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terça-feira, março 06, 2018

GRAZIA DELEDDA, RACINE, KIRI TE KANAWA, IVAN ILLICH, FLORA PURIM, ROBERT HOOKE & CYANE PACHECO

TOADA DE PEITO – Imagem: arte da artista plástica Cyane Pacheco. - O que tenho de mim nem mesmo me basta, como se errasse de ontem os designios extraviados e nem mais opção qual fuga restasse, antes certeza que nem duvidou, quando ademais era o lacre na porta e o verão a espera no ermo. O ouvido do mundo me fez só silêncio, quanto eu já não dei a mim do que perdi o rio e a minha cidade comigo distante e sem aceno, não vivia de tão desfeita, porque nada servia mesmo se assim não quisesse. Vinte coisas me disseram de outras tantas nem mais disfarçadas, coisas à cata que nem sabe o que é, sobrei pelas costas sem ter pra onde ir, a ilusão que sobrava de partir pra melhor. Sorria amarelo o dia anoitecido, e se calavam desavindos nas encruzilhadas e precisava saber das horas, só desdenhavam: amanhã será você. Pra mim era, e não era; era como se quisessem que eu soubesse a letra A de quem vai ou já foi com os melhores tempos do passado, eu atrás do futuro jogado pra trás por consoantes e vogais que nem se diziam: tem lógica? Não, não tinha, nem poderia jamais, o que seria pretexto pra toda desistência. Mais eu insistia refeito na marra e quase tudo a se decompor aos desamparos e exortações, porquanto eu pudesse sobreviver entre a vingança e o perdão, das quais sabia sequer as cinzas ao vento, trapos e migalhas eram haveres e se esvaiam entre os dedos. Renascia e revidava perempto e pombos saíam-me ao tronco ganhando a brisa como truques malogrados pela vulgaridade com todos encobertos pros sustos inexplicáveis, e a remar sem saber da maré escondida, meus braços quais hélices pras asas sonhadas, estranguladas pelos chiados das corujas com as agruras movediças colhendo estrelas pra não saber mais do céu, e a despencar na perplexidade dos embaraços como se dessem as contas para nunca mais. Retornava à semente, teimoso do zero pro que desse, apócrifo triunfo pros anos pesarem nos pés descalços, fincados no chão sem vestígios. Eu me refazia teimando em ganhar e o Sol a dançar na ponta dos dedos até o cansaço do crepúsculo, um brinde, cores e perfumes, meu salva-vida pelas fornalhas da via crucis, a prosperar na treva como se nada mais existisse, porque ninguém vê o escuro até o porvir. E assim a vida brinca de morte e vice-versa, a todo instante, aprendo sem jeito e querer, vou adiante pra que tudo seja hoje, amanhã e depois, mais uma vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Todo dia é Dia da Mulher com especial da cantora Flora Purim: Speak no evil, Airto Moreira Live & Ohne Filter Live; da cantora lírica e aclamada soprano neozelandesa Kiri Te Kanawa: The jazz álbum, Ária (Cantilena) Bachianas Brasileiras 5 de Villa-Lobos & Montreal Concerts; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Precisamos ainda encontrar um nome para os que valorizam mais a esperança do que as expectativas. Precisamos de um nome para os que amam mais as pessoas do que os produtos, os que acreditam que Ninguém é desinteressante. Seu destino é semelhante à crônica dos planetas. Nada há nele que não seja particular, cada planeta é diferente de outro. Precisamos encontrar um nome para os que amam a Terra onde cada um possa encontrar o outro. E se uma pessoa viver na obscuridade, fizer seus amigos nesta obscuridade, a obscuridade não é desinteressante. [...] Trecho da obra Sociedade sem escolas (Vozes, 1985), do pensador e polímata austríaco Ivan Illich (1926-2002), tratando sobre a desinstalação da escola e sua fenomenologia, a ritualização do progresso, os mitos dos valores institucionalizados, da mensuração dos valores dos valores empacotados, do progresso autoperpetuavel, o jogo ritual e a nova religião do mundo, o reino que há de vir & a universalização das expectativas, a nova alienação, o potencial revolucionário da desescolarização, o espectro institucional, os falsos serviços públicos & as escolas como falsos serviços públicos, as concordâncias irracionais, as teias de aprendizagem, serviço de consultas a objetos educacionais, intercâmbio de habilidades, encontro de parceiros, educadores profissionais, renascimento do homem Epimeteu, entre outros assuntos. No texto Aplea for research on lay litteracy (Cambridge University Press, 1991), o autor observa que: [...] Em uma sociedade oral, uma pessoa tem que manter sua palavra. Ele a confirma fazendo um juramento, que é uma maldição condicional a ameaçá-lo caso não seja fiel ao que prometeu. Enquanto jura, segura a barba ou os testículos, oferecendo o próprio corpo como garantia. [...] No regime da escrita, o juramento perde valor diante do manuscrito; não é mais a memória que conta, porém o registro. [...].

LEITURA DO MUNDO – [...] Sempre que perceber que me aventurei a fazer qualquer mínima conjetura sobre as causas do que observei, peço-lhe que as considere apenas como questões duvidosas e palpites incertos, não como conclusões inquestionáveis. [...] Procurei tanto quanto pude primeiramente descobrir a aparência verdadeira e depois representá-la simplesmente. [...]. Trecho extraído da obra Micrographia (Micrographia, or some physiological descriptions of minute bodies made by magnifying glasses with observations and inquiries thereupon - Dover, 1961), do filósofo e cientista experimental inglês Robert Hooke (1635-1703), obra esta que foi uma das primeiras obras onde o microscópio foi aplicado ao estudo dos seres vivos, com descrições detalhadas e minuciosos desenhos que se tornaram famosos, introduzindo com a microscopia um novo modo de ver o mundo.

