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quarta-feira, julho 08, 2020

LA FONTAINE, KÄTHE KOLLWITZ, MÔNICA BURITY & MÁRIO SOUTO MAIOR



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: LHEGUELHÉ DESENTURMADO - Nunca consegui me situar direito nas coisas, sempre um tanto deslocado. Melhor dizendo: bastante por fora, mesmo. Quando não passo batido, a oportunidade é adiada e cai no esquecimento. Foi. Com os da minha idade, uma ou outra interlocução bem precária. Os mais velhos, uma barra para superar a distância. Os mais novos, assim, meio que desencontrados. Com as mulheres, ah sim, com elas tantas interações, só elas. Nem sempre. É que sou daquele que atira no que vê e acerta no que nem está, péssima pontaria, pior jogador. Só passei a me equilibrar melhor quando ouvi Fritz Perls: O primeiro e último problema do indivíduo é integrar-se internamente e ainda assim, ser aceito pela sociedade. Não é à toa que me sinta sempre peixe fora do aquário, hehehehe. Vou.

DOIS: CARTA FORA DO BARALHO OU SEI LÁ O QUÊ – Nos meus deslocamentos, tanto fiz que nem sei se um deu certo, eu estava errado, isso sim; ou seja, se acertei, não era nada. Quando errei, parece que aprumou no êxito, coisa assim, nem lá nem cá, ia e pronto. Se não havia como, arrumava um jeito de proceder de qualquer forma. Ia mesmo. Foi aí que Edgar Morin chegou: Compreender não só aos outros como a si mesmo, a necessidade de se autoexaminar, de analisar a autojustificação, pois o mundo está cada vez mais devastado pela incompreensão, que é o câncer do relacionamento entre seres humanos. Muito para aprender no meio de conflitos e desenquadradas, vou assim mesmo.

TRÊS: QUANDO NÃO PISAVA NA BOLA, DAVA UM BRANCO GÉLIDO – Mesmo assim eu perseverava: escorregando ali, topadas acolá, ia e vinha, isso quando fazia a melada de ficar ou com a cara no chão, ou me fazendo que não havia nada, de tão deslocado. Aprendi com Moraes Moreira: As horas em que mais errei foram as que mais me ensinaram. Mas não tinha jeito, errava toda hora, reincidente, sucumbente. Até que Patativa do Assaré poetou: É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada... Tinha jeito nada, nunca me levei a sério, nem posso. Na linha, só o trem; quando eu, qualquer coisa. Vou. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: A mulher da classe trabalhadora me mostra muito mais do que as mulheres que são totalmente limitadas pelo comportamento convencional. A mulher da classe trabalhadora mostra-me as mãos, os pés e os cabelos. Ela me permite ver a forma e o corpo de suas roupas. Ela se apresenta e a expressão de seus sentimentos abertamente, sem disfarces. Senti que não tenho o direito de me retirar da responsabilidade de ser uma advogada. É meu dever expressar os sofrimentos das pessoas, os sofrimentos que nunca terminam e são tão grandes quanto as montanhas. Estou gradualmente me aproximando do período da minha vida em que o trabalho vem primeiro. Para o trabalho, é preciso ser duro e empurrar para fora de si o que você viveu. Força é tomar a vida como ela é, sem se deixar quebrantar, e, sem queixas ou excessivo choro, para fazer o próprio trabalho com vigor. Passei por uma revolução e estou convencida de que não sou revolucionária. Eu pensei que era uma revolucionária e era apenas uma evolucionária. Pensamento da escritora, gravurista, escultora, desenhista e pintora alemã Käthe Kollwitz (1867-1945).

AS FÁBULAS DE LA FONTAINE
Ao longo da tua vida tem cuidado para não julgares as pessoas pelas aparências. Aprendei que todo o adulador vive à custa de quem o escuta. Nada há de mais perigoso do que um amigo ignorante; mais vale um sábio inimigo. Não falar para o seu século é falar com surdos. O símbolo dos ingratos não é a Serpente, é o Homem.
LA FONTAINE – As fábulas do poeta e fabulista francês Jean de La Fontaine (1621-1695), foram escritas em três partes, seguindo o estilo do grego Esopo, tendo para o significado de que: É uma pintura em que podemos encontrar nosso próprio retrato. Por esta razão tornou-se o responsável pelo desenvolvimento da fábula moderna e integrando o inventário humano através dos séculos. Veja mais aquiaqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada bailarina, intérprete, criadora e professora Mônica Burity, que é graduada em Dança pela UniverCidade, integra a Focus Cia. de Dança e atuou em espetáculos como Eles Assistem e Eu Danço – Estudo para Mônica Burity (2005), Samba Variationen (2002), Fauno (2018) e Malditos (2019), entre outros. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Quem nasce no interior vivencia situações e conhece tipos que, dificilmente, fariam parte da vida de alguém da cidade grande. O dinheiro até que tem dado para tomar água de coco, mas preciso publicar e espalhar meus livrinhos nas escolas públicas. Eu sou o tipo do cara realizado, por vários motivos. Pela família, pelos amigos, pela saúde. Tenho 80 anos e todas as minhas taxas estão normais.
A arte do folclorista e etnólogo Mário Souto Maior (1920-2001), que escreveu e publicou mais de 70 livros, tornando-se um dos mais destacados pesquisadores do folclore nordestino. Veja mais dele aqui, aqui & aqui.
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A história de amor de Fernando e Isaura, do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014) aqui.
Fisionomia e espírito do mamulengo, do escritor, dramaturgo e advogado Hermilo Borba Filho (1917-1976) aqui.
A poesia de do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013) aqui.
Jutaí menino, do escritor Gilvan Lemos (1928-2015) aqui.
Contribuição à história do Ginásio Municipal dos Palmares, do Professor Brivaldo Leão de Almeida aqui.
Rio Una, a música de Jorge de Altinho aqui.
A arte de Paulo Profeta, IbaValeUna & Pintando na Praça aqui.
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Porque era sábado no Una aqui & aqui.


