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quarta-feira, novembro 27, 2019

JACK LONDON, DUÍLIA DE MELLO, ISADORA DUNCAN & MINEHAHA MULHER DO BÚFALO


OS SEIOS DE ISADORA - A vida não é um sonho. Como se fosse, assim se fez para a caçula do banqueiro que faliu e se foi, da professora de música numa casa onde só o amor à arte e sonhos, mais nada, frio e fome a cada dia. O incêndio a desapropriou: a vida na rua, à beira da indigência. A escola sufocava o fogo ardente de sua meninice maltrapilha, nem um centavo no bolso. Os sonhos continuavam sonhos, selvagem de nascença, geminiana jamais domesticada, o lema sem limites. Até que seu corpo as ondas do mar, a água, o vento, as plantas: a nudez grega, a vitalidade desinibida e avassaladora, nenhuma ninfa ou fada, música e poesia na rebeldia descalça de seios à mostra na túnica transparente, cabelos soltos, corpo livre aos improvisos irreverentes, decididamente escandalosa, desnudada, aplaudida, exaltada. Fez-se raposa comunista e os horrores dos fuzilados do czar pelo pão da miséria, engasgada pelas lágrimas indignadas: cortejo interminável dos infelizes, aos ombros seus mártires mortos e era só uma menina dançando num jardim, a dança futura pela causa da humanidade, impulsiva, imprevidente. Até na morte dos filhos no rio Sena, a tristeza com os nervos em frangalhos. Os sonhos continuavam sonhos e descia do Olimpo, os seios à mostra com seu inesquecível fascínio, sua dissimulação a girar cabeças coroadas e casacudas, sempre ardente, às breves e arrasadoras aventuras amorosas, generosa e maternal com seus recursos secretos e imprevisíveis A alma se desprendia do corpo e os seios à mostra: o amor fraternal: o sonho do adeus ao brutal velho mundo. Incorrigível perdulária a ruminar, era assim que era: revolucionária e espontânea. O rosto devastado pelo ocaso: álcool e dívidas, a autobiografia. Os sonhos continuavam sonhos, seios à mostra e a echarpe no Bugatti conversível vermelho, a despedida para o amor insólito e o estrangulamento. O estopim decadente. Não mais sonhos para dormir o pesadelo de nunca mais nos seios floridos e finalmente escondidos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Estamos passando por um momento muito difícil, de descrédito. As pessoas acham que ciência é religião, que se acredita ou não se acredita. Não é assim. Ciência é baseada em fatos, não precisa de crença. O fato existe, a gente interpreta o fato com método científico. É com muita tristeza que vejo esse passo que a humanidade está dando. Tenho impressão que isso é passageiro, que é só uma regressão que estamos vivendo porque houve um certo descuido, principalmente, dos cientistas que precisam comunicar a ciência todos os dias ao público, e precisa educar o jovem para a ciência. Os cientistas no mundo todo acharam que a escola estava educando o suficiente e demonstrando a importância da ciência. Espero que todos os cientistas acordem, porque passou da hora de comunicar a ciência. É uma coisa muito difícil, não é todo mundo que tem talento de passar conhecimentos difíceis para uma linguagem simples. [...]. Trecho da entrevista Estamos no caminho errado (Agência Brasil-EBC, 2019), da astrônoma e professora de Física e Astronomia da University Washington, pesquisadora do Goddard Space Flight Center – NASA, e autora do livro Vivendo com as Estrelas (PandaBooks, 2009), Duília de Mello, falando sobre pesquisa espacial e divulgação científica, concedida ao jornalista Gilberto Costa. Veja mais aqui.

