quarta-feira, janeiro 15, 2020

VIVIANE MOSÉ, CASTRO ALVES & EUGÉNIA, LIANA BLACKBURN, THAÍS GOMEZ, LENDA DA MANDIOCA & ARTE DE PERNAMBUCO


AS ESPUMAS FLUTUANTES DE EUGÊNIA - Ainda uma vez, depois de tantos versos olvidados, valho-me de mais esta carta. Endereçada está à mulher do meu amor, sim, era ela, uma estrela transformada em mulher, aquela que dizia aos quatro cantos que encontrara o amor em mim e comigo, se dizendo endoidecida por isso, e era a mais linda e sensual história de amor. Era ela a estrela d’alva que rasgou o céu com o sorriso mais encantador, rompeu a estátua do glamour e tornou-se vedado paraíso no palco do Santa Isabel, o país do meu sonho. Era ela a fascinante Baronesa do Almourol no drama de Abel, a beleza de uma Vênus grega, a ardente mística Safo, o talento fulgurante da Dama Negra e o voo do gênio: o leito delirante no templo da paixão. Era ela a atriz de má vida com as suas indecisões e recuos, a quem dediquei o Meu Segredo. Isso tudo era ela e muito mais, aquela que Infante fidalga da genealogia de séculos, gostava dos elogios, fugia do silêncio e da solidão com sua aura magnética de grande vitalidade, imaginação criadora exaltada e capacidade realizadora inestimável. Era ela tudo, os seus esboços poéticos e dotes artísticos, espirituosa, irrequieta, intensa, impetuosa na nossa lua-de-mel, quando pertencíamos um ao outro, eu era seu, ela era minha, a viva paixão, o desvario no encanto dos momentos desse arrebatado amor, o maior amor da minha vida, o nosso louco e atribulado amor com constantes desavenças, brigas, mágoas, precárias reconciliações. Era ela, o mesmo riso que amei, a mesma por quem morria, uma perda irreparável junto a tantas outras, porque ela chorou magoada e mentirosa, mergulhei na melancolia com uma punhalada de traidora. As mentiras de todos os dias, o embuste e as brigas por falsos ciúmes, ela se fazia, eu dei a minha vida e me abandonou quando eu mais precisava. A minha vida se foi com ela. O meu coração e toda minha poesia. Agora nas minhas noites de insônia, tamanho sofrimento, pesadelos, morro de frio com o peito em brasa, versos com o fogo da paixão. Apesar de tudo ela sempre foi a minha felicidade, mas não a dela; se assim era, prefiro o abismo, porque não tenho nem nunca tive nada, só o amor para dar. O sonho se quebrou, se partiu, rompeu. Perdida para sempre, não há mais razão para viver. Para quem foi extremo abrigo, agora fadário estranho, a desgraça de vê-la partir, sangro tanto, um chão deserto. Há muito perdoei porque nunca deixei de amar. Eu me consumi de amor, sem esperança declaro a morte no meu coração, a vida secou, não mais me possuo. Só eu sei o sofrimento das minhas muitas dores na vida abreviada: meus versos de sangue e fogo, silenciados e distantes, a chaga no peito, sepultado na dor dos meus olhos, o mais desgraçado dos dias, o amor me custou a vida. Eu me enganei, ela não era digna do meu amor. Se ela era a fatal serpente, sou acauã. Sim, mas ela me matou e a culpa é minha. Não consegui odiá-la, mesmo com toda humilhação, me basto a mim mesmo, é preciso morrer porque a minha vida está completa. O doido amor da carne, o drama apagou. Ainda uma vez, sim, a última, talvez, nesta derradeira ela brilha sobre o meu palco e saúdo, aplaudida, triunfante cerviz ovacionada com todos os troféus de todos os altares do universo. Apesar de tudo, estou feliz por ela. Por isso, esta carta está endereçada, sim, jamais será entregue, nem precisa. Não quero mais o amor, mas minha alma será sempre dela. Essa a eterna despedida na minha noite sombria. Vou para não mais voltar, até nunca mais. Assinado, o seu Cecéu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A modernidade nos deixou como herança um enorme desenvolvimento tecnológico, mas nos deixou também uma absurda crise social, ambiental, econômica, por isso desmorona em consequência de sua própria exaustão. [...] acreditar em um mundo possível e criá-lo é a tarefa, não de um homem, mais de uma cultura afirmativa, como penso ser a nossa. Nós, os sem lastro, muitas vezes sem condições mínimas de sobrevivência, estivemos, desde o princípio, condenados a criar. Acostumados ao sofrimento, nos tornamos fortes, resistentes, dotados de uma inteligência que insiste, sempre. Mas nossa criatividade, tipicamente brasileira, continua existindo apesar da escola, que nos ensina história da literatura antes mesmo de nos inserir no universo estético da escrita, do mesmo modo como iniciamos o estudo da gramática antes mesmo de termos consolidado a leitura. Síndrome dos subordinados que nasceram para decorar, repetir os gestos dos grandes, dos que pensam, dos filósofos, nós os pobres, os broncos. [...] Teus verdadeiros educadores, aqueles que te formarão, te revelarão o que são verdadeiramente o sentido original e a substância fundamental da tua essência, algo que resiste absolutamente a qualquer educação e a qualquer formação, qualquer coisa em todo caso de difícil acesso, como um feixe compacto e rígido: teus educadores não podem ser outra coisas e não teus libertadores. [...] educação é somente libertação, extirpação de todas as ervas daninhas, dos dejetos, dos vermes que querem atacar as tenras sementes das plantas, ela é efusão de luze calor, o murmúrio amistoso da chuva noturna; ela é limitação e adoração da natureza no que esta tem de maternal e misericordioso, ela consuma a natureza quando, conjurando os acessos impiedosos e cruéis, os faz levar a bom termo, quando lança o véu sobre suas intenções de madrasta e as manifestações de sua triste cegueira. [...]. Trechos extraídos da obra O homem que sabe: do homo sapiens à crise da razão (Civilização Brasileira, 2013), da poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista capixaba, Viviane Mosé. Veja mais aqui & aqui.

