Mostrando postagens com marcador Celso Furtado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Celso Furtado. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, janeiro 11, 2018

DOROTHY PARKER, CELSO FURTADO, CARRERO, ANGELITA CARDOSO, BOTOMÉ, AYRTON MONTARROYOS, LUISA MAITA, SILÊNCIO & GUIOMAR VERDUREIRA.

OS UIVOS DE GUIOMAR - Imagem: arte da pintora, desenhista, aquarelista e gravurista Angelita Cardoso. - Guiomar sempre foi jeitosa, nunca deixou cair a pose, todo dia na feira, vendendo verduras e montada na última moda. Sempre um decote profundo com um trancelim de ouro espremido entre os seios robustos, uma saia ligada com um lascão no meio de causar vertigem na marmajanda zarolha, ou uma calça justa desenhando suas formas abundantes e assimétricas de futucar endoidecimento no juízo de qualquer cristão, um sapato de salto alto e bico fino, maquiagem discreta aformoseando as faces, um batom vivo para realce dos lábios bicudos, pulseiras, anéis, fivelas, brincos, tiaras, chovesse ou maior calorzão, todo dia ela assim, vistosa, provocante, apetitosa. Ela já virou a cabeça da macharia toda, enviuvou de dois – dizem que ela matou-los, bateram as botas na horagá do teitei -, deixou três na rua da amargura – melhor dizendo, deram um carreirão da gota porque não agüentaram o trampo dela -, afora ter endoidado e desmoralizado muito cabra metido a priapo pras suas bandas. Hoje se dizendo swofty, uma loba que uiva dia sim outro sim, tem na ponta da língua o riscado: Homem só serve pra duas coisas, furunfar quando a gente quer e depois jogar fora. Pra mim, nenhum homem presta, todos calçam quarenta e andam só atrás do caqueado, responsa de mesmo, nenhum que sirva. Até meus finados maridos não tinham a menor serventia. Só os tive porque era jovem, ingênua, fui preaparada só pra casar. Soubesse disso antes, nunca tinha me casado. Vez ou outra aparece um intrometido cheio dos galanteios com buquê de rosas: Meu filho, pegue o beco, vá! Só na outra encarnação, tá! De fiu-fius insolentes às cantadas atrevidas, ela já anda cheia: Isso é que é pandeirão, dava preu tocar maior partidão! Arreda, Zé-Mané, isso não é pro teu bico, besta! Com uma dessa eu entrava no céu de nunca mais sair, podecrê! Sai pra lá, rancolho, tu num agüenta essa carga, sai-fora! Até gente de posse deitou maior fortuna e ela nem nem. Outros mais impertinentes, vão direto ao assunto: Ô coroa, dá pra gente dá uma voltinha aí nessa garupa tesuda? Ah, meu filho, cresça e apareça, você precisa de tutano pra dar uma voltinha nisso aqui, viu? Vê se enxerga, Zé-roela! Mas tem duas ou três coisas, afora outras que nem sei, que a tiram do sério. A primeira, quando toma uma, ela vai com força e cai de cabeça no pileque, aí abre a porteira do mundo e passa todo tipo de gente, de esmoléu a menino, chega fazer fila e ela lá prontinha e insaciável, pedindo mais e chamando um batalhão. Por isso é corrente tratá-la por ninfomaníaca. Outra é no dia seguinte, de ressaca: Eita, Guiomar, lá vem a chuva! Ela fica fula, levanta a saia e manda o intrometido pra puta que pariu expondo as partes pudendas. Virou folclore, todo mundo sabe: dia de ressaca, ela sai de casa toda arrumada e sem calcinha por baixo, devido um calor desgraçado na bacorinha. Basta dizer: Olha a chuva! Ela não deixa mole e passa recibo na hora: Olha aqui, seus fidapestes! A pior mesmo é quando dizem que os peitos dela é uma tuia de papel no sutiã. Não deixa por menos, arreia a blusa e expõe aquela fartura de seio, de todo mundo não querer desgrudar as vistas. Essa Guiomar é doida, dizem as outras mulheres enciumadas que nem chegam perto, sabedoras que são que se ela descer do tamanco, a coisa enfeia e tira a roupa toda, fecha o quarteirão e chama pra briga, seja quem for, de autoridade a pé-rapado, mulher ou velho. Ainda ontem de tarde eu vi o seu pisado forte rebolador pra cima e pra baixo. Que é que há, Guiomar? Hoje tô inheta! Fechei a tolda pra resolver a aposentadoria, não dou mais caldo. Oxe, que é que isso, mulher! Você ainda está com tudo em cima de não precisar nem se preocupar com isso por uns vinte anos ou mais. Você que pensa, meu filho, você que pensa, tô vencendo, a idade pesa, a validade deu prazo, além do mais homem hoje é pé de cobra, quando não desmunheca, só aparece salafrário cabra safado nas paradas. E não quis mais conversa, empinou o pau da venta, estufou o peito e saiu toda provocante às reboladas rua afora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor Ayrton Montarroyos ao vivo & em estúdio; da cantora e compositora Luisa Maita: Lero-lero & Fio da Memória; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que faz com que a presquisa tenha uma razão de ser é a sua efetiva contribuição para melhorar as relações das pessoas com sua realidade e as situações com que se defrontam, elevando a qualidade de suas vidas. [...]. Trecho extraído da obra Pesquisa alienada e ensino alienante (Vozes, 1996), do psicólogo e professor Silvio Botomé.