MINEHAHA, A MULHER DO BÚFALO
[...] É uma lenda básica da tribo Blackfoot que originou seu ritual da dança dos búfalos onde eles invocam a cooperação dos animais no jogo da vida. Se você levar em conta o tamanho de algumas dessas tribos percebe que para alimentá-los era preciso muita carne. E uma forma de ter carne para o inverno era fazer estourar uma manada de búfalos e fazê-los cair do alto de um rochedo. Essa história se passa com a tribo Blackfoot muito tempo atrás. Eles não conseguiam fazer os búfalos cair do penhasco; os animais se aproximavam e se desviavam. Eles não iam conseguir carne para o inverno. Certa manhã uma mocinha de uma das cabanas vai buscar água no poço para a família. E ela diz: "Ah, se vocês caíssem eu me casaria com um de vocês". E para sua surpresa eles todos vêm e começam a despencar. Essa foi a primeira surpresa. A segunda surpresa foi quando um dos búfalos velhos, o feiticeiro do rebanho, diz: "Tudo bem, você vem comigo". Ela diz: "Ah, não!" Ele diz: "Sim, você prometeu. Nós cumprimos a nossa parte, minha família está morta lá embaixo. Agora você virá comigo". De manhã, a família dela acorda e cadê a Minehaha? O pai procura e diz: "Ela fugiu com um búfalo". Ele percebe pelas pegadas. Então diz: "Vou busca-la". Calça seus mocassins, seu arco e flecha e vai para a planície. Depois de caminhar bastante fica com vontade de descansar e chega a um lugar chamado Charco dos Búfalos, onde os animais gostam de vir rolar na lama para se refrescar e se livrar dos piolhos. Ali começa a pensar no que fazer quando chega uma pega; é um pássaro de plumagem vistosa que tem dons especiais qualidades mágicas. Sim, mágicas. E o homem lhe diz: "Oh, belo pássaro, minha filha fugiu com um búfalo. Você a viu? Poderia encontrá-la nessa planície?" Ele responde: "Vi uma linda garota junto com os búfalos perto daqui". E o homem diz: "Você poderia ir até lá e dizer a ela que seu pai está aqui?" O pássaro voa até a garota no meio dos búfalos que estão dormindo. Não sei o que ela estava fazendo, tricô ou algo assim. O pássaro chega e diz: "Seu pai está lá no charco esperando por você". Diz ela: "Isso é terrível; é muito perigoso! Esses búfalos podem nos matar. Diga a ele que me espere, vou dar um jeito". Então seu marido búfalo acorda, tira um dos chifres e lhe diz: "Vá até o charco buscar água para mim". Ela pega o chifre, vai até o charco e lá está seu pai. Ele lhe diz: "Venha". Ela diz: "Não, é muito perigoso. O rebanho inteiro vai nos perseguir. Acharei um jeito; agora me deixe voltar". Ela apanha água e volta. Seu marido búfalo diz: "Fi, fá, fo sinto um cheiro de índio!". Ela diz: "Nada disso!". E ele diz: "Sim, com certeza". Ele dá um mugido de búfalo, todos se levantam e fazem uma dança lenta, com os rabos levantados. Vão até o charco e pisoteiam o pobre homem até ele desaparecer; ficar em pedacinhos. A garota chora e seu marido búfalo diz "Você está chorando?". "Esse é o meu pai", diz ela. "Ah é? E nós? Ali estão nossos filhos, mulheres, pais; todos mortos. E você aqui chorando pelo seu pai!", diz ele. Mas parece que ele era bonzinho; fica com pena e diz: "Se você conseguir trazer seu pai de volta à vida, eu a deixo ir embora". Então ela diz ao pássaro: "Procure pelo chão e veja se encontra um pedacinho do meu pai". O pássaro vai ciscando e acaba trazendo um ossinho. E a garota diz: "Isso já basta. Vamos colocar isso aqui no chão"; ela coloca o cobertor sobre o ossinho e canta uma canção mágica, de grande poder. E veja só, um homem debaixo do cobertor. Ela olha, é seu pai, mas ainda não está respirando. Ela continua cantando; ele fica de pé e os búfalos ficam espantadíssimos. Dizem: "Por que você não faz isso por nós? Nós ensinaremos vossa dança e depois que vocês matarem nossas famílias, você dança, canta essa canção e nós voltaremos à vida". Esta é a ideia básica: que através do ritual se alcança a dimensão que transcende a temporalidade, a dimensão de onde vem a vida e para onde volta. [...]
MINEHAHA, A MULHER DO BÚFALO – Extraída da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do mitologista, escritor e professor estadunidense Joseph Campbell (1904-1987), com edição de Bill Moyers e organizado por Betty Sue Flowers, fruto de uma série de conversas mantidas entre o autor e o jornalista editor, numa combinação de sabedoria e humor, tratando sobre o casamento, os nascimentos virginais, a trajetória do herói, o sacrifício ritual, entre outras. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte não é, de modo nenhum, necessária. Tudo o que é preciso para tornarmos o mundo mais habitável é o amor. O corpo do bailarino é simplesmente a manifestação luminosa da alma.
Não me lembro de nenhum sofrimento que tivera por causa da pobreza de minha casa. Essa pobreza nos parecia muito natural. Eu sofria somente na escola. Para uma criança sensível e orgulhosa, o sistema da escola pública era tão humilhante como o cárcere. Eu estava sempre em rebeldia.
ISADORA DUNCAN – A arte da coreógrafa e bailarina estadunidense Isadora Duncan (1877-1927), considerada a precursora da dança moderna, aclamada por suas apresentações em todo o planeta. Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

A OBRA DE JACK LONDON
Eu não vivo para o que o mundo pensa de mim, mas para o que eu penso de mim mesmo.
A obra do escritor, jornalista e ativista estadunidense Jack London (1876-1916) aqui e aqui.


