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sexta-feira, fevereiro 05, 2016

FOLIA & FREVO, GALO DA MADRUGADA, DAMATTA, SOUTO MAIOR, OLINDA, CAPIBA, VALDEMAR, MAURO MOTA & MUITO MAIS!!!


FOLIA TATARITARITATÁ: FEVEREIRO, CARNAVAL & FREVO (Imagem: Folia Caeté, do artista plástico Rollandry Silvério) - A gente nem piscou o olho: o ano eclodiu ontem e já estamos em fevereiro. O tempo voa, não para. Verdade. Nem bem a gente saiu de um cotoquinho de gente, já se sente envergado com o peso da idade. E parece que foi ontem: as presepadas da infância, as maloqueragens da adolescência e as estripulias do rigor adulto. Tudo num triz da memória. Zás! E ao se dá conta hoje, quando não é o fardo extenuante desfocando a vida com os peculiares embaraços que arrocham se amontoando no toitiço da gente, é aquela bronca como bola de sinuca ricocheteada que acerta nos possuídos: oh, nãoooooo! Doeu. E como dói, meu. Quem tem os penduricalhos que sabe. Por isso, sem nostalgia alguma, eu vou nas freviocas entoando: ...eu vou driblando as broncas pra gororoba chegar, eu dou nó cego até no mar pra fazer meu direito valer... Como o calendário vai dando corpo ao relógio na guilhotina do tempo e preparando todo mundo para a casa dos que não estão mais aqui, basta virar o ano e, de supetão, já é fevereiro e ninguém quer fazer par com os que morreram dum bocado de coisa. Claro, e como em fevereiro – mês da februa, consagrado às festas e purificação dos mortos - ninguém é asno simiesco de ficar na espreguiçadeira do Hino do Nacional, tá doido? Basta ouvir o primeiro acorde de qualquer frevo que a gente se encharca de incha-bucho, lavando a prensa pra liberar a jega e cair na folia. U-hu, é com esse que eu vou! E se é fevereiro, é carnaval, do carmem levãre, véspera da abstenção da carne. Eu, hem? Eu mesmo me apronto, dou uma fortificada no fígado, estico os ossos, libero a goela e viro adepto do Momo, filho do Sono e da Noite, que vem numa mão com a máscara e, na outra, a loucura na cabeça grotesca do cetro. E tome folia pra cima. Assim, enveredo no tríduo momesco todo probo, da sexta-pré que vira pro sábado de Zé-pereira no improviso das piruetas que esquenta os nervos, mexe com alma e agita o esqueleto com as acrobacias de sombrinha, até a terça-feira gorda, gingando na dobradura, na tesoura, na locomotiva, no ferrolho, no parafuso, no pontilhado, no saci-pererê, no diabo-a-quatro para confirmar: Sou brasileiro, meu bem, de janeiro a janeiro, de ralar o ano inteiro pra ver se a vida um dia vai mudar prum melhor fevereiro, festa de carnaval, pular, esbaldar festeiro pra ver se a minha vida um dia vai mudar... tudo na melhor tradição de Edgar Morais, João Santiago, Raul Morais, os Irmãos Valença, Nelson Ferreira, ou Capiba que diz: “...essa vida é mesmo assim... não penses que estou triste nem que vou chorar... eu vou cair no frevo, vou me acabar”. Assim, no frevo uma homenagem: que essa vida, essa passagem, só o amor faz imortal. E vamos aprumar a conversa na Folia Tataritaritatá e aqui.

E veja mais:










PICADINHO
Imagem: O Galo da Madrugada, do artista plástico Márcio Melo.


Curtindo o álbum de estreia da Orquestra Contemporânea de Olinda (Som Livre, 2008). Veja mais aqui.

EPÍGRAFE – Viva Zé Pereira / Que ninguém faz mal! / Viva Zé Pereira / Nos dias de Carnaval / Viva Zé! / Viva Zé! / Viva Zé Pereira, trecho de uma música cantada pela população, recolhido do texto Carnaval, carnavais (Recife, 2011), do escritor, advogado, pesquisador e folclorista Mário Souto Maior (1920-2001), dando conta da música que surgiu nos festejos carnavalescos a partir de 1846. Veja mais aqui.

