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sexta-feira, maio 01, 2020

MIKE DAVIS, GEORGIA O'KEEFFE, ROA BASTOS, FERNANDA FATURETO, HELENA ROCIO JANEIRO & FERNANDA LIMÃO


A VIDA É LINDA, MESMO COM OS QUE QUEREM TORNÁ-LA DOLOROSA PARATODOS – UMA: DIÁRIO DE QUARENTENA – Não estou no topo do monte, Caetano, linda canção na inesquecível voz de Nina e Bethânia. Estou no pico da pandemia e choro o mundo de Pasolini. A dor é grande, a corrupção é maior, desgraça o meu país com seus tentáculos planetários, por farsantes lava que não passam de vaza-jatos de indignação, enquanto o energúmeno debocha dos mortos, enfermos e desvalidos do meu coração Brasil. A esta altura, Delacroix dá o tom da miséria: O homem é um animal sociável que detesta os seus semelhantes. Desaprendo da vida e da arte, como se não houvesse quase alternativa além do choro e consternação, quando ele pondera: Primeiro aprenda a ser um artesão. Isso não impedirá você de ser um gênio. O segredo para não ter tédio, pelo menos para mim, é ter ideias. A adversidade restitui aos homens todas as virtudes que a prosperidade lhes tira. E quase não há outra forma de viver, a não ser entoando a lacrimejante Nênia de abril. DUAS: E DAÍ? – Prestes aos sessenta, eu tinha que viver para ver a ascensão de um aloprado Coiso indiferente a um flagelo planetário sem precedentes, promovendo a massificação da morte. E o pior: ver muitos que apoiam o traste inepto e outros tantos hesitantes – tirando o cu da reta e empurrando pro outro num toma lá que não sou o culpado, como se fosse uma batata quente no colo da covardia dos medrosos – e ninguém dá um basta nisso, todos coniventes em todos os Poderes da República, lenientes, intimidados. Estou indignado, envergonhado, decepcionado, recitando uns versos de Jorge de Lima: ...há as naus que não chegam mesmo sem ter naufragado: não porque nunca tivessem quem as guiasse no mar ou não tivessem velame ou leme ou âncora ou vento ou porque se embebedassem ou rotas se despregassem, mas simplesmente porque já estavam podres no tronco da árvore de que as tiraram. É revoltante, parece mais que o que falta aos brasileiros é humanidade! TRÊS: VENTOS DE MAIO - Não sei o que vai ser de todos nós amanhã, a esperança é uma tênue asa perdida ao sabor dos ventos, o olhar absorto, a vida por um triz. Quem sabe, não sei, tudo chegue a bom termo num futuro ainda imprevisível, restarão a saudade dos que sucumbiram nos estardalhaços do horror. A mim resta cantarolar com Milton Nascimento: Sol, girassol, e meus olhos ardendo de tanto cigarro. Quase que eu esqueci que o tempo não para, nem vai esperar. Vento de maio, rainha dos raios de Sol, vai no teu pique, estrela cadente, até nunca mais. Não te maltrates, nem tentes voltar ao que não tem mais vez. Não lembro teu nome, nem sei, estrela qualquer lá no fundo do mar... e a saliva é o sangue com o coração na mão saindo pela boca, como se fosse pela última vez. Não sei. Vou ali tomar uma carburando a dor de todos e até segunda-feira. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Há uma explicação alternativa da medicina social para entender a propagação das pragas: os determinantes socioeconômicos das epidemias são a pobreza, a aglomeração, a falta de saneamento e de medicamentos. Agora, toda a infraestrutura internacional de detecção de doenças e a resposta internacional coordenada caiu por terra. A OMS praticamente desmoronou. Hoje, tem um papel absolutamente marginal. Nunca foi financiada adequadamente. Grandes países como os Estados Unidos jamais cumpriram com as contribuições que disseram que fariam. A OMS precisou recorrer aos filantropos e grupos de pressão dos países mais poderosos. Em conjunto, estes setores proporcionam cerca de 80% de seu orçamento. A instituição se viu obrigada a suplicar aos Estados Unidos, China e a certos filantropos que não sabem o que fazer com o seu dinheiro. Isto se tornou evidente nos últimos três ou quatro meses. [...] Os principais países capitalistas acreditam que podem proteger o comércio mundial, com vacinas e alguma nova forma de organização internacional da saúde. Mas não demonstram nenhum interesse em solucionar o grande tema que preocupa a medicina social: a miséria e a pobreza em escala mundial. Estarão as vacinas disponíveis para as populações da África e o sul da Ásia? É muito difícil que o capitalismo, com o seu DNA que é apenas lucro, faça chegar com rapidez a vacina (se conseguir desenvolvê-la) aos pobres e condenados da terra. [...] De fato, o que o capitalismo global fará é aprofundar ainda mais o abismo entre as duas humanidades. É claro, isso também é certo dentro de muitos países capitalistas do “primeiro mundo”, onde a doença ataca de preferência as vítimas do racismo e pobreza. [...] Neste momento, ao menos nos Estados Unidos, existe uma oportunidade extraordinária para avançar em um programa progressista, que parte da atenção à saúde como um direito humano e uma cobertura universal. Também chegou o momento de lutar por demandas essencialmente socialistas, como a nacionalização das grandes farmacêuticas e de outros serviços básicos para a sobrevivência. [...]. Trechos do artigo O capitalismo em uma era de pragas e catástrofes (Observatório de la crisis/Revista IHU, 28/04/2020), do historiador e sociólogo estadunidense Mike Davis. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA DE AUGUSTO ROA BASTOS
DA MESMA CARNE - Deixei ao poente / a franja tutela da cigarra; / um povo como uma árvore ardente / madeira / que em minha caixa óssea e de memória / constrói sua guitarra / dolente / no mais vivo de minha escória. / O peito perfurado / deixa ver o pulsar / tateando as paredes / do lado mais acordado e desvalido. / (Resista, se podes) / O tronco empajezado /cresce todas as noites no vale; / geme e se desespera / quando pressente meus passos / sobre o distante asfalto da rua / em que vivo. / Obstinadamente / treme em voz alta em todos os meus pedaços. / Contendo a respiração / escuto-o entre o rumor das machadadas. / (Nenhuma pausa sequer) / Sua queixa é tão forte / que me ilumina a face / e me escurece o pensamento; / tão fino o tremor que nos separa / e esta parede silvestre tão ligeira, / que um pulsar sangrento / põe de pé minha vida a cada golpe / que destrói, longe, sua madeira.
