sexta-feira, dezembro 07, 2007

TOLINHO & BESTINHA



I




Os dois pariceiros, Tolinho e Bestinha, se espremeram na junta trabalhista para receberem os direitos indenizatórios de oito anos de litígio com uma usina-de-cana-de-açúcar dos cafundós de Judas. Amealharam, com isso, até um montante bom, de chegar a tomarem uma e todas as outras, dois dias encarreados. Pinguçada geral. Queriam tomar de aguardente o que o dinheiro desse. Não era muito, não, mas dava para arrastar o solado do pé por aí. Ainda compraram vestimentas mais decentes de curau numa tolda de feira do mercado; encheram a pança de ficar arrotando aos peidos e ao léu; um retratinho dos santos Cosme e Damião; galocha e uma volta de ouropel, de se embebedarem de novo e aprontarem das suas por horas seguidas, sobrando uns trocados no bolso. Até que mais tarde, mais lavados que jipe ladeira abaixo, as idéias clarearam.
- Tô cum vontade de ir em Sumpaulo! - balbuciou Tolinho.
- Minino, meu sonho é avoar de avião! - avalizou Bestinha.
- R umbora comprar passage e avoar, bora?
- Bora!
Se atreparam no cata-côrno e foram pro aeroporto.
Chegaram no guichê da companhia e se arrepiaram logo com o valor da passagem.
- Eita negócio caro do cão, quage vale mais que vinte anos de trabaio com sol graúdo no toitiço da gente, que incaristia, doido!
- Do jeito que a gente vai, num torna de jeito nenhum!
Fecharam, pagaram em moeda corrente vigente nacional e quase ficavam por não portarem bagagem alguma.
- Ôxe, a gente vai pissiar, meu, vorta já!
Trupicaram na escada e quase relam a cara na pista de pouso.
Enganchados no comandante, se aboletaram na última fileira de cadeira da aeronave e céu e mar.
- Vumo ficar aqui no fundo, que quarqué coisa, nóis inscapole fora!
Na decolagem, Bestinha teve uma caganeira revoltosa de incensar tudo.
- Inté pareci cá cumida num se deu cum meu bucho!
- E se esse bicho se arvorá de cair, tamo frito!
- Bota essa boca prá lá, lazarento!
Tolinho ficou rezando pros santos de sua predileção.
Ôxe, num deu tempo de nada. O avoante despencou pior que tomahawky, dando cabo da vida deles e de outros tantos passageiros numa explosão de sobrar nem cinzas. Foram direto pro céu.
- Cagada da pôrra, meu, este bicho cair logo no dia ca gente se asujeita a avoar nele!
- É que tu tem pé frio, desgraçado. Boca de praga!
Não se entenderam e só se emendaram depois de uns bregues desferidos por São Pedro.
- Documentos? - sentenciou São Pedro.
- Quis documento, santo? - ironizou Tolinho.
- Todos!
- Cuma assim?
- RG, CIC, título de eleitor, PIS/PASEP, carteira profissional, reservista militar, comprovante de água, luz, telefone, FGTS, fator Rh, exames médicos, seguro-desemprego...
- Peraí, Sumpêdo, aqui é o céu ou o cadrastumenti do cartóro inleitorá? -, perguntou Bestinha já decepcionado com a recepção.
- Num seria, entonse caixa de banco, não? – interrogou Tolinho, meio que sem jeito.
- Ou crediáro de loja ou coisa assim, é?
- Bora, bora, passem logo os documentos!
- Ô, santo Sumpêdo, o sinhô já viu dizê por um acauso que boia-fria e faz-tudo qui só aveve de bico andá endecumentado assim, é?
Impasse brabo.
Tanto fizeram que sacaram dos bolsos uma CTPS já desmanchando, o título de eleitor rasgado, o RG desbotado, restinho da grana, hem hem, tudo caindo em bandas, deteriorados de dar trabalho pro porteiro juntar aquelas tranqueiras todas em estado mais que deplorável num documento só.
- Preenche aí o formulário de solicitação! - mandou o santo.
- Cuma é, mermo? Espia só que astuça desse home.
- Vamos, se quiserem entrar no céu tem que preencher!
Apertaram os dedos, agarraram o lápis e saíram desenhando por horas os garranchos no papel.
São Pedro quase teve um troço quando foi conferir a seboseira.
Aí o santo achou por bem relevar nas formalidades e partiu pra conferência dos pecados deles.
Deu-se o maior arrepio na cabeça do porteiro ao constatar que todos os mandamentos e todos os pecados capitais eles já haviam infrigido.
A serasa do céu pocou na hora com as léguas de restrições.
- ...Inadimplentes no mercadinho, na farmácia, armarinho de miudezas, ora, com uma folha corrida dessas, vão pro inferno!
- Pronto, Bestinha, agora vamo tostá nas presepas do diabo!
Defenestrados dali, estavam eles assando nas profundas do inferno, sem saber o que podiam fazer.
- Quem é? - perguntou o endiabrado.
- Sumo nóisis, eu e Bestinha!
- Valei-me santo demoníaco, bota esses dois prá lá que querem me destronar!
Foi um corre-corre da pêga de estornarem os dois a ficar entre o céu, o inferno e o purgatório, sem poder adentrar em nenhum dos três.
E agora? O diabo com medo que eles golpeassem o estado, fez um acerto de contas:
- Vocês voltem pra terra, que lá ainda tem muita confusão por se fazer!!
- Craro, a gente num pode é ficar aqui no osso do mucumbú, sem saber pronde s adiantar! - reclamou indignado Bestinha.
- Ôba, vumo azucrinar os vivente mole de novo? - festejou Tolinho.
- Êpa, maisi prá disgrama de vida da gente, num vorto forma nenhuma! - embirrou Bestinha.
- Isso mermo, só so santo ruim aí, dé umas cumpensação!
- O quê, por exemplo!
- Vida boa, mulé boa, dinheirama e foiga pra gente se infincar de nunca mais querê vim pru cá. -, passou a régua, Tolinho.
- Isso mermo! - afiançou Bestinha.
- Tá certo, mas vocês quando chegarem na terra tem que dizer que eu sou o bom e que o céu é ruim.
- Homi, seu minino, fechado! Meiór qui issos, só dois diussos, oxente bichim!
- Jurado com as cruizis na boca por palavra de home!
- S imbora, curau!
Pois é, estão ralando até hoje na catação do lixo, no maior revestrés de vida, reclamando da charlatanice do diabo e da chatice de São Pedro.
- Quar qui é a diferencia do paraíso pro inferno?
- Nóisis inda vumo ser rico, se vamo! Tirá o pé da merda, mesmo!
- Nóisis tumém sumo fio de Deus, num sômo?
- Sômo.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.



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