terça-feira, outubro 10, 2017

JOÃO CABRAL, NIETZSCHE, MAFFESOLI, ROSÁRIO FUSCO, BARBARA MARCZEWSKA & PINTANDO NA PRAÇA

CUROU, MORREU – Jardelito era bem servido de nariz. Pense numa lapa de venta! Cyrano de Bengerac era pinto perto dele. Há quem diga que aquilo no meio da cara dele não era outra coisa senão um pênis: Ah, ele não passa aperto na horagá com a mulherada. Cheio de recursos! Aquilo era um pinto encolhido, feito o que estava amuado entre os colhões. É que na hora de precisão, bastava amolegar e virava uma bicanca com um chapéu de vaqueiro estendido pra sua satisfação e de quem mais fosse ter com ele. Era ele só na sua, pra tapiar tocava instrumento de sopro, diziam: que sax que nada, aquilo é a extensão do narigudo, só na moita. A tragédia foi quando ele gripou: uma bica escorria pelos septos nasais: atchim! Uma constipação inquietante, na mesma hora do espirro, o frosquete solidário: poin! Eita. E ele: dá pra tirar o maior som, meu: espirra-peida. Era só: atchim, poin! atchim, poin! atchim, poin! Aí deu de se amostrar com seus pendores artísticos, até então nem mesmo jamais desconfiados. Já que é assim, vai que cola e deu certo. Com o resfriado, ele assoava no narigão fazendo força, muco como a peste para ensopar papel higiênico, lenços, trapos e retalhos, e era só: atchim, poin! atchim, poin! atchim, poin! Maior catarreiro escorrendo. Assopra mais, desgraçado! E numa dessa estourou os tímpanos. Pode? Ouvia mais nada. Aí era uma orelha de abano imitando Beethoven, isso aliado a uma tosse de cachorro, daquelas de botar os bofes todos pra fora: cof, cof, cof, poin. atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Vixe! Aí virou espirra, tosse, peida: atchim, cof, poin! Danou-se! atchim, cof, poin! Pelo jeito, ia era virar a bandinha do coreto, no maior matinê. atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! O pior mesmo era aguentar a fedentina, uma orquestra fedorenta, espirra, tosse, peida: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Foi assim que ele passou a abusar dos seus dotes musicais. Um dia, três, uma semana, um mês, nada do resfriado passar: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Maior coriza escorrendo, defluência que não dava fim, mas como não ouvia nem cheirava, nem sentia gosto de nada, era só: espirra, tosse, peida: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Aí ele conferindo nada nas ouças, nos cheiros, nos gostos, gritou: Ah, tô curado! E quem tinha coragem de avisar pro cabra que ele já tinha passado dessa pra melhor, hem? Pois é, o povo sempre disse que para curar dessa gripe, só morrendo. Curou, morreu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor japonês Tōru Takemitsu (1930-1996): Archipelago, Nostalghia & Qotation of dream – Say sea, take me; da pianista, solista e camerista Maria Helena de Andrade: Piano, A seguida de Francisco Mignoni, Concerto nº2 de Beethoven & do Clássico ao Choro; do violonista, compositor, cantor e professor Paulinho Nogueira (1927-2003): Antologia do Violão, Violão & Samba, O Fino do Violão & A nova bossa é violão; e da cantora e compositora Isabella Taviani: Eu Raio X ao vivo & outras músicas. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O lirismo encontrado nas canções pop, na ficção escapista e nas estórias das revistas para adolescentes é muito esclarecedor a esse respeito. Não é o conteúdo de tal lirismo que conta, mas o seu significante. O que está sendo dito não é tão importante, desde que seja algo que possa dar estrutura à comunidade, uma forma de estruturação para o qual o "discreto" nicho uterino da pequena comunidade local ou da aldeia é particularmente propício. Assim, pode-se perceber que o recurso à privacidade é extremamente comum e representa a renovação dos vínculos com a comunidade que pode ser assinalada ao longo de toda história humana e sem a qual não poderia ocorrer nenhuma das cristalizações específicas da vida social (tais como as civilizações, os costumes, as instituições e os governos). Mas enquanto que essas cristalizações deram origem a uma historiografia capaz de as articular, a privacidade que as alicerça não tem outra garantia de sobrevivência além de sua própria persistência. [...]. Trecho de Privacidade, do sociólogo francês Michel Maffesoli, extraído da obra Dicionário do pensamento social do século XX (Zahar, 1996), organizado por William Outhwaite e Tom Bottomore. Veja mais aqui e aqui.

