Mostrando postagens com marcador Castro Alves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Castro Alves. Mostrar todas as postagens

terça-feira, fevereiro 02, 2021

NIETZSCHE, JUNG, STANISŁAW SZUKALSKI, TIAGO AMORIM & JOSÉ DURÁN Y DURÁN

 

 

TRÍPTICO DQC: OUROBOROS, ETERNO RETORNO – Ao som do concerto para harpa e sinfonietta La mirada del Ouroboros (2017), do compositor colombiano Felipe Tovar-Henao, conductor: Juan David Osorio. - Era noite na janela e eis diante de mim a gigantesca serpente Jörmungandr de Midgårdsormen, acompanhado da sua também gigante esposa Angurboda. Não, não estava sonhando, estava atônito e cônscio, afastei-me. Depositaram na janela um volume e uma gravura. Fitaram firme nos meus olhos, apontaram para o volume e acenaram por despedida, voando na noite. Ao me recompor identifiquei a gravura do poeta alemão Gabriel Rollenhagen (1583-1619), na qual havia a inscrição: Finis Ab Origine Pendet -, ou seja, O Fim depende do Início. Abri o volume no qual estava o título de Edda - Gylfaginning e Skáldskaparmál (Createspace Independent, 2014), do poeta islandês Snorri Sturluson (1178-1241), com os Codex Spsaliensis (U), Codex Wormianus (W), Codez Tajectinus (T), Codex Regius (R) e na última parte o Háttatal com as métricas poéticas. Fiquei intrigado, Ouroboros. Símbolo este que já vira em publicações com referências aos egípcios, druidas e indianos, gregos e chineses. Entre os astecas, o deus Quetzacoatl é representado em algumas figuras nessa forma. E isto porque tanto os maias quanto os astecas possuíam uma visão cíclica do tempo. O seu significado, entre os egípcios, correspondia à ressurreição de Rá sob a forma de Sol. Para os alquímicos era o alimento do fogo com fogo até sua extinção para se obter a essência de todas as coisas, divindindo o um em dois para conter em si mesmo o três e o quatro: é um fogo que consome tudo, que abre e fecha todas as coisas, conforme expresso tanto na obra Uraltes Chymisches Werk (1760 - Kessinger, 2009) de Rabbi Abrahami Eleazaris, como na Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry: First Three Degrees (Martino Fine, 2011), do escritor estadunidense Albert Pike (1809-1891), simbolizando a criação do universo. Já na fantasia The Worm Ouroboros (Dover, 2006), do escritor inglês Eric Rücker Eddison (1882-1945), é um símbolo que está na história que termina no mesmo lugar em que começa e a repetição permeia a obra, evidenciando que os personagens não percebem sentido às suas vidas sem o grande conflito, desejando que assim continue e seu desejo é realizado. Este símbolo levou-me à expressão Hen to pan, que em grego quer dizer o Todo ou o Um, o Tudo, que segundo a obra Dao De Jing (Hedra, 2014), do filósofo chinês Lao Zi ou Lao-Tze, consta a respeito da expressão: Milhares de coisas nascem e crescem, e vejo como voltam às suas origens, sendo este regresso, portanto, o cumprimento do destino. Ideia esta que se aproxima da teoria Hen Kai Pan de Giordano Bruno e Espinosa, no idealismo Fichte e na filosofia de Schelling. A esse respeito recolhi de Carl Gustav Jung tratar-se da mandala básica da alquimia, um trabalho individual do ser humano por si próprio, ou seja: assim como a serpente se alimenta dela mesma, o homem deve trabalhar ele mesmo para crescer. Evidente que me levou à ideia de eterno retorno encontrada em Empédocles, ao Panta Rhei de Heráclito do eterno devir, ao livro 6 da Eneida de Virgilio, ao Kalachakra do budismo tântrico representando a roda do tempo, afora as ideias de roda da vida e da existência, perpétuo retorno, espiral da evolução, dança sagrada de morte e reconstrução, e o processo de criação contínua, inevitavelmente levando-me ao pensamento de Nietzsche: Meu consolo é que tudo o que foi é eterno: o mar os traz de volta. O que para Camus seria o Mito de Sísifo o absurdo da vida. Não, não era sonho, era eu enredado na vida, o meu ouroboros.

