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segunda-feira, março 09, 2020

ALEXANDRA KOLLONTAI, SIMONE SABACK, ELSA CAYAT, RUTH KLIGMAN, ÁGDA MOURA & AMÉLIA BRANDÃO


TODO DIA É DIA DA MULHER – UMA: PODIA ATÉ SER, POR QUE NÃO? - A poeta chegou nua, cabelos longos, seios nos ombros da minha noite exaltada: abraço de mar no meu insulado coração. Dela, beijos de mel na minha boca faminta. Enaltecida, sussurrou ao meu ouvido atento todos os seus poemas de amor da sua carne divinizada entre lençóis, nuvens e estrelas. Amanheceu-me ensolarada com um sorriso reluzente e uma frase inesquecível. Quem? Elizabeth Barrett Browning: Ilumine seu amanhã com seu hoje! Você é algo entre um sonho e um milagre. Ninguém está sozinho se tiver Deus e a companhia de bons livros. Realmente, inesquecível. DUAS: QUANDO NELA EU OUTRO – Seus olhos nos meus, o éden agora: vestes deslizam na sua escultura desnuda. Sua língua é um pincel atrevido no meu tórax erradio: uma égua sem véus na montaria da minha clava aguerrida. O seu sexo uma pintura viva e abstrata. A loucura e o seu aranzel como se morta rosa despetalada sem saber se renascia levada apenas pelo gesto. Quem? Georgia O'Keeffe: A visão de outra pessoa nunca será tão boa quanto a sua própria visão de si mesmo. Viva e morra com isso, porque no final é tudo que você tem. Perca e você se perderá e tudo mais. Eu deveria ter me escutado. Ah, a nudez dela na minha lente e sonho. TRÊS: NELA OPERÓTICA – Ela não se diz má, assimétrica e angelical imperfeita a solfejar uma Bachianinha do Villa enquanto cata insetos na minha pele embriagada, porque sou asteroide vagante na sua mão carinhosa. O seio robusto explode o decote amotinado, rasga a saia coxa exposta e o sexo vulcânico assoma do torso de uma deusa furiosa, semblante safado nos lábios pedintes. Quem? Kiri Te Kanawa: Eu realmente acredito que tenho sido uma boa pessoa. Não é perfeito - esqueça o perfeito - mas apenas aprendendo o que eles me ensinaram e vivendo de acordo com meus próprios valores. Eu poderia ter pisado em algumas formigas - e algumas outras coisas também - mas nunca machuquei ninguém. Ah, sua voz na minha loucura. Todas elas, um só ser em mim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Somente as novas tempestades revolucionárias foram fortes o suficiente para varrer preconceitos grosseiros contra a mulher e somente o povo trabalhador é capaz de efetuar a completa equalização e liberação da mulher, construindo uma nova sociedade. Se eu alcancei algo neste mundo, não foram minhas qualidades pessoais que originaram isso. Em vez disso, minhas realizações são apenas um símbolo do fato de que a mulher, afinal, já está em marcha para o reconhecimento geral. Somente as novas tempestades revolucionárias foram fortes o suficiente para varrer preconceitos ocultos contra a mulher e somente o povo produtivo é capaz de efetuar a completa equalização e libertação da mulher construindo uma nova sociedade. [...]. Pensamento da líder revolucionária e teórica russsa Alexandra Kollontai (1872-1952). Veja mais aqui, aquiaqui.