sexta-feira, outubro 06, 2017

BRECHT, JACK LONDON, NOAM CHOMSKY, JULES DE BRUYCKER & BIBLIOTECA FENELON BARRETO

UMA TAPA & A HONRA ENGASGADA NA MEMÓRIA – Imagem: arte do pintor, desenhista, artista gráfico e ilustrador belga Jules De Bruycker (1870-1945). - Mais de trinta anos separavam Terdílio e Disonaldo. O reencontro foi festivo, abraços, lorotas, humilhações mútuas ressaltando a esperteza de um sobre o outro, viradas de copos, cada qual mais ufano pela enrolada na leseira do parceiro, dois bicudos que não se beijavam, mas que se consideravam por conta das estripulias da juventude. Disonaldo humilhava o amigo revelando as dedadas, os desacertos, molecagens e trapalhadas do Terdílio que à época, apesar de tão franzino quase tísico, não abria nem prum trem na horagá da arenga. Quanto mais Disonaldo gastava soberba, Terdílio relevando, riso tímido, todo na sua, bebericando de leve e exaltando as astúcias do metido, até a hora que o sabido lembrou De uma tapa dada por ele e guardada na memória. Tapa? Sim, lembra? Tapa? Isso mesmo, você me deu uma tapa da porra! Lembro não. Realmente, Terdílio não lembrava disso, puxando no passado, franzindo o cenho e estranhando a existência do fato. Você deve já estar bêbado, lembro disso não, reiterou. Ah, quem dá não se lembra, quem leva nunca esquece. E sorriram desancando um ao outro pelas presepadas. Lá pras tantas, depois de muita mangação, Terdílio se despediu e prometeu tomarem umas outras juntos em breve, agora precisava ir pra casa arrumar as coisas que ainda estavam aos monturos pela mudança recente de endereço. A despedida, abraços afetuosos e compromisso asseverado de novo encontro. Quando Terdílio deu as costas, Disonaldo ficou remoendo e virando copo atrás de gole: a tapa não lhe saía engasgada na ideia. Dois dias depois, lá ia Terdílio sóbrio voltando pra casa, quando dá de frente com Disonaldo completamente embriagado: meu amigo, pronde vai? Pra casa, ainda estou ajeitando as coisas da mudança. Vamos tomar uma! Não dá, agora não, mas no final de semana a gente emenda os bigodes numa cachaçada boa. É bom mesmo, não se esqueça da tapa, você me deve! Que tapa? Não se lembra mesmo? Não! Oxe, você deu uma tapa da porra! Lembro disso não. Destá, final de semana a gente relembra tomando uma. Dias depois, lá ia Terdílio com o pão pro jantar e Disonaldo trocando as pernas quase desequilibrado na calçada, atravessou seu caminho: Meu amigo, vamos tomar uma! Tenho que levar a comida pro jantar, final de semana a gente toma todas! Você está me enrolando! Estou não, ainda não arrumei tudo em casa por causa da mudança, mas desse final de semana não passa. Aos abraços se despediram e Disonaldo ficou maquinando, aos tombos seguiu os passos do Terdílio, perdeu de vista, desgraçado, dali então, todos os dias no encalço, a tapa, a pinga, a meiota, a lavada com a cerveja, o juízo se apertando, a tapa desajustando tudo, outra lapada, meiota, litro e meio, duas cervejas lavando o sangue e a sobriedade, trôpego, meio lá meio cá, equilibrista a pulso, meteu a mão nos bolsos: Eita! só mixaria. Cadê meu dinheiro? Será que o porra do Terdílio tomou meu dinheiro e eu não vi, ele me paga, ah, vai me pagar dobrado, a tapa e meus trocados que ele embolsou e eu não, filho da puta! O dia amanheceu e pela primeira vez o primeiro pensamento de Disonaldo foi Terdílio: Danou-se! Sonhei a noite toda com esse porra! Acordo com ele no meu juízo! Que droga é essa? Remexeu os bolsos, não havia nada. Foi até a gaveta da petisqueira, tinha algumas cédulas, pegou o cartão do banco, foi até o caixa do atendimento automático, errou a senha: O filho da puta do Terdílio já me roubou a senha? Pode não! Refez a operação, saíram cédulas, tudo certo. Dinheiro pra ele era só pra beber, comer e cagar, mais nada. Isso mesmo: beber, comer e cagar! Serve para mais alguma coisa? Serve sim, para eu pegar Terdílio e vingar da tapa e de todo prejuízo que ele me casou esses anos todos. Ah, vou foder a alma do Terdílio, ah, se vou! Destá. Saiu decidido. Encheu o copo com a aguardente, era seu desjejum. Virou uma meiota de vez, pediu uma cerveja, bebeu no gargalo, trocou os olhos, dor de cabeça da peste, engasgou-se, tossiu, bateu na caixa dos peitos, manda outra! Virou a garrafa todinha goela adentro, apertou a vista, tudo estreito, tudo em dupla, olhou pras mãos: não tremiam. Agora estava no ponto, pronto pro que desse e viesse. Ao virar a esquina, deu de cara com o amigo desafeto. Eita! Teve um troço, foi bater no hospital, três dias em coma, ao acordar-se: Que é que estou fazendo aqui? Dê graças a Deus ao seu amigo ter-lhe salvado a tempo, senão hoje era mais um prestes a ser homenageado com missa de sétimo dia. Eita! Mais uma? Esse filho de uma quenga me paga! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor, compositor e ativista estadunidense de causas humanitárias e sociais Stevie Wonder: Live at last: A Wonder summer’s night; da musicista especializada em Viola de Gamba, integrante do Conjunto de Música Antiga da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora dos cursos de extensão em Música, KristinaAugustin interpretando Bach em parceria com Mário Orlando; do violonista e compositor inglês Stanley Myers (1930-1993): Kaleidoscope, Catavina & Echoes; da harpista, cantora e compositora Cristina Braga interpretando Stairway to heaven, Love parfait, No silêncio na chuva, Bem e mal, Brasileirinho e Ária de Emília. Para conferir é só ligar o som e curtir.