CANIÇOS AO VENTO - [...] Já algumas mulheres tinham-se reunido ao redor da sanfona, dando-se as mãos, para começar o baile. Os botões de seus corpetes brilhavam ao fogo, as sombras se cruzavam no chão pardacento. Lentamente formaram uma fileira, com as mãos trançadas, e levantaram os pés, experimentando os primeiros passos do baile; ainda eram rígidas e incertas, e pareciam que se escorassem reciprocamente. [...] Uma corrente de magia pareceu atravessar as mulheres, provocando uma excitação, controlada, mas ardente. A fila começou a ondular, dobrando as pontas até formar uma roda. A todo momento uma mulher de fora chegavam separava duas mãos juntas, trançava-se com as suas e acrescentava um elo à cadeia multicor, ao redor da qual se formava no chão uma franja de sombras animadas. E os pés levantavam-se sempre mais rápidos, batendo entre si, e batendo depois a terra, como para despertá-la da sua imobilidade. [...]. O grito ecoava como um relincho e as pernas das mulheres, desenhadas pelas saias escuras, e os pés curtos, emergindo das ondulantes barras vermelhas, moviam-se quase freneticamente, como esquentados pelo prazer do baile. [...]. Trechos extraídos da obra Caniços ao vento (Delta, 1964), da escritora sarda Grazia Deledda (1871-1936), Prêmio Nobel de Literatura de 1926, narrando neste livro as crises existenciais e fragilidades humana das suas personagens, bem como descreve em detalhes e com um realismo claro os costumes e lendas da sociedade agro-pastoril da sua amada ilha da Sardenha.

A DEVOÇÃO - Das celestes regiões pouso da Divindade, / desço à mansão que hospeda a graça e a virgindade; / paira a Inocência ai, minha irmã eternal, / que não tem som os céus asilo mais real. / Aqui, longe do mundo e de seu ruído vão, / guio ao dever mais santo um povo em formação: / nutro-lhe na alma pura o germe alvo e fecundo / das virtudes que deve espalhar pelo mundo. / Um rei que me protege, ilustre e vitorioso, / confiou a minhas mãos um cargo tão precioso. / E lhes transpondo já fronteiras e defesas, / destrói ele os bastiões de suas fortalezas. / Deste-lhe um filho atento em alçar-lhe o poder, / que cabe comandar, lutar, obedecer; / e, que a seus pés, também, vendo sempre a vitória, / a merecer-lhe o amor limita a própria gloria; / sujeito com ternura ao cetro paternal, / é de todo inimigo o infortúnio eternal/ aos raios similar, que envia o céu possante / quando, seu rei diz: “Parte”, arroja-se exultante; / de um vingador trovão abrasa a terra e os céus / e, tramquilo, a seus pés vem depor seus troféus; / E, enquanto um grande rei me vinga das desfeitas, / vós, que gozais aqui delicias tão perfeitas, / se ele olvidar uma horas as glorias que constrói, / as diversões da fé chamai aquele herói: / retratai-lhe de Ester, a imorredoira história, / e sobre a irreligião, da piedade a vitória. / Mas, vós que preferis essas loucas paixões / que acendem na alma humana as profanas ficções, / espectadores vãos de frívolos prazeres, / cujo ouvido aborrece o som de meus dizeres, / fughi do meu prazer à santa austeridade: / aqui tudo respira a Deus, paz e verdade. Prólogo da tragédia Esther (Irmãos Pongetti, 1949), do poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês Jean Racine (1639-1699). Trata-se de uma peça em três atos, escrita em 1689, dramatizada para satisfação dos professores e alunos que declamaram e cantaram com tanta graça e modéstia, que esse pequeno drama, destinado apenas para o benefício dos jovens alunos, tornou-se a admiração do rei e do tribunal. Veja mais aqui e aqui.

OS DESENHOS DE CYANE PACHECO
Dentre as linguagens escolhidas, o desenho, desde sempre me pareceu a mais rematada forma de expressar minha busca no universo das Artes Visuais. Desenho para esquadrinhar perguntas, para constituir um vocabulário particular, para constituir o ambiente que me circunda, para desempenhar um papel político através da Arte e em fazer compreender pelo viés daquilo que não é palavra. Eu achava que o traço significava minha inaptidão com a literatura, ou seja, desenho, esculpo, gravo, fotografo e produzo em outras linguagens para desvelar um texto visual que me é necessário. Embora goste de expandir as formas clássicas das linguagens artísticas (desenho, pintura, gravura e escultura), guardo o cuidado que me antepare das ondas vãs e do amontoado das ruínas precoces dos modismos que, não raro, propositadamente esvaziam os discursos e são, em sua maioria, feitos para ingênuas diversões, nesse sentido, das linguagens expandidas, agradam-me as intersecções e as estratificações que contêm todo o tempo. Incorporo o discurso que alinhava as imagens, buscando através dele, remontar às experiências e às surpresas do novo o enfrentamento da criação, sabendo que “desprovido da experiência, o homem não deixa rastro”, como bem assinala Walter Benjamin, recrio, portanto, minha existência, o que me ocorreu e o que imagino, os vestígios da memória, os conteúdos inconscientes, absorvo os saberes alheios, exponho o horror das potências inumanas, mesmo sabendo que essa exposição não atingirá ou destruirá a barbárie, o horror. Durante o final dos anos oitenta e início dos anos noventa do século XX, quando trabalhei no Museu do Estado de Pernambuco e participei de uma equipe responsável pela restauração de uns painéis votivos representando uma batalha havida no século XVII, percebi que as figuras que compunham tais painéis, eram soldados, cães, famílias, personagens circenses, numa procissão extravagante, representados através de uma bidimensionalidade ingênua em suas posturas sobrepostas, subvertendo as regras da perspectiva. Dispostos em um plano diverso das alegorias por nós conhecidas, as figuras que compunham esse painel votivo, pareciam surgir com imensa liberdade de gestos, relevando a primazia da mensagem, da ilustração despreendida da rigidez acadêmica. Transpus essa lógica ou forma representativa do traço, para o plano, o papel, o espaço dos suportes eleitos, esquecendo intencionalmente as regras pré-estabelecidas, desobedecendo as leis da composição ensinadas nos livros sobre o assunto. Dei conta no papel tão somente do texto que me interessou naquele primeiro momento e continua me impelindo a resolver, com fluidez e poucas regras ditadas ao acaso, o sentido dos traços e das figuras que dele surgem. Imaginei que os personagens oriundos da imaginação despontavam dessa clivagem na rigidez do gesto, da criatividade e da ilusão da liberdade, há tanto guardada e, isso me faz pressentir, até hoje, que tais figuras sentem-se expressamente alforriadas. No momento seguinte do meu percurso, quando julguei que a madureza dos traços podia criar uma linguagem pessoal, íntima, um vocabulário que dissesse não apenas o que penso, mas retratasse algo mais amplo, do campo do mito, do sonho público, decidi que podia tirá-los da condição limitada e bidimensional, modelando-os e alargando as suas expressões. Como seria soltá-los do plano achatado do papel? Essa foi a atitude primeira para que eu empreendesse incursões nos territórios mais extensos da arte. O desenho continua portanto, o ponto de partida para qualquer texto que eu pretenda em Arte. O corpo é meu foco e meu objeto de investigação, escolhido pelas possibilidades várias que vão desde a metáfora, a metonímia, as camadas temporais, as alterações entre motivo e suporte à literalidade. Busco, além do fazer artístico, respeitar o ínfimo espaço entre arte e vida, senão viver as duas coisas como se fora uma só.
Texto extraído de Eutomia - Revista de Literatura e Linguistica (Recife, 14 (1): v-xix, Dez.2014), da artista plástica & visual Cyane Pacheco. (Veja mais abaixo).