BASEAR A VIDA NO OUTRO – [...] Esse é todo o problema do amor. Não se trata de apoiar sua vida no outro, mas preservar sua vida para si, recentrar em si para poder abrir-se ao outro. Esse é o eixo central dos problemas do amor, um eixo do mito do amor. Um quer se apoiar no outro, quer descansar no outro, pois crê que o amor é a solução a tudo o que falta e assim demanda no outro o amparo a sua fragilidade. Mas isso é falso. O outro não pode preencher nossas faltas. Em geral se pensa que o amor é a solução a tudo o que falta, e então o outro vai nos curar. Repito: isso é falso. O outro não pode nos preencher completamente, e os problemas pessoais irão irromper. Para se resolver os problemas é preciso acertar-se consigo mesmo. Pode-se amar tendo confiança relativa. O outro existe, é um ser humano como a gente. Entretanto, é diferente da gente. A confiança que se precisa aprender é a confiança em si. [...]. Palavras da jornalista médica psiquiátrica e psicanalista francesa Elsa Cayat (1960-2015), autora das obras Un Homme + Unne Femme = Qoui (“Um homem + uma mulher = o que é”) e Desir et la Putain – Les Enjeux Cachés de la Sexualité Masculine (O desejo e a puta – Os desafios escondidos da sexualidade masculina). Ela foi a única mulher entre as 12 vítimas dos terroristas no ataque jihadista contra o Charlie Hebdo, enterrada no trecho israelita do Cemitério de Montparnasse, em 15 de janeiro de 2015.

A MÚSICA DE SIMONE SABACK
Aperta-me nas mãos
Busca as soluções.
Planta-me num jardim
Fora do alcance de qualquer ser.
Ali crescerá uma canção
Que dirá o que eu não posso.
Planta-me.
Mas antes retira minhas mágoas.
Seca o suor de minha pouca idade.
Antes purifica-me.
Antes,
Ama-me.
A MÚSICA DE SIMONE SABACK - Poema Planta-me, extraído do livro Mesmo sangue (1980), da poeta, compositora, intérprete, roteirista e jornalista Simone Saback. Ela começou sua carreira como cantora em show com temporadas na Sala Funarte, dedicando-se em seguida em atuar como produtora no fomento do mercado candango do Teatro e da Música. Depois trabalhou na Revista Manchete e nos jornais Correio Brasiliense, Jornal de Brasília e Última Hora. Atuou como roteirista para cinema e televisão, além de ter várias de suas músicas gravadas por Zélia Duncan, Ana Carolina, Frejat, Simone, Cassia Eller, Fábio Jr, entre outros.
&
ÁGDA MOURA
[...] tenho o projeto musical autoral, “O canto do meu canto” , onde toco com músicos da cidade. [...] Com teatro, sou integrante do grupo Avani Lopes, que é formado por grandes artistas que cresci admirando. Estudo arquitetura. Junto aos meus amigos, organizamos o movimento Lamparina, que funciona como uma intervenção urbana cultural a espalhar arte pelas ruas, nossas tradições e a história da cidade. Nas escolas do município, produzo atividades e oficinas culturais com contação de histórias, poesia, dinâmicas teatrais e música. E assim vão se desenhando os projetos que naturalmente vão se atribuindo.
ÁGDA MOURA - A arte da cantora, compositora, atriz, desenhista e multi-instrumentista Ágda Moura, que no seu repertório autoral, apresenta conexões estreitas com temas que valorizam a simplicidade da vida e evidencia um diálogo entre composições com arranjos contemporâneos, conectados ao rock pernambucano, ao blues e ao folk, com elementos rítmicos da tradição do maracatu, ciranda e coco. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arte é minha vida. Sinto-me privilegiado como artista, como mulher, como uma pessoa com uma grande história.
RUTH KLIGMAN – A arte da pintora estadunidense Ruth Kligman (1930-2010), musa dos mais importantes artistas do século 20 e paixão amorosa do artista Jackson Pollock (1912-1956). Veja mais aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER PERNAMBUCANA
AMÉLIA BRANDÃO, A TIA AMÉLIA
A arte da pianista e compositora Amélia Brandão (1897-1983), que começou sua carreira como erudita e transformou-se em figura representativa do choro, homenageada por figuras de peso, a exemplo de Pablo Neruda e Vinicius de Moraes, entre outros.
A poesia do poeta, tradutor, crítico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968) aqui & aqui.
A literatura de Maurício Melo Júnior aqui & aqui.
Antonio de Brito Alves: o príncipe dos advogados, do jornalista Carlos Cavalcante(1949-2011) aqui.
A arte de Eliete Carvalho aqui & aqui.
As artesanias de Epifânio aqui.
Os quadrinhos de Nel Angeiras aqui.
O município de Canhotinho aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