quarta-feira, janeiro 30, 2019

HENRI LEFEBVRE, PATATIVA DO ASSARÉ, ASCENSO, THAYS GOLZ & A ESCOLA SUMIU!


E A ESCOLA SUMIU – Marcantoin não era lá muito achegado a estudo. Foi uma professorinha simpática quem o fez cativo de não arredar o pé da sala de aula. Já era galalau quando foi aprender as primeiras letras e rabiscos. O prédio escolar não era lá essas coisas todas. Pra falar a verdade, não havia nem sido acabada, nem tinha nome. Foi inaugurada antes do término das obras, e teve seu nome colocado às pressas, por morte dum poeta duma cidade vizinha que ninguém gostava dele, só o prefeito que era achegado às boêmias e homenageou-lo. Falava-se dum certo Ascenso, um homem grandão do maior vozeirão que recitava umas poesias picantes e de falas populares, chega as mulheres corarem na sua frente e os homens caírem nas gaitadas. Diziam ser ele um poeta licencioso, cheio das lábias e desbocado que só. Na cidade dele era malquisto, só desgostavam de ninguém saber ao certo a razão, se motivada por alguma proeza ou por pura inveja, parece; em Alagoinhanduba que é igual a Mariana ou Brumadinho, só uns três ou quatro cachaceiros que lhe arremedavam os versos, incluindo o prefeito, um pé-de-cana infeliz. Pois bem, lá foi Marcantoin pelegando para cair nas graças da mestra: Estuda aonde, rapaz? Sei lá o nome daquela droga, só sei o nome da professora: Gildinalda, a Naldinha do coração. Era a sua primeira paixão na vida. Do primário até parte do ginasial que ele próprio abandonou por ter dado falta dela no educandário, fincou pé: Pra quê estudar? Só tem professor chato! Além do mais, qualquer dia o mundo acaba, não adianta mesmo, só viver e mais nada. Vez em quando sem ter nada pra fazer passava pelas imediações para ver se a via, nenhum sinal dela. Que droga! O cabra cresceu com esse aperto no peito, valendo-se só do tirocínio e depois de dar meia volta e volta e meia pelos quatro cantos do mundo, já madurão, mas não menos besta que antes, voltou pra terrinha pra saber do paradeiro daquela professorinha que ainda bulia no seu íntimo. Andou que só a má notícia e chegando ao local da escola, havia sumido: Oxente! Primeiro foi a professora, agora escola também some, é? Como é que pode, hem? Nem Gidinalda nem a Escola Ascenso. Como assim? Queria saber, ora. O que ficou sabendo pela boataria: a professora zarpou enamorada na cacunda dum cavalo falso, com um príncipe fajuto pelas capoeiras adentro mundo afora; e a escola, a essa quase nem quis saber, mas apurou: uma enchente tsunâmica de bater no topo de tudo, a deixou feito profunda cratera até hoje, de ninguém sequer achar por bem de reconstruí-la. Ah, tá! Então, bem feito – disse assim meio que frustrado -, o que tem de colégio cabuloso por aí, não está no gibi, né, não? Por isso que ninguém quer estudar, escola por ginásio, serve pra nada mesmo, asseguravam os funcionários da secretaria de educação local. E o povo arremedava: Estudar endoida! Só serve pra ocupar criança, mais nada. Se ficar taludo, precisa estudar mais não, já sabe demais; basta ficar sabido pra não ser enrolado e anel no dedo só é bonito nos desdos dos outros que queimam pestanas pra não fazer nadica, só dar ordem. Isso não é pra gente não. E o nome não ajudava! Hem? Onde já se viu poeta nome de coisas, poesia não enche barriga nem enrica ninguém. Além do mais um desses que o povo fala os farrapos por seus maus procedimentos na gandaia, no meio dos gaiatos e com uma fama de gente das piores qualidades, isso lá presta! E já que não era lá tão agradável, deixaram por menos: mal exemplo que se dane, ele já morreu e que fique enterrado com tudo. E era uma vez Ascenso, o poeta reina onde estiver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Dois grupos de questões ocultaram os problemas das cidades e da sociedade urbana, duas ordens de urgência: as questões da moradia e do “habitat” (que dependem de uma política de habitação e de técnicas arquitetônicas) – as questões da organização industrial e da planificação global. As primeiras por baixo, as segundas por cima, produziram – dissimulando-o à atenção – uma explosão da morfologia tradicional das cidades, enquanto prosseguia a urbanização da sociedade. Donde uma nova contradição que se acrescentava às outras contradições não resolvidas da sociedade existente, agravando-as, dando-lhes um outro sentido. [...] Atualmente, alguns acreditam que os homens só levantam problemas insolúveis. Esses desmentem a razão. Todavia, talvez existam problemas fáceis de serem resolvidos, cuja solução está ai, bem perto, e que as pessoas não levantam. [...].
Trechos da obra O direito à cidade (Centauro, 2001), do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre (1901-1991). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da bailarina Thays Golz, integrante da Pennsylvania Ballet. Veja mais aquiaqui.

