

A POESIA DE OSVALDO ALCÂNTARA
A SERENATA: Vestida de gemidos de bordão, / lancinâncias de
violino, / na noite parada / vem descendo a seresta. / Sumiu-se a cidade
barulhenta /inimiga das crianças e dos poetas. / Uma voz canta sentimentalmente
um samba. / Aquele aperto de mão / não foi adeus! / Os cavaquinhos desmaiam de
puro sentimento, / a cidade morreu lá longe, / e a lua vem surgindo cor de
prata. / Nessa história de amor todos são iguais, / até o rei volta sua palavra
atrás… / O meio tom brasileiro deixa interrogativamente a sua nostalgia. / É
hora que os poetas escolheram / para a procura dos seus mundos perdidos… / Amanhã
a cidade virá novamente / inimiga dos poetas. / Mas agora ela dorme, / ela não
sabe que os poetas falam com Nossenhor, / com a lua e as estrelas, / nesta hora
tão lírica… / Menina romântica, irmã / das crianças e dos poetas… / A tua
janela, florida de esperanças, / é um mistério que a cidade não entende. / Passa
a serenata. / Mas no coração dos que temem a primeira luz do dia que vai chegar
/ ficam os gemidos do violão e do cavaquinho, / vozes crioulas neste noturno
brasileiro / de Cabo Verde.
MAR: És estrela e única vida. / Vida que sobe das esquinas ocultas / no mar
sem águas, no mar / com águas sem sal
que vêm a diluir-se / lá do fundo das
distâncias mágicas! / Vida para quê? / Ó distância da vida
pouco e pouco escoando-se. / Mistério do caminho cada vez mais certo? / E as
auroras que eu via / e nelas me alava para as viagens futuras! / Mas não esta
viagem em limite, / de passadas mutiladas. / Mar, tu és o que fica.
OSVALDO ALCÂNTARA - Poemas do poeta, advogado, filósofo e professor cabo-verdiano
Osvaldo Alcântara (pseudônimo de
Baltazar Lopes da Silva – 1907-1989), autor de obras como Chiquinho (1947); O Dialeto crioulo de Cabo Verde (1957), Cabo Verde visto por Gilberto Freire (1956) e Antologia da ficção cabo-verdiana contemporânea (1960), Praia, Cabo
Verde, 1960.
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DOIS POEMAS DE PRISCILLA
CAMPOS
PÁSSARO VERMELHO: registro na imagem: / a cidade envelheceu / cinco
ou seis anos / desde que a última ave / migratória deixou o porto / meço o
tempo pelo voo / dos que não pretendem ficar / porque os pássaros sabem / melhor
do que nós / o ritmo da memória / e as chances de saída / não sei o nome das
árvores / ainda vivas graças à / boa vontade do homem tonto / chefe das faixas
de areia / deste litoral ou quantas / braçadas podem salvar / o banho de mar / da
morte por mordidas / mas sei que você entende quando / eu sinto a estranheza do
vento / bem na beira dos meus olhos /massas de ar atravessam os corpos / no
mesmo movimento invisível / não importa se estamos na janela / do abismo ou
daquele hotel uruguaio / onde você me disse olha o mundo / como quem não volta
nunca mais / e eu segui mirando o seu rosto / entre o reflexo da rua escura / e
a revoada das aves bem sucedidas.
II: tenho lavado as mãos com água fria / torneiras não
funcionam como antes / e as partes mais altas dos edifícios / começam a pender
para os lados / eu sinto receio que os moradores / também comecem a viver um
pouco / tortos um pouco elásticos imagina / os talheres todos juntinhos / de um
único lado da cozinha / imagina eu e você tendo que contar os / passos em
direção ao quarto porque / agora em um trecho do caminho / nós vamos engatinhar
até / a cama e quando deitados / já não sei em que lado do beijo eu fico / ou
qual a melhor perspectiva para que / eu veja os seus braços livres / te
observar em movimento será sempre / alterado pela envergadura das janelas / vamos
aprender também a tecer / outro membro como as caudas / dos escorpiões:
perder-se em fuga / para retornar em veneno / e talvez então assim seja
possível / continuar a quase cair pela casa / não sentir falta da potência / das
torneiras / luísa tem os olhos da sua tia / e me pergunta o porquê / de
enxergar tudo meio em / “cambalhota” / mãe eu vejo você no chão e no / teto ao
mesmo tempo / eu dou risada e continuo / engatinhando contigo / te peço que
mais tarde / por favor equilibre / a sua mão na minha bunda / da maneira que
você desejar.
PRISCILLA CAMPOS – Poemas da poeta, jornalista e mestre em Teoria
da Literatura pela UFPE, Priscilla
Campos. Veja mais aqui.
A ARTE DE ALLAN
KAPROW
A linha entre arte e vida deve ser
mantida o mais fluida e talvez indistinta possível. Não é o que os
artistas tocam que conta mais. É o que eles não tocam.
O problema com a arte artística, ou mesmo doses de arte artística que ainda
persistem na arte realista, é que ela enfatiza demais o discurso dentro da
arte.
ALLAN KAPROW - A arte do pintor assemblagista estadunidense e pioneiro
do conceito de performance, Allan Kaprow (1927-2006), que auxiliou no
desenvolvimento de teorias e conceitos sobre ambiente e Happening entre os anos 1950/60, com práticas que ele denominou de “atividades”
com exame de comportamentos e hábitos do cotidiano, influenciando Fluxus,
performance e artes de instalações.
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A ARTE DE KATIA
MACIEL
Histórias
inacreditáveis são experiências que todos vivem e, portanto, o que é ficção e o
que não é, fica ao gosto do espectador que às vezes somos de nós mesmos.
KATIA MACIEL - A arte da premiada poeta, artista
visual, pesquisadora e professora Kátia Maciel, que é graduada em História pela PUC-RJ, mestrado na École
des Hautes Études em Sciences Sociales, doutorado na Escola de Comunicação da
UFRJ e pós-doutoramento na Universidade de Gales, em Newport, e na USP. Sua arte
é constituída das obras Suspense (2015), Répétiton (2014), Dois (2012), +2
(2011), Ondas (2009), Situação cinema (2007), Keep your distance (2005),
Mantenha distância (2003), entre outras. Veja mais aqui.
PERNAMBUCULTURARTES
Por que nada permanece inteiriço / em sua casca, / protegido?
/ um dia racha / e pela fenda / passam peixes e navios / fantasmas que na noite
ganham vulto: / fogo, chama, fumaça / nada permanece inteiro / tudo se esgarça
/ assim é o intervalado texto do destino, / forrando a mesa / por que não se
estende eterno, / se é tão fino? / por que não dura a inteireza?
Poema da premiada poeta e professora Elizabeth Hazin, autora de Poesias (1974), Verso e reverso (1977),
Casa de Vidro (1981), Espelho meu (1985), Martu (2006), o arqueiro e a lua
(1994), entre outros. Ela é graduada em Letras pela UFPE, mestrado em Letras
pela UFPE, doutorado em Letras pela USP, pós-doutoramento pela Università di
Roma La Sapienza e USP, coordena o Grupo de Pesquisa (UnB) Estudos Osmanianos:
arquivo, obra, campo literário.
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A obra de Ariano
Suassuna (1927-2014) aqui.
Uma cidade
feliz. E gorda, do premiado escritor,
crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero aqui.
Quipapá:
fases e aspectos de suas histórias, do médico, escritor e pesquisador de José Vicente Valença Junior (1900-1976) aqui.
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