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quinta-feira, julho 06, 2023

CARL HART, VERONICA ROTH, TUNGA, MARÍA RAMÍREZ DELGADO, HUIZINGA & LÚDICO NA ESCOLA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Ninhal (Maritaca, 1997) e Cartas Brasileiras (2007), da flautista e compositora Léa Freire.

 

PASSADOÍDOENDAGORA – Era junho e já passou: por trinta e um dias eu fui manhã chuvensolarada pelas alegorias do Oficina de José Celso Martinez Correia. Por trinta e um dias eu parêntesis de junhoutros de nenhumoutra lembrança perdida na memória, para que eu indagasse quem aquele da foto na sala, quem aquele: os nossos filhos nos responsabilizarão pelo que perdemos da coragem de sermos deste tempo e terra. Salvou-se uma alma e Maria Luisa Bomball ao meu ouvido: É muito possível desejar morrer, quando se ama demais a vida. A morte me parece uma aventura mais acessível do que a fuga... E se de morte ou de fuga sei eu quase nada, restava-me a solidária companhia de Käthe Kollwitz: Os seres humanos estão tão confusos e precisam de ajuda... Só sei que por trinta e um dias a tarde anoiteceu e eu fiquei na escuridão de séculos, contando os dedos de nenhuma estrela, com meu peito desabotoado a expor o estigma da solidão. E se não fosse Tunga Vê-nus com as afinidades afetivas à luz de dois mundos, sabe-se lá o que poderia acontecer… Só sei que passadoídendagora arrasta a carne terra afora e até mais ver.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

[...] Os educadores estão cientes de que só podem atingir os jovens fazendo uso do espírito de gangue e orientando-o, não trabalhando contra ele. […]. Trecho extraído de Life and Thought in America (1972), do professor e historiador neerlandês Johan Huizinga (1872-1945). Já na obra Homo ludens (Perspectiva, 2000) ele expressa: [...] mesmo em suas formas mais simples, ao nível animal, o jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassa os limites da atividade puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa “em jogo” que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação. Todo jogo significa alguma coisa. Não se explica nada chamando “instinto” ao princípio ativo que constitui a essência do jogo; chamar-lhe “espírito” ou “vontade” seria dizer demasiado. Seja qual for a maneira como o considerem, o simples fato de o jogo encerrar um sentido implica a presença de um elemento não material em sua própria essência. [...] Se verificamos que o jogo se baseia na manipulação de certas imagens, numa certa “imaginação” da realidade (ou seja, a transformação desta em imagens), nossa preocupação fundamental será, então, captar o valor e o significado dessas imagens e dessa “imaginação”. Observaremos a ação destas no próprio jogo, procurando assim compreendê-lo como fator cultural da vida. As grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde o início, inteiramente marcadas pelo jogo. Como por exemplo, no caso da linguagem, esse primeiro e supremo instrumento que o homem forjou a fim de poder comunicar, ensinar e comandar. [...] Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza. Um outro exemplo é o mito, que também é uma transformação ao uma “imaginação” do mundo exterior, mas implica em um processo mais elaborado do que ocorre no caso das palavras isoladas. O homem primitivo procura, através do mito, dar conta do mundo dos fenômenos atribuindo a este um fundamento divino. Em todas as caprichosas invenções da mitologia, há um espírito fantasista que joga no extremo limite entre a brincadeira e a seriedade. Se, finalmente, observarmos o fenômeno do culto, verificaremos que as sociedades primitivas celebram seus ritos sagrados, seus sacrifícios, consagrações e mistérios, destinados a assegurarem a tranquilidade do mundo, dentro de um espírito de puro jogo, tomando-se aqui o verdadeiro sentido da palavra. Ora, é no mito e no culto que têm origem as grandes forças instintivas da vida civilizada: o direito e a ordem, o comércio e o lucro, a indústria e a arte, a poesia, a sabedoria e a ciência. Todas têm suas raízes no solo primevo do jogo. [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