MOTE: COM O GRITO DO DINHEIRO A JUSTIÇA NÃO SE APRUMA
Glosas
Ante o seu brado guerreiro, / a honra desaparece, / a razão empalidece / com o grito do dinheiro; / o sujeito interesseiro, / que com ele se acostuma, / de qualquer forma se arruma, / desconhece o próprio pai, / pois onde o dinheiro vai, / a justiça não se apruma.
Movimenta o mundo inteiro / este metal cobiçado / tudo tudo alvoroçado / com o grito do dinheiro, / onde ele forma um berreiro, / não respeita coisa alguma, / grita, guincha, berra, espuma, / derruba a lei do conceito, / pobre ali não tem direito, / a justiça não se apruma.
Poema extraído da obra Inspiração nordestina (Fortaleza, 1999), do poeta popular, compositor, cantor e improvisador Antônio Gonçalves da Silva, mais famoso como Patativa do Assaré (1909-2002). Veja mais aqui e aqui.
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A poesia do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965) aqui & aqui
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muito mais na Agenda aqui.
 

segunda-feira, julho 09, 2018

PATATIVA DO ASSARÉ, PERLS, MERCEDES SOSA, VIANINHA, KA-LAO-YEH, BIOGRAFIA DO FABO & FECAMEPA


TUDO CERTO, FABO! - Pra Fabo que se preze está tudo bem, tudo certo. Não passa em branco pelas quatro festas do ano: carnaval, maior folião, bronca pra lá, da sexta de Zé-Pereira emendada até só depois do meio dia da quarta-feira de cinzas, aí é que encara – pra ele, o Reino do Momo deveria ser a semana toda, aliás, o mês de fevereiro completo, ora. No São João, de primeiro de junho, passando por SantAntonho, até o final do mês de SumPedinho, maior rastapé – pensar na vida, pra quê? Simbora. No Natal obra caridade e faz cara feia, Deus é brasileiro; e no Ano Novo, pula onda, faz promessa, projeto de vida, simpatia pra enricar e seja lá o que Deus quiser! Isso sem contar que é festa pra todo final de semana: boca de ponche pega arrego até em festa infantil. Durante a semana, da segunda de ressaca começa a dar seus pulos pra chegar na sexta de pé na goela, vôte! Se não deu, parte pra outra, promove maus rótulos: uma boquinha aqui, um ajeitado ali, tudo na base da cama de gato e toque de arrodeio. Completamente imoderado, manguinhas de fora: dá-se uma mão, quer levar logo os pés. Farejador manhoso, rói caladinho pelas beiradas, se aproveita das catástrofes e passa por dignitário. Deprimiu com a angústia de corno, mata ou não mata, bola pra frente e haja mola no trampo, só corre atrás do troco, da sorte e da oportunidade. Passa recibo e paga pra ver. Vacila e paga mico, sai de mansinho: pega o beco. Pra tudo tem jeitinho, ora, ora. Ah, se soubesse! Aprende na marra magoando a pereba da canela, ai, cada raladura só carne viva, fratura exposta, mandíbula deslocada, clavícula fraturada, ai o calo do dedo mindinho quando o sapato aperta, acocha o cinturão, se vira com a dor de dente, gel nas olheiras e ronchas, arranhou o pau da venta, levou puxão de orelha, um safanão aqui, cutucada no espinhaço acolá, eita, descompostura! Pede pra São Lunguinho achar o que perdeu da vergonha, cara mais lisa; lavou, está novo, ora. Puxa o carro. E se a coisa empena, lá vem o enterro voltando. O ruim é espragatar a verruga quando cai de joelhos, valha-me! Está nem aí se a educação é da pior qualidade – uma fábrica de moldes só pra servir o mercado, que é que tem? -, se quiser da boa que pague e olhe lá! Nem esquenta se não tem atendimento médico ou saúde – se quiser, ora, pague plano de saúde. E paga de novo. Quando precisa: seis meses pra ser atendido, xinga a mãe do guarda e faz um auê aos esporros na maior saia justa, desce do tamanco e fecha pra balanço, quando não o quarteirão. Nem liga se não tem direitos, Justiça só pra proteger quem detém poder – e sobrevive à força de lambidas e babações, cada qual que emboneque seu padrinho, meu! Aí fura fula, mexe os pauzinhos, sombra de costa-larga vale. Se aparecer emprego, só serve se não der trabalho. Se está na reta, desinreta; depois quer enretar, maior bronca. Quem quiser que fique pra trás, vai de venta empinada e beiço virado. Pensa que está abafando, o vulgo condena: só faz merda. Como se acha o supra sumo dos perspicazes, alimenta grandíssimas ambições, esquisitices e extravagâncias. Ah, quando veste a camisa da seleção, civismo ufano e bairrismo chauvinista, maior garra e torcida, todo mundo junto e pra frente – mesmo que seja o maior ré-pra-trás no revestrés! Na hora de construir um país melhor, é cada um por si, o outro que se foda! E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da saudosa cantora argentina Mercedes Sosa (1935-2009) – La Negra, A Voz dos Sem Voz: Concierto em el Rosedal, Trinta Años, Festival Viña del Mar & Volver a los 17 com Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso & Gal Costa & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Estamos entrando numa fase nova e perigosa. Estamos entrando na fase das terapias ‘estimulantes’: ligando-nos em cura instantânea, em consciência sensorial instantânea. Estamos entrando na fase dos homens charlatães e de pouca confiança, que pensam que se vocês obtiverem alguma quebra de resistência estarão curados, sem considerar qualquer necessidade de crescimento, sem considerar o potencial real, sem considerar o gênio inato em todos vocês. [...]. Trecho extraído da obra Gestalt-terapia explicada (Summus, 1976), do psicólogo, psicoterapeita e psiquiatra alemão Fritz Perls (1893-1970), que em outra de suas obras, Fome e agressão: uma revisão da teoria e do método de Freud (Summus, 2002), expressou: O conflito mais importante que pode levar a uma personalidade integrada ou a uma neurótica é o conflito entre as necessidades sociais e as biológicas do homem [...] com muita frequência o autocontrole exigido socialmente pode ser alcançado apenas à custa da desvitalização e do enfraquecimento das funções de grandes partes da personalidade humana — à custa da criação de neurose coletiva e individual [...]. Veja mais aqui.