TEMPOS ATUAIS - [...] Necessitamos de instrumentos para remover os obstáculos à atividade criativa, venham estes de instituições venerandas que se dizem guardiães da herança cultural, de comerciantes travestidos de mecenas ou do poder burocrático. Trata-se, em síntese, de defender a liberdade de criar, certamente a mais vigiada e coarctada de todas as formas de liberdade. Portanto, essa terá que ser umaconquista do esfocço e da vigilância daqueles que crêem no gênio criativo do nosso povo. [...]. Extraído de Quando o futuro chegar (Companhia das Letras, 2001), do economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). Veja mais aqui.

SOMBRA SEVERA – [...] O corpo, o que restava do corpo em Dina, estava domado. Acostumado aos bichos, Judas não seria sufocado por uma mulher, por mais cruel e estúpida que fosse a luta. As saias levantadas, rasgadas, as roupas de baixo partidas, não pôde mais resistir. Sentiu-o, entre a dor e o prazser agonioso, os olhos tinham mais raiva do que doçura. Dina nainda queria gritar – e gritava: mas os gritos, ao contrário, entravam pela garganta. A mordaça prendia a boca, os dentes, a raiva, a alma. Quando Judas se levantou, ainda era o mesmo homem: o rosto taciturno, os olhos de cão medonho, cão que fareja presas pelos matos. Tendo concluído o trabalho – se era mesmo trabalho, luta ou prazer, retirrou a mordaça. Dina, violada, estava sentada no chão – o sangue era o sinal, tão pouco o sangue, as vestes denunciando a violência. [...] De dentro da sombra que antecede a luz, sentado no canto esquecido da sala, os olhos sofreram: quem estava saindo do banheiro, os cabelos molhados caindo sobre os ombros, a toalha na mão, era Dina. Saía nua, o corpo alto e esgio, coxas grossas, os seis pequenos que se sacudiam, ventre macio. Atravessou a sala, o perfume que se entranha no corpo. Não olhou para ele. Dina não o olhou. Uma visão, uma miragem. [...]. Era uma visão mágica e terna, não tinha dúvida, aquela de Dina, nua, atravessando a sala. E ela não parecia preocupar-se – ou fingia – com a presença do homem. Nem sequer sorriu – se é que as mulheres costumam sorrir quando ficam despidas. [...]. Extraído de Sombra severa (Iluminuras, 2004), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui.

RECITAL DE SINTOMASNão gosto do meu estado mental: / sou amarga, encrenqueira, indelicada. / Odeio minhas pernas, odeio minhas mãos. / Não espero mudar-me para terras mais agradáveis. / Temo a luz recorrente da manhã. / Odeio ir para cama à noite. / Torço o nariz ao povo simples e sério. / Não suporto a pilhéria mais inocente. / Não encontro paz na pintura ou nas letras. / Meu mundo é um monte de destroços. / Estou desiludida e tenho o coração vazio. / Seria presa se revelasse o que penso. / Não estou doente e nem sadia. / Meus sonhos... / Minha alma... / Não gosto mais de mim. Arrepio-me quando penso nos homens / devo estar me apaixonando novamente. Poema da da escritora, dramaturga e crítica estadunidense Dorothy Parker (1893-1967). Veja mais aqui.

SILÊNCIO
A peça teatral Silêncio, dramaturgia do Teatro D’Adega, com direção de Fabiana Monsaiú e elenco formado pelas atrizes Elis Menezes, Fernanda Gama & Paula Bega, retrata uma mesma mulher com suas respectivas vertentes, muitas vezes opostas umas às outras. Tem como fio condutor o silêncio, do qual ressoam tempestades, segredos e revelações.

Veja mais:
Pra quem só vê superfície, todo rio é sempre raso, o pensamento de Zygmunt Bauman, a música de Maria Azova, a pintura de Júlio Pomar & Anna Ewa Miarczynska aqui.
Convite no Crônica de amor por ela, Zygmunt Bauman, Sérgio Porto, Friedrich Hölderlin, Oswald de Andrade, George Gershwin, Anaïs Nin, Kiri Te Kanawa, Lucélia Santos, Pedro Almodóvar, Parmigiano, Penélope Cruz Sanchez, Sumi Jo & Luciah Lopez aqui.
Marie Curie & Todo dia é dia da mulher aqui.
Beethoven, Eric Kandel, Hermeto Pascoal, Linda Lovelace & Nina Kozoriz aqui.
Hypatia, Mary Calkins, Oswald de Andrade, Parmigiano, Stanislaw Ponte Preta & Geraldo Azevedo aqui.
Dicionário Tataritaritatá aqui.
Galdino vive aqui.
A psicologia, os adolescentes & as DST/AIDS aqui.
Proezas do Biritoaldo: quando o balde tá entupido, a topada leva a merda pro ventilador aqui.
O vexame da maior presepada aqui.
Espera aqui.
Lavratura aqui.
A solidão de Toulouse aqui.
A lágrima de Neruda aqui.
Poema em voz alta aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, desenhista, aquarelista e gravurista Angelita Cardoso.
Veja mais aqui.

