Mostrando postagens com marcador Mário Souto Maior. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mário Souto Maior. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, maio 13, 2024

ANNA GUAL, KATIÚSCIA RIBEIRO, SILVIA MORENO-GARCIA & NAS DOBRAS DO TEMPO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Mi Alma Mexicana (My Mexican Soul, 2010), Travieso Carmesí (2011), Francis Hime: Concerto para Violão e Orquestra – Ayres: Concertino para Percussão e Orquestra (2011), Schneider: Erdgebunden (2015), Stravinsky: Works for Piano & Orchestra (2015), Olé México (GNP, 2022) e Guy Braunstein: Abbey Road Concerto (EP, 2024), da regente mexicana Alondra de la Parra, diretora da Filarmónica de las Américas.

 

VERS&PROSA DUM POETA D’ÁGUA DOCE... – Um eu não sou, dois é muito mais! Se três quedas eu já levei, quatro vezes deu no escambau. Cinco dias eu penei, seis semanas se passaram. Sete meses um prematuro, oito anos de lapadas no espinhaço. Nove lados de labirintos, só com dez faz martelada... Repenteando qualquer jeito para ver como é que fica. Ih, de popoesiar... Ah, até com um olho só me danava porque sei que o melhor do Dia do Homem é saber que todo dia é Dia da Mulher! E mais porque ouvi Claribel Alegría: A chuva está caindo e as memórias continuam inundando. Eles me mostram um mundo sem sentido, um mundo voraz, mas continuo amando… Ali o domingo era a janela das horas perdidas pelas esquinas das minhas veias que o anedotário deu nas travessas. As mãos desfilavam se soltar e ninguém sabia o chão que pisava porque só se imaginava céu acima de todos. E quando os olhos se tomaram de azuis tudo sangrava e ninguém dava fé porque o vermelho dizia de suores e tormentos. Era como dizia Corita Kent: A vida é uma sucessão de momentos, viver cada um é ter sucesso... Não se menospreze. Seja grande você mesmo... Tudo passava: o trago do cigarro, a cena do close, a efeméride festiva, o gole alcoólico e as desatenções das matas que nem existiam mais por causa das fogueiras desumanas. E os que perderam o dom das estrelas pelo fumaceiro das razões, poderiam, pelo menos, rastrear os sulcos da terra pela chuva dos choros que sequer escutavam. Já dizia Naomi Klein: Num mundo onde o lucro é consistentemente colocado à frente das pessoas e do planeta, a economia climática tem tudo a ver com ética e moralidade... Quem perdeu o amanhã pelos ontens reiterados, não se apiedava: é triste a planta ressequida pela memória jamais irrigada. O fogo me ensinou a cinza e o meu coração era um pássaro que se fez vulcão nascendo um rio. A água era o que vazou entre meus dedos e, meus olhos, as correntezas dos devires. O ar me deu o invisível e tudo era vivo a cada sopro que não sabia onde o fim nem por onde começar. A terra mais que poética inusitada salvou os passos e o pisado na eternidade, nada mais vida e sou a transformação por fogaréus, mais que ubiquidade aérea, mais que gota na inundação do solvente universal, sou chão. Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

ESPAÇO-TEMPO – Eu falo a palavra universo em voz alta \ e sei que ao ouvi-la você notará o fascínio \ que transbordou enquanto eu escrevia \ você ouvirá os enigmas da palavra desmoronando meu cérebro. \ Sentirá o registo frenético \ de um batimento cardíaco e de uma respiração encurtada \ por uma revelação do vazio que preenche, \ que abraça zonas mortas. \ Universo. \ Isto não é ciência, isto é puro misticismo \ que não pode ser documentado \ nem com números \ nem com letras. \ A estupidez do ser humano é suficiente para fazer você rir \ sempre se perguntando.

MALDIÇÃO – eu não queria um mapa. \ Queria um facão para me levar \ pela selva, seguindo o inconsciente. \ Quando dizem tarde demais, \ você tem certeza de que não estão exagerando? \ Encontrei uma faquinha \ e acho que poderia cortar as plantas \ que entram em meus olhos, \ que obstruem minha vontade, \ que exaltam contradições. \ Sim, \ eu não queria um mapa. \ Eu queria um Deus dentro de todos.