CARNAVAL, MALANDROS E HEROIS – No livro Carnavais, malandros e heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro (Zahar, 1983), do antropólogo e sociólogo Roberto DaMatta, destaco os trechos a seguir: [...] como é possível ter um carnaval aristocrático numa sociedade igualitária e ter - no caso brasileiro - precisamente o inverso, ou seja: um carnaval igualitário, numa sociedade hierarquizada e autoritária? [...] O ritual, então, tem como traço distintivo a dramatização, isto é a condensação de algum aspecto, elemento ou relação, colocando-o em foco, em destaque, tal como ocorre nos desfiles carnavalescos e nas procissões, onde certas figuras são individualizadas e assim adquirem um novo significado, insuspeitado anteriormente, quando eram apenas partes de situações, relações e contextos do quotidiano [...] De fato, como o ritual é definido por meio de uma dialética entre quotidiano e extraordinário ele se constitui pela abertura deste mundo especial para a coletividade. Não há sociedade sem uma idéia de um mundo extraordinário, onde habitam os deuses e onde, em geral, a vida transcorre num plano de plenitude, abastança e liberdade. Montar o ritual é, pois, abrir-se para esse mundo, dando-lhe uma realidade, criando um espaço para ele e abrindo as portas para a comunicação entre o “mundo real” e o mundo especial. É no ritual, pois, sobretudo no ritual coletivo, que a sociedade pode ter (e efetivamente tem) uma visão alternativa de si mesma. [...]. Veja mais aqui e aqui.

CARNAVAL, CARNAVAIS – No livro Carnaval: textos, imagens & sons (Recife, 2011), organizado por Mário Souto Maior, Fernando Spencer e Renato Phaelante, encontro o texto Carnaval, Carnavais, do escritor, advogado, pesquisador e folclorista Mário Souto Maior (1920-2001), do qual destaco o trecho: [...] festas greco-romanas semelhantes ao Carnaval vamos encontrar muitas delas perdidas no tempo, quase sempre relacionadas com a fecundidade ou com a colheita. Outras, semi-pagãs no seu todo – as comemorações à deusa Isis no Egito e à deusa Herta entre os teutões, as bacanais, as lupercais e as saturnais romanas no seu maior esplendor, os festejos em honra a Dioníso na Grécia, as festas dos inocentes e dos doidos na Idade Média – constituem provas de que eram muito apreciadas na antiguidade clássica e até mesmo pré-clássica, com suas danças, suas licenciosidades, suas máscaras, suas músicas ruidosamente alegres na sua maioria, algumas são características conservadas até hoje. O Carnaval –“primitivamente designativo da Terça-feira gorda, tempo a partir do qual a Igreja Católica suprime o uso da carne”, conforme Antenor Nascente – surgiu com a propagação do Cristianismo e por força do seu calendário litúrgico. A posição da Igreja Católica Apostólica Romana em relação ao Carnaval, foi, inicialmente, de uma ambigüidade mais que comprovada. O Papa Paulo II, no Século XV permitiu que, na via Latta, bem próxima ao seu palácio, silenciosa durante o ano todo, se realizasse o Carnaval romano, com suas corridas de cavalos e corcundas, com seus carros alegóricos e lançamento de ovos, com o local feericamente iluminado por tocos de velas, introduzindo, como contribuição de sua inventiva, o baile de máscaras que fez tanto sucesso como continua fazendo agora. O Papa Paulo VI chegou a convidar o Sacro Colégio para um jantar festivo. O Papa Júlio III gostava mais de touradas. Já Tertuliano, São Cipriano, São Clemente de Alexandria e Inocêncio II, sempre foram contra a participação da Igreja nos festejos carnavalescos. O Papa Inocêncio III, constatando o excesso de abusos, proibiu o uso de máscara pelos padres e o festejo do Carnaval dentro das Igrejas. Em consequência de tais proibições o Carnaval perdeu seu antigo brilho, só conseguindo ressurgir, com a mesma impetuosidade, algum tempo depois, antes da Revolução Francesa e durante o império napoleônico, quando se espalhou pelo mundo todo. Pode-se dizer que a sociologia do Carnaval brasileiro, como a sua história, exige que sejam consideradas as principais expressões regionais do mesmo Carnaval, que não poderiam deixar de ocorrer num país cuja cultura é ao mesmo tempo una – nacionalmente una – e diversa, regionalmente diversa [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O GALO – No livro Antologia Poética, (Leitura, 1968), do poeta, jornalista, professor e memorialista Mauro Mota (1911-1984), destaco o poema O Galo: É a noite negra e é o galo rubro, / da madrugada o industrial. / É a noite negra sobre o mundo / e o galo rubro no quintal. / A noite desce, o galo sobre, / plumas de fogo e de metal, / desfecha golpe sobre golpe / na treva unidimensional. / Afia os esporões e o bico, / canta o seu canto auroreal. / O galo inflama-se e fabrica / a madrugada no quintal. Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO – O teatrólogo, médico, ator, escritor e compositor Valdemar de Oliveira (1900-1977), realizou as suas primeiras experiências da renovação teatral pernambucana, ao criar o Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), em 1941. Essa iniciativa contrapôs-se ao que se praticava com a comédia ligeira, o teatro de revista, o teatro como diversão, tendo por missão elevar o teatro que se praticava no Recife ao nível da ‘grande arte’. O TAP teve um papel de renovação, no sentido de qualificar melhor a experiência teatral e cenográfica, já que sua posição era reafirmar o realismo e não aceitar nenhum experimento de linguagem e expressão teatral. Para o autor em comento: [...] o teatro é exclusivamente uma expressão da arte. E esta, por definição, em suas formas mais elevadas, só é acessível à fruição e apreciação daqueles poucos cultivados em seus sentidos, dotados de uma aprimorada e apurada sensibilidade [...]. Veja mais aqui.

