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sexta-feira, outubro 06, 2017

BRECHT, JACK LONDON, NOAM CHOMSKY, JULES DE BRUYCKER & BIBLIOTECA FENELON BARRETO

UMA TAPA & A HONRA ENGASGADA NA MEMÓRIA – Imagem: arte do pintor, desenhista, artista gráfico e ilustrador belga Jules De Bruycker (1870-1945). - Mais de trinta anos separavam Terdílio e Disonaldo. O reencontro foi festivo, abraços, lorotas, humilhações mútuas ressaltando a esperteza de um sobre o outro, viradas de copos, cada qual mais ufano pela enrolada na leseira do parceiro, dois bicudos que não se beijavam, mas que se consideravam por conta das estripulias da juventude. Disonaldo humilhava o amigo revelando as dedadas, os desacertos, molecagens e trapalhadas do Terdílio que à época, apesar de tão franzino quase tísico, não abria nem prum trem na horagá da arenga. Quanto mais Disonaldo gastava soberba, Terdílio relevando, riso tímido, todo na sua, bebericando de leve e exaltando as astúcias do metido, até a hora que o sabido lembrou De uma tapa dada por ele e guardada na memória. Tapa? Sim, lembra? Tapa? Isso mesmo, você me deu uma tapa da porra! Lembro não. Realmente, Terdílio não lembrava disso, puxando no passado, franzindo o cenho e estranhando a existência do fato. Você deve já estar bêbado, lembro disso não, reiterou. Ah, quem dá não se lembra, quem leva nunca esquece. E sorriram desancando um ao outro pelas presepadas. Lá pras tantas, depois de muita mangação, Terdílio se despediu e prometeu tomarem umas outras juntos em breve, agora precisava ir pra casa arrumar as coisas que ainda estavam aos monturos pela mudança recente de endereço. A despedida, abraços afetuosos e compromisso asseverado de novo encontro. Quando Terdílio deu as costas, Disonaldo ficou remoendo e virando copo atrás de gole: a tapa não lhe saía engasgada na ideia. Dois dias depois, lá ia Terdílio sóbrio voltando pra casa, quando dá de frente com Disonaldo completamente embriagado: meu amigo, pronde vai? Pra casa, ainda estou ajeitando as coisas da mudança. Vamos tomar uma! Não dá, agora não, mas no final de semana a gente emenda os bigodes numa cachaçada boa. É bom mesmo, não se esqueça da tapa, você me deve! Que tapa? Não se lembra mesmo? Não! Oxe, você deu uma tapa da porra! Lembro disso não. Destá, final de semana a gente relembra tomando uma. Dias depois, lá ia Terdílio com o pão pro jantar e Disonaldo trocando as pernas quase desequilibrado na calçada, atravessou seu caminho: Meu amigo, vamos tomar uma! Tenho que levar a comida pro jantar, final de semana a gente toma todas! Você está me enrolando! Estou não, ainda não arrumei tudo em casa por causa da mudança, mas desse final de semana não passa. Aos abraços se despediram e Disonaldo ficou maquinando, aos tombos seguiu os passos do Terdílio, perdeu de vista, desgraçado, dali então, todos os dias no encalço, a tapa, a pinga, a meiota, a lavada com a cerveja, o juízo se apertando, a tapa desajustando tudo, outra lapada, meiota, litro e meio, duas cervejas lavando o sangue e a sobriedade, trôpego, meio lá meio cá, equilibrista a pulso, meteu a mão nos bolsos: Eita! só mixaria. Cadê meu dinheiro? Será que o porra do Terdílio tomou meu dinheiro e eu não vi, ele me paga, ah, vai me pagar dobrado, a tapa e meus trocados que ele embolsou e eu não, filho da puta! O dia amanheceu e pela primeira vez o primeiro pensamento de Disonaldo foi Terdílio: Danou-se! Sonhei a noite toda com esse porra! Acordo com ele no meu juízo! Que droga é essa? Remexeu os bolsos, não havia nada. Foi até a gaveta da petisqueira, tinha algumas cédulas, pegou o cartão do banco, foi até o caixa do atendimento automático, errou a senha: O filho da puta do Terdílio já me roubou a senha? Pode não! Refez a operação, saíram cédulas, tudo certo. Dinheiro pra ele era só pra beber, comer e cagar, mais nada. Isso mesmo: beber, comer e cagar! Serve para mais alguma coisa? Serve sim, para eu pegar Terdílio e vingar da tapa e de todo prejuízo que ele me casou esses anos todos. Ah, vou foder a alma do Terdílio, ah, se vou! Destá. Saiu decidido. Encheu o copo com a aguardente, era seu desjejum. Virou uma meiota de vez, pediu uma cerveja, bebeu no gargalo, trocou os olhos, dor de cabeça da peste, engasgou-se, tossiu, bateu na caixa dos peitos, manda outra! Virou a garrafa todinha goela adentro, apertou a vista, tudo estreito, tudo em dupla, olhou pras mãos: não tremiam. Agora estava no ponto, pronto pro que desse e viesse. Ao virar a esquina, deu de cara com o amigo desafeto. Eita! Teve um troço, foi bater no hospital, três dias em coma, ao acordar-se: Que é que estou fazendo aqui? Dê graças a Deus ao seu amigo ter-lhe salvado a tempo, senão hoje era mais um prestes a ser homenageado com missa de sétimo dia. Eita! Mais uma? Esse filho de uma quenga me paga! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor, compositor e ativista estadunidense de causas humanitárias e sociais Stevie Wonder: Live at last: A Wonder summer’s night; da musicista especializada em Viola de Gamba, integrante do Conjunto de Música Antiga da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora dos cursos de extensão em Música, KristinaAugustin interpretando Bach em parceria com Mário Orlando; do violonista e compositor inglês Stanley Myers (1930-1993): Kaleidoscope, Catavina & Echoes; da harpista, cantora e compositora Cristina Braga interpretando Stairway to heaven, Love parfait, No silêncio na chuva, Bem e mal, Brasileirinho e Ária de Emília. Para conferir é só ligar o som e curtir.

O LUCRO OU AS PESSOAS - As conseqüências econômicas dessas políticas têm sido as mesmas em todos os lugares e são exatamente as que se poderia esperar: um enorme crescimento da desigualdade econômica e social, um aumento marcante da pobreza absoluta entre as nações e povos mais atrasados do mundo, um meio ambiente global catastrófico, uma economia global instável e uma bonança sem precedente para os ricos. Diante desses fatos, os defensores da ordem neoliberal nos garantem que a prosperidade chegará inevitavelmente até as camadas mais amplas da população – desde que ninguém se interponha à política neoliberal que exacerba todos esses problemas! No final, os neoliberais não têm como apresentar, como não apresentam de fato, a defesa empírica do mundo que estão construindo. Ao contrário, eles apresentam – ou melhor, exigem uma fé religiosa na infalibilidade do mercado desregulado, que remonta a teorias do século 19 que pouco têm a ver com o nosso mundo. O grande trunfo dos defensores do neoliberalismo, no entanto, é a alegada inexistência de alternativas. [...] As hordas são uma visão aterradora: “elas incluíam sindicatos, lobistas ambientais e dos direitos humanos e grupos de pressão que se opõem à globalização” – quer dizer, a globalização na forma particular exigida pelo “público interno”. A horda turbulenta subjugou as estruturas de poder patéticas e impotentes das ricas sociedades industriais. Ela é dirigida por “movimentos marginais que defendem posições extremadas” e possui uma “boa organização e sólidas finanças” que a capacitam “a manejar a sua grande influência com a mídia e com os membros dos parlamentos nacionais”. [...] Mesmo sabendo que o poder e o privilégio com certeza não vão descansar, as vitórias populares devem ser inspiradoras. Elas ensinam lições sobre o que se pode conquistar mesmo quando a desigualdade das forças em luta é tão bizarra quanto à do confronto em torno do AMI. É verdade que são vitórias defensivas. Mas elas impedem, ou pelo menos adiam, o enfraquecimento ainda maior da democracia e a transferência de mais poderes para as mãos das tiranias privadas em rápido processo de concentração, que querem administrar os mercados e se constituir num “Senado virtual” que dispõe de diversos meios de frustrar o desejo popular de usar as formas democráticas em benefício do interesse do público: a ameaça da fuga de capitais, a transferência das unidades de produção, o controle da mídia e outras formas de coação. Devemos prestar muita atenção ao medo e ao desespero dos poderosos. Eles compreendem muito bem o alcance da “arma definitiva” e só esperam que aqueles que buscam um mundo mais livre e justo não adquiram essa mesma compreensão e a coloquem efetivamente em uso. Trechos da obra O lucro ou as pessoas (Bertrand Brasil, 2002), do filósofo, linguista, cientista cognitivo e ativista político norte-americano, Noam Chomsky. Veja mais aqui e aqui.

