UMA TAPA & A HONRA ENGASGADA NA MEMÓRIA –
Imagem: arte do pintor, desenhista, artista gráfico e ilustrador belga Jules De Bruycker (1870-1945). - Mais
de trinta anos separavam Terdílio e Disonaldo. O reencontro foi festivo,
abraços, lorotas, humilhações mútuas ressaltando a esperteza de um sobre o
outro, viradas de copos, cada qual mais ufano pela enrolada na leseira do
parceiro, dois bicudos que não se beijavam, mas que se consideravam por conta
das estripulias da juventude. Disonaldo humilhava o amigo revelando as dedadas,
os desacertos, molecagens e trapalhadas do Terdílio que à época, apesar de tão
franzino quase tísico, não abria nem prum trem na horagá da arenga. Quanto mais
Disonaldo gastava soberba, Terdílio relevando, riso tímido, todo na sua, bebericando
de leve e exaltando as astúcias do metido, até a hora que o sabido lembrou De uma
tapa dada por ele e guardada na memória. Tapa? Sim, lembra? Tapa? Isso mesmo, você
me deu uma tapa da porra! Lembro não. Realmente, Terdílio não lembrava disso,
puxando no passado, franzindo o cenho e estranhando a existência do fato. Você deve
já estar bêbado, lembro disso não, reiterou. Ah, quem dá não se lembra, quem
leva nunca esquece. E sorriram desancando um ao outro pelas presepadas. Lá pras
tantas, depois de muita mangação, Terdílio se despediu e prometeu tomarem umas outras
juntos em breve, agora precisava ir pra casa arrumar as coisas que ainda estavam
aos monturos pela mudança recente de endereço. A despedida, abraços afetuosos e
compromisso asseverado de novo encontro. Quando Terdílio deu as costas, Disonaldo
ficou remoendo e virando copo atrás de gole: a tapa não lhe saía engasgada na
ideia. Dois dias depois, lá ia Terdílio sóbrio voltando pra casa, quando dá de
frente com Disonaldo completamente embriagado: meu amigo, pronde vai? Pra casa,
ainda estou ajeitando as coisas da mudança. Vamos tomar uma! Não dá, agora não,
mas no final de semana a gente emenda os bigodes numa cachaçada boa. É bom
mesmo, não se esqueça da tapa, você me deve! Que tapa? Não se lembra mesmo?
Não! Oxe, você deu uma tapa da porra! Lembro disso não. Destá, final de semana
a gente relembra tomando uma. Dias depois, lá ia Terdílio com o pão pro jantar
e Disonaldo trocando as pernas quase desequilibrado na calçada, atravessou seu
caminho: Meu amigo, vamos tomar uma! Tenho que levar a comida pro jantar, final
de semana a gente toma todas! Você está me enrolando! Estou não, ainda não
arrumei tudo em casa por causa da mudança, mas desse final de semana não passa.
Aos abraços se despediram e Disonaldo ficou maquinando, aos tombos seguiu os
passos do Terdílio, perdeu de vista, desgraçado, dali então, todos os dias no
encalço, a tapa, a pinga, a meiota, a lavada com a cerveja, o juízo se
apertando, a tapa desajustando tudo, outra lapada, meiota, litro e meio, duas cervejas
lavando o sangue e a sobriedade, trôpego, meio lá meio cá, equilibrista a
pulso, meteu a mão nos bolsos: Eita! só mixaria. Cadê meu dinheiro? Será que o
porra do Terdílio tomou meu dinheiro e eu não vi, ele me paga, ah, vai me pagar
dobrado, a tapa e meus trocados que ele embolsou e eu não, filho da puta! O dia
amanheceu e pela primeira vez o primeiro pensamento de Disonaldo foi Terdílio:
Danou-se! Sonhei a noite toda com esse porra! Acordo com ele no meu juízo! Que
droga é essa? Remexeu os bolsos, não havia nada. Foi até a gaveta da
petisqueira, tinha algumas cédulas, pegou o cartão do banco, foi até o caixa do
atendimento automático, errou a senha: O filho da puta do Terdílio já me roubou
a senha? Pode não! Refez a operação, saíram cédulas, tudo certo. Dinheiro pra
ele era só pra beber, comer e cagar, mais nada. Isso mesmo: beber, comer e
cagar! Serve para mais alguma coisa? Serve sim, para eu pegar Terdílio e vingar
da tapa e de todo prejuízo que ele me casou esses anos todos. Ah, vou foder a
alma do Terdílio, ah, se vou! Destá. Saiu decidido. Encheu o copo com a
aguardente, era seu desjejum. Virou uma meiota de vez, pediu uma cerveja, bebeu
no gargalo, trocou os olhos, dor de cabeça da peste, engasgou-se, tossiu, bateu
na caixa dos peitos, manda outra! Virou a garrafa todinha goela adentro,
apertou a vista, tudo estreito, tudo em dupla, olhou pras mãos: não tremiam. Agora
estava no ponto, pronto pro que desse e viesse. Ao virar a esquina, deu de cara
com o amigo desafeto. Eita! Teve um troço, foi bater no hospital, três dias em
coma, ao acordar-se: Que é que estou fazendo aqui? Dê graças a Deus ao seu amigo
ter-lhe salvado a tempo, senão hoje era mais um prestes a ser homenageado com
missa de sétimo dia. Eita! Mais uma? Esse filho de uma quenga me paga! © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
sexta-feira, outubro 06, 2017
BRECHT, JACK LONDON, NOAM CHOMSKY, JULES DE BRUYCKER & BIBLIOTECA FENELON BARRETO
UMA TAPA & A HONRA ENGASGADA NA MEMÓRIA –
Imagem: arte do pintor, desenhista, artista gráfico e ilustrador belga Jules De Bruycker (1870-1945). - Mais
de trinta anos separavam Terdílio e Disonaldo. O reencontro foi festivo,
abraços, lorotas, humilhações mútuas ressaltando a esperteza de um sobre o
outro, viradas de copos, cada qual mais ufano pela enrolada na leseira do
parceiro, dois bicudos que não se beijavam, mas que se consideravam por conta
das estripulias da juventude. Disonaldo humilhava o amigo revelando as dedadas,
os desacertos, molecagens e trapalhadas do Terdílio que à época, apesar de tão
franzino quase tísico, não abria nem prum trem na horagá da arenga. Quanto mais
Disonaldo gastava soberba, Terdílio relevando, riso tímido, todo na sua, bebericando
de leve e exaltando as astúcias do metido, até a hora que o sabido lembrou De uma
tapa dada por ele e guardada na memória. Tapa? Sim, lembra? Tapa? Isso mesmo, você
me deu uma tapa da porra! Lembro não. Realmente, Terdílio não lembrava disso,
puxando no passado, franzindo o cenho e estranhando a existência do fato. Você deve
já estar bêbado, lembro disso não, reiterou. Ah, quem dá não se lembra, quem
leva nunca esquece. E sorriram desancando um ao outro pelas presepadas. Lá pras
tantas, depois de muita mangação, Terdílio se despediu e prometeu tomarem umas outras
juntos em breve, agora precisava ir pra casa arrumar as coisas que ainda estavam
aos monturos pela mudança recente de endereço. A despedida, abraços afetuosos e
compromisso asseverado de novo encontro. Quando Terdílio deu as costas, Disonaldo
ficou remoendo e virando copo atrás de gole: a tapa não lhe saía engasgada na
ideia. Dois dias depois, lá ia Terdílio sóbrio voltando pra casa, quando dá de
frente com Disonaldo completamente embriagado: meu amigo, pronde vai? Pra casa,
ainda estou ajeitando as coisas da mudança. Vamos tomar uma! Não dá, agora não,
mas no final de semana a gente emenda os bigodes numa cachaçada boa. É bom
mesmo, não se esqueça da tapa, você me deve! Que tapa? Não se lembra mesmo?