O CÍNICO E O CINISMO - [...] O cínico percebe o nexo entre as dores mais numerosas e mais fortes do homem superiormente cultivado e a profusão de suas necessidades; ele compreende, portanto, que a pletora de opiniões sobre o belo, o conveniente, decoroso, prazeroso, deveria fazer brotarem ricas fontes de gozo, mas também de desprazer. Em conformidade com tal percepção ele regride no desenvolvimento, ao renunciar a muitas dessas opiniões e furtar-se a determinadas exigências da cultura; com isso, ganha um sentimento de liberdade e de fortalecimento; e aos poucos, quando o hábito lhe torna suportável o modo de vida, passa realmente a ter sensações de desprazer mais raras e mais fracas que os homens cultivados, e se aproxima da condição do animal doméstico; além do mais, sente tudo com o fascínio do contraste – e pode igualmente xingar a seu bel-prazer: de modo a novamente se erguer muito acima do mundo de sensações do animal. – O epicúrio tem o mesmo ponto de vista do cínico; entre os dois existe, em geral, apenas  uma diferença de temperamento. O epicúrio utiliza sua cultura superior para se tornar independente das opiniões dominantes; eleva-se acima destas, enquanto o cínico fica apenas na negação. Aquele anda, digamos assim, por caminhos sem vento, bem protegidos, penumbrosos, enquanto acima dele as copas das árvores bramem ao vento, denunciando-lhe a veemência com que o mundo lá fora se move. O cínico, por outro lado, vagueia nu na ventania, por assim dizer, e se endurece até perder a sensibilidade. [...]. Trechos extraídos da obra Humano, demasiado humano (Abril Cultural, 1978), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui e aqui.

SOLITÁRIOS ANÔNIMOS – [...] Pela instabilidade cromática da aura dele, de qualquer modo indicadora analógica da possível recuperabilidade do sujeito, a curto ou a longo prazo, mas recuperabilidade, eu lhe diria o seguinte: meu prezado, peço-lhe perdão por não ser como você é. Se o ilustre fosse como eu, quem eu seria? Não direi que eu esteja satisfeito como que sou, por ser o que sou: em outras palavras, insisto que sentimento e razão não rimam. [...] Vivemos dizendo que só há responsabilidade dentro da liberdade. Mas será o homem realmente livre de todos os seus pensamentos, palavras e atos, se tudo o que ele pensa, diz e faz, ontologicamente já é um condicionado de infinitesimais condicionados? [...] Pigarreou: – Não é um discurso: é uma advertência dos bons  espíritos, que recebo e transmito, na condição de amigo e colega de tarefa. Compreende? – Não. – De conformidade com os postulados da filosofia oriental do que corre... porque ocorre (percebe?), realmente não é fácil. Os ventos e as chuvas modelam as pedras, dando-lhes formas animais. As águas fabricam os seixos, seios e nádegas, redemoinhos dos rios, onde os peixes proliferam sem pecar na carne, pela carne. No intervalo, os homens esbanjam os dias na disputa de títulos honoríficos, cargos e posições, digerem o fígado, o baço, os rins... perfuram os pulmões e os intestinos, alimentam o câncer geral, esclerosam as veias, engrossam o sangue, que entope o coração e o cérebro, ao mesmo tempo em que, devagarinho, vão enforcando as almas nos pênis que a idade reduz a uma polegada, sendo, por isso, muitas vezes obrigados a recorrer ao suicídio pra apressar o fim de seus tormentos. Compreende, afinal, a indigente parábola? – Ainda não. – Nesse caso, vamos mudar de conversa: e cuidar de coisa mais compatível com o tempo de duração de nossa estada nesse rolante depósito de sorridentes e auto-satisfeitos imbecis. Trechos de A.S.A – Associação dos Solitários Anônimos (Ateliê, 2003), do escritor, dramaturgo, jornalista, advogado e critico literário Rosário Fusco (1910-1977).

TECENDO A MANHÃUm galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro; de um outro galo / que apanhe o grito de um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / os fios de sol de seus gritos de galo, / para que a manhã, desde uma teia tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos. / E se encorpando em tela, entre todos, / se erguendo tenda, onde entrem todos, / se entretendo para todos, no toldo / (a manhã) que plana livre de armação. / A manhã, toldo de um tecido tão aéreo / que, tecido, se eleva por si: luz balão. Poema extraído da obra A educação pela pedra (Nova Fronteira, 1996), do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui e aqui.

PROJETO PINTANDO NA PRAÇA
Acontecerá neste mês de outubro, a quarta educação do projeto Pintando na Praça, realizado pelo Instituto Belas Artes Vale do Una, que terá exposições na Biblioteca Fenelon Barreto e culminará com artistas do Recife, alunos da UFPE e artistas locais pintando na Praça Paulo Paranhos. Veja mais aqui e aqui.

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A ARTE DE BARBARA MARCZEWSKA
Art by Barbara Marczewska



EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...