O ESCRITOR, A FAMA E A SOCIEDADE - [...] Se tivesse recebido ao menos uma linha, uma linha de caráter pessoal com uma das notas de recusa, ter-se-ia sentido mais animado. Mas nenhum dos editores dera tal prova de sua existência. E ele só podia concluir que não havia seres humanos do lado de lá, mas rodas, apenas rodas, bem lubrificadas, acionando a máquina para um funcionamento perfeito. [...]. Trecho da obra Martin Eden (Nova Alexandria, 2003), do escritor, jornalista e ativista estadunidense Jack London (1876-1916). Veja mais aqui.

HOLLYWOOD - Para ganhar o pão, cada manhã / vou ao mercado onde se compram mentiras. / Cheio de esperança / ponho-me na fila dos vendedores. Poema do dramaturgo, encenador e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956), extraído de O duplo compromisso de Bertolt Brecht, do livro O arco-íris branco (Imago, 1997), de Haroldo de Campos. Veja mais aqui.

BIBLIOTECA FENELON BARRETO
Conversando com o público nos eventos da Biblioteca Fenelon Barreto, coordenado pelo diretor João Paulo Araújo.

Veja mais:
A música de Stevie Wonder aqui.
O talento musical de Cristina Braga aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, desenhista, artista gráfico e ilustrador belga Jules De Bruycker (1870-1945). Veja mais aqui.
 

segunda-feira, dezembro 07, 2015

CHOMSKY, CASCUDO, BABENCO, PÊRA, RABICHO DA GERALDA & MUITO MAIS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DAS DECEPÇÕES COM AS MAZELAS NA VIDA - Quando almejarem lhe destruir, sorria porque o que se considera destruição é só um estágio da mudança do que pode ser péssimo para o que haverá de ser melhor. Quando sentir-se vítima de uma falta de consideração, não ligue porque não só existe uma pessoa na face da terra, outros podem dar a atenção que você merece ter. Quando constatar que uma desfeita lhe foi feita, não desmorone, nem se entristeça, há sempre um horizonte enorme para sua melhor visualização e, com certeza, há muito mais superioridade a se alcançar na vida. Quando alguém lhe tratar com ignorância ou falta de educação, saiba que existem pessoas menores que seu próprio tamanho, que são tão mesquinhas que não merecem sequer um mínimo aceno ou pensamento. Quando se decepcionar ou se encontrar desapontado com a atitude de quem quer que seja, não esmoreça nem passe a habitar o reino depressivo da consternação, muito menos sinta-se constrangido, é que muita gente não sabe lidar com seres humanos, apenas com a submissão daqueles que devam se render aos seus caprichos e ao umbigocentismo de sua própria vaidade narcísica, desconsiderando que o outro também tem coração. Se um dia sentir-se injustiçado pelas circunstancias que levaram a um mal entendimento a seu respeito, não precisa erguer a voz, mudar a face, ficar furiosa ou detonando isso ou aquilo de quem se equivocou; o mundo está cheio de mal entendidos, incompreensões, desaforos e miudezas. Não esqueça que o Sol dá um espetáculo todos os dias, desde a alvorada até o crepúsculo, e quase ninguém se dá conta disso. E se um astro da envergadura do Sol passa despercebido por muita gente que se acha dono de um nariz que nem sabe nem que direção tomar, faz-se necessário relevar tudo, sem guardar rancor nem mágoas, sem condenar nem julgar, sem atacar nem maldizer, sem desleixar nem tratar nada nem ninguém da desimportância. É passar a entender a missão da natureza que nos faz bem, mas que não sabe nada do que é bem ou bom, dá-se naturalmente e o faz sem que precise de agradecimentos, nem homenagens, nem fingimentos, nem hipocrisia. Assim é que aprendemos que a vida é pra ser vivida. E vamos aprumar a conversa aqui.

 Imagens: a arte do cineasta, artista plástico, ilustrador, desenhista e roteirista de história de quadrinhos francês Enki Bilal.


Curtindo o álbum The Blessed Unrest (2013), da cantora e compositora estadunidense Sara Bareilles.

A RESPONSABILIDADE DO ESCRITOR – No livro Notas sobre anarquismo (Imaginário/Sedição, 2004), do filosofo e ativista político norte-americano, Noam Chomsky, encontro que: A responsabilidade do escritor como um agente moral é tentar apresentar a verdade sobre assuntos de significância humana para um publico que poder fazer alguma coisa a respeito. Isso é parte do que significa ser um agente moral ao invés de um monstro [...] Ao brigarmos contra todos deixamos que vençam os piores [...] As ideias sobreviveram (ou foram reinventadas) de várias formas na cultura da resistências às novas formas de opressão, servindo como uma visão animadora para as lutas populares que expandiram, consideravelmente, o alcance da liberdade, justiça e direitos [...] Pode-se perguntar qual é o valor de se estudar uma tendência definida do desenvolvimento histórico humano que não articula uma teria social detalhada e especifica. De fato, muitos críticos desconsideram o anarquismo por o acharem utópico, sem forma, primitivo ou incompatível com as realidades de uma sociedade complexa. No entanto, pode-se argumentar diferentemente: que em todo estágio da história, nossa preocupação deve ser desmantelar as formas de autoridade e opressão, que sobrevivem de uma época que podem ter sido justificadas pelas necessidades de segurança, sobrevivência ou desenvolvimento econômico, mas que agora contribuem para – ao invés de aliviar – a deficiência cultural e material. Neste caso, não existirá doutrina de mudança social fixa no presente e no futuro, nem mesmo, necessariamente, um conceito imitável e especifico dos objetivos de mudança social deva visar. Certamente, nossa compreensão da natureza do homem ou das possibilidades de longo alcance deve ser tratada com grande ceticismo, exatamente como nos tornamos céticos quando ouvimos que a natureza humana ou as exigências de eficiência ou a complexidade da vida moderna exigem essa ou aquela forma de opressão e regra autocrática. [...] Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