 


DOIS: BRASIL HIPERBÓLICO – Recitando Navio Negreiro, VI, de Castro Alves: Existe um povo que a bandeira empresta... Ao som dos acordes de Capitão, de Joyce & Fernando Brant, com Chico Buarque: Brasil, quem é que seria o dono da Amazônia... - Um convite, a empreitada. Então, cumpro em parte: não para apresentar José Durán y Durán - onde já se viu um chué apresentador cheio dos bafos feito eu, para falar sobre um apresentado de prestígio? Generosidade do autor, só sendo. Não abri da parada, sei meu lugar, meu depoimento sobre, nada mais. Vamos lá: foi lá pela segunda metade dos anos de 1970 – sou péssimo com datas, meu calendário é a maior confusão, escusas -, pelas mãos do bispo Acácio, no Colégio Diocesano, que conheci Durán pessoalmente. Era, a partir de então aluno dele e, depois, vizinho no Santa Rosa. Oriundo da Espanha, em uma visita que lhe fiz de boas-vindas, me presenteou logo o livro La rebelión de las masas (Espasa Calpe, 1964), do filósofo José Ortega y Gaset, e a Antologia poética (Salvat, 1969), do poeta espanhol Antonio Machado. Um presentaço duplo que tanto li, reli, traduzi e publiquei no meu blog Tataritaritatá, trechos e poemas de cada um deles. A partir disso, conversávamos quase todos os finais de semana, o que levou ele a arregimentar um bocado de gente para reuniões aos sábados, nascendo assim as Noites da Cultura Palmarense. Foram nestes encontros que nasceram ideias para uma infinidade de coisas, pois lá estavam Teles Junior & Grucalp, Juarez Correya, Javanci Bispo, Eliseu Pereira, João Costa, Paulo Profeta, Manuel Bentevi, Felipe Maldaner, Givanilton Mendes, como também a meninada de arteiros atiçados feito eu, Mauricinho Melo Junior, Elita Afonso, Ozi dos Palmares, Zé Ripe, Ângelo Meyer, Valter Portela, Leonilda Silva, Sandra Lustosa, Roberto Quental, Betania Pinheiro, Pica-pau, Jucimar Mazinho, o pianista Sérgio David, Luiz Barreto, Célio Carneirinho, Gulú, João Lins – tomara não tenha esquecido ninguém, o ruim é que a memória falha e a gente passa papel feio -, e muitos outros adolescentes e nem tanto, que pegavam aprumado em tons, versos, cores & traços, todos comandados pela maestria dele, com a sua incrível capacidade de administrar ególatras inflados, blocos do eu sozinho & outras doidices do solipsismo mais agudo. Destas noites surgiram três edições da publicação Nova Caiana e um caderno com a entrevista do poeta Raimundo Alves de Souza, o pai biológico de Vinicius de Morais. Afora isso, murais itinerantes com exposição de poemas e desenhos pelos colégios da cidade, jograis do Grêmio Cultural Castro Alves, melodramas e cantaraus na quadra do Colégio Diocesano e no auditório do Nossa Senhora de Lourdes, filmes e encenações nas tardes domingueiras do Clube Ferroviário, e por aí vai mais tocadas, meladas e muito converseiro. Parece pouco, mas não é. O melhor de tudo são as consequências: Revista A Região, Fundação de Hermilo, Edições Bagaço, Associação Teatral Palmarense (ATEP) que reunia 22 grupos amadores inscritos na regional Feteape; Bloco dos Artistas, Associação dos Violeiros de Palmares (Avitropal), Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Mata Sul (CODESUL), programa e zine Horagá, encarte Vozes do Una, Circo Itinerante, IV Feira de Música, encenação de peças teatrais (de Hermilo, Ângelo Meyer, Luiz Berto e o Contraste Natalino, com atores dos diversos grupos locais), isso tudo sem contar com um monte de tantas outras apresentações musicais, teatrais, pictóricas e poéticas que aconteciam aqui, ali, acolá e alhures. Pois bem. Os anos se passaram, Durán tomou rumo numa trajetória própria e seu voo solo deu no artista plástico que engrossou as fileiras do IbaValeUna, com participação nas edições do Pintando na Praça. Daí a membro da Academia Palmarense de Letras (APLE) e a exposição Encantos em Palmares, com lançamento do livro Encanto aos teus encantos (Inovação, 2018). E veio, em seguida, o livro Liberdade no Quilombo (Inovação, 2019) e a organização do volume Igualdade e desigualdade: reflexões em quarentena (Criart, 2020). Agora é a vez deste Brasil hiperbólico, com poemas que chegam logo invocando Rilke e Jayme Griz, para dar de chapa uma ideia ao leitor do que será mesmo mostrado em suas seis partes. Prest’enção! Na primeira, o Brasil honestidade, traz aquele exemplo humílimo de gente do povo, tipo Barruada: Tá bom, gente, basta! Na segunda, o Brasil esperança, aquele em que a cada segundo uma palavra do idioma morre asfixiada, fonemas e morfemas pranteiam, sintagmas sangram feridos, significados e significantes fenecem, como se a língua pátria não fosse nada além de paroxismos de blábláblás para uma gente muda e embotada num país autofágico de previdência imprevidente e outras anomalias impossíveis, e em que cada um sonha o país em “um sonho despido de sonhos”, um sonho só pesadelos. Na seguinte, o Brasil que se mata, a partir do mote de Frei Beto no meio das balas perdidas, das toneladas de tragédias, da guerra entre patrícios que não se identificam nem se reconhecem nos holocaustos das prisões amontoadas e fora delas, “um país derrotado pelo fogo” da ignorância e do ódio: “Quem mata se mata, homicida é suicida”. Depois, o Brasil de contrastes, emperrado pela burocracia com seus cães de guarda incompetentes, desqualificados e subservientes, manipulado por fantasmas que se fazem vigilantes do impostômetro e só a vergonha deslavada explode com base no óleo de peroba, no luxo do lixo, na boiada que passa goela adentro arrebentando legislações e esfíncteres. Logo após, o Brasil dos trastes e que é manipulado, partido, esticado, lavado na lama, enxaguado no charco deletério e metido numa camisa de força, às carteiradas para a imensa massa de manobra levada no fato de que “esperanças viram pragas”. Por fim, o Brasil desordem e retrocesso, contando as gramas que restaram dos farelos das riquezas e vícios, a corda de caranguejo puxando para todos os lados as comorbidades que surgem da ilegalidade e ajeitados, pelos que mandam com as milícias físicas e digitais a fabricarem barragens que jorram não se sabe nem como e onde está o dinheiro, até que se possa no meio desse fumaceiro todo, encontrar um único gesto de solidariedade que aparece como efígie inscrita numa nuvem: a Carta ao Povo de Deus. Enfim, disso tudo só posso dizer uma coisa: quem escreve poemas como Ecocídio, Verde Ouro, Pó-lítico, República Hackeada, Democracia Participativa, O capitão e os generais, Embarque Furtado, Indignação contra a Vale e Fogo no Hospital, entre outros tantos deste livro, distingue para a gente cenas ignoradas, como a de que aqui e agora tanto faz se é vida humana ou pedra, dá no mesmo, ao que parece; e que ficou tudo muito desumano, tocado, tangido, em chamas pelos raivosos sectários & seus temores escatológicos do ódio, enquanto a gente estertora porque no Brasil é sempre abril com sua nênia no coro das Querelas de Tapajós&Aldir: Do Brasil SOS ao Brasil! Ah, tem muito mais. Então, boa leitura.

