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quarta-feira, dezembro 12, 2018

ROSA LUXEMBURG, NÁ OZZETTI, ANNA GOGOLEVA & ESTAÇÃO DO BEM CATENDE.


AS PAIXÕES DE ROSA – Imagem: Rosa de Luxemburg, da artista visual italiana Anna Gogoleva. - Três décimos e tudo poderia ser diferente para Rozalia, a menina que crescia jogada sem concessões na embriaguez da vida. Três segundos e nada nela bastaria para não reprimir a alegria nem o desejo de ser feliz. Três horas e a migrante Róza de Zamosé com dores nos ossos do quadril, vivia a coxear como se dançasse rebelde para que lhe fosse negada pela inveja e discriminação a medalha de ouro do ginasial, escapando da prisão pela greve geral e tomasse rumo à Suíça sob a coação de novo encarceramento e ali conhecer Leo em Zurique e se ocupar do desenvolvimento industrial da Polônia. Três dias e o que falta e enerva da desordem, o sonho da casa aprazível independente da circulação da Bandeira Vermelha. Três semanas e o combate à rotina, o grande erro do levante espartaquista de janeiro, pacifista e escarnecida sob as ameaças truculentas e intoleráveis da obscuridade. Três anos e um grande amor nas cartas entre ela e Leo, as intrigas, os ciúmes, os tremores, não haverá de levar em conta o que circunda, mesmo que irrite, enlouqueça ou desnorteie, somente que se mantivesse o amor numa frequente correspondência, embora tivesse que se casar com Gustav em Berlim, por conveniência da cidadania alemã. Ao divorciar-se, às grades por rebeldia recorrente até a iminência de pena de morte. Apátrida, proscrita, condenada, sentia no peito o choro do búfalo ensanguentado pela violência do soldado, a dor terrível na cara preta de uma criança que sofria calada a fraqueza e a saudade. Três décadas e nada terá importância para indicar os novos caminhos sem direito à vida privada, com o condinome de sangrenta por sua agitação republicana apaixonada, incitando à desobediência civil no punho antimilitarista, para ser julgada e condenada em outra masmorra. Libertada, não havia mais para onde fugir, sentia apenas o coração de Paul e enfrentar a vida com coragem até ser capturada insurreta e espancada pelas milícias veteranas da Guerra, e ser fuzilada e jogada agonizante num curso de água gelada de janeiro no Landwehrkanal. Mesmo que seu corpo boiasse com o epitáfio de Brecht, nela a dedicação de forjar um futuro melhor para a humanidade: o ser humano foi criado para ser feliz como um pássaro para voar. E ela desde então ressuscita todos os dias para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Habitualmente nossa sociedade, como um todo, parece bastante próspera; ela preza a honestidade, a ordem e os bons costumes. Certamente existem lacunas e imperfeições no edifício e na vida do Estado. Mas o sol não tem também as suas manchas? E será que existe alguma coisa perfeita neste mundo? Os próprios trabalhadores, sobretudo os mais bem colocados, os organizados, acreditam de bom grado que no final das contas a existência e a luta do proletariado decorrem nos limites da honestidade e da prosperidade. A “pauperização” não é uma triste teoria há muito refutada? Todos sabem que existem albergues, mendigos, prostitutas, polícia secreta, criminosos e “elementos desonestos”. Mas habitualmente tudo isso é sentido como algo distante e estranho, situado em algum lugar fora da sociedade propriamente dita. Entre os trabalhadores honrados e esses excluídos existe um muro, e raramente se pensa na miséria que se arrasta na lama do outro lado do muro. [...] De tempos em tempos, vem uma crise, semanas e meses de desemprego, de luta desesperada contra a fome. E novamente o trabalhador consegue subir um degrau da engrenagem, feliz por poder novamente empregar seus músculos e nervos a serviço do capital.  Mas, progressivamente, as forças começam a faltar. Um período mais longo de desemprego, um acidente, a velhice que se aproxima – este, depois aquele, precisam agarrar o primeiro emprego que aparece, abandonam a profissão e deslizam irresistivelmente para baixo. Os períodos de desemprego tornam-se cada vez maiores; os empregos, cada vez mais irregulares. Em pouco tempo, o acaso domina a existência do proletário, a infelicidade o persegue, a carestia toca-o mais duramente que os outros. A energia perpetuamente tensa na luta por um pedaço de pão relaxa-se, por fim; a autoestima diminui – e lá está ele à porta do albergue dos sem-teto, ou à porta da prisão. Assim, a cada ano, milhares de existências proletárias afastam-se das condições de classe normais da classe trabalhadora para cair na escuridão da miséria. Eles caem silenciosamente como um sedimento que se deposita no fundo da sociedade, elementos usados, inúteis, dos quais o capital não pode retirar mais nenhuma seiva, lixo humano que é varrido com vassoura de ferro: contra eles ergue-se o braço da lei, da fome e do frio. E por fim a sociedade burguesa estende aos seus proscritos o copo de veneno. [...].
Trechos de No albergue, da filósofa e economista polaco-germana, Rosa Luxemburg (1871-1919), extraído da obra Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade  (Fundação Rosa Luxemburgo, 2015), de Jörn Schütrumpf. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual italiana Anna Gogoleva.
Veja mais aqui.