O LUCRO OU AS PESSOAS - As conseqüências econômicas dessas políticas têm sido as mesmas em todos os lugares e são exatamente as que se poderia esperar: um enorme crescimento da desigualdade econômica e social, um aumento marcante da pobreza absoluta entre as nações e povos mais atrasados do mundo, um meio ambiente global catastrófico, uma economia global instável e uma bonança sem precedente para os ricos. Diante desses fatos, os defensores da ordem neoliberal nos garantem que a prosperidade chegará inevitavelmente até as camadas mais amplas da população – desde que ninguém se interponha à política neoliberal que exacerba todos esses problemas! No final, os neoliberais não têm como apresentar, como não apresentam de fato, a defesa empírica do mundo que estão construindo. Ao contrário, eles apresentam – ou melhor, exigem uma fé religiosa na infalibilidade do mercado desregulado, que remonta a teorias do século 19 que pouco têm a ver com o nosso mundo. O grande trunfo dos defensores do neoliberalismo, no entanto, é a alegada inexistência de alternativas. [...] As hordas são uma visão aterradora: “elas incluíam sindicatos, lobistas ambientais e dos direitos humanos e grupos de pressão que se opõem à globalização” – quer dizer, a globalização na forma particular exigida pelo “público interno”. A horda turbulenta subjugou as estruturas de poder patéticas e impotentes das ricas sociedades industriais. Ela é dirigida por “movimentos marginais que defendem posições extremadas” e possui uma “boa organização e sólidas finanças” que a capacitam “a manejar a sua grande influência com a mídia e com os membros dos parlamentos nacionais”. [...] Mesmo sabendo que o poder e o privilégio com certeza não vão descansar, as vitórias populares devem ser inspiradoras. Elas ensinam lições sobre o que se pode conquistar mesmo quando a desigualdade das forças em luta é tão bizarra quanto à do confronto em torno do AMI. É verdade que são vitórias defensivas. Mas elas impedem, ou pelo menos adiam, o enfraquecimento ainda maior da democracia e a transferência de mais poderes para as mãos das tiranias privadas em rápido processo de concentração, que querem administrar os mercados e se constituir num “Senado virtual” que dispõe de diversos meios de frustrar o desejo popular de usar as formas democráticas em benefício do interesse do público: a ameaça da fuga de capitais, a transferência das unidades de produção, o controle da mídia e outras formas de coação. Devemos prestar muita atenção ao medo e ao desespero dos poderosos. Eles compreendem muito bem o alcance da “arma definitiva” e só esperam que aqueles que buscam um mundo mais livre e justo não adquiram essa mesma compreensão e a coloquem efetivamente em uso. Trechos da obra O lucro ou as pessoas (Bertrand Brasil, 2002), do filósofo, linguista, cientista cognitivo e ativista político norte-americano, Noam Chomsky. Veja mais aqui e aqui.

O ESCRITOR, A FAMA E A SOCIEDADE - [...] Se tivesse recebido ao menos uma linha, uma linha de caráter pessoal com uma das notas de recusa, ter-se-ia sentido mais animado. Mas nenhum dos editores dera tal prova de sua existência. E ele só podia concluir que não havia seres humanos do lado de lá, mas rodas, apenas rodas, bem lubrificadas, acionando a máquina para um funcionamento perfeito. [...]. Trecho da obra Martin Eden (Nova Alexandria, 2003), do escritor, jornalista e ativista estadunidense Jack London (1876-1916). Veja mais aqui.

HOLLYWOOD - Para ganhar o pão, cada manhã / vou ao mercado onde se compram mentiras. / Cheio de esperança / ponho-me na fila dos vendedores. Poema do dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956), extraído de O duplo compromisso de Bertolt Brecht, do livro O arco-íris branco (Imago, 1997), de Haroldo de Campos. Veja mais aqui.

BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Conversando com o público nos eventos da Biblioteca Fenelon Barreto, coordenado pelo diretor João Paulo Araújo.

Veja mais:
A música de Stevie Wonder aqui.
O talento musical de Cristina Braga aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, desenhista, artista gráfico e ilustrador belga Jules De Bruycker (1870-1945). Veja mais aqui.
 

segunda-feira, abril 17, 2017

JACK LONDON, MIRINHO, CANAVIAL & LIGAS CAMPONESAS.

DA CANA SOU ALMA DOCE & FEL – A cana sou doce e fel. Nela sorrio, nela me mato e me embriago, viro copo, passo a foice, vivo dias, varo noites sangue no plantio pra limpa e o chão pra queimadas, morto-vivo no barro dos conflitos fundiários, latifúndio, terra alguma: tudo é tão contraditório e desigual, a seca-verde, a soca e a sacarose e eu mãos limpas lisas confundindo botada com pejada, só a alma calejada como quem fala muito pra aliviar suas dores até quando o corte e a folha afiada no talho frio traiçoeiro, sou fera e arranco até raiz. Aj, é preciso sorrir pra não chorar e chupo gomo, rolete, caldo de cana, embolo sangue no bagaço – bom demais! Ah, fazer festa porque a vida é tão dura diante do gosto e o gostar, se pensar se mata de desgosto: é tão difícil viver! E resisto na miséria, cumpro a pena de escravo pra açucarocratas serem felizes, enquanto sem voz, sem valor, sem. E retorno depois da expropriação - o meu poema interminável: toda poesia é falsa porque é a vida, outro lado de Deus, a vida é cada um e todos. Cada um, cada um, e todos. E quando apenas choro não faço nada, não convivo com a catinga do suor de quem madruga até o ocaso a se danar eito afora quase lixo aos ventos incontroláveis pelos cotovelos ao saber da boca no coração, futuro algum pra não ter nada agora, só a luta, tão somente e a cana tudo e nós. E sinto que sou nela todos eles, quanta miséria, maior a minha que só sei chorar cônscio de mim e neles por serem tempo afora sem saber do mundo e a me ensinar o que não sei das tristes partidas e a algazarra no frêmito das chegadas. Assim como são as coisas e tudo e nada, açúcar ou álcool, apesar dos pesares, viver é bom demais. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