quinta-feira, agosto 17, 2017

KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele durante toda nossa infância. Espalhafato de conversa fiada, reinações de comer tempo e espaço, coisas do possível mais inventado que se possa crer: a gente vivia além da conta mesmo. Da beira do rio os meus olhos vermelhos na minha migração pra Letácio Montenegro – onde por conta de um leite achocolatado no recreio do Grupo José Bezerra, fui acometido duma hepatite de meses -, daí pro Caçotinho que era a Cohab, passando pelo Beco do Mijo – no qual dei um mergulho indesejado de cima da casa na lavanderia entupida de frascos -, Beco do Capim do namorico aprumado e jogadas de bola, Rua da Aurora, Rua Nova até a Praça Ismael Gouveia, era mudando de endereço e de escola. E ele lá, no mesmo endereço de sempre: a casa de Pai Lula & Carma, reduto de nossas mais cabeludas presepadas. Adolescemos juntos: chulé, pigarros, lapadas e trapalhadas. Tudo foi tão rápido que parece que foi ontem. Quando eu chegava na casa dele, ele lá inquieto altas curtições: Beatles, João Gilberto & Bossa Nova, David Bowie, Alice Cooper, Rolling Stones, Tropicália & dos Mutantes, Woodstock, Bob Dylan & Joan Baez, Simon & Garfunkel, Elvys, Elis, Frank Zappa, Led Zeppelin, do iê-iê-iê da Jovem Guarda, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Tim Maia, maior salada com levada de tudo no meio das mais diferentes e efervescentes tendências musicais, quantas linguagens e ele incorporando de tudo no seu repertório pessoal, com seu microfone e plateia invisíveis e eu solando uma guitarra imaginária do bucho acompanhando tudo. Ele cantava tudo o que era de tons e sons, isso era década de 1970. E logo escapuliu a cantar por aí, no tempo em que havia o predomínio dos bailes com os sucessos do rádio, dos programas de auditórios, dos temas de novelas na época dos vinis marcados pelas gravadoras e os jabás. Nem vi direito e ele já cantava por aí, botando pra fora sua sensibilidade artística, participando de festivas e feiras de música, imprimindo sua personalidade, uma voz diferente, um performer afinado, ousado e cantando de tudo. Em um dado momento ele sumira, dera uma de hippie e picara a mula mundo afora. Cadê-lo? Nem sinal. Quando dei por mim, eu já estava em Recife e a gente se cruzando, trocando ideias e tons durante toda a primeira metade dos anos 1980. De lá pra cá, uma ou outras vezes, bebericando com pinoias, enterrando nossos mortos, ressurgindo a cada dia, revivendo cada hora. Foi aí que veio a maior sacada: ele aprumou uma parceria com Genésio Cavalcanti e Zé Linaldo de sair cada coisa bonita de nem saber direito no meio de tantas qual melhor. O que vale de mesmo fica na entrevista que se encontra mais abaixo, confira. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RIO UNA
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar 
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
É que ele nasce pelas bandas de Capoeiras
Vai descendo as cachoeiras
Ligeiro que nem o vento
Chega em São Bento ele sorri de alegria
A correnteza tá dizendo
Se eu pudesse eu não descia
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Pede licença e entra em Cachoeirinha
É quando vê quatro vaquinhas
Bebendo do seu produto
Se eu pudesse
Eu demorava um tiquinho
Mas vou passar em Altinho
Nem que seja um minuto
Chega em Altinho
Ele se alegra e se agita
Quando vê a moça bonita
Na barreira matutina
Para Agrestina ele corre com emoção
As águas batendo nas pedras
Até parece uma canção
Lá vai o rio Una, vai correndo a galopar
Lá vai o rio Una, vai correndo para o mar
Chega em Palmares
Ele mata a saudade
Passa dentro da cidade
Valente como um leão
Em Água Preta ele deixa de ser arisco
Respeita o padre Francisco 
E pede a sua benção
Aí ele entristece 
E bota pra chorar
Se despede de Barreiros
E emboca pra dentro do mar
Música extraída do álbum Meu Cantar (Cactus/RCA, 1982), do cantor e compositor Jorge de Altinho. Veja mais aquiaqui .

RIO UNA – A despeito da opinião dos entendidos, que prognosticavam uma trovoada de maiores proporções para o dia seguinte, o tempo amanheceu firme, sol quente de verão. Mas o povo em geral se mostrava satisfeito, certo de que nem tão cedo faltaria água na cidade. O Una transbordara, os açudes dos arredores estavam sangrando, as cisternas das casas residenciais com o seu fornecimento garantido para muitos meses. Comentavam-se nos cafés, nas barbearias, na farmácia, os estragos causados pela chuva. Estragos, todavia, benfazejos, que a todos contentavam. [...] Trecho extraído da obra Jutaí menino (Bagaço, 1995), do escritor Gilvan Lemos (1928-2015). Veja mais aqui.