AGENDA:
Epifânio Bezerra na Estação do Bem – Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
A barata & o monstro, Mario Vargas Llosa, Jacques Rancière, Alain Badiou, Antonio Quinet, Bruno T0lentino, Roger de la Fresnaye & Francine Vaysse, Joaquim Nabuco, Wagnert Tiso & Ná Ozzetti aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora e compositora Ná Ozzetti : Ná & Zé, Show, Álbum & Love Lee Rita & muito mais nos mais de 2 milhões & 970 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
 

terça-feira, dezembro 12, 2017

VARGAS LLOSA, RANCIÈRE, BADIOU, WAGNER TISO, QUINET, BRUNO TOLENTINO, FRANCINE VAYSSE, FRESNAYE, NÁ OZZETTI & JOAQUIM NABUCO

A BARATA & O MONSTRO - Imagem: The Architect (1913), do pintor cubista francês Roger de la Fresnaye (1885-1925). - A noite e a solidão, a hora avançada. Algo me espreitava, sentia. Não havia como identificar, algo intruso, dividindo comigo o espaço. Como desconfiava, saí conferindo cada recanto do ambiente. Não demorou muito e a intromissão de um asqueroso inseto ortóptero me lembrou daquela que engravidou a língua do selo: enquanto lambia para cola dos envelopes, inchou até não mais conseguir comer, o diagnóstico médico e o corte: saltou uma repulsiva barata, aquela mesma que zanzava nos esconderijos da minha casa. A intrometida era ágil, eu não conseguia pegá-la. Aquela atrevida presença, logo ali, usurpadora de hábito noturno, importuna e detestável. Lancei mão de todos os meios para liquidá-la, tem gente que usa do expediente de ficar em pé de manhã cedinho no meio da casa por três sextas consecutivas recitando: Barata-rabi, que veio fazer aqui? Brigou com compadre e comadre, e se manda daqui! Quando são muitas, chamam-na mulher de padre para que desapareçam de vez da habitação. Até mesmo em jejum sexta de manhã, distribuindo milho pelos cantos da casa, orando: Barata, vai embora!, deixando um dos cantos livre para ela poder sair. Ou mesmo encostado em uma das quinas do recinto: A moça do padre lhe convida pra missa. Vá com ela e seja feliz, igual quem come e não reza, ou quem trabalha no domingo. Ou colocá-las numa caixa e jogá-las para empestar a casa do desafeto vizinho. Dizem, de pés juntos, ser um santo remédio. Eu que duvide. Melhor a do veado que ajeitou sua casa e foi pelo mato procurar vida. Ao retornar ouviu uma vozinha fina lá dentro: Tui-tu, quinanã-ã, xô-xô, curió matou. Curioso, foi ver o que era e saiu amedrontado a toda carreira, quando encontrou o boi disse-lhe que um bicho cantava dentro da casa dele. Quando o boi ouviu a musiquinha da voz fina, disse logo: Isso é o diabo! E fugiram os dois. Contaram pros outros e ninguém teve coragem de ir lá não. Aí apareceu um carreirão de formigas que se prestaram pra resolver o problema. Entraram por baixo da porta e logo voltaram com a responsável: era só uma baratinha, frouxos. E levaram-nas aprisionada. Cada uma! Mas eu sei que para cada barata invasora encontrada, mil delas estão escondidas por aí, e logo nos meus domínios. Isso é lá coisa que dê sossego, meu! Logo uma onívera e vetora mecânica de patógenos, invocando o meu asco, com sua cor marrom avermelhada, é ela que anda roendo minhas roupas e livros, juro, não sei a razão de despertar temores. Cacei, persegui, e ela só me passando de besta, escapando, subiu na parede e, não tive dúvda, dei-lhe uma chinelada certeira de deixar a marca dela e ela cair com as patas pra cima, uma pisada boa, espragatei-la de deixá-la colada no chão. Pronto, finalmente, tudo