LIGAS CAMPONESAS
[...] a partir da década de cinquenta, ocorreu uma expulsão em massa do morador e a expropriação dos lotes arrendados aos foreiros. Esses contingentes expropriados ou se deslocaram para as terras menos férteis e afastadas da Zona da Mata, nas linhas limítrofes com o Agreste, recriando assim um  campesinato  marginal com a sua dupla função de produtor de alimentos e exército agrário reserva; ou se proletarizaram de maneira irreversível, migrando para as cidades e vilas circunvizinhas aos engenhos e usinas, onde tornaram-se trabalhadores volantes.
Trecho extraído da obra As ligas camponesas (Paz e Terra, 1982), do sociólogo, professor e pesquisador Fernando Antônio Azevedo.


Veja mais sobre:
O doce voo no sangue das andorinhas invisíveis do canavial, o pensamento de Padre Antônio Vieira, a coreografia de Ekaterina Krysanova, a pintura de Iryna Yermolova, a arte visual de Arthur Brouthers, a poesia de Vera Salbego, a música de Silvério Pessoa & Jacinto Silva aqui.

E mais:
A lenda do açúcar e do álcool, A educação de Anísio Teixeira, a História da Filosofia de Wil Durant, a música de Yasushi Akutagawa, a pintura de Madison Moore, Cumade Fulôsinha & Menelau Júnior, a coreografia de João Pirahy & Oração da Cabra Preta aqui.
Salmo da cana, Os doze trabalhos de Peisândro de Rodes, Os trabalhos e os dias de Hesíodo, O informe de Brodie de Jorge Luis Borges, a escultura de Auguste Rodin, a música de Chico Buarque, a literatura de Émile Zola, O operário em construção de Vinicius de Moraes, o Teatro de Nelson Rodrigues, Tempos Modernos de Charlie Chaplin, a arte de Magda Mraz, Heracleia & Hércules, Monteiro Lobato, Psicologia Social & Formação Huamana aqui & aqui.
A cana dos coronéis aos mamoeiros aqui.
A cana, os caetés & Sardinha aqui.
A cana & a escravaria toda, Hegel, Mário Quintana, Debret & Pauley Perrette aqui.
A cana & o século XVI aqui.
A cana & o Brasil holandês aqui.
O Brasil na festa do Fecamepa, a literatura de Anna Bolecka, a música de Marlos Nobre com Leonardo Altino & Ana Lúcia Altino, a pintura de Sophia Monte Alegre & a arte de Adriana Varejão aqui.
A literatura de Adolfo Bioy Casares, a poesia de Guillaume de Poictiers, a música de Charles Mingus, a pintura de Pierre Bonard, Cabra marcado para morrer, a fotografia de John Watson, Estética Teatral & a arte de Louise Cardoso aqui.
A biblioteca nossa de cada dia, História do Amor de Nicole Krauss, a poesia de Carles Riba, o pensamento de Lloyd Motz, o cinema de Yasujirō Ozu & Shima Iwashita, a música de Carla Bruni, a pintura de Mauro Soares, Notícias Cariocas, Aprendizagem, Tributo & Imposto aqui.
Psicologia Infantil, a música de Béla Bartók, o teatro de Gerd Bornheim, a literatura de Nilto Maciel, a poesia de Leila Diniz & Clotilde Tavares, a pintura de Gutzon Borglum o cinema de David Lean & Sarah Miles aqui.
A lágrima de Neruda & prelúdio, A divisão do mundo de Jiddu Krishnamurti, O destino do homem de Goethe, Elogio ao amor de Alain Badiou, a entrevista de Márcio Borges, a música de Tchaikovsky & Elena Bashkirova, a pintura de Pierre Alechinsky & Roy Lichtenstein, o teatro de Clarice Niskier, o cinema de Neville de Almeida & Christiane Torloni, a arte de Debra Hurd, a poesia de Alvaro Posselt, a fotografia de Harrison Marks, as gravuras de Jerzy Drużycki & Palavra Mínima aqui.
A solidão de Toulouse, A mulher celta, a literatura de Elfriede Jelinek, a entrevista de Gilberto Mendonça Teles, a música de Jonatha Broke, a pintura de Henri Toulouse-Lautrec, a arte de Paulo Mendes da Rocha & Michael Aaron Williams, a fotografia de Marcos Vilas Boas, Salgadinho & Psicologia Ambiental aqui.
Lavratura, O pensamento de Antonio Quinet, Os megálitos de Orens, a música de Bach & Hilary Hahn, A maternidade de Francisca Praguer Fróes, a pintura de Joan Miró & Peggy Bjerkan, a arte de Mário Zanini & Luciah Lopez, Por um novo dia, A vida começa no final de semana & O que sei de mim é só de você aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CANAVIAL, CANAVIEIROS
(Foto: Cícero R. C. Omena)
[...] seria um ledo engano imaginarmos que os trabalhadores canavieiros são completamente submissos e resignados em relação à exploração-dominação da força de trabalho. Ainda que envolvidos em uma correlação de forças extremamente desfavorável, os trabalhadores canavieiros resistem, tanto em ações individuais e ocultas (boicotando os padrões do corte, sabotando o canavial, abrindo roçados em suas fendas, etc.), quanto em formas de lutas coletivas e públicas. Apesar dos limites dessas ações, que combatem os efeitos da exploração-dominação da força de trabalho, mas não as suas causas, essas práticas de resistência são fundamentais para minimizar a degradação do trabalho e para possibilitar que as lutas sejam elevadas a um patamar que questione o próprio trabalho assalariado e seus fundamentos. [...].
Trecho da dissertação de mestrado Trabalhadores nos canaviais de Alagoas: um estudo sobre as condições de trabalho e resistência (UFSCar, 2012), defendida pelo sociólogo e pesquisador Lúcio Vasconcellos de Verçoza.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: “Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma coisa mais valiosa e mais elevada do que seu estômago, quando haverá maiores estímulos para levar os homens à ação do que o incentivo de hoje, que é o incentivo do estômago”.
Trecho do conto O que a vida significa pra mim, extraído de Contos (Expressão Popular, 2001), do escritor, jornalista e ativista estadunidense Jack London (1876-1916).
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