Não! Oxe, você deu uma tapa da porra! Lembro disso não. Destá, final de semana
a gente relembra tomando uma. Dias depois, lá ia Terdílio com o pão pro jantar
e Disonaldo trocando as pernas quase desequilibrado na calçada, atravessou seu
caminho: Meu amigo, vamos tomar uma! Tenho que levar a comida pro jantar, final
de semana a gente toma todas! Você está me enrolando! Estou não, ainda não
arrumei tudo em casa por causa da mudança, mas desse final de semana não passa.
Aos abraços se despediram e Disonaldo ficou maquinando, aos tombos seguiu os
passos do Terdílio, perdeu de vista, desgraçado, dali então, todos os dias no
encalço, a tapa, a pinga, a meiota, a lavada com a cerveja, o juízo se
apertando, a tapa desajustando tudo, outra lapada, meiota, litro e meio, duas cervejas
lavando o sangue e a sobriedade, trôpego, meio lá meio cá, equilibrista a
pulso, meteu a mão nos bolsos: Eita! só mixaria. Cadê meu dinheiro? Será que o
porra do Terdílio tomou meu dinheiro e eu não vi, ele me paga, ah, vai me pagar
dobrado, a tapa e meus trocados que ele embolsou e eu não, filho da puta! O dia
amanheceu e pela primeira vez o primeiro pensamento de Disonaldo foi Terdílio:
Danou-se! Sonhei a noite toda com esse porra! Acordo com ele no meu juízo! Que
droga é essa? Remexeu os bolsos, não havia nada. Foi até a gaveta da
petisqueira, tinha algumas cédulas, pegou o cartão do banco, foi até o caixa do
atendimento automático, errou a senha: O filho da puta do Terdílio já me roubou
a senha? Pode não! Refez a operação, saíram cédulas, tudo certo. Dinheiro pra
ele era só pra beber, comer e cagar, mais nada. Isso mesmo: beber, comer e
cagar! Serve para mais alguma coisa? Serve sim, para eu pegar Terdílio e vingar
da tapa e de todo prejuízo que ele me casou esses anos todos. Ah, vou foder a
alma do Terdílio, ah, se vou! Destá. Saiu decidido. Encheu o copo com a
aguardente, era seu desjejum. Virou uma meiota de vez, pediu uma cerveja, bebeu
no gargalo, trocou os olhos, dor de cabeça da peste, engasgou-se, tossiu, bateu
na caixa dos peitos, manda outra! Virou a garrafa todinha goela adentro,
apertou a vista, tudo estreito, tudo em dupla, olhou pras mãos: não tremiam. Agora
estava no ponto, pronto pro que desse e viesse. Ao virar a esquina, deu de cara
com o amigo desafeto. Eita! Teve um troço, foi bater no hospital, três dias em
coma, ao acordar-se: Que é que estou fazendo aqui? Dê graças a Deus ao seu amigo
ter-lhe salvado a tempo, senão hoje era mais um prestes a ser homenageado com
missa de sétimo dia. Eita! Mais uma? Esse filho de uma quenga me paga! © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.segunda-feira, dezembro 07, 2015
CHOMSKY, CASCUDO, BABENCO, PÊRA, RABICHO DA GERALDA & MUITO MAIS!
A RESPONSABILIDADE DO
ESCRITOR – No livro Notas sobre anarquismo (Imaginário/Sedição,
2004), do filosofo e ativista
político norte-americano, Noam Chomsky, encontro que: A
responsabilidade do escritor como um agente moral é tentar apresentar a verdade
sobre assuntos de significância humana para um publico que poder fazer alguma
coisa a respeito. Isso é parte do que significa ser um agente moral ao invés de
um monstro [...] Ao brigarmos contra
todos deixamos que vençam os piores [...] As ideias sobreviveram (ou foram reinventadas) de várias formas na
cultura da resistências às novas formas de opressão, servindo como uma visão
animadora para as lutas populares que expandiram, consideravelmente, o alcance
da liberdade, justiça e direitos [...] Pode-se
perguntar qual é o valor de se estudar uma tendência definida do
desenvolvimento histórico humano que não articula uma teria social detalhada e
especifica. De fato, muitos críticos desconsideram o anarquismo por o acharem
utópico, sem forma, primitivo ou incompatível com as realidades de uma
sociedade complexa. No entanto, pode-se argumentar diferentemente: que em todo
estágio da história, nossa preocupação deve ser desmantelar as formas de
autoridade e opressão, que sobrevivem de uma época que podem ter sido
justificadas pelas necessidades de segurança, sobrevivência ou desenvolvimento
econômico, mas que agora contribuem para – ao invés de aliviar – a deficiência
cultural e material. Neste caso, não existirá doutrina de mudança social fixa
no presente e no futuro, nem mesmo, necessariamente, um conceito imitável e
especifico dos objetivos de mudança social deva visar. Certamente, nossa
compreensão da natureza do homem ou das possibilidades de longo alcance deve
ser tratada com grande ceticismo, exatamente como nos tornamos céticos quando
ouvimos que a natureza humana ou as exigências de eficiência ou a complexidade
da vida moderna exigem essa ou aquela forma de opressão e regra autocrática. [...]
Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
QUIRINO, VAQUEIRO DO REI – No livro Contos tradicionais (América, 1972), do historiador, antropólogo,
advogado e jornalista Luís da Câmara
Cascudo (1898-1986), encontro a história de Quirino, vaqueiro do rei: Era uma vez um rei que possuía muitas
fazendas de gado entregues a vaqueiros de confiança. Uma das melhores
propriedades era confiada ao negro Quirino, que tinha fama de não mentir. O rei
vivia gabando o vaqueiro, apontando-o como modelo de veracidade. Essa opinião
despertava inveja entre os fidalgos e um deles, rico e poderoso, resolveu
acabar com a celebridade moral de Quirino, vaqueiro do rei. Na fazenda de que
Quirino se encarregava, o orgulho do rei era um boi barroso, bonito como não
havia outro. Cada ano o vaqueiro ia até a casa do rei prestar contas. Chegava,
riscando o cavalo e dizia por aqui assim: — Pronto, meu amo! Aqui está Quirino,
vaqueiro do rei! O rei perguntava: — Como vai, Quirino? — Com a graça de Deus e
o favor do meu amo! — A obrigação? — Em paz e a salvamento. — As vacas? — Umas
gordas outras magras. — O boi barroso? — Vai forte, valente e mimoso! O fidalgo
disse ao rei que Quirino era capaz de mentir. O rei repeliu a ideia. — Vamos
apostar, majestade? — Pois vamos! Dez fazendas de gado, cem touros escavadores
e duzentas vacas leiteiras com chifres dourados? — Está apostado! O fidalgo
tinha uma filha muito bonita, chamada Rosa. Chamou a moça e contou a aposta.
Por dinheiro, Quirino não peca. Com ameaça, Quirino não peca. Abaixo de Deus, a
mulher pode com tudo que tem fôlego. Rosa se vestiu como uma mulher do povo e
foi até a fazenda onde estava o boi barroso. Encontrou Quirino e conversou com
ele, fazendo tanto trejeito, dando tanta volta no corpo que o vaqueiro ficou
alvoroçado e se apaixonou por ela. Ficaram muitos meses vivendo juntos, andando
para lá e para cá, no serviço do campo. Numa manhã Rosa disse: — Quirino, você
gosta de mim? — Como demais... — Quer bem ao seu filhinho que vai nascer? —
Mais do que a luz do dia! — Pois se não quiser que seu filho morra, mate o boi
barroso que eu quero comer o fígado bem assadinho... Quirino ficou assombrado
mas obedeceu. Matou o boi barroso e a mulher comeu o fígado assado. Dias depois
era o tempo de o vaqueiro ir até a presença do rei. Rosa mandou dizer ao seu
pai que o boi barroso fora morto. Quirino vestiu a véstia de couro, perneiras,
gibão, guarda-peito, calçou o guante, pôs o chapéu na cabeça, passou o
barbicacho, montou no cavalo de confiança e galopou para a casa do rei. Foi
viajando e pensando. Finalmente avistou o palácio e parou o cavalo. Que ia
dizer ao rei? Era melhor preparar a conversa. Deu de rédeas, andou uns passos,
riscou o cavalo e disse: — Chego e digo assim: "Pronto senhor meu amo!
Aqui está Quirino, vaqueiro do rei!" Ele diz: "Como vai,
Quirino?" Eu respondo: "Com a graça de Deus e o favor do meu
amo!" "Obrigação?" "Em paz e a salvamento!" "As
vacas?" "Umas gordas outras magras!" "E o boi
barroso?" Eu faço que estou triste e digo: "Saiba el-rei meu senhor
que o boi barroso saltou um serrote e quebrou o pescoço..." Interrompendo-se,
falava alto, indignado: — Isso não é palavra de Quirino, vaqueiro do rei! —
Posso dizer que o boi barroso ia passando o açude e se afogou. Só pude salvar o
couro. — Isso não é palavra de Quirino, vaqueiro do rei! E, chega-não-chega no
pátio do palácio do rei, Quirino resolveu a questão. Pulou do cavalo, amarrou-o
subiu as escadas, pediu para falar ao rei. Entrou na sala e o rei estava com o
dito fidalgo que fizera a aposta, todo satisfeito, certo de ganhar. — Pronto,
meu amo! — Como vai, Quirino? — Com a graça de Deus e o favor do meu amo! — A
obrigação? — Em paz e a salvamento! — As vacas? — Umas magras e outras gordas! —
E o boi barroso? — Saiba o senhor meu amo que o boi barroso deu o fígado para o
meu filhinho não morrer! — Que história é essa, Quirino? Quirino contou toda a
história e, quando terminou, disse: — Assim é que fala Quirino, vaqueiro dor
Rei! O fidalgo ficou preto de vergonha. O rei findou dizendo: — Quirino,
vaqueiro do rei, o que eu ganhei na aposta com esse amigo é o dote para casares
com a mãe do teu filhinho... O que estava feito, estava feito. Quirino casou
com Rosa e foram felizes como Deus com os anjos. Veja mais aqui e aqui.