Veja mais:
Ana Lins, a Revolução Pernambucana de 1817 & Todo dia é dia da mulher aqui.
Festa no céu do amor, a música de Tom Jobim, a poesia de Nauro Machado, a fotografia de Elizabeth Zusev & a arte de Steve K. aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
O que é de sonho quando real, Yukio Mishima, Marisa Rezende & David Alfaro Siqueiros aqui
O que semeei pro que será colhido, Elbert Hubbard, Débora Arango & Miriam Maria aqui
A morte e a morta, Tarsila do Amaral & Byam Shaw aqui
O beijo dela de sol na minha vida de lua, José Régio, Ceumar & Luciah Lopez aqui
Gabriel García Marquez, Lev Vygotsky, Edmond Rostand & Cyrano de Bergerac, Elizabeth Barrett Browning, Flora Purim, Andrzej Wajda, Michelangelo & Anna Mucha aqui
Conversa de pé do ouvido, Margaret Mead, Erasmo de Roterdam, Graciliano Ramos & Fernando Fiorese aqui
Monarquia brasileira aqui
Proclamação da República aqui
A Era Vargas & a República aqui
Tolinho & Bestinha: Quando Boca-de-frô engrossou o caldo para formar a tríade amalucada aqui
Pierre Weil, Confúcio, Psicoterapia Mente-Corporal de Alexander Lowen & Doro nas eleições aqui
O corpo dela é o pomar de amor & Programa Tataritaritatá aqui
Puxavanque do prazer & Programa Tataritaritatá aqui
Poço do Prazer & Programa Tataritaritatá aqui
Vygotsky, Freud, Lacan, Cícero & a Arte de Envelhecer, Dawna Markova, Heniz Kohut, Teatro, Doro & Pernambuco aqui
Alan Watts & Todos os Brasis do Brasil aqui
História do Cinema aqui.

ARTE DE CYANE PACHECO
A arte da artista plástica & visual Cyane Pacheco, que edita os blogs Cyane Pacheco & Arte Cyane Pacheco, mantendo seus trabalhos em um canal do YouTube e perfil no Flickr. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

quinta-feira, novembro 23, 2017

GALEANO, BOLDRIN, FLORA PURIM, CAMPBELL, JACI BEZERRA, BRAGINSKY, ADONIRAN, INGRID PITT, RESILIÊNCIA & QUIPAPÁ

A ESCRITURA DO VISINVISÍVEL – A arte do pintor ucraniano Arthur Braginsky. – O que vejo a lágrima embaça porque tudo é muito adverso e aversivo, quantas turbulências de ânimo para sucumbir às chateações dos que querem por que querem, dos que se acham donos do mundo, as arengas pelos esconderijos familiares, entre conhecidos como rejeitado, a quem recorrer diante de tantas ciladas: extraio a flor dos meus infernos, sorvo meu próprio veneno, a culpa é minha, somente minha! Transito o centro da gravidade: todos os destroços em minha direção, atraio toda sorte bregueços antipáticos, sou soterrado por meus próprios desvarios, fracassos, idiosincrasias: punhais que golpeiam da aurora ao crepúsculo. Resto-me em remendos os quais me desfaço em trapos: a mendicância é o meu auto-retrato, meu flagelo, sou desordenado porque revelei apenas umbigo, sobram-me ruínas e de que fui burlado desde sempre. As pálpebras pesam as sombras que me assombram, poemas se dissolvem nas pulsações e eu traço tudo que me surge e não pretendo sequer negar o indesejável, vela ao vento, sem remo, âncoras, tudo está no código das coisas, e se de outra coisa tampouco seja qualquer uma ou nenhuma, pra mim opinião alguma ou juízo de valor jamais, melhor brincar de cabra cega para descobrir amanhã e me divertir com meu esforço de nada e o meu esboço de mundo que não é nada se esvai aos garranchos e guardo nas mãos o significado de tudo. Sigo distribuindo acenos e afetos, beijabraços. Valho-me do oxigênio dos vegentais, sou mais canhestra que presumo, apenas dois dedos de altura e dissidente de minha própria inutilidade, de qualquer maneira ao deus-dará. E o que se passa comigo pouco importa, o que penso estraga a surpresa, jogo-me e tudo tem seu limite, menos eu, que morro e renasço a cada instante, e se não vi ou vivo nada igual, permito-me dizer o que nunca fora ou o que já não seja tarde demais pra desvaloirizar o preço de nada, abandonado sem despedida, como se jogado na lata de lixo, pra viver na sarjeta e saber o oco mútuo, via de regra pronto pra devorar os tabus e andando e desandando e deixando passar o infinito até que tudo seja um dia revelado e descoberto dos tremores da Terra e cada um, de dois em dois, de três em três, ou muitos tremores mais temores e se tenho cada aprendizado na ponta da língua ou dos dedos, erro de mim bem mais que caminho ido, corrido e batido que saiu do lugar e hoje nem sei por onde vai. Lembranças quase muitas esborram mais que esquecimento, é triste perder a memória ou não existir mais na memória dos outros, pros que jogado na vala abandonado, insepulto, como dejeto, coisa de quem cai do afeto pra nunca mais. Ontem era tudo vivo, hoje não mais, a morte ronda, já nem o menino escapa, filho que se foi e teimo em viver, persevero e sou-me embaixo do travesseiro olhos acesos para prosseguir firme ao amanhecer. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a cantora Flora Purim & músicas dos seus principais álbuns como Stories to Tell (1974), Butterfly Dreams (1973), MPM (1964), Encounter (1976), Open your eyes can fly (1976), & show ao vivo com Airto Moreira no Ohne Filter, entre outros. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Temos guardado um silêncio bastante parecido com a estupidez [...], trecho da Proclamação Insurrecional da Junta Tuitiva na cidade de La Paz, em 16 de julho de 1809, extraído da obra As veias abertas da América Latina (Paz e Terra, 1979), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015).  Veja mais aqui.