terça-feira, março 06, 2018

GRAZIA DELEDDA, RACINE, KIRI TE KANAWA, IVAN ILLICH, FLORA PURIM, ROBERT HOOKE & CYANE PACHECO

TOADA DE PEITO – Imagem: arte da artista plástica Cyane Pacheco. - O que tenho de mim nem mesmo me basta, como se errasse de ontem os designios extraviados e nem mais opção qual fuga restasse, antes certeza que nem duvidou, quando ademais era o lacre na porta e o verão a espera no ermo. O ouvido do mundo me fez só silêncio, quanto eu já não dei a mim do que perdi o rio e a minha cidade comigo distante e sem aceno, não vivia de tão desfeita, porque nada servia mesmo se assim não quisesse. Vinte coisas me disseram de outras tantas nem mais disfarçadas, coisas à cata que nem sabe o que é, sobrei pelas costas sem ter pra onde ir, a ilusão que sobrava de partir pra melhor. Sorria amarelo o dia anoitecido, e se calavam desavindos nas encruzilhadas e precisava saber das horas, só desdenhavam: amanhã será você. Pra mim era, e não era; era como se quisessem que eu soubesse a letra A de quem vai ou já foi com os melhores tempos do passado, eu atrás do futuro jogado pra trás por consoantes e vogais que nem se diziam: tem lógica? Não, não tinha, nem poderia jamais, o que seria pretexto pra toda desistência. Mais eu insistia refeito na marra e quase tudo a se decompor aos desamparos e exortações, porquanto eu pudesse sobreviver entre a vingança e o perdão, das quais sabia sequer as cinzas ao vento, trapos e migalhas eram haveres e se esvaiam entre os dedos. Renascia e revidava perempto e pombos saíam-me ao tronco ganhando a brisa como truques malogrados pela vulgaridade com todos encobertos pros sustos inexplicáveis, e a remar sem saber da maré escondida, meus braços quais hélices pras asas sonhadas, estranguladas pelos chiados das corujas com as agruras movediças colhendo estrelas pra não saber mais do céu, e a despencar na perplexidade dos embaraços como se dessem as contas para nunca mais. Retornava à semente, teimoso do zero pro que desse, apócrifo triunfo pros anos pesarem nos pés descalços, fincados no chão sem vestígios. Eu me refazia teimando em ganhar e o Sol a dançar na ponta dos dedos até o cansaço do crepúsculo, um brinde, cores e perfumes, meu salva-vida pelas fornalhas da via crucis, a prosperar na treva como se nada mais existisse, porque ninguém vê o escuro até o porvir. E assim a vida brinca de morte e vice-versa, a todo instante, aprendo sem jeito e querer, vou adiante pra que tudo seja hoje, amanhã e depois, mais uma vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Todo dia é Dia da Mulher com especial da cantora Flora Purim: Speak no evil, Airto Moreira Live & Ohne Filter Live; da cantora lírica e aclamada soprano neozelandesa Kiri Te Kanawa: The jazz álbum, Ária (Cantilena) Bachianas Brasileiras 5 de Villa-Lobos & Montreal Concerts; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Precisamos ainda encontrar um nome para os que valorizam mais a esperança do que as expectativas. Precisamos de um nome para os que amam mais as pessoas do que os produtos, os que acreditam que Ninguém é desinteressante. Seu destino é semelhante à crônica dos planetas. Nada há nele que não seja particular, cada planeta é diferente de outro. Precisamos encontrar um nome para os que amam a Terra onde cada um possa encontrar o outro. E se uma pessoa viver na obscuridade, fizer seus amigos nesta obscuridade, a obscuridade não é desinteressante. [...] Trecho da obra Sociedade sem escolas (Vozes, 1985), do pensador e polímata austríaco Ivan Illich (1926-2002), tratando sobre a desinstalação da escola e sua fenomenologia, a ritualização do progresso, os mitos dos valores institucionalizados, da mensuração dos valores dos valores empacotados, do progresso autoperpetuavel, o jogo ritual e a nova religião do mundo, o reino que há de vir & a universalização das expectativas, a nova alienação, o potencial revolucionário da desescolarização, o espectro institucional, os falsos serviços públicos & as escolas como falsos serviços públicos, as concordâncias irracionais, as teias de aprendizagem, serviço de consultas a objetos educacionais, intercâmbio de habilidades, encontro de parceiros, educadores profissionais, renascimento do homem Epimeteu, entre outros assuntos. No texto Aplea for research on lay litteracy (Cambridge University Press, 1991), o autor observa que: [...] Em uma sociedade oral, uma pessoa tem que manter sua palavra. Ele a confirma fazendo um juramento, que é uma maldição condicional a ameaçá-lo caso não seja fiel ao que prometeu. Enquanto jura, segura a barba ou os testículos, oferecendo o próprio corpo como garantia. [...] No regime da escrita, o juramento perde valor diante do manuscrito; não é mais a memória que conta, porém o registro. [...].