O LÚDICO NA EDUCAÇÃO – Na obra Jogo, teatro & pensamento (Perspectiva, 1980), Richard Courtney expressa que: [...] as atividades lúdicas são vistas como projeções: expressões dos pensamentos, impulsos, motivações, mais íntimos da criança que expressam significados particulares: o que um indivíduo faz em uma situação projetiva pode estar expressando diretamente seu mundo privado e processos de personalidade característicos [...]. Afirmação esta que levou a considerar o exposto na obra A formação social da mente (Fontes, 1989), de Lev Vygotsky, expressando que: [...] a ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não pode ser vista apenas como diversão. O desenvolvimento do aspecto lúdico facilita à aprendizagem, do desenvolvimento pessoal, social e cultural e colabora para boa saúde mental e física [...]. Bem como na obra Pedagogia do Oprimido (Paz e Terra, 2008), de Paulo Freire, ele expressa que: [...] A ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não pode ser vista apenas como diversão. A promoção das atividades lúdicas, sejam elas individuais ou grupais, oportuniza situações privilegiadas que conduzem à aprendizagem e ao desenvolvimento pessoal, social e cultural, produzindo conhecimentos e experiências que se incorporarão à vida do aluno, abrindo-lhe possibilidades de ser livre e de tomar decisões de acordo com a sua própria consciência [...]. A respeito do tema, o artigo Ludicidade (Revista PUC Educação Física, 1990), o filósofo e pedagogo francês Georges Snyders (1917-2011) expressou que: [...] O lúdico apresenta valores específicos para todas as fases da vida humana. Assim, na idade infantil e na adolescência a finalidade é essencialmente pedagógica. A criança, e mesmo o jovem opõe uma resistência à escola e ao ensino, porque acima de tudo ela não é lúdica, não é prazerosa [...]. Tais conduções levaram ao estudo Sala de aula e avaliação: caminhos e desafios (2002), da professora Regina Shudo, que observou: [...] Algumas questões são quase que determinantes no processo de desenvolvimento da mente infantil, como os ambientes estimulantes; as práticas educativas estimulantes, a exploração de diversos objetos; o encorajamento do adulto nas atividades que possibilitem à criança superar desafios, usar sua imaginação e criatividade [...]. É o que também observa o artigo Ludicidade e atividades lúdicas: uma abordagem a partir da experiência interna (Revista Entreideias, 2014), do processor Cipriano Luckesi ao mencionar que: [...] Enquanto estamos participando verdadeiramente de uma atividade lúdica, não há lugar, na nossa experiência, para qualquer outra coisa além dessa própria atividade. Não há divisão. Estamos inteiros, plenos, flexíveis, alegres, saudáveis. [...]. Tais considerações levaram ao artigo O lúdico como estratégias no Ensino Fundamental II (Revista Gestão Universitária, 2018), de Camila Franco, Luiz Fernando Godinho, Patrick do Nascimento  e Shirley Gomes, no qual encontra-se que: [...] o lúdico deve fazer parte do cotidiano dos alunos, estar presente durante as aulas, como algo mais natural possível, que quando introduzido seja visível a transformação no desenvolvimento e aprendizagem dos alunos, por que o lúdico auxilia em muitos aspectos quebrando todos os paradigmas existentes, com todas as regras e normas que os conteúdos de Educação Física possui. Assim, tornará o aluno criativo para se relacionar e estar com os colegas, ou até de demonstrar qualquer situação competitiva, ou de liderança durante as atividades desenvolvidas. [....]. Veja mais aqui.

 