RESILIÊNCIA – [...] Como uma planta vivaz, a resiliênci apode se desenvolver. Ela depende de vários fatores que estão frequentemente reunidos numa conjunção de acontecimentos e encontros, que parecem depender daquilo que chamamos de acaso. Em função desses encontros, de uma disposição interna e de acontecimentos particulares, a trajetória de vida de um ser humano pode ser profundamente modificada. [...] Na trajetória da resiliência, há frequentemente uma oportunidade fugidia e imprevisível, uma chance que pode ser aproveitada, mas não provicada, e que a capacidade de ter esperança de querer seguir em frente permite perceber em meio às provações da vida [...]. Trechos extraídos da obra A resiliência: a arte de dar a volta por cima (Vozes, 2007), de Rosette Poletti e Barbara Dobbs, considerando que a resiliência é a capacidade de manter-se, de 'proteger a integridade sob fortes pressões', assim como fazem os heróis de tragédias gregas, galãs da sétima arte, os líderes de empresas e chefes de exércitos: usam as dificuldades como trampolim para se fortalecer e vencer na vida. Veja mais aqui e aqui.

QUIPAPÁ – A origem do nome Quipapá possui diversas versões, entre elas, a de origem indígena dá conta de que se trata de uma planta tupi-guarani, da família das cactáceas, o quipá. Que no plural seria quipaquipá, resultando, por fim, em Quipapá que é a nomeação de umas das serras e de um dos rios que circundam a localidade; a de origem africana oriunda da palavra quipacá, significando asilo de fugitivos. Trata-se de um município que teve origem com a povoação ao redor de uma capela na freguesia de Quipapá, sendo desbravada por volta dos anos de 1630 a 1697, pelos negros foragidos que faziam parte do Quilombo dos Palmares. Ergueu-se oficialmente entre 1795/96, com a instalação da Fazenda das Panelas, sendo criado o distrito de Quipapá por força da Lei Provincial 432, de 23 de junho de 1857, ficando submisso ao município de Panelas. Alcançou a categoria de vila com a Lei Provincial 1402, de 12 de maio de 1879, e instalada em 18 de julho de 1879. A ascensão ao município ocorreu em 19 de maio de 1900, com a edição da Lei Estadual 432, separando-se de Panelas, e ganhando o distrito de Pau Ferro pela Lei 54, de 23 de nobembro de 1905. Assim sendo, é constituído dos distritos sede, Barra de Jangada, Jurema, Pau Ferro, Queimadas e São Benedito, onbde mais tarde o distrito de Jurema é também elevado à categoria de município. Em 1938, atravé do Decreto-lei nº 235, de 9 de dezembro de 1938, o distrito de São Sebastião da Barra foi extinto, sendo seu território anexado ao distrito de Quipapá e São Benedito, passando a ser constituído, a partir de 1939 até 1943, de quatro distritos: sede, Igarapeba, Pau Ferro e São Benedito. Em 1963, desmembra-se do município de Quipapá os distritos de Iraci e Igarapeba, para formar o novo município de São Benedito do Sul, ex-Iraci. Neste sentido, a divisão territorial de 31 de dezembro de 1963, consta o município constituído apenas de 2 distritos: sede e Pau Ferro, até os dias atuais. O município está situado na microregião da Zona da Mata Sul ou Mata Meridional pernambucana, fazendo divisa com os municípios de Panelas, São Benedito do Sul, Jurema e Canhotinho, municípios pernambucanos, e ainda Ibateguara e São José da Laje, municípios alagoanos. Veja mais aqui.

SEGUIR POR SUAS PRÓPRIAS PERNAS – [...] somos todos heróis ao nascer, quando enfrentamos uma tremenda transformação, tanto psicológica quanto física, deixando a condição de criaturas aquáticas, vivendo no fluido amniótico, para assumirmos, daí por diante, a condição de mamíferos que respiram o oxigênio do ar e que, mais tarde, precisarão erguer-se sobre os próprios pés [...]. Trechos extraídos da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987). Veja mais aqui.

A MULHER QUE MORREU DUAS VEZES - [...] o enterro pela rua abaixo rumo ao cemitério que ficava há uns bons par de caminho. Quando de repente o Nhô Joaquim, que era quem estava na alça direita, trupica numa pedra no meio do caminho, se desequilibra todo, fazendo com que os outros carregadores do caixão perdessem o rebolado. E lá vai o caixão pro chão, abrindo-se em seguida. E, para grande surpresa geral, a defunta tava viva. A cumadi tinha sofrido nada mais nada menos do que a tal de catalepsia. Aquele ataque onde a gente pensa que morreu mas não morreu. Surpresa e alegria, todos correm com lençóis para cobrir a dita defunda e poupá-la desse choque de morta. Levam-na pra casa e, à noite, foi uma grande festa de retorno, com direito à banda de música, chope e outros bichos. Afunal, a cumadi tinha voltado a viver noarraial do Pau Torto, junto com o cumpadi e para a alegria de todos. Passam-se anos e mais anos até que um dia a nossa personagem morre de novo. Agora de verdade. E lá vai o cortejo, rumo ao cemitério. Na alça esquerad, como da outra vez, o pesaroso marido. Na alça direita, o mesmo cumpadi de fé, Nhô Joaquim. Ao se aproximarem do mesmo lugar, onde o cumpadi Nhô Joaquim havia trupicado da outra vez da catalepsia, que era onde tinha uma pedra com a ponta pra cima, o marido olha de esguêio para o tal Nhô Joaquim e sentencia: Oh, cumpadi Joaquim! Vê se dessa vez ocê óia onde pisa. Se ocê trupicá de novo, eu te arrebento! Extraído da obra Contando causos (Nova Alexandria, 2001), do músico, ator e apresentador de tevê, Rolando Boldrin. Veja mais aqui.

