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domingo, junho 19, 2022

JAIME BATEMAN, KRENAK, ARNE NÆSS, MARCO BOBBIO, DOMENICO UHNG HUR & DAVI KOPENAWA

 

 

TRÍPTICO DQP: Insone insânia... - Ao som das obras Di-stances (Sistrum, 2006), Memórias Abstratas e Abstraídas (Funarte, 2012) e Karysma (Funarte, 1987), da compositora, pianista, professora e regeste Vânia Dantas Leite (1945-2018). - Onde estou quase não sei, nem consigo dormir e quem poderia depois do alarme 24/7 de Jonathan Crary. Já me sinto enterrado vivo, talvez restem sonhações: apenas pesadelos distópicos, Sidarta Ribeiro. E cada vez mais os piores povoados por ressurretos abomináveis e estúpidos dagora. Entre eles topo O doente imaginado (‎Bamboo, 2014), do médico italiano Marco Bobbio: A medicina obteve muitos sucessos ao salvar vidas humanas, mas poucos para garantia de vida sadia aos sobreviventes. Ninguém sabe que o céu caiu e quase nem ouço Davi Kopenawa: Tanta destruição nos deixa muito preocupados... Sei apenas que a Terra é mais sólida do que nossa vida e que não morre. Sei também que ela nos faz comer e viver... A constatação que fica é a de Domenico Uhng Hur: Estamos desterrados, com a sombra da morte, e sem modelos pressupostos a seguir. Sim, já é detectável o fim dos nossos mundos, Ailton Krenak, posso ver em cada olhar, em cada esquina, em cada gesto. Precisávamos saber o que diz Maffesoli: A vida só existe porque a morte tem nela seu papel. Melhor quem sabe seria o que diz o filósofo norueguês Arne Næss: A Terra não pertence aos homens. Sim, aqui tudo se parece com aquela nigeriana de Tremearne, o país todo se tornou o Vale do Javari. Como é doloroso amar em tempos de ódio...

 


Funâmbulo na corda bamba... - Imagem da artista, dramaturga e escritora russo-estadunidense Svetlana Boym. - Desperto no meio de uma tempestade onírica como se eu tivesse que reler as lições dos Cadernos de Rilke: viajar por muitas cidades e ver seres e coisas como o voo dos pássaros, as flores desabrochando, as regiões desconhecidas, as noites de amor, ter de acompanhar moribundos e ouvir os ruídos da rua pela janela, até que as lembranças se tornem sangue, olhar e gesto. Já me condenei a ousar previamente cônscio da lapada inexorável que virá depois: aqui se faz, aqui se paga. Sei que não é bem assim, essa a voz do povo; sou responsável por tudo que cometi e traço. Do que aprendi das leituras, às vezes um soco no estômago – o melhor é quando me defronto com o colombiano Jaime Bateman (1940-1983) cantando: Você tem que dançar e você tem que cantar. E não só para a morte, nem cantar só para as derrotas. Você tem que cantar para a vida, porque se você vive baseado na morte, você já está morto. As pessoas que vivem só de memórias estão mortas, a memória sem futuro a única coisa que traz é a tristeza, e a tristeza nunca gera briga, nunca... Há um fiapo de vida pela fresta do que flagro. E isso me basta, disso faço a imensidão do Universo...

 


No seio de Ixchel... - Imagens do artista conceitual argentino León Ferrari (1920-2013). - Entre acordormir sonhadiço, efialtas sobrevêm por entre dandões e quase me sinto esvair pelas espirais da loucura. Só me salvei porque daquela vez ela era Malinche e me contou desde quando menina e era Malintzin que cresceu Doña Marina até ser acusada de traição. Foi condenada e só conseguiu escapar porque era uma feiticeira de Trobriand, e se envultando dacolá pra depois, enfim, tornar-se a incólume deusa lunar Ixchel. Foi quando me chamou de Itzama e nem olvidei porque me levou para a ilha de Dcuzamil, na província de Ecab. Lá eu vi chegarem canoas de peregrinos, enquanto me mostrava manequins manuscritos com meus versos e canções. Entre um atrativo e outro chegou a me dizer que conheceu pessoalmente o lendário violonista e compositor conterrâneo, Normando Marques dos Santos – aquele mesmo professor que se apresentou em 1962, no histórico show bossanovista do Carnegie Hall, em New York – e que muito apreciou os álbuns de Siba – principalmente Avante (2012) e Coruja muda (2019) -, desde que ele fazia parte do Mestre Ambrósio e da Fuloresta do Samba. Não podia ser! E estalou os dedos e ouvi a música rolando no ar. Só tempos depois embalado pelos ritmos foi que me vi só, não estava mais ali. Ao procurá-la dou pra janela a surpresa: levantou a saia e mostrou-me as belas nádegas arredondadas e a sorrir safada de linda. E virou-se mantendo a saia levantada enquanto se tocava sedutoramente... Não sabia o que fazer, apreciava atento seus gemidos e mexidas. Ela saiu correndo, arrodeou o terreiro, adentrou ofegante e me encontrou priápico aceso para envolver-me com um beijo astucioso. Não, ela era humana demais para ser deusa. E mais cavalgava em meu ventre, recitando ao meu ouvido um poema de Cristina Peri Rossi: Nenhuma palavra / nenhum discurso / – nem Freud, nem Martí – / serviu para deter a mão / a arma / do torturador. / Mas quando uma palavra escrita / na margem na página na parede / serve para aliviar a dor de um torturado / a literatura tem sentido. E arreou exaurida sobre meu peito depois das faíscas do gozo extremo. Foi então que esticou o braço, pegou num banco perto e me entregou dois volumes: o livro do Popol-vuh e o códice de Dresden. Já anoitecia quando me disse TÚmiPoema e era María de España. Vê-la assim e em mim, talvez ainda seja possível sonhar mesmo. Até mais ver.