Poemas da escritora espanhola Anna Gual.

 

GÓTICA MEXICANA – [...] Livros, luar, melodrama. [...] O mundo pode realmente ser um círculo amaldiçoado; a cobra engoliu o rabo e não poderia haver fim, apenas uma ruína eterna e uma devoração sem fim. [...] ela estava presa entre desejos conflitantes, o desejo de uma conexão mais significativa e o desejo de nunca mudar. Ela desejava juventude eterna e alegria sem fim. [...] Poderíamos construir centenas de narrativas diferentes, mas isso não as tornaria verdadeiras. [...] Ela queria ser amada. Talvez isso explicasse as festas, o riso cristalino, os cabelos bem penteados, o sorriso ensaiado. Ela achava que homens como seu pai podiam ser severos e frios como Virgílio, mas as mulheres precisavam ser queridas ou estariam em apuros. Mulher que não gosta é uma vadia, e uma vadia dificilmente pode fazer alguma coisa: todos os caminhos estão fechados para ela. [...] O futuro, pensou ela, não poderia ser previsto e o formato das coisas não poderia ser adivinhado. Pensar o contrário era um absurdo. Mas eles eram jovens naquela manhã e podiam agarrar-se à esperança. Espero que o mundo possa ser refeito, mais gentil e mais doce. [...] Ela era a cobra mordendo o rabo. Ela era uma sonhadora, eternamente presa a um pesadelo, de olhos fechados mesmo quando seus olhos viraram pó. [...]. Trechos extraídos da obra Mexican Gothic (Del Rey, 2020), da escritora e editora mexicana Silvia Moreno-Garcia.

 

MULHERISMO AFRICANO – [...] Ampliar as possibilidades de estudos e pesquisas que possam reescrever a história da própria filosofia, inserindo outros protagonistas em seu legado – os agentes da filosofia africana. Incorporar epistemologias com responsabilidades afrocêntricas, pautadas na agência do povo africano e sobretudo trilhar e possibilitar uma efetiva descolonização do pensamento. Dessa forma, a ideia de uma educação que integre a população africana nas ementas escolares, fazendo uso da teoria de eliminar o racismo em sala de aula, abolindo práticas docentes que por vezes reforçavam dores com a figura subalternizada dos africanos na condição de escravo, criando no imaginário social das crianças a inferiorização desses povos. Isso pode ser eliminado ao reconhecer o lugar de fala e o papel importante que os negros ocuparam na história, desenvolvendo uma sociedade capaz de dialogar e enriquecer a partir do conhecimento e incorporação de suas diferenças. Nesse sentido, as diferenças precisam ser vistas como positivas já que estruturam a tese de uma sociedade plural, a pluralidade é composta pelas diferenças, possibilitando a oportunidade para os ensinamentos de trocas que constituem o olhar sobre o que é ser sujeito de sua própria história pautada na sua agência. [...]. Trecho extraído do estudo Kemet, escolas e arcádeas: a importância da filosofia africana no combate ao racismo epistêmico e a Lei 10639/03 (Cefet/UFRJ, 2017), da filósofa Katiúscia Ribeiro Pontes.

 

NAS DOBRAS DO TEMPO

[...] Hermilo Borba Filho disse que palavrão era amor e amor era poesia. [...] A pesquisa transformou minha vida num pesadelo. Recebia cartas, telefonemas. Dava entrevista pelo telefone. Em casa, atravessava as madrugadas relendo, dinamicamente, mais de uma centena de romances brasileiros à procura de abonações capazes de complemente e solidificar o verbete. [...] O Dicionário do palavrão e termos afins foi um pesadelo na minha vida. Um pesadelo que deu certo. [...].

Trecho da crônica O dicionário do palavrão – um pesadelo que deu certo, extraído da obra As dobras do tempo – quase memórias (20+20 Comunicação, 1995), do folclorista e etnólogo Mário Souto Maior (1920-2001). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

UM OFERECIMENTO: SANTOS MELO LICITAÇÕES

Veja detalhes aqui.