LUDOTERAPIA – Por consequência levou-se a pesquisa para o tema terapêutico, pelo qual encontrou-se que a Ludoterapia atualmente é destinada a todas as idades, desde crianças, jovens, adultos ou idosos e o seu uso tanto pode ser a nível da psicoterapia do indivíduo como terapia de grupo, tendo em vista que a terapia do jogo e do contexto lúdico é importante para a aprendizagem e equilíbrio dos seres humanos. É o que advoga a obra Introdução à pedagogia (Coimbra, 1962), de E. Planchard, ao mencionar que: [...] Quanto mais ativa for esta força lúdica, mais a criança, candidata a homem, é inteligente e disponível para um destino superior. É carácter de impulso para o alto e para o futuro que permite fazer do jogo, em que toda a alma está empenhada, mola da educação. [...]. É o que se apreende da leitura da obra Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem (Artmed, 2008), de Vitor da Fonseca, ao observar que: [...] a característica mais genérica que os indivíduos com Dificuldades de Aprendizagem (DA) apresentam é uma discrepância acentuada entre o seu potencial estimado (inteligência igual ou superior à média) e a sua realização escolar (abaixo da média numa ou mais áreas académicas, mas nunca em todas) [...]. O esclarecimento desta questão encontra-se no artigo A importância do lúdico no processo de ensino aprendizagem na educação infantil (Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, 2021), de Gisele Mariotti Putton, ao entender que: [,,,] A ludicidade proporciona uma diversidade de atividades prazerosas que desenvolvem a criança em seus aspectos: cognitivo, afetivo, social e motor. Por meio das atividades lúdicas a criança experimenta, descobre, cria, adquire habilidades, desenvolve a autoconfiança, criatividade, pensamento, expande o desenvolvimento da linguagem, a autonomia e a atenção. Através da dinâmica, o lúdico possibilita além de situações satisfatórias, o surgimento de condutas e assimilação de regras sociais, proporciona o desenvolvimento de seu intelecto, tornando claro seu sentimento, suas angústias, ansiedades, ajudando com o reconhecimento suas dificuldades, proporcionando assim soluções e um engrandecimento na vida interior da criança. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

AUTO-RETRATO EM AGONIA: A extinção não é um sino, uma rosa ou uma pegada subaquática, \ Tem a ver com o cabelo escuro das sombras, \ com a tempestade que para a peste e o pesadelo ainda intransponível. \ Cheira a escuridão quente. \ Afaste-se de casa. \ Gire o botão, respiração desinteressada da chave. \ Não olhe para trás.

SEQUÊNCIA DO TAPETE: Um tapete perturbador mora no consultório do psicólogo. \ Como muitos outros pacientes, caminhando sobre as atrocidades, bordo-o uma vez por semana com as espirais amarelas da culpa que trago, o pescoço aberto de uma mulher nas lajes do trem. \ Determinado tenho tentado me enterrar todo nela, todas as noites, antes de dormir, tenho medo da poeira que posso sentir e que um dia ela vai embora. \ Onde colocar meus olhos então? Onde a fúria preservada entre os dedos? \ Asséptico sorriu para ela enquanto esperava a queda, só ela vê as feridas sob os sapatos, e sabe que não importam, que ninguém pode curá-las.

Poemas da escritora venezuelana María Ramírez Delgado. Veja mais aqui.

 

DIVERGENTE – [...] Acreditamos em atos comuns de bravura, na coragem que leva uma pessoa a defender outra. [...] Tornar-se destemido não é o ponto. Isso é impossível. É aprender a controlar seu medo e a se livrar dele. [...] Eu tenho uma teoria de que o altruísmo e a bravura não são tão diferentes. [...] Às vezes, chorar ou rir são as únicas opções que restam, e rir é melhor agora. [...]. Trechos extraídos da obra Divergent (Katherine Tegen, 2012), da escritora estadunidense Veronica Roth.

 

JORNADA DA AUTODESCOBERTA – […] O paradoxo da educação é precisamente este: quando alguém começa a se tornar consciente, começa a examinar a sociedade na qual está sendo educado. [...] Uma das lições mais fundamentais da ciência é que uma correlação ou ligação entre fatores não significa necessariamente que um fator seja a causa de outro. Este importante princípio, infelizmente, raramente informou a política de drogas. Na verdade, a evidência empírica é frequentemente ignorada quando a política de drogas é formulada [...] o que parecem desvantagens de uma perspectiva podem ser vantagens de outra – e as formas de saber e responder podem ser vantajosas e adaptáveis ​​em um ambiente e desvantajosas e disruptivas em outro [...] Trechos extraídos da obra High Price: A Neuroscientist’s Journey of Self-Discovery That Challenges Everything You Know About Drugs and Society (Harper Perennial, 2014), do professor de psicologia e psiquiatria estadunidense, Carl Hart.

 

LITERATURA PERNAMBUCANA

[...] A cena literária pernambucana vem, de uns anos para cá, vivendo uma verve realmente efervescente; quase nunca tivemos tantos movimentos trabalhando ao mesmo tempo. [...]

