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sábado, maio 01, 2021

SEBALD, BARICCO, YASMINA KHADRA, KIM EDWARDS & GENTIL PORTO FILHO

 

 

TRÍPTICO DQC: O tio-irmão se foi e fiquei só mais uma vez - O brejo no quintal e o meio da rua principal, a infância no que não era água escura, apenas um nome inocente. Aquele Zito – coisito de carinho, mimo -, ser caçula como todos somos e com uma obediência cega por meu pai que nunca tive até a descoberta do fracasso e senilidade dele, aí passou para o plano da compreensão, porque era o filho do mais velho que era meu pai e, por isso, meu irmão. E o respeito submisso o fez doutor Rildo que foi para mim nada mais além do nome, alcançar a rebeldia insubordinada – era enfim ele por ele mesmo – de vereador a vice-prefeito que, também, para mim, não era mais que outra nomeação distante, porque arrombamos com toda hierarquia: ser o primeiro neto deu-me o poder sobre o tio mais novo, a equidade. E ríamos e discordávamos no meio da nossa cumplicidade. Nada do que fomos além de nós mesmos em nós mesmos não valia nada. Como ele era bissexto, envelheci primeiro, antes dele e recitando a epístola aos poetas que virão de Manuel Scorza – apesar dele ter passado não sei quantos anos além de mim. O que ficou de mesmo foi essa isonomia e as mãos dalas pela proximidade de sonhos, anseios similares, apesar de distintos, claro, mas dois num só, na verdade três mosqueteiros: eu, ele e todas as coisas, enquanto apreendia as quatro narrativas longas dos emigrantes, do escritor alemão W. G. Sebald (1944-2001): O certo, porém, é que o sofrimento espiritual é praticamente infinito. Quando se acredita ter atingido o último limite, sempre há novos tormentos. A pessoa cai de abismo em abismo. E éramos um pelo outro no pacto de sangue que sequer celebramos e nem a morte nos separou porque se ele está morto seja lá onde for, está vivo em mim, como dissera Alessandro Baricco: Os mortos morrem, mas continuam a falar em nossa voz. Aumentou minha solidão, mas é assim que sou e vamos sempre juntos.

 


DOIS: Cassemblas – Comartefatos, brinquedadas, trouvobjetos, vidartes - Aqui estou e muitoutros eus, isso de mim mesmo. É assim: de primeiro ouvi e o ouvido fez-se minha fala, Fiat Lux et cétera e tal. E em mim a descoberta do que não ouvi nem se falou: do que sou e de tudo duma só vez emanavam e eu capturando os pedaços que voavam de mim não sei de onde, de dentro sim, e sentia sem que pudesse compreender, o ilógico, algo não-ego, outro eu e muitoutros de mim mesmo brotavam do meu coração e cresciam a se enraizarem além dos meus pés e se elevavam além da minha cabeça e tamanho, como se minha alma não fosse só minha e não mais eu, incorporando a mim e todo universo. Foi de repente e me vi Sônia Guajajara empunhando a vida e era ao mesmo tempo o pedinte aboletado na esquina e o escritor argelino Yasmina Khadra: Quando um mosquito se deixa apanhar numa teia, não pode querer mal à aranha. E não só, o primeiro passo esquecido, o sorriso de Carma, a última esquina passada onde não encontrei minha mãe que se foi para nunca mais, cenas que não vi, o que não percebi e o esquecido, as árvores do quintal da infância, os rios que atravessei e me deixei levar, os enfermos das emergências hospitalares, os quase vivos e os quase mortos, ouvindo Gotas de oceano da cantautorótimaravilhosa Camila Inês e contra-o-ponto da vã filosofia porque tudo é fugaz sereia morena Leiria e o eco na mente de Kim Edwards: Não se pode deter o tempo. Não se pode raptar a luz. Tudo o que se pode fazer é virar o rosto para cima e deixar a chuva cair. Ser em si o outro e muitoutros não é nada pacífico, isso eu sei; mas nada pude fazer: guerras e tempestades permitidas, política de boa vizinhança. E me apaziguo ao desconhecido, tenho de seguir adiante.