 

A meta fundamental da educação holística é promover uma educação integral, que permita à pessoa conectar-se consigo mesma e com tudo aquilo que a rodeia. Isso inclui o meio social e o meio natural. A vida na cidade, a vida moderna, altamente tecnicizada, afastou cada vez mais a pessoa do meio natural, sendo este um cenário distante, incompreendido e, portanto, não sentido. Perde-se, assim, a noção de que nossa vida depende dos recursos que nos são proporcionados por ecossistemas que não estão na cidade, normalmente muito longe, que são esgotáveis e cuja extração e transporte muitas vezes causam danos. Perdemos também a noção de que, embora os recolhamos diariamente, nossos resíduos, próprios de nossa forma de vida, produzem danos em ecossistemas mais ou menos próximos. Com esse conhecimento, o certo é adotar um comportamento pessoal e coletivo que minimize esses danos e não esgote os recursos para que as gerações futuras de nossa espécie e de outras espécies em geral habitem um planeta limpo e com recursos suficientes para viver. Por isso, a educação holística inclui a educação ambiental ou a educação para a sustentabilidade.

Pensamento do pedagogo e entomologista espanhol Rafael Yus. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.


 


quarta-feira, setembro 12, 2018

AUTA SOUZA, GERALDO VANDRÉ, LINS DO REGO, AGAMBEN, MAFFESOLI, CLAUDE CHABROL & WESLEY DUKE LEE


DEIXANDO O PAPO EM DIA – Imagem: arte do artista plástico Wesley Duke Lee (1931-2010). - UMA DOUTRAS – Hoje tive a grata satisfação de reencontrar Carma, a minha vó dona Carminha, com a minha prima Fátima. Sempre as vejo, quando posso, mas é sempre maravilhoso encontrá-las, jogar conversa fora, mangar das coisas que eu fazia nos meus tempos de treloso capetinha e darmos gargalhadas gratuitas das mungangas que sempre fui responsável por promover. Lembravam-me que eu não parava quieto quando menino, coisa que sou ainda hoje: inquieto. Diziam, então, esse menino parece que tem um cotoco! E era mesmo. Ah, gostava mesmo era de aparecer. Bastava qualquer assunto ou o que fosse, só queria um pretexto para chamar atenção. E o pior era o chulé. Gente, pense numa inhaca danada! Nesse caso, triplo: o meu, o de Marquinhos e o de Marcelo. A gente se riu tanto só de lembrar da fedentina de ter de aguentar o odor de três almas sebosas, aliás, três pares de pés fedorentos. Minha nossa! Que coisa horrível. Destá. DUAS DE NÃO SEI QUANTAS – Outra se deu quando saí de lá às risadas, encontrava o povo e logo me perguntavam pelas novidades. Eu que tenho andado no mundo da lua, não tenho lá me atualizado muito com o noticiário que é o mesmo de dois anos atrás, a mesmíssima coisa. Teve um que disse na lata: quer notícia nova? Só com os repórteres manicure, vigias, caçadores, barbeiros, visitantes de salão de beleza e quejandos, esses os principais repórteres de Alagoinhanduba. Eita! E asseverou: Esses sabem tudo da vida alheia. Desconfio. Contudo, sei que se apertar direitinho, esses que me perguntaram pelas novidades, se eu desse trela, debulhariam tudo da vida alheia. Eu, hem? TRÊS PASSANDO A RÉGUA – Acho que este será o último post da semana. É que a partir de hoje estarei na V Feira de Leitura: Territórios Interculturais da Leitura, na Universidade Federal de Pernambuco, atendendo convite da professoramiga doutora Esther Rosa. Não sei se dará pra de lá atualizar aqui o blog. Caso seja possível, tudo bem, atualizarei. Caso contrário, a gente volta a conversar na próxima segunda-feira, dia 17 de setembro. Afora isso, vamos sempre juntos & beijabrações paratodos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, advogado e poeta Geraldo Vandré: Das terras do benvirá, Canto Geral, Ao vivo & com Quinteto Violado & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se por um lado, de fato, não somos mais capazes de julgar esteticamente a obra de arte, por outro, a nossa inteligência da natureza se ofuscou da tal modo e , além disso, a presença nela do elemento humano se potencializou de tal modo que, diante de uma paisagem, nos ocorre espontaneamente compará-la à sua sombra, perguntando-nos se ela é esteticamente bela ou feia, e conseguimos cada vez com maior dificuldade distinguir de uma obra de arte um precipitado mineral ou um pedaço de lenha corroído e deformado pela ação química do tempo. [...]. Trecho extraído da obra O Homem sem conteúdo (São Paulo: Autêntica, 2012), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Veja mais aqui.

