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quarta-feira, novembro 27, 2019

JACK LONDON, DUÍLIA DE MELLO, ISADORA DUNCAN & MINEHAHA MULHER DO BÚFALO


OS SEIOS DE ISADORA - A vida não é um sonho. Como se fosse, assim se fez para a caçula do banqueiro que faliu e se foi, da professora de música numa casa onde só o amor à arte e sonhos, mais nada, frio e fome a cada dia. O incêndio a desapropriou: a vida na rua, à beira da indigência. A escola sufocava o fogo ardente de sua meninice maltrapilha, nem um centavo no bolso. Os sonhos continuavam sonhos, selvagem de nascença, geminiana jamais domesticada, o lema sem limites. Até que seu corpo as ondas do mar, a água, o vento, as plantas: a nudez grega, a vitalidade desinibida e avassaladora, nenhuma ninfa ou fada, música e poesia na rebeldia descalça de seios à mostra na túnica transparente, cabelos soltos, corpo livre aos improvisos irreverentes, decididamente escandalosa, desnudada, aplaudida, exaltada. Fez-se raposa comunista e os horrores dos fuzilados do czar pelo pão da miséria, engasgada pelas lágrimas indignadas: cortejo interminável dos infelizes, aos ombros seus mártires mortos e era só uma menina dançando num jardim, a dança futura pela causa da humanidade, impulsiva, imprevidente. Até na morte dos filhos no rio Sena, a tristeza com os nervos em frangalhos. Os sonhos continuavam sonhos e descia do Olimpo, os seios à mostra com seu inesquecível fascínio, sua dissimulação a girar cabeças coroadas e casacudas, sempre ardente, às breves e arrasadoras aventuras amorosas, generosa e maternal com seus recursos secretos e imprevisíveis A alma se desprendia do corpo e os seios à mostra: o amor fraternal: o sonho do adeus ao brutal velho mundo. Incorrigível perdulária a ruminar, era assim que era: revolucionária e espontânea. O rosto devastado pelo ocaso: álcool e dívidas, a autobiografia. Os sonhos continuavam sonhos, seios à mostra e a echarpe no Bugatti conversível vermelho, a despedida para o amor insólito e o estrangulamento. O estopim decadente. Não mais sonhos para dormir o pesadelo de nunca mais nos seios floridos e finalmente escondidos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Estamos passando por um momento muito difícil, de descrédito. As pessoas acham que ciência é religião, que se acredita ou não se acredita. Não é assim. Ciência é baseada em fatos, não precisa de crença. O fato existe, a gente interpreta o fato com método científico. É com muita tristeza que vejo esse passo que a humanidade está dando. Tenho impressão que isso é passageiro, que é só uma regressão que estamos vivendo porque houve um certo descuido, principalmente, dos cientistas que precisam comunicar a ciência todos os dias ao público, e precisa educar o jovem para a ciência. Os cientistas no mundo todo acharam que a escola estava educando o suficiente e demonstrando a importância da ciência. Espero que todos os cientistas acordem, porque passou da hora de comunicar a ciência. É uma coisa muito difícil, não é todo mundo que tem talento de passar conhecimentos difíceis para uma linguagem simples. [...]. Trecho da entrevista Estamos no caminho errado (Agência Brasil-EBC, 2019), da astrônoma e professora de Física e Astronomia da University Washington, pesquisadora do Goddard Space Flight Center – NASA, e autora do livro Vivendo com as Estrelas (PandaBooks, 2009), Duília de Mello, falando sobre pesquisa espacial e divulgação científica, concedida ao jornalista Gilberto Costa. Veja mais aqui.