CAPIBA, O SENHOR DOS CARNAVAIS – O documentário Capiba - O Senhor dos Carnavais (2004), realizado pelos alunos da disciplina Sociologia do curso de Ciências Contábeis, Sidney Silva, José Eduardo e Ghislene Moura, ministrada e orientada pela professora Jacyra Bezerra, da Faculdade Olindense de Ciências Contábeis e Administrativas (FOCCA), traz a história de vida do compositor e músico Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa – 1904-1997), trazendo suas histórias inesquecíveis, discografia, homenagens e depoimentos de Lenine, Raphael Rabello, Milton Nascimento e Claudionor Germano. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz austro-húngara Zsa Zsa Gabor (pseudônimo de Gábor Sári).

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao folião do Galo da Madrugada.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA 
 Veja aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Duofel, François Truffaut, Christopher Marlowe, Natalie Portman, Ewa Kienko Gawlik, Haim G. Ginott, Mary Leakey, Dona Zica & muito mais aqui.

A MUSA DO DIA
A atriz portuguesa Helena Isabel Correia Ribeiro.



sábado, agosto 08, 2015

PICASSO, GAARDEN, MAURO MOTA, OCO, RAVACHE, VASZARY, ELLA RAINES, MITOLOGIA & DESNORTEIO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DESNORTEIO – Duas grandes satisfações eu tive quando compus a música Desnorteio. Vou contar: a primeira grande emoção que tive foi que, com pouco tempo depois que deixei a música pronta, o meu amigo Wilson Monteiro me premiou com a grata surpresa de incluí-la no seu disco Cantarolando e, por tabela, ganhar um clipe primoroso feito pela arte da querida Meimei Corrêa. A música vingou, bão demais! A segunda, é que certo dia eu viajava na condução do hoje advogado Carlinhos Warumbi pela Alegro Trupe – promovida pela BoiBumbarte, dos amigos Susie Cysneiros & Wilson Miranda -, quando, a certa altura da viagem, eu contava das presepadas do meu amigo Marcos Palmeira, numa das noites de êxtase à beira da Lagoa Manguaba, e eu implicava com ele: - Mas pra que tanta se apenas uma basta? O condutor, na hora, disse-me: - Isso dá música! Nem havia dado conta disso, mas a frase me pegou por dias e dias seguidos. Destá. Quando montei os acordes, a harmonia e toda melodia, a frase povoava minha mente e me remetia a uma canção que ouvi nos anos 1980, de um cantor camaronês que muito me afeiçoara: Eboa Lotin (1942-1997), que é autor de mais de quatrocentas canções e que, na sua história de vida, conta-se que perdera seus pais aos três anos de idade e que, ainda muito jovem, devido a uma injeção de quinino, passou a ter uma atrofia que paralisou sua perna esquerda. Precocemente, aos oito anos de idade, ele se lançou na música, abandonando a escola no ensino primário para poder sobreviver. Só aos vinte anos de idade compusera sua primeira canção Mulema Mam (Meu coração). Entretanto, só se tornara famoso quando compôs o sawa Mbemb’a Mot’a pelo qual ganhou um prêmio que contava com a participação de Duke Ellington como jurado, oportunizando a gravação dos seus grandes sucessos Matumba Matumba e Bésombe, com os quais fora contemplado com o Prêmio Internacional Pan-Africano. Ele é autor de uma célebre frase incluída em uma das suas canções que foi destacada no discurso A natureza: santuário da humanidade (O Rosacruz, 2015), proferido por Martin Ibock: “Ah, meu irmão, por que ao invés de um copo d’água suficiente para tua sede, precisa de todo um oceano”. Era essa a frase do cantor que dava cloro pra minhas ideais e remoía tudo nas catracas do meu quengo. E quando li o discurso alguns dias atrás, me deparei novamente com ela, justamente essa frase que meu deu o mote para