QUIRINO, VAQUEIRO DO REI – No livro Contos tradicionais (América, 1972), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), encontro a história de Quirino, vaqueiro do rei: Era uma vez um rei que possuía muitas fazendas de gado entregues a vaqueiros de confiança. Uma das melhores propriedades era confiada ao negro Quirino, que tinha fama de não mentir. O rei vivia gabando o vaqueiro, apontando-o como modelo de veracidade. Essa opinião despertava inveja entre os fidalgos e um deles, rico e poderoso, resolveu acabar com a celebridade moral de Quirino, vaqueiro do rei. Na fazenda de que Quirino se encarregava, o orgulho do rei era um boi barroso, bonito como não havia outro. Cada ano o vaqueiro ia até a casa do rei prestar contas. Chegava, riscando o cavalo e dizia por aqui assim: — Pronto, meu amo! Aqui está Quirino, vaqueiro do rei! O rei perguntava: — Como vai, Quirino? — Com a graça de Deus e o favor do meu amo! — A obrigação? — Em paz e a salvamento. — As vacas? — Umas gordas outras magras. — O boi barroso? — Vai forte, valente e mimoso! O fidalgo disse ao rei que Quirino era capaz de mentir. O rei repeliu a ideia. — Vamos apostar, majestade? — Pois vamos! Dez fazendas de gado, cem touros escavadores e duzentas vacas leiteiras com chifres dourados? — Está apostado! O fidalgo tinha uma filha muito bonita, chamada Rosa. Chamou a moça e contou a aposta. Por dinheiro, Quirino não peca. Com ameaça, Quirino não peca. Abaixo de Deus, a mulher pode com tudo que tem fôlego. Rosa se vestiu como uma mulher do povo e foi até a fazenda onde estava o boi barroso. Encontrou Quirino e conversou com ele, fazendo tanto trejeito, dando tanta volta no corpo que o vaqueiro ficou alvoroçado e se apaixonou por ela. Ficaram muitos meses vivendo juntos, andando para lá e para cá, no serviço do campo. Numa manhã Rosa disse: — Quirino, você gosta de mim? — Como demais... — Quer bem ao seu filhinho que vai nascer? — Mais do que a luz do dia! — Pois se não quiser que seu filho morra, mate o boi barroso que eu quero comer o fígado bem assadinho... Quirino ficou assombrado mas obedeceu. Matou o boi barroso e a mulher comeu o fígado assado. Dias depois era o tempo de o vaqueiro ir até a presença do rei. Rosa mandou dizer ao seu pai que o boi barroso fora morto. Quirino vestiu a véstia de couro, perneiras, gibão, guarda-peito, calçou o guante, pôs o chapéu na cabeça, passou o barbicacho, montou no cavalo de confiança e galopou para a casa do rei. Foi viajando e pensando. Finalmente avistou o palácio e parou o cavalo. Que ia dizer ao rei? Era melhor preparar a conversa. Deu de rédeas, andou uns passos, riscou o cavalo e disse: — Chego e digo assim: "Pronto senhor meu amo! Aqui está Quirino, vaqueiro do rei!" Ele diz: "Como vai, Quirino?" Eu respondo: "Com a graça de Deus e o favor do meu amo!" "Obrigação?" "Em paz e a salvamento!" "As vacas?" "Umas gordas outras magras!" "E o boi barroso?" Eu faço que estou triste e digo: "Saiba el-rei meu senhor que o boi barroso saltou um serrote e quebrou o pescoço..." Interrompendo-se, falava alto, indignado: — Isso não é palavra de Quirino, vaqueiro do rei! — Posso dizer que o boi barroso ia passando o açude e se afogou. Só pude salvar o couro. — Isso não é palavra de Quirino, vaqueiro do rei! E, chega-não-chega no pátio do palácio do rei, Quirino resolveu a questão. Pulou do cavalo, amarrou-o subiu as escadas, pediu para falar ao rei. Entrou na sala e o rei estava com o dito fidalgo que fizera a aposta, todo satisfeito, certo de ganhar. — Pronto, meu amo! — Como vai, Quirino? — Com a graça de Deus e o favor do meu amo! — A obrigação? — Em paz e a salvamento! — As vacas? — Umas magras e outras gordas! — E o boi barroso? — Saiba o senhor meu amo que o boi barroso deu o fígado para o meu filhinho não morrer! — Que história é essa, Quirino? Quirino contou toda a história e, quando terminou, disse: — Assim é que fala Quirino, vaqueiro dor Rei! O fidalgo ficou preto de vergonha. O rei findou dizendo: — Quirino, vaqueiro do rei, o que eu ganhei na aposta com esse amigo é o dote para casares com a mãe do teu filhinho... O que estava feito, estava feito. Quirino casou com Rosa e foram felizes como Deus com os anjos. Veja mais aqui e aqui.

O RABICHO DA GERALDA – No livro Cancioneiro do norte (Conselho Estadual de Cultura, 1928), de Rodrigues de Carvalho (1867-1936), encontro o poema em cordel O rabicho da Geralda: Sou o boi liso, rabicho,/ Boi de fama, conhecido, / Minha senhora Geralda / Já me tinha por perdido. / Era minha fama tanta, / Nestes sertões estendida... / Vaqueiros vinham de longe / Pra me tirarem a vida. / Onze anos morei eu / Lá na serra da Preguiça, / Minha senhora Geralda / De mim não tinha notícia. / Morava em cima da serra, / Naqueles altos penhascos, / Só davam notícias minhas / Quando me viam os rastos. / Ao cabo de onze anos / Saí na Várzea do Cisco, / Por minha infelicidade / Por um caboclo fui visto. / Quando o caboclo me viu / Saiu por ali aos topes, / Logo foi dar novas minhas / Ao vaqueiro José Lopes. / Quando o caboclo chegou / Foi com grande matinada: / - Oh! José Lopes, eu vi / O rabicho da Geralda. / Estava na Várzea do Cisco / C’um magotinho de gado, / Lá na pontinha de cima, / Onde entra pra talhado. / José Lopes chamou logo / Por seu filho Antonio João: / "Vá buscar o barbadinho, / "E o cavalo tropelão. / "Diga ao senhor José Gomes / "Que traga sua guiada / "E venha pronto pra irmos / "Ao rabicho da Geralda". / Chegados eles que foram, / Montaram, fizeram linha, / A quem eles encontravam / Perguntavam novas minhas. / Encontrando Zé Tomás, / Que vinha lá da Queimada... / "Camarada, dá-me novas / "Do rabicho da Geralda?" / - Ainda mesmo que eu visse, / Eu não daria passada, / Pois será muito o trabalho, / E o lucro não será nada. / - Não senhor, meu camarada, / A coisa está conversada: / A dona mesmo me disse / que desse boi não quer nada. / Uma das bandas e o couro / Fica pra nós de bocório; / A outra vai se vender / Pras almas do purgatório. / Despediram-se uns dos outros, / No carrasco se internaram, / Caçaram-me todo o dia / Porém não me alcançaram. / Deram de marcha pra casa, / Já todos mortos de fome, / Foram comer um bocado / Na casa do José Gomes. / Passados bem cinco dias, / Estando eu na ribanceira, / Quando fui botando os olhos, / Vejo vir Manuel Moreira. / Um dos vaqueiros de fama / Que naquele tempo havia, / Que muita gente supunha / Só ele me pegaria. / Olhei para o outro lado, / Para ver se vinha alguém: / Divisei Manuel Francisco / E seu sobrinho Xerém. / Fui tratando de correr / Pelo lugar mais fechado, / Quando o Moreira gritou-me / Aos pés juntos, enrabado, / Corra, corra, camarada, / Pise seguro no chão, / Que hoje sempre dou fim / Ao famanaz do sertão. / Tiremos uma carreira / Assim por uma beirada; / Eu mesmo desconfiei / Do rabicho da Geralda. / Mais adiante pus-me em pé / Para ver o zuadão: / Enxerguei Manuel Francisco / Caído num barrocão. / Estive ali muito tempo, / Ali posto e demorado; / A resposta que me deram / Foi dizer: vai-te malvado! / Toda vida terei pena / De correr atrás de ti; / Bem me basta minha faca, / E minha esposa que perdi! / Daí seguiu para trás / Ajuntando o que era seu, / E juntamente caçando / O Xerém, que se perdeu. / Nesse tempo tinha ido / A Pajeú ver um vaqueiro; / Dentre muitos que lá tinha, / Viera o mais catingueiro. / Este veio por seu gosto, / Trazendo sua guiada, / E desejava ter encontro / Com o rabicho da Geralda. / Chamava-se Inácio Gomes, / Era cabra curiboca, / O nariz achamurrado / Cara cheia de pipoca. / Na fazenda da Concórdia, / Chegou ele a uma hora; / Muita gente já dizia: / O rabicho morre agora. / Dizia que pra matar-me / Não precisava de mais: / Bastava dar-me no rasto / De oito dias atrás. / Deram-lhe então um guia / Que bem soubesse do pasto, / E que também conhecesse / Dentre todos o meu rasto. / Onze dias me caçaram / Com grande empenho e cuidada: / Não puderam descobrir / Nem novas e nem mandado. / Passados os onze dias / Lá no Riacho do Agudo, / Quando fui botando os olhos, / Vi o cabra topetudo. / Disse o guia me avistando: / - Venha ver, meu camarada, / Eis ali o boi de fama, / O rabicho da Geralda. / Bem cedo, ao sair do sol, / Vimo-nos de cara a cara, / E nos primeiros arrancos / Logo lhe caiu a vara. / Ele disto não fez caso, / Relho ao cavalo chegou / E em poucas palhetadas / Bem pertinho me gritou: / - Corra, corra, camarada, / Puxe bem pela memória / Que não vim da minha terra / Para vir contar estória. / Gritou-me da outra banda / O senhor guia também: / - Tu cuidas que sou Moreira, / Ou seu sobrinho Xerém? / Tinha um pau atravessado / Na passagem dum riacho: / O cabra passou por cima / E o cavalo por baixo. / Segui a meia carreira, / No meu correr costumado, / E antes de meia légua, / Ambos já tinham ficado. / Pôs-se o cabra topetudo / A pensar o que faria, / E quando chegasse em casa / Que estória contaria!... / Na fazenda da Botica / Tinha gente em demasia, / Esperando ter notícia / Do rabicho nesse dia. / Perguntou José de Góis, / Morador no Carrapicho: / - Amigo, seja benvindo! / Dá-me novas do rabicho? / - Eu o vi, mas não fiz nada, / Pois nunca vi correr tanto, / Como esse boi, o rabicho, / É coisa que causa espanto! / - Nesta terra eu não vejo / Quem o pegue pelo pé, / Aquele morre de velho / Ou de cobra cascavel. / Respondeu José de Góis, / Morador no Carrapicho: / - Eu pelos olhos conheço / Quem dá voltas ao rabicho. / - Já anda em dezoito anos / Que Zé Lopes o capou, / Era ele então garrotinho, / Por isso foi que pegou. / Foi-se o cabra topetudo / E não sei se lá chegou, / Só sei é que ele foi / Com os beiços com que mamou. / Chega enfim - noventa e dois - / Aquela seca comprida; / Logo vi que era a causa / De eu perder a minha vida. / Secaram-se os olhos d’água, / Não tive onde beber, / E botei-me aos campos grandes / Já bem disposto a morrer. / Desci por uma vereda / E disse: esta me socorra; / Quando quis cuidar em mim / Estava numa gangorra. / Fui à fonte beber água, / Refresquei o coração! / Quando quis sair não pude, / Tinham fechado o portão. / Corri logo a cerca toda / E sair não pude mais: / Quem me fez prisioneiro / Foi apenas um rapaz. / Este saiu às carreiras, / E, vendo um seu camarada, / Gritou logo: já está preso / O rabicho da Geralda. / Espalhando-se a notícia, / Correram todos a ver, / E vinham todos gritando: / O rabicho vai morrer! / Trouxeram três bacamartes, / Todos três me apontaram, / Quando dispararam as armas, / Todas três me traspassaram! / Ferido caí no chão! / Saltaram a me pegar / Uns nos pés, outros nas mãos, / Outros para me sangrar! / Disse então um dentre eles: / - Só assim, meu camarada, / Nós provaríamos todos / Do rabicho da Geralda / Assim findo-se este drama, / Tudo assim se findará, / Como este boi, nesta terra / Não houve, nem haverá. Veja mais aqui e aqui.