LEITURA DO MUNDO – [...] Sempre que perceber que me aventurei a fazer qualquer mínima conjetura sobre as causas do que observei, peço-lhe que as considere apenas como questões duvidosas e palpites incertos, não como conclusões inquestionáveis. [...] Procurei tanto quanto pude primeiramente descobrir a aparência verdadeira e depois representá-la simplesmente. [...]. Trecho extraído da obra Micrographia (Micrographia, or some physiological descriptions of minute bodies made by magnifying glasses with observations and inquiries thereupon - Dover, 1961), do filósofo e cientista experimental inglês Robert Hooke (1635-1703), obra esta que foi uma das primeiras obras onde o microscópio foi aplicado ao estudo dos seres vivos, com descrições detalhadas e minuciosos desenhos que se tornaram famosos, introduzindo com a microscopia um novo modo de ver o mundo.

CANIÇOS AO VENTO - [...] Já algumas mulheres tinham-se reunido ao redor da sanfona, dando-se as mãos, para começar o baile. Os botões de seus corpetes brilhavam ao fogo, as sombras se cruzavam no chão pardacento. Lentamente formaram uma fileira, com as mãos trançadas, e levantaram os pés, experimentando os primeiros passos do baile; ainda eram rígidas e incertas, e pareciam que se escorassem reciprocamente. [...] Uma corrente de magia pareceu atravessar as mulheres, provocando uma excitação, controlada, mas ardente. A fila começou a ondular, dobrando as pontas até formar uma roda. A todo momento uma mulher de fora chegavam separava duas mãos juntas, trançava-se com as suas e acrescentava um elo à cadeia multicor, ao redor da qual se formava no chão uma franja de sombras animadas. E os pés levantavam-se sempre mais rápidos, batendo entre si, e batendo depois a terra, como para despertá-la da sua imobilidade. [...]. O grito ecoava como um relincho e as pernas das mulheres, desenhadas pelas saias escuras, e os pés curtos, emergindo das ondulantes barras vermelhas, moviam-se quase freneticamente, como esquentados pelo prazer do baile. [...]. Trechos extraídos da obra Caniços ao vento (Delta, 1964), da escritora sarda Grazia Deledda (1871-1936), Prêmio Nobel de Literatura de 1926, narrando neste livro as crises existenciais e fragilidades humana das suas personagens, bem como descreve em detalhes e com um realismo claro os costumes e lendas da sociedade agro-pastoril da sua amada ilha da Sardenha.