NOVAS FORMAS DE SOCIABILIDADE E DE VÍNCULOS ASSOCIATIVOS & COMUNITÁRIOS – [...] todos os micro-rituais [...] parecem ter esse papel de desvio da técnica de sua função meramente utilitária, de agrupamento de indivíduos em torno de uma atividade comum, de uma paixão compartilhada. Poderíamos então falar que o destino da técnica moderna reside também na sua apropriação dionisíaca e, assim, numa ressacralização, um reencantamento do mundo. [...]. Trecho extraído da obra O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa (Forense, 1987), sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui.

FOGO MORTO - [...] Trabalhava a mulher de Vitorino na castração dos frangos de d. Amélia. Só ela por aquelas bandas tinha mão e ciência para aquele serviço. Vivia de engenho a engenho à espera da lua nova, ou do quarto minguante, para operar com sucesso. Ali estava ela desde manhã, como uma cirurgiã que confiava no seu talho. Com ela não morria uma cria. Tinha boa mão, tinha força de verdade para fazer as coisas. D. Amélia viera-lhe falar, somente para lhe dizer que acabados os serviços queria lhe dar duas palavras. Era a senhora de engenho mais delicada da Ribeira. Nunca ouvira uma palavra feia naquela boca, nunca a vira aos gritos com os outros, metida na cozinha para ouvir conversa de negras. Falavam dela, por isto, falavam do gênio esquisito, de viver calada para um canto. Era assim desde que a conhecera. Quando fora em 1877, a velha Adriana chegara, moça feita, com seu povo morrendo de fome, no Santa Fé, e d. Amélia já era casada, e era aquilo mesmo. Era moça de prendas, de educação muito fina. Lembrava-se dela naquele mesmo carro que ainda corria pela estrada, com o seu ar de rainha, aquela beleza tão mansa, tão quieta que o povo chegara a desconfiar. O povo estava acostumado com as senhoras de engenho que davam grito, que descompunham como a d. Janoca do Santa Rosa. D. Amélia era assim, de natureza. Tocava piano. Lembrava-se bem dos primeiros dias da sua chegada, com a lembrança ainda lhe doendo do sertão na pior seca do mundo. A família estava aboletada na casa do engenho, e de lá ela ouvia d. Amélia tocando no seu piano. Tudo era bem diferente do que via hoje. Tudo era tão mais cheio de alegria. O coronel Lula era moço bonito, com a barbicha preta, todo bem-vestido. Parece que ainda escutava o som do piano nos ouvidos. Todos eles estavam na desgraça, comendo a carne que o imperador mandara para o povo. Tudo magro como rês na retirada. D. Amélia fora um anjo, naqueles dias. Quando ela entrava na casa do engenho, era como a providência, uma bênção de Deus. Agora era aquela velha, muito mais velha do que a idade que tinha. O coronel era aquele homem que ninguém entendia, metido dentro de casa, cheio de tanta soberba. Tinham aquela filha que estudara nas freiras do Recife. Era moça de mais de trinta anos, tão cavilosa, enterrada no quarto, lendo livros, com medo de gente. Parecia-se com d. Olívia, aquela irmã de d. Amélia que andava sem parar, da sala de visitas para a cozinha, o dia inteiro, com a cabeça branca como de lã de algodão. [...]. Trecho extraído da obra Fogo Morto (José Olympio, 2012), do escritor José Lins do Rego (1901-1957). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMAS - AGONIA DO CORAÇÃO - Estrelas fulgem da noite em meio / Lembrando círios louros a arder... / E eu tenho a treva dentro do seio... / Astros! velai-vos, que eu vou morrer! / Ao longe cantam. São almas puras / Cantando á hora do adormecer... / E o eco triste sobe ás alturas... / Moças! não cantem, que eu vou morrer! / As mães embalam o berço amigo, / Doce esperança de seu viver... / E eu vou sozinha para o jazigo... / Chorai, crianças, que eu vou morrer! / Pássaros tremem no ninho santo / Pedindo a graça do alvorecer... / Enquanto eu parto desfeita em pranto... / Aves, suspirem, que eu vou morrer! / De lá do campo cheio de rosas / Vem um perfume de entontecer... / Meu Deus! que mágoas tão dolorosas... / Flores! Fechai-vos, que eu vou morrer! MINH'ALMA E O VERSO - Não me olhes mais assim... Eu fico triste / Quando a fitar-me o teu olhar persiste / Choroso e suplicante... / Já não possuo a crença que conforta. / Vai bater, meu amigo, a uma outra porta. / Em terra mais distante. / Cuidavas que era amor o que eu sentia / Quando meus olhos, loucos de alegria, / Sem nuvem de desgosto, / Cheios de luz e cheios de esperança, / N’uma carícia ingenuamente mansa, / Pousavam no teu rosto? / Cuidavas que era amor? Ah! se assim fosse! / Se eu conhecesse esta palavra doce, / Este queixume amado! / Talvez minh’alma mesmo a ti voasse / E n’um berço de flor ela embalasse / Um riso abençoado. / Mas, não, escuta bem: eu não te amava. / Minha alma era, como agora, escrava... / Meu sonho é tão diverso! / Tenho alguém a quem amo mais que a vida, / Deus abençoa esta paixão querida: / Eu sou noiva do Verso. / E foi assim. Num dia muito frio. / Achei meu seio de ilusões vazio / E o coração chorando... / Era o meu ideal que se ia embora, / E eu soluçava, enquanto alguém lá fora / Baixinho ia cantando: / “Eu sou o orvalho sagrado / Que dá vida e alento às flores; / Eu sou o bálsamo amado / Que sara todas as dores. / Eu sou o pequeno cofre / Que guarda os risos da Aurora; / Perto de mim ninguém sofre, / Perto de mim ninguém chora. / Todos os dias bem cedo / Eu saio a procurar lírios, / Para enfeitar em segredo / A negra cruz dos martírios. / Vem para mim, alma triste / Que soluças de agonia; / No meu seio o Amor existe, / Eu sou filho da Poesia.” / Meu coração despiu toda a amargura, / Embalado na mística doçura / Da voz que ressoava... / Presa do Amor na delirante calma, / Eu fui abrir as portas de minh’alma / Ao verso que passava... / Desde esse dia, nunca mais deixei-o; / Ele vive cantando no meu seio, / N’uma algazarra louca! / Que seria de mim se ele fugisse, / Que seria de mim se não ouvisse / A voz de sua boca! / Não posso dar-te amor, bem vês. Meus sonhos / São da Poesia os ideais risonhos, / Em lago de ouro imersos... / Não sabias dourar os meus abrolhos, / E eu procurava apenas nos teus olhos / Assunto para versos. Poemas extraídos da obra Horto (1900), da poeta do Romantismo potiguar Auta Souza (1876-1901). Veja mais aqui.