Trecho extraído da obra Literatura pernambucana: uma disciplina necessária (Audax, 2017), organizada pelo professor Roberto Queiroz. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


quarta-feira, setembro 16, 2020

RIMBAUD, TUNGA, MERRIT MOORE, ENEIAS & MANI MANDIOCA



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... ENTRE ANDAÇOS & ENLEVOS ÀS DESORAS - Cantoconto, sou a solidão de Eneias. Também tenho horror a todos os ofícios e não usarei as mãos para manchar a alma, vivo em toda parte. Dos meus antepassados, todos mortos sepultados no ventre e estou só. Eu sei, só os covardes estão vivos, porque o meu povo está inspirado pela febre e pelo câncer, o vício estúpido e a podridão, são todos calamidades. Não exponho meus desgostos e traições, não sei para onde nem por que vou. Agora mesmo a primavera se confunde com outono, os mil amores crucificados como se o inverno fosse o conforto e eu perdi a noção de tudo. Escrevo silêncios, sofismas mágicos e alucinadas palavras inumeráveis, a alquimia do verbo. Tal Rimbaud: é evidente que sempre fui de uma raça inferior: Não posso compreender a revolta. Minha raça não se rebelou jamais, a não ser para a pilhagem: como os lobos que atacam o animal que não mataram. Meu navio a sorte inventa e não há como atracar com a desilusão dos sonhos. Persigo o voo, sozinho.

DUAS DE MANI – A primeira, do escritor, etnólogo e folclorista José Vieira Couto de Magalhães; a segunda, das Estórias e lendas de Goiás e Mato Grosso; afora a das Lendas dos índios do Brasil (São Paulo, 1946), de Herbert Baldus; a da Antologia das lendas do índio brasileiro (RJ, 1957) e a reunida no Dicionário do folclore brasileiro (Global, 2001), do saudoso Câmara Cascudo. Todas dão conta da menina de cujo corpo nasceu a mandioca, Manihot utilíssima, euforbiácia, nome que provêm de Mani-óca, casa de Mani, uma lenda da raça Tupi. Aquela da jovem índia que apareceu grávida e o chefe, indignado por seu orgulho maculado, insistiu na punição do responsável. Ela, inflexível, dizia nunca ter tido relação alguma. Nove meses depois nascia uma menina branca e lindíssima, fato que gerou bastante surpresa na tribo e noutras nações vizinhas. A menina teve o nome de Mani e andava como falava precocemente. Morreu ao cabo de um ano, sem ter adoecido e sem dar mostras de dor. Foi enterrada dentro da própria casa onde brotou uma planta inteiramente desconhecida. A terra fendeu e cavaram reconhecendo o corpo de Mani. Então, comeram a mandioca que passou a fazer parte da culinária brasileira desde então.

TRÊS PRAS QUATRO – Imagem: arte da premiada bailarina e física quântica estadunidense, Merrit Moore. - A dança quântica e ela baila nua no meu coração como uma balzaquiana rainha que sabe que não há preferência exclusiva, basta o melhor de si no empenho e dedicação, o que preenche minhas ocas elucubrações e faz ainda mais feliz meu coração. Ensinou-me pacientemente: É preciso um cérebro criativo pra ter novas ideias no laboratório. E é preciso um cérebro analítico para saber seu centro de massa no estúdio de dança. É no seu bailado que os dias escorrem pelas tardes e noites para que a vida sorria e faça o viver uma experiência para lá de aprazível. Até mais ver.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

A ARTE DE TUNGA
A arte do escultor, desenhista e artista performático Tunga - Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão (1952-2016), que foi o primeiro brasileiro a ter uma obra exposta no icônico Museu do Louvre, em Paris, e possui obras em acervos permanentes de museus como o Guggenheim de Veneza, entre outros. Para criar seus trabalhos, ele investigava áreas do conhecimento como literatura, psicanálise, teatro, ciências exatas e biológicas, utilizando em suas esculturas e instalações os mais inusitados elementos para construção de suas narrativas carregadas de simbolismo. A sua obra é retratada no vídeo Tunga: 100 redes e tralhas (1997), de Roberto Moreira, no livro Tunga: Barroco de Lírios (Cosac & Naify, 1997) e a caixa Tunga (2007), constituída de sete volumes de diferentes formatos com textos, fotografias e vídeos, documentando a sua trajetória. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, junho 08, 2016