&

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Curso: Arte supera timidez aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 


quarta-feira, julho 08, 2020

LA FONTAINE, KÄTHE KOLLWITZ, MÔNICA BURITY & MÁRIO SOUTO MAIOR



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: LHEGUELHÉ DESENTURMADO - Nunca consegui me situar direito nas coisas, sempre um tanto deslocado. Melhor dizendo: bastante por fora, mesmo. Quando não passo batido, a oportunidade é adiada e cai no esquecimento. Foi. Com os da minha idade, uma ou outra interlocução bem precária. Os mais velhos, uma barra para superar a distância. Os mais novos, assim, meio que desencontrados. Com as mulheres, ah sim, com elas tantas interações, só elas. Nem sempre. É que sou daquele que atira no que vê e acerta no que nem está, péssima pontaria, pior jogador. Só passei a me equilibrar melhor quando ouvi Fritz Perls: O primeiro e último problema do indivíduo é integrar-se internamente e ainda assim, ser aceito pela sociedade. Não é à toa que me sinta sempre peixe fora do aquário, hehehehe. Vou.

DOIS: CARTA FORA DO BARALHO OU SEI LÁ O QUÊ – Nos meus deslocamentos, tanto fiz que nem sei se um deu certo, eu estava errado, isso sim; ou seja, se acertei, não era nada. Quando errei, parece que aprumou no êxito, coisa assim, nem lá nem cá, ia e pronto. Se não havia como, arrumava um jeito de proceder de qualquer forma. Ia mesmo. Foi aí que Edgar Morin chegou: Compreender não só aos outros como a si mesmo, a necessidade de se autoexaminar, de analisar a autojustificação, pois o mundo está cada vez mais devastado pela incompreensão, que é o câncer do relacionamento entre seres humanos. Muito para aprender no meio de conflitos e desenquadradas, vou assim mesmo.

TRÊS: QUANDO NÃO PISAVA NA BOLA, DAVA UM BRANCO GÉLIDO – Mesmo assim eu perseverava: escorregando ali, topadas acolá, ia e vinha, isso quando fazia a melada de ficar ou com a cara no chão, ou me fazendo que não havia nada, de tão deslocado. Aprendi com Moraes Moreira: As horas em que mais errei foram as que mais me ensinaram. Mas não tinha jeito, errava toda hora, reincidente, sucumbente. Até que Patativa do Assaré poetou: É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada... Tinha jeito nada, nunca me levei a sério, nem posso. Na linha, só o trem; quando eu, qualquer coisa. Vou. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: A mulher da classe trabalhadora me mostra muito mais do que as mulheres que são totalmente limitadas pelo comportamento convencional. A mulher da classe trabalhadora mostra-me as mãos, os pés e os cabelos. Ela me permite ver a forma e o corpo de suas roupas. Ela se apresenta e a expressão de seus sentimentos abertamente, sem disfarces. Senti que não tenho o direito de me retirar da responsabilidade de ser uma advogada. É meu dever expressar os sofrimentos das pessoas, os sofrimentos que nunca terminam e são tão grandes quanto as montanhas. Estou gradualmente me aproximando do período da minha vida em que o trabalho vem primeiro. Para o trabalho, é preciso ser duro e empurrar para fora de si o que você viveu. Força é tomar a vida como ela é, sem se deixar quebrantar, e, sem queixas ou excessivo choro, para fazer o próprio trabalho com vigor. Passei por uma revolução e estou convencida de que não sou revolucionária. Eu pensei que era uma revolucionária e era apenas uma evolucionária. Pensamento da escritora, gravurista, escultora, desenhista e pintora alemã Käthe Kollwitz (1867-1945).

