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quarta-feira, julho 08, 2020

LA FONTAINE, KÄTHE KOLLWITZ, MÔNICA BURITY & MÁRIO SOUTO MAIOR



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: LHEGUELHÉ DESENTURMADO - Nunca consegui me situar direito nas coisas, sempre um tanto deslocado. Melhor dizendo: bastante por fora, mesmo. Quando não passo batido, a oportunidade é adiada e cai no esquecimento. Foi. Com os da minha idade, uma ou outra interlocução bem precária. Os mais velhos, uma barra para superar a distância. Os mais novos, assim, meio que desencontrados. Com as mulheres, ah sim, com elas tantas interações, só elas. Nem sempre. É que sou daquele que atira no que vê e acerta no que nem está, péssima pontaria, pior jogador. Só passei a me equilibrar melhor quando ouvi Fritz Perls: O primeiro e último problema do indivíduo é integrar-se internamente e ainda assim, ser aceito pela sociedade. Não é à toa que me sinta sempre peixe fora do aquário, hehehehe. Vou.

DOIS: CARTA FORA DO BARALHO OU SEI LÁ O QUÊ – Nos meus deslocamentos, tanto fiz que nem sei se um deu certo, eu estava errado, isso sim; ou seja, se acertei, não era nada. Quando errei, parece que aprumou no êxito, coisa assim, nem lá nem cá, ia e pronto. Se não havia como, arrumava um jeito de proceder de qualquer forma. Ia mesmo. Foi aí que Edgar Morin chegou: Compreender não só aos outros como a si mesmo, a necessidade de se autoexaminar, de analisar a autojustificação, pois o mundo está cada vez mais devastado pela incompreensão, que é o câncer do relacionamento entre seres humanos. Muito para aprender no meio de conflitos e desenquadradas, vou assim mesmo.

TRÊS: QUANDO NÃO PISAVA NA BOLA, DAVA UM BRANCO GÉLIDO – Mesmo assim eu perseverava: escorregando ali, topadas acolá, ia e vinha, isso quando fazia a melada de ficar ou com a cara no chão, ou me fazendo que não havia nada, de tão deslocado. Aprendi com Moraes Moreira: As horas em que mais errei foram as que mais me ensinaram. Mas não tinha jeito, errava toda hora, reincidente, sucumbente. Até que Patativa do Assaré poetou: É melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada... Tinha jeito nada, nunca me levei a sério, nem posso. Na linha, só o trem; quando eu, qualquer coisa. Vou. Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: A mulher da classe trabalhadora me mostra muito mais do que as mulheres que são totalmente limitadas pelo comportamento convencional. A mulher da classe trabalhadora mostra-me as mãos, os pés e os cabelos. Ela me permite ver a forma e o corpo de suas roupas. Ela se apresenta e a expressão de seus sentimentos abertamente, sem disfarces. Senti que não tenho o direito de me retirar da responsabilidade de ser uma advogada. É meu dever expressar os sofrimentos das pessoas, os sofrimentos que nunca terminam e são tão grandes quanto as montanhas. Estou gradualmente me aproximando do período da minha vida em que o trabalho vem primeiro. Para o trabalho, é preciso ser duro e empurrar para fora de si o que você viveu. Força é tomar a vida como ela é, sem se deixar quebrantar, e, sem queixas ou excessivo choro, para fazer o próprio trabalho com vigor. Passei por uma revolução e estou convencida de que não sou revolucionária. Eu pensei que era uma revolucionária e era apenas uma evolucionária. Pensamento da escritora, gravurista, escultora, desenhista e pintora alemã Käthe Kollwitz (1867-1945).