MINEHAHA, A MULHER DO BÚFALO
[...] É uma lenda básica da tribo Blackfoot que originou seu ritual da dança dos búfalos onde eles invocam a cooperação dos animais no jogo da vida. Se você levar em conta o tamanho de algumas dessas tribos percebe que para alimentá-los era preciso muita carne. E uma forma de ter carne para o inverno era fazer estourar uma manada de búfalos e fazê-los cair do alto de um rochedo. Essa história se passa com a tribo Blackfoot muito tempo atrás. Eles não conseguiam fazer os búfalos cair do penhasco; os animais se aproximavam e se desviavam. Eles não iam conseguir carne para o inverno. Certa manhã uma mocinha de uma das cabanas vai buscar água no poço para a família. E ela diz: "Ah, se vocês caíssem eu me casaria com um de vocês". E para sua surpresa eles todos vêm e começam a despencar. Essa foi a primeira surpresa. A segunda surpresa foi quando um dos búfalos velhos, o feiticeiro do rebanho, diz: "Tudo bem, você vem comigo". Ela diz: "Ah, não!" Ele diz: "Sim, você prometeu. Nós cumprimos a nossa parte, minha família está morta lá embaixo. Agora você virá comigo". De manhã, a família dela acorda e cadê a Minehaha? O pai procura e diz: "Ela fugiu com um búfalo". Ele percebe pelas pegadas. Então diz: "Vou busca-la". Calça seus mocassins, seu arco e flecha e vai para a planície. Depois de caminhar bastante fica com vontade de descansar e chega a um lugar chamado Charco dos Búfalos, onde os animais gostam de vir rolar na lama para se refrescar e se livrar dos piolhos. Ali começa a pensar no que fazer quando chega uma pega; é um pássaro de plumagem vistosa que tem dons especiais qualidades mágicas. Sim, mágicas. E o homem lhe diz: "Oh, belo pássaro, minha filha fugiu com um búfalo. Você a viu? Poderia encontrá-la nessa planície?" Ele responde: "Vi uma linda garota junto com os búfalos perto daqui". E o homem diz: "Você poderia ir até lá e dizer a ela que seu pai está aqui?" O pássaro voa até a garota no meio dos búfalos que estão dormindo. Não sei o que ela estava fazendo, tricô ou algo assim. O pássaro chega e diz: "Seu pai está lá no charco esperando por você". Diz ela: "Isso é terrível; é muito perigoso! Esses búfalos podem nos matar. Diga a ele que me espere, vou dar um jeito". Então seu marido búfalo acorda, tira um dos chifres e lhe diz: "Vá até o charco buscar água para mim". Ela pega o chifre, vai até o charco e lá está seu pai. Ele lhe diz: "Venha". Ela diz: "Não, é muito perigoso. O rebanho inteiro vai nos perseguir. Acharei um jeito; agora me deixe voltar". Ela apanha água e volta. Seu marido búfalo diz: "Fi, fá, fo sinto um cheiro de índio!". Ela diz: "Nada disso!". E ele diz: "Sim, com certeza". Ele dá um mugido de búfalo, todos se levantam e fazem uma dança lenta, com os rabos levantados. Vão até o charco e pisoteiam o pobre homem até ele desaparecer; ficar em pedacinhos. A garota chora e seu marido búfalo diz "Você está chorando?". "Esse é o meu pai", diz ela. "Ah é? E nós? Ali estão nossos filhos, mulheres, pais; todos mortos. E você aqui chorando pelo seu pai!", diz ele. Mas parece que ele era bonzinho; fica com pena e diz: "Se você conseguir trazer seu pai de volta à vida, eu a deixo ir embora". Então ela diz ao pássaro: "Procure pelo chão e veja se encontra um pedacinho do meu pai". O pássaro vai ciscando e acaba trazendo um ossinho. E a garota diz: "Isso já basta. Vamos colocar isso aqui no chão"; ela coloca o cobertor sobre o ossinho e canta uma canção mágica, de grande poder. E veja só, um homem debaixo do cobertor. Ela olha, é seu pai, mas ainda não está respirando. Ela continua cantando; ele fica de pé e os búfalos ficam espantadíssimos. Dizem: "Por que você não faz isso por nós? Nós ensinaremos vossa dança e depois que vocês matarem nossas famílias, você dança, canta essa canção e nós voltaremos à vida". Esta é a ideia básica: que através do ritual se alcança a dimensão que transcende a temporalidade, a dimensão de onde vem a vida e para onde volta. [...]
MINEHAHA, A MULHER DO BÚFALO – Extraída da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do mitologista, escritor e professor estadunidense Joseph Campbell (1904-1987), com edição de Bill Moyers e organizado por Betty Sue Flowers, fruto de uma série de conversas mantidas entre o autor e o jornalista editor, numa combinação de sabedoria e humor, tratando sobre o casamento, os nascimentos virginais, a trajetória do herói, o sacrifício ritual, entre outras. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte não é, de modo nenhum, necessária. Tudo o que é preciso para tornarmos o mundo mais habitável é o amor. O corpo do bailarino é simplesmente a manifestação luminosa da alma.
Não me lembro de nenhum sofrimento que tivera por causa da pobreza de minha casa. Essa pobreza nos parecia muito natural. Eu sofria somente na escola. Para uma criança sensível e orgulhosa, o sistema da escola pública era tão humilhante como o cárcere. Eu estava sempre em rebeldia.
ISADORA DUNCAN – A arte da coreógrafa e bailarina estadunidense Isadora Duncan (1877-1927), considerada a precursora da dança moderna, aclamada por suas apresentações em todo o planeta. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE JACK LONDON
Eu não vivo para o que o mundo pensa de mim, mas para o que eu penso de mim mesmo.
A obra do escritor, jornalista e ativista estadunidense Jack London (1876-1916) aqui e aqui.


quinta-feira, novembro 23, 2017

GALEANO, BOLDRIN, FLORA PURIM, CAMPBELL, JACI BEZERRA, BRAGINSKY, ADONIRAN, INGRID PITT, RESILIÊNCIA & QUIPAPÁ

A ESCRITURA DO VISINVISÍVEL – A arte do pintor ucraniano Arthur Braginsky. – O que vejo a lágrima embaça porque tudo é muito adverso e aversivo, quantas turbulências de ânimo para sucumbir às chateações dos que querem por que querem, dos que se acham donos do mundo, as arengas pelos esconderijos familiares, entre conhecidos como rejeitado, a quem recorrer diante de tantas ciladas: extraio a flor dos meus infernos, sorvo meu próprio veneno, a culpa é minha, somente minha! Transito o centro da gravidade: todos os destroços em minha direção, atraio toda sorte bregueços antipáticos, sou soterrado por meus próprios desvarios, fracassos, idiosincrasias: punhais que golpeiam da aurora ao crepúsculo. Resto-me em remendos os quais me desfaço em trapos: a mendicância é o meu auto-retrato, meu flagelo, sou desordenado porque revelei apenas umbigo, sobram-me ruínas e de que fui burlado desde sempre. As pálpebras pesam as sombras que me assombram, poemas se dissolvem nas pulsações e eu traço tudo que me surge e não pretendo sequer negar o indesejável, vela ao vento, sem remo, âncoras, tudo está no código das coisas, e se de outra coisa tampouco seja qualquer uma ou nenhuma, pra mim opinião alguma ou juízo de valor jamais, melhor brincar de cabra cega para descobrir amanhã e me divertir com meu esforço de nada e o meu esboço de mundo que não é nada se esvai aos garranchos e guardo nas mãos o significado de tudo. Sigo distribuindo acenos e afetos, beijabraços. Valho-me do oxigênio dos vegentais, sou mais canhestra que presumo, apenas dois dedos de altura e dissidente de minha própria inutilidade, de qualquer maneira ao deus-dará. E o que se passa comigo pouco importa, o que penso estraga a surpresa, jogo-me e tudo tem seu limite, menos eu, que morro e renasço a cada instante, e se não vi ou vivo nada igual, permito-me dizer o que nunca fora ou o que já não seja tarde demais pra desvaloirizar o preço de nada, abandonado sem despedida, como se jogado na lata de lixo, pra viver na sarjeta e saber o oco mútuo, via de regra pronto pra devorar os tabus e andando e desandando e deixando passar o infinito até que tudo seja um dia revelado e descoberto dos tremores da Terra e cada um, de dois em dois, de três em três, ou muitos tremores mais temores e se tenho cada aprendizado na ponta da língua ou dos dedos, erro de mim bem mais que caminho ido, corrido e batido que saiu do lugar e hoje nem sei por onde vai. Lembranças quase muitas esborram mais que esquecimento, é triste perder a memória ou não existir mais na memória dos outros, pros que jogado na vala abandonado, insepulto, como dejeto, coisa de quem cai do afeto pra nunca mais. Ontem era tudo vivo, hoje não mais, a morte ronda, já nem o menino escapa, filho que se foi e teimo em viver, persevero e sou-me embaixo do travesseiro olhos acesos para prosseguir firme ao amanhecer. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a cantora Flora Purim & músicas dos seus principais álbuns como Stories to Tell (1974), Butterfly Dreams (1973), MPM (1964), Encounter (1976), Open your eyes can fly (1976), & show ao vivo com Airto Moreira no Ohne Filter, entre outros. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Temos guardado um silêncio bastante parecido com a estupidez [...], trecho da Proclamação Insurrecional da Junta Tuitiva na cidade de La Paz, em 16 de julho de 1809, extraído da obra As veias abertas da América Latina (Paz e Terra, 1979), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015).  Veja mais aqui.