AS FÁBULAS DE LA FONTAINE
Ao longo da tua vida tem cuidado para não julgares as pessoas pelas aparências. Aprendei que todo o adulador vive à custa de quem o escuta. Nada há de mais perigoso do que um amigo ignorante; mais vale um sábio inimigo. Não falar para o seu século é falar com surdos. O símbolo dos ingratos não é a Serpente, é o Homem.
LA FONTAINE – As fábulas do poeta e fabulista francês Jean de La Fontaine (1621-1695), foram escritas em três partes, seguindo o estilo do grego Esopo, tendo para o significado de que: É uma pintura em que podemos encontrar nosso próprio retrato. Por esta razão tornou-se o responsável pelo desenvolvimento da fábula moderna e integrando o inventário humano através dos séculos. Veja mais aquiaqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada bailarina, intérprete, criadora e professora Mônica Burity, que é graduada em Dança pela UniverCidade, integra a Focus Cia. de Dança e atuou em espetáculos como Eles Assistem e Eu Danço – Estudo para Mônica Burity (2005), Samba Variationen (2002), Fauno (2018) e Malditos (2019), entre outros. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Quem nasce no interior vivencia situações e conhece tipos que, dificilmente, fariam parte da vida de alguém da cidade grande. O dinheiro até que tem dado para tomar água de coco, mas preciso publicar e espalhar meus livrinhos nas escolas públicas. Eu sou o tipo do cara realizado, por vários motivos. Pela família, pelos amigos, pela saúde. Tenho 80 anos e todas as minhas taxas estão normais.
A arte do folclorista e etnólogo Mário Souto Maior (1920-2001), que escreveu e publicou mais de 70 livros, tornando-se um dos mais destacados pesquisadores do folclore nordestino. Veja mais dele aqui, aqui & aqui.
&
A história de amor de Fernando e Isaura, do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014) aqui.
Fisionomia e espírito do mamulengo, do escritor, dramaturgo e advogado Hermilo Borba Filho (1917-1976) aqui.
A poesia de do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013) aqui.
Jutaí menino, do escritor Gilvan Lemos (1928-2015) aqui.
Contribuição à história do Ginásio Municipal dos Palmares, do Professor Brivaldo Leão de Almeida aqui.
Rio Una, a música de Jorge de Altinho aqui.
A arte de Paulo Profeta, IbaValeUna & Pintando na Praça aqui.
&
Porque era sábado no Una aqui & aqui.


sábado, junho 04, 2016

VARGAS LLOSA, THIAGO DE MELLO, NATALIA GONCHAROVA, EDUARDO PONTI, MÁRIO SOUTO MAIOR, YAN PIERRE, SHELLEY BAIN, TAHA MALASI & VIDEOINSTALAÇÃO


TERRA DO QUE SOU, VIDA QUE ME CABE - (Imagem: The Earth Is My Mother by Shelley Bain) - Sou filho deste chão, semente do mundo que brota a cada renascer do Sol no céu de todas as estrelas que alumiam todo caminho das estradas que sei que sou e voo aos infinitos recônditos de mim. Sou das águas essa nascente, fogo do universo feito, vento que sopra de todas as direções, a poeira das pedras, ventania dos temporais. A corrente dos mares, morros de Sol poente, galhos e florais. As nuvens de besouros, a seiva dos troncos, as raízes dos matagais. A música dos pássaros, as abusões das florestas, o sopro dos vendavais. O movimento das pedras, a corrente dos brejos, a atração dos metais. A neblina das matas, o limite das colinas, o reino dos animais. As larvas vulcânicas, a fundura oceânica, o ninho dos corais. A vertigem dos abismos, o clarão dos dias, escuridão das noites, os cardumes fluviais. As flores primaveris, a trilha das formigas, as chuvas invernais. A queda das cachoeiras, as areias do deserto e das praias, o capim rasteiro, mangues ovados, charcos vitais. O sal do suor, o doce da fruteira, lençóis, aquíferos, os contornos dos litorais. Os córregos, penhascos, viveiros, falésias e grutas, os restos mortais. A rotação, translação, a precessão lunissolar, as geleiras, ondas sísmicas, as folhas outonais. As rochas basálticas, as câmaras magmáticas, as temperaturas estivais. Sou filho deste chão, semente do mundo, a expressão da nave mãe: Terra mulher que nasce do que sou, vida que me cabe. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: a arte da proeminente figurinista, artista gráfica e pintora do cubo-futurismo russo Natalia Goncharova (1881-1962). Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Tatá (Antro, 2004), do guitarrista Eduardo Ponti.