A DEVOÇÃO - Das celestes regiões pouso da Divindade, / desço à mansão que hospeda a graça e a virgindade; / paira a Inocência ai, minha irmã eternal, / que não tem som os céus asilo mais real. / Aqui, longe do mundo e de seu ruído vão, / guio ao dever mais santo um povo em formação: / nutro-lhe na alma pura o germe alvo e fecundo / das virtudes que deve espalhar pelo mundo. / Um rei que me protege, ilustre e vitorioso, / confiou a minhas mãos um cargo tão precioso. / E lhes transpondo já fronteiras e defesas, / destrói ele os bastiões de suas fortalezas. / Deste-lhe um filho atento em alçar-lhe o poder, / que cabe comandar, lutar, obedecer; / e, que a seus pés, também, vendo sempre a vitória, / a merecer-lhe o amor limita a própria gloria; / sujeito com ternura ao cetro paternal, / é de todo inimigo o infortúnio eternal/ aos raios similar, que envia o céu possante / quando, seu rei diz: “Parte”, arroja-se exultante; / de um vingador trovão abrasa a terra e os céus / e, tramquilo, a seus pés vem depor seus troféus; / E, enquanto um grande rei me vinga das desfeitas, / vós, que gozais aqui delicias tão perfeitas, / se ele olvidar uma horas as glorias que constrói, / as diversões da fé chamai aquele herói: / retratai-lhe de Ester, a imorredoira história, / e sobre a irreligião, da piedade a vitória. / Mas, vós que preferis essas loucas paixões / que acendem na alma humana as profanas ficções, / espectadores vãos de frívolos prazeres, / cujo ouvido aborrece o som de meus dizeres, / fughi do meu prazer à santa austeridade: / aqui tudo respira a Deus, paz e verdade. Prólogo da tragédia Esther (Irmãos Pongetti, 1949), do poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês Jean Racine (1639-1699). Trata-se de uma peça em três atos, escrita em 1689, dramatizada para satisfação dos professores e alunos que declamaram e cantaram com tanta graça e modéstia, que esse pequeno drama, destinado apenas para o benefício dos jovens alunos, tornou-se a admiração do rei e do tribunal. Veja mais aqui e aqui.

OS DESENHOS DE CYANE PACHECO
Dentre as linguagens escolhidas, o desenho, desde sempre me pareceu a mais rematada forma de expressar minha busca no universo das Artes Visuais. Desenho para esquadrinhar perguntas, para constituir um vocabulário particular, para constituir o ambiente que me circunda, para desempenhar um papel político através da Arte e em fazer compreender pelo viés daquilo que não é palavra. Eu achava que o traço significava minha inaptidão com a literatura, ou seja, desenho, esculpo, gravo, fotografo e produzo em outras linguagens para desvelar um texto visual que me é necessário. Embora goste de expandir as formas clássicas das linguagens artísticas (desenho, pintura, gravura e escultura), guardo o cuidado que me antepare das ondas vãs e do amontoado das ruínas precoces dos modismos que, não raro, propositadamente esvaziam os discursos e são, em sua maioria, feitos para ingênuas diversões, nesse sentido, das linguagens expandidas, agradam-me as intersecções e as estratificações que contêm todo o tempo. Incorporo o discurso que alinhava as imagens, buscando através dele, remontar às experiências e às surpresas do novo o enfrentamento da criação, sabendo que “desprovido da experiência, o homem não deixa rastro”, como bem assinala Walter Benjamin, recrio, portanto, minha existência, o que me ocorreu e o que imagino, os vestígios da memória, os conteúdos inconscientes, absorvo os saberes alheios, exponho o horror das potências inumanas, mesmo sabendo que essa exposição não atingirá ou destruirá a barbárie, o horror. Durante o final dos anos oitenta e início dos anos noventa do século XX, quando trabalhei no Museu do Estado de Pernambuco e participei de uma equipe responsável pela restauração de uns painéis votivos representando uma batalha havida no século XVII, percebi que as figuras que compunham tais painéis, eram soldados, cães, famílias, personagens circenses, numa procissão extravagante, representados através de uma bidimensionalidade ingênua em suas posturas sobrepostas, subvertendo as regras da perspectiva. Dispostos em um plano diverso das alegorias por nós conhecidas, as figuras que compunham esse painel votivo, pareciam surgir com imensa liberdade de gestos, relevando a primazia da mensagem, da ilustração despreendida da rigidez acadêmica. Transpus essa lógica ou forma representativa do traço, para o plano, o papel, o espaço dos suportes eleitos, esquecendo intencionalmente as regras pré-estabelecidas, desobedecendo as leis da composição ensinadas nos livros sobre o assunto. Dei conta no papel tão somente do texto que me interessou naquele primeiro momento e continua me impelindo a resolver, com fluidez e poucas regras ditadas ao acaso, o sentido dos traços e das figuras que dele surgem. Imaginei que os personagens oriundos da imaginação despontavam dessa clivagem na rigidez do gesto, da criatividade e da ilusão da liberdade, há tanto guardada e, isso me faz pressentir, até hoje, que tais figuras sentem-se expressamente alforriadas. No momento seguinte do meu percurso, quando julguei que a madureza dos traços podia criar uma linguagem pessoal, íntima, um vocabulário que dissesse não apenas o que penso, mas retratasse algo mais amplo, do campo do mito, do sonho público, decidi que podia tirá-los da condição limitada e bidimensional, modelando-os e alargando as suas expressões. Como seria soltá-los do plano achatado do papel? Essa foi a atitude primeira para que eu empreendesse incursões nos territórios mais extensos da arte. O desenho continua portanto, o ponto de partida para qualquer texto que eu pretenda em Arte. O corpo é meu foco e meu objeto de investigação, escolhido pelas possibilidades várias que vão desde a metáfora, a metonímia, as camadas temporais, as alterações entre motivo e suporte à literalidade. Busco, além do fazer artístico, respeitar o ínfimo espaço entre arte e vida, senão viver as duas coisas como se fora uma só.
Texto extraído de Eutomia - Revista de Literatura e Linguistica (Recife, 14 (1): v-xix, Dez.2014), da artista plástica & visual Cyane Pacheco. (Veja mais abaixo).

