

A POESIA DE AUGUSTO ROA BASTOS
DA MESMA CARNE - Deixei ao poente / a franja tutela da
cigarra; / um povo como uma árvore ardente / madeira / que em minha caixa óssea
e de memória / constrói sua guitarra / dolente / no mais vivo de minha escória.
/ O peito perfurado / deixa ver o pulsar / tateando as paredes / do lado mais
acordado e desvalido. / (Resista, se podes) / O tronco empajezado /cresce todas as noites no vale; / geme e se
desespera / quando pressente meus passos / sobre o distante asfalto da rua / em
que vivo. / Obstinadamente / treme em voz alta em todos os meus pedaços. / Contendo
a respiração / escuto-o entre o rumor das machadadas. / (Nenhuma pausa sequer)
/ Sua queixa é tão forte / que me ilumina a face / e me escurece o pensamento;
/ tão fino o tremor que nos separa / e esta parede silvestre tão ligeira, / que
um pulsar sangrento / põe de pé minha vida a cada golpe / que destrói, longe,
sua madeira.
PARA VOCÊ, FECUNDA ... – Eu / Eu
feri sua estrela na água, / e um verão me domina nos seus mamilos, / suas coxas
e filhos / flor e flor, estrondo de sua saia, / isso enigmas meu sangue com
músicas. II - Você, minha água do verão, / você se afunda com raiva,
enlouquecido, / vespa branca querida / de ancas como jacinto... Oh rio / que
você já cheira a despedida! III - Longa estria, dói. / Cárie cheia de canudos e
sons / meu coração dói. / Cárie de tempo. E você, que já me cheira / uma noite
densa quando os ninhos amadurecem... IV - Seu verão se foi / com seus rebanhos
densos. Na tarde / meu orgulho se deita / gasto e puro no frio puro / que sua
beleza concebida queima...
AUGUSTO ROA BASTOS
- Poemas do premiado escritor
paraguaio Augusto Roa Bastos
(1917-2005), conhecido também por seus ensaios, roteiros e romances. Veja mais
aqui.
&
QUATRO
POEMAS DE FERNANDA
FATURETO
CASA - Ela, / sobreviver à casa - / era seu nome. / A casa vazia, / retornar
aos irmãos que morreram. / Comunicar-se com eles - / todos em diferentes
ângulos, / na casa. / Seres anônimos no mundo, / de onde vem e vão. / O
esquecimento torna-se geografia / E os seres dos rios se confundem com barro, /
cultivando o lugar do nascimento. / Lá brotariam dos arrozais / à espera / de
um nome. / Cultivando o lugar do nascimento, / o lugar da terra: / ali
podem ser.
RECITAL -
Um dia em
que não haverá a palavra exata. / O momento chega, em silêncio / Com a noite
fresca de inverno / No interior / Da paisagem. / O dia em que a escuridão
brilha. / Com feixes de luz / E solicita ao silêncio - uma trégua. / O riso à
mesa, / o acaso como traço de um momento / Presente. / Mesmo ato em que, por
léguas, / O encontro se fez. / Do Russo, entendo a culpa e o castigo. / Talvez
faísca que se entrega / No olhar que se fixa. / Encontro e despedida: entre o
instante, / a duração do presente / Como música.
SENHORAS OBSCENAS - Macondo existia só no papel / Seus leitores
visitavam a região / Acordados. / Amparados pela fantasia ao dobrar mais uma
página, / A ilha destinada aos solitários. / Cada palavra esquecida soletrada
renasce – / O poeta já disse que o verbo delira. / Reordena-se o mundo: / Um
local seco e árido habitado por sonhadores.
SEM TÍTULO - Escrever é sempre parte de um movimento maior, à deriva de
imagens e palavras que nos acompanham como amuleto e espera – partida para um
lugar remoto do inconsciente onde reina o sonho e a metáfora (local sagrado e
indecifrável) que só pode ser lido em seu contexto do poema quando este deixa o
imaginário de quem escreve para a página. Cada escritor tem sua partitura
particular, transcrever esse local – materializa-lo – é tarefa de cada um que
escreve. Como num ensaio de queda e redenção. O poema como resistência de quem
o pensa e sente.
FERNANDA FATURETO - Poemas da escritora
e jornalista Fernanda
Fatureto, autora das obras Ensaios para a queda (Penalux, 2017) e
Intimidade inconfessável (Patuá, 2014), com trabalhos publicados em diversas
revistas brasileiras, portuguesas, espanholas e mexicanas, afora participar de
diversas publicações, como do Caderno de Prosa e Poesia Subversa 2 (2019); das
antologias Damas entre Verdes (2018); 29 de Abril: o verso da violência (2015);
Senhoras Obscenas (2016) e Subversa 2 (2016). Veja mais aqui.
A ARTE DE GEORGIA O'KEEFFE
A visão de outra pessoa nunca será tão boa quanto a sua própria visão de
si mesmo. Viva e morra com isso, porque no final é tudo que você tem. Perca e
você se perderá e tudo mais. Eu deveria ter me escutado.
GEORGIA O'KEEFFE - A arte da artista
estadunidense Georgia O'Keeffe (1887-1986). Veja mais aqui & aqui.
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A ARTE DE HELENA ROCIO JANEIRO
Gosto muito da
ideia de imaginar que o meu trabalho possa ter alguma coisa de poético, no
sentido da poesia mais vasto, e realmente quando eu digo… Eu acho que o mundo
seria muito melhor se houvesse mais poesia. E a poesia também é toda visual.
São coisas bonitas. São coisas que chamam, de certa forma, a atenção à tua
sensibilidade. É um bocadinho a minha maneira de ver a poesia. Uma forma
imaginária de fazer com que a realidade possa ser um bocadinho mais forte. Também
há coisas poéticas que são extremamente tristes, deprimentes, mas, de qualquer forma,
é sempre uma exaltação do sentido, de um sentimento.
HELENA ROCIO JANEIRO - Trecho da entrevista concedida pela artista portuguesa
Helena Rocio Janeiro, extraída da
dissertação de mestrado Paredes do Porto: Um estudo
taxonômico sobre as frases de Porto Alegre e do Porto (Porto,
2019), de Rafael Druzian de
Castro. Ela cursou Artes Plásticas na ESAP e edita o blog Coração o Ditador. Veja mais aqui.
PERNAMBUCULTURARTES
Sou uma mulher incompleta / Por onde passo fica um pedaço meu / Em cada
abraço, em cada passo, eu!
A arte da poeta, professora e
produtora cultural, Fernanda Limão, que
trabalha com intervenções literárias em diversos formatos, utilizando várias
formas e espaços para disseminar sua poesia já publicada em diversas antologias
brasileiras.
Pedagogia do oprimido (Paz e
Terra, 1983), do sociólogo e pedagogo Paulo Freire (1921-1997) aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A música
de Claudionor Germano aqui.
&
História Tataritaritatá aqui.