 


TRÊS: Livro fechado – Abri e fui comodamente palavra por palavra, frase por frase, período por período, página por página até a linhultima da paginultima: Por outro lado, o caixeiro, para ser caixeiro-viajante de verdade, não precisa de escrúpulos, o que lhe deixa em posição de igualdade em relação à natural falta de escrúpulos do primata, mas com a vantagem de poder desfrutar dos privilégios da linguagem. Logo no início fui avisado: De histórias, o cemitério anda cheio. Era para saber: Viver lentamente para morrer rapidamente. E outro alerta: ...fuja mesmo e não se atrase. Lá pras tantas, outros recados no meio de muitos tantos: Ou talvez até não precise de nada, se você vislumbrar a própria divindade que há em você. O que me dizia, não olvidava: ... porque o tempo urge. Urge para que você dê aquele passo que vai lhe tirar da sua condição de vítima. Ali estava o que eu não disse e estava dito, o que não fiz e estava feito, o que não escrevi e estava sacramentadamente escrito. Deveria ter lido de antemão o prefácio d’A saga do Zeitgeist Cowboy contra o inferno do Fabio Victor, outra obra de arte, mas não passei batido: ... é um labirinto, um jogo de espelhos, um caleidoscópio instigante e vertiginoso. Um manifesto-ensaio-provocação-em-prosa-poética, no limite da prosa, no fio da navalha da poesia. Um achado, esta síntese. Justo quando lembrei comovido daquela passagem que diz: Amar o próximo é importante. Nem que seja só um amigo, daqueles capazes de saltar muros e fugir de guardas com você. Capazes também de roubar um carro com você, mas, sobretudo, de dividir o próprio futuro que se faz com ele no presente. O que eu não sabia, tudo muito e demais: um livro fechado que abri e li porque sou o que restou do meu pai. Até mais ver.

 

A ARTE DE GENTIL PORTO FILHO



[...] Sinceramente, não sei bem o que fiz neste livro. Sentei em frente ao computador como se diante de uma tela em branco. O único princípio que me impus foi justamente o de escrever sem projeto nem processos preestabelecidos. Parece-me que havia apenas a necessidade de escrever livremente [...]. Talvez pelo fato de ter a necessidade de escrever livremente, tenha me levado a este fluxo de imagens e percepções. Do título do livro, penso que me veio como uma síntese de ideias contraditórias. Parecia-me um trabalho fechado nele mesmo, aparentemente independente do exterior. Ao mesmo tempo, me parecia também o mais aberto possível, porque sem temas, estruturas ou técnicas predefinidas, o que também me recordou da Caixa de Pandora. Uma caixa fechada, mas para ser aberta e liberar ‘todos os males do mundo’. [...].

A arte do escritor, professor, pesquisador e artista plástico, Gentil Porto Filho, autor da obra Livro Fechado (Autor, 2020), que é professor de Teoria da Arte e formação em arquitetura. Veja mais aqui e aqui.


 