RESILIÊNCIA – [...] Como uma planta vivaz, a resiliênci apode se desenvolver. Ela depende de vários fatores que estão frequentemente reunidos numa conjunção de acontecimentos e encontros, que parecem depender daquilo que chamamos de acaso. Em função desses encontros, de uma disposição interna e de acontecimentos particulares, a trajetória de vida de um ser humano pode ser profundamente modificada. [...] Na trajetória da resiliência, há frequentemente uma oportunidade fugidia e imprevisível, uma chance que pode ser aproveitada, mas não provicada, e que a capacidade de ter esperança de querer seguir em frente permite perceber em meio às provações da vida [...]. Trechos extraídos da obra A resiliência: a arte de dar a volta por cima (Vozes, 2007), de Rosette Poletti e Barbara Dobbs, considerando que a resiliência é a capacidade de manter-se, de 'proteger a integridade sob fortes pressões', assim como fazem os heróis de tragédias gregas, galãs da sétima arte, os líderes de empresas e chefes de exércitos: usam as dificuldades como trampolim para se fortalecer e vencer na vida. Veja mais aqui e aqui.

QUIPAPÁ – A origem do nome Quipapá possui diversas versões, entre elas, a de origem indígena dá conta de que se trata de uma planta tupi-guarani, da família das cactáceas, o quipá. Que no plural seria quipaquipá, resultando, por fim, em Quipapá que é a nomeação de umas das serras e de um dos rios que circundam a localidade; a de origem africana oriunda da palavra quipacá, significando asilo de fugitivos. Trata-se de um município que teve origem com a povoação ao redor de uma capela na freguesia de Quipapá, sendo desbravada por volta dos anos de 1630 a 1697, pelos negros foragidos que faziam parte do Quilombo dos Palmares. Ergueu-se oficialmente entre 1795/96, com a instalação da Fazenda das Panelas, sendo criado o distrito de Quipapá por força da Lei Provincial 432, de 23 de junho de 1857, ficando submisso ao município de Panelas. Alcançou a categoria de vila com a Lei Provincial 1402, de 12 de maio de 1879, e instalada em 18 de julho de 1879. A ascensão ao município ocorreu em 19 de maio de 1900, com a edição da Lei Estadual 432, separando-se de Panelas, e ganhando o distrito de Pau Ferro pela Lei 54, de 23 de nobembro de 1905. Assim sendo, é constituído dos distritos sede, Barra de Jangada, Jurema, Pau Ferro, Queimadas e São Benedito, onbde mais tarde o distrito de Jurema é também elevado à categoria de município. Em 1938, atravé do Decreto-lei nº 235, de 9 de dezembro de 1938, o distrito de São Sebastião da Barra foi extinto, sendo seu território anexado ao distrito de Quipapá e São Benedito, passando a ser constituído, a partir de 1939 até 1943, de quatro distritos: sede, Igarapeba, Pau Ferro e São Benedito. Em 1963, desmembra-se do município de Quipapá os distritos de Iraci e Igarapeba, para formar o novo município de São Benedito do Sul, ex-Iraci. Neste sentido, a divisão territorial de 31 de dezembro de 1963, consta o município constituído apenas de 2 distritos: sede e Pau Ferro, até os dias atuais. O município está situado na microregião da Zona da Mata Sul ou Mata Meridional pernambucana, fazendo divisa com os municípios de Panelas, São Benedito do Sul, Jurema e Canhotinho, municípios pernambucanos, e ainda Ibateguara e São José da Laje, municípios alagoanos. Veja mais aqui.

SEGUIR POR SUAS PRÓPRIAS PERNAS – [...] somos todos heróis ao nascer, quando enfrentamos uma tremenda transformação, tanto psicológica quanto física, deixando a condição de criaturas aquáticas, vivendo no fluido amniótico, para assumirmos, daí por diante, a condição de mamíferos que respiram o oxigênio do ar e que, mais tarde, precisarão erguer-se sobre os próprios pés [...]. Trechos extraídos da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987). Veja mais aqui.