PARA VOCÊ, FECUNDA ... – Eu / Eu feri sua estrela na água, / e um verão me domina nos seus mamilos, / suas coxas e filhos / flor e flor, estrondo de sua saia, / isso enigmas meu sangue com músicas. II - Você, minha água do verão, / você se afunda com raiva, enlouquecido, / vespa branca querida / de ancas como jacinto... Oh rio / que você já cheira a despedida! III - Longa estria, dói. / Cárie cheia de canudos e sons / meu coração dói. / Cárie de tempo. E você, que já me cheira / uma noite densa quando os ninhos amadurecem... IV - Seu verão se foi / com seus rebanhos densos. Na tarde / meu orgulho se deita / gasto e puro no frio puro / que sua beleza concebida queima...
AUGUSTO ROA BASTOS - Poemas do premiado escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005), conhecido também por seus ensaios, roteiros e romances. Veja mais aqui.
&
QUATRO POEMAS DE FERNANDA FATURETO
CASA - Ela, / sobreviver à casa - / era seu nome. / A casa vazia, / retornar aos irmãos que morreram. / Comunicar-se com eles - / todos em diferentes ângulos, / na casa. / Seres anônimos no mundo, / de onde vem e vão. / O esquecimento torna-se geografia / E os seres dos rios se confundem com barro, / cultivando o lugar do nascimento. / Lá brotariam dos arrozais / à espera / de um nome. / Cultivando o lugar do nascimento, / o lugar da terra: / ali podem ser.
RECITAL - Um dia em que não haverá a palavra exata. / O momento chega, em silêncio / Com a noite fresca de inverno / No interior / Da paisagem. / O dia em que a escuridão brilha. / Com feixes de luz / E solicita ao silêncio - uma trégua. / O riso à mesa, / o acaso como traço de um momento / Presente. / Mesmo ato em que, por léguas, / O encontro se fez. / Do Russo, entendo a culpa e o castigo. / Talvez faísca que se entrega / No olhar que se fixa. / Encontro e despedida: entre o instante, / a duração do presente / Como música.
SENHORAS OBSCENAS - Macondo existia só no papel / Seus leitores visitavam a região / Acordados. / Amparados pela fantasia ao dobrar mais uma página, / A ilha destinada aos solitários. / Cada palavra esquecida soletrada renasce – / O poeta já disse que o verbo delira. / Reordena-se o mundo: / Um local seco e árido habitado por sonhadores.
SEM TÍTULO - Escrever é sempre parte de um movimento maior, à deriva de imagens e palavras que nos acompanham como amuleto e espera – partida para um lugar remoto do inconsciente onde reina o sonho e a metáfora (local sagrado e indecifrável) que só pode ser lido em seu contexto do poema quando este deixa o imaginário de quem escreve para a página. Cada escritor tem sua partitura particular, transcrever esse local – materializa-lo – é tarefa de cada um que escreve. Como num ensaio de queda e redenção. O poema como resistência de quem o pensa e sente.
FERNANDA FATURETO - Poemas da escritora e jornalista Fernanda Fatureto, autora das obras Ensaios para a queda (Penalux, 2017) e Intimidade inconfessável (Patuá, 2014), com trabalhos publicados em diversas revistas brasileiras, portuguesas, espanholas e mexicanas, afora participar de diversas publicações, como do Caderno de Prosa e Poesia Subversa 2 (2019); das antologias Damas entre Verdes (2018); 29 de Abril: o verso da violência (2015); Senhoras Obscenas (2016) e Subversa 2 (2016). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A visão de outra pessoa nunca será tão boa quanto a sua própria visão de si mesmo. Viva e morra com isso, porque no final é tudo que você tem. Perca e você se perderá e tudo mais. Eu deveria ter me escutado.
GEORGIA O'KEEFFE - A arte da artista estadunidense Georgia O'Keeffe (1887-1986). Veja mais aqui & aqui. E mais aqui.
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A ARTE DE HELENA ROCIO JANEIRO
Gosto muito da ideia de imaginar que o meu trabalho possa ter alguma coisa de poético, no sentido da poesia mais vasto, e realmente quando eu digo… Eu acho que o mundo seria muito melhor se houvesse mais poesia. E a poesia também é toda visual. São coisas bonitas. São coisas que chamam, de certa forma, a atenção à tua sensibilidade. É um bocadinho a minha maneira de ver a poesia. Uma forma imaginária de fazer com que a realidade possa ser um bocadinho mais forte. Também há coisas poéticas que são extremamente tristes, deprimentes, mas, de qualquer forma, é sempre uma exaltação do sentido, de um sentimento.
HELENA ROCIO JANEIRO - Trecho da entrevista concedida pela artista portuguesa Helena Rocio Janeiro, extraída da dissertação de mestrado Paredes do Porto: Um estudo taxonômico sobre as frases de Porto Alegre e do Porto (Porto, 2019), de Rafael Druzian de Castro. Ela cursou Artes Plásticas na ESAP e edita o blog Coração o Ditador. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Sou uma mulher incompleta / Por onde passo fica um pedaço meu / Em cada abraço, em cada passo, eu!
A arte da poeta, professora e produtora cultural, Fernanda Limão, que trabalha com intervenções literárias em diversos formatos, utilizando várias formas e espaços para disseminar sua poesia já publicada em diversas antologias brasileiras.
Pedagogia do oprimido (Paz e Terra, 1983), do sociólogo e pedagogo Paulo Freire (1921-1997) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A música de Claudionor Germano aqui.
Lampião, Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938) aqui, aqui & aqui.
Cartilha do Cantador, de Aleixo Leite Filho aqui & aqui.
&
História Tataritaritatá aqui.