resolvido. Melhor voltar pra ocupação, não deu, a barata não saía da minha mente, remorso, quem na verdade o invasor? Se ela tem trezentos milhões de anos na Terra, por que eu haveria de liquidá-la sabendo que no universo tem o seu equilíbrio próprio. Ao matá-la será que eu estava causando um desastre ou desequilíbrio na natureza? Nada, coisa de pensar besteira. Dirigindo-me ao sanitário, acendi a luz e repugnava ter de vê-la lá estatelada no chão. Fiz que não vi durante a micção e ao retornar, dei de cara com um monstro gigante na minha cozinha. Oxe! O sangue me fugiu, a covardia invadiu, cabelo em pé, o monstro era ela, agora vingativa na minha direção. Quem era agora o invasor? Eu ou ela? Procurei nos quatro cantos a fuga, um buraco no chão, qualquer coisa para sair daquela situação, a gigante já me alcançava, agora era eu a vítima pronto para ser espragatado por ela, fechei os olhos e sem saída lutei o mais que pude, esmurrando, às pernadas, de tudo nada resolvia, mas não me rendia, ia até às últimas, não cedia e repulsava como podia, não me entregava, nunca, morreria lutando até a última gota de vida, e me vi completamente envolvido por suas garras, sua gosma me melando todo, ousei gritar e lavado em suor, levantei em pânico. O pesadelo me atormentava no meio da noite. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com Preto & Branco & Trem Mineiro do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso (Veja mais aqui & aqui); e Love Lee Rita & Ná, da cantora e compositora Ná Ozzetti (Veja mais aqui & aqui). Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a arte é considerada política porque mostra os estigmas da dominação, porque ridiculariza os ícones reinantes ou porque sai de seus lugares próprios para transformar-se em prática social [...] precisamos questionar essas identificações do uso das imagens com a idolatria, a ignorância ou a passividade, se quisermos lançar um olhar novo sobre o que as imagens são, o que fazem e os efeitos que produzem [...]. Trechos extraídos da obra O espectador emancipado (Martins Fontes, 2012), do filósofo e professor francês Jacques Rancière. Veja mais aqui.

INESTÉTICA – [...] Didatismo, romantismo, classicismo são os esquemas possíveis do entrelaçamento entre arte e filosofia, o terceiro termo correspondendo à educação dos sujeitos, particularmente da juventude. No didatismo, a filosofia entrelaça-se com a arte na modalidade de uma vigilância educativa de seu destino extrínseco ao verdadeiro. [...] foram didáticas por seu desejo de dar um fim à arte, pela denúncia de seu caráter alienado e inautêntico. Românticas também, pela convicção de que a arte deveria renascer de imediato como absolutez, como consciência integral de suas próprias operações, como verdade imediatamente legível de si mesma. Consideradas como proposta de um esquema didático-romântico, ou como absolutez da destruição criadora, as vanguardas eram, antes de mais nada, anticlássicas. [...]. Trechos da obra Pequeno manual de inestética (Estação Liberdade, 2002), do filósofo, dramaturgo e novelista marroquino Alain Badiou, entendendo por inestética [...] uma relação da filosofia com a arte, que, colocando que a arte é, por si mesma, produtora de verdades, não pretende de maneira alguma torná-la, para a filosofia, um objeto seu. Contra a especulação estética, a inestética descreve os efeitos estritamente intrafilosóficos produzidos pela existência independente de algumas obras de arte.