PESQUISA
Galalaus & batorés (EdUFPE, 1981), do escritor, advogado, pesquisador e folclorista Mário Souto Maior (1920-2001), tratando a respeito da briga entre grandes e pequenos, o Clube dos Baixinhos, os galalaus, os batorés e uma série de verbetes recolhidos do anedotário popular. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
Elogio da madrasta (Objetiva, 2009), do escritor e jornalista peruano, Premio Nobel de Literatura de 2010, Mario Vargas Llosa, contando a história vivida entre a sensual e elegante Lucrécia e dom Rigoberto num idílio de fantasia e sexo, envolvendo a paixão do filho dele pelos encantos da madrasta. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.
Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.
Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.
Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde posssas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.
Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.
Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.
Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.
Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.
É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.
Poema Sugestão (In: Vento Geral - Civilização Brasileira, 1984), do premiadíssimo e traduzido poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Videoinstalação: projeção Nu descendo uma escada (2008), de Rachel Mascarenhas e Ana Paula Pessoa.

Veja mais sobre Rio São Francisco – O Velho Chico, Lampião, Dias Gomes, Turíbio Santos, Ítala Nandi, Hugo Carvana, Neila Tavares, Natalia Goncharova, Even Ruud, Cláudio Manuel da Costa, Isabel Lustosa & Paulette Goddard aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e artista visual Yan Pierre.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Fragile Earth, By Dr Taha Hassaballa Malasi.
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

FOLIA & FREVO, GALO DA MADRUGADA, DAMATTA, SOUTO MAIOR, OLINDA, CAPIBA, VALDEMAR, MAURO MOTA & MUITO MAIS!!!


FOLIA TATARITARITATÁ: FEVEREIRO, CARNAVAL & FREVO (Imagem: Folia Caeté, do artista plástico Rollandry Silvério) - A gente nem piscou o olho: o ano eclodiu ontem e já estamos em fevereiro. O tempo voa, não para. Verdade. Nem bem a gente saiu de um cotoquinho de gente, já se sente envergado com o peso da idade. E parece que foi ontem: as presepadas da infância, as maloqueragens da adolescência e as estripulias do rigor adulto. Tudo num triz da memória. Zás! E ao se dá conta hoje, quando não é o fardo extenuante desfocando a vida com os peculiares embaraços que arrocham se amontoando no toitiço da gente, é aquela bronca como bola de sinuca ricocheteada que acerta nos possuídos: oh, nãoooooo! Doeu. E como dói, meu. Quem tem os penduricalhos que sabe. Por isso, sem nostalgia alguma, eu vou nas freviocas entoando: ...eu vou driblando as broncas pra gororoba chegar, eu dou nó cego até no mar pra fazer meu direito valer... Como o calendário vai dando corpo ao relógio na guilhotina do tempo e preparando todo mundo para a casa dos que não estão mais aqui, basta virar o ano e, de supetão, já é fevereiro e ninguém quer fazer par com os que morreram dum bocado de coisa. Claro, e como em fevereiro – mês da februa, consagrado às festas e purificação dos mortos - ninguém é asno simiesco de ficar na espreguiçadeira do Hino do Nacional, tá doido? Basta ouvir o primeiro acorde de qualquer frevo que a gente se encharca de incha-bucho, lavando a prensa pra liberar a jega e cair na folia. U-hu, é com esse que eu vou! E se é fevereiro, é carnaval, do carmem levãre, véspera da abstenção da carne. Eu, hem? Eu mesmo me apronto, dou uma fortificada no fígado, estico os ossos, libero a goela e viro adepto do Momo, filho do Sono e da Noite, que vem numa mão com a máscara e, na outra, a loucura na cabeça grotesca do cetro. E tome folia pra cima. Assim, enveredo no tríduo momesco todo probo, da sexta-pré que vira pro sábado de Zé-pereira no improviso das piruetas que esquenta os nervos, mexe com alma e agita o esqueleto com as acrobacias de sombrinha, até a terça-feira gorda, gingando na dobradura, na tesoura, na locomotiva, no ferrolho, no parafuso, no pontilhado, no saci-pererê, no diabo-a-quatro para confirmar: Sou brasileiro, meu bem, de janeiro a janeiro, de ralar o ano inteiro pra ver se a vida um dia vai mudar prum melhor fevereiro, festa de carnaval, pular, esbaldar festeiro pra ver se a minha vida um dia vai mudar... tudo na melhor tradição de Edgar Morais, João Santiago, Raul Morais, os Irmãos Valença, Nelson Ferreira, ou Capiba que diz: “...essa vida é mesmo assim... não penses que estou triste nem que vou chorar... eu vou cair no frevo, vou me acabar”. Assim, no frevo uma homenagem: que essa vida, essa passagem, só o amor faz imortal. E vamos aprumar a conversa na Folia Tataritaritatá e aqui.