BAND-AID ATÉ XANADU – A trajetória da belíssima atriz de teatro, cinema e televisão Danielle Winits, começou quando ele resolveu fazer cursos de balé, artes e interpretação. No teatro, atuou em diversos musicais, destacando-se como bailarina e cantora. Iniciou sua carreira na televisão em 1993, na minissérie Sex Appeal e, no teatro sua estreia se deu no ano seguinte, com a peça musical Band-Aid, e no cinema sua primeira atuação aconteceu em 1999, com o longa-metragem Até que a vida nos separe. Depois vieram as peças teatrais A volta de Chico Mau (1996), Cabaret Brazil (1998), Relax, it’s sex (1999), Lancelot (1999), Meu amor: você perfeita, agora muda (2002), Amo-te (você nunca amou alguém assim) (2005), Chicago (2005), Hairspray (2009) e Xanadu (2012). Com uma carreira dedicada ao teatro, ao cinema e à televisão, a atriz ganhou prestígio e tem se mantido na arte, incluindo, programas de humor, projetando com firmeza e competência uma carreira consagrada de sucesso e firmando seu nome entre as mais importantes atrizes da atualidade. Veja mais aqui.

CORAÇÃO ILUMINADO – O drama autobiográfico Coração iluminado (Corazón iluminado, 1998), do cineasta Hector Babenco, conta a história das mágoas e catarse de um argentino na década de 1960, que vive um romance intenso e tumultuado com uma mulher neurótica e passional. A relação conflituosa com o pai e a vocação artística levam-no a deixar o país para estudar cinema e realizar um pacto suicida com a namorada. Vinte anos depois ele regressa à cidade e se envolve com uma mulher madura que incorpora o amor adolescente. O destaque do filme é duplo para as atrizes: a lindíssima Maria Luísa Mendonça e Xuxa Lopes. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Capa da revista londrina de arte contemporânea Frieze Magazine.
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
 A edição de hoje é dedicada como homenagem à grande atriz, cantora e diretora Marília Pêra (1943-2015). Veja aqui.


segunda-feira, novembro 03, 2014

ALICE MUNRO, JULIETA PAREDES, NIETZSCHE, ÁGNES HELLER, ADMMAURO & MARY ASTOR

 