segunda-feira, março 09, 2020

ALEXANDRA KOLLONTAI, SIMONE SABACK, ELSA CAYAT, RUTH KLIGMAN, ÁGDA MOURA & AMÉLIA BRANDÃO


TODO DIA É DIA DA MULHER – UMA: PODIA ATÉ SER, POR QUE NÃO? - A poeta chegou nua, cabelos longos, seios nos ombros da minha noite exaltada: abraço de mar no meu insulado coração. Dela, beijos de mel na minha boca faminta. Enaltecida, sussurrou ao meu ouvido atento todos os seus poemas de amor da sua carne divinizada entre lençóis, nuvens e estrelas. Amanheceu-me ensolarada com um sorriso reluzente e uma frase inesquecível. Quem? Elizabeth Barrett Browning: Ilumine seu amanhã com seu hoje! Você é algo entre um sonho e um milagre. Ninguém está sozinho se tiver Deus e a companhia de bons livros. Realmente, inesquecível. DUAS: QUANDO NELA EU OUTRO – Seus olhos nos meus, o éden agora: vestes deslizam na sua escultura desnuda. Sua língua é um pincel atrevido no meu tórax erradio: uma égua sem véus na montaria da minha clava aguerrida. O seu sexo uma pintura viva e abstrata. A loucura e o seu aranzel como se morta rosa despetalada sem saber se renascia levada apenas pelo gesto. Quem? Georgia O'Keeffe: A visão de outra pessoa nunca será tão boa quanto a sua própria visão de si mesmo. Viva e morra com isso, porque no final é tudo que você tem. Perca e você se perderá e tudo mais. Eu deveria ter me escutado. Ah, a nudez dela na minha lente e sonho. TRÊS: NELA OPERÓTICA – Ela não se diz má, assimétrica e angelical imperfeita a solfejar uma Bachianinha do Villa enquanto cata insetos na minha pele embriagada, porque sou asteroide vagante na sua mão carinhosa. O seio robusto explode o decote amotinado, rasga a saia coxa exposta e o sexo vulcânico assoma do torso de uma deusa furiosa, semblante safado nos lábios pedintes. Quem? Kiri Te Kanawa: Eu realmente acredito que tenho sido uma boa pessoa. Não é perfeito - esqueça o perfeito - mas apenas aprendendo o que eles me ensinaram e vivendo de acordo com meus próprios valores. Eu poderia ter pisado em algumas formigas - e algumas outras coisas também - mas nunca machuquei ninguém. Ah, sua voz na minha loucura. Todas elas, um só ser em mim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Somente as novas tempestades revolucionárias foram fortes o suficiente para varrer preconceitos grosseiros contra a mulher e somente o povo trabalhador é capaz de efetuar a completa equalização e liberação da mulher, construindo uma nova sociedade. Se eu alcancei algo neste mundo, não foram minhas qualidades pessoais que originaram isso. Em vez disso, minhas realizações são apenas um símbolo do fato de que a mulher, afinal, já está em marcha para o reconhecimento geral. Somente as novas tempestades revolucionárias foram fortes o suficiente para varrer preconceitos ocultos contra a mulher e somente o povo produtivo é capaz de efetuar a completa equalização e libertação da mulher construindo uma nova sociedade. [...]. Pensamento da líder revolucionária e teórica russsa Alexandra Kollontai (1872-1952). Veja mais aqui, aqui e aqui.

BASEAR A VIDA NO OUTRO – [...] Esse é todo o problema do amor. Não se trata de apoiar sua vida no outro, mas preservar sua vida para si, recentrar em si para poder abrir-se ao outro. Esse é o eixo central dos problemas do amor, um eixo do mito do amor. Um quer se apoiar no outro, quer descansar no outro, pois crê que o amor é a solução a tudo o que falta e assim demanda no outro o amparo a sua fragilidade. Mas isso é falso. O outro não pode preencher nossas faltas. Em geral se pensa que o amor é a solução a tudo o que falta, e então o outro vai nos curar. Repito: isso é falso. O outro não pode nos preencher completamente, e os problemas pessoais irão irromper. Para se resolver os problemas é preciso acertar-se consigo mesmo. Pode-se amar tendo confiança relativa. O outro existe, é um ser humano como a gente. Entretanto, é diferente da gente. A confiança que se precisa aprender é a confiança em si. [...]. Palavras da jornalista médica psiquiátrica e psicanalista francesa Elsa Cayat (1960-2015), autora das obras Un Homme + Unne Femme = Qoui (“Um homem + uma mulher = o que é”) e Desir et la Putain – Les Enjeux Cachés de la Sexualité Masculine (O desejo e a puta – Os desafios escondidos da sexualidade masculina). Ela foi a única mulher entre as 12 vítimas dos terroristas no ataque jihadista contra o Charlie Hebdo, enterrada no trecho israelita do Cemitério de Montparnasse, em 15 de janeiro de 2015.