A ARTE DE CLAUDE CHABROL
Entre os filmes que já destaquei e os que aprecio do cineasta, ator, roteirista e produtor francês Claude Chabrol (1930-2010), estão o drama/romance Madame Bovary (1991), baseado na obra homônima de Flaubert, com destaque para atriz francesa Isabelle Ann Huppert; a comédia The Twist (1976), com destaque para atriz francesa  Stéphane Audran; o drama Nada (1974), adaptado do romance homônimo de Jean-Patrick Manchette e inspirado pelos eventos de maio de 1968 na França e destaque para a atriz italiana Mariangela Melato  (1941-2013); e o erótico Quiet Days in Clichy (1990), baseado no romance autobiográfico de Henry Miller, com um timaço de atrizes: Anna Galiena, Eva Grimaldi, Barbara De Rossi, Stéphanie Cotta & Isolde Barth. Veja mais aqui.

AGENDA
Encontro sobre o Ensino da Língua Portuguesa & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nos meus ambientes envolvo pintura, ambientação, som e teatro, pois tem algo de cênico nisso. A pessoa entra como ator e expectador ao mesmo tempo (se entrar no jogo da coisa, é lógico). A intenção era unir os elementos todos, pensei muito nisso antes de iniciar a série.
Veja mais aqui & a arte de Wesley Duke Lee aqui e aqui
&
As dores imprevisíveis da felicidade, D. H. Lawrence, Holismo & Christiaan Smuts, Theodor Adorno & Max Horkheimer, Brian De Palma, Daniel Senise, Cesar Camargo Mariano, Silke Avenhaus, Enya & Dery Nascimento aqui.