segunda-feira, janeiro 06, 2020

CARMA, ILSE LOSA, ANNA FEDOROVA, TANYA SHATSEVA, IZABEL MARQUES & ARTE PERNAMBUCANA



CARMA, PARA SEMPRE – Nasci no seu sorriso: um rio que se fizera mares, oceanos e tudo de infinito. Ela que sempre foi em mim Araci e me ensinou o dia de todas as horas e acontecências; que foi Coaraci e me deu o brilho do Sol de todas as luzes e cores; que foi Tatá-manha para que eu soubesse do fogo, queimares e brilhos; que foi Dandalunda, Iemanjá, a mãe Dandá e Cotaluna, para que eu soubesse das águas nas cuias das mãos de todas as sedes e procederes; que foi Caamanha para que eu soubesse do mato e todos os poderes; que foi Jaci e me ensinou da Lua os frutos de todos sabores da boca e pomares - e o juazeiro que não perde as folhas na seca nem no inverno; que foi Murucututu com todas as cantigas de ninar no céu estrelado e escuridão; que foi Sacu-manha para me aquecer de todos os frios nas geleiras do abandono; que foi Iá-Quererê e me levou para ver o arco-íris beber das águas do rio: carangueijo ao atá quer brincar! Eu era menino, sempre fui e até hoje. E ela ria para me ensinar Caapepena e todas as lições do fio de Cloto, do fuso de Laquesis e do nó de Átropos: tudo para que eu visse a princesa deitada no casco do guajá e me protegesse de mandingas e de tantos quebrantos, do calor extremo – ela dava três assobios longos e logo ventava forte: ora, é só deixar os patos passarem. E eu ria ou chorava. E mais ríamos com as minhas atrapalhadas. Assim me dizia e eu ria, crescendo, maturando. Foi ela ainda eu tabaréu que me fez curado de cobra com ensalmos que curam de amor e com todas as manobras e trajetos; e me disse para não mais olhar para trás e encarar as pelejas, a distinguir o que era coisa feita e o canzuá de quimbe, dos que não se viram no espelho e logo morreram de pecado mortal: do tanto que foi o pote à fonte e um dia se quebrou - quem não pode com ele não pega na rodilha. Aconselhava e sorria, quase nem levava a sério, mas levava e eu nem sabia. Foi dela que soube de Luzia que arrancou os olhos e os deu ao amor, e Obá a orelha para agradar seu senhor. Ela alisava meus cabelos e cafunés me dizia para que eu não vacilasse de olho aberto para as hamadríadas nos carvalhos, o lúgubre agouro do Jucurutu, o não-sei-que-diga escondido e os que mijavam nas covas, enquanto se viam nas quadras de punição; de Priprioca e a casa de Piripiri, o tajá e o tamacoare, valia dela a dendrofilia: o respeito eterno pela Natureza & todas as coisas. É dela o que foi e está em mim, o melhor de tudo, o que era panaceia e o que era espinha de bagre, das riquezas do lago encantado do Grongonzo, dos dias de Logunedé, das jornadas por promessas com quadras decoradas a desatar o que deu nó com dois dedinhos de prosa nas ligeiras: paca, mondé, sururu, porco-do-mato e tatu. Ou dedo-mindinho, seu vizinho... cadê o bolinho daqui? Eu ria. O rato comeu: lá vai o gato atrás do rato e a futucada no sovaco. Esse menino tem cotoco, não para quieto! Eu contava, somava e dividia; e ela sorria com instruções para as redondilhas e o Lunário Perpétuo, até a liberdade do verso livre: o melhor poeta um coco, o melhor vate um papão, tudo para que me tornasse canoeiro patenteado, livre de efifás das que não mostram os panos, enfim, para que eu encontrasse a dama-de-branco e ficasse rico e amado. Não fui, acho que não. Não sei, nem saberia. Ela sabia tudo. Sempre tive mais que o merecido. Dela, a graça divina e o que aprendi. Fiz uma canção para ela e foi pouco. Um poema e mais. Nada me satisfez nem poderia, porque ela era Carma, a Ci, a mãe de todas as mães com as manhecências do seu sorriso que ficou em mim para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] a nostalgia de um passado histórico se cultiva na infância, tal como os usos e os costumes. O estrangeiro, quando muito, pode admirar, gostar, achar curioso, mas não se enternece nem se orgulha. As lutas e glórias dum país que não é o seu permanecem-lhe alheias porque a infância foi-lhe povoada de outras lutas e glórias, e a sua nostalgia é, por consequência, outra também. [...] Um filho é continuação. Ou chegada? Procura chegar, José! Procurei chegar, Nils, procurei deveras. Mas sabes tu o que quer dizer chegar? O amor a outros seres, a continuação em outros seres, a ilusão de segurança e de estabilidade ou somente uma estação intermédia na eterna fuga do homem? Não sei, não sei. [...]. Trechos extraídos da obra O mundo em que vivi (Afrontamento, 1987), da escritora e tradutora portuguesa Ilse Losa (1913-2006), que em outra de suas obras, Sob céus estranhos (Portugália, 1962), assinalou: [...] não se volta tão depressa para uma terra onde por toda a parte ainda há cheiro a crime, sobretudo quando esse crime nos diz respeito. [...] sou estrangeiro, o estrangeiro é tolerado, ai daquele que se atreve a integrar-se!, se ao menos me naturalizassem, diabo!, […] o nosso menino não será estrangeiro, é o que lhe vale, tenho de me deixar ficar por isso… ficar… linda palavra… […] ficar, quem me garante que possa ficar, quem garante seja o que for, quem garante que a Teresa não morra de parto? [...].