 


TRÊS: DE AMOR E ARTE, A VIDA - Ela não veio e o Corvo Poe: Nunca mais! Tive que me refazer e exorcizar todos os demônios: estava contaminado com a vida dela em mim. E me vi na pele do escultor e pintor polonês Stanisław Szukalski (1893–1987), pintando e modelando seu corpo inesquecível, combinando elementos da art nouveau no meu classicismo retorcido: cubismo, futurismo e expressionismo. Era ela a razão da minha vida, ainda é. A vida passou e estou só, só suas imagens nas pinturas e esculturas. Tudo passou pouco importando se na adolescência inventei meu próprio alfabeto na escola – o sistema educacional atrasado e conservador sempre fora um dos meus grandes problemas na vida – e, mesmo assim, pelo prodígio, fui admitido na Academia de Cracóvia. Vivi na extrema pobreza, passei dias sem me alimentar, perseguindo meu talento: Eu coloco Rodin em um bolso e Michelangelo no outro e ando em direção ao sol. Não me arrependo de ter jogado Montegals escada abaixo. Graças à vida Helena me salvou e pude retornar às mitologias eslavas, à tribo Piast e o paganismo, a autêntica vida do meu povo ressuscitado. E resolvi dar vida à Twórcownia, contra a imitação servil ocidental, e substituir Wawel por Duchtynia. Com a guerra, deixei tudo para trás e a minha obra destruída pela devastação nazista, levando-me a viver na pobreza e obscuridade, guardando as lembranças de Warta: Eles me consideram um herege, quando na verdade sou profundamente religioso, embora esta seja uma religião minha. Minha religião é o polonês. A minha terra sempre existiu em mim e existirá. Apenas ela não mais presente para meu eterno sofrimento. Por causa disso, a minha vida virou um filme, sou tão irreal quanto a presença dela na memória, tão real no meu coração. Até mais ver.