O FUTURO DO HOMEM – Há muito distúrbio e corrupção no mundo; as pessoas vivem extremamente perturbadas. É perigoso andar pelas ruas. Quando falamos em estar livres do medo, queremos a liberdade exterior – estar livres do caos, da anarquia, da ditadura. Mas nunca investigamos nem queremos saber se há uma liberdade interior, uma mente livre. Essa liberdade é real ou teórica? Consideramos o Estado como um obstáculo à liberdade. Os comunistas e outros povos totalitaristas afirmam que não existe essa tal de liberdade; o Estado, o governo, é a única autoridade. E estão suprimindo todas as formas de liberdade. Que espécie de liberdade, portanto, querem? A externa? Fora de nós? Ou a liberdade interior? Quando falamos de liberdade, trata-se de liberdade de escolha entre este e aquele governo, aqui e lá, entre liberdade exterior e interior? A psique interna sempre conquista o exterior. a psique, isto é, a estrutura interior do homem (seus pensamentos, suas emoções, ambições, ações, ganância) sempre conquista o exterior. assim, onde buscar a liberdade? Podemos estar livres da nacionalidade que nos dá uma sensação de segurança? Pode haver liberdade em relação a todas as superstições, dogmas e religiões? Só poderá surgir uma nova civilização através da verdadeira religião, e não através da superstição e do dogma nem das religiões tradicionais. Trecho extraído da obra Sobre a liberdade (Cultrix, 1991), do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui, aqui, aqui, & aqui.

DESENVOLVIMENTO & FATOR HUMANO - [...] o desenvolvimento econômico, na forma em que ele se processa hoje em dia, é essencialmente uma questão de criação e assimilação de progresso tecnológico. Essa afirmação deveria ser completada por outra: o progresso tecnológico é principalmente uma questão de qualidade do fator humano. Estamos aqui em face do mais complexo de todos os problemas que coloca uma política de desenvolvimento: melhorar o fator humano toma tempo e somente é possível se se dispõe de matrizes adequadas. Abundantes estudos hoje disponíveis demonstram que o nível de desenvolvimento de um país é função da massa de investimentos incorporados no fator humano. Desta forma, o problema do progresso tecnológico e o da melhor do fator humano, estarão sempre intimamente relacionados. [...]. Trecho extraído da obra Um projeto para o Brasil (Saga, 1968), do economista brasileiro Celso Furtado (1920-2004). Veja mais aqui e aqui.

VIVER A VIDA - Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. [...] Vá em frente, viva a sua vida, é uma boa vida – você não precisa de mitologia”. Não acredito que se possa ter interesse por um assunto só porque alguém diz que isso é importante. Acredito em ser capturado pelo assunto, de uma maneira ou de outra. Mas você poderá descobrir que, com uma introdução apropriada, o mito é capaz de capturá-lo. E então, o que ele poderá fazer por você, caso o capture de fato? Um de nossos problemas, hoje em dia , é que não estamos familiarizados com a literatura do espírito. Estamos interessados nas notícias do dia e nos problemas do momento. Antigamente, o campus de uma universidade era uma espécie de área hermeticamente fechada, onde as notícias do dia não se chocavam com a atenção que você dedicava à vida interior, nem com a magnífica herança humana que recebemos de nossa grande tradição – Platão, Confúcio, o Buda, Goethe e outros, que falam dos valores eternos, que têm a ver com o centro de nossas vidas. Quando um dia você ficar velho e, tendo as necessidades imediatas todas atendidas, então se voltar para a vida interior, aí bem, se você não souber onde está ou o que é esse centro, você vai sofrer. As literaturas grega e latina e a Bíblia costumavam fazer parte da educação de toda gente. Tendo sido suprimidas, toda uma tradição de informação mitológica do Ocidente se perdeu. Muitas histórias se conservavam, de hábito, na mente das pessoas. Quando a história está em sua mente, você percebe sua relevância para com aquilo que esteja acontecendo em sua vida. Isso dá perspectiva ao que lhe está acontecendo. Com a perda disso, perdemos efetivamente algo, porque não possuímos nada semelhante para pôr no lugar. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se você não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta. Mas assim que for apanhado pelo assunto, haverá um tal senso de informação, de uma ou outra dessas tradições, de uma espécie tão profunda, tão rica e vivificadora, que você não quererá abrir mão dele.[...]. Trechos extraídos da obra O poder do mito (Palas Athena, 1990), do estudioso estadunidense de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (1904-1987), também autor da obra Mito e transformação (Ágora, 2008), nos quais defende que “o individuo precisa aprender a viver pelo seu próprio mito, o caminho para encontrar o seu mito é encontrar o seu entusiasmo”.