A MÚSICA DE SIMONE SABACK
Aperta-me nas mãos
Busca as soluções.
Planta-me num jardim
Fora do alcance de qualquer ser.
Ali crescerá uma canção
Que dirá o que eu não posso.
Planta-me.
Mas antes retira minhas mágoas.
Seca o suor de minha pouca idade.
Antes purifica-me.
Antes,
Ama-me.
A MÚSICA DE SIMONE SABACK - Poema Planta-me, extraído do livro Mesmo sangue (1980), da poeta, compositora, intérprete, roteirista e jornalista Simone Saback. Ela começou sua carreira como cantora em show com temporadas na Sala Funarte, dedicando-se em seguida em atuar como produtora no fomento do mercado candango do Teatro e da Música. Depois trabalhou na Revista Manchete e nos jornais Correio Brasiliense, Jornal de Brasília e Última Hora. Atuou como roteirista para cinema e televisão, além de ter várias de suas músicas gravadas por Zélia Duncan, Ana Carolina, Frejat, Simone, Cassia Eller, Fábio Jr, entre outros.
&
ÁGDA MOURA
[...] tenho o projeto musical autoral, “O canto do meu canto” , onde toco com músicos da cidade. [...] Com teatro, sou integrante do grupo Avani Lopes, que é formado por grandes artistas que cresci admirando. Estudo arquitetura. Junto aos meus amigos, organizamos o movimento Lamparina, que funciona como uma intervenção urbana cultural a espalhar arte pelas ruas, nossas tradições e a história da cidade. Nas escolas do município, produzo atividades e oficinas culturais com contação de histórias, poesia, dinâmicas teatrais e música. E assim vão se desenhando os projetos que naturalmente vão se atribuindo.
ÁGDA MOURA - A arte da cantora, compositora, atriz, desenhista e multi-instrumentista Ágda Moura, que no seu repertório autoral, apresenta conexões estreitas com temas que valorizam a simplicidade da vida e evidencia um diálogo entre composições com arranjos contemporâneos, conectados ao rock pernambucano, ao blues e ao folk, com elementos rítmicos da tradição do maracatu, ciranda e coco. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arte é minha vida. Sinto-me privilegiado como artista, como mulher, como uma pessoa com uma grande história.
RUTH KLIGMAN – A arte da pintora estadunidense Ruth Kligman (1930-2010), musa dos mais importantes artistas do século 20 e paixão amorosa do artista Jackson Pollock (1912-1956). Veja mais aqui & aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER PERNAMBUCANA
AMÉLIA BRANDÃO, A TIA AMÉLIA
A arte da pianista e compositora Amélia Brandão (1897-1983), que começou sua carreira como erudita e transformou-se em figura representativa do choro, homenageada por figuras de peso, a exemplo de Pablo Neruda e Vinicius de Moraes, entre outros.
A poesia do poeta, tradutor, crítico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968) aqui & aqui.
A literatura de Maurício Melo Júnior aqui & aqui.
Antonio de Brito Alves: o príncipe dos advogados, do jornalista Carlos Cavalcante(1949-2011) aqui.
A arte de Eliete Carvalho aqui & aqui.
As artesanias de Epifânio aqui.
Os quadrinhos de Nel Angeiras aqui.
O município de Canhotinho aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

sexta-feira, julho 19, 2019

GEORGIA O'KEEFFE, RUBEM ALVES, AL-CHAER, ANGELITA CARDOSO, ANTÔNIO PAULO REZENDE & PRESTAR CONTAS AO AMOR


PRESTANDO CONTAS AO AMOR – Ah, bela mulher-menina de Sun Prairie, o vivo olhar, ah, os olhos, cada detalhe de flor nas aquarelas das caminhadas no Cânion Palo Duro, aprumo nas gravuras abstratas, o carvão, a genitália, os crânios de animais, a paisagem do Novo México, o Jimson Weed, a pura abstração. Quantos amanheceres radiantes, quantos crepúsculos inventados, tantas noites carregadas de folhas e pedras, as muitas vidas dos seus olhos são minhas e só minhas. E uma rosa é uma rosa, Geórgia, não mais que uma rosa, todas elas é você que desabrocha, púbis ungido e sou inebriado com o perfume da sua carne. Ao desnudá-la, tomo em minhas mãos a divina das estrelas, Astreia, que perambula personificando a justiça para me fazer bem. A sua influência benigna prega a sabedoria e sua fascinante arte me faz súdito discípulo. Eu também desconfio das palavras, embora não as tenha lá muito bem ao domínio. O seu magnetismo tácito me atordoa e extasia: um vulcão dormente que se aviva instantaneamente. É a sua arte a sua linguagem, sua efígie e élan: começa no ventre e se espalha por todo seu corpo sedutor, avultando sobre a minha alma desamparada, repleta de deslumbramento e plenitude. Ah, Geórgia, minha Astreia, a minha incapacidade total de desenhá-la, menor intimidade com traços e cores, me faz flagrar o seu encanto, apenas, a fotografá-la de todos os modos e jeitos, para descobrir o que não existe mais das apagadas memórias da felicidade no escrutínio dos resquícios da alegria. Na sua expressão a mais viva face humana, nada mais real, diante do espelho, das minhas lentes, é como desvelo os seus mistérios, todos os mistérios, a sua aura, a sua alma. Na sua arte a sua vida, nua e transfigurada, centrípeta, e se alastra estrelada no fogo da minha paixão centrífuga. No seu corpo a sedução da fortaleza, a entrega plena alheia aos castigos do tempo. Tenho-a minha, vencida, entregue, rendida ao amor, nos amamos: sou seu, é você, somos um e desabamos juntos na dolorosa instância do amor extremo, porque anímico, orgânico, necessário, inescapável, enlouquecido. Eu sei, Georgia, minha Astreia, a impiedade e a violência humana nos afugentam e a obriga a retornar aos céus dos meus sonhos, porque a desarmonia contraria a sua natureza e sabemos que os trapaceiros prosperam para que os ingênuos feneçam sem razão. E você assume o lugar da divina no meu céu. Sem você minha voz jamais se ouvirá, sozinho na treva porque nunca esperou e nem fui suficiente. Perdi o gesto, os olhos, sempre os seus olhos ternos e imantados; as mãos, sempre as mãos inquietas e estendidas a vasculhar em mim os tormentos doloridos e a me incendiar com o choque dos seus prazeres, para que eu tenha paz e possa sorrir nem que seja só por um instante. A despeito das lágrimas prolongadas e da dança das cinzas, submergimos no universo da palavra apenas por um dia e é a vida eterna, mas é no silêncio da sua arte, do seu corpo, que eu tenho a vida: você é o milagre do universo e vive em mim, sou você. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A cidade e a cidadania podem vividas no sentido de que as escolhas busquem assegurar condições para que as definições da história não se limitem às imposições de uma minoria. O olhar do historiador está comprometido com essa abertura para o infinito, com a certeza de que a história não é um desfilar de nomes e datas, mas território de invenção e aventura que tem, na cidade, um espaço privilegiado para a fabricação de um cenário onde os personagens não se sintam como fantoches, mas como produtores do seu próprio texto. [...].
Trecho extraído da obra O Recife: histórias de uma cidade (FCCR, 2002), do professor, advogado, historiador e pesquisador Antônio Paulo Rezende, que desenvolve um trabalho relacionado com as relações afetivas de convivência dentro da contemporaneidade, analisando as cartografias que tentam renovar as sociabilidades.