Veja mais:
Ana Lins, a Revolução Pernambucana de 1817 & Todo dia é dia da mulher aqui.
Festa no céu do amor, a música de Tom Jobim, a poesia de Nauro Machado, a fotografia de Elizabeth Zusev & a arte de Steve K. aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
O que é de sonho quando real, Yukio Mishima, Marisa Rezende & David Alfaro Siqueiros aqui
O que semeei pro que será colhido, Elbert Hubbard, Débora Arango & Miriam Maria aqui
A morte e a morta, Tarsila do Amaral & Byam Shaw aqui
O beijo dela de sol na minha vida de lua, José Régio, Ceumar & Luciah Lopez aqui
Gabriel García Marquez, Lev Vygotsky, Edmond Rostand & Cyrano de Bergerac, Elizabeth Barrett Browning, Flora Purim, Andrzej Wajda, Michelangelo & Anna Mucha aqui
Conversa de pé do ouvido, Margaret Mead, Erasmo de Roterdam, Graciliano Ramos & Fernando Fiorese aqui
Monarquia brasileira aqui
Proclamação da República aqui
A Era Vargas & a República aqui
Tolinho & Bestinha: Quando Boca-de-frô engrossou o caldo para formar a tríade amalucada aqui
Pierre Weil, Confúcio, Psicoterapia Mente-Corporal de Alexander Lowen & Doro nas eleições aqui
O corpo dela é o pomar de amor & Programa Tataritaritatá aqui
Puxavanque do prazer & Programa Tataritaritatá aqui
Poço do Prazer & Programa Tataritaritatá aqui
Vygotsky, Freud, Lacan, Cícero & a Arte de Envelhecer, Dawna Markova, Heniz Kohut, Teatro, Doro & Pernambuco aqui
Alan Watts & Todos os Brasis do Brasil aqui
História do Cinema aqui.

ARTE DE CYANE PACHECO
A arte da artista plástica & visual Cyane Pacheco, que edita os blogs Cyane Pacheco & Arte Cyane Pacheco, mantendo seus trabalhos em um canal do YouTube e perfil no Flickr. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

CONVITE, BAUMAN, STANISLAW, GERSHWIN, HÖLDERLIN, OSWALD, ALMÓDOVAR, LUCÉLIA, LUCIAH & MUITO MAIS!!!!