A MULHER QUE MORREU DUAS VEZES - [...] o enterro pela rua abaixo rumo ao cemitério que ficava há uns bons par de caminho. Quando de repente o Nhô Joaquim, que era quem estava na alça direita, trupica numa pedra no meio do caminho, se desequilibra todo, fazendo com que os outros carregadores do caixão perdessem o rebolado. E lá vai o caixão pro chão, abrindo-se em seguida. E, para grande surpresa geral, a defunta tava viva. A cumadi tinha sofrido nada mais nada menos do que a tal de catalepsia. Aquele ataque onde a gente pensa que morreu mas não morreu. Surpresa e alegria, todos correm com lençóis para cobrir a dita defunda e poupá-la desse choque de morta. Levam-na pra casa e, à noite, foi uma grande festa de retorno, com direito à banda de música, chope e outros bichos. Afunal, a cumadi tinha voltado a viver noarraial do Pau Torto, junto com o cumpadi e para a alegria de todos. Passam-se anos e mais anos até que um dia a nossa personagem morre de novo. Agora de verdade. E lá vai o cortejo, rumo ao cemitério. Na alça esquerad, como da outra vez, o pesaroso marido. Na alça direita, o mesmo cumpadi de fé, Nhô Joaquim. Ao se aproximarem do mesmo lugar, onde o cumpadi Nhô Joaquim havia trupicado da outra vez da catalepsia, que era onde tinha uma pedra com a ponta pra cima, o marido olha de esguêio para o tal Nhô Joaquim e sentencia: Oh, cumpadi Joaquim! Vê se dessa vez ocê óia onde pisa. Se ocê trupicá de novo, eu te arrebento! Extraído da obra Contando causos (Nova Alexandria, 2001), do músico, ator e apresentador de tevê, Rolando Boldrin. Veja mais aqui.

TEMA PARA UMA CANÇÃO LÍRICA - No verão dos teus olhos não escondas / a água da praia, clara: / se ondulas e ondeias, tu és onda / e, apenas onda, vagas. / Não magoas se feres como a lâmina / de uma navalha aberta: / a onda que és é o dia que me chama / entre as brancas cobertas. / Onda asstando a onda que nos cerca, / nos deixas fundas marcas: / a pedra que o olhar afoga e onde começas, / a onda que a nós desgasta. / Tua onda de andorinhas desmanchada / entre os alvos lençóis, / que constrói e desmancha, onda, a abrasada / onda que abrasa a nós. Poema do livro A onda construída, extraído de Linha d’água (CEPE, 2007), do poeta Jaci Bezerra. Veja mais aqui e aqui.

TIRO AO ÁLVARO
De tanto levar
"frexada" do teu olhar
Meu peito até
Parece sabe o que?
"táuba" de tiro ao "álvaro"
Não tem mais onde furar
Teu olhar mata mais
Do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que pexeira de baiano
Teu olhar mata mais
Que atropelamento
De automóver
Mata mais
Que bala de revorver
.
Música de Adoniran Barbosa & Oswaldo Molles (Fromatado Brasil/Seresta Edições Musicais), gravada pela imortal musestrela, Elis Regina (Elis, 1972).

Veja mais:
A poesia de Paul Celan aqui.
O pensamento de Caio Prado Júnior aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

TODO DIA É DIA DE INGRID PITT
Hoje é dia da atriz polonesa Ingrid Pitt (1937-2010).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor ucraniano Arthur Braginsky.
Veja mais aqui.


quinta-feira, agosto 17, 2017

KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele durante toda nossa infância. Espalhafato de conversa fiada, reinações de comer tempo e espaço, coisas do possível mais inventado que se possa crer: a gente vivia além da conta mesmo. Da beira do rio os meus olhos vermelhos na minha migração pra Letácio Montenegro – onde por conta de um leite achocolatado no recreio do Grupo José Bezerra, fui acometido duma hepatite de meses -, daí pro Caçotinho que era a Cohab, passando pelo Beco do Mijo – no qual dei um mergulho indesejado de cima da casa na lavanderia entupida de frascos -, Beco do Capim do namorico aprumado e jogadas de bola, Rua da Aurora, Rua Nova até a Praça Ismael Gouveia, era mudando de endereço e de escola. E ele lá, no mesmo endereço de sempre: a casa de Pai Lula & Carma, reduto de nossas mais cabeludas presepadas. Adolescemos juntos: chulé, pigarros, lapadas e trapalhadas. Tudo foi tão rápido que parece que foi ontem. Quando eu chegava na casa dele, ele lá inquieto altas curtições: Beatles, João Gilberto & Bossa Nova, David Bowie, Alice Cooper, Rolling Stones, Tropicália & dos Mutantes, Woodstock, Bob Dylan & Joan Baez, Simon & Garfunkel, Elvys, Elis, Frank Zappa, Led Zeppelin, do iê-iê-iê da Jovem Guarda, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Tim Maia, maior salada com levada de tudo no meio das mais diferentes e efervescentes tendências musicais, quantas linguagens e ele incorporando de tudo no seu repertório pessoal, com seu microfone e plateia invisíveis e eu solando uma guitarra imaginária do bucho acompanhando tudo. Ele cantava tudo o que era de tons e sons, isso era década de 1970. E logo escapuliu a cantar por aí, no tempo em que havia o predomínio dos bailes com os sucessos do rádio, dos programas de auditórios, dos temas de novelas na época dos vinis marcados pelas gravadoras e os jabás. Nem vi direito e ele já cantava por aí, botando pra fora sua sensibilidade artística, participando de festivas e feiras de música, imprimindo sua personalidade, uma voz diferente, um performer afinado, ousado e cantando de tudo. Em um dado momento ele sumira, dera uma de hippie e picara a mula mundo afora. Cadê-lo? Nem sinal. Quando dei por mim, eu já estava em Recife e a gente se cruzando, trocando ideias e tons durante toda a primeira metade dos anos 1980. De lá pra cá, uma ou outras vezes, bebericando com pinoias, enterrando nossos mortos, ressurgindo a cada dia, revivendo cada hora. Foi aí que veio a maior sacada: ele aprumou uma parceria com Genésio Cavalcanti e Zé Linaldo de sair cada coisa bonita de nem saber direito no meio de tantas qual melhor. O que vale de mesmo fica na entrevista que se encontra mais abaixo, confira. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RIO UNA
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar 
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
É que ele nasce pelas bandas de Capoeiras
Vai descendo as cachoeiras
Ligeiro que nem o vento
Chega em São Bento ele sorri de alegria
A correnteza tá dizendo
Se eu pudesse eu não descia
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Pede licença e entra em Cachoeirinha
É quando vê quatro vaquinhas
Bebendo do seu produto
Se eu pudesse
Eu demorava um tiquinho
Mas vou passar em Altinho
Nem que seja um minuto
Chega em Altinho
Ele se alegra e se agita
Quando vê a moça bonita
Na barreira matutina
Para Agrestina ele corre com emoção
As águas batendo nas pedras
Até parece uma canção
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Chega em Palmares
Ele mata a saudade
Passa dentro da cidade
Valente como um leão
Em Água Preta ele deixa de ser arisco
Respeita o padre Francisco 
E pede a sua benção
Aí ele entristece 
E bota pra chorar
Se despede de Barreiros
E emboca pra dentro do mar
Música extraída do álbum Meu Cantar (Cactus/RCA, 1982), do cantor e compositor Jorge de Altinho. Veja mais aqui e aqui .