CORPO A CORPO – [...] A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e unilaterais que um objeto só é nosso quando o temos, quando existe para nós como capital ou quando é imediatamente possuído, comido, bebido, vestido, habitado, em resumo, utilizado por nós. [...] Em lugar de todos os sentidos físicos e espirituais apareceu assim a simples alienação de todos esses sentidos, o sentido do ter. O ser humano teve que ser reduzido a esta absoluta pobreza, para que pudesse dar à luz a sua riqueza interior partindo de si. [...]. Trecho extraído da peça teatral Corpo a Corpo (Vozes. 1999), do dramaturgo, ator e diretor de teatro e televisão Oduvaldo Vianna Filho – Vianinha (1936-1974), que sobre a peça expressou: Corpo a Corpo não é uma experiência formal nova. É tradicional. Mas a sensação de ir descamando a realidade, de ir tirando pedaços e pedaços de sua superfície para chegar mais e mais até a sua intimidade, seus núcleos, foi o meu propósito. A tonteira da razão. O nunca acabar de relações que dão ao indivíduo, tiram-lhe a razão, formam novas sínteses, desbordam de novo. Uma sanfona de Luís Gonzaga, esticando, tocando, tocando sempre. Noutro texto do autor Um pouco de pessedismo não faz mal a ninguém, recolhido da obra Vianinha: teatro, televisão e política (Brasiliense,1999), de Fernando Peixoto, o dramaturgo expressa: [...] Estamos convencidos de que o trabalho cultural, como todo trabalho, tem por exigência básica a qualidade. Mas, sobre o conceito de qualidade, pesam inúmeros equívocos. Do nosso ponto de vista, a qualidade de uma obra resulta da formulação adequada da experiência na complexidade de suas contradições, isto é, na sua natureza dialética. Conclui-se daí que uma visão estreita do mundo não pode produzir boa obra, pelos simples fato de que, na sua limitação, é incapaz de revelar o verdadeiro conteúdo da realidade de que trata. Assim como não basta estar teoricamente armado de uma visão justa para obter resultados artisticamente positivos, pode um escritor alienado criar boa arte, desde que, no processo formulativo — no fazer —, consiga ampliar sua visão o suficiente para abranger as contradições inerentes a ela. O que não quer dizer que as obras estejam despidas de caráter ideológico ou de classe, mas que elas podem ter qualidade apesar disso. A liberdade é, portanto, condição necessária do trabalho criador. Numa entrevista recolhida da mesma obra, Vianinha trata que: Para reduzir uma sociedade de mais de cem milhões de pessoas a um mercado de vinte e cinco milhões de pessoas é preciso um processo cultural muito intenso, muito elaborado e muito sofisticado, muito rico, para manter, para fazer com que as pessoas aceitem ser parte de um país fantasma, um país inexistente, de um país sem problemas, [...] porque parece que realmente precisa, para circunscrever a minha visão de existência social a esse círculo muito fechado, da duplicação dos produtos de consumo. [...] Veja mais aqui e aqui.