TEMA PARA UMA CANÇÃO LÍRICA - No verão dos teus olhos não escondas / a água da praia, clara: / se ondulas e ondeias, tu és onda / e, apenas onda, vagas. / Não magoas se feres como a lâmina / de uma navalha aberta: / a onda que és é o dia que me chama / entre as brancas cobertas. / Onda asstando a onda que nos cerca, / nos deixas fundas marcas: / a pedra que o olhar afoga e onde começas, / a onda que a nós desgasta. / Tua onda de andorinhas desmanchada / entre os alvos lençóis, / que constrói e desmancha, onda, a abrasada / onda que abrasa a nós. Poema do livro A onda construída, extraído de Linha d’água (CEPE, 2007), do poeta Jaci Bezerra. Veja mais aqui e aqui.

TIRO AO ÁLVARO
De tanto levar
"frexada" do teu olhar
Meu peito até
Parece sabe o que?
"táuba" de tiro ao "álvaro"
Não tem mais onde furar
Teu olhar mata mais
Do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que pexeira de baiano
Teu olhar mata mais
Que atropelamento
De automóver
Mata mais
Que bala de revorver
.
Música de Adoniran Barbosa & Oswaldo Molles (Fromatado Brasil/Seresta Edições Musicais), gravada pela imortal musestrela, Elis Regina (Elis, 1972).

Veja mais:
A poesia de Paul Celan aqui.
O pensamento de Caio Prado Júnior aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

TODO DIA É DIA DE INGRID PITT
Hoje é dia da atriz polonesa Ingrid Pitt (1937-2010).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor ucraniano Arthur Braginsky.
Veja mais aqui.


terça-feira, julho 04, 2017

O CERTO & ERRADO DE THOMAS NAGEL, FLORA PURIM, A VIDA DE BASKERVILLE, TCHELLO D’BARROS, PIETRO BARATTA & A PAZ QUE NINGUÉM VÊ

A PAZ QUE NINGUÉM VÊ – Imagem: Statue of Pax, in Pavlovsl Garden, St. Petersburg, Russia, sculptor Pietro Baratta. - Um dia ela apareceu tão divina quanto ensolarada paratodos, carregada de céus e com uma mensagem no altar dos tempos. Dos seus cabelos sedosos aos ventos a placidez da vida. Dos seus olhos de céu todas as emoções e sentimentos profundos. Das suas faces plácidas a candura de todas as afeições mais amáveis. Da sua boca rubra bem torneada todos os encantos da brisa primaveril ecoando sua voz o hálito do aroma florido dos jardins. Dos seus ombros macios o aconchego para todas as aflições e abandonos. Dos seus braços fraternos o refúgio para os que se perderam sem esperanças. Das suas mãos ternas a doação fagueira de todos os carinhos. Dos seus seios maternos a guarida para os desesperos insones. Do seu ventre fértil a reluzência vital de todos os seres. De suas coxas prementes e de suas pernas firmes as torres seguras de guias aos desencontrados. E dos seus pés fincados todos os caminhos seguidos e por seguir. A todos se dirigiu e sua voz ecoava aos quatros cantos. Pros ouvintes, uma chuva que lava a Terra, alimentando as sementes. E mais disse de todos, enquanto sabiam apenas do espetáculo. Nenhuma sílada ficou aos ouvidos, todas se perderam nos olhos vidrados. Seus lábios silenciaram e chorou. Seus olhos pra todos, um por um, torrenciais lágrimas murmurando: é preciso paz. Sim, a paz, repetiu diversas vezes. E mais chorou. Não tendo mais nada a dizer, deu as costas e, ao primeiro passo, ainda se virou para mirar mais uma vez a multidão silente. Depois, foi embora sem se desdepedir, aos prantos. Ninguém, ninguém mesmo foi capaz de se solidarizar, mudos e intringados. Amaram sua presença endeusada, sequer ouviram suas palavras, apenas que era preciso paz. Ela se foi, no choro o seu desapontamento. Ao desaparecer, emergiu sua imagem, estátua na praça. Ninguém entendeu, uma estátua apenas e se ajoelharam ao que sentiram pra venerá-la e, cada qual, sua oração, sua compreensão, seu cotidiano, a vida prossegue e ninguém sabe da paz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

O CERTO & ERRADO DE THOMAS NAGEL
[...] A preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensarmos nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: “O que é o tempo?” Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: “O que é um número?” Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como é que as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: “Que faz uma palavra significar qualquer coisa?” Qualquer pessoa pode perguntar se entrar num cinema sem pagar está errado, mas um filósofo perguntará: “O que torna uma ação certa ou errada?” Não poderíamos viver sem tomarmos como garantidas as ideias de tempo, número, conhecimento, linguagem, certo e errado, a maior parte do tempo, mas em filosofia investigamos essas mesmas coisas. O objetivo é levar o conhecimento do mundo e de nós um pouco mais longe. É óbvio que não é fácil. Quanto mais básicas são as ideias que tentamos investigar, menos instrumentos temos para nos ajudarem. Não há muitas coisas que possamos assumir como verdadeiras ou tomar como garantidas. Por isso, a filosofia é uma atividade de certa forma vertiginosa, e poucos dos seus resultados ficam por desafiar por muito tempo. [...] a idéia de que uma coisa é errada depende do impacto que ela tem não apenas sobre aqueles que a praticam, mas também sobre outras pessoas [...] se o fato de algo ser errado deveria ser uma razão para não fazê-lo e suas razões para fazer as coisas dependem de seus motivos, e os motivos das pessoas podem variar muito, parece então que não haverá um único certo e errado para todo o mundo [...] Muitas coisas que você provavelmente considera erradas foram aceitas como moralmente corretas por grandes grupos de pessoas no passado: escravidão, servidão, sacrifício humano, segregação racial, negação de liberdade política e religiosa, sistemas de castas hereditária [...]
Trechos do capítulo 7 – Certo e errado, da obra Que quer dizer tudo isto? Uma breve introdução à filosofia (Martins Fontes, 2007), do filósofo estadunidense Thomas Nagel, relatando os problemas centrais da investigação filosófica, deixando questões fundamentais em aberto para permitir aos estudantes acolher outras soluções e encorajando-os a pensar por si mesmos sobre como sabemos alguma coisa, o problema mente-corpo, o significado das palavras, livre-arbítrio, certo e errado, justiça, morte e o significado da vida. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Uma coisa quando outra, A aventura da modernidade de Marshall Berman, a poesia de Adolfo Casais Monteiro, a música de Tom Jobim & Maucha Adnet, Arquiteturas líquidas de Marcos Novak, Renie Britenbucher & Adriana Garambone, a arte de Alyssa Monks & Luciah Lopez aqui.