TUNGA, CÉSAR VALLEJO, NÁ OZZETTI, SÔNIA BRAGA, JOÃO PESSOA & RUY CARVALHO, TEATRO & FECAMEPA

TUNGA - Imagem: do filme p&b Ão: “toro imaginário no interior de uma rocha”, registrando o interior do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, em 1980, do escultor, desenhista e ator de performance artística Tunga - Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão (1952-2016) – Não mais que um rio esquecido, vida nas margens perdidas, forasteiro do lado de fora e do outro lado eremita nas águas revoltas do seco e das poeiras esvoaçantes que não são mais que um Sol poente pelas dunas iridescentes da memória. Não mais que um sonho perdido nas gavetas mofadas dos móveis destroçados pela ação dos cupins nas ripas, vigas e estrados, e tivera eu o que não tive não seria melhor do que sou. Não mais que telhado sobre escombros no vórtice do tempo, lembranças de cinzas e vidros quebrados, soubera vivo antes que morto fosse, nada mais. Não mais que uma rua ignota, sem nada, sem saída, inacabada, na qual quisera eu romper limites, jamais além de onde estou pra onde vou. Não mais que a curva do tempo e o que aprendera não me poupara a ser reincidente, sempre vário, disperso, diverso, atrabiliário. Não há mais que hoje nem era amanhã do que sou obscuro no que é mais clarividente, abstive-me de atalhos, teimoso resiliente além das aguçadas pontas de facas, punhais inexoráveis, fina lâmina de viver. Não mais que a pele curtida da meia-noite ao meio-dia e assim por diante todos os dias, valeu-me a sorte dos condenados e não ter mais para onde ir. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.
Imagem: A arte do escultor, desenhista e ator de performance artística Tunga - Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão (1952-2016). Veja mais aqui, aqui e aqui

Curtindo o álbum Meu Quintal, (Borandá, 2011), décimo disco da cantora e compositora Ná Ozzetti. Veja mais aqui.

PESQUISA
O livro O teatro e a sua estética (Arcádia, 1964), organizado pelo encenador, crítico e membro da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, Redondo Junior (1914-1991). Veja detalhes aqui.

LEITURA 
O livro Poesia completa (RioArte, 1984), do poeta vanguardista e dramaturgo peruano César Vallejo (1892-1938). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
FECAMEPA - SERÁ O ACUNHA-DUDU? (E HAJA ÓLEO DE PEROBA!)
Nascido de família humilde e filho de trabalhadores da palha da cana, candidatou-se à prefeitura de uma cidade da Mata Sul, sendo eleito para surpresa geral. No entanto, devido a uma acirrada briga com um dos vereadores do município, a Câmara se reuniu e cassou seu mandato. Atendendo a veementes apelos do chefe do Executivo, deputados apoiados por ele chegaram à cidade. O objetivo da visita era negociar com os representantes da Câmara a suspensão do efeito cassatório a ser confirmado pelo juiz de Direito. Após as negociações, deputados, prefeito e vereadores foram ao Fórum, além de advogados e adversários do político cassado. Terminada a audiência, onde recuperou o mandato, ao ser abordado por um de seus admiradores sobre o resultado, o governante municipal acentuou: - Como tudo na p...
Cassação suspensa, extraído do livro Os sapos da política (Comunicarte, 1993), do médico e escritor Edson Moura. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
Meu coração voa
Sou todo João Pessoa (LAM).
Por do sol na Praia do Jacaré – João Pessoa – PB, do fotógrafo Ruy Carvalho.

Veja mais sobre O Trâmite da Solidão, Anthony Giddens, Marguerite de Yourcenar, Robert Schumann, Jean Racine, Arnaldo Jabor, Francisco Ribalta, Sonia Braga & Ary Spoelstra aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da atriz Sônia Braga.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá (Foto acervo LAM).
Veja aqui.

