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quinta-feira, maio 07, 2020

MAYA ANGELOU, CHIMAMANDA NGOZI, PIGLIA, MARSHALL ROSENBERG, RACINE, SARA SÍNTIQUE, SHINTARO SHIRATORI & ADELAIDE IVÁNOVA


DA FACE AO ESPELHO, QUEM NÃO - De cara pro espelho não gostei do que vi. Só que estava ali e me desconhecia. Não quis fugir dessa vez e, mesmo refratário, encarei: a descoberta da não aceitação. Quantos disfarces para embelezar a feiura expressa, mil e uns ardis, truques dolorosos, tudo escondia quem realmente sou. Removi a primeira pele, crenças e temores: caiu a dolorosa máscara e, com ela, o chapéu que eu nem sabia possuí-lo. Nem era eu, uma camada grossa do meu subterfúgio. Se não encontrava a mim mesmo, pelo menos a lancinante segunda pele foi retirada, tegumento arrancado, vícios e fingimentos, outros disfarces e adereços ruíram. Quantos que nunca fui além do engodo e se alojaram para driblar a todos e a mim mesmo, uma mentira estupenda que até me dava prazer. Tanto fiz de não me reconhecer e eu só um pedido de ajuda, um monte de coisas: sair do aperto, incólume; limpar a ficha, impune; ficar bem na fita, ileso; simpatia geral, aplausos e sorrisos. Quanta dissimulação, afinal, elas ferram com tudo e nunca quis nem saber, ousava. Não bastava a chatura de todos ao redor, do contra sempre, enquanto só me queria por agradável para ser amado e me sentir incluído na simpatia de todos, nada mais. Por isso mesmo eu não era, sem a coragem de dar a cara à tapa, na tentativa de acertar o quê, meu Deus, nem eu mesmo sabia, só queria ser notado, sentido, nada mais. Nada demais errar e corrigir, refiz tantas vezes, mas não me dava outra vez equivocado por não saber das notas, quantas músicas; das cores primárias, quantos matizes; dos sabores, quantas degustações ao paladar; palavras que combinam e destoam, afinam e desafinam, quantas recombinações inesgotáveis e a mim só precisava a escolha certa e as energias confluídas, metia as mãos pelas pernas. De cara pro espelho não gostei do que vi: sou quem sabota a mim próprio, só para tirar proveito, esconder as unhas, sair de fininho, sem ter que dar o braço a torcer ou mão à palmatoria, como se outro fizesse e depois fugisse comigo mesmo, o único réu, o verdadeiro culpado de tudo quanto arruinado, o indiscutível responsável. Se nada fiz cônscio para algo diferente, só um personagem para melhoria, alter ego, recriminável era a minha desgraça, é porque não sou quem deveria ser, nem ouço ou vejo o outro que é diferente de mim, não algoz, antítese. Quis sempre ser outro que não eu mesmo, a desconhecer do outro que em mim não era e que, ao meu lado, ignorava até existisse, porque sempre fui o dono da minha razão e centro do universo. Não vejo mais quem realmente sou, precisava enxergar melhor depois de Fedra de Racine: assim como a virtude, o crime tem seus graus. Tanta coisa por fazer e eu aqui empancado com aquele que sorri no retrato e nem sou eu Dorian Gray, apenas o que fui sem que soubesse dos outros tantos que se arvoram a ser em mim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Nós somos responsáveis pelo que ouvimos as outras pessoas falar e pelos nossos atos ou ações. Somos perigosos quando não estamos conscientes da nossa responsabilidade pelo modo como nos comportamos, pensamos e sentimos. Não pense que o que diz é empatia. Assim que pensa que o que diz é empatia, estamos distantes do objetivo. Empatia é quando conectamos a nossa atenção, a nossa consciência, não o que falamos. Quando nos concentramos em esclarecer o que está sendo observado, sentido, e necessário ao invés de diagnosticar e julgar, descobrimos a profundidade de nossa própria compaixão. Pensamento do psicólogo Ph.D. estadunidense Marshall Rosenberg (1934-2015), autor do livro Comunicação não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais (Agora, 2010), que funciona como um manual prático e didático voltado para aprimorar os relacionamentos interpessoais e diminuir a violência no mundo. Para ele, o método comunicativo chamado de Comunicação Não-Violenta (CNV): pode ser efetivamente aplicada em todos os níveis de comunicação e em diversas situações: relações íntimas, famílias, escolas, organizações e instituições, terapia e aconselhamento, negociações diplomáticas e comerciais, disputas e conflitos de qualquer natureza. Para praticar a Comunicação Não Violenta é fundamental que eu seja capaz de desacelerar, de ter tempo para respirar, para passar de uma energia que eu escolhi, a outra que eu acredito de onde nós devíamos vir, e não aquela para a qual eu estava programado. Eu começo o dia com uma lembrança sobre onde eu quero estar. A CNV também é aplicada no desenvolvimento de novos sistemas sociais, orientado em prol de parceria e o compartilhamento de poder, principalmente na área de educação, e também no caso de Círculos Restaurativos, prática de Justiça Restaurativa aplicada em mais que 11 países. A obra é dividida em dois capítulos, no primeiro trata sobre a comunicação com compaixão, o ato de se expressar e ouvir, apresentando as 4 áreas de concentração do processo ObSeNePe, ou seja, observação, sentimento, necessidade e pedido, por meio de expressão muito clara de cada um desses itens, envolvendo o relacionamento familiar, escolar, negocial e profissional. O segundo capítulo trata das formas de comunicação que são alienantes e violentos, como a utilização de julgamentos moralizadores, culpa, insulto, depreciação, rotulação, critica, comparação e diagnósticos, juízos de valores, classificação e julgamento como estimulante para a violência, entre outros assuntos.