E mais:
Os vexames dum curau no sul, O absurdo & viver para quê de Thomas Nagel, Voragem de Junichiro Tanizaki, Eu mesmo de Emílio de Meneses, Mão na luva de Oduvaldo Vianna Filho, a deusa Pax, a música de Rosalia de Souza, o cinema de Olivier Assayas & Maggie Cheung, a pintura de Pierre-Auguste Renoir & Suzanne Frie aqui.
Doro & a copa do mundo, a música de Astor Piazzola, a poesia de Adolfo Casais Monteiro, Adriana Garambone, A arte de Roberto Burle Marx & Antônio Miranda aqui.
Desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson & Justiça à poesia com Simone Moura Mendes, o ator Chico de Assis e a cantora Wilma Araújo & o violonista Marcão, entre poetas e outros participantes aqui.
Vamos aprumar a conversa,O eu profundo & os outros eus de Fernando Pessoa, Culto da feminilidade de André Van Lysebeth, Psicologia social & Lev Vygotsky, o cinema de Philippe Blasband, as gravuras de Lasar Segall, a música de Guinga & Quinteto Villa-Lobos, a pintura de Luciano Freire & a xilogravura de Manassés Borges aqui.
O espelho de João Guimarães Rosa aqui.
Brincarte do Nitolino & festejos juninos, Guerra & paz de Cândido Portinari, a música de Egberto Gismonti, Platero e eu de Juan Ramón Jiménez, Menino antigo de Carlos Drummond de Andrade, Família composta de Domingos Pellegrini, a pintura de Jamilton Barbosa Correia, Contador de histórias & Maria de Medeiros aqui.
Vamos aprumar a conversa,Simulacro & simulações de Jean Baudrillard, a música de Patricia Glatzl & Lígia Moreno, Um estado muito interessante de Zulmira Ribeiro Tavares. O rato no muro de Hilda Hilst, o cinema de Roger Vadin & Brigitte Bardot,Composição humana de Manabu Mabe, a pintura de Theodore Roussel & Nicolas Poussin aqui.
A rodagem de Badalejo & a bodega de Água Preta, O analista de Bagé de Luis Fernando Veríssimo, a música de Meredith Monk, Iniciação ao teatro de Sábato Magaldi, Narração & narrativas de Samira Nahid Mesquita, o cinema de Hector Babenco, a arte de Vanice Zimermam, a pintura de Robert Luciano & Vlaho Bukovac aqui.
O dono da razão, Canção do exílio de Murilo Mendes, Identidade & etnia de Carlos Rodrigues Brandão, Socioantropologia da educação de Maria Sérgio Michaliszyn, a arte de Francisco Zúñiga, a pintura de Mônica Alves Torres & Jules Pascin, Peace in earth & a música de Jú Martins aqui.
Não era pra ser, nem foi, Entre a vida e a morte de Nathalie Sarraute, a música de Galina Ustvolskaya, Aquarium World de Takashi Amano, o ativismo de Emmeline Parnkhurst, o cinema de Sarah Gravon & Carey Mulligan, as gravuras de Jean-Frédéric Maximilien de Waldeck, a pintura de Paul-Émile Chabas & Carlos Alberto Santos aqui.
A esperança equilibrista, O espaço da cidadania de Milton Santos, Admirável mundo novo de Aldous Huxley, Saberes necessários de Edgar Morin, a música de Vivaldi & Michala Petri, a fotografia de Andreas Feininger, a pintura de Gianluca Mantovani & Jose De la Barra, a arte de Daniele Lunghin & Dave Stevens aqui.
Eita! Vou por ali no que vem e que vai, a literatura de Ítalo Calvino, Os tempos da Praieira de Costa Porto, O efêmero de Louise Glück, a música de Edson Zampronha, Neurofilosofia e Neurociência Cognitiva, Betina Muller, a arte de Laszlo Moholy-Nagy & Anke Catesby aqui.
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A VIDA DE BASKERVILLE
A peça teatral A vida, do ator, diretor, autor e artista plástico Nelson Baskerville, traz para cena seis atores e seu diretor propondo investigar suas tragédias pessoais e cotidianas, num espetáculo caótico e imponderável como a vida, como se fosse um mergulho em questões viscerais que resistiram à passagem do tempo e são mostradas num caleidoscópio que expressa uma rede de encontros preciosos que emergem por uma relação mútua existente em cada cena. O espetáculo foi encenado pela AntiKatártiKa Teatral (AKK).

RÁDIO TATARITARITATÁ: FLORA PURIM
Hoje é dia do especial da cantora Flora Purim, com músicas dos seus principais álbuns como Stories to Tell (1974), Butterfly Dreams (1973), MPM (1964), Encounter (1976), Open your eyes can fly (1976), & show ao vivo com Airto Moreira no Ohne Filter, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE TCHELLO D’BARROS & ENTREVISTA
Tchello d'Barros é escritor e artista visual que tem desenvolvido sua criação em desenho, gravura, pintura e arte digital. Ele tem participado de exposições, individuais e coletivas, afora ter 6 livros de literatura publicados e uma série de contos, crônicas, ensaios e poemas publicados em mais de 50 coletâneas, antologias e livros didáticos. Agora ele concedeu uma entrevista exclusiva pro Tataritaritatá, com a jornalista e editora Lucília Dowslley. Confira a entrevista aqui & outra que ele concedeu ao Guia de Poesia aqui e mais dele aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, agosto 05, 2015