 

A ARTE DE TIAGO AMORIM



A arte do escultor, ceramista, gravador, pintor, desenhista e pesquisador Tiago Amorim - Sebastião Wilson Ferreira de Amorim, que mistura elementos da arte popular com figuras retiradas da natureza. Trabalhou em vários locais no estado de Pernambuco, incluindo Tracunhaém. Atualmente mora e tabalha em Olinda, PE. Veja mais aqui e aqui.


 


quarta-feira, janeiro 15, 2020

VIVIANE MOSÉ, CASTRO ALVES & EUGÉNIA, LIANA BLACKBURN, THAÍS GOMEZ, LENDA DA MANDIOCA & ARTE DE PERNAMBUCO


AS ESPUMAS FLUTUANTES DE EUGÊNIA - Ainda uma vez, depois de tantos versos olvidados, valho-me de mais esta carta. Endereçada está à mulher do meu amor, sim, era ela, uma estrela transformada em mulher, aquela que dizia aos quatro cantos que encontrara o amor em mim e comigo, se dizendo endoidecida por isso, e era a mais linda e sensual história de amor. Era ela a estrela d’alva que rasgou o céu com o sorriso mais encantador, rompeu a estátua do glamour e tornou-se vedado paraíso no palco do Santa Isabel, o país do meu sonho. Era ela a fascinante Baronesa do Almourol no drama de Abel, a beleza de uma Vênus grega, a ardente mística Safo, o talento fulgurante da Dama Negra e o voo do gênio: o leito delirante no templo da paixão. Era ela a atriz de má vida com as suas indecisões e recuos, a quem dediquei o Meu Segredo. Isso tudo era ela e muito mais, aquela que Infante fidalga da genealogia de séculos, gostava dos elogios, fugia do silêncio e da solidão com sua aura magnética de grande vitalidade, imaginação criadora exaltada e capacidade realizadora inestimável. Era ela tudo, os seus esboços poéticos e dotes artísticos, espirituosa, irrequieta, intensa, impetuosa na nossa lua-de-mel, quando pertencíamos um ao outro, eu era seu, ela era minha, a viva paixão, o desvario no encanto dos momentos desse arrebatado amor, o maior amor da minha vida, o nosso louco e atribulado amor com constantes desavenças, brigas, mágoas, precárias reconciliações. Era ela, o mesmo riso que amei, a mesma por quem morria, uma perda irreparável junto a tantas outras, porque ela chorou magoada e mentirosa, mergulhei na melancolia com uma punhalada de traidora. As mentiras de todos os dias, o embuste e as brigas por falsos ciúmes, ela se fazia, eu dei a minha vida e me abandonou quando eu mais precisava. A minha vida se foi com ela. O meu coração e toda minha poesia. Agora nas minhas noites de insônia, tamanho sofrimento, pesadelos, morro de frio com o peito em brasa, versos com o fogo da paixão. Apesar de tudo ela sempre foi a minha felicidade, mas não a dela; se assim era, prefiro o abismo, porque não tenho nem nunca tive nada, só o amor para dar. O sonho se quebrou, se partiu, rompeu. Perdida para sempre, não há mais razão para viver. Para quem foi extremo abrigo, agora fadário estranho, a desgraça de vê-la partir, sangro tanto, um chão deserto. Há muito perdoei porque nunca deixei de amar. Eu me consumi de amor, sem esperança declaro a morte no meu coração, a vida secou, não mais me possuo. Só eu sei o sofrimento das minhas muitas dores na vida abreviada: meus versos de sangue e fogo, silenciados e distantes, a chaga no peito, sepultado na dor dos meus olhos, o mais desgraçado dos dias, o amor me custou a vida. Eu me enganei, ela não era digna do meu amor. Se ela era a fatal serpente, sou acauã. Sim, mas ela me matou e a culpa é minha. Não consegui odiá-la, mesmo com toda humilhação, me basto a mim mesmo, é preciso morrer porque a minha vida está completa. O doido amor da carne, o drama apagou. Ainda uma vez, sim, a última, talvez, nesta derradeira ela brilha sobre o meu palco e saúdo, aplaudida, triunfante cerviz ovacionada com todos os troféus de todos os altares do universo. Apesar de tudo, estou feliz por ela. Por isso, esta carta está endereçada, sim, jamais será entregue, nem precisa. Não quero mais o amor, mas minha alma será sempre dela. Essa a eterna despedida na minha noite sombria. Vou para não mais voltar, até nunca mais. Assinado, o seu Cecéu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A modernidade nos deixou como herança um enorme desenvolvimento tecnológico, mas