terça-feira, janeiro 30, 2018

TAGORE, EMILY DICKINSON, MAFFESOLI, RUBEM ALVES, SILVA MELO, JOÃO BOSCO, NAHUI OLLIN, JÚLIA BOSCO & RAGÚ

VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA QUALQUER - Imagem: arte da pintora e poeta mexicana Nahui Ollin (Carmen Mondragón, 1893-1978). – A chuva esfria a manhã e eu desperto a pensar o sentido da vida humana diante do noticiário às voltas com o lucrativo e o útil, as variáveis econômicas e as decisões políticas. Ah, quantas manchetes, nada mais chato e a me deixar encolhido sob as cobertas. Cá comigo, coisas de quem joga bem a boca de forno e se valem pergíveis pela praticidade do toma lá dá cá, jogos de contas, logro e usura, malogro e embustes, nada mais, círculo visioso de ideias mortas no tempo, como força de lei e não me dizem mais nada, repetições a abusar da tolerância. Tudo é muito frio, meu coração inquieto, é domingo. Ouço o choro das águas já pela tarde chuvosa de janeiro, enquanto vozes e pés molhados pela rua ecoam a fita batida, do ouvido pra língua, a mesma ladainha duma saparia. Ah, não, já passou e ninguém se deu conta, pleno agora com efeito no passado mais remoto, não pode ser, não dá mais. É como se me dissesse do futuro agora e fosse um dialeto a significar saudade de ontem, como aquela paixão arrebatadora da adolescência tida por perene, como aquela idolatria por demais abjurada, ou aquela moda extravagante que ficou bufenta, aqueles arroubos que viraram arrependimento, aquela euforia nas fotos desbotadas, aquele prazer de ápice nem lembrável. Anoitece e revejo a estrela da manhã que mergulhou nas profundezas do mar e ressuscita agora a me dá a sensação de que é outra, sendo ela a mesma que vi quase cedo, eu reconheço e fico feliz na minha solidão. Isso ocorre enquanto contratos celebrados são implantados atravessando o tempo na compensação dos créditos para girar a roda da fortuna, dos valores e papéis, dos ganhos e especulações, e eu aqui a recolher do mel esborrado da abelha tão saboroso pro gosto, do leite que jorra do seio materno e compartilhado pra quem dele necessita, e sou taça cheia que se esvazia e torna a encher e secar, enchida e esvaziada tantas e muitas vezes com minha sede e fome. Não entendo mais nada das calculadoras nas estratégias das fortunas, títulos e rubricas que vão daqui para ali do enriquecimento, a festa da acumulação e do consumo, porque sou um tolo no exercício da loucura pelas encruzilhadas do desconhecido a provar o absurdo do mundo, como quem encontra a sabedoria perdida de brincar com o que não existe. Sou sem gravata, o cinto frouxo segura as calças nas camisas folgadas e me dou o prazer de sonhar por ideias muitas, até as desconexas, a hora da vez senão agora, outra ao desencarnar para reencarnar porque a vida é outra do nada, enquanto eu danço e a deusa comigo no salto para o vazio, a ousadia de sonhar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o cantor, violonista e compositor João Bosco: Obrigado, gente! & Galos de Briga; a cantora e compositora Júlia Bosco: Dance com o inimigo, Pra gozar & Acredite no amor; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – É preciso criar um laboratório de ideias focado no imaginário e uma audácia de pensamento para preencher, aos poucos, o fosso que existe entre os que têm a responsabilidade de agir sobre a sociedade e aqueles que simplesmente a vivem. Pensamento do sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: O segredo maior da vida, do sucesso, da felicidade, está no indivíduo atuar, viver, agir de acordo com as tendências íntimas do seu ser, de executar a tarefa para a qual tem verdadeira vocação. Pensamento do ensaísta, médico e professor Antônio da Silva Melo (1886- 1973).

