quarta-feira, novembro 09, 2016

ANTES QUE OS NOSSOS FILHOS DENUNCIEM O LUTO SECULAR DE SEUS ABRIS


CADA QUAL SEUS PECADOS OCULTOS - (Imagem: The seven sins, by Lisbeth Hummel) Todos os dias, como sempre, ele se entregava às orações. Ao acordar ou de pijama pra dormir, ele se ajoelhava aos pés da cama e desfiava contrito o seu novenário eterno por rogos infindos. Segurava firme o crucifixo na volta do pescoço, benzido por Frei Damião e pela catimbozeira Mãe Nanina – sua mãe verdadeira que havia sob azeite quente no seu cocuruto, rezado forte a oração da cabra preta com um sete-estrelo na testa, fechando seu corpo contra qualquer malefício. Só depois disso que começava as suas atividades ou se deitava para roncar o sono dos justos. Se fosse pra rua, só cruzava a porta com o pé direito, às benzeduras. Ao voltar, colocava um joelho no chão e se benzia sete vezes para livrar-se de qualquer emboscada dentro de seu próprio domicilio. Seguia à risca o que lhe ensinara Mãe Nanina, só assim sabia a segurança de ter todos os seus pecados sempre perdoados, com a devida proteção de nada lhe acometer em desgraça. As horas do Ângelus eram consagradas com intermináveis preces, chovesse ou fizesse Sol. Antes do café da manhã, almoço ou janta, louvava as graças do pão de cada dia. E toda noite adentrava capela ou catedral que fosse, dedicando-se às súplicas da cristandade, agradecendo ao seu protetor de batismo, São Benedito, e de devoção, São Jorge, por júbilos de cânticos e hosanas nas alturas, o perdão dos pecados e a proteção divina. Não desleixava nunca sua religiosidade, sempre se benzendo com o beijo no crucifixo ao fechar algum negócio, cumprir alguma tarefa ou ao passar diante de qualquer símbolo cristão. Tanto é que, contratado por seus préstimos, antes de dar o primeiro passo, fazia o sinal da cruz e, só depois e sua liturgia, preparava as estratégias para executar. Ao concluir qualquer tarefa, se recolhia para fazer seu ato de contrição. Assim foi naquele dia, como sempre fizera, ao sair para satisfazer o trato apalavrado. Ao se deparar com o alvo, fez seu ritual e ficou de tocaia, pacientemente. No momento propício, sacou com um beijo a arma do coldre e se dirigiu atenta e firmemente para alvejar com um tiro na nuca aquele que era o objeto do seu ofício. A vítima tombou já sem vida e ele seguiu tranquilamente a dar voltas e voltas pelos quarteirões, até se recolher em segurança no local de sua hospedagem. Ao findar a madrugada, nem esperava a alvorada e já seguia incólume, como sempre, o seu rumo com a missão cumprida. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

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DESTAQUE: NÊNIA DE ABRIL
Sou um poeta obscuro.
Os meus companheiros são poetas obscuros.
Nosso país é o amor subterrâneo em sagração de interiores catedrais.
Porquanto seja nosso pranto anônimo, choramos nossos mortos sozinhos.
Nosso embalar ainda é canto inaudível nas praças e nas avenidas do povo. Lambemos nossas feridas ignoradas e nossos cantos codificam perdas.
Mas se o país é triste somos tristes porque é de nós sofrer a aflição geral.
Somos cidadãos de um trágico país cuja desgraça ataca sempre e cedo.
Antes que os nossos filhos denunciem o luto secular de seus abris.
O que é melhor em nós desfaz-se em perda.
O que tocamos nos trai com seus punhais.
Perpetramos nosso sonho coletivo e o velamos, mas quando tangemos é tarde demais.
Enfim quando se vai o que é do povo
Aqui na terra se depõe perto de nós.
É quando os obscuros cantam suas nênias
Para embalar o amado enquanto morto.
Sou um poeta obscuro.
Meus companheiros são poetas obscuros.
Nosso país é o amor.
Nênia de abril, música que compus sobre poema de Sérgio Campos. Veja detalhes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: The Touch, by Lisbeth Hummel.
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