ILUMINEMOS PEQUIM! – [...] O Imperador sentou-se no trono e assim falou: - A nossos ouvidos chegou a voz de que as grandes cidades habitadas pelos bárbaros de pele branca, quando a noite desenrola das alturas do céu os véus da sombra, são iluminadas por milhares de luzes em cada rua e em cada praça. [...] Tomai do nosso tesouro um milhão de taels, e que as ruas de Pequim sejam iluminadas como pela luz do sol. – A cidade será iluminada – respondeu o Camareiro-Mor, e, executando o Kolow, abandonou a audiência imperial. [...] Ali esperava o seu ajudante. - Chame o Grande Eunuco – ordenou. [...] – Saiba, Grande Chefe dos Eunucos, que o Filho dos Céus (que reine por dez mil anos), pela bondade de sua alma, me entregou mil taels a fim de que as ruas de Pequim resplandeçam à noite como de dia. Que as ruas da cidade sejam portanto imediatamente iluminadas. – Ouvir é obedecer! – respondeu o outro, inclinando-se e cumprimentando, conforme o ritual. [...] – O Augusto Imperador – disse o Grande Eunuco – em sua magnanimidade, estabeleceu duzentos e cinquenta mil taels para que as ruas de Pequim sejam iluminadas à noite! Providencie. – O Filho do Céu só concebe o que é justo. Nossa cidade será a maior do mundo. Apresso-me a executar a vontade do Filho do Céu – respondeu o Governador Militar, que voltou imediatamente a seu yamen e mandou chamar o Chefe dos Magistrados. [...] – Tenho o prazer e a honra de informa Vossa Excelência que a Sublime Serenidade, o Filho do Céu, resolveu gastar cem mil taels para que Pequim seja iluminada à noite. Vossa Excelência providencie. – Obedeço incontinente – foi a resposta. E subindo no palanquim, o Chefe dos Magistrados fez-se levar ao escritório dos Vigilantes da Cidade. [...] – O Filho do Céu deu-me cinquenta mil taels para que Pequim seja iluminada à noite. Providencie até amanhã ou receie o seu rigor! Grande foi a surpresa da população de Pequim quando deparou, na manhã seguinte, afixado por todos os cantos da cidade, com este manifesto: “A Serena Sublimidade, o Filho do Céu, o Augusto Imperador, Soberano do Império do Meio, Senhor dos Países Bárbaros, Vassalos e Tributários, decretou que todas as ruas e praças de Pequim sejam e permaneçam iluminadas desde a primeira hora da noite até o romper da aurora. Todo chefe de família, todo artesão, todo mercador, providenciará, portanto, para que seja aceso um lampião fora da porta externa de sua casa, de sua oficina, de sua loja. Perderá a vida quem transgredir a ordem, que será cumprida com o máximo rigor. E foi assim que o Imperador, na noite seguinte, olhando pelas janelas do sétimo andar do pagode de porcelana construído sobre a colina artificial do jardim imperial, pôde ver a cidade iluminada como por milhões e milhões de vagalumes, animais diminuídos que devoram a vasta escuridão, mas não souve jamais de que forma tinha sido gasto o milhão de taels que orçara para aquele fim. Trechos do conto do escritor chinês Ka-Lao-Yeh, recolhido de Maravilhas do conto humorístico (Cultrix, 1969), organizado por Mariano Torres.

BRASI DE CIMA E O BRASI DE BAXOMeu compadre Zé Fulô, / Meu amigo e companhêro, / Faz quage um ano que eu tou / Neste Rio de Janêro; / Eu saí do Cariri / Maginando que isto aqui / Era uma terra de sorte, / Mas fique sabendo tu / Que a misera aqui no Su / É esta mesma do Norte. / Tudo o que procuro acho. / Eu pude vê neste crima, / Que tem o Brasi de Baxo / E tem o Brasi de Cima. / Brasi de baxo, coitado! / É um pobre abandonado; / O de Cima tem cartaz, / Um do ôtro é bem deferente: / Brasi de Cima é pra frente, / Brasi de Baxo é pra trás. / Aqui no Brasil de Cima, / Não há dô nem indigença, / Reina o mais soave crima / De riqueza e de opulença; / Só se fala de progresso, / Riqueza e novo processo / De grandeza e produção. / Porém, no Brasi de Baxo / Sofre a feme e sofre o macho / A mais dura privação. / Brasi de cima festeja / Com orquestra e com banquete, / De uísque dréa e cerveja / Não tem quem conte os rodete. / Brasi de baxo, coitado! / Vê das casa despejado / Home, menino e muié / Sem achá onde mora / Proque não pode pagá / O dinhêro do alugué. / No Brasi de Cima anda / As trombeta em arto som / Ispaiando as propaganda / De tudo aquilo que é bom. / No Brasi de Baxo a fome / Matrata, fere e consome / Sem ninguém lhe defendê; / O desgraçado operaro / Ganha um pequeno salaro / Que não dá pra vivê. / Inquanto o Brasi de cima / Fala de transformação, / Industra, matéra-prima, / Descoberta e invenção, / No Brasi de Baxo isiste / O drama penoso e triste / Da negra necissidade; / É uma cousa sem jeito / E o povo não tem dereito / Nem de dizê a verdade. / No Brasi de Baxo eu vejo / Nas ponta das pobre rua / O descontente cortejo / De criança quage nua. / Vai um grupo de garoto / Faminto, doente e roto / Mode caçá o que comê / Onde os carro põem o lixo, / Como se eles fosse bicho / Sem direito de vivê. / Estas pequena pessoa, / Estes fio do abandono, / Que veve vagando à toa / Como objeto sem dono, / De manêra que horroriza, / Deitado pela marquiza, / Dromindo aqui e aculá / No mais penoso relaxo, / É deste Brasi de Baxo / A crasse dos marginá. / Meu Brasi de Baxo, amigo, / Pra onde é que você vai? / Nesta vida do mendigo / Que não tem mãe nem tem pai? / Não se afrija, nem se afobe, / O que com o tempo sobe, / O tempo mesmo derruba; / Tarvez ainda aconteça / Que o Brasi de Cima desça / E o Brasi de Baxo suba. / Sofre o povo privação / Mas não pode recramá, / Ispondo suas razão / Nas colunas do jorná. / Mas, tudo na vida passa, / Antes que a grande desgraça / Deste povo que padece / Se istenda, cresça e redobre, / O Brasi de Baxo sobe / E o Brasi de Cima desce. / Brasi de Baxo subindo, / Vai havê transformação / Para os que veve sentindo / Abandono e sujeição. / Se acaba a dura sentença / E a liberdade de imprensa / Vai sê lega e comum, / Em vez deste grande apuro, / Todos vão te no futuro / Um Brasi de cada um. / Brasi de paz e prazê, / De riqueza todo cheio, / Mas, que o dono do podê / Respeite o dereito aleio. / Um grande e rico país / Munto ditoso e feliz, / Um Brasi dos brasilêro, / Um Brasi de cada quá, / Um Brasi nacioná / Sem monopólo estrangêro. Poema extraído da obra Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino (Vozes,1 984), do poeta popular, compositor, cantor e improvisador Antônio Gonçalves da Silva, mais famoso como Patativa do Assaré (1909-2002). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