TEU CORPO AINDA É MÚSICA – AL-CHAER
não podia ouvir
agora
este solo
de sax
de sexo
que me
derrete
que me
derrota
mesmo
que não quisesse
ele vem
e molda
tímpanos e pênis
sinto toda
a dimensão
de tuas curvas
e a melodia de tua pele
às minhas
idas e voltas
cantando
um derramamento
de suores
nos meus tempos
de sonhar um amor
escutado
um beijo interminável
que me parte calado
e me envolve
me envulva
me junta
colado pedaços gritados
para olhar
a distância de um dia
que chegou
e chagou
meu coração
vencido
para depois
entre
a vida e a morte e a revanche
como fazer meu corpo te desligar?
Poemas do poeta, artista visual e professor Alberto Al-Chaer, que edita o blog Visu-Al-Chaer. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual, desenhista, aquarelista, gravurista, historiadora e pesquisadora, Angelita Cardoso, que trabalha com aquarelas, gravuras em metal, pesquisa iconográfica, calcografia, administra o seu sítio e é colunista do Portal Catarinas. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE RUBEM ALVES
A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.
A obra do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A ARTE DE GEÓRGIA O’KEEFFE
Uma rosa é uma rosa, é uma rosa. Na cidade, a maioria das pessoas anda numa correria; por isso, não têm tempo para olhar para uma flor. E eu quero que olhem, quer elas queiram, quer não.
A arte da artista estadunidense Georgia O'Keeffe (1887-1986) aqui e aqui.


sábado, agosto 13, 2011

SUSAN BORDO, GAUTIER, PRUDHOMME, GEORGIA O'KEEFFE, MAILLOL, REDON, SOFIA LERCHE VIEIRA, A BAIANA DO PINA, SECRETÁRIA & LITERÓTICA

A arte da artista estadunidense Georgia O'Keeffe (1887-1986). Veja mais aqui.

LITERÓTICA: TERCEIRO POEMA DE AMOR PARA ELA –  Imagem: Torso de Georgia O'Keeffe (1918), by Alfred Steiglitz. - O terceiro poema pra ela é como o terreiro aquarela, tudo dela que faz comigo: a cobiça, os castigos, as explorações do umbigo, tudo que nela vem pra mim. Assim: ela me tira o sono, me larga em abandono. Rouba meu sossego, se fecha em segredo. Me prega uma peça, me faz de trepeça. Me torra a paciência, me larga na demência do coração a pedir clemência e ela embromando, nem aí. Tai, ela me dá nos nervos, chega eu me atrevo a cobrar atenção. Ah, não! Ela me faz de desvalido, aquele que foi vencido, caso sem solução. Mas que azarão! Ah, ela come meu juízo no meio duma chuva de granizo d´eu me lascar de montão. Que desolação! Sou fritado na sua frigideira, todo meu afeto é só brincadeira na sua cavilação. E me lasco de antemão porque sou resto de comida, a data preterida, maior sujeito broco. Ela me passa por troco, me larga por descarte, nem sirvo pra estandarte porque sou mala sem alça. Não tem a menor graça ser mercadoria sem nota, feito a caçola da Maricota, ou cotoco no osso mucumbu. Que azedo angu, d´eu pular numa perna só, de num saber desatar esse nó, sem frenagem na banguela. Tô me acabando feito panela num mata-burro que me empaco, com a moleta no sovaco, a bosta do cavalo do bandido. Nessa eu tô mesmo fudido, sem valer sequer um taco, verdadeiro cara de tabaco, feito papagaio de pirata ou vassoura atrás da porta. Ela nem desentorta e me deixa chutando lata, dando a cara à tapa, ruim que só arroz de terceira. Mas que moedeira, sou pra ela farinha de Araripina, do lixo a fedentina, inda mais carne de pescoço, liso sem tostão no bolso, jogado quem nem lavagem na pia, no castigo da água fria na latrina dá descarga, que nem mesmo a mãe do guarda vem pra me salvar. É de lascar! Sou atleta de regra três, o mais otário freguês, um juiz em campo minado, um refém sequestrado e com o ataque na banheira, com o vacilo da bobeira e a mão à palmatória. Isso é que é uma luta inglória, feito duplicata vencida, feito cata o chefe sem torcida, eita, trabalhão danado! Sou inquilino despejado sujeito mais sem noção de perder o camburão no pantim da malcriada. Pacutia incruada que no toitiço esfrega, é aí que o bicho pega, tiro logo nove horas, dou bafejo e tudo tora, ela fica então mansinha. Faz-se então toda tadinha, com a cara mais lisa, como a guerra fosse brisa, fiquei só no esculacho. Aí acendo o facho no pinguelo da priquita, dou um jeito que ela grita chega a baba a boca larga. Tomo logo a vanguarda e me aprumo na manzanza, no meio dessa bonança da menina dos seus olhos. É nela que eu me molho, quando o milagre opera, quando ela exaspera de pernas pro ar. Aí vou me arrumar, tirando ali todo proveito, de dar-se a todo respeito, nela até morrer de amar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS – No começo minha ideia é vaga. Só se torna visível por força do trabalho. Pensamento do escultor e pintor francês Aristide Maillol (1861-1944). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: A natureza também nos reclama para procurar os presentes que nos entregou, os meus tem-me conduzido ao mundo dos sonhos; eu tenho permitido que os tormentos da imaginação e as surpresas que aparecem sob a minha caneta fluam até mim; mas eu conduzi e orientei essas surpresas, de acordo com as leis artísticas, com o único proposito de usar um estimulo espontâneo para criar no espectador – na sua total dimensão e em todo o seu poder atrativo – a incerteza que se encontra no extremo final dos pensamentos. Pensamento do pintor e artista gráfico francês Odilon Redon (1840-1916). Veja maisaqui.