O RABICHO DA GERALDA – No livro Cancioneiro do norte
(Conselho Estadual de Cultura, 1928), de Rodrigues de Carvalho (1867-1936),
encontro o poema em cordel O rabicho da Geralda: Sou o boi liso, rabicho,/ Boi de fama, conhecido, / Minha senhora
Geralda / Já me tinha por perdido. / Era minha fama tanta, / Nestes sertões
estendida... / Vaqueiros vinham de longe / Pra me tirarem a vida. / Onze anos
morei eu / Lá na serra da Preguiça, / Minha senhora Geralda / De mim não tinha
notícia. / Morava em cima da serra, / Naqueles altos penhascos, / Só davam
notícias minhas / Quando me viam os rastos. / Ao cabo de onze anos / Saí na
Várzea do Cisco, / Por minha infelicidade / Por um caboclo fui visto. / Quando
o caboclo me viu / Saiu por ali aos topes, / Logo foi dar novas minhas / Ao
vaqueiro José Lopes. / Quando o caboclo chegou / Foi com grande matinada: / -
Oh! José Lopes, eu vi / O rabicho da Geralda. / Estava na Várzea do Cisco / C’um
magotinho de gado, / Lá na pontinha de cima, / Onde entra pra talhado. / José
Lopes chamou logo / Por seu filho Antonio João: / "Vá buscar o barbadinho,
/ "E o cavalo tropelão. / "Diga ao senhor José Gomes / "Que
traga sua guiada / "E venha pronto pra irmos / "Ao rabicho da
Geralda". / Chegados eles que foram, / Montaram, fizeram linha, / A quem
eles encontravam / Perguntavam novas minhas. / Encontrando Zé Tomás, / Que
vinha lá da Queimada... / "Camarada, dá-me novas / "Do rabicho da
Geralda?" / - Ainda mesmo que eu visse, / Eu não daria passada, / Pois
será muito o trabalho, / E o lucro não será nada. / - Não senhor, meu camarada,
/ A coisa está conversada: / A dona mesmo me disse / que desse boi não quer
nada. / Uma das bandas e o couro / Fica pra nós de bocório; / A outra vai se
vender / Pras almas do purgatório. / Despediram-se uns dos outros, / No carrasco
se internaram, / Caçaram-me todo o dia / Porém não me alcançaram. / Deram de
marcha pra casa, / Já todos mortos de fome, / Foram comer um bocado / Na casa
do José Gomes. / Passados bem cinco dias, / Estando eu na ribanceira, / Quando
fui botando os olhos, / Vejo vir Manuel Moreira. / Um dos vaqueiros de fama / Que
naquele tempo havia, / Que muita gente supunha / Só ele me pegaria. / Olhei
para o outro lado, / Para ver se vinha alguém: / Divisei Manuel Francisco / E
seu sobrinho Xerém. / Fui tratando de correr / Pelo lugar mais fechado, / Quando
o Moreira gritou-me / Aos pés juntos, enrabado, / Corra, corra, camarada, / Pise
seguro no chão, / Que hoje sempre dou fim / Ao famanaz do sertão. / Tiremos uma
carreira / Assim por uma beirada; / Eu mesmo desconfiei / Do rabicho da
Geralda. / Mais adiante pus-me em pé / Para ver o zuadão: / Enxerguei Manuel
Francisco / Caído num barrocão. / Estive ali muito tempo, / Ali posto e
demorado; / A resposta que me deram / Foi dizer: vai-te malvado! / Toda vida
terei pena / De correr atrás de ti; / Bem me basta minha faca, / E minha esposa
que perdi! / Daí seguiu para trás / Ajuntando o que era seu, / E juntamente
caçando / O Xerém, que se perdeu. / Nesse tempo tinha ido / A Pajeú ver um
vaqueiro; / Dentre muitos que lá tinha, / Viera o mais catingueiro. / Este veio
por seu gosto, / Trazendo sua guiada, / E desejava ter encontro / Com o rabicho
da Geralda. / Chamava-se Inácio Gomes, / Era cabra curiboca, / O nariz
achamurrado / Cara cheia de pipoca. / Na fazenda da Concórdia, / Chegou ele a
uma hora; / Muita gente já dizia: / O rabicho morre agora. / Dizia que pra
matar-me / Não precisava de mais: / Bastava dar-me no rasto / De oito dias
atrás. / Deram-lhe então um guia / Que bem soubesse do pasto, / E que também
conhecesse / Dentre todos o meu rasto. / Onze dias me caçaram / Com grande
empenho e cuidada: / Não puderam descobrir / Nem novas e nem mandado. / Passados
os onze dias / Lá no Riacho do Agudo, / Quando fui botando os olhos, / Vi o
cabra topetudo. / Disse o guia me avistando: / - Venha ver, meu camarada, / Eis
ali o boi de fama, / O rabicho da Geralda. / Bem cedo, ao sair do sol, / Vimo-nos
de cara a cara, / E nos primeiros arrancos / Logo lhe caiu a vara. / Ele disto
não fez caso, / Relho ao cavalo chegou / E em poucas palhetadas / Bem pertinho
me gritou: / - Corra, corra, camarada, / Puxe bem pela memória / Que não vim da
minha terra / Para vir contar estória. / Gritou-me da outra banda / O senhor
guia também: / - Tu cuidas que sou Moreira, / Ou seu sobrinho Xerém? / Tinha um
pau atravessado / Na passagem dum riacho: / O cabra passou por cima / E o
cavalo por baixo. / Segui a meia carreira, / No meu correr costumado, / E antes
de meia légua, / Ambos já tinham ficado. / Pôs-se o cabra topetudo / A pensar o
que faria, / E quando chegasse em casa / Que estória contaria!... / Na fazenda
da Botica / Tinha gente em demasia, / Esperando ter notícia / Do rabicho nesse
dia. / Perguntou José de Góis, / Morador no Carrapicho: / - Amigo, seja
benvindo! / Dá-me novas do rabicho? / - Eu o vi, mas não fiz nada, / Pois nunca
vi correr tanto, / Como esse boi, o rabicho, / É coisa que causa espanto! / -
Nesta terra eu não vejo / Quem o pegue pelo pé, / Aquele morre de velho / Ou de
cobra cascavel. / Respondeu José de Góis, / Morador no Carrapicho: / - Eu pelos
olhos conheço / Quem dá voltas ao rabicho. / - Já anda em dezoito anos / Que Zé
Lopes o capou, / Era ele então garrotinho, / Por isso foi que pegou. / Foi-se o
cabra topetudo / E não sei se lá chegou, / Só sei é que ele foi / Com os beiços
com que mamou. / Chega enfim - noventa e dois - / Aquela seca comprida; / Logo
vi que era a causa / De eu perder a minha vida. / Secaram-se os olhos d’água, /
Não tive onde beber, / E botei-me aos campos grandes / Já bem disposto a
morrer. / Desci por uma vereda / E disse: esta me socorra; / Quando quis cuidar
em mim / Estava numa gangorra. / Fui à fonte beber água, / Refresquei o
coração! / Quando quis sair não pude, / Tinham fechado o portão. / Corri logo a
cerca toda / E sair não pude mais: / Quem me fez prisioneiro / Foi apenas um
rapaz. / Este saiu às carreiras, / E, vendo um seu camarada, / Gritou logo: já
está preso / O rabicho da Geralda. / Espalhando-se a notícia, / Correram todos
a ver, / E vinham todos gritando: / O rabicho vai morrer! / Trouxeram três
bacamartes, / Todos três me apontaram, / Quando dispararam as armas, / Todas
três me traspassaram! / Ferido caí no chão! / Saltaram a me pegar / Uns nos
pés, outros nas mãos, / Outros para me sangrar! / Disse então um dentre eles: /
- Só assim, meu camarada, / Nós provaríamos todos / Do rabicho da Geralda / Assim
findo-se este drama, / Tudo assim se findará, / Como este boi, nesta terra / Não
houve, nem haverá. Veja mais aqui e aqui.
BAND-AID ATÉ XANADU – A trajetória da belíssima atriz de teatro, cinema
e televisão Danielle Winits, começou
quando ele resolveu fazer cursos de balé, artes e interpretação. No teatro,
atuou em diversos musicais, destacando-se como bailarina e cantora. Iniciou
sua carreira na televisão em 1993, na minissérie Sex Appeal e, no teatro sua
estreia se deu no ano seguinte, com a peça musical Band-Aid, e no cinema sua primeira atuação aconteceu em 1999, com
o longa-metragem Até que a vida nos separe. Depois vieram as peças teatrais A
volta de Chico Mau (1996), Cabaret Brazil (1998), Relax, it’s sex (1999),
Lancelot (1999), Meu amor: você perfeita, agora muda (2002), Amo-te (você nunca
amou alguém assim) (2005), Chicago (2005), Hairspray (2009) e Xanadu (2012).