BIOGRAFIA DO FABO & FECAMEPA
O brasileiro é só um CPFabo arrodeado de golpes por todos os lados!
Veja mais (é só clicar sobre os títulos):
Abundâncias fabísticas - quando um Fabo faz das suas, valham-me todos os santos, é uma tragédia: não prevê a descarga e, muito menos, a enrabada geral!!
Dicionário Tataritaritatá: o Pai dos Fabos Burros, apedeutas graduados e intelectuais de sovaco

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

Os livros Hímen de Mallarmé & Crepúsculo do Pênis & muito mais na Agenda aqui.
&
Os milagres de Alagoinhanduba, A história secreta de Donna Tartt, a dança de Ana Botafogo, a música de Toquinho, Rosa Passos, João Bosco & Paula Morelenbaum; a arte de Artemisia Gentileschi & a poesia de Edjane Leal Cruz aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

terça-feira, fevereiro 19, 2008

TAGORE, AUTRAN DOURADO, PATATIVA DO ASSARÉ, ROUSSEAU, HOLÍSTICA & EDUCAÇÃO, LIDIA WYLANGOWSKA, GÊNEROS TEXTUAIS & AS TRELAS DO DORO

 
A arte da pintora polaca Lidia Wylangowska.

AS TRELAS DO DORO: O BACHAREL DAS CHAPULETADAS - Doro é mesmo o cara. Pau-pra-toda-obra. E tem mais apelido que as partes pudendas. Este é o alter ego favorito dentre os heterônimos praticados pelo artista plástico, ator e biruta Rolandry. Sério mesmo, o sujeito é hors concours em presepadas. Por ser o mais ousado, ele é o sabichão da trupe, vez que conseguiu - não sei como, nem me pergunte! -, ser agraciado com o título de uma licenciatura curta em Estudos Sociais, captado duma faculdadezinha dessas de beira de estrada. O diploma ninguém nunca viu – quem vê morre! -, mas muita gente bate o pé que ele freqüentou uma dessas escolas de pé-de-escada. O que sei de mesmo, é que ele é atravessado que nem cu-de-calango, cheio de nó-pelas-costas e que lidera o trio de sebosos, formado por ele, Robimagaive e Zé Corninho. Um desmantelo, vez que juntando os três não dá um cocô de loro que preste. Numa ficha corrida, eis o Doro: apreciador duma conversa mole regada a uma boa carraspana. Um lambe litro de largar loas a fole, de sair trocando as pernas e confundindo verdade com mentira. Também é achegado a uma mulher perdida. Nisso, diz ele, ser perito e dos invejáveis, pois vive de fuçar as meninas para sufragar na roseta e na rodela excretora dela. Isso para acalmar seu fascínio antropófago. Profissionalmente Doro é amansador de circunstâncias periclitantes, enrolador de primeira, deixando tudo no desconforme com sua amolação cheia de nove horas. Em suma, o cara é o maior desacerto. Pronto! O rafamé carrega no cabedal do seu metiê um conjugado de habilitações, as quais posso destacar a de fazedor-exímio-de-rapadura, gastrônomo-fajuto, claro, um gastrólatra que se mete a inventar umas receitas da culinária exótica, a exemplo dos famigerados pratos bife-do-ôião, filé-de-osso, feijoada-da-porra, buchada-de-extrovenga, chambaril-do-coice, rabada-de-fuleira, dobradinha-peniqueira, sarapatel-com-chuchu-de-Lampião, baião-de-dois-prá-três-quedas e outros quitutes do seu cardápio aloprado - não bastando ser o criador do mingau de cachorro, a maior de todas as soluções para o problema da impotência masculina e de outras enfermidades crônicas e incuráveis. Diz-se curador ineivado, também, título adquirido quando fora piloto-de-recados na farmácia de seu Maurício Tataritaritatá, onde aprendeu a manipular umas químicas doidas, findando por inventar cachetes e outros unguentos expostos num mostruário da panacéia para todos os acometimentos humanos e extra-terrestres - mais aprofundado amiudamente com noturnas leituras regulares ao livro "Fome, criança e vida" do eminente e saudoso professor Nelson Chaves, aliás, único livro que lera por inteiro a vida inteira - e de inúmeras incursões nas mais variadas religiões, resultando num sincretismo particular onde reunia todo seu pantim e munganga escalafobéticas. Nega ser embromador-de-conversa, mas pô, meu, nesse é dos bons, num sei como ele consegue sair de um assunto pro outro, dando cada curva na idéia da gente ficar tonto nos corrupios do inexplicável, feito motorista ruim que num sabe qual o caminho da casa-de-caralho-adentro! Conselho: quando você tiver com gente ruim ou chato-de-galocha por perto, chame o faroso que ele larga leseira e aluga o juízo do cara, do tinhoso sair doido