segunda-feira, setembro 15, 2008

SUSAN SONTAG, JACK LONDON, TEOLINDA GERSÃO, GRETA GARBO, MARIA JOSÉ DE QUEIROZ, LITERATURA DE CORDEL & FESTA NO CÉU


 
A vida seria tão maravilhosa se nós soubéssemos o que fazer com ela.
A arte da atriz sueca Greta Garbo (1905-1990). Veja mais aqui.

AS DUAS FESTAS NO CÉU – Na primeira festa que houve no céu, todos os pássaros foram convidados. As aves se aproveitaram do privilégio e começaram a mangar dos outros bichos. O sapo que não era besta nem nada, já botou a astúcia em dia e saiu cantarolando que também iria para a festa. Como? A gente se vê por lá. Oxente. Pois foi. Ardiloso, saiu por ali todo pabo, deu uma volta e, às escondidas, entrou na camarinha do urubu e se entocou dentro da viola. O urubu quando chegou às pressas, pegou o instrumento e bateu asas céu afora. Ao chegar foi a maior confraternização: Chegou todo mundo? Todos. E o sapo? Aquilo é um enrolão. Dali a pouco, pof pof pof, lá passava o sapo acenando: Vamos pra festa, gente! Esse sapo é um danado mesmo! Lá pras tantas, a festa se aproximando do final, o sapo tomou a dianteira e voltou-se a esconder. O urubu pegou a viola e começou a voar de volta. No meio do caminho, bastou um tombo e o sapo se mexeu. O urubu parou no ar e foi conferir: Ah, tás aí né? E emborcou a viola e nas alturas despencou: Béu, béu! Se eu desta escapar, nunca mais festa no céu! Ao se aproximar do chão, berrou: Arreda, terra, senão eu te arrebento! Caiu e despedaçou-se todo, aos cacos. Não se sabe ao certo como, mas ele ressuscitou! Daí mais uns dias estava lá ele coaxando na beira da lagoa. Assim foi. A segunda, todos os bichos foram convidados, menos o macaco e o cachorro. Oxe! Pois foi. No meio dos protestos, foram liberados: ficariam em lugares separados! E os cachorros, ao chegarem, teriam de pendurar os fiofós para não armarem trela de ficarem engatados na safadeza durante a festa. Assim foi. Cada cachorro na chegada, passava no recinto e tirava o cu deixando-o pendurado. Com isso a festa correu solta. Os macacos que estavam quietos até essa hora, resolveram aprontar: entraram no recinto dos cachorros e trocaram os bozós deles de lugar. Ao final lá se foram todos, cada um com seu furico no lugar. Deu maior pandemônio. Acontece que os cachorros deram pela sacanagem e começaram um a cheirar o boga do outro para ver se localizam o seu. Até hoje eles procuram, coitados. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.


DITOS & DESDITOSHá muitas pessoas que me fazem falta e que de repente já não estão lá; por vezes, mais novas que eu. Isso acontece a todos, mas ver esse mundo desfeito e muitos não terem a capacidade, que eu penso que tenho, de se relacionarem com pessoas de gerações mais novas… Tenho relações com pessoas de muitas faixas etárias, e também tenho netos, quase a chegar à idade adulta. Mas sei o quanto me custa perder pessoas da minha geração. Estou na rede social e penso que de fato isso corresponde muito ao momento. Mas isso não é literatura, é um substituto das conversas de café, por exemplo, e que hoje quase não existem porque as pessoas não têm tempo de se encontrar. É um fórum virtual de encontro em que as pessoas dizem aquilo que de momento lhes parece e que, obviamente, pode estar errado. Muitas vezes está, e há coisas que as pessoas escrevem sem pensar, sem dúvida, mas isso faz parte da essência momentânea das redes sociais. São pessoas muito robotizadas. Mesmo aquelas respostas de escolha múltipla, de cruzinhas, é absolutamente negativo. Porque depois elas não sabem escrever duas frases, é uma cruzinha e pronto. Isso é muito fácil depois de corrigir e muito prático para os professores. O difícil é ler o que eles escrevem. Sou uma otimista com os pés no chão. Realista. Porque milagres não espero, nem acredito neles. Gostaria de ser otimista, mas tenho muitas, muitas interrogações. Não sei para onde vamos, para onde o mundo caminha. Obviamente que isso me preocupa. Tenho esperança que prevaleça o bom senso, o senso comum, que não estou a ver. Mas é uma esperança, não é uma certeza. Somos frágeis e como de um momento para o outro podemos desaparecer e isso fez-me valorizar muito mais o momento presente e viver ao máximo cada dia que passa. Pensamento da escritora portuguesa Teolinda Gersão. Veja mais aqui & aqui.