quarta-feira, agosto 05, 2015

LURIA, OVÍDIO, FELLINI, CANDIDO DE CARVALHO, AIRTO & FLORA, TUNGA, WAIN & A SUBMERSÃO DOS SENTIDOS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A SUBMERSÃO DOS SENTIDOS – Meus filhos não sabem da guerra! E nos seus olhos perdidos arreviro de noite. E vou me esvaindo sozinho, olhos secos nas noites em adagas, enquanto sigo com as chagas abertas no sol. Meus filhos não sabem da guerra! E sigo sozinho desenterrando segredos. Aqueles segredos que não pude conter por muito mais tempo no meu vário silêncio. Segredos sem fechaduras, sem dentes, alicates, segredos de dor e da alma de ontem. Registros de cartas aviltadas de sombrias desventuras, de resignação. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. E seus olhos são velas acesas e eu no escuro com medo, em carne viva e beirando abismos menores que um triz. E eu afogado numa gota do escuro sem saber fugir, metido no medo da infância e da ruindade adulta. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. Não sabem que sozinho amanheço de noite. Meu mundo é miúdo menor que um aceno, resignado à comunhão do rio da minha vida, completamente vadio no fastio do mormaço, porque ainda sonho sozinho na minha arredia solidão e sorrio verdades na minha ingênua fadiga. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. Não sabem que sozinho amanheço de noite. Não sabem, meus filhos. Um que se foi, a outra que irá já tão tarde com a minha carne acesa no prisma da vida. (A submersão dos sentidos – Primeira Reunião. Bagaço: 1992). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 Imagem: A arte do escultor, desenhista e ator de performance artística Tunga - Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum The Colours of Life (In & Out Records, 1988), dos músicos Airto Moreira & Flora Purim.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, no horário das 10hs e das 15hs, no blog do projeto MCLAM, com a luxuosa apresentação de Ísis Corrêa Naves. No blog muitas dicas de Psicologia Infantil e Escolar, bem como outras divulgações das áreas de Literatura, Teatro, Música, Educação e Direito das Crianças e dos Adolescentes. Para conferir o programa online é só clicar aqui ou aqui.

DESENVOLVIMENTO COGNITIVO – O livro Desenvolvimento cognitivo: seus fundamentos culturais e sociais (Ícone, 1990), do neuropsicólogo e um dos fundadores da psicologia cultural-histórica, Alenxander Luria (1902-1977), trata de temas como a percepção, generalização e abstração, dedução e inferência, raciocínio e solução de problemas, imaginação, auto-análise e autoconsciência, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: Parece surpreendente que a ciência da psicologia tenha evitado a ideia de que muitos processos mentais sejam sócio-históricos em sua origem, ou de que manifestações importantes da consciência humana tenham sido diretamente formadas pelas práticas básicas da atividade humana e pelas formas da cultura existentes [...] Em um certo estágio de desenvolvimento social, a análise das próprias peculiaridades individuais frequentemente ceda lugar à análise do comportamento do grupo, e o eu individual era frequentemente substituído pelo nós coletivo, tomando a forma de uma avaliação do comportamento ou da eficiência do grupo ao qual o sujeito pertencia, (brigada, equipe, ou fazenda coletiva como um todo). Frequentemente