AS AMIZADES - [...] E eu fico apenas a refletir que as amizades políticas são sempre e naturalmente passageiras. Mas as que se firmaram sobre um ideal, no serviço de uma casa nobre, vão buscar, na eternidade de seus motivos, a força e a sobrevivência, que os interesses humanos não sabem e não podem encontrar. Trecho de Por amor às crianças pernambucanas (Jornal do Brasil, 23/11/1969), extraído da obra Assuntos pernambucanos (Tempo Brasileiro/Fundarpe, 1986), do jornalista, advogado, escritor, historiador e ensaísta Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000).

AS MULHERES, SEMPRE POR CIMA - Ainda que as acusações continuem apontando-nos como execráveis porcos chauvinistas, nós, com o cavalheirismo que o tempo nos ensinou, estamos sempre apoiando a mulher (da alta classe média) e tudo que ela representa em sua luta destemida em prol de não sabemos lá o quê. [...] Você ainda gosta de mulher? [...] Millôr Fernandes, jornalista, idade indefinível. Ex-praticante de tiro ao alvo sobre alvos vivos, na Argélia: “Como sexo, as mulheres são insuportáveis. Mas na hora do sexo não tem nada melhor”. Quando cara diz que fala por experiência é porque ainda não adquiriu a experiência pra calar a boca. [...] O ideal de nossos governantes é um cavalo que chegue em primeiro sem fazer cocô. [...] Há muitas formas de ser útil ao país. Uma delas é se locupletar discretamente. [...]. Trechos extraídos da obra Que país é este? (Nordica, 1978), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja mais sobre:
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

ENTREVISTA MARQUINHOS CABRAL
Confira a entrevista & arte de Marquinhos Cabral aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sábado, setembro 12, 2015

MARX, FURTADO, VANDRÉ, CAIO ABREU, AUTA, MARISA ORTH & SCHIAPARELLI.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? COMEÇAR E RECOMEÇAR TODO DIA E O DIA TODO (Imagem: foto do horizonte de Palmares, Pernambuco)- Quando uma vez me vi só – o gosto amargo e suicida da solidão mais solitária da minha vida -, eu fechei os olhos e olhei bem dentro de mim. De primeira, não vida nada, só a escuridão que reinava. Não via nada mesmo e me intriguei: será que sou esse vazio escuro? Não pode ser. Depois de um certo tempo, pude então enxergar dentro de mim as paisagens e temas que recolhi no meu livro O trâmite da solidão. Vi a dupla face de tudo. E que não era apenas uma dualidade, era trina, quádrupla, era quíntupla, era sêxtupla, era, afinal, um emaranhado de múltiplas faces que se transformavam em outras tantas fisionomias escondidas por trás de todas as faces e que era a minha escuridão de tão inter e superpostas que se encontravam. Percebi, então, o quão difícil é coexistir com essa complexidade de redes entrecruzadas e emaranhadas que eclodiram de nossas próprias escolhas, quase incompreensível, quase indecifrável, ao ponto desse enredamento se expressar de tal forma tal a nos darmos conta de que somos incapazes em desatar todos esses nós. Compreendi. E foi nesse momento que me veio à ideia o que se passa por dentro de outra pessoa que não conseguisse enxergar dentro de si nada além de sua escuridão: desejos preteridos, frustrações reinantes, traumas insuportáveis; do peso do sim diante das toneladas do não; os temores, aflições, estereótipos, assombros, aflições; enfim, de não ver nada além de nada, completamente imerso na cegueira do vazio que não os permite perceber nem atinar que a vida pulsa dentro de si tão radiante quanto o sol do meio dia; de não se conseguir discernir entre os caprichos do umbigo e o riso da vida escotomizado pelos desejos e escolhas a serem tomadas no reino da compulsão; de procurar interlocução em ombro fraterno e só dar de cara com a indiferença e intolerância apressadas de coisas por resolver; de necessitar do abrigo de um olhar sensível e apenas se deparar com o individualismo possessivo tão umbigocentrista e falante e, ao mesmo tempo, mouco às imprecações mendicantes de quem precisa só de um segundo de atenção; de ansiar por uma mão altruísta e achar nada além das aspirações neuróticas mobilizando o inevitável das situações aversivas; de simplesmente desejar ali um riso de cortesia e, apenas, perceber que todos estão mergulhados no submundo das condutas fóbicas ou obsessivas com seus rituais; até chegar ao ponto de que é um insolvente miserável e invisível a tudo e todos, na condição desumana de que não há mais saída e que chegou ao fim da linha, diante de uma terrível e abissal situação perturbadora que o impede de voltar ou recomeçar. Bastaria um riso, um olhar, um oi ou gesto, nada mais. Ao contrário, constatou-se que não se substitui a mangação por um ato de sensibilidade diante do tropeço ou da queda do outro, e que todos estão no automático na gestão dos seus escarmentos prontos para se livrar de uma bronca a mais. Todos caminham na sua direção e passam. Tudo passa. Até mesmo a dor dessa solidão. Eu mesmo já fui acometido por essas situações um tanto de vezes e nem morri quando me vi sozinho no mundo, sem ter a quem recorrer e no centro de uma grande rede intrincada de broncas, valha-me! Já me vi sem ter nem com quem falar e no centro de todos os destroços. E mesmo quando me vi entre escombros no meio de um lodaçal do mais profundo negrume da noite, mesmo ali, eu pude detectar o mais tênue feixe de luz: sempre tive esperanças. E me disse: - É por ali. Eu fui. E vou mesmo que tenha que me deparar mil vezes com portas cerradas, caras de indiferença, semáforos vermelhos, interditos. Não posso esperar que um milagre caia como um presente dos céus, tenho que fazer acontecer. E fui. E vou adiante, mesmo tendo que olhar para trás e ver que não fiz nada esse tempo todo, e com a sensação de que é chegada a hora de fazer alguma coisa. Nunca é tarde para começar e recomeçar, juntar meu cacos e todos os pedaços pro lixo e refazer uma nova vida, um novo caminho. Aprendi uma lição: o desespero é falta de imaginação. E veja mais aqui e aqui.