ALGUÉM FALOU: Toda a capacidade de compreender está enraizada na capacidade de dizer não. Faça coisas. Seja curiosa, persistente. Não espere por um empurrão da inspiração ou por um beijo da sociedade na sua testa. Preste atenção. É tudo sobre prestar atenção. É tudo sobre captar o máximo que você puder do que está por aí e não deixar que desculpas e que a monotonia de algumas obrigações diminuam sua vida. Atenção é vitalidade. Conecta você com os outros. As únicas respostas interessantes são aquelas que destroem as perguntas. A inteligência é uma espécie de paladar que nos dá a capacidade de saborear ideias. Literatura é liberdade. Minha biblioteca é um arquivo de anseios. Para escrever, você deve se autorizar a ser a pessoa que você não quer ser (de todas as pessoas que você é). Ainda não fui a todo o lado, mas está na minha lista. Pensamento da escritora, ensaísta, crítica social e ativista estadunidense Susan Sontag (1993-2004). Veja mais aqui.

A VIDAA vida é como um fermento, uma levedura que se move por um minuto, uma hora, um ano, um século, um milênio, mas que por fim terá paralisado os movimentos. Para manter-se em movimento, o grande come o pequeno. Para manter-se forte, o forte come o fraco. O que tem sorte prolonga o seu movimento por mais tempo - eis tudo. Eu preferiria ser cinzas do que pó! Eu preferiria que a minha faísca queimasse em uma chama brilhante do que ser reprimido pela podridão-seca. Eu preferiria ser um meteoro soberbo, cada átomo meu em um brilho magnífico, do que um planeta sonolento e permanente. A função própria do homem é viver, não existir. Não vou desperdiçar meu tempo em tentar prolongá-lo. Usarei o meu tempo. A idade nunca é tão antiga quanto a juventude a mede. Você pode se livrar das pessoas, porém elas marcam você até nas menores coisas. Eu não vivo para o que o mundo pensa de mim, mas para o que eu penso de mim mesmo. Pensamento do escritor, jornalista e ativista estadunidense Jack London (1876-1916). Veja mais aqui.

LITERATURA DO EXÍLIO – [...] Quando a partida para o estrangeiro não é voluntária, mas imposta como banimento, e a estada além-fronteiras, degredo definitivo, a reação diagnosticada na carta persa inclui-se num longo rol de sintomas que transcendem a metáfora satírica. E alinham-se, todos, de forma evidente ou mal dissimulada, como indícios de um mal maior – o mal do exílio. [...]. Trecho extraído da obra Os males da ausência ou a literatura do exílio (Topbooks, 1998), da escritora e professora Maria José de Queiroz, englobando a história humana e o seu percurso pelos círculos do inferno que são o desterro da pátria, a estada em terras estrangeiras e os males todos da ausência, refazendo um longo itinerário - das várias diásporas dos judeus, do êxodo ao holocausto de 39-45, dos trágicos gregos de Odisseu (de Homero), de Ovídio e Séneca a Dante, de Madame de Staël, sob Napoleão, o Grande, a Victor Hugo, sob Napoleão, o Pequeno, de Camões a Du Bellay, de Voltaire e Rosseau a Nabokov e a Brodski, passando pela República de Weimar, pela Alemanha exilada pelo nazismo.


A MOÇA QUE BATEU NA MÃE E VIROU CACHORRA

Rodolfo Coelho Cavalcanti

Vou contar mais um exemplo
Dentro da realidade,
Pois toda alma descrente
Vive na obscuridade,
Tem um vácuo coração
Condena a religião
Com toda incredulidade.

Helena Matias era
Filha de uma religiosa,
Dona Matilde – mãe dela
Alma santa e virtuosa
Porem ela ao contrário
Era um falso relicário
Tipo mesmo vaidosa.

Em Canindé, Ceará
Deu-se esta narração
Helena Matias Borges
Foi transformada num cão
Por sua língua ferina
Transformou sua sina
Num mais horrível dragão.

Helena de vez em quando
Dava uma surra na mãe dela
Quando a velha reclamava
Um qualquer malfeito, ela
Com isso se aborrecia
Na pobre velha batia
Até que virou cadela.

Era uma sexta-feira santa,
Conhecida da paixão,
Helena disse à mãe dela:
- Quero me virar num cão
Se esta tal sexta-feira
Da paixão não é besteira
Da nossa religião.;

- Não diga isso, minha filha,
Que é arte do anticristo
Sexta-feira da paixão
Relembra o sangue de Cristo
Que por nós foi derramado!...
Disse Helena: - Isto é gozado....
Tudo é bobagem, está visto.

- Helena por Deus te peço
Não zombes do salvador
- Minha mãe, barriga cheia,
É algo superior...
Tudo isso são bobagens,
Cristo, padre, Deus, imagem,
Para mim não tem valor.

Na hora que gente nasce
Chora logo pra comer...
Eu quero comer jabá
Só se eu ouvisse Deus dizer:
“Helena não coma isto!”
Eu que não conheço Cristo
Nunca ouvi nem posso crer.

Quando Matilde, a mãe dela
Foi aconselhar Helena,
Esta deu-lhe uma bofetada
Sem piedade, nem pena
Que a velha caiu chorando
E a deus foi suplicando
Numa praga pequena.