as próprias qualidades (ou aquelas do grupo) eram avaliadas pela comparação do comportamento individual (ou grupal) com normas ou demandas sociais impostas ao individuo ou ao seu grupo. Apenas em estágios superiores – principalmente em pessoas jovens progressivamente envolvidas, de modo ativo, na vida social e com pelo menos alguma educação formal – poderíamos discernir um processo de escolha e avaliação das qualidades pessoais. Aqui, também, a análise permaneceu ligada, de muitas, à avaliação do sujeito sobre como tais qualidades individuais se relacionavam com as demandas da vida social. [...] [E particularmente importante o fato de que esse processo não se esgota numa mera mudança de conteúdo da consciência e uma abertura de novas esferas da vida para análise consciente (esferas da experiência social e das relações consigo mesmo, enquanto participante da vida social). Nós estamos lidando com mudanças muito mais fundamentais – a formação de novos sistemas psicológicos, capazes de refletir não apenas a realidade externa, mas também o mundo das relações sociais e, basicamente, o mundo interior da própria pessoa enquanto moldado em relação a outras pessoas. A formação de um novo mundo interior pode ser considerada uma das conquistas fundamentais do período tratado. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OLHA PARA O CÉU, FREDERICO! – O romance Olha para o céu, Frederico! -  Romance acontecido em Campos dos Goitacazes nos dias do gramofone (José Olympio, 1974), do escritor, advogado e jornalista José Cândido de Carvalho (1914-1989), retrata com humor os negócios e a decadência moral das famílias do setor sucroalcooleiro de Campos dos Goitacazes, do qual destaco os trechos a seguir: Estávamos chegando. O guia avisou que tínhamos entrado nas terras do São Martinho. Era o fim. E a tarde caindo feito uma agonia por cima do mundo. Tarde vazia, sem cigarras pelos troncos. Uma vida bonita de dez anos ia ficar para trás, enterrada em Quiçamã do Limão. Com mais uma andada estaríamos vendo a chaminé do São Martinho. Sentia que era o princípio do meu desterro. Podia botar velar na mão. Pensei em meu tio José Nabuco de Sá Meneses. Onde andaria a prima Nilze de bondade de anho? Agora me levavam para o cemitério do São Martinho. Ficaria por lá enterrado vivo. Tiraria meu tempo feito um condenado carregadinho de crimes. Por onde andaria minha prima Nilza? [...] Quem visse Frederico assim de fala mole, com miséria nas conversas, era capaz de acreditar num São Martinho encalhado, de rodas mortas, com ninho de rato nas fornalhas. Conheci e vi morrer meu tio com esses lamentos que só acabaram quando sua boca se fechou vazia de palavras [...] Era alto como vela de promessa. Tanta gentileza acabou por trazer Dona Lúcia para a cama de Frederico. Os parentes é que não viam nada. Só olhavam a velhice de meu tio, a plantação que podia nascer em sua testa. Agora, com um simples negócio de altar, os mourões do São Martinho ficavam sendo as pitangueiras da praia. [...] O raposão do meu tio não mostrava as unhas. Na varanda, de tarde, esparramado na cadeira de preguiça, lia os jornais. Vinha gente tirar prosa com ele. Conversinhas de calor, da miséria de fim de vida que andava solta pelo mundo. [...] Os barões, dependurados em pregos de parede, por trás das barbas, espiavam meus desmandos. [...]. Veja mais aqui e aqui.