O AMOR DE CASTRO ALVES & EUGÊNIA CÂMARA – Quis te odiar não pude. – Quis na terra / Encontrar outro amor. – Foi-me impossível. / Então bendisse a Deus que no meu peito / pôs o germe cruel de um mal terrível. / Sinto que vou morrer! Posso, portanto / A verdade dizer-te santa e nua: / Não quero mais o teu amor! Porem minh’alma / Aqui, além, mais longe, é sempre tua. O poeta Castro Alves (1847-1871) integrou a terceira geração romântica, começou sua produção aos dezesseis anos de idade, influenciado por Victor Hugo, Lord Byron, Musset, Heine e Lamartine. Ele apaixonou-se perdidamente pela atriz portuguesa Eugénia Câmara (1837-1874), que também era poeta, autora e tradutora de peças teatrais. Os amantes passaram a morar em uma rua no Barro, em Jaboatão, e ele compõe a peça Gonzaga para ela. A convivência de ambos marcada por brigas e ciúmes, até se separarem do drama passional. Ele fica abatido em profunda solidão. Em um acidente, tem a perna amputada e sofre com a tuberculose: "Corte-o, corte-o, doutor… Ficarei com menos matéria que o resto da humanidade". Movido pelo amor, escreve os versos do poema Adeus: "Adeus! P'ra sempre adeus! A voz dos ventos / Chama por mim batendo contra as fragas, / Eu vou partir... em breve o oceano / Vai lançar entre nós milhões de vagas...". O último encontro deles se deu em 31 de outubro de 1869, no Teatro Fênix Dramática. O romance está retratado no filme Vendaval maravilhoso (1949), de Leitão de Barros, contando a labareda das paixões no fragor de um vendaval, com a cantora Amália Rodrigues interpretando Eugênia. Desse filme, surgiu o livro Como eu vi Castro Alves e Eugênia Câmara no vendaval maravilhoso de suas vidas (Lisboa, 1949), de Leitão de Barros. Também o documentário Castro Alves – retrato falado do poeta (1999), do cineasta Silvio Tendler. Sua obra está reunida nos volumes Poesia completas de Castro Alves (2 volumes – Spiker, s/d), tendo, também, a relação do casal retratada na peça teatral O amor do soldado (1944-Record, 1981), e no volume A.B.C de Castro Alves: louvação (Record, 1980), ambos de Jorge Amado. Veja mais aqui e aqui.