RIO UNA – A despeito da opinião dos entendidos, que prognosticavam uma trovoada de maiores proporções para o dia seguinte, o tempo amanheceu firme, sol quente de verão. Mas o povo em geral se mostrava satisfeito, certo de que nem tão cedo faltaria água na cidade. O Una transbordara, os açudes dos arredores estavam sangrando, as cisternas das casas residenciais com o seu fornecimento garantido para muitos meses. Comentavam-se nos cafés, nas barbearias, na farmácia, os estragos causados pela chuva. Estragos, todavia, benfazejos, que a todos contentavam. [...] Trecho extraído da obra Jutaí menino (Bagaço, 1995), do escritor Gilvan Lemos (1928-2015). Veja mais aqui.

O FUTURO DO HOMEM – Há muito distúrbio e corrupção no mundo; as pessoas vivem extremamente perturbadas. É perigoso andar pelas ruas. Quando falamos em estar livres do medo, queremos a liberdade exterior – estar livres do caos, da anarquia, da ditadura. Mas nunca investigamos nem queremos saber se há uma liberdade interior, uma mente livre. Essa liberdade é real ou teórica? Consideramos o Estado como um obstáculo à liberdade. Os comunistas e outros povos totalitaristas afirmam que não existe essa tal de liberdade; o Estado, o governo, é a única autoridade. E estão suprimindo todas as formas de liberdade. Que espécie de liberdade, portanto, querem? A externa? Fora de nós? Ou a liberdade interior? Quando falamos de liberdade, trata-se de liberdade de escolha entre este e aquele governo, aqui e lá, entre liberdade exterior e interior? A psique interna sempre conquista o exterior. a psique, isto é, a estrutura interior do homem (seus pensamentos, suas emoções, ambições, ações, ganância) sempre conquista o exterior. assim, onde buscar a liberdade? Podemos estar livres da nacionalidade que nos dá uma sensação de segurança? Pode haver liberdade em relação a todas as superstições, dogmas e religiões? Só poderá surgir uma nova civilização através da verdadeira religião, e não através da superstição e do dogma nem das religiões tradicionais. Trecho extraído da obra Sobre a liberdade (Cultrix, 1991), do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui, aqui, aqui, & aqui.

DESENVOLVIMENTO & FATOR HUMANO - [...] o desenvolvimento econômico, na forma em que ele se processa hoje em dia, é essencialmente uma questão de criação e assimilação de progresso tecnológico. Essa afirmação deveria ser completada por outra: o progresso tecnológico é principalmente uma questão de qualidade do fator humano. Estamos aqui em face do mais complexo de todos os problemas que coloca uma política de desenvolvimento: melhorar o fator humano toma tempo e somente é possível se se dispõe de matrizes adequadas. Abundantes estudos hoje disponíveis demonstram que o nível de desenvolvimento de um país é função da massa de investimentos incorporados no fator humano. Desta forma, o problema do progresso tecnológico e o da melhor do fator humano, estarão sempre intimamente relacionados. [...]. Trecho extraído da obra Um projeto para o Brasil (Saga, 1968), do economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). Veja mais aqui e aqui.