DESTAQUE: NA CURVA DOS QUE NÃO CHEGARAM A IR.... DÁ NISSO.... - Bem que se diz, que os velhos são teimosos e turrões... passei toda a vida só constatando esse fato sem contudo , dá muita atenção ao fato, afinal eu era jovem! Mas as coisas mudam, a vida nos transfigura os traços a cada dia, sem contar com o que sentimos profundamente dentro da gente. Passei esse Dezembro todo me perguntando o que estaria havendo comigo?! Uma tristeza tão grande, uma apatia, um alheamento temporal como se eu estivesse vivendo uma realidade paralela, como alguém, que é forçado vez ou outra, a vigiar fatos como quem assiste a um filme sem envolvimento, sem "raport " com seus atores ou mesmo a história contada ! Quem de tanto assistir a um determinado gênero de ficção, não fica craque em adivinhar como terminam as tramas? O filme assistido por nós esse ano que passou, foi revoltante, foi aviltante, xexelento... aí deu nisso... dizem que hoje a gente entra em 2020, tanta loucura, tantos gastos por uma passagem tão fugaz? Aliás, fugacidade está sendo a palavra de ordem... e não consigo deixar de pensar que nós estamos em uma queda livre, vertiginosa com um conceito de tempo totalmente desvirtuado ou acertado? Sei lá! Esse pra mim é um dia como qualquer outro, vou vivê-lo com a disposição que vivi todos os outros dias de exílio como alguém que chegou nesse local, cheia de entusiasmo pra cumprir uma missão, mas a lembrar por todos os momentos que o Lar está á anos Luz de distância, onde com certeza o meu Amor está, sinto tanta saudade dele e ele com certeza sente muita falta de mim... por isso esse ano ficarei no compasso da minha verdade, quietinha no meu canto, sem nada de especial, pois há muito me falaram abruptamente que Papai Noel não existia e esse ano eu soube de algo bem pior: Essa história de ano tal e qual é só convenção e que aqui a gente está imersa numa grande ficção, com protagonistas do Bem e Vilões do outro lado a sustentarem a trama até o final.... e se há alguma coisa a desejar hoje é um feliz passar de página desse livro pra um novo capítulo desse pastelão, tchin....tchin....Texto da escritora, arteterapeuta e contadora de histórias Izabel Marques. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE ANNA FEDOROVA
Adoro viajar e adoro minha vida como uma pianista de concerto. A vida é sempre cheia de aventuras, novos conhecimentos, novas impressões e emoções. A única coisa com a qual sofro é o constante transporte de malas pesadas… Sim, eu adoro Villa-Lobos! Eu acho que primeiro tive conhecimento dele através de suas obras para violão, há sete ou oito anos.
ANNA FEDOROVA - A arte da pianista ucraniana Anna Fedorova que atua como solista, musicista de câmara e com orquestras sinfônicas por todo planeta. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu gosto muito de ciência e tecnologia, bem como de mitologia e idéias metafísicas. Na verdade, algumas teorias científicas modernas são quase surreais, especialmente na física quântica, parecem ainda mais impressionantes do que qualquer fantasia esotérica inventada. Eu amo misturar a atenção plena do racional e a beleza dos mundos irracionais. Há também um tema de morte digital nas peças, flutua através de códigos, um verdadeiro mundo da vida após a morte.
TANYA SHATSEVA - A arte da artista visual russa Tanya Shatseva que cria pinturas acrílicas e ilustrações no gênero do surrealismo pop. Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A bibliotecária Jessiva Sabino de Oliveira, organizadora da antologia Eu voltarei ao sol da primavera: Ascenso Ferreira (FCCHBF/SEC/DSE/DC, 1985), na imagem do artista plástico José Rodrigues aqui, aqui e aqui.
A arte do artista plástico João Câmara aqui, aqui & aqui.
A música do cantor & compositor Paulo Diniz aqui.
A história dos caetés aqui, aqui, aqui & aqui.
A arte da atriz Geninha da Rosa Borges – a Grande Dama do Teatro Pernambucano aqui.