construir a letra de Desnorteio: Na minha vida eu levei muita pancada / Foi bordoada de quase rachar no meio / No desenfreio alinhei todo viés / Escapei de revestrés a ajeitar o desnorteio / No aperreio eu passei toda desdita / Fiz de prêmio pra conquista o que ganhei no pisoteio / Mas pra que tanta se apenas uma basta / Quanto mais a vida arrasta mais se aprende a lição / Eu vou menino e piso bredo nas manobras / Vai que um dia a sorte sobra / Pra aprumar a direção. / Eu dei topada, levei tombo e ralei mais / No ademais muita asneira no passeio / E no recreio da maior das presepadas / Fui gaiato nas quebradas, fiz vergonha sem ter freio / Pra cabeceio só queria era abafar / E a mulherada se achegar pra viver no meu rodeio [...] Hoje aprendi que na vida tudo prova / Não tem corcova que aguente a danação / Não dá mais não, ser roto do esfarrapado / Ou sujo do malavado, ser jeitoso sabidão / Ser outro então com a paz de responsável / Cultivando o sustentável modo de ser cidadão. É isso aí. E vamos aprumar a conversa aqui, aqui e aqui.

 Imagem: Nude Woman, do artista húngaro de Art nouveau Janos Vaszary (1867-1938).


Curtindo o álbum Pra ficar (2012), da Orquestra Contemporânea de Olinda.

AS MÁSCARAS DE DEUS – O livro As máscaras de Deus: mitologia primitiva (Palas Atenas, 1992), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987), trata sobre os contornos de uma nova ciência, o abismo do passado e o dialogo da ciência e da ficção, abordando a psicologia do mito, os agricultores e caçadores primitivos, a arqueologia do mito, sofrimento e extase, a lição da máscara, o enigma da imagem hereditária, as estampagens ou marcas da experiência, a esfera cultura das civilizações avançadas, o domínio dos reis imolados, o ritual amor-morte, a função do mito, limiares mitológicos do Paleolítico, Xamanismo, as cavernas paleolíticas, entre outros assuntos. Na obra destaco o trecho: [...] O olho do artista, como disse Thomas Mann, tem um viés mítico sobre a vida; por isso, precisamos abordar o mundo dos deuses e demônios – o carnaval de suas máscaras e o curioso jogo do “como se”, no qual o festival do mito vivo abole todas as leis do tempo, permitindo que os mortos voltem à vida e o “era uma vez” se torne o próprio presente – com o olho do artista. Porque, de fato, no mundo primitivo, onde temos que buscar a maioria dos indícios sobre a origem da mitologia, os deuses e demônios não são concebidos à maneira das realidades evidentes, rígidas e fixas. Um deus pode estar simultaneamente em dois ou mais lugares – como uma melodia ou sob a forma de uma máscara tradicional. E onde quer que ele surja, o impacto de sua presença é o mesmo: ele não é reduzido pela multiplicação. Além disso, a máscara em um festival primitivo é venerada e vivenciada como uma verdadeira aparição do ser mítico que ela representa – apesar de todo mundo saber que foi um homem que fez a máscara e que é um homem que a está usando. Mas, durante o tempo do ritual do qual a máscara faz parte, aquele que a estiver usando é também identificado com o deus. Ele não apenas representa o deus; ele é o deus. O fato literal de que a aparição seja composta por A, uma máscara; B, sua referência a um ser mítico; e C, um homem, é rejeitado pela mente e isso dá lugar a que a apresentação funcione independente dos valores, tanto do observador quanto do ator. Em outras palavras, houve uma mudança de perspectiva, da lógica da esfera secular normal, onde as coisas são vistas como diferentes umas das outras, para a esfera teatral ou representativa, onde as coisas são aceitas pelo que são enquanto vivenciadas, e a lógica é a do “faz-de-conta”, do “como se”. [...] Veja mais aqui.