VIVER A VIDA - Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. [...] “Vá em frente, viva a sua vida, é uma boa vida – você não precisa de mitologia”. Não acredito que se possa ter interesse por um assunto só porque alguém diz que isso é importante. Acredito em ser capturado pelo assunto, de uma maneira ou de outra. Mas você poderá descobrir que, com uma introdução apropriada, o mito é capaz de capturá-lo. E então, o que ele poderá fazer por você, caso o capture de fato? Um de nossos problemas, hoje em dia , é que não estamos familiarizados com a literatura do espírito. Estamos interessados nas notícias do dia e nos problemas do momento. Antigamente, o campus de uma universidade era uma espécie de área hermeticamente fechada, onde as notícias do dia não se chocavam com a atenção que você dedicava à vida interior, nem com a magnífica herança humana que recebemos de nossa grande tradição – Platão, Confúcio, o Buda, Goethe e outros, que falam dos valores eternos, que têm a ver com o centro de nossas vidas. Quando um dia você ficar velho e, tendo as necessidades imediatas todas atendidas, então se voltar para a vida interior, aí bem, se você não souber onde está ou o que é esse centro, você vai sofrer. As literaturas grega e latina e a Bíblia costumavam fazer parte da educação de toda gente. Tendo sido suprimidas, toda uma tradição de informação mitológica do Ocidente se perdeu. Muitas histórias se conservavam, de hábito, na mente das pessoas. Quando a história está em sua mente, você percebe sua relevância para com aquilo que esteja acontecendo em sua vida. Isso dá perspectiva ao que lhe está acontecendo. Com a perda disso, perdemos efetivamente algo, porque não possuímos nada semelhante para pôr no lugar. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se você não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta. Mas assim que for apanhado pelo assunto, haverá um tal senso de informação, de uma ou outra dessas tradições, de uma espécie tão profunda, tão rica e vivificadora, que você não quererá abrir mão dele.[...]. Trechos extraídos da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987), também autor da obra Mito e transformação (Ágora, 2008), nos quais defende que “o individuo precisa aprender a viver pelo seu próprio mito, o caminho para encontrar o seu mito é encontrar o seu entusiasmo”.

AS AMIZADES - [...] E eu fico apenas a refletir que as amizades políticas são sempre e naturalmente passageiras. Mas as que se firmaram sobre um ideal, no serviço de uma casa nobre, vão buscar, na eternidade de seus motivos, a força e a sobrevivência, que os interesses humanos não sabem e não podem encontrar. Trecho de Por amor às crianças pernambucanas (Jornal do Brasil, 23/11/1969), extraído da obra Assuntos pernambucanos (Tempo Brasileiro/Fundarpe, 1986), do jornalista, advogado, escritor, historiador e ensaísta Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000).

AS MULHERES, SEMPRE POR CIMA - Ainda que as acusações continuem apontando-nos como execráveis porcos chauvinistas, nós, com o cavalheirismo que o tempo nos ensinou, estamos sempre apoiando a mulher (da alta classe média) e tudo que ela representa em sua luta destemida em prol de não sabemos lá o quê. [...] Você ainda gosta de mulher? [...] Millôr Fernandes, jornalista, idade indefinível. Ex-praticante de tiro ao alvo sobre alvos vivos, na Argélia: “Como sexo, as mulheres são insuportáveis. Mas na hora do sexo não tem nada melhor”. Quando cara diz que fala por experiência é porque ainda não adquiriu a experiência pra calar a boca. [...] O ideal de nossos governantes é um cavalo que chegue em primeiro sem fazer cocô. [...] Há muitas formas de ser útil ao país. Uma delas é se locupletar discretamente. [...]. Trechos extraídos da obra Que país é este? (Nordica, 1978), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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sábado, agosto 08, 2015

PICASSO, GAARDEN, MAURO MOTA, OCO, RAVACHE, VASZARY, ELLA RAINES, MITOLOGIA & DESNORTEIO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DESNORTEIO – Duas grandes satisfações eu tive quando compus a música Desnorteio. Vou contar: a primeira grande emoção que tive foi que, com pouco tempo depois que deixei a música pronta, o meu amigo Wilson Monteiro me premiou com a grata surpresa de incluí-la no seu disco Cantarolando e, por tabela, ganhar um clipe primoroso feito pela arte da querida Meimei Corrêa. A música vingou, bão demais! A segunda, é que certo dia eu viajava na condução do hoje advogado Carlinhos Warumbi pela Alegro Trupe – promovida pela BoiBumbarte, dos amigos Susie Cysneiros & Wilson Miranda -, quando, a certa altura da viagem, eu contava das presepadas do meu amigo Marcos Palmeira, numa das noites de êxtase à beira da Lagoa Manguaba, e eu implicava com ele: - Mas pra que tanta se apenas uma basta? O condutor, na hora, disse-me: - Isso dá música! Nem havia dado conta disso, mas a frase me pegou por dias e dias seguidos. Destá. Quando montei os acordes, a harmonia e toda melodia, a frase povoava minha mente e me remetia a uma canção que ouvi nos anos 1980, de um cantor camaronês que muito me afeiçoara: Eboa Lotin (1942-1997), que é autor de mais de quatrocentas canções e que, na sua história de vida, conta-se que perdera seus pais aos três anos de idade e que, ainda muito jovem, devido a uma injeção de quinino, passou a ter uma atrofia que paralisou sua perna esquerda. Precocemente, aos oito anos de idade, ele se lançou na música, abandonando a escola no ensino primário para poder sobreviver. Só aos vinte anos de idade compusera sua primeira canção Mulema Mam (Meu coração). Entretanto, só se tornara famoso quando compôs o sawa Mbemb’a Mot’a pelo qual ganhou um prêmio que contava com a participação de Duke Ellington como jurado, oportunizando a gravação dos seus grandes sucessos Matumba Matumba e Bésombe, com os quais fora contemplado com o Prêmio Internacional Pan-Africano. Ele é autor de uma célebre frase incluída em uma das suas canções que foi destacada no discurso A natureza: santuário da humanidade (O Rosacruz, 2015), proferido por Martin Ibock: “Ah, meu irmão, por que ao invés de um copo d’água suficiente para tua sede, precisa de todo um oceano”. Era essa a frase do cantor que dava cloro pra minhas ideais e remoía tudo nas catracas do meu quengo. E quando li o discurso alguns dias atrás, me deparei novamente com ela, justamente essa frase que meu deu o mote para construir a letra de Desnorteio: Na minha vida eu levei muita pancada / Foi bordoada de quase rachar no meio / No desenfreio alinhei todo viés / Escapei de revestrés a ajeitar o desnorteio / No aperreio eu passei toda desdita / Fiz de prêmio pra conquista o que ganhei no pisoteio / Mas pra que tanta se apenas uma basta / Quanto mais a vida arrasta mais se aprende a lição / Eu vou menino e piso bredo nas manobras / Vai que um dia a sorte sobra / Pra aprumar a direção. / Eu dei topada, levei tombo e ralei mais / No ademais muita asneira no passeio / E no recreio da maior das presepadas / Fui gaiato nas quebradas, fiz vergonha sem ter freio / Pra cabeceio só queria era abafar / E a mulherada se achegar pra viver no meu rodeio [...] Hoje aprendi que na vida tudo prova / Não tem corcova que aguente a danação / Não dá mais não, ser roto do esfarrapado / Ou sujo do malavado, ser jeitoso sabidão / Ser outro então com a paz de responsável / Cultivando o sustentável modo de ser cidadão. É isso aí. E vamos aprumar a conversa aqui, aqui e aqui.