 

OUTROS DITOS

Surgiu a ideia de que o dinheiro é inocente, mesmo sendo resultado de morte e crime; não pode ser considerado culpado, mas sim neutro, um símbolo que serve de acordo com o uso que cada pessoa escolhe dar a ele. E também a ideia de que o dinheiro queimado era um exemplo de loucura assassina. Somente loucos, assassinos e bestas imorais poderiam ser tão cínicos e criminosos a ponto de queimar quinhentos mil dólares. Esse ato (segundo os jornais) foi pior do que os crimes que cometeram, porque foi um ato de niilismo e um exemplo de puro terrorismo...

Pensamento do escritor argentino Ricardo Piglia (Ricardo Emilio Piglia Renzi – 1941-2017). Veja mais aqui.

 

EU SEI POR QUE O PÁSSARO CANTA NA GAIOLA, MAYA ANGELOU

[...] Ah, poetas Negros conhecidos e desconhecidos, com que frequência suas dores loteadas nos seguraram? Quem vai computar as noites solitárias amenizadas por suas canções, ou as panelas vazias ressignificadas pelas suas histórias? Se fôssemos um povo dado a revelar segredos, nós poderíamos erguer monumentos e fazer sacrifícios às memórias dos nossos poetas, mas a escravidão nos curou dessa fraqueza. Pode ser que seja suficiente, no entanto, dizer que nós sobrevivemos na proporção exata da dedicação dos nossos poetas (incluindo pregadores, músicos e cantores de blues). [...].

Trechos extraídos da obra Eu sei por que o pássaro canta na gaiola (Astral Cultural, 2018), da escritora e ativista estadunidense Maya Angelou - Marguerite Ann Johnson (1928-2014). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

TODOS DEVERÍAMOS SER FEMINISTAS, CHIMAMANDA NGOZI

[...] A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se é verdade que a plena humanidade das mulheres não é a nossa cultura, então podemos e devemos torná-la a nossa cultura. [...] Ensinamos as meninas a se encolherem, a se tornarem menores. Dizemos às meninas: vocês podem ter ambição, mas não muita. Vocês devem almejar o sucesso, mas não o sucesso excessivo. Caso contrário, vocês ameaçariam o homem. Por ser mulher, espera-se que eu aspire ao casamento. Espera-se que eu faça minhas escolhas de vida sempre tendo em mente que o casamento é o mais importante. O casamento pode ser uma fonte de alegria, amor e apoio mútuo, mas por que ensinamos as meninas a aspirarem ao casamento e não ensinamos o mesmo aos meninos? Criamos as meninas para se verem como concorrentes, não por empregos ou realizações, o que eu acho que pode ser uma coisa boa, mas pela atenção dos homens. Ensinamos às meninas que elas não podem ser seres sexuais da mesma forma que os meninos são. [...] Algumas pessoas perguntam: "Por que a palavra feminista? Por que não dizer simplesmente que você acredita em direitos humanos, ou algo assim?" Porque isso seria desonesto. O feminismo, é claro, faz parte dos direitos humanos em geral — mas optar por usar a expressão vaga "direitos humanos" é negar o problema específico e particular de gênero. Seria uma forma de fingir que não foram as mulheres que, durante séculos, foram excluídas. Seria uma forma de negar que o problema de gênero tem como alvo as mulheres. [...].