nos deixou também uma absurda crise social, ambiental, econômica, por isso desmorona em consequência de sua própria exaustão. [...] acreditar em um mundo possível e criá-lo é a tarefa, não de um homem, mais de uma cultura afirmativa, como penso ser a nossa. Nós, os sem lastro, muitas vezes sem condições mínimas de sobrevivência, estivemos, desde o princípio, condenados a criar. Acostumados ao sofrimento, nos tornamos fortes, resistentes, dotados de uma inteligência que insiste, sempre. Mas nossa criatividade, tipicamente brasileira, continua existindo apesar da escola, que nos ensina história da literatura antes mesmo de nos inserir no universo estético da escrita, do mesmo modo como iniciamos o estudo da gramática antes mesmo de termos consolidado a leitura. Síndrome dos subordinados que nasceram para decorar, repetir os gestos dos grandes, dos que pensam, dos filósofos, nós os pobres, os broncos. [...] Teus verdadeiros educadores, aqueles que te formarão, te revelarão o que são verdadeiramente o sentido original e a substância fundamental da tua essência, algo que resiste absolutamente a qualquer educação e a qualquer formação, qualquer coisa em todo caso de difícil acesso, como um feixe compacto e rígido: teus educadores não podem ser outra coisas e não teus libertadores. [...] educação é somente libertação, extirpação de todas as ervas daninhas, dos dejetos, dos vermes que querem atacar as tenras sementes das plantas, ela é efusão de luze calor, o murmúrio amistoso da chuva noturna; ela é limitação e adoração da natureza no que esta tem de maternal e misericordioso, ela consuma a natureza quando, conjurando os acessos impiedosos e cruéis, os faz levar a bom termo, quando lança o véu sobre suas intenções de madrasta e as manifestações de sua triste cegueira. [...]. Trechos extraídos da obra O homem que sabe: do homo sapiens à crise da razão (Civilização Brasileira, 2013), da poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista capixaba, Viviane Mosé. Veja mais aqui & aqui.

O AMOR DE CASTRO ALVES & EUGÊNIA CÂMARA – Quis te odiar não pude. – Quis na terra / Encontrar outro amor. – Foi-me impossível. / Então bendisse a Deus que no meu peito / pôs o germe cruel de um mal terrível. / Sinto que vou morrer! Posso, portanto / A verdade dizer-te santa e nua: / Não quero mais o teu amor! Porem minh’alma / Aqui, além, mais longe, é sempre tua. O poeta Castro Alves (1847-1871) integrou a terceira geração romântica, começou sua produção aos dezesseis anos de idade, influenciado por Victor Hugo, Lord Byron, Musset, Heine e Lamartine. Ele apaixonou-se perdidamente pela atriz portuguesa Eugénia Câmara (1837-1874), que também era poeta, autora e tradutora de peças teatrais. Os amantes passaram a morar em uma rua no Barro, em Jaboatão, e ele compõe a peça Gonzaga para ela. A convivência de ambos marcada por brigas e ciúmes, até se separarem do drama passional. Ele fica abatido em profunda solidão. Em um acidente, tem a perna amputada e sofre com a tuberculose: "Corte-o, corte-o, doutor… Ficarei com menos matéria que o resto da humanidade". Movido pelo amor, escreve os versos do poema Adeus: "Adeus! P'ra sempre adeus! A voz dos ventos / Chama por mim batendo contra as fragas, / Eu vou partir... em breve o oceano / Vai lançar entre nós milhões de vagas...". O último encontro deles se deu em 31 de outubro de 1869, no Teatro Fênix Dramática. O romance está retratado no filme Vendaval maravilhoso (1949), de Leitão de Barros, contando a labareda das paixões no fragor de um vendaval, com a cantora Amália Rodrigues interpretando Eugênia. Desse filme, surgiu o livro Como eu vi Castro Alves e Eugênia Câmara no vendaval maravilhoso de suas vidas (Lisboa, 1949), de Leitão de Barros. Também o documentário Castro Alves – retrato falado do poeta (1999), do cineasta Silvio Tendler. Sua obra está reunida nos volumes Poesia completas de Castro Alves (2 volumes – Spiker, s/d), tendo, também, a relação do casal retratada na peça teatral O amor do soldado (1944-Record, 1981), e no volume A.B.C de Castro Alves: louvação (Record, 1980), ambos de Jorge Amado. Veja mais aqui e aqui.