 Imagem: Nude Woman, do artista húngaro de Art nouveau Janos Vaszary (1867-1938).


Curtindo o álbum Pra ficar (2012), da Orquestra Contemporânea de Olinda.

AS MÁSCARAS DE DEUS – O livro As máscaras de Deus: mitologia primitiva (Palas Atenas, 1992), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987), trata sobre os contornos de uma nova ciência, o abismo do passado e o dialogo da ciência e da ficção, abordando a psicologia do mito, os agricultores e caçadores primitivos, a arqueologia do mito, sofrimento e extase, a lição da máscara, o enigma da imagem hereditária, as estampagens ou marcas da experiência, a esfera cultura das civilizações avançadas, o domínio dos reis imolados, o ritual amor-morte, a função do mito, limiares mitológicos do Paleolítico, Xamanismo, as cavernas paleolíticas, entre outros assuntos. Na obra destaco o trecho: [...] O olho do artista, como disse Thomas Mann, tem um viés mítico sobre a vida; por isso, precisamos abordar o mundo dos deuses e demônios – o carnaval de suas máscaras e o curioso jogo do “como se”, no qual o festival do mito vivo abole todas as leis do tempo, permitindo que os mortos voltem à vida e o “era uma vez” se torne o próprio presente – com o olho do artista. Porque, de fato, no mundo primitivo, onde temos que buscar a maioria dos indícios sobre a origem da mitologia, os deuses e demônios não são concebidos à maneira das realidades evidentes, rígidas e fixas. Um deus pode estar simultaneamente em dois ou mais lugares – como uma melodia ou sob a forma de uma máscara tradicional. E onde quer que ele surja, o impacto de sua presença é o mesmo: ele não é reduzido pela multiplicação. Além disso, a máscara em um festival primitivo é venerada e vivenciada como uma verdadeira aparição do ser mítico que ela representa – apesar de todo mundo saber que foi um homem que fez a máscara e que é um homem que a está usando. Mas, durante o tempo do ritual do qual a máscara faz parte, aquele que a estiver usando é também identificado com o deus. Ele não apenas representa o deus; ele é o deus. O fato literal de que a aparição seja composta por A, uma máscara; B, sua referência a um ser mítico; e C, um homem, é rejeitado pela mente e isso dá lugar a que a apresentação funcione independente dos valores, tanto do observador quanto do ator. Em outras palavras, houve uma mudança de perspectiva, da lógica da esfera secular normal, onde as coisas são vistas como diferentes umas das outras, para a esfera teatral ou representativa, onde as coisas são aceitas pelo que são enquanto vivenciadas, e a lógica é a do “faz-de-conta”, do “como se”. [...] Veja mais aqui.

ATRAVÉS DO ESPELHO – O livro Através do espelho (Companhia das Letras, 1998), do escritor e professor de filosofia norueguês Jostein Gaarden, conta a história de uma menina que vive intensamente e, ao aprender, ela vai anotando tudo num caderninho, porque ela está morrendo e a sua história é uma preparação para morte. Da obra destaco os trechos: [...] Este diário era um livrinho de apontamentos com capa de tecido que um médico lhe oferecera no hospital. Os fios de seda, em preto, verde e vermelho, brilhavam contra a luz. Ela não tinha disposição para escrever no diário, nem tão-pouco havia muito que escrever, no entanto, tinha decidido que, enquanto permanecesse de cama, havia de registrar os seus pensamentos. E prometera que nunca eliminaria aquilo que anotara, cada palavra ficaria registrada até ao Dia Final. Que estranho seria ler aquilo quando fosse crescida. Na primeira folha, ela escrevera: NOTAS PESSOAIS DE CECILIE SKOTBU. E voltou a deitar-se sem forças sobre a almofada, tentando escutar o que se passava lá em baixo. De quando em vez, ouvia a mãe mexer nos talheres; a não ser isso, a casa estava mergulhada em silêncio absoluto... Os outros chegariam da igreja a qualquer momento. O Natal soaria a cada instante. Quando não ouviam os sinos da igreja de Skotbu, eles subiam as escadas para os ouvir melhor. Mas este ano Cecilie não conseguia ouvir os sons do Natal a subir pelas escadas. Ela estava doente, não apenas ligeiramente doente, como acontecera em Outubro e Novembro. Agora ela estava tão debilitada, que o Natal era como uma mão cheia de areia que se lhe escapava por entre os dedos, enquanto dormia ou dormitava. Mas, ao menos, escapou ao internamento no hospital, que estava decorado com motivos de Natal desde o início de Dezembro. Ainda bem que já tinha vivido outros Natais. Cecilie achava que o Natal era a única coisa que se mantinha inalterável em Skotbu. Durante vários dias, as pessoas faziam o mesmo que haviam feito, ano após ano, sem pensar por que o faziam. Costumavam dizer: "É a tradição." E bastava.Nos últimos dias, ela tentara acompanhar o que se passava no andar de baixo. Os ruídos provenientes da cozinha e da montagem das decorações subiam até ao andar de cima, como pequenas bolhas de som. Cecilie imaginou que o rés-do-chão era a Terra e que ela se encontrava no Céu. [...] Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos. [...] Veja mais aqui.