Trechos extraídos da obra We Should All Be Feminists (Anchor Books, 2015), da escritora e ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

FEDRA DE RACINE: AINSI QUE LA VERTU LE CRIME A SES DEGRÉS
[...] FEDRA - São caros os instantes; escutai-me. Fui eu quem, sobre um filho casto e humilde, Lancei vista profana, incestuosa. Pôs em meu seio o céu chama funesta. Tudo o mais dirigiu malvada Enone. Temeu, que meu furor sabendo Hipólito, Amor, que lhe era horrível, descobrisse. Meu desfalecimento aproveitando A pérfida, apressou-se a criminá-lo. Já se puniu; fugindo minhas iras, Nas ondas procurou suplício leve. Já meus dias o ferro terminara: Mas gemia a virtude suspeitosa. Quis, para vos expor os meus remorsos, Ao Cocito descer mais lentamente. Eu tomei, e já corre em minhas veias Veneno, que Medéia trouxe a Atenas. Tendo em meu coração já penetrado, Desconhecido gelo infunde nele. Já por entre uma nuvem só diviso, Céu e esposo, qu’ultrajo em estar presente; E a morte, aos olhos meus a luz roubando, Torna a pureza ao dia que manchavam.
FEDRA DE RACINE - Trecho da tragédia Fedra (L&PM, 2001), do poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês Jean Racine (1639-1699), em que a filha do Sol é prisioneira das trevas de um amor absolutamente proibido - ama Hipólito, seu enteado -, foge da luz do dia e se debate entre a loucura, a exaltação, a inveja, o ódio, a autopunição e a vergonha pública. Do artigo Fedra, de Jean Racine: moral do século XVII e criação literária (Letras, 2014), da pesquisa da UFU, Maria Suzana Moreira do Carmo, a peça teatral retrata, para além de sua matriz grega, uma importante apreensão dos debates morais e filosóficos do século XVII, estabelecendo uma estreita relação entre os atritos de ordem teológica e a criação literária: [...] Embora a impregnação dos valores cristãos na obra de Racine seja um fato que tenha gerado controvérsias, é inegável que a estrutura do mito em Fedra reproduz a moral jansenista, que considera impossível a conciliação com valores de um mundo radicalmente perverso, onde imperam o egoísmo, a paixão e a ignorância. [...] O drama de Fedra converge para a ideologia pessimista do autor. [...]. Veja mais aqui, aqui & aqui.
&
A ARTE DE SARA SÍNTIQUE
cato um búzio sempre que te vejo / quase não há mais lugar / e nem sei tua morada / longes longes / mas cato um búzio / sempre que te vejo / onírica / adorno a boca / o ventre / quase não há mais lugar / transbordo. / retenho.
SARA SÍNTIQUE – Poema porosidade, da atriz, escritora e educadora Sara Síntique, mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde também se graduou em Letras Português – Francês. É autora do livro Corpo Nulo (Substânsia, 2015) e do Água: ou testamento lírico a dias escassos (Ellenismos, 2019). Tem poemas publicados no blog Leituras da Bel (Jornal O Povo) e na Antologia de Poemas Eróticos - Mulheres Cearenses, nas revistas Escamandro, Literatura BR, Diversos Afins, Gueto, Saúva e Olho de Peixe (v. 3), além de ministrar cursos na área de Escrita Criativa, Dramaturgia e Literatura Comparada. Também atuou nas peças teatrais Tudo ao mesmo tempo agora, Os Demônios, Ensaio sobre Hamlet, O Despertar da Primavera - O musical, entre outras, e nos filmes Ossos, Vando Vulgo Vedita e Iracema, mon amour, entre outros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo japonês Shintaro Shiratori. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
de que adianta esse pôster de madonna na / parede da cozinha indicando de qual lado / estou se na papua nova guiné continuam / linchando mulheres a quem chamam de bruxa / a papua pode até ser guiné mas nisso não / tem nada de nova e se for para queimar uma / mulher por bruxaria que queimem logo todas / de que adianta beyoncé avisando que vai sentar / o rabo na cara do boy e de que adianta eu me / inspirar nisso para fazer igual ou parecido se na / papua nova guiné sentam senhoras em telhas de / brasilit e com elas amordaçadas abrem nacos de / carne e sangue que na foto escorria pelas rugas da / telha pelas rugas das costas da mulher essa mulher / de cabelo curto e preto de costas na foto parecia a / minha mãe eu perdi o controle não consegui mais / almoçar e sei que não vou conseguir dormir mas / de que adianta minha insônia e meu jejum e esse / poema se na papua nova guiné não iriam entendê-lo / e mesmo a compreensão dele não salvaria a vida da / mulher e mesmo no brasil onde se pode entendê-lo já / se sabe que poemas tal qual leis não mudam nada tudo / sobre isso já foi legislado e dito em todas as línguas / também em português mas meu deus / de que adiantaria meu silêncio? / de quem estaria meu silêncio a serviço?
Poema sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015, da premiada fotógrafa, poeta e tradutora Adelaide Ivánova, que estudou jornalismo na Unicap e fotografia na Ostkreuzschule, em Berlim. Editou o zine anarcofeminista Mais porn PVFR e é autora dos livros automoty (2014), Polaroides (2014), erste Lektionen in Hydrologie - und andere Bemerkungen (2014), O martelo (2016) e 13 Nudes (2019).
A emparedada da Rua Nova (1886), republicado entre os anos 1909-1912, como folhetim no Jornal Pequeno, de Recife, pelo escritor Joaquim Maria Carneiro Vilela (1846-1913) aqui.
Hermilo Borba Filho e a dramaturgia: diálogos pernambucanos, organizado por Anco Márcio Tenório Vieira, João Denys Araujo Leite e Luís Augusto Reis aqui.
A poesia da poeta e artista visual Mariana de Matos – Maré aqui.
A arte de João Câmara aqui.
A fotografia do jornalista, escritor e artista visual Chico Ludermir aqui.
A música de Leandro Vaz aqui.
&
As trelas do Doro aqui.
 