CRÔNICA DE AMOR POR ELA: CONVITE - Plena tarde e o céu inteiro na pradaria: um mar espalmado que se resume ao rumor da nudez inundando todas as súplicas dos meus quereres tostados de fogo ardente. À espreita vou requestado com toda luxúria de minha alma herege confiscar toda mansa fragrância do seu milagre fabuloso, da sua majestosa divindade nua, feita para amar, para apertar com jeito, para vibrar em mim danada do céu queimando a lenha do que se faz predador e presa entre nós. Tudo é demasiado próximo no hálito quente da sua sedução a céu aberto e entregando todo o tesouro do coração, todas as posses, suplícios, encantos e eu possesso aos bocados, desesperado e faminto de emoções poderosas a morder com trela a tarde da primavera no ninho do seu corpo nu que me embriaga com o veneno da paixão. Aceito o convite e ébrio dou fé do olhar ardente na insônia de quem ama devendo o beijo, o abraço e a garanhagem libertadora. E estendida sobre o meu desejo traz o colo e sua macia tepidez para a incursão de nossa refrega a transpor toda doçura e vício na vertigem de nossas entregas. Esta a canção que afaga o dorso nu num duelo de dentes cerrados e se faz servidão na ponta dos seios duros e tomada pela pele acetinada que eterniza minha loucura em êxtase enquanto transgredimos de nós, das regras, da arena no êxodo do mundo, duelando com o passado de vigília e arrependimentos, duelando com a vida pelo que já foi e o que virá das venturas e destroços que se redimem no ardor do incenso de seu corpo que governa e que se faz tarde nas minhas mãos errantes. E do seu corpo roubo a paz que se faz tisana alquímica no meu estertor, sorvo seu sexo dando vazão a minha agonia gulosa que faz abluções no charco empoçado de delícia nas entrepernas e que se faz contenda tirânica na nossa luta corporal munida de armas das carícias até sermos derrotados, vencidos pela vida. Só o amor resiste aos escombros. E renascinzas, o amor assim é na entrega servil dos amantes. (Luiz Alberto Machado. Veja o vídeo deste poema aqui e mais aquiaqui).

VEJA MAIS CRÔNICA DE AMOR POR ELA:

PICADINHO


Imagem: Eve, do pintor do maneirismo italiano Girolamo Francesco Maria Mazzola (1503-1540), mas conhecido como Parmigiano. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum Kiri sings Gershwin (EMI, 1987), com músicas do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1938), na interpretação da soprano Kiri Te Kanawa. Veja mais aqui e aqui.

EPÍGRAFE – O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa, recolhida do livro Reflexões (Relume-Dumará, 1994), do poeta lírico e romancista alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843). Veja mais aqui.

A PÓS-MODERNIDADE - No livro O mal-estar da pós-modernidade (Zahar, 1998), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, encontro que; [...] A multiplicidade de estilos e gêneros já não é uma projeção da seta do tempo sobre o espaço da coabitação. Os estilos não se dividem em progressistas e retrógrados, de aspecto avançado e antiquado. As novas invenções artísticas não se destinam a afugentar as existentes e tomar-lhes o lugar, mas se juntar às outras, procurando algum espaço para se mover por elas próprias no palco artístico notoriamente superlotado. Num cenário em que a sincronia toma o lugar da diacronia, a co-presença toma o lugar da sucessão e o presente perpetuo toma o lugar da história, (já não trata mais) de missões, de advocacia, de profetização, de uma e única verdade firmada para estrangular as pseudoverdades. Todos os estilos, antigos e novos, devem provar seu direito a sobreviver. [...] Quando a competição domina, há pouco espaço para [...] a confraria de ideias, escolas disciplinadas e disciplinadoras [...] Há pouco espaço, portanto, para normas e cânones coletivamente negociados e coletivamente proclamados. Toda obra de arte recua diante do quadrado e não pensa em criar família [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MENINO PRECOCE – O livro Garoto linda dura (Autor, 1966), do escritor, radialista, jornalista e compositor Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta, 1923-1968), reúne crônicas do autor, entre as quais destaco Menino precoce: Diz que era um menino de uma precocidade extraordinária e vai daí a gente percebe logo que o menino era um chato, pois não existia nada mais chato que menino precoce e velho assanhado. Todos devemos viver as épocas condizentes com as nossas idades; do contrário, enchemos o próximo. Mas deixemos de filosofias sutis e narremos: diz que o menino era tão precoce que nasceu falando. Quando o pai soube disso não acreditou. O pai não tinha ido à maternidade, no dia em que o filho nasceu, não só porque não precisava, como também porque tinha que apanhar uma erva com o Zé Luís Magalhães Lins, para pagar a délivrance que era quase o preço de um duplex, pois a mulher cismou de ir para casa de saúde do Guilherme Romano. Mas isto também não vem ao caso. O que importa é que o menino já nasceu falando. Quando o pai soube da novidade, correu à maternidade para ouvir o que tinha o menino a dizer. Chegou perto da incubadeira e o garoto logo se identificou com um “oba”. O cara ficou assombrado e mais assombrado ficou quando o nenenzinho disse: - Papai vai morrer às 2 horas! – dito o que, passou a chupar o bico da mamadeira e mais não disse nem lhe foi perguntado. O cara voltou para casa inteiramente abilolado. Sem conter o nervosismo, não contou pra ninguém a previsão do menininho precoce, mas ficou remoendo aquilo. Dez e meia, 11, meio-dia... e o cara começou a suar frio. Uma da tarde, o cara já estava praticamente arrasado e quando passou da hora prevista um minuto ele começou a se sentir mais aliviado. E estava dando o seu primeiro suspiro, quando ouviu um barulho na casa do vizinho. Uma gritaria, uma choradeira. Correu para ver o que era: o dono da casa tinha acabado de falecer. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