quarta-feira, setembro 12, 2018

AUTA SOUZA, GERALDO VANDRÉ, LINS DO REGO, AGAMBEN, MAFFESOLI, CLAUDE CHABROL & WESLEY DUKE LEE


DEIXANDO O PAPO EM DIA – Imagem: arte do artista plástico Wesley Duke Lee (1931-2010). - UMA DOUTRAS – Hoje tive a grata satisfação de reencontrar Carma, a minha vó dona Carminha, com a minha prima Fátima. Sempre as vejo, quando posso, mas é sempre maravilhoso encontrá-las, jogar conversa fora, mangar das coisas que eu fazia nos meus tempos de treloso capetinha e darmos gargalhadas gratuitas das mungangas que sempre fui responsável por promover. Lembravam-me que eu não parava quieto quando menino, coisa que sou ainda hoje: inquieto. Diziam, então, esse menino parece que tem um cotoco! E era mesmo. Ah, gostava mesmo era de aparecer. Bastava qualquer assunto ou o que fosse, só queria um pretexto para chamar atenção. E o pior era o chulé. Gente, pense numa inhaca danada! Nesse caso, triplo: o meu, o de Marquinhos e o de Marcelo. A gente se riu tanto só de lembrar da fedentina de ter de aguentar o odor de três almas sebosas, aliás, três pares de pés fedorentos. Minha nossa! Que coisa horrível. Destá. DUAS DE NÃO SEI QUANTAS – Outra se deu quando saí de lá às risadas, encontrava o povo e logo me perguntavam pelas novidades. Eu que tenho andado no mundo da lua, não tenho lá me atualizado muito com o noticiário que é o mesmo de dois anos atrás, a mesmíssima coisa. Teve um que disse na lata: quer notícia nova? Só com os repórteres manicure, vigias, caçadores, barbeiros, visitantes de salão de beleza e quejandos, esses os principais repórteres de Alagoinhanduba. Eita! E asseverou: Esses sabem tudo da vida alheia. Desconfio. Contudo, sei que se apertar direitinho, esses que me perguntaram pelas novidades, se eu desse trela, debulhariam tudo da vida alheia. Eu, hem? TRÊS PASSANDO A RÉGUA – Acho que este será o último post da semana. É que a partir de hoje estarei na V Feira de Leitura: Territórios Interculturais da Leitura, na Universidade Federal de Pernambuco, atendendo convite da professoramiga doutora Esther Rosa. Não sei se dará pra de lá atualizar aqui o blog. Caso seja possível, tudo bem, atualizarei. Caso contrário, a gente volta a conversar na próxima segunda-feira, dia 17 de setembro. Afora isso, vamos sempre juntos & beijabrações paratodos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, advogado e poeta Geraldo Vandré: Das terras do benvirá, Canto Geral, Ao vivo & com Quinteto Violado & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se por um lado, de fato, não somos mais capazes de julgar esteticamente a obra de arte, por outro, a nossa inteligência da natureza se ofuscou da tal modo e , além disso, a presença nela do elemento humano se potencializou de tal modo que, diante de uma paisagem, nos ocorre espontaneamente compará-la à sua sombra, perguntando-nos se ela é esteticamente bela ou feia, e conseguimos cada vez com maior dificuldade distinguir de uma obra de arte um precipitado mineral ou um pedaço de lenha corroído e deformado pela ação química do tempo. [...]. Trecho extraído da obra O Homem sem conteúdo (São Paulo: Autêntica, 2012), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Veja mais aqui.

NOVAS FORMAS DE SOCIABILIDADE E DE VÍNCULOS ASSOCIATIVOS & COMUNITÁRIOS – [...] todos os micro-rituais [...] parecem ter esse papel de desvio da técnica de sua função meramente utilitária, de agrupamento de indivíduos em torno de uma atividade comum, de uma paixão compartilhada. Poderíamos então falar que o destino da técnica moderna reside também na sua apropriação dionisíaca e, assim, numa ressacralização, um reencantamento do mundo. [...]. Trecho extraído da obra O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa (Forense, 1987), sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui.