E veja mais:










PICADINHO
Imagem: O Galo da Madrugada, do artista plástico Márcio Melo.


Curtindo o álbum de estreia da Orquestra Contemporânea de Olinda (Som Livre, 2008). Veja mais aqui.

EPÍGRAFEViva Zé Pereira / Que ninguém faz mal! / Viva Zé Pereira / Nos dias de Carnaval / Viva Zé! / Viva Zé! / Viva Zé Pereira, trecho de uma música cantada pela população, recolhido do texto Carnaval, carnavais (Recife, 2011), do escritor, advogado, pesquisador e folclorista Mário Souto Maior (1920-2001), dando conta da música que surgiu nos festejos carnavalescos a partir de 1846. Veja mais aqui.

CARNAVAL, MALANDROS E HEROIS – No livro Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro (Zahar, 1983), do antropólogo e sociólogo Roberto DaMatta, destaco os trechos a seguir: [...] como é possível ter um carnaval aristocrático numa sociedade igualitária e ter - no caso brasileiro - precisamente o inverso, ou seja: um carnaval igualitário, numa sociedade hierarquizada e autoritária? [...] O ritual, então, tem como traço distintivo a dramatização, isto é a condensação de algum aspecto, elemento ou relação, colocando-o em foco, em destaque, tal como ocorre nos desfiles carnavalescos e nas procissões, onde certas figuras são individualizadas e assim adquirem um novo significado, insuspeitado anteriormente, quando eram apenas partes de situações, relações e contextos do quotidiano [...] De fato, como o ritual é definido por meio de uma dialética entre quotidiano e extraordinário ele se constitui pela abertura deste mundo especial para a coletividade. Não há sociedade sem uma idéia de um mundo extraordinário, onde habitam os deuses e onde, em geral, a vida transcorre num plano de plenitude, abastança e liberdade. Montar o ritual é, pois, abrir-se para esse mundo, dando-lhe uma realidade, criando um espaço para ele e abrindo as portas para a comunicação entre o “mundo real” e o mundo especial. É no ritual, pois, sobretudo no ritual coletivo, que a sociedade pode ter (e efetivamente tem) uma visão alternativa de si mesma. [...]. Veja mais aqui e aqui.