Imagem: Nude, do artista plástico Huan Zheng Yang.


Curtindo o álbum Das terras do Bemvirá (1973), do advogado, cantor, compositor, poeta e violinista Geraldo Vandré.

A SOCIEDADE SUICIDA – No livro Sobre o suicídio (Boitempo, 2006), do economista, filósofo, historiador, teórico político e jornalista alemão Karl Marx (1818-1773)encontro o seguinte trecho sobre o tema em questão: [...] O número atual dos suicídios, aquele que entre nós é tido como uma média normal e periódica, deve ser considerado um sintoma da organização deficiente da nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume um caráter epidêmico. A prostituição e o latrocínio aumentam, então, na mesma proporção. Embora a miséria seja a maior causa do suicídio, encontramo-lo em toda as classes, tanto entre os ricos ociosos como entre os artistas e os políticos. A diversidade das suas causas parece escapar à censura uniforme e insensível dos moralistas. As doenças debilitantes, contra as quais a atual ciência é inócua e insuficiente, as falsas amizades, os amores traídos, os acessos de desanimo, os sofrimentos familiares, as rivalidades sufocantes, o desgosto de uma vida monótoma, um entusiasmo frustrado, e até o próprio amor à vida, essa força enérgica que impulsiona a personalidade, é frequentemente capaz de levar uma pessoa a livra-se de uma existência detestável. Madame de Staël, cujo maior mérito está em ter estilizado lugares-comuns de forma brilhante, tentou demonstrar que o suicídio é uma ação antinatural e que não se deve considera-lo um ato de coragem; sobretudo, ela sustentou a ideia de que é mais digno lutar contra o desespero do que a ele sucumbir. Argumentos como esses afetam muito as almas a quem a infelicidade domina. Se são religiosas, as pessoas especulam sobre um mundo melhor; se, ao contrário, não creem em nada, então buscam a tranquilidade do Nada. As saídas filosóficas não tê, a seus olhos, nem valor e são um débil lenitivo contra o sofrimento. Antes de tudo, é um absurdo considerar antinatural um comportamento que se consuma com tanta frequência; o suicídio não é, de modo algum, antinatural, pois diariamente somos suas testemunhas. O que é contra a natureza não acontece. Ao contrário, está na natureza de nossa sociedade gerar muitos suicídios, ao passo que os tártaros não se suicidam. As sociedades não geram toda, portanto, os mesmos produtos; é o que precisamos ter em mente para trabalharmos na reforma de nossa sociedade e permitir-lhe que se eleve a um patamar mais alto. No que diz respeito à coragem, se se considera que ela existe naquele que desafia a morte à luz do dia no campo de batalha, estando sob o domínio de todas as emoções, nada prova que ela necessariamente falta quando se tira a própria vida e em meio às trevas. Não é com insultos aos mortos que se enfrenta uma questão tão controversa. Tudo que se disse contra o suicídio gira em torno do mesmo círculo de ideias. A ele são contrapostos os designios da Providência, mas a própria existência do suicídio é um notório protesto contra esses designios ininteligíveis. Falam-nos de nossos deveres com a sociedade, sem que, no entanto, nossos direitos em relação a essa sociedade sejam esclarecidos e efetivados, e termina-se por exaltar a façanha mil vezes maior de dominar a dor ao invés de sucumbir a ela, uma façanha tão lúgubre quanto a perspectiva que ela inaugura. Em poucas palavras, faz-se do suicídio um ato de covardia, um crime contra as leis, a sociedade e a honra. Como se explica que, apesar de tantos anátemas, o homem se mate? É que o sangue não corre do mesmo modo nas veias de gente desesperada e nas veias dos seres frios, que se dão o lazer de proferir todo esse palavrório estéril. O Homem parece um mistério para o Homem; sabe-se apenas censurá-lo, mas não se o conhece. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