ATRAVÉS DO ESPELHO – O livro Através do espelho (Companhia das Letras, 1998), do escritor e professor de filosofia norueguês Jostein Gaarden, conta a história de uma menina que vive intensamente e, ao aprender, ela vai anotando tudo num caderninho, porque ela está morrendo e a sua história é uma preparação para morte. Da obra destaco os trechos: [...] Este diário era um livrinho de apontamentos com capa de tecido que um médico lhe oferecera no hospital. Os fios de seda, em preto, verde e vermelho, brilhavam contra a luz. Ela não tinha disposição para escrever no diário, nem tão-pouco havia muito que escrever, no entanto, tinha decidido que, enquanto permanecesse de cama, havia de registrar os seus pensamentos. E prometera que nunca eliminaria aquilo que anotara, cada palavra ficaria registrada até ao Dia Final. Que estranho seria ler aquilo quando fosse crescida. Na primeira folha, ela escrevera: NOTAS PESSOAIS DE CECILIE SKOTBU. E voltou a deitar-se sem forças sobre a almofada, tentando escutar o que se passava lá em baixo. De quando em vez, ouvia a mãe mexer nos talheres; a não ser isso, a casa estava mergulhada em silêncio absoluto... Os outros chegariam da igreja a qualquer momento. O Natal soaria a cada instante. Quando não ouviam os sinos da igreja de Skotbu, eles subiam as escadas para os ouvir melhor. Mas este ano Cecilie não conseguia ouvir os sons do Natal a subir pelas escadas. Ela estava doente, não apenas ligeiramente doente, como acontecera em Outubro e Novembro. Agora ela estava tão debilitada, que o Natal era como uma mão cheia de areia que se lhe escapava por entre os dedos, enquanto dormia ou dormitava. Mas, ao menos, escapou ao internamento no hospital, que estava decorado com motivos de Natal desde o início de Dezembro. Ainda bem que já tinha vivido outros Natais. Cecilie achava que o Natal era a única coisa que se mantinha inalterável em Skotbu. Durante vários dias, as pessoas faziam o mesmo que haviam feito, ano após ano, sem pensar por que o faziam. Costumavam dizer: "É a tradição." E bastava.Nos últimos dias, ela tentara acompanhar o que se passava no andar de baixo. Os ruídos provenientes da cozinha e da montagem das decorações subiam até ao andar de cima, como pequenas bolhas de som. Cecilie imaginou que o rés-do-chão era a Terra e que ela se encontrava no Céu. [...] Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos. [...] Veja mais aqui.