A ALEGRIA DE ENSINAR – [...] a alegria de ser professor, pois o sofrimento de se ser um professor é semelhante ao sofrimento das dores do parto: a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho. [...] Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou avaliar a alegria dos estudantes – mesmo porque não há métodos objetivos para tal. Porqie a alegria é uma condição interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamentos e sentimentos. [...] A verdade se encontra no avesso das coisas [...]. O absurdo é o avesso do mundo. [...]. aquilo por que nossas crianças e jovens são forçados a passar, em nome da educação, me horroriza. [...] As crianças são ensinadas. Aprendem bem. Tão bem que se tornam incapazes de pensar coisas diferentes. Tornam-se incapazes de dizer o diferente. Se existe uma forma certa de pensar as coisas e de fazer as coisas, por que se dar ao trabalho de se meter por caminhos não-explorados? Basta repetir aquilo que a tradição sedimentou e que a escola ensinou. O saber sedimentado nos poupa dos riscos da aventura de pensar. [...] É como nos catecismos religiosos: o mestre diz qual é a perguntar e qual é a resposta certa. O aluno é aprovado quando repete a resposta que o professor ensinou. Pois não é isto que são os vestibulares? Ao final existe o gabarito: o conjunto de respostas certas. Claro que há respostas certas e erradas. O equivoco está em se ensinar ao aluno que é disto que a ciência, o saber, a vida, são feitos. E, com isto, ao aprender as respostas certas, os alunos desaprendem a arte de se aventurar e de errar, sem saber que, para uma resposta certa, milhares de tentativas erradas devem ser feitas. Espero que haverá um dia em que os alunos serão avaliados também pela ousadia de seus voos! [...] Acho que a educação frequentemente cria antas: pessoas que não se atrevem a sair das trilhas aprendidas por medo da onça. [...]. Feitiço é quando uma palavra entra no corpo e o transforma. [...]. Educação é isto: o processo pelo qual os nossos corpos vão ficando iguas às palavras que nos ensinam. Eu não sou eu: eu sou as palavras que os outros plantaram em mim. [...] Meu corpo é um corpo enfeitiçado: porque o meu corpo aprendeu as palavras que lhe foram ditas, ele se esqueceu de outras que, agora permanecem mal... ditas... [...]. A gente fica poeta quando olha para uma coisa e vê outra. É isto que tem o nome de metáfora. [...] E a sociedade não tolera a inutilidade. Tudo tem de ser transformado em lucro. [...] Todas estão transformadas numa pasta homogênea. Estão preparadas para se tornar socialmente úteis. [...] Pois formatura é isto: quando todos ficam iguais, moldados pela mesmo fôrma. Hoje, quando escrevo, os jovens estão indo para os vestibulares. O moedor foi ligado. Dentro de alguns anos estarão formados. Serão profissionais. E o que é um profissional se não um corpo que sonhava e que foi transformado em ferramenta? As ferramentas são úteis. Necessárias. Mas – que pena – não sabem sonhar... [...]. O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro. Como na terra moram adormecidos os campos e suas mil formas de beleza, e também as monótonas e previsíveis monoculturas; como na lagarta mora adormecida uma borboleta [...] Tudo adormecido... O que vai acordar é aquilo que a Palavra vai chamar. As Palavras são entidades mágica, potências feiticeiras, poderes brucos que despertam os mundos que jazem dentro dos nossos corpos, num estado de hibernação, como sonhos. Nossos corpos são feitos de palavras... [...]. A este processo mágico pelo qual a Palavra desperta os mundos adormecidos se dá o nome de educação. [...]. Pensar é voar. Voar com o pensamento é sonhar. [...] Por isto que os adultos práticos e sérios não gostam de brincar. [...] Porque o brinquedo, sem produzir qualquer utilidade, produz alegria. Felicidade é brincar. E sabem por quê? Porque no brinquedo nos encontramos com aquilo que amamos. No brinquedo o corpo faz amor com objetos do seu desejo. [...]. As professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as ideias que moram na cabeça do pintor. São as ideias dançantes na cabeça que fazem as tintas danças sobre a tela. Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres de ideias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. [...] É com as ideias que o mundo é feito. [...]. Trechos extraídos da obra A alegria de ensinar (Ars Poética,1994), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS AMORES E UM RIO - [...] E quando chegou o momento de cortejar a jovem esposa com palavras bonitas, de pôr a coisa em prática, Ramesh descobriu um tanto assustado que os compêndios de Direito nada lhe haviam ensinado a esse respeito. Mas acabou tudo dando certo, como manda o figurino, e Ramesh aprendeu uma lição: erudição é uma coisa, e amar e fazer amor outra bem distinta, e nem sempre as duas combinam. E depois, quem neste mundo resistiria, fosse ele bacharel em direito ou não, a uma criaturinha tão cheia de graça, tão cativante e charmosa como Susila? [...] Como o pintor que engasta no fundo do coração a imagem da bem-amada, como o poeta que canta em versos unicamente a mulher que adora (e ambos empregam todo o seu talento e toda a sua devoção nessa obra) assim se sentia Ramesh. Só faltava mandar construir um altar e ai colocar sua jovem e graciosa companheira, que passar a ser a única razão de sua existência, a doce alegria do seu coração e prosperidade do seu lar. [...]. Trechos extraídos da obra Dois amores e um rio: o naufrágio (Mundo Inteiro, 1975), do poeta e músico indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Rabindranath Tagore (1861-1941). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS – A ALMA ESCOLHE A PROPRIA COMPANHIA: Sempre a alma escolhe a companhia / e fecha a porta / pois a divina maioria / não mais lhe importa. / Imóvel, de sege a parelha / ao portão baixo / imóvel e o imperador se ajoelja / sobre o capacho. / Sei que escolheu na Legião / entre a qual medra / fechou a valva da atenção / como uma pedra. TOMEI A FUNDA NA MÃO: Tomei a funda na mão / parti contra mundo e gente, / Davi mais armado – eu não - / eu duas vezes valente. / Lancei a pedra – caí. / Foi tudo o que aconteceu. / Seria maior Davi / ou muito menor sou eu? Poemas da poeta estadunidense Emily Dickinson (1830-1886). Veja mais aqui.

RAGÚ
Capas das edições da revista pernambuca de HQ, Ragú, editada por Christiano Mascaro e João Lin. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Os dois mundos de quem vive de um lado só, a arte de Angelo Agostini, a música de Juliette Herlin, a arte de Hannah Wilke, a pintura de Fernando Botero & Nik Helbig aqui.
A mulher na Idade Média, a música de Johann Joachim Quantz & Verena Fischer, a literatura de Naoki Higashida & Teolinda Gersão, Fritz Lang, a pintura de Georges Rouault & Siron Franco, Marie Dumesnil, Anne Baxter, Benita Prieto, Maisa Vibancos, A mulher & a escravidão aqui.
Mahatma Gandhi, Michelangelo Antonioni & Vanessa Redgrave, Educação, Carlos Zéfiro, Phil Collins & Genesis, Jennifer R. Hale & Maria Luísa Mendonça aqui.
Marquinhos Cabral & Poetas do Brasil aqui.
Lev Vigotsky, Jean Piaget, Ausubel & Skinner aqui.
Responsabilidade ambiental aqui.
Teibei, a batida aqui.
Decameron, João Albrecht & Jiddu Saldanha aqui.
Riacho Salgadinho & a arte de Eliezer Setton, Zé Barros, Naldinho, Wilson Miranda & WebRadio Maceió aqui.
Hermilo Borba Filho & Sonia Van Dijck, Teoria da Literatura, Solange Palatinik, Constituição, Psicologia, Dialogicidade & Representações sociais aqui.
Nietzsche e a música, As raízes árabes na tradição poético-musical do sertão nordestino, História da Música de Otto Maria Carpeaux, O carnaval carioca através da música & a História da Música Popular de José Ramos Tinhorão aqui.
A vontade & a arte de Amanda Garruth, Deborah Rosa, Luciana Soler, Bete Sá, Vanessa Morais & Cantora Sol aqui.
O teatro de Augusto Boal aqui.
Poetas do Brasil: Carlos Gildemar Pontes, Sandra Fayad, Paulo Profeta, Gisele Lemos/Diana Balis, Luís Inácio Araújo, Helena Cristina Buarque & Rita Shimada Coelho aqui.
Afetividade & a arte de Lília Diniz, Lucinha Guerra, Thathi, Ezra Mattivi, Jualiana Sinimbu & Anna Ratto aqui.
Quadrinhos, a nona arte aqui.
O catecismo de Carlos Zéfiro aqui.
Doutor Zé Gulu aqui, aqui e aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
Poetas do Brasil aqui, aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora e poeta mexicana Nahui Ollin (Carmen Mondragón, 1893-1978).
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terça-feira, outubro 10, 2017

