
DITOS & DESDITOS:
[...] Como na esfera política, ensina-se a criança
que ela é livre, é uma democrata, dispondo de vontade própria e mente livre,
morando num país livre, e podendo tomar suas próprias decisões. Ao mesmo tempo,
ela é prisioneira das suposições e dos dogmas de sua época, que ela não
questiona, porque nunca lhe disseram que eles existiam. Quando um jovem chega à
idade em que precisa escolher (continuamos a aceitar sem discutir que a escolha
é inevitável) entre as artes e as ciências, ele costuma escolher as artes
porque julga que nesse campo há humanidade, liberdade e opção. Ele não sabe que
já se emoldurou ao sistema, não sabe que a própria escolha é resultado de uma
falsa dicotomia enraizada no coração de nossa cultura. Os que o percebem e que
não querem submeter-se a mais padrões, tendem a ir embora, num esforço meio
inconsciente e instintivo de encontrar trabalho onde eles, como pessoas, não
serão divididos entre si mesmos. Com todas as nossas instituições, que vão
desde a polícia até a academia, desde a medicina até a política, prestamos
pouca atenção às pessoas que se afastam, formando aquele processo de eliminação
que prossegue sem cessar e que exlui, muito cedo, os que são originais e
reformadores, deixando os atraídos para uma coisa que é isso que eles já são.
Um jovem policial abandona a polícia porque afirma não gostar do que tem de
fazer. Um jovem professor abandona o ensino e repele o seu idealismo. Este
mecanismo social ocorre quase sem ser percebido, mas é uma força poderosa na
manutenção rígida e opressiva de nossas instituições. [...] Talvez não exista outra maneira de educar as
pessoas. Possivelmente, mas não acredito. Nesse ínterim seria útil pelo menos descrever
adequadamente as coisas, chamar as coisas por seus nomes corretos. Idealmente,
o que se deveria dizer a toda criança, repetidamente, durante toda a vida
escolar é algo mais ou menos assim: 'Você está no processo de ser doutrinado.
Ainda não criamos um sistema de educação que não seja um sistema de
doutrinação. Lamentamos, mas estamos fazendo o melhor que podemos. O que lhe estão
ensinando aqui é um amálgama dos preconceitos atuais e das opções desta nossa
cultura. A consulta mais ligeira à história revelará que aqueles dois itens são
temporários. Você está sendo ensinado por pessoas que conseguiram acomodar-se a
um regime de pensamentos transmitido por seus predecessores. É um sistema
autoperpetuador. Os que, dentre vocês, são mais vigorosos e individuais do que
os demais, serão incentivados a ir embora e a encontrar maneiras de se educar, educando
seu próprio julgamento. Os que ficarem devem sempre lembrar, sempre, em todas
as ocasiões, que estão sendo amoldados para se enquadrar nas tímidas e
específicas necessidades desta determinada sociedade. [...].
Trecho
extraído da obra O carnê dourado
(Record, 1972), da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013). Veja
mais aqui, aqui e aqui.
A ARTE DE FERNANDO DUARTE
A arte do artista visual Fernando Duarte.
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(ABRAPAS): Território, Textos & Contextos & muito mais na Agenda
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Pereira, Úrsula de Maria Firmina dos Reis, Admmauro Gommes & Fenelon
Barreto, Vital Farias, Magda Tagliaferro, Rogerio
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