terça-feira, março 06, 2018

GRAZIA DELEDDA, RACINE, KIRI TE KANAWA, IVAN ILLICH, FLORA PURIM, ROBERT HOOKE & CYANE PACHECO

TOADA DE PEITO – Imagem: arte da artista plástica Cyane Pacheco. - O que tenho de mim nem mesmo me basta, como se errasse de ontem os designios extraviados e nem mais opção qual fuga restasse, antes certeza que nem duvidou, quando ademais era o lacre na porta e o verão a espera no ermo. O ouvido do mundo me fez só silêncio, quanto eu já não dei a mim do que perdi o rio e a minha cidade comigo distante e sem aceno, não vivia de tão desfeita, porque nada servia mesmo se assim não quisesse. Vinte coisas me disseram de outras tantas nem mais disfarçadas, coisas à cata que nem sabe o que é, sobrei pelas costas sem ter pra onde ir, a ilusão que sobrava de partir pra melhor. Sorria amarelo o dia anoitecido, e se calavam desavindos nas encruzilhadas e precisava saber das horas, só desdenhavam: amanhã será você. Pra mim era, e não era; era como se quisessem que eu soubesse a letra A de quem vai ou já foi com os melhores tempos do passado, eu atrás do futuro jogado pra trás por consoantes e vogais que nem se diziam: tem lógica? Não, não tinha, nem poderia jamais, o que seria pretexto pra toda desistência. Mais eu insistia refeito na marra e quase tudo a se decompor aos desamparos e exortações, porquanto eu pudesse sobreviver entre a vingança e o perdão, das quais sabia sequer as cinzas ao vento, trapos e migalhas eram haveres e se esvaiam entre os dedos. Renascia e revidava perempto e pombos saíam-me ao tronco ganhando a brisa como truques malogrados pela vulgaridade com todos encobertos pros sustos inexplicáveis, e a remar sem saber da maré escondida, meus braços quais hélices pras asas sonhadas, estranguladas pelos chiados das corujas com as agruras movediças colhendo estrelas pra não saber mais do céu, e a despencar na perplexidade dos embaraços como se dessem as contas para nunca mais. Retornava à semente, teimoso do zero pro que desse, apócrifo triunfo pros anos pesarem nos pés descalços, fincados no chão sem vestígios. Eu me refazia teimando em ganhar e o Sol a dançar na ponta dos dedos até o cansaço do crepúsculo, um brinde, cores e perfumes, meu salva-vida pelas fornalhas da via crucis, a prosperar na treva como se nada mais existisse, porque ninguém vê o escuro até o porvir. E assim a vida brinca de morte e vice-versa, a todo instante, aprendo sem jeito e querer, vou adiante pra que tudo seja hoje, amanhã e depois, mais uma vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Todo dia é Dia da Mulher com especial da cantora Flora Purim: Speak no evil, Airto Moreira Live & Ohne Filter Live; da cantora lírica e aclamada soprano neozelandesa Kiri Te Kanawa: The jazz álbum, Ária (Cantilena) Bachianas Brasileiras 5 de Villa-Lobos & Montreal Concerts; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Precisamos ainda encontrar um nome para os que valorizam mais a esperança do que as expectativas. Precisamos de um nome para os que amam mais as pessoas do que os produtos, os que acreditam que Ninguém é desinteressante. Seu destino é semelhante à crônica dos planetas. Nada há nele que não seja particular, cada planeta é diferente de outro. Precisamos encontrar um nome para os que amam a Terra onde cada um possa encontrar o outro. E se uma pessoa viver na obscuridade, fizer seus amigos nesta obscuridade, a obscuridade não é desinteressante. [...] Trecho da obra Sociedade sem escolas (Vozes, 1985), do pensador e polímata austríaco Ivan Illich (1926-2002), tratando sobre a desinstalação da