GUERRA NO RECIFE – No livro Elegias (Jornal de Letras, 1952), do poeta, jornalista, professor e memorialista Mauro Mota (1911-1984), encontro o poema Boletim Sentimental da Guerra no Recife, o qual transcrevo a seguir: Meninas, tristes meninas, / de mão em mão hoje andais. / Sois autênticas heroínas / da guerra, sem ter rivais. / Lutastes na frente interna / com bravura e destemor. / À vitória aliada destes / o sangue do vosso amor. / Por recônditas feridas, / não ganhastes as medalhas, / terminadas as batalhas / de glórias incompreendidas. / Éreis tão boas pequenas. / Éreis pequenas tão boas! / De várias nuanças morenas, / ó filhas de Pernambuco, / da Paraíba e Alagoas. / Tínheis de quinze a vinte anos, / tipos de colegiais, / diante dos americanos, / dos garbosos oficiais, / do segundo time vasto / dos fuzileiros navais / prontos a entregar a vida / para conseguir a paz, / varrer da face do mundo / regimes ditatoriais / e democratizar todas / as terras continentais / a começar pelo sexo / das meninas nacionais. / Iniciou-se então a fase / de convocação e treino / todos os dias na Base. / Ah! com que pressa aprendíeis, / só pela conversa quase! / Dentro de menos de um mês / sabíeis falar inglês. / E os presentes? Os presentes / eram vossa tentação. / Coisas que causavam aqui / inveja e admiração: / bolsas plásticas, a blusa / de alvas rendas do Havaí, / bicicletas "made in USA", / verdes óculos "Ray Ban". / Era um presente de noite / e outro dado de manhã, / verdadeiras maravilhas / da indústria de Tio Sam. / E as promessas? As promessas / eram vossa sedução. / acreditáveis que elas / não eram mentira, não. / Um "Frazer" no aniversário, / passeios de "Constellation", / num pulo alcançar Miami, / almoçar na Casa Branca, / descer a Quinta Avenida, / fazer "piquet" pela Broadway / ver a "première" no Cine / junto dos artistas, com / eles todos na platéia. / Ouvir na "Opera House", / numa noite Toscanini, / na outra noite Lili Pons. / Com tanto "it" e juventude / podíeis testes ganhar, / ser estrelas de Hollywood, / ciúmes de Hedy Lamarr. / Ah! bom tempo em que corríeis, / "pés descalços, braços nus, / atrás das asas ligeiras / das borboletas azuis". / Ó prematuras mulheres, / fostes, na velocidade / dos "jeeps", às "garconières" / da Praia da Piedade. / Quase que se rebentavam / vossos úteros infantis / quando veio o telegrama / da tomada de Paris. / Ingênuas meninas grávidas, / o que é que fostes fazer? / Apertai bem os vestidos / pra família não saber. / Que os indiscretos vizinhos / vos percam também de vista. / Saístes do pediatra / para o ginecologista. / "Babies" saxonizados, / que só mamam vitaminas, / são vossos "babies", meninas, / em vários cantos gerados, / mas "mapples" dos automóveis, / no interior das cantinas, / da praia na branca areia, / em noites sem lua cheia. / Meninas, tristes meninas, / vossos dramas recordai, / quando eles no armistício, / vos disseram "Good bye". / Ouvireis a vida toda / a ressonância do choro / dos vossos filhos sem pai. Veja mais aqui.


ACONTECEU EM IRKUTSK & OS HOMENS SÃO DE MARTE! – A atriz de teatro, cinema e televisão Irene Ravache, também é diretora teatral e iniciou sua carreira em 1961 quando atuou no espetáculo Aconteceu em Irkutsk e, logo depois, em 1962, começou a fazer um curso de interpretação na Fundação Brasileira de Teatro (FBT). A partir de então, atuou em diversas peças teatrais como Eles não usam black-tie (1963), Aonde vais, Isabel? (1963), Pindura saia (1966), A cozinha (1968), A ratoeira (1971), Os inocentes (1972), Roda cor de roda (1975), Os filhos de Kennedy (1977), Bodas de papel (1978), Tem um psicanalista na nossa cama (1980), Pato com laranja (1980), Afinal uma mulher de negócios (1981), Filhos do silêncio (1982), De braços abertos (1984), Uma relação tão delicada (1989), Eu me lembro (1995), Brasil S/A (1996), Inseparáveis (1997), Intimidade indecente (1997) e A reserva (2008). No cinema sua trajetória começa com Geração em fuga (1972) até Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou! (2014). Para ela, aplausos de pé! Veja mais aqui.

A DAMA FANTASMA – O filme noir A dama fantasma (Phantom Lady, 1944), dirigido pelo cineasta alemão radicado nos Estados Unidos Robert Siodmak (1900-1973), baseado no livro homônimo do romancista estadunidense Cornell Woolrich (1903-1968), conta a história de um cidadão que passa por uma má fase no casamento e que, certa noite, foi se confortar num bar, no qual passa a ser acompanhado por uma mulher misteriosa que usava um chapéu. Quando volta para casa, ele encontra a esposa estrangulada. Ao tentar provar sua inocência, ninguém do bar se lembra de ter visto a mulher de chapéu. O destaque do filme é a belíssima atriz estadunidense Ella Raines (1920-1988). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
Imagem: Female nude and putti with mask, do pintor, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo espanhol Pablo Picasso (1881-1973). Veja mais aqui e aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
La Liseuse de Grundworth (1935)
Veja mais aqui.


GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...