A LENDA DE MANI
Em tempos idos, apareceu grávida a filha de um chefe selvagem, que residia nas imediações do lugar em que está hoje a cidade de Santarém. O chefe quis punir no autor da desonra de sua filha, a ofensa que sofrera seu orgulho e, para saber quem ele era, empregou debalde rogos, ameaças e por fim castigos severos. Tanto diante dos rogos como diante dos castigos a moça permaneceu inflexível, dizendo que nunca tinha tido relação com homem algum. O chefe tinha deliberado matá-la, quando lhe apareceu em sonho um homem branco, que lhe disse que não matasse a moça, por que ela efetivamente era inocente, e não tinha tido relação com homem. Passados os nove meses ela deu à luz uma menina lindíssima, e branca, causando este último fato a surpresa, não só da tribo, como das nações vizinhas, que vieram visitar a criança, para ver aquela nova e desconhecida raça. A criança, que teve o nome de Mani, e que andava e falava precocemente, morreu ao cabo de um ano, sem ter adoecido, e sem dar mostras de dor. Foi ela enterrada dentro da própria casa, descobrindo-se-a, e regando-se diariamente a sepultura, segundo o costume do povo. Ao cabo de algum tempo  brotou da cova uma planta que, por ser inteiramente desconhecida, deixaram de arrancar. Cresceu, floresceu, e deu frutos. Os pássaros que comeram os frutos se embriagaram, e este fenômeno, desconhecido dos índios, aumentou-lhes a superstição pela planta. A terra afinal fendeu-se; cavaram-na e julgaram reconhecer no fruto que encontraram o corpo de Mani. Comeram-no, e assim aprenderam a usar da mandioca.
MANI, A LENDA DA MANDIOCA - Extraída da obra O selvagem (Companhia Editora Nacional, 1935), do escritor, etnólogo e folclorista José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898). Veja mais aqui.

A ARTE LIANA BLACKBURN
Eu achei que a vida mudava para repetir afirmações todos os dias, especialmente toda vez que sou confrontado com o “perfeccionista” dentro de mim, atrapalhando. Esta é a minha afirmação favorita de todos os tempos: "Estou completamente comprometida, mas desapegada". As pessoas precisam ter um espaço seguro para falar e serem ouvidas, precisam ser apoiadas e sua vulnerabilidade precisa ser bem-vinda como força! A aula sempre foi e ainda é sobre dançar com intenção, não para atenção!
LIANA BLACKBURN – A arte da coreógrafa, atriz, bailarina, professora e dançarina estadunidense Liana Blackburn, que atuou em diversos filmes, entre eles You (2009), Footloose: ritmo contagiante (2011) & Viva Laughlin (2007). Veja mais aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
Imagem: arte de Thaís Gomez.
A poesia de Manuel Bandeira (1886-1968) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A literatura do escritor Raimundo Carrero aqui, aqui & aqui.
A música de Karina Buhr aqui & aqui.
As transfigurações do artista plástico Francisco de Almeida aqui.
Políticas de alimentação e nutrição de Bertoldo Kruse aqui.
O Pastoril do Rabeca aqui.
Direitos da População Indígena & Diversidade Religiosa – filme & curtas aqui.
&
O município de Agrestina aqui, aqui & aqui.
 

MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...