agarrar ali mesmo, na frente da minha mulher, só pra minha mulher ver como reage uma mulher de verdade, uma fêmea sem preconceito, muito a fim de dar e levar, ando tão a fim de Gilda que até já ando inventando moda, peço pra minha mulher me trazer um uísque de bandeja, como se fosse minha empregada, como se fosse Gilda, como se ela pudesse ser como ela, daí, sim, fico bem louco, agarro minha mulher, começo a tirar a roupa dela, tarado, minha mulher fica encantada com o banho de homem que eu dou nela, pensando em Gilda, ah, Gilda, eu dava tudo pra ficar cego nesses teus cabelos soltos, como ele deve ter ficado, aquele teu namorado de ontem, quando vocês se encontraram, lá no teu quartinho, de noite, minha mulher tinha saído, eu fui pé ante pé, colei debaixo da janelinha, vocês dois lá dentro, Gilda e o entregador de pão entregando o pão direitinho, pelos gemidos de Gilda, parecia que estavam se matando, Gilda gritou quando o entregador a penetrou, “o pão no forno, está quentinho, madame, relaxe e aproveite”, eles se xingaravam, numa luta de morte, carne contra carne, a cama rangendo no ritmo louco dos vai e vens, as roupas saindo, as roupas que separavam a nudez de Gilda e do seu entregador, “ai, você me mata, meu cachorrão, puta merda, que pão, assim, assim, ai, não, não, venha, meu amor, ah, que loucura, mais, mais”, os grunhidos do entregador, fortes como o resfolegar de quem trabalha carregando pães, trabalhando o corpo da fêmea, fabricando aquela loucura, “ai, meu amor, ai, eu vou, com força”, a força do entregador, entregando ao querido corpo de Gilda um carregamento de prazer, com força, com uma força que eu não tenho, mais forte que eu, muito mais forte, o carregador de Gilda, as pernas fortes de andar na bicicleta entregando pães na redondeza, os braços morenos e fortes, a saúde ao sol, o peito largo na camiseta do Floamengo, blum! Gilda explode num grito alto e claro, a voz de quem morre de um golpe certeiro, a respiração de quem volta a nado de uma longa viagem, uma viagem de Gilda, uma viagem só deles, de Gilda e do seu entregador, não posso competir com o entregador de Gilda, fazer amor como a gente do povo faz, está tarde, minha mulher chega a qualquer momento, vou pedir para me trazer um uísque. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

DA PRIAPÉIA – No livro Poesia erótica em tradução (Companhia das Letras, 2006), organizada pelo poeta e tradutor José Paulo Paes, encontro os poemas recolhidos da Priapeia. Primeiro, o poema A ameaça de Priapo a uma jovem: Conquanto Priapo de madeira eu seja, madeira a foice, como vês, e o pênis, vou te agarrar e segurar bem firme e todo em ti, por longo que ele seja, mais tenso do que a corda de uma cítara, até tuas costelas vou cravá-lo. Depois, A vantagem do pênis de Priapo: Leva a maior das vantagens o meu pênis: para mim mulher alguma é larga. Em seguida, o poema Priapo pede aos romanos que não o deixem perecer por causa da luxúria excessiva: Romanos, socorro – tudo tem limite. Cortai-me o membro viril, caso contrário não mais tereis Priapo, pois a cada noite, mais lúbricas do que pardais na primavera, as mulheres da vizinhança me fatigam. Vede vós próprios o quanto estou exausto, debilitado, consumido, pálido, eu que em outros tempos, rubicundo e forte, desbaratava os ladrões mais atrevidos. O corpo se me extingue, enfermo tusso e cuspo agora saliva perigosa. Por fim, Priapo a certa pudica: Para não veres meu emblema viril, apartas a vista, como o pudor exige: sem dúvida porque o que temes olhar, anseias por recebe-la em tuas entranhas. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

TEATRO CONTEMPORÂNEO – No livro O sentido e a máscara (Perspectiva, 1975), do filósofo, professor e crítico de teatro brasileiro Gerd Bornheim (1929-2002), encontro o texto Questões do teatro contemporâneo, do qual destaco os trechos: A situação do teatro contemporâneo é extremamente complexa, para não dizer caótica. Errado, contudo, andaria quem disso inerisse que se trata de um teatro pobre, sem imaginação, desprovido de recursos maiores. Deve-se mesmo afirmar que é exatamente o contrário que se verifica: o panorama do teatro de hoje é, inegavelmente, de uma riqueza imensa, de uma pluralidade de experiências jamais vista em nenhuma fase da história da dramaturgia e da arte cênica. E é precisamente esta pujança que torna a realidade teatral problemática, complexa, e mesmo caótica. O grande problema está em captar a sua unidade, ou em estabelecer os critérios básicos que possibilitem uma visão orgânica e unitária do conjunto. [...] Mas cremos que estas sumárias indicações são suficientes para que se possa compreender a real riqueza do teatro contemporâneo e o profundo sentido da problematização que o informa: muito mais ele é repensado, procurando dar-se ao que parece anacrônico novas possibilidades, num processo inventivo que recusa limites. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ESPOSAMANTE – A comédia dramática Esposamante (Mogliamante, 1977), dirigida por Marco Vicário, conta história de um produtor de vinhos anarquista é dado como morto, deixando a mulher livre para assumir os negócios e a sua própria personalidade. A transformação intelectual e sexual dessa mulher, no entanto, ainda é alvo de atenção do marido desaparecido. Essa esposa, com uma suposta histeria, encontra-se paralisada em sua cama lindamente adornada por anjos, uma esposa cercada de anjos e bonecas para que os demônios não possam surgir. No filme, o tempo todo, deparamo-nos com o Olhar. Antonia que olha Clara, o padre que olha os dançarinos, amaldiçoando-os, o olhar de Luigi, revelador de todas as suas emoções, o olhar de Enrico (o melhor, a falta do olhar de Enrico). E o filme se desenrola numa impressionante. O destaque vai para a atriz italiana Laura Antonelli (1941-2015). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da belíssima e sensual atriz Daryl Hannah.
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à Maceió. Veja aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...