Com uma carreira dedicada ao teatro, ao cinema e à televisão, a atriz ganhou prestígio e tem se mantido na arte, incluindo, programas de humor, projetando com firmeza e competência uma carreira consagrada de sucesso e firmando seu nome entre as mais importantes atrizes da atualidade. Veja mais aqui.
CORAÇÃO ILUMINADO – O drama autobiográfico Coração
iluminado (Corazón iluminado, 1998), do cineasta Hector Babenco, conta a história das mágoas e catarse de um
argentino na década de 1960, que vive um romance intenso e tumultuado com uma
mulher neurótica e passional. A relação conflituosa com o pai e a vocação
artística levam-no a deixar o país para estudar cinema e realizar um pacto
suicida com a namorada. Vinte anos depois ele regressa à cidade e se envolve
com uma mulher madura que incorpora o amor adolescente. O destaque do filme é
duplo para as atrizes: a lindíssima Maria
Luísa Mendonça e Xuxa Lopes.
Veja mais aqui.segunda-feira, novembro 03, 2014
ALICE MUNRO, JULIETA PAREDES, NIETZSCHE, ÁGNES HELLER, ADMMAURO & MARY ASTOR
O SEGREDO DA PITONISA - O endereço era aquele, sim o que me havia sido indicado. Toquei a campainha e aguardei na sacada. A portinhola abriu-se, percebi o vulto e ouvi o ruído na fechadura. A porta abriu-se e logo a ordem de uma voz feminina para que eu entrasse. Estava tudo escuro, entrei mesmo assim e a pessoa escondida atrás da porta ordenou-me ao sofá. Não dava pra ver direito, segui a intuição. Esbarrei numa poltrona e acomodei-me enquanto percebia o fechamento de postigos e uma leve centelha mostrou-me quem me recepcionara. Fez um sinal de que reconhecera a minha presença e concedeu-me a graciosa inclinação de cabeça. Vi-lhe a face e traduzia a magia velada e oculta da Lua, sua pele reluzia com o frescor do jardim do Éden. Emergiu com um sorriso breve e encantador entre a cortina sustentada por dois pilares de Salomão. Sentou-se na poltrona: uma nubívaga fitando-me profundamente. Aqueles olhos misteriosos possuíam uma graça inenarrável, um ar de nefelibata, vicariante, desiderato. A calma de sua presença envolveu-me os pés à cabeça, a ponto de não conseguir balbuciar qualquer coisa, devidamente hipnotizado pela presença sempiterna. Estava diante da serendipidade em pessoa. Ali ficamos no imprevisível, interrompido apenas pelo gesto dela à oferta da bebida no carrinho encostado ao meu braço direito. Nem havia notado: Sirva-se! Preferi estar plenamente cônscio de tão intrigado com o convite e a determinação, sem saber sequer o motivo de ter que estar ali. Parecia que ela lia meus pensamentos e nada mais disse, apenas levantou-se, foi até a porta, remexeu as chaves e trancas. Então voltou-se com seus olhos acesos, pálpebras pesadas e cerradas, a se despir do véu e da túnica transparente, colocadas no cabide ao lado; retirou a touca branca e o toucado em forma de colmeia, soltou seus ondulados cabelos a escorrerem sedutores aos ombros, desfazendo-se da pala amarela atravessada ao peito, o colo reluzente a realçar seus seios nus, fartos e firmes. Dirigiu-se a mim e nem podia adivinhar seu sussurro ao meu ouvido: era ela a Suma Sacerdotisa Sofia. Com a sua confissão, retirou da cabeça e deu-me a tiara cravejada de joias. Deu-me mais: a coroa de Hathor – e me fez Hórus, e Rá. (Era como se eu estivesse em Dendera, com a senhora dos céus e das estrelas). Ali era a monja consagrada que me ofertou os seus lábios de Sibila - a pítia que me fez Apolo, como se fosse a escolhida de Par Lagerkvists, essencialmente receptiva no Oráculo de Delfos. Tomou minha mão e levou-a ao ventre: livro sagrado aberto do seu corpo e a palavra divina recolhida ao seu umbigo como um olho aberto. O seu beijo de cortesã revelou-me introvisões e, nos seus lábios, senti Astarte a nutrir meu sexo, beijou-me mais Hécate para se tornar Perséfone e eu a raptasse Ísis com todas as remembranças: “Sou tudo que era, que é, e que sempre será. Nem mortal algum jamais pôde descobrir o que jaz debaixo do meu véu”. As suas lágrimas me banharam e passaram a governar meu pênis. Nela deitei minha semente, enquanto seus olhos chamejavam como se me dissesse que era ali a Papisa Joana com todos os mistérios cristãos e o segundo trunfo secreto: estava grávida! E a centelha divina do seu ventre – o vaso da transformação - me premiou a paternidade do primogênito de Deus. Sorriu-me por fecundá-la. E me banhou com o líquido amniótico para que eu aprendesse as profundezas dos oceanos. E me fez mago para ela cartomante do meu destino, portadora da minha sina. E me fez Noel pro pão-por-deus para que eu soubesse que ela é o instrumento da eternidade. Levou-me às suas costas, a sua magia incontrolável. E depois de vencê-la, suas mãos unidas em meu sexo como a guardiã do santuário íntimo, o paradoxo da sua essência me ensinou o poder das águas, como se me sepultasse no seu ventre. Ouvi-lhe sussurrar: Sou uma rosa, nem melhor nem pior, apenas diferente. Mais disse: Você é uma virga-áurea. E me fez deus, o seu santo venerado, o seu rei adorado, o seu senhor servido, o seu dono e feitor. E nela fui real-izado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.
DITOS &
DESDITOS - Uma pessoa sem memória é uma criança ou um amnésico. Um país sem memória
não é uma criança nem um amnésico, mas também não é um país. Quando você começa
a fazer perguntas, a inocência desaparece. A vida sem emoções é como um motor
sem combustível. Nossa segurança deve ser ameaçada para que possamos apreciá-la.
Não é bom fazer viagens sentimentais. Você vê as diferenças em vez da mesmice. Pensamento da atriz
estadunidense Mary Astor (Lucile Vasconcellos Laghanke - 1906-1987),
Veja mais aqui.