PERSPECTIVA DOS PRÓXIMOS DECÊNIOS – O livro Formação econômica do Brasil (Companhia das Letras, 2007), do saudoso economista Celso Furtado (1920-2004), trata acerca dos fundamentos econômicos da ocupação territorial, a economia escravista de agricultura tropical, a economia de transição para o trabalho assalariado e para o sistema industrial, a crise cafeeira, os dois lados do processo inflacionário, a descentralização republicana e a formação de novos grupos de pressão, nível de renda e ritmo do crescimento, o fluxo de renda na economia de trabalho assalariado, a defesa do nível de emprego e a concentração de renda, entre outros temas. Da obra destaco o trecho para reflexão: [...] O processo de integração econômica dos próximos decênios, se por um lado exigirá a ruptura de formas arcaicas de aproveitamento de recursos em certas regiões, por outro requererá uma visão de conjunto do aproveitamento de recursos e fatores no país. A oferta crescente de alimentos nas zonas urbanas, exigida pela industrialização, a incorporação de novas terras e os traslados inter-regionais de mão de obra são aspectos de um mesmo problema de redistribuição geográfica de fatores. À medida que avançar essa redistribuição, a incorporação de novas terras e recursos naturais permitirá um mais racional da mão de obra disponível no país, mediante menores inversões de capital por unidade de produto. Demais, as inversões de capital na infraestrutura poderão ser mais bem aproveitadas, em razão da menor dispersão de recursos. É de supor que, caso progrida essa integração, a taxa media de crescimento da economia tenderá a elevar-se. Se se admite que a taxa a longo prazo de 1,6 por cento se eleve para dois por cento, a renda per capita do país, ao final do século XX, alcançaria 620 dólares, no nível atual de preços. Por outro lado, se se supõe que o atual ritmo de crescimento da população (2,4 por cento anual) se manterá nos próximos decênios, o numero de habitantes do país haverá aumentado, ao término do século, para mais de 225 milhões. Sendo assim, o Brasil por essa época ainda figurará como uma das grandes áreas de terra em que maior é a disparidade entre o grau de desenvolvimento e a constelação de recursos potenciais. Veja mais aqui e aqui.

AQUELES DOIS – No livro Morangos mofados (Brasiliense, 1982), do escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996), encontro o conto Aqueles dois: história de aparente mediocridade e repressão, do qual destaco o trecho da primeira parte: A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou. Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam. Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois. Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam. [...]. Veja mais aqui.

SAUDADE HORTO – No livro Horto (1900), da poeta do Romantismo potiguar Auta Souza (1876-1901), encontro, inicialmente, o poema Saudade: Ah! se soubesse quanto sofro e quanto / Longe de ti meu coração padece! / Ah! se soubesses como dói o pranto / Que eternamente de meus olhos desce! / Ah! se soubesses!... Não perguntarias / De onde é que vem esta sombria mágoa / Que traz-me o peito cheio de agonias / E os tristes olhos arrasados d’água! / Querem que a lira de meus versos cante / Mais esperança e menos amargura, / Que fale em noites de luar errante / E não invoque a pobre noite escura. / Mas... como posso eu levar sonhando / A vida inteira n’um anseio infindo, / Se choro mesmo quando estou cantando / Se choro mesmo quando estou sorrindo! / Ouve, ó formosa e doce e imaculada, / Visão gentil de eterna fantasia: / Minh’alma é uma saudade desfolhada / De mãe querida sobre a cova fria. / Ah! minha mãe! Pois tu não sabes, santa, / Que Ela partiu e me deixou no berço? / Desde esse dia a minha lira canta / Toda a saudade que lhe inspira o verso! / Depois que Ela se foi a Mágoa veio / Encher-me o coração de luto e abrolhos. / Eu sofro tanto longe de seu seio, / Eu sofro tanto longe de seus olhos! / Ó minha Eugênia! Estrela abençoada / Que iluminas o horror deste deserto... / De teu afeto a chama consagrada / Lança à minh’alma como um pálio aberto. / Quando beijares teus filhinhos, pensa / O que seria d’eles sem teus beijos; / E, então, compreenderás a dor imensa, / A amargura cruel destes harpejos! / Junta as mãozinhas dos pequenos lírios, / Das criancinhas que tu’alma adora, / E ensina-os a rezar sobre os martírios / E a saudade infinita de quem chora. Também o poema Horto: Oro de joelhos, Senhor, na terra / Purificada pelo teu pranto.../ Minh’alma triste que a dor aterra / Beija os teus passos, Cordeiro Santo! / Eu tenho medo de tanto horror.../ Reza comigo, doce Senhor! / Que noite negra, cheia de sombras. / Não foi a noite que aqui passaste? / Ó noite imensa... porque me assombras. / Tu que nas trevas me sepultaste? / Jesus amado, reza comigo... / Afasta a noite, divino amigo!”/ Eu disse... e as sombras se dissiparam. / Jesus descia sobre o meu Horto... /Estrelas lindas no céu brilharam, /Voltou-me o riso, já quase morto. /E a sua boca falou tão doce, / Como se a corda de um’harpa fosse: / “Filha adorava que o teu gemido / Ergueste n’asa de uma oração, / Na treva escura sempre envolvido, / Por que soluça teu coração? / Levanta os olhos para o meu rosto, / Que a vista d’ele foge o desgosto. / Não tenhas medo do sofrimento, /Ele é a escada do paraíso... / Contempla os astros do firmamento, / Doces reflexos de meu sorriso. / Não pensa em dores nem canta magoas, / A garça nívea fitando as águas. / Sigo-te os passos por toda parte, / Vivo contigo como um irmão. / Acaso posso desamparar-te / quando me trazes no coração? / Nas oliveiras nos mesmos Horto, / Enquanto orares, terás conforto. / Olha as estrelas... no céu escuro / Parecem sonhos amortalhados... / Assim, nas trevas do mundo impuro, / Brilham as almas dos desolados. / Mesmo das noites a mais sombria / Sempre conduz-nos á luz do dia.” / Ergui os olhos para o céu lindo: / Vi-o boiando num mar de luz... / E, então, minh’alma, n’um gozo infindo, / Chorando e rindo, disse a Jesus: / Guia o meu passo, nos bons caminhos, / Na longa estrada cheia de espinhos. / Dá-me nas noites, negras de dores, / Uma cruz santa para adorar, / E em dias claros, cheios de flores, / Uma criança para beijar. / Junta os meus sonhos, no azul dispersos, / Desce os teus olhos sobre os meus versos... / E vós, amigos tão carinhosos, / Irmãos queridos que me adorais / E nos espinhos tão dolorosos / De minha estrada também pisais .../ Velai comigo. longe da luz, / Que já levantam a minha cruz. / A hora triste já vem chegando / De nossa longa separação... / Que lança aguda vai traspassando / De lado a lado meu coração! / Não adormeçam, meus bem amados, / Já vejo os cravos ensangüentados. / Longe, bem longe, naquele monte, / Não brilha um astro de luz divina ? / É o diadema da minha fronte, / É a esperança que me ilumina! / A cruz bendita, que aterra o vício, / Fogueira ardente do sacrifício. / Adeus, da vida sagrados laços... / Adeus, ó lírios de meu sacrário! / A cruz, no monte, mostra-me os braços... / Eu vou subindo para o calvário. / Ficai no vale, pobres irmãos, / Da. vovozinha beijando as mãos. / E, se ela, inquieta, com a voz tremente, / Ouvindo as aves pela manhã, / Interrogar-vos ansiosamente: / “Que é do sorriso de vossa irmã?” / Dizei, alegres: foi passear... / Foi colher flores para o altar.” / E, quando a tarde vier deixando / Nos lábios todos saudosos ais, / E a pobre santa falar chorando: / “A minha neta não volta mais?” / Dizei, sem prantos: “A tarde é linda... / Anda nos campos, brincando ainda.” / Livrai su’alma do frio açoite / Das  ventanias que traz o inverno... / Cerrai-lhe os olhos na grande noite, / Na noite imensa do sono eterno. Anjo da guarda, de rosto ameno, / Mostra-me o trilho do Nazareno... / E... adeus, ó lírios, do meu sacrário, / Que eu vou subindo para o calvário! Veja mais aqui.