O SEGREDO DA PITONISA - O endereço era aquele, sim o que me havia sido indicado. Toquei a campainha e aguardei na sacada. A portinhola abriu-se, percebi o vulto e ouvi o ruído na fechadura. A porta abriu-se e logo a ordem de uma voz feminina para que eu entrasse. Estava tudo escuro, entrei mesmo assim e a pessoa escondida atrás da porta ordenou-me ao sofá. Não dava pra ver direito, segui a intuição. Esbarrei numa poltrona e acomodei-me enquanto percebia o fechamento de postigos e uma leve centelha mostrou-me quem me recepcionara. Fez um sinal de que reconhecera a minha presença e concedeu-me a graciosa inclinação de cabeça. Vi-lhe a face e traduzia a magia velada e oculta da Lua, sua pele reluzia com o frescor do jardim do Éden. Emergiu com um sorriso breve e encantador entre a cortina sustentada por dois pilares de Salomão. Sentou-se na poltrona: uma nubívaga fitando-me profundamente. Aqueles olhos misteriosos possuíam uma graça inenarrável, um ar de nefelibata, vicariante, desiderato. A calma de sua presença envolveu-me os pés à cabeça, a ponto de não conseguir balbuciar qualquer coisa, devidamente hipnotizado pela presença sempiterna. Estava diante da serendipidade em pessoa. Ali ficamos no imprevisível, interrompido apenas pelo gesto dela à oferta da bebida no carrinho encostado ao meu braço direito. Nem havia notado: Sirva-se! Preferi estar plenamente cônscio de tão intrigado com o convite e a determinação, sem saber sequer o motivo de ter que estar ali. Parecia que ela lia meus pensamentos e nada mais disse, apenas levantou-se, foi até a porta, remexeu as chaves e trancas. Então voltou-se com seus olhos acesos, pálpebras pesadas e cerradas, a se despir do véu e da túnica transparente, colocadas no cabide ao lado; retirou a touca branca e o toucado em forma de colmeia, soltou seus ondulados cabelos a escorrerem sedutores aos ombros, desfazendo-se da pala amarela atravessada ao peito, o colo reluzente a realçar seus seios nus, fartos e firmes. Dirigiu-se a mim e nem podia adivinhar seu sussurro ao meu ouvido: era ela a Suma Sacerdotisa Sofia. Com a sua confissão, retirou da cabeça e deu-me a tiara cravejada de joias. Deu-me mais: a coroa de Hathor – e me fez Hórus, e Rá. (Era como se eu estivesse em Dendera, com a senhora dos céus e das estrelas). Ali era a monja consagrada que me ofertou os seus lábios de Sibila - a pítia que me fez Apolo, como se fosse a escolhida de Par Lagerkvists, essencialmente receptiva no Oráculo de Delfos. Tomou minha mão e levou-a ao ventre: livro sagrado aberto do seu corpo e a palavra divina recolhida ao seu umbigo como um olho aberto. O seu beijo de cortesã revelou-me introvisões e, nos seus lábios, senti Astarte a nutrir meu sexo, beijou-me mais Hécate para se tornar Perséfone e eu a raptasse Ísis com todas as remembranças: “Sou tudo que era, que é, e que sempre será. Nem mortal algum jamais pôde descobrir o que jaz debaixo do meu véu”. As suas lágrimas me banharam e passaram a governar meu pênis. Nela deitei minha semente, enquanto seus olhos chamejavam como se me dissesse que era ali a Papisa Joana com todos os mistérios cristãos e o segundo trunfo secreto: estava grávida! E a centelha divina do seu ventre – o vaso da transformação - me premiou a paternidade do primogênito de Deus. Sorriu-me por fecundá-la. E me banhou com o líquido amniótico para que eu aprendesse as profundezas dos oceanos. E me fez mago para ela cartomante do meu destino, portadora da minha sina. E me fez Noel pro pão-por-deus para que eu soubesse que ela é o instrumento da eternidade. Levou-me às suas costas, a sua magia incontrolável. E depois de vencê-la, suas mãos unidas em meu sexo como a guardiã do santuário íntimo, o paradoxo da sua essência me ensinou o poder das águas, como se me sepultasse no seu ventre. Ouvi-lhe sussurrar: Sou uma rosa, nem melhor nem pior, apenas diferente. Mais disse: Você é uma virga-áurea. E me fez deus, o seu santo venerado, o seu rei adorado, o seu senhor servido, o seu dono e feitor. E nela fui real-izado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Uma pessoa sem memória é uma criança ou um amnésico. Um país sem memória não é uma criança nem um amnésico, mas também não é um país. Quando você começa a fazer perguntas, a inocência desaparece. A vida sem emoções é como um motor sem combustível. Nossa segurança deve ser ameaçada para que possamos apreciá-la. Não é bom fazer viagens sentimentais. Você vê as diferenças em vez da mesmice. Pensamento da atriz estadunidense Mary Astor (Lucile Vasconcellos Laghanke - 1906-1987), Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Cada gesto de retribuição acarreta o risco de escalada. Não é uma possibilidade insignificante que o moralmente certo possa resultar no moralmente errado. Quer as decisões morais sejam avaliadas por padrões universais ou pelas tradições locais, os conflitos morais são sempre contextuais. Pensamento da socióloga húngara Ágnes Heller (1929-2019). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

O FUGITIVO – [...] A conversa dos beijos. Sutil, envolvente, destemido, transformador. [...] Isto é o que acontece. Você guarda isso por um tempo e, de vez em quando, procura outra coisa no armário e se lembra e pensa, em breve. Então se torna algo que está ali, no armário, e outras coisas ficam amontoadas na frente e em cima dele e finalmente você nem pensa nisso. Aquilo que era seu tesouro brilhante. Você não pensa sobre isso. Uma perda que você não conseguia imaginar antes, e agora se torna algo que você mal consegue lembrar. Isto é o que acontece. [...] Poucas pessoas, muito poucas, possuem um tesouro, e se você tiver, deverá mantê-lo. Você não deve se deixar ser emboscado e ter isso tirado de você. [...] Ela não conseguia explicar ou entender muito bem que o que ela sentia não era totalmente ciúme, mas raiva. E não porque ela não pudesse fazer compras assim ou se vestir assim. Era porque era assim que as meninas deveriam ser. Era assim que os homens – as pessoas, todo mundo – pensavam que deveriam ser. Linda, estimada, mimada, egoísta, estúpida. Isso era o que uma garota deveria ser, por quem se apaixonar. Então ela se tornaria mãe e seria totalmente dedicada aos seus bebês. Não é mais egoísta, mas igualmente estúpido. Para sempre [...]. Trechos extraídos da obra Runaway: Stories (Vintage, 2005), da escritora canadense Alice Munro (Alice Ann Laidlaw – 1931-2024), Prêmio Nobel da Literatura de 2013. Veja mais aqui e aqui.

 

VELHA COMPANHEIRAVelha companheira, desculpe-me, resolvi ser moderno. Sei que há muito tempo vives comigo e não tens me faltado, mesmo assim, a partir de hoje, resolvi arranjar um novo amor. É certo que por toda a minha vida pintaste meu branco, me deste letras e acompanhaste os meus erros, observaste minhas rasuras e vista que eu não vivo sem um corretivo. Quantas vezes fiquei sozinho contigo! A noite toda, só nós dois, falando de mim (como eu fui egoísta, só falava de mim) de meus desencantos, de minhas desilusões... Quantas vezes te procurei! Em todos os momentos me aceitaste. Nunca me disseste um “não”. Sempre te procurei nas horas difíceis. Quando os professores me apertavam na faculdade, eu me aproximava de tua mecânica inteligência... Quando eu precisava desabafar, na inquietude de um amor que me rasgava o peito, fingindo que não era amor, eu te procurava, até mesmo (que vergonha!) quando eu precisava de um dinheirinho a mais, eu buscava a tua amizade. Enquanto o sono não vinha, minhas mãos pousavam sobre o teu rosto, num afago amiúde, dentro da noite só se ouviam tuas gargalhadas, repetidamente, como uma metralhadora rasgando a madrugada!... Minha querida, quase não chega à garganta a voz cúmplice deste momento, para dizer-te que não te quero mais, que o mundo ficou pequeno demais para nós dois e, a partir deste instante tu fazes parte do meu passado, que és (permita-me o desabafo) quadrada, antiquada, fora de moda, velha demais para mim. A partir de agora, minha velha companheira máquina de escrever Olivetti Studio 44, não te quero mais. Comprei um computador. Crônica extraída do livro A mulher da sombrinha e outras crônicas (Inovação, 2008), do poeta e professor Admmauro Gommes. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS - I – Deram-me à luz para morrer, \ Para tosquiar o verão de janeiro, \ Para procurar a caverna entre as cavernas \ E lá seduzir as pedras no meu aniversário; \ Para conquistar o vinagre do urubu frio \ Para guardar lagartos no peito. \ Dedico-me a morrer, \ A construir poças no cimento, \ A apagar até a última carta do meu pai grisalho \ Para embotar sua língua e salvar minha voz com o ritmo da neve.\ Deram-me à luz e mataram-me \ Entre o fogo dos juncos lamacentos e a inabitação da carne, \ Entre o garfo de um anjo e o litar a minha barriga como um cordeiro branco. \ Não me deixam nada no jardim \ Só veias, \ Sangue que emana das pedras para a minha noite, \ Sangue \ Mas sangue de mosca, \ De cacto. \ Nada tem que colorir as bochechas de gaivotas \ Onde você acaricia há vidro \ Tudo treme, \ Tudo está amarrado ao endireitamento escuro dos galhos. \ É hora de olhar no espelho \ E assumir minha condição de cruz, \ A condição de espinho, \ Que essa é a última flecha que sangrará meu leite \ Amanhã beberei do Jordão, \ E as cinzas cruzarão minhas costas \ Só então a música foram inventados \ E toda a lama \ Vai se dividir em dois. \ Sou um milagre iluminado por feras elitizadas, \ sou a palavra colhida com ameixas, \ sou a presa ferida das cobras e do rugido, \ sou a última janela desta rua, \ Sou a sede que se extingue com orelhas de frade, \ sou lobo e sapo e escorpião, \ E me dedico a morrer. II – Falo das cobras e não do veneno \ Da barriga agitando o grito e não das flautas \ Da sede do outono pelo fogo das ondas \ Das ondas que se perdem nos cabelos da morte \ Da morte que sobe ao silêncio de quem ama \ De quem ama no segredo de um espelho \ Falo de um dia de janeiro e não do sangue da guerra \ Dos lobos que se refugiam nas suas línguas e não do batismo \ Da cor azul escorrendo nos ramos das oliveiras \ Das oliveiras marcando passo no beijo do água-viva \ De água-viva acordando a linguagem das presas \ De presas no momento em que comunicam o exílio \ Falo das mulheres atravessando a porta dos anjos e não do Éden \ Da fome cuidando dos frutos e não da plumagem das raposas \ De cavernas dominadas por espadas onde sou eco de dor \ Dos cantos da Bíblia onde as virgens declamam andorinhas \ De andorinhas dando à luz o céu com suas pinças de chumbo \ Falo do início do inverno e da minha boca transformada em árvore \ Como qualquer árvore caída na estrada \ Falo dos rostos e das pinturas \ Das máscaras, das minhas quando te deixo no norte \ Das suas quando você abriga César em suas mãos. \ Falo da fé na saudade da chuva, não do bosque e no terceiro dia \ falo da minha voz ressoando no seu rastro \ De você derrubando toda a mata cerrada que te escrevi \ falo de Deus, se ele adorei o jogo das borboletas \ Se ele se abraçasse quando se amassem como as leoas amam as gazelas \ Se de todas as pessoas eu não fechasse os olhos quando te beijasse. Poemas da cantautora, escritora, grafiteira e militante feminista decolonial aymara boliviana Julieta Paredes Carvajal.


