terça-feira, maio 13, 2008

AS TRELAS DO DORO - OLHA A CHEUFRA!



OLHA A CHEUFRA!


Doro estava indignado arreando o sarrafo no aumento dos remédios, na virada de casaca dos políticos, no MST por não ter deixado ele viajar interrompendo a pista, nos ruralistas porque todos são uns mãos-de-figa, no mestre castanheiro da padaria que só faz pão murcho e ruim, na cega-Dedé sei lá porque, no diabo a quatro, no escambau, quando, de repente, passa a frochosa Juremilda toda reboladeira, só no gingado da safadeza, aacendendo logo o bordão do melepeiro que desconversa:
- Ainda papo essa pinica!
- Que é que é isso, Doro? -, ameacei em cima da bucha.
- Ôxe, essa nega tá me chamando de banguelo! Eu vou papá-la, ah! se vou! -, alisou a pança como quem vai se abarrotar de comida.
Nessa hora, a patroa dele surpreende:
- Quié, Doro, quié qui tu tais todo meleguento, hem?
- Fubica, mulé, fubica! Carro véio, mandú que esse home qué qui eu venda, mulé!
- Hum, teu sá´ tá si pisano, viu forgado!
- Eita, mulé pra querê mim inchê o saco, ora! Tais veno qui tô fazeno negóço cum distinto aqui, mulé! Te ocupa, mulé, vai arrumá lavage de rôpa, ora!
- Teu nó tá s´apertano, num digo nada! Tô só avisano, cabra ruim.
A distinta esposa dele deu meia volta e saiu bufando. Ele quase teve um troço quando sentiu o peso do flagra no toitiço. E ainda reclamou:
- E tu num mi diz nada, home?
- Eu não vi, Doro, ela chegou de repente!
- É, quagi qui ela me péla no maió fraga min s´inxirindu prá reboculosa, podi?
- É, meu amigo, quem muitas pedras mexe, uma lhe cai na cabeça.
- Tô fora!
- Cuspiu pra cima e não saiu debaixo: o cuspe cai na cara!
- Ih! O homi tá infilosofando hoji. Vôte, tô fora!
E arribou. Deu sumiço mesmo. Só sei que ele andava maquinando como lavar-a-jega na Juremilda. Quase que dá um nó juízo de tanto fumaçar o quengo numa estratégia das bem feita para se encostar na pretendida.
A mulher dele na cola, nada de dar brecha pra pulada de cerca. Ora, só havia uma saída: na hora que a sua madame fosse para a missa de crente. É. É que ele desabufelado da vida, casou-se com uma crente, a Marcialita. Uma santa, diga-se de passagem. Para aguentar um faroso desse, tem que ser santa mesmo.
Pois foi, na hora que a Marcialita escafedeu-se pras orações, Doro ficou brechando a passada da Juremilda. Na hora agá, lá vem ela. Aí ele dá um pinote na frente da rabuda e tasca a cantada mais chué da paróquia.
- A mocinha num tá a fim de fazê uma faxina no meu pardiêro não?
- Quano?
- Oxente, aminhã de noite, às sete, pode?
- Ondi já si viu faxina de noite, homi?
- Ora, num adisconversi, diga qui sim e aminhã de noite se aprochegue toda cherosinha cum profume de mulé perdida qui eu tô doido para moiá o biscoito cum ocê!
- Ije, cuma ele tá! isso assobe mermo ou é dipindurado só pra infeite?
- Ói, aqui, sua danida, o negóço tá é cresceno pra sua banda e num caçôi não qui eu lhi pego agora mermo, sua diabinha xôxa!
- Ôxe, home, s´ajeite qui meu marido vem ali...
E vinha mesmo. O cara já sentia cheiro de gaia nos ares. Andava vasculhando por onde a mulher ia para afastar os pinguceiros que quisesse meter o dedo na sua sopa.
- Chá pra casa, mulé!
- Ó, meu amigo, eu taba pabulano com a sua madama aqui, pra ela vim fazê uma faxina aqui im casa qui a minha mulé tá sem pudê dá conta, sabe. Incrusivel, vô acertá cum minha mulé e aminhã di noite eu digo pra sinhora quano é a faxina, certo?
- Tá certo, Doro.
- Aminhã quano ela passá, dona Marcialita fala cum ela. Bas noite.
- Bas noite, companhêro.
Mal o cara deus as costas com seu bufado sinistro, Doro alisou uma mão na outra e gritou:
- Olha a cheufra!!!!!
Um dia, dois, nada de espaço pro Doro afogar-o-ganso na Juremilda. Quando não era a Marcialita, era o corno ingriziento. O cara já estava endoidando de tanta armação e nada dar certo.
Ocorre, porém justo quando ele está armando o plano G de suas tentativas, chega Marcialita de sopetão e grita:
