UM POEMA PARA VELTA - O amor emancipa, afinal é cego. É por ele que exulta e esvai o mundo. Doce vinho,embevece, embriaga. Não há explicação. Nada no amor se explica. Pois é, exemplo disso, inexplicavelmente surge Velta: loira, gostosa, exorbitantemente sensual tal Kátia Flávia de um Fausto dali. Imensa, exageradamente deliciosa, como uma sexy musa daquelas de virar a cabeça, atravessar as horas, usurpar diâmetro do pescoço: biquíni, longilínea, trepidante. Velta feito diva: sempre além do horizonte, inatingível. Velta feito atriz: sucesso retumbante, star de ruminar da própria luz e escuridão. Velta feito mulher a renunciar da sua bionergia e se transformar Kátia de tanga ousada e pronta para o amor. Velta que é Kátia na sua motocicleta vermelha pela Avenida Paulista ou mesmo nos meus mais oníricos enleios pela Rota do Sol, por Tambaú, Boa Viagem, Jatiúca, Atalaia Velha, ah onde toda cidade é só a palma da sua mão que desdenhasse a heroína e que pudesse flagrar as suas vulnerabilidades e rendesse - desnudada fatal Vera Fisher -, como quem quedasse pronta para chorar e sorrir de nossas próprias desilusões de nada. Velta como a louraça gostosa e exibicionista vestida de verde, como garota de borracha, pronta para ser a intrépida usurpadora que se entregava deliciada por saber que sou o seu Gilberto Gomes e seu pai não sabe que você é a endeusada heroína da minha glória deserdada. Como a que me salvou a adolescência no meio das práticas mais íntimas por punhetas altissonantes em que era abduzida pelo meu desejo enlouquecido por todos os crayons de sua balzaqueana dinamite bad girl, com seu corpo opulento marcado pelo meu mais essencial apetite onde tudo transluzia no jeito de ardilosas nuances que me enfeitiçava a cabeça e me deixava maior que o domingo de uma semana qualquer. Como a que me fez uivar atormentado em noites de lua cheia a delirar como lobisomem pela sua glamourizada voluptuosidade que sassarica na minha débil ousadia de priapo pronto para desposá-la no primeiro dia de nossa manhã ensolarada com todos os prazeres que temos direito e nos fazem valer o tamanho da vida adiada, da felicidade preterida, da remissão de todos os nossos anseios não realizados. Como a oportunidade de desnudá-la ofegante sabendo meu corpo no seu como se eu fosse o homem de preto na oitava arte de nossas estripulias a venerar suas formas e a provar do seu sangue e sabor. E nos encontramos, Velta,nos encontramos desde ontem que nem sabíamos no sonho da chegada e a manhã foi pouca, a tarde ínfima e a noite inexistiu porque toda vida se fez presente naquele pequeno momento em que beijei seus lábios, acariciei seus seios, alisei seu corpo, abocanhei seu ventre, sorvi sua carne, abusei de sua nudez, entranhei sua alma e pude viver muito mais que a minha própria vida naquele instante. E nos encontramos, Velta,nos encontramos de verdade e a vida perto do que vivemos é muito pouca, porque o que vivemos é maior que o presente e carrega a eternidade da lembrança na mais absoluta imensidão do meu universo. © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais aqui.
DITOS & DESDITOS – A obra
de arte não deve ter nem razão nem lógica. Desta forma aproxima-se do sonho e
da mente da criança. Pensamento do pintor italiano Giorgio de
Chirico (1888-1978). Veja mais aqui.
O TRABALHO & O AMBIENTE – [...] A sentença bíblica de viver à custa do
trabalho foi pronunciada contra nós. Escassez é a sentença decretada por nossa
economia – e é também o axioma de nossa ciência econômica: a aplicação de meios
escassos contra fins alternativos, conforme as circunstâncias, para tirar a
maior satisfação possível. E é precisamente a partir dessa vantagem que
voltamos o olhar para os [povos] caçadores. Mas, se o homem moderno, com todas
as suas vantagens tecnológicas, ainda não conseguiu os meios, que chance possui
esse selvagem desprotegido, com seu insignificante arco e flecha? Tendo
equipado o caçador com impulsos burgueses e ferramentas paleolíticas, julgamos
sua situação desesperadora. [...] Trecho extraído de A primeira sociedade da afluência
(Ciências Humanas, 1978), do antropólogo estadunidense Marshal Sahlins.
DA COR À COR
INEXISTENTE – [...] Aliando antiquíssimas concepções místico-mágicas a ideias cristãs e
modernas, em busca de uma fundamentação científica, Annie Besant, continuadora
de Helena Blavatsky, à frente do movimento teosófico internacional, revela em
seu livro Formas de Pensamento um ideário completo da significação das cores do
ponto de vista da corrente que lidera. Também o filosofo e pedagogo alemão
Rodolfo Steiner, que dirigiu durante 12 anos (1901-1913), preocupou-se
seriamente com o problema das cores, definindo-as como representação da ideia.
[...] Na teosofia, a cor e sua
significação têm importância primordial. Segundo Annie Besant, todos os homens
possuem uma aura colorida, que é alterada pelas emoções vividas [...] O brilho e a intensidade das cores denotam,
geralmente, a medida da força e a atividade do sentimento que lhes deu
nascimento. [...] Trechos extraídos da obra Da cor à cor inexistente (Leo Christiano, 2003), do pintor,
pesquisador, professor e escritor Israel
Pedrosa (1926-2016), trata sobre a cor, percepção, classificação e
estímulos; a luz, amissão, propagação, natureza, características e
propriedades, diferença de velocidades, o olho e a visão, limites e estrutura;
Leonardo da Vinci e a teoria das cores; Newton e a óotica física; teoria das
cores de Goethe; óptica fisiológica; representação gráfica, tridimensional e
mensuração das cores, espectrofotometria, colorimetria; a natureza da cor e sua
ação psíquica, simbólica e mística; fascínio da abstração, do impressionismo à
arte abstrata; o emprego das cores no Brasil; elementos de harmonia, contraste
simultâneo das cores, a cor inexistente, mutações cromáticas, componentes
estruturais e o domínio do fenômeno.
POSSESSÕES – [...] Incapaz de vingança,
Gloria curvava-se dentro de si mesma, auscultava-se, moída, esmigalhada: da
vitalidade oculta que faz as mães, só lhe restavam, em suma, pedaços
comprimidos. Como poderia ela ter engendrado um ser como os outros, com todas
aquelas feridas no interior? Tyransmitira a ele essa invisível derrota,
presente envenenado. [...]. Trecho da obra Possessões (Rocco, 2003)) da escritora, professora e psicanalista
búlgara Julia Kristeva, que conta as
investigações de uma jornalista e dublê de detetive sobre o assassinato de uma
anfitriã durante uma festa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
VIVEMOS SEM SENTIR – Vivemos
sem sentir a Rússia embaixo, / não se ouvem nossas vozes a dez passos. / Mas
onde houver meia conversa – sempre / se há de lembrar o montanhês do Kremlin. /
Seus grossos dedos são vermes obesos; /e as palavras – precisas como pesos. / Sorri
– largos bigodes de barata; / e as longas botas brilham engraxadas. /
Rodeiam-no cascudos mandachuvas; / seu jogo: os meio-homens que subjuga. / Um
assobia, um rosna, um outro mia, / só ele é quem açoita, quem atiça. / E
prega-lhes decretos-ferraduras / na testa ou no olho, na virilha ou nuca. /
Degusta execuções como quem prova / uma framboesa, o osseta de amplo tórax. Poema
do poeta russo Óssip Mandelstam (1891-1938).
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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