ALGUÉM FALOU:
Cada gesto de
retribuição acarreta o risco de escalada. Não é uma possibilidade insignificante que
o moralmente certo possa resultar no moralmente errado. Quer as decisões morais
sejam avaliadas por padrões universais ou pelas tradições locais, os conflitos
morais são sempre contextuais. Pensamento da socióloga húngara Ágnes
Heller (1929-2019). Veja mais aqui, aqui e aqui.
O FUGITIVO
– [...] A
conversa dos beijos. Sutil, envolvente, destemido,
transformador. [...] Isto é o que acontece. Você guarda isso por
um tempo e, de vez em quando, procura outra coisa no armário e se lembra e
pensa, em breve. Então se torna algo que está ali, no
armário, e outras coisas ficam amontoadas na frente e em cima dele e finalmente
você nem pensa nisso. Aquilo que era seu tesouro brilhante. Você não pensa sobre
isso. Uma perda que você não conseguia imaginar antes, e agora se torna algo que
você mal consegue lembrar. Isto é o que acontece. [...] Poucas
pessoas, muito poucas, possuem um tesouro, e se você tiver, deverá mantê-lo. Você não deve se
deixar ser emboscado e ter isso tirado de você. [...] Ela não
conseguia explicar ou entender muito bem que o que ela sentia não era
totalmente ciúme, mas raiva. E não porque ela não pudesse fazer compras assim
ou se vestir assim. Era porque era assim que as meninas deveriam ser. Era assim
que os homens – as pessoas, todo mundo – pensavam que deveriam ser. Linda,
estimada, mimada, egoísta, estúpida. Isso era o que uma garota deveria ser, por
quem se apaixonar. Então ela se tornaria mãe e seria totalmente dedicada aos
seus bebês. Não é mais egoísta, mas igualmente estúpido. Para sempre [...].
Trechos extraídos da obra Runaway: Stories (Vintage,
2005), da escritora canadense Alice Munro (Alice Ann Laidlaw –
1931-2024), Prêmio Nobel da Literatura de 2013. Veja mais aqui e aqui.
VELHA
COMPANHEIRA – Velha companheira, desculpe-me, resolvi ser moderno. Sei
que há muito tempo vives comigo e não tens me faltado, mesmo assim, a partir de
hoje, resolvi arranjar um novo amor. É certo que por toda a minha vida pintaste
meu branco, me deste letras e acompanhaste os meus erros, observaste minhas
rasuras e vista que eu não vivo sem um corretivo. Quantas vezes fiquei sozinho
contigo! A noite toda, só nós dois, falando de mim (como eu fui egoísta, só
falava de mim) de meus desencantos, de minhas desilusões... Quantas vezes te
procurei! Em todos os momentos me aceitaste. Nunca me disseste um “não”. Sempre
te procurei nas horas difíceis. Quando os professores me apertavam na
faculdade, eu me aproximava de tua mecânica inteligência... Quando eu precisava
desabafar, na inquietude de um amor que me rasgava o peito, fingindo que não
era amor, eu te procurava, até mesmo (que vergonha!) quando eu precisava de um dinheirinho
a mais, eu buscava a tua amizade. Enquanto o sono não vinha, minhas mãos
pousavam sobre o teu rosto, num afago amiúde, dentro da noite só se ouviam tuas
gargalhadas, repetidamente, como uma metralhadora rasgando a madrugada!...
Minha querida, quase não chega à garganta a voz cúmplice deste momento, para
dizer-te que não te quero mais, que o mundo ficou pequeno demais para nós dois
e, a partir deste instante tu fazes parte do meu passado, que és (permita-me o
desabafo) quadrada, antiquada, fora de moda, velha demais para mim. A partir de
agora, minha velha companheira máquina de escrever Olivetti Studio 44, não te
quero mais. Comprei um computador. Crônica extraída do livro A mulher da
sombrinha e outras crônicas (Inovação, 2008), do poeta e professor Admmauro
Gommes. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
DOIS POEMAS
- I – Deram-me à luz para
morrer, \ Para tosquiar o verão de janeiro, \ Para procurar a caverna entre as
cavernas \ E lá seduzir as pedras no meu aniversário; \ Para conquistar o
vinagre do urubu frio \ Para guardar lagartos no peito. \ Dedico-me a morrer, \
A construir poças no cimento, \ A apagar até a última carta do meu pai grisalho
\ Para embotar sua língua e salvar minha voz com o ritmo da neve.\ Deram-me à
luz e mataram-me \ Entre o fogo dos juncos lamacentos e a inabitação da carne, \
Entre o garfo de um anjo e o litar a minha barriga como um cordeiro branco. \ Não
me deixam nada no jardim \ Só veias, \ Sangue que emana das pedras para a minha
noite, \ Sangue \ Mas sangue de mosca, \ De cacto. \ Nada tem que colorir as
bochechas de gaivotas \ Onde você acaricia há vidro \ Tudo treme, \ Tudo está
amarrado ao endireitamento escuro dos galhos. \ É hora de olhar no espelho \ E
assumir minha condição de cruz, \ A condição de espinho, \ Que essa é a última
flecha que sangrará meu leite \ Amanhã beberei do Jordão, \ E as cinzas
cruzarão minhas costas \ Só então a música foram inventados \ E toda a lama \ Vai
se dividir em dois. \ Sou um milagre iluminado por feras
elitizadas, \ sou a palavra colhida com ameixas, \ sou a presa ferida das
cobras e do rugido, \ sou a última janela desta rua, \ Sou a sede que se
extingue com orelhas de frade, \ sou lobo e sapo e escorpião, \ E me dedico a
morrer. II – Falo das cobras e não do
veneno \ Da barriga agitando o grito e não das flautas \ Da sede do outono pelo
fogo das ondas \ Das ondas que se perdem nos cabelos da morte \ Da morte que
sobe ao silêncio de quem ama \ De quem ama no segredo de um espelho \ Falo de
um dia de janeiro e não do sangue da guerra \ Dos lobos que se refugiam nas
suas línguas e não do batismo \ Da cor azul escorrendo nos ramos das oliveiras \
Das oliveiras marcando passo no beijo do água-viva \ De água-viva acordando a
linguagem das presas \ De presas no momento em que comunicam o exílio \ Falo
das mulheres atravessando a porta dos anjos e não do Éden \ Da fome cuidando
dos frutos e não da plumagem das raposas \ De cavernas dominadas por espadas
onde sou eco de dor \ Dos cantos da Bíblia onde as virgens declamam andorinhas \
De andorinhas dando à luz o céu com suas pinças de chumbo \ Falo do início do
inverno e da minha boca transformada em árvore \ Como qualquer árvore caída na
estrada \ Falo dos rostos e das pinturas \ Das máscaras, das minhas quando te
deixo no norte \ Das suas quando você abriga César em suas mãos. \ Falo da fé
na saudade da chuva, não do bosque e no terceiro dia \ falo da minha voz
ressoando no seu rastro \ De você derrubando toda a mata cerrada que te escrevi
\ falo de Deus, se ele adorei o jogo das borboletas \ Se ele se abraçasse quando
se amassem como as leoas amam as gazelas \ Se de todas as pessoas eu não
fechasse os olhos quando te beijasse.