de pedra. Santo remédio contra os quizilentos!. Possui a empáfia de se autorotular artista-plástico de pintar o sete, o plástico, o ferro, o escambau - até ele mesmo! -, se dizendo ainda ator (ah! profissional! O maior caqueado para engalobar qualquer um, diplomado na maior faculdade do mundo: a vida!), dentre outras qualificações que não me atrevo a rebuscar nas explicações. Por isso, vamos deixar no que está senão o pirão engrossa. Pronto. Vamos lá, para a fatalidade. Um certo dia, Doro assobiava e coçava, quando teve o estalo: pegou uma ferraria velha, areia, barro e cuspe, arregaçou as mangas e começou a fabricar não-sei-quê que terminou sendo umas lajotas. Bem, saber eu sabia que ele queria ficar rico da noite pro dia, só que nunca acreditei que algum vivente enricasse trabalhando duro, principalmente aqui no Brasil. Vamos ver. Espia só a merda que vai dar. Fiquei intrigado com o afinco na faina e ele, escondido, no maior teitei. Ao cabo de dias, havia uma fileira de laje, de quase num ter mais fim. Ele lá, nem comia, nem dormia, direto feito cantiga de grilo. Semanas, meses. Eu cá comigo, só atocaiando no que ia dar aquilo. Quase um ano disso foi que percebi o cavernoso carregando na cacunda os tais tijolos num sei para que banda da peste que era. Sei que chegou o dia, não havia nenhuma laje no local. Ué, pronde que foi tudo? Segui suas pegadas e fui parar num morro íngreme onde ele estava atrepado, cavando, medindo, ajeitando. Morro baixo: uns trezentos metros de altura. Que droga resultará nove? Bestificado, fui acompanhando dia a dia seu repuxo. E o apaideguado lá. Perdi a paciência e deixei o biscateiro de lado. Quando menos esperava ele chegou, acho que mais de ano depois que o cara resolvera dar sinal de vida. Convidou-me para uma cachaçada numa comemoração surpresa, só que eu que tinha que comprar a bebida, o tira-gosto e tudo.
- Vou ter que carregar os convidados também? - Não -, disse-me ele - os convidado já tão cum a boca aberta esperano o foguetóro. Bem, sem encontrar outra alternativa, providenciei a intimação e fui ao encontro dos desinfelizes. Estavam todos lá, ao pé da ribanceira, de queixo caído admirando a casa que ele construiu pendurada na beira do penhasco. Ora, ele havia virado engenheiro civil da noite pro dia - só que levou pau em cálculos! -, negócio de doido, mesmo. Ele construíra sozinho, desafiando a lei da gravidade e arrepiando o cabelo de todo mundo com aquela doidice. Eu tinha lá coragem de subir o morro e entrar naquela casa, nunca! Nem que construísse um tobogã no declive até embaixo. Mas a raça toda queria era motivo para encher a cara com as lapadas da aguardente. E, nem bem começaram, já haviam esvaziado uns quinze cascos da tostante. Foi, a partir daí, que o enterro voltou. Pois bem, Doro achou de inaugurar da seguinte forma: pegou uns frascos cheios da raiz-de-pau e saiu derramando no chão até lá em cima da casa. Era a hora da satisfação pela moedeira dura que lhe fatigara por anos, pelejando para arrumar uma local onde tivesse guarida e pudesse ainda cair vivo ou morto no final do dia. Em riba, dos fundos da casa, ele fez um aceno para os paspalhos de baixo. Até eu cumprimentei, avalizando sua conquista. Daí a pouco ele desce, chega perto da gente e pede fósforos. Arrepara, só. Todo pavoneado riscou fogo na trilha e só se viu o fogaréu subindo. Gente: foi uma correria dos diabos! Nego correu mais de dez quilômetros de distância só para ver o espetáculo na lonjura mode não se arrepender depois. Foi um pipocado maior que girândola de bilhões de tiro de bombas atômicas e mísseis fudedores de num restar, no fim do espalhafato, nem o morro, quanto mais casa. Depois do rebuceteio todo, chega Doro com a cara mais lisa: - É, abusei na dosagem! - Ô cara, prá quê a casa? - Eu ia morar dentro. - Ia! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.
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PENSAMENTO DO DIA - Procure a vida, lá onde ela reina. Não traga as árvores para a classe. Leve a classe para baixo das árvores... Frustra-se a criança de espetáculo do mundo para oferecer-lhe em vez disso um amontoado de informações. Pensamento do poeta e músico indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Rabindranath Tagore (1861-1941). Veja mais aqui.