JOAQUIM NABUCO – O município de Joaquim Nabuco é formado pelo distrito sede e pelos povoados de Usina Pumati, Arruado e Baixada da Areia. O povoamento na região deu-se através dos trabalhadores dos engenhos Pumaty, Boa Vista e Cuiabá, que foram construindo suas palhoças, as casas e a capela. Inicialmente o povoado denominava-se Preguiça. Esta denominação é atribuída às embaúbas ou "pau-de-preguiça" da região. Entretanto, há registro de que a origem do nome seria devido ao dia da feira: segunda-feira, que era considerado o dia da preguiça. As autoridades locais solicitaram a mudança de nome para homenagear o jurista, diplomata, historiador e político Joaquim Nabuco (1849-1910): De um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país. O distrito foi criado em 9 de novembro de 1892 e pertencia ao município de Palmares. Elevado à categoria de município com a denominação de Joaquim Nabuco, pela Lei estadual nº 1819, de 30 de dezembro de 1953 e instalado em 15 de maio de 1954. A atividade econômica predominante é a agroindústria açucareira, prevalendo na agricultura a cana-de-açúcar, mandioca, banana e maracujá. Veja mais aqui.

O OLHAR E O VISTO – [...] O prazer do olho não se obtém pelo toque direto, como é o caso das outras zonas erógenas (boca, ânus), mas por esse investimento imperceptível que transforma o outro em um objeto agalmático. Eis por que Freud destaca que o olho é a zona erógena mais distante do objeto sexual. No caso da pulsão escópica, a satisfação se dissocia do prazer do órgão-olho. Sua satisfação, evidentemente, não é obtida pela manipulação dos olhos, mas por sua propriedade háptica de tocar de longe o objeto sexual, desnudá-lo e comê-lo com os olhos [...]. Trecho extraído da obra Um olhar a mais: ver e ser visto na psicanálise (Jorge Zahar 2004), do psicanalista Antonio Quinet.

PANTALEÓN & AS VISITADORAS - [...] dedicou-se a estabelecer os primeiros contatos com vistas à contratação. Graças à cooperação do individuo que atende pelo nome de Porfirio Wong, mais conhecido como China, a quem conheceu por obra do acaso no centro noturno denominado Mao Mao (Rua Pebas, 260), fez uma visita, altas horas da noite, ao local de diversão freqüentado por mulheres de vida alegre dirigido por dona Leonor Curinchila, ou Chupechupe, comumente conhecido pelo nome de Casa Chuchupe e sito na estrada para o balneário de Nanay. Sendo a citada Leonor Curinclila amiga de Porfirio Wong, este último pôde apresentar-lhe o abaixo assinado, que, na ocasião, fez-se passar por comerciante (do ramo de importação/exportação) recém-instalado em Iquitos e à prcura de distrações. A referida Leonor Curinchila mostrou-se cooperativa e o abaixo assinado conseguiu – sem outra alternativa, para tanto, sebão ingerir muitos cálices de licor (recibo 8) – obter dados interessantes relacionados ao sistema de trabalho e costumes do pessoal daquele estabelecimento. Assim é que na Casa Chuchupe cerca de dezesseis mulheres formam o que se poderia denominar plantel estável, visto que há outras, entre quinze e vintém que trabalham irregularmente, comparecendo alguns dias, faltando outros, por razões que abarcam desde doenças veneras (p. e., gonorréia ou cancro) contraídas no exercício dos atendimentos, até transitórios amancebamentos ou contratos por temporada (p.e., madeireiro contra a acompanhante para viagem de uma semana à selvba)m que as afastam temporariamente do centro de trabalho. Em síntese, o pessoal completo, entre estável e flutuante, da Casa Chuchupe, são mais ou menos trinta meretrizes, embora o plantel efetivo (porém renovável) de cada noite chegue à metade desse total. [...] não sendo raro ver-se pela rua senhoritas de aparência muito sedutora, de ancas desenvolvidas, bustos turgescentes e andar insinuante, às quais, pelos padrões litorâneos, se atribuiria uma idade de vinte ou vnte e dois anos, mas que na realidade têm apenas treze ou catorze [...] corpos atraentes e arredondados, sobretudo em se tratando de ancas e seios, membros que tendem a ser generosos neste campo da Pátria, e rostos apresentáveis, muito embora, quando observadas de perto, aqui se verifique apresença de um maior número de defeitos, não quanto à fealdade de nascimento, mas adquirida por acne, varíola e queda de dentes, sendo este último acidente uma coisa comum na Amazônia, em decorrência do clima debilitante e das insuficiências dietéticas. [...] dentre a matizada gama de atendimentos prestados, figuram desde a simples masturbação efetuada pela meretriz (manual: 50 sóis; bucal, ou corneta: 200 sóis), até o ato sodomita (em termos chulos, “trilha estreita” ou “com cocozinho”: 250 sóis), o 69 (200 sóis), espetáculo sáfico ou “panqueca” (200 sóis cada), ou casos menos freqüentes, como os de clientes exigirem dar ou receber golpes de açoite, vestir ou assistir a fantasias e ser adorados, humilhados e mesmo defecados, extravagâncias cujas tarifas oscilam entre 200 e 600 sóis. [...] teve condições de concluir, mediante brincadeiras e perguntas capciosas, que as mais graciosas e eficientes podem, numa noite de trabalho (sábado ou véspera de feriado), efetuar cerca de vinte atendimentos sem ficar excessivamente exaustas, o que dá margem à seguinte formulação: um comboio de dez visitadoras, selecionadas as de maior rendimento, estaria em condições de realizar 4800 atendimentos simples e normais por mês (semana de seis dias), trabalhando full time e sem contratempos. Ou seja, que para cobrir o objetivo máximo e ambicioso de 104.712 atendimentos mensais seria necessário contar com um corpo permanente de 2115 visitadoras de categoria máxima trabalhando em tempo integral e sem nenhum tipo de contratempo. Possibilidade, naturalmente, quimérica a essas alturas [...]. Trechos da obra Pantaleón e as visitadoras (Globo/Folha São Paulo, 2003), do escritor, jornalista e político peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010. Veja mais aqui, aqui & aqui.