FICA COMIGO & ROMANCE – A trajetória da atriz, cantora, humorista e apresentadora Marisa Orth, começa quando ela ainda criança fez balé clássica e foi nadadora que ganhou o campeonato paulista de natação duas vezes. Possui formação em Psicologia pela PUC-SP e interpretação pela Escola de Arte Drmática (EAD-USP). No teatro ela estreia com o espetáculo Fica comigo esta noite (1988), seguindo-se a partir daí com Palmas para o senhor diretor (1993), Tres mulheres altas (1995), A megera domada (2000), A casa da rua ao lado (2004), Misery (2005), Fica comigo esta noite (2008), A capa (2009), Romance Volume II (2008-2013), O inferno sou eu (2010), A família Adams (2012-2013), O que o mordomo viu? (2014), Romance Volume III: Agora vai (2014-2015). Participou de quase 20 filmes e mais de 25 apresentações em novelas, séries e programas da televisão. Veja mais aqui.

AFTER DARK, MY SWEET – O filme neo-noir After Dark, My Sweet (Dominados pelo desejo, 199), dirigido pelo cineasta estadunidense James Foley e com música de Maurrice Jarre, é baseado na novela homônima do escritor e roteirista estadunidense Jim Thompson (1906-1977), que conta a história de um ex-pugilista vagabundo e fugitivo de um hospital psiquiatrico, que conhece uma bela viúva e é incentivado a corrigir-se, passando a dividir os espaços de sua residência. A partir de então vai surgir uma rede intrigas que se delineará por toda trama, até dar tudo errado e as coisas acontecerem de modo inesperado. O destaque da película é para a belíssima atriz inglesa Rachel Ward que, no desempenho de sua representação, consegue chamar a atenção de todos para a condução enredada das cenas, distribuindo sua beleza ímpar, sua sensualidade para lá de extraordinária, em um filme que pode deixar a desejar, mas que, entretanto, possibilita ao espectador uma reflexão acerca dos desvarios humanos. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA

Foto da estilista italiana Elsa Schiaparelli (1890-1973) encarnando Dream of Venus (1939), de Salvador Dali.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Dê livros de presente para as crianças.
Aprume aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...