FOGO MORTO - [...] Trabalhava a mulher de Vitorino na castração dos frangos de d. Amélia. Só ela por aquelas bandas tinha mão e ciência para aquele serviço. Vivia de engenho a engenho à espera da lua nova, ou do quarto minguante, para operar com sucesso. Ali estava ela desde manhã, como uma cirurgiã que confiava no seu talho. Com ela não morria uma cria. Tinha boa mão, tinha força de verdade para fazer as coisas. D. Amélia viera-lhe falar, somente para lhe dizer que acabados os serviços queria lhe dar duas palavras. Era a senhora de engenho mais delicada da Ribeira. Nunca ouvira uma palavra feia naquela boca, nunca a vira aos gritos com os outros, metida na cozinha para ouvir conversa de negras. Falavam dela, por isto, falavam do gênio esquisito, de viver calada para um canto. Era assim desde que a conhecera. Quando fora em 1877, a velha Adriana chegara, moça feita, com seu povo morrendo de fome, no Santa Fé, e d. Amélia já era casada, e era aquilo mesmo. Era moça de prendas, de educação muito fina. Lembrava-se dela naquele mesmo carro que ainda corria pela estrada, com o seu ar de rainha, aquela beleza tão mansa, tão quieta que o povo chegara a desconfiar. O povo estava acostumado com as senhoras de engenho que davam grito, que descompunham como a d. Janoca do Santa Rosa. D. Amélia era assim, de natureza. Tocava piano. Lembrava-se bem dos primeiros dias da sua chegada, com a lembrança ainda lhe doendo do sertão na pior seca do mundo. A família estava aboletada na casa do engenho, e de lá ela ouvia d. Amélia tocando no seu piano. Tudo era bem diferente do que via hoje. Tudo era tão mais cheio de alegria. O coronel Lula era moço bonito, com a barbicha preta, todo bem-vestido. Parece que ainda escutava o som do piano nos ouvidos. Todos eles estavam na desgraça, comendo a carne que o imperador mandara para o povo. Tudo magro como rês na retirada. D. Amélia fora um anjo, naqueles dias. Quando ela entrava na casa do engenho, era como a providência, uma bênção de Deus. Agora era aquela velha, muito mais velha do que a idade que tinha. O coronel era aquele homem que ninguém entendia, metido dentro de casa, cheio de tanta soberba. Tinham aquela filha que estudara nas freiras do Recife. Era moça de mais de trinta anos, tão cavilosa, enterrada no quarto, lendo livros, com medo de gente. Parecia-se com d. Olívia, aquela irmã de d. Amélia que andava sem parar, da sala de visitas para a cozinha, o dia inteiro, com a cabeça branca como de lã de algodão. [...]. Trecho extraído da obra Fogo Morto (José Olympio, 2012), do escritor José Lins do Rego (1901-1957). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMAS - AGONIA DO CORAÇÃO - Estrelas fulgem da noite em meio / Lembrando círios louros a arder... / E eu tenho a treva dentro do seio... / Astros! velai-vos, que eu vou morrer! / Ao longe cantam. São almas puras / Cantando á hora do adormecer... / E o eco triste sobe ás alturas... / Moças! não cantem, que eu vou morrer! / As mães embalam o berço amigo, / Doce esperança de seu viver... / E eu vou sozinha para o jazigo... / Chorai, crianças, que eu vou morrer! / Pássaros tremem no ninho santo / Pedindo a graça do alvorecer... / Enquanto eu parto desfeita em pranto... / Aves, suspirem, que eu vou morrer! / De lá do campo cheio de rosas / Vem um perfume de entontecer... / Meu Deus! que mágoas tão dolorosas... / Flores! Fechai-vos, que eu vou morrer! MINH'ALMA E O VERSO - Não me olhes mais assim... Eu fico triste / Quando a fitar-me o teu olhar persiste / Choroso e suplicante... / Já não possuo a crença que conforta. / Vai bater, meu amigo, a uma outra porta. / Em terra mais distante. / Cuidavas que era amor o que eu sentia / Quando meus olhos, loucos de alegria, / Sem nuvem de desgosto, / Cheios de luz e cheios de esperança, / N’uma carícia ingenuamente mansa, / Pousavam no teu rosto? / Cuidavas que era amor? Ah! se assim fosse! / Se eu conhecesse esta palavra doce, / Este queixume amado! / Talvez minh’alma mesmo a ti voasse / E n’um berço de flor ela embalasse / Um riso abençoado. / Mas, não, escuta bem: eu não te amava. / Minha alma era, como agora, escrava... / Meu sonho é tão diverso! / Tenho alguém a quem amo mais que a vida, / Deus abençoa esta paixão querida: / Eu sou noiva do Verso. / E foi assim. Num dia muito frio. / Achei meu seio de ilusões vazio / E o coração chorando... / Era o meu ideal que se ia embora, / E eu soluçava, enquanto alguém lá fora / Baixinho ia cantando: / “Eu sou o orvalho sagrado / Que dá vida e alento às flores; / Eu sou o bálsamo amado / Que sara todas as dores. / Eu sou o pequeno cofre / Que guarda os risos da Aurora; / Perto de mim ninguém sofre, / Perto de mim ninguém chora. / Todos os dias bem cedo / Eu saio a procurar lírios, / Para enfeitar em segredo / A negra cruz dos martírios. / Vem para mim, alma triste / Que soluças de agonia; / No meu seio o Amor existe, / Eu sou filho da Poesia.” / Meu coração despiu toda a amargura, / Embalado na mística doçura / Da voz que ressoava... / Presa do Amor na delirante calma, / Eu fui abrir as portas de minh’alma / Ao verso que passava... / Desde esse dia, nunca mais deixei-o; / Ele vive cantando no meu seio, / N’uma algazarra louca! / Que seria de mim se ele fugisse, / Que seria de mim se não ouvisse / A voz de sua boca! / Não posso dar-te amor, bem vês. Meus sonhos / São da Poesia os ideais risonhos, / Em lago de ouro imersos... / Não sabias dourar os meus abrolhos, / E eu procurava apenas nos teus olhos / Assunto para versos. Poemas extraídos da obra Horto (1900), da poeta do Romantismo potiguar Auta Souza (1876-1901). Veja mais aqui.