NOTURNO & CELEBRAR ESTE MUNDO – NOTURNO: Não sou o que te quer. Sou o que desce / a ti, veia por veia, e se derrama / à cata de si mesmo e do que é chama / e em cinza se reúne e se arrefece. / Anoitece contigo. E me anoitece / o lume do que é findo e me reclama. / Abro as mãos no obscuro, toco a trama / que lacuna a lacuna amor se tece. / Repousa em ti o espanto que em mim dói, / noturno. E te revolvo. E estás pousada, / pomba de pura sombra que me rói. / E mordo o teu silêncio corrosivo, / chupo o que flui, amor, sei que estou vivo / e sou teu salto em mim suspenso em nada. CELEBRAR ESTE MUNDO: Celebrar este mundo adivinhando / a incurável leveza, a inabalável / certeza do esplendor interminável / da luz de Deus, aurora ruminando / para sempre a quietude do imutável./ Somos reflexos dessa luz, um bando / de flamingos ardendo, misturando- / se ao sol nascente, ao inimaginável / incêndio indescritível, todo asas, / todo luz… Somos feitos como brasas / abrindo o voo, somos como o voo / dos flamingos em brasa ao oriente…/ E nunca há de apagar-se aquele ardente / sol perfeito que neles se espelhou. Poemas do premiado poeta Bruno T0lentino (1940-2007), opositor do movimento modernista, da cultura popular e da poesia concreta.

A ARTE DE FRANCINE VAYSSE
A arte da pintora francesa Francine Vaysse.

Veja mais:
A literatura de Gustave Flaubert aqui, aqui & aqui,
A poesia de Emily Dickinson aqui.
O teatro de Luigi Pirandello aqui, aqui e aqui.
O pensamento de Rajneesh aqui, aqui, aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor cubista francês Roger de la Fresnaye (1885-1925).
Veja mais aqui.
 