Poemas da cantautora, escritora, grafiteira e militante feminista decolonial
aymara boliviana Julieta Paredes Carvajal.
NIETZSCHE, FILOSOFIA E PSICOLOGIA – Evidente que a motivação
para a realização do presente trabalho partiu da leitura do romance do Irving
D. Yalom, Quando Nietzsche chorou,
traduzido pelo Ivo Korytowski e que virou filme dirigido por Pinchas Perry,
como também da obra Nietzsche e Freud, de Reinhard Gasser. Merece também
registro a menção de Mosé (2005) ao fato da multiplicidade e proliferação de
estudos cada vez mais diversificados acerca da obra do filósofo alemão, bem
como o entendimento de Giacóia Junior (2001) de que o filósofo exerceu
importante influência que o caracteriza como psicólogo. Com isso, por meio de
uma revisão da literatura, caracteriza-se esta abordagem como uma pesquisa
bibliográfica embasada nas fontes disponibilizadas. A FILOSOFIA E A PSICOLOGIA
DE NIETZSCHE - A filosofia de Nietzsche, no dizer de Mosé (2005) é
extremamente erudita e com um posicionamento crítico com relação à própria
filosofia, adotando a ideia do devir por meio de três linhas de raciocínio: a
arte, o pensamento e o saber. No dizer de Cotrim (2006), o filósofo teceu uma
abordagem da genealogia da moral produto do histórico-cultural, tendo por
consequência, no dizer de Chauí (2002 ), Giacoia Junior (2001) e Souza (2014),
o desenvolvimento do Existencialismo inaugurado por Kierkegaard. Esse filósofo
começará a lecionar filosofia clássica na Universidade da Basileia, em 1869,
publicando seu primeiro livro O nascimento da tragédia no espírito da música,
em 1872. Entretanto, é com o lançamento da sua obra Humano, demasiado humano,
em 1878, que Nietzsche passará se autodenominar de psicólogo. A filosofia de
Nietzsche, em conformidade com Noffat Neto (1991), Giacóia Junior (2001) e Marques (2003), é uma filosofia dos
afetos, das paixões e desejos, que contempla o individualismo, a força, a
abundância e os instintos de vida. Para ele filosofar não era uma atitude
teórica e contemplativa, mas uma atitude prática que se enraíza na vida, um ato
de libertação de toda subjugação, de toda moral, de toda deformação e de tudo
aquilo que nos prende a religiões, grupos e ideologias. Em um determinado
período da sua vida, a filosofia nietzschiana se voltou para a psicologia.
Inclusive, Nascimento (2006) registra que esse filósofo se autodenominava
psicólogo e em muitas de suas obras encontra-se a denominação de psicologia na
sua proposta filosófica. É o que também identificam Oliveira (2014), Barbosa
(2014) e Williams (2014), ao
mencionarem que nos chamados escritos intermediários do filósofo, ocorrido no
período entre 1876 e 1882, ele adota o procedimento de análise nomeado por ele
mesmo de psicologia, se autoproclamando o primeiro psicólogo da história e
efetuando uma relação interdisciplinar entre psicologia e morfologia,
fisiologia, cultura, história, literatura, linguística, medicina e muitas
outras áreas do conhecimento. Nietzsche (1978, p. 37) entende que a psicologia
é a “[...] ciência que indaga a origem e a história dos chamados sentimentos
morais e que, ao progredir, tem de expor e resolver os emaranhados problemas
sociológicos”. Nessa ótica, ele faz adoção do procedimento que conjuga as
vertentes históricas, fisiológicas e psicológicas unidas à sua filosofia, sob a
proposta de tentativa da compreensão a partir do sentimento e das valorações
humanas. Assim, para esse autor, a fisiopsicologia é entendida como instrumento
de dissecação psicológica dos fenômenos morais. A respeito disso, assinala
Vianna (1995) e Giacoia Junior (2001), que a psicologia nietzscheana compreende
a visão além dos ângulos da realidade existencial, identificada na dimensão
pulsional dos instintos. Noutra ocasião Nietzsche (2002, p. 23) assevera que
“Toda psicologia, até o momento, tem estado presa a preconceitos e temores
morais: não ousou descer às profundezas. Compreendê-la como morfologia e teoria da evolução da vontade de poder,
tal como faço – isto é algo que ninguém tocou sequer em pensamento”. Nesse
sentido, ele faz uso da noção procedimental fisiopsicológica para asseverar que
a cultura é um sintoma fisiopsicológico das construções humanas, ao
reinterpretar o corpo no contexto da corporalidade com o significado de
instrumento complexo das múltiplas pulsões vitais e para romper com a
dualística convenção do corpo/alma. Dessa forma, o filósofo entende que o ser
humano é o resultado da luta das forças biológicas e psicológicas. Noutro
momento, Nietzsche (2012, p. 354) assinala que: “Poderíamos, com efeito,
pensar, sentir, querer, recordar-nos, poderíamos igualmente agir em todo
sentido da palavra: e a despeito disso, não seria preciso que tudo isso nos
entrasse na consciência (como se diz, em imagem)”. Com esse pensamento o
filósofo defende que a consciência é independente das funções fisiológicas e
psíquicas. Observa-se, portanto, que o autor coloca a psicologia no centro das
ciências para alcance do ser humano de forma integral, reconhecendo-se a
valorização do psíquico e fisiológico independentemente da consciência. Com
esse entendimento, Oliveira (2014, p. 1) assevera que: A psicologia de
Nietzsche está na base, portanto, de seu projeto de uma ética da amizade porque,
ao destituir a moral de seus fundamentos metafísicos, ela abre a possibilidade
de pensar as relações humanas e o próprio humano para além do princípio
gregário do ethos. Observa-se que a concepção nietzschiana, segundo
Vianna (1995, p. 32), é na direção de uma singular psicologia ‘[...] ao operar
com as pulsões artísticas da natureza manifesta um inconsciente primordial o
qual escapa às possibilidades de representação da consciência. A dimensão do
inconsciente emerge como função de um princípio ativo”. Por esse entendimento,
essa psicologia está situada no domínio da reflexão filosófica com
características definidas na valoração positiva da experiência sensível como
fonte principal do conhecimento. A primeira identificação da psicologia
nietzschiana, segundo Nascimento (2006, p. 49) está identificada como uma
psicologia da tragédia, quando: O psicólogo Nietzsche, num primeiro momento,
analisará a tragédia grega e verá um elemento comum entre ela e a psicologia do
povo helênico, que é a luta entre as forças apolíneas e dionisíacas. A relação
entre elas vai definir uma teoria da civilização e da cultura, bem como uma
