segunda-feira, outubro 22, 2007

FECAMEPA - ESPIADELA NO BRASIL DO SÉC. XVI



UM ESPIADELA APRUMADA PELO BRASIL DO SÉC. XVI


O fuzuê corria solto na maior cantiga-de-grilo: - U-tererê! U-tererê! E isso avalizava toda idéia de historiadores, viajantes, negociantes, salteadores, assaltantes, aproveitadores, corsários e salafrários sobre a pujança exótica da natureza, a ponto de asseverar que se o paraíso terrestre existia em alguma parte, não podia estar longe daqui. Daí razão pra duas coisas: a idéia de que Brasil é o éden terrestre (isso para a trupe descarada, ao contrário do que pensava os de lá, ser aqui a pena pesada pros degredados); e, também, para nascer toda impunidade e insegurança que pipocará desde então até os dias de hoje.
Mas um dia, a poeira baixou desafinando o rastapé e a farofada toda foi pro saco. Foi mudando de figura até cair a ficha de que tal descobrimento, na verdade, era uma invasão. Isto é, uma verdadeira pegadinha, ah, salci-fufu, meu nego, maior chacota dos tapuitinga com a leseira dos silvícolas.
Como ninguém é besta demais para levar ferro no papeiro o tempo todo, a coisa foi esquentando no sopapo, dando o maior chabú na bagaça: as hostilidades se danaram com as barbaridades dos exploradores em guerras ardilosas e de porfiados combates, de não ficar um segundo só sem o ronco da inúbia.
A tribo toda foi sacando o extermínio do que era seu pelos desumanos conquistadores, além de serem tratados por irracionais, algo próximo ao bicho, numa escala abaixo do homem e um pouquinho acima do macaco.
Nem mesmo as bulas papais Veritas Ipsa e Universis Christi Fidelibus aplacaram a ruindade, violência e ganância predatórias dos homiziados emboabas.
Por causa disso, o desenlace detonou nos maus procedimentos do colono que só tinha olhos para enriquecer, ganhar fama e glória com ouro e pérolas, carregado de toda luxúria, avareza, vexações e pirraças, tomando as terras, derrubando as matas, se emancebando com as índias, incendiando aldeias, destruindo plantações e, de quebra, todos os aborígenes iam sendo escravizados. Além do mais, ou os índios findavam morrendo aos montes de morte matada por eles, ou com as doenças dos malas tapuitingas e, também, pelas epidemias que assolavam brabas.
No mais, também, o pagode permitia a promiscuidade das uniões ilícitas com concubinatos e sodomias, dando vida aos macunaímas que iam nascendo, primeiro mamelucos, depois mulatos, cafusos, curibocas de todas as etnias futucando toda mestiçagem. Maior trupé, mesmo!
Os mamelucos surgiam se tornando os mais carrascos já escravizando, molestando e traficando os bugres para os colonos lusos e para os forasteiros e corsários, a ponto de se tornarem os promotores da escravidão. Maior arranca-rabo.
Nesse rebuliço todo, dava-se início a uma escaramuça das mais violentas envolvendo os potiguares, caetés, tupinambás, tupiniquins, goitacases, tamoios, goianases, guaranis, carijós, cariris, paiaguás, caiapós, maras, maués, mundurucus, guaicurus, tremembés, tabajaras, todos os parus e tapuias de todo território, proporcionando a explosão de uma porção de boatos que viraram verdade oficial quando não passavam de mentiras deslavadas. Porque, na verdade, dentre outras, convém lembrar que os perós ao se depararem com o fim dos mantimentos trazidos d´alémar, já se fartavam empanzinados de coco, inhame, milho, mandioca, aipim, cará, maniçoba, pacovas, abóboras, batata, tudo estranhice insossa no seu paladar e, já cheio de tudo isso, paparam carne indígena no maior churrasco da freguesia para si e para seus cães. Mas o que fica é a versão deles que dá início à pinóia oficial. Aliás, só a versão deles prevalece em toda História oficial.
Voltando ao relato, aparece então a antropofagia que foi atribuída sob o maior esconjuro aos nativos. Claro, eles eram canibais, depois de toda presepada, hem? Com um detalhe: quando praticavam era assumidamente por vingança, todo um ritual. Muito embora a controvérsia leve para muito bate-boca porque são unânimes as narrativas de que os índios eram gentis, pacíficos e trocavam de tudo com todos os visitantes.
Há que se considerar, então, que se tornaram inimigos de Portugal por causa dos procedimentos violentos dos dominadores e cráu! Era uma vez. Pudera, o que os portugas fizeram não é pra menos. E tome mais controvérsia na lata!
Como a zona toda precisava de ordem para o progresso, dividiu-se toda extensão de terra em 15 capitanias ocupadas por 12 donatários e que somente duas deram certo: Pernambuco e São Vicente. Nessas duas o invasor esmagou todas as resistências para implantação da cana-de-açúcar. Nas outras, todas assaltadas por tacapes, uiraparás, flechas, esgaravatanas que findavam dominando e se vingando dos estrangeiros. Melou geral.
Havia ainda uma coisita que era de entronchar tudo: o de que nas capitanias nenhum ninguém dos que aqui chegaram podiam ser perseguidos por crime ou delitos anteriores, possibilitando ainda mais abusos impunes sobre os nativos, redundando ainda mais em massacres e malvadezas. Ainda por cima disso, a introdução da monocultura da cana ampliava a maldição local transformando o sangue de índios escravizados e de negros traficados da África, todos esmagados nos engenhos das capitanias da colônia, no doce dos privilégios das cortes e do clero europeus. E tome moendas, assentamentos, encaixamento, destilação, bagaceira, moagem, latifúndio, tudo por força do braço escravo. No fim, não mais havia ocas nem ocaras, muito menos um cocar sequer em pé.
Os índios que eram submetidos à catequese e à escravidão para trabalhar na cana, só tinham por opção submeter-se ou fugir. Os que não aceitavam, diga-se a maioria, meteram os pés na bunda e fugiram para o interior do continente, preparando a volta do enterro.
Já os negros ou eram mantidos da mesma forma na política escravocrata, ou fugiam seguindo os passos dos índios e criando os quilombos. Olha o pencó engrossando aí! Mais enterro voltando.
O negócio vai empenando feio, pois em Pernambuco é declarada guerra aos caetés porque estes não aceitavam a monocultura da cana-de-açúcar e estavam sendo acusados de jantar o bispo.
Na Bahia, Tomé de Souza vai embora desapontadíssimo porque mandava em tudo que não funcionava por aqui, menos em Pernambuco e São Vicente por ordem da coroa, razão que passa o governo-geral para Duarte da Costa que, mais tarde, tem um entrevero dos cabeludos com o bispo Sardinha resultando num dos mais nebulosos desfechos. Depois eu conto, destá.
O negócio vai ficando cada vez mais desgraçadamente enfeiado no século XVI vez que toda sorte de europeu quer tirar umas casquinhas desta terra continental. É aí que nascem as tramóias, bafafás, enrolanças, trairagem, arrumadinhos e fuleragem que vão engroçando o nó-cego e fazem deste país um verdadeiro boi-de-fogo até hoje!
Pois é, gente, se a coisa ia de mal a pior, com a adoção da cultura da cana-de-açúcar nos engenhos de toda colônia, multiplica-se por mil o piormente e, com isso, a gente fica sabendo com quantas desgraças se faz uma tragédia. E a lição que fica disso é de que é pau pra lamber sabão; e cacete para saber que sabão não se lambe. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais FECAMEPA.

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