- Tenho fé, filha maldita
Na santa virgem Maria,
Em todos santos do céu,
Que hás de virar um dia
Numa cachorra indolente
Para saberes, serpente
Que uma mãe tem valia.

Uma rajada de vento
Passou feito um furacão
Um raio caiu bem perto
Com o ribombar do trovão
A terra toda tremeu
Logo o sol apareceu
Dois segundos na amplidão.

Helena sempre a zombar
Se pôs a carne a comer
Vendo a mãe dela chorando
Queria mais lhe bater
Mas a justiça divina
Mostrou á filha assassina
O seu supremo poder.

Dona Matilde se pôs
Naquele instante a rezar
Uma tempestade horrorosa
Caiu ali sem esperar,
Chuvas, faíscas e ventos
Com elevado pensamento,
Foi à filha aconselhar.

Helena continuava
Fazendo profanação
Comia mais por despeito
A tal carne do sertão
E disse para a mãe dela:
- Deus me vire uma cadela
Se é que ele existe ou não?

Quando Helena disse isso
O rosto todo mudou
E cauda como cadela
A moça se transformou...
Uma cachorra horrorosa
Espumando e furiosa
Naquela hora ficou.

Tinha cabeça de gente
Com a mesma feição dela
Mas o corpo até a cauda
Era uma terrível cadela...
Foi Helena castigada
Uma filha amaldiçoada
O castigo pegou nela.

Ali dentro do Canindé
A noticia se espalhou
A cachorra nesta hora
Muita gente estraçalhou
Ninguém pode matar
Cercaram para pegar
Porem ninguém a pegou.

O animal furioso
Horrível, endemoninhado,
Passou pra Pernambuco
Feito um lobo esfomeado...
Foi visto em Juazeiro
Quase matando um romeiro
De padre Cicero sagrado!

Há uns três anos passados
A tal cachorra assassina
Quase mata uma criança
Na cidade de Petrolina,
Voltou de novo a Cocal
E na estrada de Sobral
Mordeu uma pobre menina.

Em janeiro deste ano
Ela esteve na Bahia
Passou perto de Tucano
Desceu a Santa Luzia,
Passou pelo Jacuipe,
Depois chegou a Sergipe
Fazendo a mesma agonia.

Dizem que ela sempre ataca
Quando a noitinha aparece
Tem a cabeça de moça
Assim no mundo padece
Tendo o corpo de cachorra
Vive ela numa masmorra
Da mãe dela não esquece.

Duas vezes que ela foi
A zona do seu sertão
Para pedir à mãe dela
Seu sacrossanto perdão,
Com o padre se avista
E diz que ela resista
Se quer ter a salvação.

A penitencia da moça
É vinte anos sofrendo
Por isso que ela padece,
Uivando, se maldizendo
Pegando de noite gente
É uma cachorra valente
Que a anos vem aparecendo.

Afirmam que ela já foi
Há pouco desencantada
Mas é boato, pois, já
Neste mês foi avistada
No sertão de Água-Bela
E é a mesma cadela
Do Ceará encantada.

A toda moça aconselho:
- Tenha juízo bastante,
Uma mãe é pra cem filhos,
Diz o adágio importante,
Zombar de mãe é espeto
Quem escreveu o folheto
Foi Rodolfo Cavalcante.

RODOLFO COELHO CAVALCANTE – o jornalista, poeta e trovador alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante (1917-1986) foi palhaço e camelô fazendo propagandas nas portas das lojas, membro de várias associações literárias e fundou alguns periódicos como “A voz do trovador”, “O trovador” e “Brasil poético”. Criou as agremiações, contam-se a Associação Nacional de Trovadores e Violeiros (ANTV) e o Grêmio Brasileiro de Trovadores (GBT). Também participou e organizou congressos de poetas populares. Fixou-se em Salvador, Bahia, onde publicou e vendeu os seus folhetos. Viveu de biscates e trambiques quando foi capturado por Lampião, sendo liberado pela sua insignificância. É autor, entre outros, dos seguintes: “O barulho de Lampião no inferno”; “A chegada de Lampião no céu”; “A chegada de Lucas da Feira no inferno”; “O encontro de Guabiraba com Lampião”; “O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino”; “Lampião e seus cangaceiros”. Sua produção literária alcança número superior a 270 folhetos. Ele foi objeto de tese universitária na Universidade de Sorbonne, escrita por Martine Kunz, denominada Rodolfo Cavalcante poète populaire du Nord-Est Brésilien.

FONTES:
ABREU, Márcia. História de cordéis e folhetos. Campinas: Mercado de Letras, 1999.
ALMEIDA, Mauro William Barbosa de. Folhetos - A literatura de cordel no NE brasileiro.. São Paulo: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, USP, vol. 1, 1979.
BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977.
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. Cordel. São Paulo: Hedra, 2003.
CARDOSO, Tania Maria de Sousa; Elementos para uma biografia de José Pacheco e Rodolfo Coelho. Natal: UERN, s/d.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global Editora, 2002.
CURRAN, Mark. J. A presença de Rodolfo Coelho Cavalcante – cordel. Porto Alegre: Nova Fronteira, 1987.
LOPES, Ribamar (org.). Literatura de cordel — Antologia. Fortaleza, Ministério do Interior/Banco do Brasil, 1983.

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