teoria da arte. A morte da tragédia aparece como a metáfora viva da morte do
mundo antigo e aponta desdobramentos na cultura, como, por exemplo, a primazia
da razão sobre os instintos, nascida a partir da metafísica socrática que acaba
se impondo na cultura do Ocidente, sobretudo em sua face platônica. A segunda
identificação da psicologia nietzschiana, para Nascimento (2006, p. 51), é
quando o filósofo: [...] vai propor uma psicologia que desmascara as bases de
onde a metafísica se apoia e partirá da desmontagem da moralidade, posto que a
metafísica é vista como produtora de filósofos da moral. Ao questionar a origem
das representações e sentimentos morais afirmará que por detrás das ações
morais, o que há, são motivações humanas, demasiado humanas, denunciando a
servidão do homem aos conceitos e normas “superiores” que são tomados como
vida. Nesse sentido, a autora mencionada identifica que essa psicologia surge
no contexto de uma ciência capaz de indagar a história do mundo como
representação, ultrapassando a metafísica. Uma terceira identificação da
psicologia nietzschiana registrada por Nascimento (2006, p. 55), considera que
o filósofo: [...] vai problematizar o que vem a ser a consciência. A
psicologia, para se desprender dos preconceitos e temores morais, precisaria
interpretar e avaliar a vida enquanto potência. [...] O novo psicólogo vai
percorrer o sentido e o valor que vão se manifestar nas relações de forças e
nas formas como a vontade de potência se apresenta. Em vista disso, entende a
autora que Nietzsche será levado pelas motivações do inconsciente
problematizando a natureza do conhecer, entendendo ele que os impulsos serão os
agentes que se encontram por trás do conhecimento e que funcionam com a relação
existente com outros impulsos, agindo e resistindo uns aos outros. Tem-se,
portanto, conforme Nascimento (2006, p. 221) que o filósofo em estudo: [...]
busca como psicólogo investigar e diagnosticar a saúde de uma cultura a partir
da base, pautado na arte de interpretação dos sintomas manifestos na vida. A
proposta de uma nova psicologia, pautada em outros valores, mais próximos da
vida, em sua forma plena, ou seja, entendida como vontade de potência.
Acrescenta Barbosa (2014, p. 2) que “[...] o argumento da gênese social da consciência fornecido por Nietzsche, vem
corroborar com as explicações não dicotômicas sobre os sujeitos e sua interação
com o mundo fruto da nova visão da Psicologia Social”. E conforme Fonseca (2014, p. 1):
[...] Nietzsche re-lança na cultura moderna da civilização ocidental os
fundamentos da perspectiva ética de afirmação do vivido, de constituição dele
como fundamento do verdadeiro e dos valores, perspectiva ética de afirmação do
corpo e dos sentidos, que vai constituir um fundamento das psicologias
humanistas e da ACP [...]. Com isso, o autor mencionado observa que se encontra
em franco desenvolvimento iniciativas de recuperação dos fundamentos da
fenomenologia e do existencialismo, em particular da filosofia da vida de
Nietzsche, filosofia essa que foi capaz de fornecer o substrato básico para o
desenvolvimento da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial
organísmica (FONSECA, 2014). Identifica-se que o filósofo em estudo influenciou
o desenvolvimento da psicanálise de Freud, mesmo sendo irredutível o
posicionamento de recusa do psicanalista quanto a este fato, muito embora
tenha, ao final de sua vida, reconhecido que Nietzsche é o maior psicólogo de todos
os tempos. Também fica identificada com base em Fonseca (2014, p. 1), a
influencia do filósofo alemão na psicologia do norte-americano Carl Ransom
Rogers, com a observância de que “[...] Bem ao gosto de Nietzsche, Rogers
entendia que o existencial não se conforma ao empistemológico, e
epistemofílico, pressuposto científico da busca de verdades. Não se conforma às
esferas do conhecer, e do conhecimento, e de suas vontades”. É nesse sentido
que anota Speranza (2014, p. 1) que “[...] Tanto Nietzsche como a psicoterapia
de base fenomenológica têm em comum a existência afirmativa da vida”. Por
consequência, entende a autora em comento que a psicologia diante da
espiritualidade humana, numa perspectiva fenomenológico-existencial, utiliza-se
como referencial a filosofia de Nietzsche e a filosofia do diálogo do filósofo,
escritor e pedagogo austríaco Martin Buber que influenciará tanto a Gestalt
como a psicologia fenomenológico-existencial. Acrescenta Fonseca (2014b, p. 1)
que: Um aspecto que parece um dos mais interessantes para a psicologia e
psicoterapia fenomenológico-existencial é que, ao mesmo tempo, o próprio
empirismo aporético de Brentano aplicado à consciência como método
fenomenológico existencial especificamente experimental, parece intimamente aparentado
ao método experimental perspectivativo de Nietzsche. De modo que estas duas
vertentes fundamentais da concepção do experimental num sentido fenomenológico
existencial compartilhariam raízes bastante próximas. [...]. Com essa
associação, verifica-se o quanto o filósofo alemão influenciou as mais diversas
correntes psicológicas, sendo, portanto, meritório de registro e destaque de
sua importância para a psicologia contemporânea. CONTRIBUIÇÕES NIETZSCHEANA
PARA A PSICOLOGIA – Torna-se evidente, em primeiro lugar, a contribuição de
Nietzsche para a Psicanálise freudeana, conforme Gasser (1987), mesmo tendo
Freud relutado a vida inteira para, só perto da morte, admitir a importância de
Nietzsche para a Psicologia. Ter sido o filósofo aquele a assumir em suas obras
a condição de psicólogo, tratando sobre paixões, desejos, afetos, pulsões da
forma interdisciplinar a psicologia, morfologia, fisiologia, cultura, história,
literatura, linguística e medicina, entre outras áreas do conhecimento,
definindo-se por uma Fisiopsicologia que compreende uma visão além da realidade
existencial dentro de uma dimensão pulsional. Constata-se, ainda, que Nietzsche
coloca a Psicologia no centro da ciência. Além do mais, identifica-se a nítida
influência exercida pelo filósofo alemão no pensamento de Carl Rogers, Martin
Buber, na Gestalt e na Psicologia Fenomelógico-Existencial. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.LYGIA FAGUNDES TELLES, RIM BATTAL, MILTON HATOUM, BEATRIZ PAREDES RANGEL & ANASTÁCIA
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