GUERRA NO RECIFE – No livro Elegias (Jornal de Letras, 1952), do poeta, jornalista, professor e memorialista Mauro Mota (1911-1984), encontro o poema Boletim Sentimental da Guerra no Recife, o qual transcrevo a seguir: Meninas, tristes meninas, / de mão em mão hoje andais. / Sois autênticas heroínas / da guerra, sem ter rivais. / Lutastes na frente interna / com bravura e destemor. / À vitória aliada destes / o sangue do vosso amor. / Por recônditas feridas, / não ganhastes as medalhas, / terminadas as batalhas / de glórias incompreendidas. / Éreis tão boas pequenas. / Éreis pequenas tão boas! / De várias nuanças morenas, / ó filhas de Pernambuco, / da Paraíba e Alagoas. / Tínheis de quinze a vinte anos, / tipos de colegiais, / diante dos americanos, / dos garbosos oficiais, / do segundo time vasto / dos fuzileiros navais / prontos a entregar a vida / para conseguir a paz, / varrer da face do mundo / regimes ditatoriais / e democratizar todas / as terras continentais / a começar pelo sexo / das meninas nacionais. / Iniciou-se então a fase / de convocação e treino / todos os dias na Base. / Ah! com que pressa aprendíeis, / só pela conversa quase! / Dentro de menos de um mês / sabíeis falar inglês. / E os presentes? Os presentes / eram vossa tentação. / Coisas que causavam aqui / inveja e admiração: / bolsas plásticas, a blusa / de alvas rendas do Havaí, / bicicletas "made in USA", / verdes óculos "Ray Ban". / Era um presente de noite / e outro dado de manhã, / verdadeiras maravilhas / da indústria de Tio Sam. / E as promessas? As promessas / eram vossa sedução. / acreditáveis que elas / não eram mentira, não. / Um "Frazer" no aniversário, / passeios de "Constellation", / num pulo alcançar Miami, / almoçar na Casa Branca, / descer a Quinta Avenida, / fazer "piquet" pela Broadway / ver a "première" no Cine / junto dos artistas, com / eles todos na platéia. / Ouvir na "Opera House", / numa noite Toscanini, / na outra noite Lili Pons. / Com tanto "it" e juventude / podíeis testes ganhar, / ser estrelas de Hollywood, / ciúmes de Hedy Lamarr. / Ah! bom tempo em que corríeis, / "pés descalços, braços nus, / atrás das asas ligeiras / das borboletas azuis". / Ó prematuras mulheres, / fostes, na velocidade / dos "jeeps", às "garconières" / da Praia da Piedade. / Quase que se rebentavam / vossos úteros infantis / quando veio o telegrama / da tomada de Paris. / Ingênuas meninas grávidas, / o que é que fostes fazer? / Apertai bem os vestidos / pra família não saber. / Que os indiscretos vizinhos / vos percam também de vista. / Saístes do pediatra / para o ginecologista. / "Babies" saxonizados, / que só mamam vitaminas, / são vossos "babies", meninas, / em vários cantos gerados, / mas "mapples" dos automóveis, / no interior das cantinas, / da praia na branca areia, / em noites sem lua cheia. / Meninas, tristes meninas, / vossos dramas recordai, / quando eles no armistício, / vos disseram "Good bye". / Ouvireis a vida toda / a ressonância do choro / dos vossos filhos sem pai. Veja mais aqui.


ACONTECEU EM IRKUTSK & OS HOMENS SÃO DE MARTE! – A atriz de teatro, cinema e televisão Irene Ravache, também é diretora teatral e iniciou sua carreira em 1961 quando atuou no espetáculo Aconteceu em Irkutsk e, logo depois, em 1962, começou a fazer um curso de interpretação na Fundação Brasileira de Teatro (FBT). A partir de então, atuou em diversas peças teatrais como Eles não usam black-tie (1963), Aonde vais, Isabel? (1963), Pindura saia (1966), A cozinha (1968), A ratoeira (1971), Os inocentes (1972), Roda cor de roda (1975), Os filhos de Kennedy (1977), Bodas de papel (1978), Tem um psicanalista na nossa cama (1980), Pato com laranja (1980), Afinal uma mulher de negócios (1981), Filhos do silêncio (1982), De braços abertos (1984), Uma relação tão delicada (1989), Eu me lembro (1995), Brasil S/A (1996), Inseparáveis (1997), Intimidade indecente (1997) e A reserva (2008). No cinema sua trajetória começa com Geração em fuga (1972) até Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou! (2014). Para ela, aplausos de pé! Veja mais aqui.

A DAMA FANTASMA – O filme noir A dama fantasma (Phantom Lady, 1944), dirigido pelo cineasta alemão radicado nos Estados Unidos Robert Siodmak (1900-1973), baseado no livro homônimo do romancista estadunidense Cornell Woolrich (1903-1968), conta a história de um cidadão que passa por uma má fase no casamento e que, certa noite, foi se confortar num bar, no qual passa a ser acompanhado por uma mulher misteriosa que usava um chapéu. Quando volta para casa, ele encontra a esposa estrangulada. Ao tentar provar sua inocência, ninguém do bar se lembra de ter visto a mulher de chapéu. O destaque do filme é a belíssima atriz estadunidense Ella Raines (1920-1988). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
Imagem: Female nude and putti with mask, do pintor, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo espanhol Pablo Picasso (1881-1973). Veja mais aqui e aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
La Liseuse de Grundworth (1935)
Veja mais aqui.


GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...