AS METAMORFOSES – A obra poética As metamorfoses, a magnun opus do poeta matino Público Ovídio Naso (43aC-18aC), é um poema narrativo inconcluso mostrando a constante mutação do mundo e alguns aspectos da soberania e sua família. Da obra destaco o fragmento do Livro I, traduzido por Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (USP, 2010): Faz-me o estro dizer formas em novos corpos mudadas. Deuses, já que as mudastes também, inspirai-me a empresa e, da origem do mundo ao meu tempo, guiai este canto perpétuo. Antes do mar, da terra e céu que tudo cobre, a natureza tinha, em todo o orbe, um só rosto a que chamaram Caos, massa rude e indigesta; nada havia, a não ser o peso inerte e díspares sementes mal dispostas de coisas sem nexo. Inda nenhum Titã iluminava o mundo, nem Febe, no crescente, os chifres renovava, nem a terra pendia no ar circunfuso, suspensa no seu peso, nem, por longas margens, os seus braços havia espraiado Anfitrite.E como ali houvesse terra e mar e ar, instável era a terra, a onda inavegável e o ar sem luz; a nada aderia uma forma, e cada coisa obstava outras, pois num só corpo o frio combatia o quente, o seco o úmido, o mole o duro, e o peso o que não tinha peso. Deus ou douta natura esta luta sanou, pois do céu separou a terra, e desta as ondas, e do ar espesso um céu límpido discerniu. E depois que os tirou do disforme conjunto, cada qual num lugar ligou, em paz concorde. Do céu convexo, força ígnea e sem peso surgiu e se alocou no mais alto da abóbada; o ar, dela, se aproxima em leveza e lugar; mais densa, a terra atrai os elementos grandes e é premida por seu peso; a água circunfluída ocupou o restante e cercou o orbe sólido. Assim aquele deus, fosse qual fosse, a massa, primeiro, dividiu em lotes e ordenou, para que igual ficasse em toda a parte, dando à terra a aparência de um imenso orbe. Então o mar romper-se com os ventos rápidos mandou e circundar os litorais da terra. Reuniu pântanos, fontes e grandes lagoas, por entre sinuosas margens cingiu rios, que em parte se absorvem em vários locais, em parte vão ao mar, e acolhidos no campo de águas livres, em vez de margens, tocam praias. Mandou dilatar campos, vales abaixar, selvas cobrir de folha, erguer montes rochosos. E, como há no céu duas zonas à direita e outro tanto à esquerda e uma quinta mais tórrida, assim um deus zeloso o globo dividiu por igual, e outras tantas plagas tem a terra. Por causa do calor, não se habita a mediana, cobre duas a neve; entre ambas pôs as outras, que, misturando fogo ao frio, temperou. Cobre-as o ar, que tanto é mais leve que a terra e a água, quanto mais pesado do que o fogo. Lá as névoas, e lá as nuvens, pendurar mandou, também trovões que aterram mente humana e os ventos que, com raios, rabiscam relâmpagos. O criador do mundo, entanto, não lhes deu a posse do ar ao léu; a custo, agora, impede-os embora cada qual assopre em sua rota de o mundo varrer, pois grande é a rixa entre irmãos. Euro se foi à Aurora, aos reinos nabateus, à Pérsia e às montanhas sob luz matutina; Vésper e as praias, mornas pelo sol poente, de Zéfiro estão perto; a Cítia e o Setentrião Bóreas frio invadiu; a região contrária se umedece de chuva e assíduas nuvens de Austro. Em cima pôs o éter límpido e sem peso, que nenhuma impureza terrena contém. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DIDATICA DO TEATRO – O livro Didáctica do teatro – introdução (Almeida, 1979), do historiador português José Oliveira Barata, trata do quadro institucional e programas oficiais do jogo dramático português, as origens e o jogo como meio de conhecimento, jogo dramático e teatro, a leitura de um texto teatral, o teatro como linguagem, emissor e escritor/autor, emissor e o encenador, emissor e os acessórios não acessórios, o destinário e o público, a cidade e o Estado, texto e pretexto, os clássicos como modelo, os clássicos na escola, da teoria à prática, escrever e reescrever um texto, texto não dramático, representação de um texto não dramático, entre outos assuntos. Da obra destaco o trecho inicial: A utilização dos recursos e potencialidades do jogo dramático, postos ao serviço das modernas técnicas pedagógicas nos estabelecimentos pré-universitários desde há muito – mesmo muito antes de entre nós se começar a ouvir falar dessas perspectivas -, tem preocupado professores, pedagogos, sociólogos e, mesmo fora do âmbito estritamente escolar, homens de teatro, animadores culturais que vêem na escola um vastíssimo campo, particularmente receptivo, à iniciação teatral. [...] Vê-se que ele tem (ou pode ter) implicações diretas em todas as disciplinas – como forma especial de sensibilizar e captar a inteligência criadora e critica do jovem. Todavia, é particularmente relevante no domínio do Português e da Literatura Portuguesa. Será conveniente examinar o que é proposto nos programas, mas verificarmos se as boas intenções podem ser viabilizadas na prática. Não se esquecem as demais disciplinas e, sobretudo, a de Teatro, previsto como cadeira Vocacional no 9º ano de escolaridade obrigatória do Curso Secundário Unificado [...]. Veja mais aqui e aqui.


TOBY DAMMIT – No filme Histórias extraordinárias (1968) que reúne três cineastas para os contos do escritor, editor e crítico literário estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849), a parte dirigida pelo cineasta italiano Federico Felilini (1829-1993), é denominada Toby Dammit inspirado livremente no terceiro conto de Poe, contando a história do ator shakespeariano que afunda na carreira devido ao alcoolismo e para voltar ao sucesso faz um pacto com o diabo, perdendo a vida e a cabeça, num acidente com a Ferrari que ganhou como pagamento por seu último filme. Com este registro, fecha-se a divulgação da série Histórias Extraordinárias, filme que reúne além de Fellini, os cineastas Louis Malle e Roger Vadim, destacados em posts anteriores para registrar a criação cinematográfica baseada em contos de Poe. Este filme representa a reunião dos três maiores cineastas que, em conjunto, abordam a temática de forma criativa, inovadora e substancialmente representativa para o desenvolvimento da arte contemporânea. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Imagem: a arte do desenhista britânico Louis Wain (1860-1939),

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Quarta Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...