sábado, setembro 30, 2017

EMERSON, MONTEIRO LOBATO, GENERINO BATISTA, PAULO CALDAS, SERGIO VALLE & PADRE CÍCERO

A SEGUNDA DO PADRE CÍCERO – Depois de matar duas, o Padre Cícero obrou milagre: ressuscitou uma delas. A que se foi, Deus tenha em bom lugar. Desse dia em diante, Vera nunca mais deixou de dedicar uma hora que fosse do seu dia, para contritas rezas pro seu devotado. Não perdia sequer a oportunidade de narrar aos amigos e presentes acerca da experiência de ter visto de um só lance anteriores encarnações, como teve a oportunidade de ser levada por seu padroeiro, à presença do Criador, de passear no céu, de ficar alarmada com as cavernas de fogo do inferno, de ser recepcionada no purgatório e de ressurgir incólume do Hades. Graças ao seu santificado padrinho, pode percorrer tudo e retornar com vida para contar a todos. Tanto é que a tia dela, bastante sensibilizada com o que ela contava repetidamente, passou, então, também a adorá-lo, a ponto de, certo dia, ao chegar na feira, deu de cara com uma imagem que se diga lá de mais ou menos, mas que lembrava bem o virtuoso pároco nordestino. Quanto é? Quinhentos. Dou cem! Quatrocentos! Duzentos! Trezentos! Aí ela abraçou-se com ele, viu que era pesado, tinha pra mais de metro e meio, quilos do muito. Duzentos pra deixar lá em casa! Duzentos e cinqüenta! Fechado. Onde a senhora mora? Ela dobrou o beiço de baixo, como se apontasse a direção: logo ali. O vendedor emborcou a imagem na cacunda, pesava muito, andou mais ou menos uns quinze a vinte quilômetros, não sei, aos reclamos: A senhora não podia morar mais longe não? Chegamos! Ah, ainda bem! Dinheiro na mão, santo num canto da sala. Todo dia, ela e Vera se ajoelhavam em preces por horas. Deu-se um dia da tia bater as botas e havia um pedido seu a ser cumprido no sepultamento: ela queria ser enterrada com a imagem do santo. Mas não dá! Tem que dar, é o último pedido dela, tem que ser cumprido. Um bêbado aproximou-se do caixão: hem, hem, tão nova, partiu dessa pra melhor. E ouviu a arenga entre Vera e o rapaz do serviço funerário: ah, pedido de morta tem que ser cumprido! Vai pra lá, bêbo! Quando deitaram a imagem, era maior que a defunta! Num tá vendo? Providenciaram outro caixão: também não dá, o chapéu do padre é muito grande! Aí o bebo: besteira, tira o chapéu! Foi, então, a marteladas, arrancaram a aba do chapéu. Quanto trouxeram a estátua para colocá-la no caixão, o bêbo gritou: eita, o padim padre Cícero veio de moto, oxe, vão enterrá-lo com capacete e tudo, é? Sai pra lá bebão. Fecha o cachão! Perai, deixa eu me despedi do santo e da defunta! Vai pra lá, cachaceiro! Tenho direito! E deixaram, o embriagado abriu a tampa do caixão e gritou: Pade Ciço, não me enrole, vá, me dê a chave da moto que eu quero ir pra casa! Avie, homem! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o cantor e compositor Elomar Figueira de Mello com seus álbuns Das barrancas do Rio Gavião & Fantasia leiga para um rio seco; a pianista, compositora, artista e diretora japonesa Tomoko Mukaiyama interpretando Multus #1 Canto Ostinato, Zorn Bolcom Zappa & Illuseum #1; o guitarrista e violonista Ricardo Silveira com seus álbuns Bom de tocar & Sky light; e a cantora e compositora Ná Ozzetti com os álbuns Love Lee Rita & Show. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIANossos olhos são limitados, de modo que não podemos ver as coisas que estão bem à vista, até que chegue o momento em que nossa mente esteja amadurecida. do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A HISTÓRIA DA PENINHA - Um sujeito propôs a outra esta adivinhação: “Qual o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?” Está claro que ninguém adivinhou. – Pois é o gato, explicou ele. – Gato com peninha na cauda? – Sim. A peninha está aí só para atrapalhar. Trecho extraído do texto O nosso dualismo (Cult, maio/2002), do escritor Monteiro Lobato (1882-1948). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O SOL ALÉM DA MINHA RUA – [...] A rigor, o destino parecia ter-lhe reservado o desconforto divino das viagens de ônibus. Aperto, calor, tempo perdido. A vida é difícil, cruel, para quem é jovem pai de família e vive feito eu, sem perspectiva numa grande cidade do terceiro mundo. Cruel no sentido que o destino, se é que existe, costuma premiar poucos e punir a maioria. Cruel pra fechar o horizonte aos anseios dos mais jovens. Trecho extraído da obra O sol além da minha rua (Bagaço, 2003), do escritor e editor Paulo Caldas. Veja mais aqui.

EITA, GOTA!Você tem toda razão / dizer que não falo bem / papai chamava pru mode / mamãe dizia qui nem / um filho desse casal / que português é que tem! Poema do poeta Generino Batista. Veja mais aqui e aqui.

BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Recepcionando a estudantada com os poetas Paulo Santos & Genésio Cavalcanti na Biblioteca Fenelon Barreto.