AS FÁBULAS DE LA FONTAINE
Ao longo da tua vida tem cuidado para não julgares as pessoas pelas aparências. Aprendei que todo o adulador vive à custa de quem o escuta. Nada há de mais perigoso do que um amigo ignorante; mais vale um sábio inimigo. Não falar para o seu século é falar com surdos. O símbolo dos ingratos não é a Serpente, é o Homem.
LA FONTAINE – As fábulas do poeta e fabulista francês Jean de La Fontaine (1621-1695), foram escritas em três partes, seguindo o estilo do grego Esopo, tendo para o significado de que: É uma pintura em que podemos encontrar nosso próprio retrato. Por esta razão tornou-se o responsável pelo desenvolvimento da fábula moderna e integrando o inventário humano através dos séculos. Veja mais aquiaqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada bailarina, intérprete, criadora e professora Mônica Burity, que é graduada em Dança pela UniverCidade, integra a Focus Cia. de Dança e atuou em espetáculos como Eles Assistem e Eu Danço – Estudo para Mônica Burity (2005), Samba Variationen (2002), Fauno (2018) e Malditos (2019), entre outros. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Quem nasce no interior vivencia situações e conhece tipos que, dificilmente, fariam parte da vida de alguém da cidade grande. O dinheiro até que tem dado para tomar água de coco, mas preciso publicar e espalhar meus livrinhos nas escolas públicas. Eu sou o tipo do cara realizado, por vários motivos. Pela família, pelos amigos, pela saúde. Tenho 80 anos e todas as minhas taxas estão normais.
A arte do folclorista e etnólogo Mário Souto Maior (1920-2001), que escreveu e publicou mais de 70 livros, tornando-se um dos mais destacados pesquisadores do folclore nordestino. Veja mais dele aqui, aqui & aqui.
&
A história de amor de Fernando e Isaura, do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014) aqui.
Fisionomia e espírito do mamulengo, do escritor, dramaturgo e advogado Hermilo Borba Filho (1917-1976) aqui.
A poesia de do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013) aqui.
Jutaí menino, do escritor Gilvan Lemos (1928-2015) aqui.
Contribuição à história do Ginásio Municipal dos Palmares, do Professor Brivaldo Leão de Almeida aqui.
Rio Una, a música de Jorge de Altinho aqui.
A arte de Paulo Profeta, IbaValeUna & Pintando na Praça aqui.
&
Porque era sábado no Una aqui & aqui.