JOÃO CABRAL, NIETZSCHE, MAFFESOLI, ROSÁRIO FUSCO, BARBARA MARCZEWSKA & PINTANDO NA PRAÇA

CUROU, MORREU – Jardelito era bem servido de nariz. Pense numa lapa de venta! Cyrano de Bengerac era pinto perto dele. Há quem diga que aquilo no meio da cara dele não era outra coisa senão um pênis: Ah, ele não passa aperto na horagá com a mulherada. Cheio de recursos! Aquilo era um pinto encolhido, feito o que estava amuado entre os colhões. É que na hora de precisão, bastava amolegar e virava uma bicanca com um chapéu de vaqueiro estendido pra sua satisfação e de quem mais fosse ter com ele. Era ele só na sua, pra tapiar tocava instrumento de sopro, diziam: que sax que nada, aquilo é a extensão do narigudo, só na moita. A tragédia foi quando ele gripou: uma bica escorria pelos septos nasais: atchim! Uma constipação inquietante, na mesma hora do espirro, o frosquete solidário: poin! Eita. E ele: dá pra tirar o maior som, meu: espirra-peida. Era só: atchim, poin! atchim, poin! atchim, poin! Aí deu de se amostrar com seus pendores artísticos, até então nem mesmo jamais desconfiados. Já que é assim, vai que cola e deu certo. Com o resfriado, ele assoava no narigão fazendo força, muco como a peste para ensopar papel higiênico, lenços, trapos e retalhos, e era só: atchim, poin! atchim, poin! atchim, poin! Maior catarreiro escorrendo. Assopra mais, desgraçado! E numa dessa estourou os tímpanos. Pode? Ouvia mais nada. Aí era uma orelha de abano imitando Beethoven, isso aliado a uma tosse de cachorro, daquelas de botar os bofes todos pra fora: cof, cof, cof, poin. atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Vixe! Aí virou espirra, tosse, peida: atchim, cof, poin! Danou-se! atchim, cof, poin! Pelo jeito, ia era virar a bandinha do coreto, no maior matinê. atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! O pior mesmo era aguentar a fedentina, uma orquestra fedorenta, espirra, tosse, peida: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Foi assim que ele passou a abusar dos seus dotes musicais. Um dia, três, uma semana, um mês, nada do resfriado passar: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Maior coriza escorrendo, defluência que não dava fim, mas como não ouvia nem cheirava, nem sentia gosto de nada, era só: espirra, tosse, peida: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Aí ele conferindo nada nas ouças, nos cheiros, nos gostos, gritou: Ah, tô curado! E quem tinha coragem de avisar pro cabra que ele já tinha passado dessa pra melhor, hem? Pois é, o povo sempre disse que para curar dessa gripe, só morrendo. Curou, morreu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor japonês Tōru Takemitsu (1930-1996): Archipelago, Nostalghia & Qotation of dream – Say sea, take me; da pianista, solista e camerista Maria Helena de Andrade: Piano, A seguida de Francisco Mignoni, Concerto nº2 de Beethoven & do Clássico ao Choro; do violonista, compositor, cantor e professor Paulinho Nogueira (1927-2003): Antologia do Violão, Violão & Samba, O Fino do Violão & A nova bossa é violão; e da cantora e compositora Isabella Taviani: Eu Raio X ao vivo & outras músicas. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O lirismo encontrado nas canções pop, na ficção escapista e nas estórias das revistas para adolescentes é muito esclarecedor a esse respeito. Não é o conteúdo de tal lirismo que conta, mas o seu significante. O que está sendo dito não é tão importante, desde que seja algo que possa dar estrutura à comunidade, uma forma de estruturação para o qual o "discreto" nicho uterino da pequena comunidade local ou da aldeia é particularmente propício. Assim, pode-se perceber que o recurso à privacidade é extremamente comum e representa a renovação dos vínculos com a comunidade que pode ser assinalada ao longo de toda história humana e sem a qual não poderia ocorrer nenhuma das cristalizações específicas da vida social (tais como as civilizações, os costumes, as instituições e os governos). Mas enquanto que essas cristalizações deram origem a uma historiografia capaz de as articular, a privacidade que as alicerça não tem outra garantia de sobrevivência além de sua própria persistência. [...]. Trecho de Privacidade, do sociólogo francês Michel Maffesoli, extraído da obra Dicionário do pensamento social do século XX (Zahar, 1996), organizado por William Outhwaite e Tom Bottomore. Veja mais aqui e aqui.