LURIA, OVÍDIO, FELLINI, CANDIDO DE CARVALHO, AIRTO & FLORA, TUNGA, WAIN & A SUBMERSÃO DOS SENTIDOS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A SUBMERSÃO DOS SENTIDOS – Meus filhos não sabem da guerra! E nos seus olhos perdidos arreviro de noite. E vou me esvaindo sozinho, olhos secos nas noites em adagas, enquanto sigo com as chagas abertas no sol. Meus filhos não sabem da guerra! E sigo sozinho desenterrando segredos. Aqueles segredos que não pude conter por muito mais tempo no meu vário silêncio. Segredos sem fechaduras, sem dentes, alicates, segredos de dor e da alma de ontem. Registros de cartas aviltadas de sombrias desventuras, de resignação. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. E seus olhos são velas acesas e eu no escuro com medo, em carne viva e beirando abismos menores que um triz. E eu afogado numa gota do escuro sem saber fugir, metido no medo da infância e da ruindade adulta. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. Não sabem que sozinho amanheço de noite. Meu mundo é miúdo menor que um aceno, resignado à comunhão do rio da minha vida, completamente vadio no fastio do mormaço, porque ainda sonho sozinho na minha arredia solidão e sorrio verdades na minha ingênua fadiga. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. Não sabem que sozinho amanheço de noite. Não sabem, meus filhos. Um que se foi, a outra que irá já tão tarde com a minha carne acesa no prisma da vida. (A submersão dos sentidos – Primeira Reunião. Bagaço: 1992). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 Imagem: A arte do escultor, desenhista e ator de performance artística Tunga - Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum The Colours of Life (In & Out Records, 1988), dos músicos Airto Moreira & Flora Purim.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, no horário das 10hs e das 15hs, no blog do projeto MCLAM, com a luxuosa apresentação de Ísis Corrêa Naves. No blog muitas dicas de Psicologia Infantil e Escolar, bem como outras divulgações das áreas de Literatura, Teatro, Música, Educação e Direito das Crianças e dos Adolescentes. Para conferir o programa online é só clicar aqui ou aqui.

DESENVOLVIMENTO COGNITIVO – O livro Desenvolvimento cognitivo: seus fundamentos culturais e sociais (Ícone, 1990), do neuropsicólogo e um dos fundadores da psicologia cultural-histórica, Alenxander Luria (1902-1977), trata de temas como a percepção, generalização e abstração, dedução e inferência, raciocínio e solução de problemas, imaginação, auto-análise e autoconsciência, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: Parece surpreendente que a ciência da psicologia tenha evitado a ideia de que muitos processos mentais sejam sócio-históricos em sua origem, ou de que manifestações importantes da consciência humana tenham sido diretamente formadas pelas práticas básicas da atividade humana e pelas formas da cultura existentes [...] Em um certo estágio de desenvolvimento social, a análise das próprias peculiaridades individuais frequentemente ceda lugar à análise do comportamento do grupo, e o eu individual era frequentemente substituído pelo nós coletivo, tomando a forma de uma avaliação do comportamento ou da eficiência do grupo ao qual o sujeito pertencia, (brigada, equipe, ou fazenda coletiva como um todo). Frequentemente as próprias qualidades (ou aquelas do grupo) eram avaliadas pela comparação do comportamento individual (ou grupal) com normas ou demandas sociais impostas ao individuo ou ao seu grupo. Apenas em estágios superiores – principalmente em pessoas jovens progressivamente envolvidas, de modo ativo, na vida social e com pelo menos alguma educação formal – poderíamos discernir um processo de escolha e avaliação das qualidades pessoais. Aqui, também, a análise permaneceu ligada, de muitas, à avaliação do sujeito sobre como tais qualidades individuais se relacionavam com as demandas da vida social. [...] [E particularmente importante o fato de que esse processo não se esgota numa mera mudança de conteúdo da consciência e uma abertura de novas esferas da vida para análise consciente (esferas da experiência social e das relações consigo mesmo, enquanto participante da vida social). Nós estamos lidando com mudanças muito mais fundamentais – a formação de novos sistemas psicológicos, capazes de refletir não apenas a realidade externa, mas também o mundo das relações sociais e, basicamente, o mundo interior da própria pessoa enquanto moldado em relação a outras pessoas. A formação de um novo mundo interior pode ser considerada uma das conquistas fundamentais do período tratado. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OLHA PARA O CÉU, FREDERICO! – O romance Olha para o céu, Frederico! -  Romance acontecido em Campos dos Goitacazes nos dias do gramofone (José Olympio, 1974), do escritor, advogado e jornalista José Cândido de Carvalho (1914-1989), retrata com humor os negócios e a decadência moral das famílias do setor sucroalcooleiro de Campos dos Goitacazes, do qual destaco os trechos a seguir: Estávamos chegando. O guia avisou que tínhamos entrado nas terras do São Martinho. Era o fim. E a tarde caindo feito uma agonia por cima do mundo. Tarde vazia, sem cigarras pelos troncos. Uma vida bonita de dez anos ia ficar para trás, enterrada em Quiçamã do Limão. Com mais uma andada estaríamos vendo a chaminé do São Martinho. Sentia que era o princípio do meu desterro. Podia botar velar na mão. Pensei em meu tio José Nabuco de Sá Meneses. Onde andaria a prima Nilze de bondade de anho? Agora me levavam para o cemitério do São Martinho. Ficaria por lá enterrado vivo. Tiraria meu tempo feito um condenado carregadinho de crimes. Por onde andaria minha prima Nilza? [...] Quem visse Frederico assim de fala mole, com miséria nas conversas, era capaz de acreditar num São Martinho encalhado, de rodas mortas, com ninho de rato nas fornalhas. Conheci e vi morrer meu tio com esses lamentos que só acabaram quando sua boca se fechou vazia de palavras [...] Era alto como vela de promessa. Tanta gentileza acabou por trazer Dona Lúcia para a cama de Frederico. Os parentes é que não viam nada. Só olhavam a velhice de meu tio, a plantação que podia nascer em sua testa. Agora, com um simples negócio de altar, os mourões do São Martinho ficavam sendo as pitangueiras da praia. [...] O raposão do meu tio não mostrava as unhas. Na varanda, de tarde, esparramado na cadeira de preguiça, lia os jornais. Vinha gente tirar prosa com ele. Conversinhas de calor, da miséria de fim de vida que andava solta pelo mundo. [...] Os barões, dependurados em pregos de parede, por trás das barbas, espiavam meus desmandos. [...]. Veja mais aqui e aqui.