CARNAVAL, CARNAVAIS – No livro Carnaval: textos, imagens & sons (Recife, 2011), organizado por Mário Souto Maior, Fernando Spencer e Renato Phaelante, encontro o texto Carnaval, Carnavais, do escritor, advogado, pesquisador e folclorista Mário Souto Maior (1920-2001), do qual destaco o trecho: [...] festas greco-romanas semelhantes ao Carnaval vamos encontrar muitas delas perdidas no tempo, quase sempre relacionadas com a fecundidade ou com a colheita. Outras, semi-pagãs no seu todo – as comemorações à deusa Isis no Egito e à deusa Herta entre os teutões, as bacanais, as lupercais e as saturnais romanas no seu maior esplendor, os festejos em honra a Dioníso na Grécia, as festas dos inocentes e dos doidos na Idade Média – constituem provas de que eram muito apreciadas na antiguidade clássica e até mesmo pré-clássica, com suas danças, suas licenciosidades, suas máscaras, suas músicas ruidosamente alegres na sua maioria, algumas são características conservadas até hoje. O Carnaval –“primitivamente designativo da Terça-feira gorda, tempo a partir do qual a Igreja Católica suprime o uso da carne”, conforme Antenor Nascente – surgiu com a propagação do Cristianismo e por força do seu calendário litúrgico. A posição da Igreja Católica Apostólica Romana em relação ao Carnaval, foi, inicialmente, de uma ambigüidade mais que comprovada. O Papa Paulo II, no Século XV permitiu que, na via Latta, bem próxima ao seu palácio, silenciosa durante o ano todo, se realizasse o Carnaval romano, com suas corridas de cavalos e corcundas, com seus carros alegóricos e lançamento de ovos, com o local feericamente iluminado por tocos de velas, introduzindo, como contribuição de sua inventiva, o baile de máscaras que fez tanto sucesso como continua fazendo agora. O Papa Paulo VI chegou a convidar o Sacro Colégio para um jantar festivo. O Papa Júlio III gostava mais de touradas. Já Tertuliano, São Cipriano, São Clemente de Alexandria e Inocêncio II, sempre foram contra a participação da Igreja nos festejos carnavalescos. O Papa Inocêncio III, constatando o excesso de abusos, proibiu o uso de máscara pelos padres e o festejo do Carnaval dentro das Igrejas. Em consequência de tais proibições o Carnaval perdeu seu antigo brilho, só conseguindo ressurgir, com a mesma impetuosidade, algum tempo depois, antes da Revolução Francesa e durante o império napoleônico, quando se espalhou pelo mundo todo. Pode-se dizer que a sociologia do Carnaval brasileiro, como a sua história, exige que sejam consideradas as principais expressões regionais do mesmo Carnaval, que não poderiam deixar de ocorrer num país cuja cultura é ao mesmo tempo una – nacionalmente una – e diversa, regionalmente diversa [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O GALO – No livro Antologia Poética, (Leitura, 1968), do poeta, jornalista, professor e memorialista Mauro Mota (1911-1984), destaco o poema O Galo: É a noite negra e é o galo rubro, / da madrugada o industrial. / É a noite negra sobre o mundo / e o galo rubro no quintal. / A noite desce, o galo sobre, / plumas de fogo e de metal, / desfecha golpe sobre golpe / na treva unidimensional. / Afia os esporões e o bico, / canta o seu canto auroreal. / O galo inflama-se e fabrica / a madrugada no quintal. Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO – O teatrólogo, médico, ator, escritor e compositor Valdemar de Oliveira (1900-1977), realizou as suas primeiras experiências da renovação teatral pernambucana, ao criar o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), em 1941. Essa iniciativa contrapôs-se ao que se praticava com a comédia ligeira, o teatro de revista, o teatro como diversão, tendo por missão elevar o teatro que se praticava no Recife ao nível da ‘grande arte’. O TAP teve um papel de renovação, no sentido de qualificar melhor a experiência teatral e cenográfica, já que sua posição era reafirmar o realismo e não aceitar nenhum experimento de linguagem e expressão teatral. Para o autor em comento: [...] o teatro é exclusivamente uma expressão da arte. E esta, por definição, em suas formas mais elevadas, só é acessível à fruição e apreciação daqueles poucos cultivados em seus sentidos, dotados de uma aprimorada e apurada sensibilidade [...]. Veja mais aqui.

CAPIBA, O SENHOR DOS CARNAVAIS – O documentário Capiba - O Senhor dos Carnavais (2004), realizado pelos alunos da disciplina Sociologia do curso de Ciências Contábeis, Sidney Silva, José Eduardo e Ghislene Moura, ministrada e orientada pela professora Jacyra Bezerra, da Faculdade Olindense de Ciências Contábeis e Administrativas (FOCCA), traz a história de vida do compositor e músico Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa – 1904-1997), trazendo suas histórias inesquecíveis, discografia, homenagens e depoimentos de Lenine, Raphael Rabello, Milton Nascimento e Claudionor Germano. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz austro-húngara Zsa Zsa Gabor (pseudônimo de Gábor Sári).

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao folião do Galo da Madrugada.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
 Veja aquiaqui, aquiaqui.

Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Duofel, François Truffaut, Christopher Marlowe, Natalie Portman, Ewa Kienko Gawlik, Haim G. Ginott, Mary Leakey, Dona Zica & muito mais aqui.

A MUSA DO DIA
A atriz portuguesa Helena Isabel Correia Ribeiro.



HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...