escola e sua fenomenologia, a ritualização do progresso, os mitos dos valores institucionalizados, da mensuração dos valores dos valores empacotados, do progresso autoperpetuavel, o jogo ritual e a nova religião do mundo, o reino que há de vir & a universalização das expectativas, a nova alienação, o potencial revolucionário da desescolarização, o espectro institucional, os falsos serviços públicos & as escolas como falsos serviços públicos, as concordâncias irracionais, as teias de aprendizagem, serviço de consultas a objetos educacionais, intercâmbio de habilidades, encontro de parceiros, educadores profissionais, renascimento do homem Epimeteu, entre outros assuntos. No texto Aplea for research on lay litteracy (Cambridge University Press, 1991), o autor observa que: [...] Em uma sociedade oral, uma pessoa tem que manter sua palavra. Ele a confirma fazendo um juramento, que é uma maldição condicional a ameaçá-lo caso não seja fiel ao que prometeu. Enquanto jura, segura a barba ou os testículos, oferecendo o próprio corpo como garantia. [...] No regime da escrita, o juramento perde valor diante do manuscrito; não é mais a memória que conta, porém o registro. [...].

LEITURA DO MUNDO – [...] Sempre que perceber que me aventurei a fazer qualquer mínima conjetura sobre as causas do que observei, peço-lhe que as considere apenas como questões duvidosas e palpites incertos, não como conclusões inquestionáveis. [...] Procurei tanto quanto pude primeiramente descobrir a aparência verdadeira e depois representá-la simplesmente. [...]. Trecho extraído da obra Micrographia (Micrographia, or some physiological descriptions of minute bodies made by magnifying glasses with observations and inquiries thereupon - Dover, 1961), do filósofo e cientista experimental inglês Robert Hooke (1635-1703), obra esta que foi uma das primeiras obras onde o microscópio foi aplicado ao estudo dos seres vivos, com descrições detalhadas e minuciosos desenhos que se tornaram famosos, introduzindo com a microscopia um novo modo de ver o mundo.

CANIÇOS AO VENTO - [...] Já algumas mulheres tinham-se reunido ao redor da sanfona, dando-se as mãos, para começar o baile. Os botões de seus corpetes brilhavam ao fogo, as sombras se cruzavam no chão pardacento. Lentamente formaram uma fileira, com as mãos trançadas, e levantaram os pés, experimentando os primeiros passos do baile; ainda eram rígidas e incertas, e pareciam que se escorassem reciprocamente. [...] Uma corrente de magia pareceu atravessar as mulheres, provocando uma excitação, controlada, mas ardente. A fila começou a ondular, dobrando as pontas até formar uma roda. A todo momento uma mulher de fora chegavam separava duas mãos juntas, trançava-se com as suas e acrescentava um elo à cadeia multicor, ao redor da qual se formava no chão uma franja de sombras animadas. E os pés levantavam-se sempre mais rápidos, batendo entre si, e batendo depois a terra, como para despertá-la da sua imobilidade. [...]. O grito ecoava como um relincho e as pernas das mulheres, desenhadas pelas saias escuras, e os pés curtos, emergindo das ondulantes barras vermelhas, moviam-se quase freneticamente, como esquentados pelo prazer do baile. [...]. Trechos extraídos da obra Caniços ao vento (Delta, 1964), da escritora sarda Grazia Deledda (1871-1936), Prêmio Nobel de Literatura de 1926, narrando neste livro as crises existenciais e fragilidades humana das suas personagens, bem como descreve em detalhes e com um realismo claro os costumes e lendas da sociedade agro-pastoril da sua amada ilha da Sardenha.