terça-feira, maio 13, 2008

PERLS, EMERSON, DOSTOIÉVSKI, EUGÉNIO DE ANDRADE, MARIA KREYN & DORO

 
A arte da pintora russa Maria Kreyn


AS TRELAS DO DORO: OLHA A CHEUFRA! - Doro estava indignado arreando o sarrafo no aumento dos remédios, na virada de casaca dos políticos, no MST por não ter deixado ele viajar interrompendo a pista, nos ruralistas porque todos são uns mãos-de-figa, no mestre castanheiro da padaria que só faz pão murcho e ruim, na cega-Dedé sei lá porque, no diabo a quatro, no escambau, quando, de repente, passa a frochosa Juremilda toda reboladeira, só no gingado da safadeza, aacendendo logo o bordão do melepeiro que desconversa: - Ainda papo essa pinica! - Que é que é isso, Doro? -, ameacei em cima da bucha. - Ôxe, essa nega tá me chamando de banguelo! Eu vou papá-la, ah! se vou! -, alisou a pança como quem vai se abarrotar de comida. Nessa hora, a patroa dele surpreende: - Quié, Doro, quié qui tu tais todo meleguento, hem? - Fubica, mulé, fubica! Carro véio, mandú que esse home qué qui eu venda, mulé! - Hum, teu sá´ tá si pisano, viu forgado! - Eita, mulé pra querê mim inchê o saco, ora! Tais veno qui tô fazeno negóço cum distinto aqui, mulé! Te ocupa, mulé, vai arrumá lavage de rôpa, ora! - Teu nó tá s´apertano, num digo nada! Tô só avisano, cabra ruim. A distinta esposa dele deu meia volta e saiu bufando. Ele quase teve um troço quando sentiu o peso do flagra no toitiço. E ainda reclamou: - E tu num mi diz nada, home? - Eu não vi, Doro, ela chegou de repente! - É, quagi qui ela me péla no maió fraga min s´inxirindu prá reboculosa, podi? - É, meu amigo, quem muitas pedras mexe, uma lhe cai na cabeça. - Tô fora! - Cuspiu pra cima e não saiu debaixo: o cuspe cai na cara! - Ih! O homi tá infilosofando hoji. Vôte, tô fora! E arribou. Deu sumiço mesmo. Só sei que ele andava maquinando como lavar-a-jega na Juremilda. Quase que dá um nó juízo de tanto fumaçar o quengo numa estratégia das bem feita para se encostar na pretendida. A mulher dele na cola, nada de dar brecha pra pulada de cerca. Ora, só havia uma saída: na hora que a sua madame fosse para a missa de crente. É. É que ele desabufelado da vida, casou-se com uma crente, a Marcialita. Uma santa, diga-se de passagem. Para aguentar um faroso desse, tem que ser santa mesmo. Pois foi, na hora que a Marcialita escafedeu-se pras orações, Doro ficou brechando a passada da Juremilda. Na hora agá, lá vem ela. Aí ele dá um pinote na frente da rabuda e tasca a cantada mais chué da paróquia. - A mocinha num tá a fim de fazê uma faxina no meu pardiêro não? - Quano? - Oxente, aminhã de noite, às sete, pode? - Ondi já si viu faxina de noite, homi? - Ora, num adisconversi, diga qui sim e aminhã de noite se aprochegue toda cherosinha cum profume de mulé perdida qui eu tô doido para moiá o biscoito cum ocê! - Ije, cuma ele tá! isso assobe mermo ou é dipindurado só pra infeite? - Ói, aqui, sua danida, o negóço tá é cresceno pra sua banda e num caçôi não qui eu lhi pego agora mermo, sua diabinha xôxa! - Ôxe, home, s´ajeite qui meu marido vem ali... E vinha mesmo. O cara já sentia cheiro de gaia nos ares. Andava vasculhando por onde a mulher ia para afastar os pinguceiros que quisesse meter o dedo na sua sopa. - Chá pra casa, mulé! - Ó, meu amigo, eu taba pabulano com a sua madama aqui, pra ela vim fazê uma faxina aqui im casa qui a minha mulé tá sem pudê dá conta, sabe. Incrusivel, vô acertá cum minha mulé e aminhã di noite eu digo pra sinhora quano é a faxina, certo? - Tá certo, Doro. - Aminhã quano ela passá, dona Marcialita fala cum ela. Bas noite. - Bas noite, companhêro. Mal o cara deus as costas com seu bufado sinistro, Doro alisou uma mão na outra e gritou: - Olha a cheufra!!!!! Um dia, dois, nada de espaço pro Doro afogar-o-ganso na Juremilda. Quando não era a Marcialita, era o corno ingriziento. O cara já estava endoidando de tanta armação e nada dar certo. Ocorre, porém justo quando ele está armando o plano G de suas tentativas, chega Marcialita de sopetão e grita: - Vô aminhã im Batiguara. - Fazê o quê, mulé? - Arricibi indagora um recado da minha mãe qui qué falá cum eu. - O que aquela véia sogra qué cuntigo, mulé? - Num sei, é minha mãi e eu vô aminhã cedinho. - Vôte, vô na ruduviára agora vê se tem passage. - Num pricisa, vô de cata-côrno comum. - Intonse vô falá cum Pedim-do-pade pr´ele ti levá. Chego já. Doro saiu voando, ao invés de falar com o motorista da lotação, foi direto para a casa de Juremilda. - Ô di casa! - Ô di fora! -, era o marido dela atendendo. - O sinhô faizi favô di dizê à sua distinta isposa, que a minha patroa istá isperano ela aminhã di minhã pra fazê faxina lá in casa. Eu vim dá o recado logo qui vô tê qui ir im Batiguara arrisolvê uns probreminha e só chego a noite, podeno a sua patrôa ficá cum a minha fazeno o sirviço. - Qui hora pra tá lá? - Sete e meia pra oito hora, tá bom? - Ela tará lá. - Obrigado e bas noite. - Bas noite. Doro saiu mais ancho do que nunca e foi caçar Pedim-do-Padre pra pegar a Marcialita até as sete da manhã. Não achou. Ih. Parece que o negócio estava gorando de novo. Quando ele chegou em casa mais de meia noite, a consorte já estava dormindo. Arranchou-se ao lado dela e roncou a noite toda. De manhã quando acordou, o canto estava mais limpo. Marcialita já tinha ido. Ele saiu pelos quartos averiguando tudo, quando percebeu que ela havia levado também os meninos. O cara estava sozinho. Às sete e trinta e cinco, bei bei, na porta. Quando ele abre: Juremilda! - Eita, nega jeitosa da gota. Se aprochegue minha safadinha qui hoji eu vou lavá a égua direitinho! - Ôxe, homi, se aquieti qui sua mulé é braba! Quando ela atravessou a porta que entrou na sala, Doro passou as chaves e fechou os postigos todos e se virou para Juremilda: - Hôji você si vira nos trinta, fogosinha, que eu vou champrá-la inté di noite! Tira a rôpa qui lá vai ferro! Vôte, o fungado passou meio dia, entrou pela tarde e só parou porque o corno chegou lá pelas seis para levar o seu dicomer para casa. Ela demorou e saiu toda se ajeitando e foi-se. Mal Juremilda dobrou a esquina, chega Marcialita bufando. Entrou e foi logo pra cozinha preparar o café para todos. No meio disso, enquanto puxa um prato do escorredor, encontra um par de brincos estranho. - Di quem é isso aqui, seu sem-vergonho? - Num sei... - Quem teve aqui. - Ninguém. - Cê uma hora dessa im casa, tem coisa. -, ela dizia isso enquanto aguçava o nariz para sentir cheiros suspeitos -, teve mulé aqui, tô sintino, a cama tá disforrada, tô sintino, cadê ela, a cadela, cadê-la!! - Num tem mulé ninhuma aqui, ora, cê tá se auto-enlouquecendo mulé! - Si num tem mulé, teve, tô sintino a catinga de rapariga na casa! Tem chêro de puta aqui! E mal o tempo fechou com chuva de panelas, caçarolas e penicos, bate na porta alguém. Quando Doro na carreira de sair bota o pé do lado de fora, estava lá o corno querendo satisfação! Estava na hora do circo pegar fogo. Doro fechou a porta na ligeireza do ato e procurou saber o que o distinto cavalheiro desejava. - Minha mulé chegou toda istranha, perdeu os brinco, chegou cum sono e toda mole sem querê sabê de eu. - E eu com isso? - Cê num butou gaia em mim não, num foi? - Meu amigo, eu nem tava em casa, cheguei agora cum a mulé braba virada na gota! Além do mais, num sô homi de tá fazeno papé safado cum ninguém, principalmente o sinhô qui é distinto e é amigo meu. - Pois tô disconfiado qui minha mulé tá botando duas de quinhento em mim. - Tá nada! Tire isso da cabeça, homi, sua mulé é uma mulé decente, trabaiadeira. - É verdade. Num guento mais esse ciúme. Vô terminá matando um ou ela mermo, sem tê curpa no cartóro. É ocê mi convenceu. É milhó ir pra casa e cuidá da minha mulezinha. Bas noite. - Bas noite. Quando o cara dobrou a esquina, Doro gritou: - Óia a cheufra!!! Vai ter circuito já já, corno enganchano as gaias nos fio de alta tensão. Ora se vai, qué vê? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