NIETZSCHE, FILOSOFIA E PSICOLOGIA – Evidente que a motivação para a realização do presente trabalho partiu da leitura do romance do Irving D. Yalom, Quando Nietzsche chorou, traduzido pelo Ivo Korytowski e que virou filme dirigido por Pinchas Perry, como também da obra Nietzsche e Freud, de Reinhard Gasser. Merece também registro a menção de Mosé (2005) ao fato da multiplicidade e proliferação de estudos cada vez mais diversificados acerca da obra do filósofo alemão, bem como o entendimento de Giacóia Junior (2001) de que o filósofo exerceu importante influência que o caracteriza como psicólogo. Com isso, por meio de uma revisão da literatura, caracteriza-se esta abordagem como uma pesquisa bibliográfica embasada nas fontes disponibilizadas. A FILOSOFIA E A PSICOLOGIA DE NIETZSCHE - A filosofia de Nietzsche, no dizer de Mosé (2005) é extremamente erudita e com um posicionamento crítico com relação à própria filosofia, adotando a ideia do devir por meio de três linhas de raciocínio: a arte, o pensamento e o saber. No dizer de Cotrim (2006), o filósofo teceu uma abordagem da genealogia da moral produto do histórico-cultural, tendo por consequência, no dizer de Chauí (2002 ), Giacoia Junior (2001) e Souza (2014), o desenvolvimento do Existencialismo inaugurado por Kierkegaard. Esse filósofo começará a lecionar filosofia clássica na Universidade da Basileia, em 1869, publicando seu primeiro livro O nascimento da tragédia no espírito da música, em 1872. Entretanto, é com o lançamento da sua obra Humano, demasiado humano, em 1878, que Nietzsche passará se autodenominar de psicólogo. A filosofia de Nietzsche, em conformidade com Noffat Neto (1991), Giacóia Junior (2001) e Marques (2003), é uma filosofia dos afetos, das paixões e desejos, que contempla o individualismo, a força, a abundância e os instintos de vida. Para ele filosofar não era uma atitude teórica e contemplativa, mas uma atitude prática que se enraíza na vida, um ato de libertação de toda subjugação, de toda moral, de toda deformação e de tudo aquilo que nos prende a religiões, grupos e ideologias. Em um determinado período da sua vida, a filosofia nietzschiana se voltou para a psicologia. Inclusive, Nascimento (2006) registra que esse filósofo se autodenominava psicólogo e em muitas de suas obras encontra-se a denominação de psicologia na sua proposta filosófica. É o que também identificam Oliveira (2014), Barbosa (2014) e Williams (2014), ao mencionarem que nos chamados escritos intermediários do filósofo, ocorrido no período entre 1876 e 1882, ele adota o procedimento de análise nomeado por ele mesmo de psicologia, se autoproclamando o primeiro psicólogo da história e efetuando uma relação interdisciplinar entre psicologia e morfologia, fisiologia, cultura, história, literatura, linguística, medicina e muitas outras áreas do conhecimento. Nietzsche (1978, p. 37) entende que a psicologia é a “[...] ciência que indaga a origem e a história dos chamados sentimentos morais e que, ao progredir, tem de expor e resolver os emaranhados problemas sociológicos”. Nessa ótica, ele faz adoção do procedimento que conjuga as vertentes históricas, fisiológicas e psicológicas unidas à sua filosofia, sob a proposta de tentativa da compreensão a partir do sentimento e das valorações humanas. Assim, para esse autor, a fisiopsicologia é entendida como instrumento de dissecação psicológica dos fenômenos morais. A respeito disso, assinala Vianna (1995) e Giacoia Junior (2001), que a psicologia nietzscheana compreende a visão além dos ângulos da realidade existencial, identificada na dimensão pulsional dos instintos. Noutra ocasião Nietzsche (2002, p. 23) assevera que “Toda psicologia, até o momento, tem estado presa a preconceitos e temores morais: não ousou descer às profundezas. Compreendê-la como morfologia e teoria da evolução da vontade de poder, tal como faço – isto é algo que ninguém tocou sequer em pensamento”. Nesse sentido, ele faz uso da noção procedimental fisiopsicológica para asseverar que a cultura é um sintoma fisiopsicológico das construções humanas, ao reinterpretar o corpo no contexto da corporalidade com o significado de instrumento complexo das múltiplas pulsões vitais e para romper com a dualística convenção do corpo/alma. Dessa forma, o filósofo entende que o ser humano é o resultado da luta das forças biológicas e psicológicas. Noutro momento, Nietzsche (2012, p. 354) assinala que: “Poderíamos, com efeito, pensar, sentir, querer, recordar-nos, poderíamos igualmente agir em todo sentido da palavra: e a despeito disso, não seria preciso que tudo isso nos entrasse na consciência (como se diz, em imagem)”. Com esse pensamento o filósofo defende que a consciência é independente das funções fisiológicas e psíquicas. Observa-se, portanto, que o autor coloca a psicologia no centro das ciências para alcance do ser humano de forma integral, reconhecendo-se a valorização do psíquico e fisiológico independentemente da consciência. Com esse entendimento, Oliveira (2014, p. 1) assevera que: A psicologia de Nietzsche está na base, portanto, de seu projeto de uma ética da amizade porque, ao destituir a moral de seus fundamentos metafísicos, ela abre a possibilidade de pensar as relações humanas e o próprio humano para além do princípio gregário do ethos. Observa-se que a concepção nietzschiana, segundo Vianna (1995, p. 32), é na direção de uma singular psicologia ‘[...] ao operar com as pulsões artísticas da natureza manifesta um inconsciente primordial o qual escapa às possibilidades de representação da consciência. A dimensão do inconsciente emerge como função de um princípio ativo”. Por esse entendimento, essa psicologia está situada no domínio da reflexão filosófica com características definidas na valoração positiva da experiência sensível como fonte principal do conhecimento. A primeira identificação da psicologia nietzschiana, segundo Nascimento (2006, p. 49) está identificada como uma psicologia da tragédia, quando: O psicólogo Nietzsche, num primeiro momento, analisará a tragédia grega e verá um elemento comum entre ela e a psicologia do povo helênico, que é a luta entre as forças apolíneas e dionisíacas. A relação entre elas vai definir uma teoria da civilização e da cultura, bem como uma teoria da arte. A morte da tragédia aparece como a metáfora viva da morte do mundo antigo e aponta desdobramentos na cultura, como, por exemplo, a primazia da razão sobre os instintos, nascida a partir da metafísica socrática que acaba se impondo na cultura do Ocidente, sobretudo em sua face platônica. A segunda identificação da psicologia nietzschiana, para Nascimento (2006, p. 51), é quando o filósofo: [...] vai propor uma psicologia que desmascara as bases de onde a metafísica se apoia e partirá da desmontagem da moralidade, posto que a metafísica é vista como produtora de filósofos da moral. Ao questionar a origem das representações e sentimentos morais afirmará que por detrás das ações morais, o que há, são motivações humanas, demasiado humanas, denunciando a servidão do homem aos conceitos e normas “superiores” que são tomados como vida. Nesse sentido, a autora mencionada identifica que essa psicologia surge no contexto de uma ciência capaz de indagar a história do mundo como representação, ultrapassando a metafísica. Uma terceira identificação da psicologia nietzschiana registrada por Nascimento (2006, p. 55), considera que o filósofo: [...] vai problematizar o que vem a ser a consciência. A