UNIVERSIDADE EM TEMPOS SOMBRIOS – [...] Uma passagem memorável de Bertold Brecht parece esclarecedora dos tempos que vivemos: "do rio se diz violento quando tudo arrasta. Mas não se dizem violentas das margens que o oprimem". Senão, como entender o atual momento político de ameaças à convivência democrática? Passadas as eleições, o clima de radicalismo e intolerância persiste. Conforme as circunstâncias e os atores se agravam. A despeito da resistência das instituições, um evidente esgarçamento do tecido social vai se explicitando. Estaremos de volta a tempos sombrios? Embora ainda seja cedo para afirmar, o discurso de alguns dos eleitos não é promissor. Mais que isto, é secundado por outros protagonistas em cena. Como explicar gestos e atos recentes de violência? Como aceitar a agressão e o inconcebível assassinato de cidadãos em nome de meras diferenças de opinião? Como compreender a crítica contundente à imprensa esclarecida? Em um País de curta memória, não é demais lembrar. A redemocratização na década de 80 do século XX foi marcada pela luta política de gerações de brasileiros, culminando com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Mesmo tendo sofrido inúmeras emendas durante o período que nos separa daquele momento histórico de esperança, a Constituição tem representado a bússola orientadora de princípios e direitos inalienáveis a um estado democrático. Importante observar nesse contexto, que "as universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial" (CF, Art. 207). O consagrado princípio da autonomia inclui a livre manifestação de ideias, sem a qual a pluralidade do pensamento, essencial à construção e difusão do saber, corre risco. Invasões às universidades representam uma violência material e simbólica inaceitável. Todo e qualquer patrulhamento ideológico a professores e estudantes, independentemente de suas posições políticas, deve ser rechaçado. A democracia é valor universal que não pode ser suplantado pelo império do arbítrio. [...]. É preciso construir novos vínculos com a sociedade e com os alunos que aqui estão hoje, até porque se não contamos com a colaboração dos quer passam, nós como estudantes, qualquer outra forma de apoio será ainda mais fortuita. Para tanto, precisamos insistir na Universidade como um espaço de convivência desportiva – aqui e agora – mesmo que as condições de sobrevivência sejam ameaçadoras, o espaço livre da Universidade deve ser ocupado e dar lugar a troca de experiência entre os de dentro e os de fora. Muito há o que se fazer nessa matéria [....]. Trechos extraídos de Universidade Federal em tempos sombrios (Papirus/CEDES/ANDE/ANPED, 1992), da professora e pesquisadora Sofia Lerche Vieira. Veja mais aqui, aqui & aqui.

DE ANTES ATÉ HOJE – [...] Meu uso da teoria de desenvolvimento está centrado, não na diferença de gênero, mas em categorias mais gerais — individualidade, ansiedade de separação, permanência do objeto — na tentativa de explorar sua relevância para mudanças existenciais e epistemológicas ocorridas a partir da dissolução do orgânico e finito universo maternal da Idade Média e Renascença. É importante notar que o self separado, consciente de si mesmo e de sua própria distinção de um mundo exterior, nasceu na era cartesiana. É um nascimento psicológico — de “interioridade”, de “subjetividade”, de “localização” no tempo e no espaço — gerando novas ansiedades e, também, novas estratégias para manter o equilíbrio num mundo totalmente mudado e estranho. [...]. Trechos extraídos de A fuga para a objetividade: ensaios sobre cartesianismo e
Cultura (
Suny Press, 1987), da escritora estadunidense Susan Bordo.