A LENDA DE MANI
Em tempos idos, apareceu grávida a filha de um chefe selvagem, que residia nas imediações do lugar em que está hoje a cidade de Santarém. O chefe quis punir no autor da desonra de sua filha, a ofensa que sofrera seu orgulho e, para saber quem ele era, empregou debalde rogos, ameaças e por fim castigos severos. Tanto diante dos rogos como diante dos castigos a moça permaneceu inflexível, dizendo que nunca tinha tido relação com homem algum. O chefe tinha deliberado matá-la, quando lhe apareceu em sonho um homem branco, que lhe disse que não matasse a moça, por que ela efetivamente era inocente, e não tinha tido relação com homem. Passados os nove meses ela deu à luz uma menina lindíssima, e branca, causando este último fato a surpresa, não só da tribo, como das nações vizinhas, que vieram visitar a criança, para ver aquela nova e desconhecida raça. A criança, que teve o nome de Mani, e que andava e falava precocemente, morreu ao cabo de um ano, sem ter adoecido, e sem dar mostras de dor. Foi ela enterrada dentro da própria casa, descobrindo-se-a, e regando-se diariamente a sepultura, segundo o costume do povo. Ao cabo de algum tempo  brotou da cova uma planta que, por ser inteiramente desconhecida, deixaram de arrancar. Cresceu, floresceu, e deu frutos. Os pássaros que comeram os frutos se embriagaram, e este fenômeno, desconhecido dos índios, aumentou-lhes a superstição pela planta. A terra afinal fendeu-se; cavaram-na e julgaram reconhecer no fruto que encontraram o corpo de Mani. Comeram-no, e assim aprenderam a usar da mandioca.
MANI, A LENDA DA MANDIOCA - Extraída da obra O selvagem (Companhia Editora Nacional, 1935), do escritor, etnólogo e folclorista José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu achei que a vida mudava para repetir afirmações todos os dias, especialmente toda vez que sou confrontado com o “perfeccionista” dentro de mim, atrapalhando. Esta é a minha afirmação favorita de todos os tempos: "Estou completamente comprometida, mas desapegada". As pessoas precisam ter um espaço seguro para falar e serem ouvidas, precisam ser apoiadas e sua vulnerabilidade precisa ser bem-vinda como força! A aula sempre foi e ainda é sobre dançar com intenção, não para atenção!
LIANA BLACKBURN – A arte da coreógrafa, atriz, bailarina, professora e dançarina estadunidense Liana Blackburn, que atuou em diversos filmes, entre eles You (2009), Footloose: ritmo contagiante (2011) & Viva Laughlin (2007). Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
Imagem: arte de Thaís Gomez.
A poesia de Manuel Bandeira (1886-1968) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A literatura do escritor Raimundo Carrero aqui, aqui & aqui.
A música de Karina Buhr aqui & aqui.
As transfigurações do artista plástico Francisco de Almeida aqui.
Políticas de alimentação e nutrição de Bertoldo Kruse aqui.
O Pastoril do Rabeca aqui.
Direitos da População Indígena & Diversidade Religiosa – filme & curtas aqui.
&
O município de Agrestina aqui, aqui & aqui.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...