psicologia, para se desprender dos preconceitos e temores morais, precisaria interpretar e avaliar a vida enquanto potência. [...] O novo psicólogo vai percorrer o sentido e o valor que vão se manifestar nas relações de forças e nas formas como a vontade de potência se apresenta. Em vista disso, entende a autora que Nietzsche será levado pelas motivações do inconsciente problematizando a natureza do conhecer, entendendo ele que os impulsos serão os agentes que se encontram por trás do conhecimento e que funcionam com a relação existente com outros impulsos, agindo e resistindo uns aos outros. Tem-se, portanto, conforme Nascimento (2006, p. 221) que o filósofo em estudo: [...] busca como psicólogo investigar e diagnosticar a saúde de uma cultura a partir da base, pautado na arte de interpretação dos sintomas manifestos na vida. A proposta de uma nova psicologia, pautada em outros valores, mais próximos da vida, em sua forma plena, ou seja, entendida como vontade de potência. Acrescenta Barbosa (2014, p. 2) que “[...] o argumento da gênese social da consciência fornecido por Nietzsche, vem corroborar com as explicações não dicotômicas sobre os sujeitos e sua interação com o mundo fruto da nova visão da Psicologia Social”. E conforme Fonseca (2014, p. 1): [...] Nietzsche re-lança na cultura moderna da civilização ocidental os fundamentos da perspectiva ética de afirmação do vivido, de constituição dele como fundamento do verdadeiro e dos valores, perspectiva ética de afirmação do corpo e dos sentidos, que vai constituir um fundamento das psicologias humanistas e da ACP [...]. Com isso, o autor mencionado observa que se encontra em franco desenvolvimento iniciativas de recuperação dos fundamentos da fenomenologia e do existencialismo, em particular da filosofia da vida de Nietzsche, filosofia essa que foi capaz de fornecer o substrato básico para o desenvolvimento da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial organísmica (FONSECA, 2014). Identifica-se que o filósofo em estudo influenciou o desenvolvimento da psicanálise de Freud, mesmo sendo irredutível o posicionamento de recusa do psicanalista quanto a este fato, muito embora tenha, ao final de sua vida, reconhecido que Nietzsche é o maior psicólogo de todos os tempos. Também fica identificada com base em Fonseca (2014, p. 1), a influencia do filósofo alemão na psicologia do norte-americano Carl Ransom Rogers, com a observância de que “[...] Bem ao gosto de Nietzsche, Rogers entendia que o existencial não se conforma ao empistemológico, e epistemofílico, pressuposto científico da busca de verdades. Não se conforma às esferas do conhecer, e do conhecimento, e de suas vontades”. É nesse sentido que anota Speranza (2014, p. 1) que “[...] Tanto Nietzsche como a psicoterapia de base fenomenológica têm em comum a existência afirmativa da vida”. Por consequência, entende a autora em comento que a psicologia diante da espiritualidade humana, numa perspectiva fenomenológico-existencial, utiliza-se como referencial a filosofia de Nietzsche e a filosofia do diálogo do filósofo, escritor e pedagogo austríaco Martin Buber que influenciará tanto a Gestalt como a psicologia fenomenológico-existencial. Acrescenta Fonseca (2014b, p. 1) que: Um aspecto que parece um dos mais interessantes para a psicologia e psicoterapia fenomenológico-existencial é que, ao mesmo tempo, o próprio empirismo aporético de Brentano aplicado à consciência como método fenomenológico existencial especificamente experimental, parece intimamente aparentado ao método experimental perspectivativo de Nietzsche. De modo que estas duas vertentes fundamentais da concepção do experimental num sentido fenomenológico existencial compartilhariam raízes bastante próximas. [...]. Com essa associação, verifica-se o quanto o filósofo alemão influenciou as mais diversas correntes psicológicas, sendo, portanto, meritório de registro e destaque de sua importância para a psicologia contemporânea. CONTRIBUIÇÕES NIETZSCHEANA PARA A PSICOLOGIA – Torna-se evidente, em primeiro lugar, a contribuição de Nietzsche para a Psicanálise freudeana, conforme Gasser (1987), mesmo tendo Freud relutado a vida inteira para, só perto da morte, admitir a importância de Nietzsche para a Psicologia. Ter sido o filósofo aquele a assumir em suas obras a condição de psicólogo, tratando sobre paixões, desejos, afetos, pulsões da forma interdisciplinar a psicologia, morfologia, fisiologia, cultura, história, literatura, linguística e medicina, entre outras áreas do conhecimento, definindo-se por uma Fisiopsicologia que compreende uma visão além da realidade existencial dentro de uma dimensão pulsional. Constata-se, ainda, que Nietzsche coloca a Psicologia no centro da ciência. Além do mais, identifica-se a nítida influência exercida pelo filósofo alemão no pensamento de Carl Rogers, Martin Buber, na Gestalt e na Psicologia Fenomelógico-Existencial. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
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ONIOMANIA & SHOPAHOLIC – A compulsão pelo consumo tronou-se um assunto para debates que envolvem as mais diversas perspectivas, sejam elas médicas, psicológicas, psiquiátricas, sejam nas visões do marketing, da economia, da sociologia, entre outras. Parte da visão do consumo na sociedade atual, oriundo do processo de industrialização e sua exposição maciça por meio de apelos propagandísticos nos veículos de comunicação de massa. O desenfreado consumo tem sido objeto de estudos das mais diversas áreas do conhecimento, notadamente pela necessidade de escoamento da produção de produtos e utilização de serviços, como das causas de ansiedade e estresse incidentes no comportamento do consumidor pela aquisição dos produtos mais sofisticados, dos serviços mais especializados e do atendimento aqui e agora. Em vista disso, o estresse e a ansiedade constante têm promovido que se instaurem no ser humano compulsões as mais diversas que, por sua vez, acarretam à identificação de transtornos. Essas compulsões passaram, então, a serem observadas tanto como desordem de comportamento, como estudos do comportamento humano diante do consumo desenfreado da realidade contemporânea. Essa desordem originou a oniomania que foi descrita, em 1915, pelo psiquiatra alemão Emil Kraepelin (1856-1926), como o impulso irresistível para obtenção dos mais diversos itens, inclusive aqueles desnecessários. Com isso, considera-se um transtorno do controle do impulso. Inicialmente entendeu-se que a oniomania poderia ser uma forma de autocura com alívio da tensão e satisfação da aquisição do que se necessita. Contudo, detectou-se que a tensão diminuída após a compra é substituída pelo sentimento de culpa, contribuindo para problemas de caráter crônico, destrutivo e patológico que levam a dívidas, inadimplemento e consequências financeiras e jurídicas, afora propiciar o aparecimento de sintomas patológicos associados. A COMPULSÃO PELO CONSUMO – As patologias que possuem relação com os distúrbios compulsivos, conforme Fonseca (2011) e Guerra e Penalosa (2014), começaram a ser observadas no começo do séc. XIX. Contudo, apenas no final do século XX é que ocorreram as primeiras identificações da compra compulsiva como um comportamento crônico e repetitivo em resposta aos sentimentos negativos ou eventos primários, passando a ser considerada como uma síndrome psiquiátrica. É preciso entender que, segundo Davidoff (2001, p. 757), a compulsão é entendida