A NATUREZA HUMANA – [...] Os primeiros movimentos da natureza são sempre honestos e não há perversidade original no coração humano. [...] A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. A infância tem certos modos de ver, de pensar e de sentir inteiramente especiais: nada é mais tolo do que querer substituí-los pelos nossos. [...]. Trecho extraído da obra Emílio ou da educação (Difel, 1973), do filósofo e precursor do Romantismo francês, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), tratando sobre a infância e a dolescência, a mulher ideal, a esposa e a vida domestica, a formação política, entre outros assuntos. O livro foi proibido e queimado publicamente por conta da parte dedicada à Profissão de fé do vigário Savoiano, além de ter inspirado o sistema educativo durante a Revolução Francesa. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ROSALINA - Ali naquela casa de muitas janelas e bandeiras coloridas vivia Rosalina. Casa de gente de casta, segundo eles antigamente. Ainda conserva a imponência e o porte senhorial, o ar solarengo que o tempo de todo não comeu. As cores das janelas e da porta estão lavadas de velhas, o reboco caído em alguns trechos como grandes placas de ferida, mostra mesmo as pedras e os tijolos e as taipas de sua carne e ossos, feitos para durar toda a vida; vidros quebrados nas vidraças, resultado do ataque da meninada nos dias de reinação, quando vinham provocar Rosalina (não de propósito e ruindade, mas sem-que-fazer de menino), escondida detrás das cortinas e reposteiros; nos peitoris das sacadas de ferro rendilhado, formando flores estilizadas, setas, volutas, esses e gregas, faltam muitas das pinhas de cristal facetado cor-de-vinho que arrematavam nas cantoneiras a leveza daqueles balcões. Extraído da obra Ópera dos mortos (Civilização Brasileira, 1975), do escritor, advogado e jornalista Autran Dourado (1926-2012). Veja mais aqui.

O POETA DA ROÇA – Sou fio das mata, cantô da mão grossa, / Trabáio na roça, de inverno e de estio. / A minha chupana é tapada de barro, / Só fumo cigarro de páia de mío. / Sou poeta das brenha, não faço o papé / De argum menestré, ou errante cantô / Que veve vagando, com sua viola, / Cantando, pachola, à percura de amô. / Não tenho sabença, pois nunca estudei, / Apenas eu sei o meu nome assiná. / Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre, / E o fio do pobre não pode estudá. / Meu verso rastêro, singelo e sem graça, / Não entra na praça, no rico salão, / Meu verso só entra no campo e na roça / Nas pobre paioça, da serra ao sertão. / Só canto o buliço da vida apertada, / Da lida pesada, das roça e dos eito. / E às vez, recordando a feliz mocidade, / Canto uma sodade que mora em meu peito. /Eu canto o cabôco com suas caçada, / Nas noite assombrada que tudo apavora, / Por dentro da mata, com tanta corage / Topando as visage chamada caipora. / Eu canto o vaquêro vestido de côro, / Brigando com o tôro no mato fechado, / Que pega na ponta do brabo novio, / Ganhando lugio do dono do gado. / Eu canto o mendigo de sujo farrapo, / Coberto de trapo e mochila na mão, / Que chora pedindo o socorro dos home, / E tomba de fome, sem casa e sem pão. / E assim, sem cobiça dos cofre luzente, / Eu vivo contente e feliz com a sorte, / Morando no campo, sem vê a cidade, / Cantando as verdade das coisa do Norte. Poema extraído da obra Cante lá que eu canto cá (Vozes, 1984), do poeta popular, compositor, cantor e improvisador Antônio Gonçalves da Silva, mais famoso como Patativa do Assaré (1909-2002). Veja mais aqui, aqui e aqui.

GÊNEROS TEXTUAIS, TIPIFICAÇÃO & INTERAÇÃO – O livro Gêneros textuais, tipificação e interação (Cortez, 2005), de Charles Bazerman, organizado por Angela Paiva e Judith Chambliss Hoffnagel, trata a respeito dos atos da fala, gêneros textuais e sistemas de atividades, formas sociais como habitats para ação, enunciados singulares, cartas e base social de gêneros diferenciados, gênero e identidade, cidadania na Era da Internet e na Era do Capitalismo Global, entre outros assuntos.

A CANÇÃO DA INTEIREZA – A obra A canção da inteireza: uma visão holística da educação (Summus, 1995), do professor e pesquisador Clodoaldo Meneguello Cardoso, trata sobre o paradigma teocêntrico & o reino no outro mundo, o paradigma antropocêntrico & o império do homem, o paradigma ecocêntrico & o homem no fio da teia da vida, as mudanças paradigmáticas, a visão holística da educação, os fundamentos filosóficos, teoria da aprendizagem, a prática de ensino, a avaliação crítica, entre outros assuntos. Veja mais aqui.

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