A DEVOÇÃO - Das celestes regiões pouso da Divindade, / desço à mansão que hospeda a graça e a virgindade; / paira a Inocência ai, minha irmã eternal, / que não tem som os céus asilo mais real. / Aqui, longe do mundo e de seu ruído vão, / guio ao dever mais santo um povo em formação: / nutro-lhe na alma pura o germe alvo e fecundo / das virtudes que deve espalhar pelo mundo. / Um rei que me protege, ilustre e vitorioso, / confiou a minhas mãos um cargo tão precioso. / E lhes transpondo já fronteiras e defesas, / destrói ele os bastiões de suas fortalezas. / Deste-lhe um filho atento em alçar-lhe o poder, / que cabe comandar, lutar, obedecer; / e, que a seus pés, também, vendo sempre a vitória, / a merecer-lhe o amor limita a própria gloria; / sujeito com ternura ao cetro paternal, / é de todo inimigo o infortúnio eternal/ aos raios similar, que envia o céu possante / quando, seu rei diz: “Parte”, arroja-se exultante; / de um vingador trovão abrasa a terra e os céus / e, tramquilo, a seus pés vem depor seus troféus; / E, enquanto um grande rei me vinga das desfeitas, / vós, que gozais aqui delicias tão perfeitas, / se ele olvidar uma horas as glorias que constrói, / as diversões da fé chamai aquele herói: / retratai-lhe de Ester, a imorredoira história, / e sobre a irreligião, da piedade a vitória. / Mas, vós que preferis essas loucas paixões / que acendem na alma humana as profanas ficções, / espectadores vãos de frívolos prazeres, / cujo ouvido aborrece o som de meus dizeres, / fughi do meu prazer à santa austeridade: / aqui tudo respira a Deus, paz e verdade. Prólogo da tragédia Esther (Irmãos Pongetti, 1949), do poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês Jean Racine (1639-1699). Trata-se de uma peça em três atos, escrita em 1689, dramatizada para satisfação dos professores e alunos que declamaram e cantaram com tanta graça e modéstia, que esse pequeno drama, destinado apenas para o benefício dos jovens alunos, tornou-se a admiração do rei e do tribunal. Veja mais aqui e aqui.