como “Comportamento ritualístico recorrente, apesar das tentativas de resistir ao impulso”. Nesse sentido, a autora considera que as obsessões e compulsões variam amplamente, muito embora se enquadrem nas categorias das dúvidas obsessivas, pensamentos obsessivos, impulsos obsessivos, medos obsessivos, imagens obsessivas, cessão e controle às compulsões. No dizer de Davidoff (2001), as causas da compulsão estão na diátese múltipla e nos estresses. Para a autora, segundo a visão behaviorista, as obsessões e compulsões são adquiridas por meio dos princípios de reforçamento e que fatores fisiológicos podem contribuir para formação desse comportamento. Para Morris e Maisto (2004, p. 412) as compulsões e obsessões são formas diferentes da ansiedade, considerando as obsessões como “[...] pensamentos ou ideias involuntárias recorrentes, apenas das tentativas da pessoas eliminá-los”, enquanto que a compulsão é o “[...] comportamento repetitivo e ritualístico que a vítima sente compelida a realizar”. No dizer de Leite (2011) há o entendimento de que as compras compulsivas são consideradas como um vício e um fenômeno social, quando consumidores sucumbem às compras para preenchimento do vazio interior. Essas compulsões passaram a ser denominadas de oniomania pelo psiquiatra alemão Emil Kraepelin (1856-1926), como sendo o impulso patológico para o ato desenfreado de comprar. O transtorno do comprar compulsivo (TCC), também conhecido como oniomania, conforme Filomensky (2011), é o ato da compra excessiva resultante de um impulso patológico que ocorre inicialmente no final da adolescência ou depois dos vinte anos, associado à desinibição que inclui álcool, cigarros, sexo precoce e uso de drogas, às compras descontroladas. Os portadores desse transtorno são identificados como shopaholic, considerados como incapazes de controle do desejo de compras ou quando os frequentes e excessivos gastos passam a interferir nos aspectos da vida do paciente. Os sintomas é de excitação e ansiedade para comprar, de gratificação e prazer em consumar a compra, ou acometido de angústia, irritabilidade ou frustração pela inibição do ato de comprar. Trata-se, conforme Tavares et al (2008) de um comportamento de consumo descrito em todos os continentes do planeta, não possuindo ainda até o presente uma incerta classificação nem incluído nos sistemas nosológicos contemporâneos, ou seja, ainda não foi descrito pelo Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, nem na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). É também reconhecido, no dizer de Martins (2014), como o comportamento do consumidor de forma crônica e repetitiva, difícil de ser interrompido e consequências graves e prejudiciais. Geralmente ocorre em resposta aos eventos e aos sentimentos negativos, configurando incapacidade de resistência à urgência de compras e os seus prejuízos. No dizer de Tavares et al (2008) o TCC é comórbido com frequência com os transtornos da ansiedade, do humor, alimentares e uso de substâncias. Por essa ideia, a classificação desses compradores foram acometidos de significativas depressões recorrentes ou do transtorno bipolar, bulimia, transtorno de personalidade, compulsão alimentar, escoriação psicogênica, abuso de bemzodiazepínicos, tentativas de suicídio, TOC, transtornos do controle do impulso (TCI) e cleptomania, entre outros comportamentos impulsivos. Significa dizer que esse transtorno, conforme Lopes e Souza (2014), caracteriza-se pela impulsividade, impossibilitando-se os pacientes, independente de formação acadêmica, de evitar as compras ou a incapacidade de domínio sobre o impulso das compras. Em vista disso, é considerado como um transtorno de dependência agrupado com os transtornos da droga e do uso do álcool. A oniomania, Nery, Menêses e Torres (2014), associada aos impulsos reativo incluem a piromania e a clieptomania, como parte dos transtornos obsessivo-compulsivo, ou de humor, categorizado com a combinação de dependências que incluem o comportamento sexual compulsivo, a dependência da Internet e o jogo patológico. O tratamento da oniomania, conforme Hodgins e Peden (2008), ainda não possui um padrão psicoterápico, sendo efetuado ainda por meio de um modelo cognitivo-comportamental, tratados com base em antidepressivos e outras iniciativas da psicofarmacologia. Dessa forma, as recomendações clínicas e terapêuticas são da prescrição de intervenções psicossociais no modelo cognitivo-comportamental. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
DAVIDOFF, Linda. Introdução à psicologia. São Paulo: Pearson |Makron Books, 2001.
FILOMENSKY, Tatiana. O comprar compulsivo e suas relações com transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno afetivo bipolar. São Paulo: Edusp, 2011.
FONSECA, Patrícia. Significados e julgamentos percebidos na frequência do consumo. Brasília: UnB, 2011.
GUERRA, Diego; PENALOSA, Veronica. Compra compulsiva: uma abordagem multidisciplinar com estudantes universitários. XII SemEAD Empreendedorismo e Inovação. Disponível em http://www.ead.fea.usp.br/semead/12semead/resultado/an_resumo.asp?cod_trabalho=823. Acesso 03 maio 2014.
HODGINS, David; PEDEN, Nicole. Tratamento cognitivo-comportamental para transtornos do controle do impulso. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, 30(Supl I):S31-40, 2008.
LEITE, Priscilla. Adaptação transcultural e validação das escolas the richmond compulsive buyning scale e compulsive buying scale. Rio de Janeiro: UFRJ, 2011.
LOPES, Francirene; SOUZA, Regiane. Compulsão por consumo: interface no período da contemporaneidade. Anais V CIPSI - Congresso Internacional de Psicologia. Disponível em http://www.eventos.uem.br/index.php/cipsi/2012/paper/view/797. Acesso em 03 maio 2014.
MARTINS, Gisele. O consumo compulsivo. Janela Econômica. Disponível em http://www.santacruz.br/v4/download/janela-economica/2010/9_O_consumo_compulsivo.pdf. Acesso em 03 maio 2014.
MORRIS, Charles; MAISTO, Albert. Introdução á psicologia. São Paulo: Prentice Hall, 2004.
NERY, Matheus; MENÊSES, Carla; TORRES, Thalita. Um breve ensaio da psicologia acerca do comportamento consumista na sociedade atual. Interfaces Científicas. Disponível em https://periodicos.set.edu.br/index.php/humanas/article/view/164. Acesso em 03 maio 2014.
TAVARES, Hermano; LOBO, Daniela; FUENTES, Daniel; BLACK, Donald. Compras compulsivas: uma revisão e um relato de caso. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, vol. 30, supl. 1, jan/mai, 2008.



V FESTA LITERÁRIA DE MARECHAL DEODORO – A V FLIMAR acontecerá nos próximos dias 12 a 15 de novembro, na cidade de Marechal Deodoro, tendo como personagem homenageada o cantor e compositor alagoano Djavan. Veja mais da Flimar aqui.


LIÇÃO PRO DIA A DIA – A romancista e ensaísta francesa, Anne-Louise Germaine Necker, baronesa de Staël-Holstein e mais conhecida como Madame de Staël (1766-1817), deixa pra gente uma importante lição: “É mais digno lutar contra o desespero do que a ele sucumbir”. Veja mais  aqui.
 

A RESPONSABILIDADE DO ESCRITOR - O filosofo e ativista político norte-americano, Noam Chomsky, declara qual a responsabilidade do escritor: “A responsabilidade do escritor como um agente moral é tentar apresentar a verdade sobre assuntos de significância humana para um publico que poder fazer alguma coisa a respeito. Isso é parte do que significa ser um agente moral ao invés de um monstro”. Veja mais aqui e aqui.


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