A MORTA AMOROSA – [...] Um minuto depois, abri de novo os olhos, porque através dos cílios eu a via brilhando com todas as cores do prisma, numa penumbra púrpura como quando se olha o sol. [...] Oh! Como era bela! Os maiores pintores que, perseguindo no céu a beleza ideal, produziram na terra o divino retrato da Madona, nem sequer se aproximam dessa fabulosa realidade. Nem os versos do poeta, nem a paleta do pintor conseguiram dar a mínima idéia. Era bem alta, com uma figura e um porte de deusa; os cabelos, de um louro suave, separavam-se no alto da cabeça caindo sobre as têmporas como duas ondas douradas; parecia uma rainha com o seu diadema. A testa, de uma brancura azulada e transparente, estendia-se larga e serena sobre o arco das sobrancelhas quase castanhas, singularidade que aumentava ainda mais o efeito das pupilas verdes cor de mar, de uma vivacidade e de um brilho insustentáveis. Que olhos! Com uma cintilação decidem o destino de um homem. Eram de uma limpidez, de um ardor, de uma umidade brilhante que jamais vi em um olho humano; deles saíam raios semelhantes a flechas, que sentia distintamente tocarem o meu coração. Não sei se a chama que os iluminava vinha do céu ou do inferno, mas certamente vinha de um ou do outro. Essa mulher era um anjo ou demônio, possivelmente as duas coisas; certamente não saíra do flanco de Eva, a mãe comum. Dentes perfeitamente brancos cintilavam no seu sorriso vermelho e pequenas covinhas desenhavam-se a cada inflexão de sua boca no adorável cetim rosado das faces. Quanto ao nariz, era de uma delicadeza e de uma altivez real, revelando uma nobre origem. Ágatas brincavam sobre a pele lisa e lustrosa dos ombros semidescobertos, e duas fileiras de grandes pérolas rosadas, de um tom quase idêntico ao de seu pescoço, desciam-lhe sobre o peito. De vez em quando, erguia a cabeça num movimento ondulante de cobra ou de pavão que se empertiga, imprimindo um ligeiro frisson ao peitilho bordado que lhe rodeava o colo como um tecido de prata. [...] Usava um vestido de veludo nacarado e das largas mangas bordadas de arminho saíam duas mãos nobres, infinitamente delicadas, de dedos longos e roliços, e de uma transparência tão ideal que a luz penetrava por eles, como através dos dedos da Aurora. [...] Todos estes detalhes estão, para mim, tão vivos como se datassem de ontem e, embora me sentisse muito perturbado, nada me escapava: a menor nuance, o pequeno sinal negro no canto do queixo, a penugem imperceptível na comissura dos lábios, o aveludado da fronte, a sombra trêmula dos cílios sobre as faces, eu percebia tudo com uma lucidez espantosa. [...] À medida que a olhava, sentia que se abriam diante de mim portas até então fechadas; saídas obstruídas apontavam para todos os sentidos e deixavam entrever perspectivas desconhecidas; a vida me aparecia sob um aspecto completamente diferente: acabava de nascer de novo. Uma angústia terrível instalou-se no meu coração; cada minuto que passava me parecia um segundo e, ao mesmo tempo, um século. No entanto, a cerimônia continuava a acontecer, afastando-me para bem longe do mundo cuja entrada meus recentes desejos fustigavam furiosamente. Disse sim, quando queria dizer não, enquanto tudo em mim se revoltava e protestava contra a violência que minha língua fazia a minha alma: sem que eu quisesse, uma força oculta arrancava-me as palavras da garganta. É isso, talvez, que faz com que, de tantas jovens que caminham para o altar com a firme resolução de recusar o esposo que lhes é imposto, nenhuma execute o seu projeto. É também essa a razão por que tantas e infelizes noviças tornam o véu, apesar de firmemente decididas a rasgá-lo no momento de pronunciarem os votos. Ninguém ousa causar tal escândalo diante de todos, nem frustrar a expectativa de tantas pessoas; todas essas vontades, todos esses olhares parecem pesar sobre nós como uma chapa de chumbo; e, depois, tudo está tão bem organizado, tão bem previsto, de um modo tão claramente irrevogável, que o pensamento cede curvando-se completamente diante do peso do ato. [...] O olhar da bela desconhecida mudava de expressão à medida que a cerimônia avançava. Terno e carinhoso de início, tomou um ar de desdém e de descontentamento, como por não ter sido compreendido. [...] Fiz um esforço enorme, suficiente para deslocar uma montanha, e quis gritar que não queria ser padre; mas não consegui. A língua ficou presa no céu da boca, foi impossível traduzir a minha vontade através do menor movimento negativo. Apesar de acordado, estava num estado semelhante ao de um pesadelo, quando se quer gritar uma palavra da qual depende nossa vida e não se consegue. [...] Ela pareceu sensível ao martírio pelo qual eu passava e, como que para me encorajar, lançou-me um olhar cheio de divinas promessas. Seus olhos eram um poema, do qual cada olhar formava um canto. [...] Ela me dizia: [...] "Se me quiser, eu o farei mais feliz do que o próprio Deus no seu Paraíso; os anjos o invejarão. Rasgue esse sudário fúnebre onde vai se sepultar; eu sou a beleza, a juventude, a vida; vem, nós seremos o amor. O que poderia oferecer Jeová como recompensa? Nossa existência decorrerá como um sonho e será apenas um eterno beijo. [...] Trechos do conto do jornalista, escritor, dramaturgo e critico literário francês Pierre Jules Théophile Gautier (1811-1872), extraído da obra Contos fantásticos: o fantástico visionário e o fantástico cotidiano (Companhia das Letras, 2004), organizado por Ítalo Calvino. Veja mais aqui.