O CÍNICO E O CINISMO - [...] O cínico percebe o nexo entre as dores mais numerosas e mais fortes do homem superiormente cultivado e a profusão de suas necessidades; ele compreende, portanto, que a pletora de opiniões sobre o belo, o conveniente, decoroso, prazeroso, deveria fazer brotarem ricas fontes de gozo, mas também de desprazer. Em conformidade com tal percepção ele regride no desenvolvimento, ao renunciar a muitas dessas opiniões e furtar-se a determinadas exigências da cultura; com isso, ganha um sentimento de liberdade e de fortalecimento; e aos poucos, quando o hábito lhe torna suportável o modo de vida, passa realmente a ter sensações de desprazer mais raras e mais fracas que os homens cultivados, e se aproxima da condição do animal doméstico; além do mais, sente tudo com o fascínio do contraste – e pode igualmente xingar a seu bel-prazer: de modo a novamente se erguer muito acima do mundo de sensações do animal. – O epicúrio tem o mesmo ponto de vista do cínico; entre os dois existe, em geral, apenas  uma diferença de temperamento. O epicúrio utiliza sua cultura superior para se tornar independente das opiniões dominantes; eleva-se acima destas, enquanto o cínico fica apenas na negação. Aquele anda, digamos assim, por caminhos sem vento, bem protegidos, penumbrosos, enquanto acima dele as copas das árvores bramem ao vento, denunciando-lhe a veemência com que o mundo lá fora se move. O cínico, por outro lado, vagueia nu na ventania, por assim dizer, e se endurece até perder a sensibilidade. [...]. Trechos extraídos da obra Humano, demasiado humano (Abril Cultural, 1978), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui e aqui.

SOLITÁRIOS ANÔNIMOS – [...] Pela instabilidade cromática da aura dele, de qualquer modo indicadora analógica da possível recuperabilidade do sujeito, a curto ou a longo prazo, mas recuperabilidade, eu lhe diria o seguinte: meu prezado, peço-lhe perdão por não ser como você é. Se o ilustre fosse como eu, quem eu seria? Não direi que eu esteja satisfeito como que sou, por ser o que sou: em outras palavras, insisto que sentimento e razão não rimam. [...] Vivemos dizendo que só há responsabilidade dentro da liberdade. Mas será o homem realmente livre de todos os seus pensamentos, palavras e atos, se tudo o que ele pensa, diz e faz, ontologicamente já é um condicionado de infinitesimais condicionados? [...] Pigarreou: – Não é um discurso: é uma advertência dos bons  espíritos, que recebo e transmito, na condição de amigo e colega de tarefa. Compreende? – Não. – De conformidade com os postulados da filosofia oriental do que corre... porque ocorre (percebe?), realmente não é fácil. Os ventos e as chuvas modelam as pedras, dando-lhes formas animais. As águas fabricam os seixos, seios e nádegas, redemoinhos dos rios, onde os peixes proliferam sem pecar na carne, pela carne. No intervalo, os homens esbanjam os dias na disputa de títulos honoríficos, cargos e posições, digerem o fígado, o baço, os rins... perfuram os pulmões e os intestinos, alimentam o câncer geral, esclerosam as veias, engrossam o sangue, que entope o coração e o cérebro, ao mesmo tempo em que, devagarinho, vão enforcando as almas nos pênis que a idade reduz a uma polegada, sendo, por isso, muitas vezes obrigados a recorrer ao suicídio pra apressar o fim de seus tormentos. Compreende, afinal, a indigente parábola? – Ainda não. – Nesse caso, vamos mudar de conversa: e cuidar de coisa mais compatível com o tempo de duração de nossa estada nesse rolante depósito de sorridentes e auto-satisfeitos imbecis. Trechos de A.S.A – Associação dos Solitários Anônimos (Ateliê, 2003), do escritor, dramaturgo, jornalista, advogado e critico literário Rosário Fusco (1910-1977).

TECENDO A MANHÃ – Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro; de um outro galo / que apanhe o grito de um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / os fios de sol de seus gritos de galo, / para que a manhã, desde uma teia tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos. / E se encorpando em tela, entre todos, / se erguendo tenda, onde entrem todos, / se entretendo para todos, no toldo / (a manhã) que plana livre de armação. / A manhã, toldo de um tecido tão aéreo / que, tecido, se eleva por si: luz balão. Poema extraído da obra A educação pela pedra (Nova Fronteira, 1996), do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui e aqui.

PROJETO PINTANDO NA PRAÇA
Acontecerá neste mês de outubro, a quarta educação do projeto Pintando na Praça, realizado pelo Instituto Belas Artes Vale do Una, que terá exposições na Biblioteca Fenelon Barreto e culminará com artistas do Recife, alunos da UFPE e artistas locais pintando na Praça Paulo Paranhos. Veja mais aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Barbara Marczewska.
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...