MÚSICA DE MANIVELA & CANTO DO REGRESSO À PÁTRIA – O livro Pau Brasil (1925), do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954), reúne poemas do autor, entre os quais, destaco inicialmente Música de manivela: Sente-se diante da vitrola / e esqueça-se das vicissitudes da vida / na dura labuta de todos os duas / não deve ninguém que se preze / descuidar dos prazeres da alma / discos a todos os preços. Tanto o Canto do regresso à pátria: Minha terra tem palmares / onde gorjeia o mar / Os passarinhos daqui / Não cantam como os de lá / Minha terra tem mais rosas / E quase que mais amores / Minha terra tem mais ouro / Minha terra tem mais terra / Ouro terra amor e rosas / Eu quero tudo de lá / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte pra São Paulo / Sem que veja a Rua 15 / E o progresso de São Paulo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A CASA DE ANAÏS NIN – A peça teatral A casa de Anaïs Nin (Casa de Prostituição de Anaïs Nin), de Francisco Azevedo, conta a história da paixão que envolveu os escritores Anaïs Nin e Henry Miller. Tive a oportunidade de assistir a peça no Teatro Alfa Real, em São Paulo, no ano de 1998, com direção de Ticiana Studart e atuação inesquecível da atriz Lucélia Santos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CARNE TRÊMULA – O filme Carne trêmula (1997), dirigido pelo cineasta, ator e roteirista espanhol Pedro Almodóvar, conta a história uma prostituta que tem um filho em um ônibus, quando tentava chegar na maternidade, e ali mesmo lhe dá o nome de Victor. Após vinte anos, esse menino se torna um homem, que está começando sua vida adulta e tenta se encontrar com uma desconhecida, que uma semana antes teve relações sexuais com ele dentro de um banheiro. Quando telefona, ela não tem ideia de quem ele é e mesmo dizendo, ela pede que ele não ligue mais. Apesar deste corte, ele não desanima e consegue ir até o prédio dela. Pensando ser outra pessoa, ela abre a porta através do porteiro eletrônico, mas quando o vê fica bastante irritada, pois para ela foi uma transa, quando estava "doida", mas para ele foi a primeira vez. Ela decide expulsá-lo, ameaçando-o com uma arma. Os dois brigam e acontece um tiro acidental, que não fere ninguém, mas chama a atenção de uma vizinha, que alerta a polícia. Ao ver os dois policiais, ele se apavora e chega a ameaça-la colocando o revólver em sua cabeça. Eles se envolvem numa briga, a arma dispara, mas desta vez a bala atinge um deles que fica paralítico. A história se desenrola com destaque para a atriz espanhola Penélope Cruz Sanchez. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da soprano sul-coreana Sumi Jo.
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à maravilhosa pessoa, poeta e blogueira Luciah Lopez. Veja aqui, aqui e aqui.

DIA INTERNACIONAL DO OBRIGADO
 

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...