EM LOUVOR DA CIÊNCIA - Arde o sol, mergulhado em tédio suntuoso, / no deserto do céu. Sob os raios fecundos / que ele esparge e recolhe – eterno, silencioso - nota, solene, ao longe, o cortejo dos mundos. / Do abismo no cairel suspenso ele aparece: / não deve a fogo alheio o seu calor amigo; / e o seu olhar não sobe, e o seu olhar não desce, / porém tudo se doura ao seu rigor antigo. / Flamejante da sua esplêndida riqueza, / ele é pai dos trigais e avô das gerações; / mas não se lhe povoa a imensa redondeza / dum rebanho voraz de túrbidas nações. / Entre os globos sem luz que ele esclarece e guia / na escuridão tornada em turquesina estância, / a Terra, em seu volver, o segue dia a dia / e busca-lhe a caricia a léguas de distância. / Gira o eixo a vibrar. À luz ele oferece / a espessura soberba e a superfície viva / e as campinas e o mar e tudo o que floresce / tinge-se do rubor da aurora alternativa / Mas na terra natal cativo e prisioneiro / ora surge da treva, ora se imerge o homem/ quando vêm uns gozar do fulgido luzeiro / os outros no livor das tendências somem. / Os helenos fitando a gloria do nascente / com os olhos juvenis e a vista radiosa, / bradavam: “Salve, ó deus, cuja quadriga ardente / pisa com pés de prata o Olimpo cor-de-rosa! / Hoje bradamos nós: “Salve! Luz infinita! / Des templo e sacerdote! ó grande Todo! Prendes / o ser humano à terra, e a terra, que ele habita, / ao Sol, e cada ser ao ser em que resplendes. / Cairam para nós os cândidos refolhos / onde erravam do mundo as loucas fantasias, / a ciência venceu as ilusões dos olhos / e o homem já tem aspirações vazias. / O céu fez confissão dos erros seculares / e quando o gênio humano o sujeito à prova / mais firme ele ficou perdendo os seus pilares / e o mundo enfim reveste uma beleza nova. Poema do poeta francês Sully Prudhomme (1839-1907).

A BAIANA DO PINA – [...] Uma mulher negra de nome Maria Fortunata, mudara-se de Jaboatão para o bairro; onde estabeleceu seu terreiro na virada do século. Grande parte da população afrodescendente consolidou sua organização em torno dessa liderança do Xangô, sempre disfarçando com o catolicismo sua identidade religiosa, mantendo viva a tradição cultural. [...] Desde o inicio da colonização, havia em Pernambuco repressão às religiões afrodescendentes. [...] No período da república, conhecido como Estado Novo se impôs a maior censura, reprimindo os cultos. [...] Maria Fortunata havia deixado seus Filhos de Santo espalhados pelo bairro [...]. Trechos da obra História do Pina (FCCR, 2008), do pesquisador e arte-educador Oswaldo Pereira.


REDAÇÃO DO TATARITARITATÁ (acima a foto do meu escritório, hehehehe!)– Gentamiga, sempre tive um relacionamento profissional com as secretárias que transitaram por onde trabalhei (elas que o digam, são testemunhas indefectíveis). Verdade seja dita: elas sempre tiveram muito trabalho comigo, ô lavagem de roupa braba queeu sempre fui. Mas sempre tratei com respeito, cordialidade e gentileza.




Só algumas vezes – não tão algumas assim, no desconto -, que eu chegava de braguilha virada, depois de ter pisado em rastro de corno e com o gosto de chapéu velho na boca pela ressaca, quando eu quizilento saía do sério, nada além de rabugento chato de galocha, caga-raio comedido, nada além mesmo de um ríspido perdoável. Somente isso em dias depois de uma noite esborrando o tampo nas viradas de copos. Afora isso, nada fora do compreensível.




Nos últimos anos - por salvação da periclitante ausência de oportunidades por causa das vacas magras, a famosa contenção de despesa -, desenvolvi minhas mil-e-uma utilidades trabalhistas assim: eu peniqueira de mim mesmo, eu mesmo esculacho de patrão, eu informal empregado, eu faz-tudo. O verdadeiro bloco do eu sozinho e meu umbigo. Ufa! Trampo dos brabos mesmo.






Ultimamente - não que as vacas engordaram, nada disso, estão só pelanca, coitadas, morre-mas-num-morre. Eis que apareceu um bocado de tarefa do pencó empenar e quase me deixar doido de pedra de tão tolhido de afazeres. Vixe! Daí, passei a precisar duma secretária.




Sacudi um anúncio: precisa-se- de secretária! Só isso. Assim mesmo. Tácito no recado. Para minha surpresa, apareceram uns currículos estranhos, coisa da baba escorrer pelo canto da boca. O primeiro currículo que eu abri tomei um susto!










Oxe! Resolvi logo sair abrindo os currículos, qual não foi minha surpresa.










Aí chegou a hora da entrevista. A primeira convocada invadiu meu escritório e mandou ver.




Fiquei atordoado e resolvi abrir a janela para tomar ar puro. Minha supresa foi maior: na frente do escritório um festival acontecia.




Aí dei duro, queria resolver logo e não dei mole.




Foi quando uma moça entrou e me entregou a seguinte correspondência:

Hestimado Ceñor Luiz Alberto Machado:

Quiero candidatarme pra el lugar de cecretária para la jerensia que bi en el diário. Yo tecleo muy rapidó solo con un dedo y ago cálculos muy vien.
Creo que soy hutil hatendiendo el te lefono, a pezar de no tener mucho estúdio.
Mi salario esta abierto para discucion para que usté puéa ber cuanto me puede pagar y lo que usté crea que meresco.
No termine el colejio pero halgo halgo me recuerdo de sumas y rrestas, tanvien del dictongo y esas cosas.
Tengo condisiones de comensar himediatamente. Muchas grasias por su atension. porqui ya cumpli 17, toy solita y nesesito trabajar.
cinseramente,
Catia Yoselin Machuca Huentelao
PD: Como mi currículo er muy Chico, anecso mi foto
.




Danou-se! Era carga da muita pro coitadinho do meu carro-de-mão. O que você acha que eu fiz? Com essa bronca irresolvível, pensei melhor. E atinei, oxente. Preciso de mais tempo para escolher. E embromei solicitando que todo dia uma delas apareça para que eu possa, uma a uma, avaliar rígida, formal, diligente e detidamente todas as competências, habilidades e perfil ideal para exercer tão importante cargo na minha miudíssima empresa. Posso ser besta, mas não sou burro de entregar de mão beijada, assim. Afinal, viva que Deus é brasileiro, né? Se tá chovendo no meu roçado, sinal que terei uma boa colheita. Agora se roa de inveja e vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
 Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...