- Vô aminhã im Batiguara.
- Fazê o quê, mulé?
- Arricibi indagora um recado da minha mãe qui qué falá cum eu.
- O que aquela véia sogra qué cuntigo, mulé?
- Num sei, é minha mãi e eu vô aminhã cedinho.
- Vôte, vô na ruduviára agora vê se tem passage.
- Num pricisa, vô de cata-côrno comum.
- Intonse vô falá cum Pedim-do-pade pr´ele ti levá. Chego já.
Doro saiu voando, ao invés de falar com o motorista da lotação, foi direto para a casa de Juremilda.
- Ô di casa!
- Ô di fora! -, era o marido dela atendendo.
- O sinhô faizi favô di dizê à sua distinta isposa, que a minha patroa istá isperano ela aminhã di minhã pra fazê faxina lá in casa. Eu vim dá o recado logo qui vô tê qui ir im Batiguara arrisolvê uns probreminha e só chego a noite, podeno a sua patrôa ficá cum a minha fazeno o sirviço.
- Qui hora pra tá lá?
- Sete e meia pra oito hora, tá bom?
- Ela tará lá.
- Obrigado e bas noite.
- Bas noite.
Doro saiu mais ancho do que nunca e foi caçar Pedim-do-Padre pra pegar a Marcialita até as sete da manhã. Não achou. Ih. Parece que o negócio estava gorando de novo.
Quando ele chegou em casa mais de meia noite, a consorte já estava dormindo. Arranchou-se ao lado dela e roncou a noite toda.
De manhã quando acordou, o canto estava mais limpo. Marcialita já tinha ido. Ele saiu pelos quartos averiguando tudo, quando percebeu que ela havia levado também os meninos. O cara estava sozinho.
Às sete e trinta e cinco, bei bei, na porta. Quando ele abre: Juremilda!
- Eita, nega jeitosa da gota. Se aprochegue minha safadinha qui hoji eu vou lavá a égua direitinho!
- Ôxe, homi, se aquieti qui sua mulé é braba!
Quando ela atravessou a porta que entrou na sala, Doro passou as chaves e fechou os postigos todos e se virou para Juremilda:
- Hôji você si vira nos trinta, fogosinha, que eu vou champrá-la inté di noite! Tira a rôpa qui lá vai ferro!
Vôte, o fungado passou meio dia, entrou pela tarde e só parou porque o corno chegou lá pelas seis para levar o seu dicomer para casa. Ela demorou e saiu toda se ajeitando e foi-se. Mal Juremilda dobrou a esquina, chega Marcialita bufando. Entrou e foi logo pra cozinha preparar o café para todos. No meio disso, enquanto puxa um prato do escorredor, encontra um par de brincos estranho.
- Di quem é isso aqui, seu sem-vergonho?
- Num sei...
- Quem teve aqui.
- Ninguém.
- Cê uma hora dessa im casa, tem coisa. -, ela dizia isso enquanto aguçava o nariz para sentir cheiros suspeitos -, teve mulé aqui, tô sintino, a cama tá disforrada, tô sintino, cadê ela, a cadela, cadê-la!!
- Num tem mulé ninhuma aqui, ora, cê tá se auto-enlouquecendo mulé!
- Si num tem mulé, teve, tô sintino a catinga de rapariga na casa! Tem chêro de puta aqui!
E mal o tempo fechou com chuva de panelas, caçarolas e penicos, bate na porta alguém. Quando Doro na carreira de sair bota o pé do lado de fora, estava lá o corno querendo satisfação! Estava na hora do circo pegar fogo. Doro fechou a porta na ligeireza do ato e procurou saber o que o distinto cavalheiro desejava.
- Minha mulé chegou toda istranha, perdeu os brinco, chegou cum sono e toda mole sem querê sabê de eu.
- E eu com isso?
- Cê num butou gaia em mim não, num foi?
- Meu amigo, eu nem tava em casa, cheguei agora cum a mulé braba virada na gota! Além do mais, num sô homi de tá fazeno papé safado cum ninguém, principalmente o sinhô qui é distinto e é amigo meu.
- Pois tô disconfiado qui minha mulé tá botando duas de quinhento em mim.
- Tá nada! Tire isso da cabeça, homi, sua mulé é uma mulé decente, trabaiadeira.
- É verdade. Num guento mais esse ciúme. Vô terminá matando um ou ela mermo, sem tê curpa no cartóro. É ocê mi convenceu. É milhó ir pra casa e cuidá da minha mulezinha. Bas noite.
- Bas noite.
Quando o cara dobrou a esquina, Doro gritou:
- Óia a cheufra!!! Vai ter circuito já já, corno enganchano as gaias nos fio de alta tensão. Ora se vai, qué vê?

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