AS METAMORFOSES – A obra poética As metamorfoses, a magnun opus do poeta matino Público Ovídio Naso (43aC-18aC), é um poema narrativo inconcluso mostrando a constante mutação do mundo e alguns aspectos da soberania e sua família. Da obra destaco o fragmento do Livro I, traduzido por Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (USP, 2010): Faz-me o estro dizer formas em novos corpos mudadas. Deuses, já que as mudastes também, inspirai-me a empresa e, da origem do mundo ao meu tempo, guiai este canto perpétuo. Antes do mar, da terra e céu que tudo cobre, a natureza tinha, em todo o orbe, um só rosto a que chamaram Caos, massa rude e indigesta; nada havia, a não ser o peso inerte e díspares sementes mal dispostas de coisas sem nexo. Inda nenhum Titã iluminava o mundo, nem Febe, no crescente, os chifres renovava, nem a terra pendia no ar circunfuso, suspensa no seu peso, nem, por longas margens, os seus braços havia espraiado Anfitrite.E como ali houvesse terra e mar e ar, instável era a terra, a onda inavegável e o ar sem luz; a nada aderia uma forma, e cada coisa obstava outras, pois num só corpo o frio combatia o quente, o seco o úmido, o mole o duro, e o peso o que não tinha peso. Deus ou douta natura esta luta sanou, pois do céu separou a terra, e desta as ondas, e do ar espesso um céu límpido discerniu. E depois que os tirou do disforme conjunto, cada qual num lugar ligou, em paz concorde. Do céu convexo, força ígnea e sem peso surgiu e se alocou no mais alto da abóbada; o ar, dela, se aproxima em leveza e lugar; mais densa, a terra atrai os elementos grandes e é premida por seu peso; a água circunfluída ocupou o restante e cercou o orbe sólido. Assim aquele deus, fosse qual fosse, a massa, primeiro, dividiu em lotes e ordenou, para que igual ficasse em toda a parte, dando à terra a aparência de um imenso orbe. Então o mar romper-se com os ventos rápidos mandou e circundar os litorais da terra. Reuniu pântanos, fontes e grandes lagoas, por entre sinuosas margens cingiu rios, que em parte se absorvem em vários locais, em parte vão ao mar, e acolhidos no campo de águas livres, em vez de margens, tocam praias. Mandou dilatar campos, vales abaixar, selvas cobrir de folha, erguer montes rochosos. E, como há no céu duas zonas à direita e outro tanto à esquerda e uma quinta mais tórrida, assim um deus zeloso o globo dividiu por igual, e outras tantas plagas tem a terra. Por causa do calor, não se habita a mediana, cobre duas a neve; entre ambas pôs as outras, que, misturando fogo ao frio, temperou. Cobre-as o ar, que tanto é mais leve que a terra e a água, quanto mais pesado do que o fogo. Lá as névoas, e lá as nuvens, pendurar mandou, também trovões que aterram mente humana e os ventos que, com raios, rabiscam relâmpagos. O criador do mundo, entanto, não lhes deu a posse do ar ao léu; a custo, agora, impede-os embora cada qual assopre em sua rota de o mundo varrer, pois grande é a rixa entre irmãos. Euro se foi à Aurora, aos reinos nabateus, à Pérsia e às montanhas sob luz matutina; Vésper e as praias, mornas pelo sol poente, de Zéfiro estão perto; a Cítia e o Setentrião Bóreas frio invadiu; a região contrária se umedece de chuva e assíduas nuvens de Austro. Em cima pôs o éter límpido e sem peso, que nenhuma impureza terrena contém. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DIDATICA DO TEATRO – O livro Didáctica do teatro – introdução (Almeida, 1979), do historiador português José Oliveira Barata, trata do quadro institucional e programas oficiais do jogo dramático português, as origens e o jogo como meio de conhecimento, jogo dramático e teatro, a leitura de um texto teatral, o teatro como linguagem, emissor e escritor/autor, emissor e o encenador, emissor e os acessórios não acessórios, o destinário e o público, a cidade e o Estado, texto e pretexto, os clássicos como modelo, os clássicos na escola, da teoria à prática, escrever e reescrever um texto, texto não dramático, representação de um texto não dramático, entre outos assuntos. Da obra destaco o trecho inicial: A utilização dos recursos e potencialidades do jogo dramático, postos ao serviço das modernas técnicas pedagógicas nos estabelecimentos pré-universitários desde há muito – mesmo muito antes de entre nós se começar a ouvir falar dessas perspectivas -, tem preocupado professores, pedagogos, sociólogos e, mesmo fora do âmbito estritamente escolar, homens de teatro, animadores culturais que vêem na escola um vastíssimo campo, particularmente receptivo, à iniciação teatral. [...] Vê-se que ele tem (ou pode ter) implicações diretas em todas as disciplinas – como forma especial de sensibilizar e captar a inteligência criadora e critica do jovem. Todavia, é particularmente relevante no domínio do Português e da Literatura Portuguesa. Será conveniente examinar o que é proposto nos programas, mas verificarmos se as boas intenções podem ser viabilizadas na prática. Não se esquecem as demais disciplinas e, sobretudo, a de Teatro, previsto como cadeira Vocacional no 9º ano de escolaridade obrigatória do Curso Secundário Unificado [...]. Veja mais aqui e aqui.


TOBY DAMMIT – No filme Histórias extraordinárias (1968) que reúne três cineastas para os contos do escritor, editor e crítico literário estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849), a parte dirigida pelo cineasta italiano Federico Felilini (1829-1993), é denominada Toby Dammit inspirado livremente no terceiro conto de Poe, contando a história do ator shakespeariano que afunda na carreira devido ao alcoolismo e para voltar ao sucesso faz um pacto com o diabo, perdendo a vida e a cabeça, num acidente com a Ferrari que ganhou como pagamento por seu último filme. Com este registro, fecha-se a divulgação da série Histórias Extraordinárias, filme que reúne além de Fellini, os cineastas Louis Malle e Roger Vadim, destacados em posts anteriores para registrar a criação cinematográfica baseada em contos de Poe. Este filme representa a reunião dos três maiores cineastas que, em conjunto, abordam a temática de forma criativa, inovadora e substancialmente representativa para o desenvolvimento da arte contemporânea. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Imagem: a arte do desenhista britânico Louis Wain (1860-1939),

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Quarta Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...