OS DESENHOS DE CYANE PACHECO
Dentre as linguagens escolhidas, o desenho, desde sempre me pareceu a mais rematada forma de expressar minha busca no universo das Artes Visuais. Desenho para esquadrinhar perguntas, para constituir um vocabulário particular, para constituir o ambiente que me circunda, para desempenhar um papel político através da Arte e em fazer compreender pelo viés daquilo que não é palavra. Eu achava que o traço significava minha inaptidão com a literatura, ou seja, desenho, esculpo, gravo, fotografo e produzo em outras linguagens para desvelar um texto visual que me é necessário. Embora goste de expandir as formas clássicas das linguagens artísticas (desenho, pintura, gravura e escultura), guardo o cuidado que me antepare das ondas vãs e do amontoado das ruínas precoces dos modismos que, não raro, propositadamente esvaziam os discursos e são, em sua maioria, feitos para ingênuas diversões, nesse sentido, das linguagens expandidas, agradam-me as intersecções e as estratificações que contêm todo o tempo. Incorporo o discurso que alinhava as imagens, buscando através dele, remontar às experiências e às surpresas do novo o enfrentamento da criação, sabendo que “desprovido da experiência, o homem não deixa rastro”, como bem assinala Walter Benjamin, recrio, portanto, minha existência, o que me ocorreu e o que imagino, os vestígios da memória, os conteúdos inconscientes, absorvo os saberes alheios, exponho o horror das potências inumanas, mesmo sabendo que essa exposição não atingirá ou destruirá a barbárie, o horror. Durante o final dos anos oitenta e início dos anos noventa do século XX, quando trabalhei no Museu do Estado de Pernambuco e participei de uma equipe responsável pela restauração de uns painéis votivos representando uma batalha havida no século XVII, percebi que as figuras que compunham tais painéis, eram soldados, cães, famílias, personagens circenses, numa procissão extravagante, representados através de uma bidimensionalidade ingênua em suas posturas sobrepostas, subvertendo as regras da perspectiva. Dispostos em um plano diverso das alegorias por nós conhecidas, as figuras que compunham esse painel votivo, pareciam surgir com imensa liberdade de gestos, relevando a primazia da mensagem, da ilustração despreendida da rigidez acadêmica. Transpus essa lógica ou forma representativa do traço, para o plano, o papel, o espaço dos suportes eleitos, esquecendo intencionalmente as regras pré-estabelecidas, desobedecendo as leis da composição ensinadas nos livros sobre o assunto. Dei conta no papel tão somente do texto que me interessou naquele primeiro momento e continua me impelindo a resolver, com fluidez e poucas regras ditadas ao acaso, o sentido dos traços e das figuras que dele surgem. Imaginei que os personagens oriundos da imaginação despontavam dessa clivagem na rigidez do gesto, da criatividade e da ilusão da liberdade, há tanto guardada e, isso me faz pressentir, até hoje, que tais figuras sentem-se expressamente alforriadas. No momento seguinte do meu percurso, quando julguei que a madureza dos traços podia criar uma linguagem pessoal, íntima, um vocabulário que dissesse não apenas o que penso, mas retratasse algo mais amplo, do campo do mito, do sonho público, decidi que podia tirá-los da condição limitada e bidimensional, modelando-os e alargando as suas expressões. Como seria soltá-los do plano achatado do papel? Essa foi a atitude primeira para que eu empreendesse incursões nos territórios mais extensos da arte. O desenho continua portanto, o ponto de partida para qualquer texto que eu pretenda em Arte. O corpo é meu foco e meu objeto de investigação, escolhido pelas possibilidades várias que vão desde a metáfora, a metonímia, as camadas temporais, as alterações entre motivo e suporte à literalidade. Busco, além do fazer artístico, respeitar o ínfimo espaço entre arte e vida, senão viver as duas coisas como se fora uma só.
Texto extraído de Eutomia - Revista de Literatura e Linguistica (Recife, 14 (1): v-xix, Dez.2014), da artista plástica & visual Cyane Pacheco. (Veja mais abaixo).

Veja mais:
Ana Lins, a Revolução Pernambucana de 1817 & Todo dia é dia da mulher aqui.
Festa no céu do amor, a música de Tom Jobim, a poesia de Nauro Machado, a fotografia de Elizabeth Zusev & a arte de Steve K. aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
O que é de sonho quando real, Yukio Mishima, Marisa Rezende & David Alfaro Siqueiros aqui
O que semeei pro que será colhido, Elbert Hubbard, Débora Arango & Miriam Maria aqui
A morte e a morta, Tarsila do Amaral & Byam Shaw aqui
O beijo dela de sol na minha vida de lua, José Régio, Ceumar & Luciah Lopez aqui
Gabriel García Marquez, Lev Vygotsky, Edmond Rostand & Cyrano de Bergerac, Elizabeth Barrett Browning, Flora Purim, Andrzej Wajda, Michelangelo & Anna Mucha aqui
Conversa de pé do ouvido, Margaret Mead, Erasmo de Roterdam, Graciliano Ramos & Fernando Fiorese aqui
Monarquia brasileira aqui
Proclamação da República aqui
A Era Vargas & a República aqui
Tolinho & Bestinha: Quando Boca-de-frô engrossou o caldo para formar a tríade amalucada aqui
Pierre Weil, Confúcio, Psicoterapia Mente-Corporal de Alexander Lowen & Doro nas eleições aqui
O corpo dela é o pomar de amor & Programa Tataritaritatá aqui
Puxavanque do prazer & Programa Tataritaritatá aqui
Poço do Prazer & Programa Tataritaritatá aqui
Vygotsky, Freud, Lacan, Cícero & a Arte de Envelhecer, Dawna Markova, Heniz Kohut, Teatro, Doro & Pernambuco aqui
Alan Watts & Todos os Brasis do Brasil aqui
História do Cinema aqui.

ARTE DE CYANE PACHECO
A arte da artista plástica & visual Cyane Pacheco, que edita os blogs Cyane Pacheco & Arte Cyane Pacheco, mantendo seus trabalhos em um canal do YouTube e perfil no Flickr. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...