Veja mais:
Padre Cícero matou duas aqui.
A arte musical e poética de Elomar aqui e aqui.
Vera indignada aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Tomoko Mukaiyama aqui.
Dia da Secretária aqui e aqui.
A secretária do Tataritaritatá aqui.
A arte musical de Ná Ozzetti aqui.
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Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e artista multimídia Sérgio Valle Duarte.
Veja mais aqui.
 

quarta-feira, junho 08, 2016

TUNGA, CÉSAR VALLEJO, NÁ OZZETTI, SÔNIA BRAGA, JOÃO PESSOA & RUY CARVALHO, TEATRO & FECAMEPA

TUNGA - Imagem: do filme p&b Ão: “toro imaginário no interior de uma rocha”, registrando o interior do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, em 1980, do escultor, desenhista e ator de performance artística Tunga - Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão (1952-2016) – Não mais que um rio esquecido, vida nas margens perdidas, forasteiro do lado de fora e do outro lado eremita nas águas revoltas do seco e das poeiras esvoaçantes que não são mais que um Sol poente pelas dunas iridescentes da memória. Não mais que um sonho perdido nas gavetas mofadas dos móveis destroçados pela ação dos cupins nas ripas, vigas e estrados, e tivera eu o que não tive não seria melhor do que sou. Não mais que telhado sobre escombros no vórtice do tempo, lembranças de cinzas e vidros quebrados, soubera vivo antes que morto fosse, nada mais. Não mais que uma rua ignota, sem nada, sem saída, inacabada, na qual quisera eu romper limites, jamais além de onde estou pra onde vou. Não mais que a curva do tempo e o que aprendera não me poupara a ser reincidente, sempre vário, disperso, diverso, atrabiliário. Não há mais que hoje nem era amanhã do que sou obscuro no que é mais clarividente, abstive-me de atalhos, teimoso resiliente além das aguçadas pontas de facas, punhais inexoráveis, fina lâmina de viver. Não mais que a pele curtida da meia-noite ao meio-dia e assim por diante todos os dias, valeu-me a sorte dos condenados e não ter mais para onde ir. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.
Imagem: A arte do escultor, desenhista e ator de performance artística Tunga - Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão (1952-2016). Veja mais aqui, aqui e aqui

Curtindo o álbum Meu Quintal, (Borandá, 2011), décimo disco da cantora e compositora Ná Ozzetti. Veja mais aqui.

PESQUISA
O livro O teatro e a sua estética (Arcádia, 1964), organizado pelo encenador, crítico e membro da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, Redondo Junior (1914-1991). Veja detalhes aqui.

LEITURA 
O livro Poesia completa (RioArte, 1984), do poeta vanguardista e dramaturgo peruano César Vallejo (1892-1938). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
FECAMEPA - SERÁ O ACUNHA-DUDU? (E HAJA ÓLEO DE PEROBA!)
Nascido de família humilde e filho de trabalhadores da palha da cana, candidatou-se à prefeitura de uma cidade da Mata Sul, sendo eleito para surpresa geral. No entanto, devido a uma acirrada briga com um dos vereadores do município, a Câmara se reuniu e cassou seu mandato. Atendendo a veementes apelos do chefe do Executivo, deputados apoiados por ele chegaram à cidade. O objetivo da visita era negociar com os representantes da Câmara a suspensão do efeito cassatório a ser confirmado pelo juiz de Direito. Após as negociações, deputados, prefeito e vereadores foram ao Fórum, além de advogados e adversários do político cassado. Terminada a audiência, onde recuperou o mandato, ao ser abordado por um de seus admiradores sobre o resultado, o governante municipal acentuou: - Como tudo na p...
Cassação suspensa, extraído do livro Os sapos da política (Comunicarte, 1993), do médico e escritor Edson Moura. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
Meu coração voa
Sou todo João Pessoa (LAM).
Por do sol na Praia do Jacaré – João Pessoa – PB, do fotógrafo Ruy Carvalho.

Veja mais sobre O Trâmite da Solidão, Anthony Giddens, Marguerite de Yourcenar, Robert Schumann, Jean Racine, Arnaldo Jabor, Francisco Ribalta, Sonia Braga & Ary Spoelstra aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da atriz Sônia Braga.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá (Foto acervo LAM).
Veja aqui.

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...