PENSAMENTO DO DIASeja como você é. De maneira que possa ver quem és. Quem és e como és. Deixa por um momento o que deves fazer e descubra o que realmente fazes. Arrisque um pouco, se puderes. Sinta seus próprios sentimentos. Diga suas próprias palavras. Pense seus próprios pensamentos. Seja seu próprio ser. Descubra. Deixe que o plano pra você surja de dentro de você. Pensamento do psicólogo, psicoterapeita e psiquiatra alemão Friederich Salomon Perls (1893-1970). Veja mais aqui, aqui e aqui.

MENTE & MATÉRIA - [...] Esta relação entre a mente e a matéria... é o problema que provocou o espanto e o estudo de cada gênio refinado desde os primórdios do mundo; desde a era dos egípcios e dos brâmanes, até àquela de Pitágoras, de Platão, de Bacon, de Leibniz, de Swedenborg. Lá está a Esfinge deitada à beira do caminho e, de tempos em tempos, conforme cada profeta chega, ele tenta sua sorte na leitura de seu enigma. [...]. Trecho extraído da obra Uma seleção de Escritos de Ralph Waldo Emerson (Modern Library, 1968), do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui,

NOITES BRANCAS – […] - Apoie-se no meu braço -, disse eu à desconhecida. Ela, sempre calada, passou sob o meu braço a mão ainda trêmula de medo. Oh! Como eu bendizia o importuno! Lancei um rápido olhar à jovem. Tinha ainda os olhos úmidos de lágrimas; mas os lábios sorriam. Olhou-me furtivamente, corou um pouco e baixou os olhos. [...] Nenhuma mulher digna deste nome, que não fosse uma tola ou estivesse num momento de mau humor, ousaria recusar-lhe as duas palavras que implora. No entanto, quem sabe? Talvez o tomassem por louco. Julgo só pelos meus sentimentos – pois não ignoro como se vive e sofre neste mundo... [...]. Trechos do conto Noites brancas – primeira noite, do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821 - 1881), recolhido da antologia Maravilhas do conto amoroso (Cultrix, 1961), organizada por Fernando Correia da Silva. Veja mais aqui.

A PALMEIRA JOVEMComo a palmeira jovem / que Ulisses viu em Delos, assim / esbelto era o dia / em que te encontrei; / assim esbelta era a noite / em que te despi, / e como um potro na planície nua / em ti entrei. Poema do poeta português Eugénio de Andrade (1923-2005). Veja mais aqui.


A arte da pintora russa Maria Kreyn





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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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