A ARTE DE CLAUDE CHABROL
Entre os filmes que já destaquei e os que aprecio do cineasta, ator, roteirista e produtor francês Claude Chabrol (1930-2010), estão o drama/romance Madame Bovary (1991), baseado na obra homônima de Flaubert, com destaque para atriz francesa Isabelle Ann Huppert; a comédia The Twist (1976), com destaque para atriz francesa  Stéphane Audran; o drama Nada (1974), adaptado do romance homônimo de Jean-Patrick Manchette e inspirado pelos eventos de maio de 1968 na França e destaque para a atriz italiana Mariangela Melato  (1941-2013); e o erótico Quiet Days in Clichy (1990), baseado no romance autobiográfico de Henry Miller, com um timaço de atrizes: Anna Galiena, Eva Grimaldi, Barbara De Rossi, Stéphanie Cotta & Isolde Barth. Veja mais aqui.

AGENDA
Encontro sobre o Ensino da Língua Portuguesa & muito mais na Agenda aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nos meus ambientes envolvo pintura, ambientação, som e teatro, pois tem algo de cênico nisso. A pessoa entra como ator e expectador ao mesmo tempo (se entrar no jogo da coisa, é lógico). A intenção era unir os elementos todos, pensei muito nisso antes de iniciar a série.
Veja mais aqui & a arte de Wesley Duke Lee aqui e aqui
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As dores imprevisíveis da felicidade, D. H. Lawrence, Holismo & Christiaan Smuts, Theodor Adorno & Max Horkheimer, Brian De Palma, Daniel Senise, Cesar Camargo Mariano, Silke Avenhaus, Enya & Dery Nascimento aqui.


sexta-feira, fevereiro 26, 2016

MURILLO LA GRECA & EU NASCI ENTRE UM RIO & UM SORRISO DE MULHER


EU NASCI ENTRE UM RIO E UM SORRISO DE MULHERFoi Carma quem me deu o primeiro abraço na vida. E com um riso lindo. Minha mãe, coitada, vítima da minha buliçosa gestação, perdia a conta da gravidez: sete ou 10 meses? Quase endoida, avalie. Desentalei na horagá do rebento de um jeito da prestimosa parteira se atrapalhar. Foi que escapuli dali às pressas para tocar fogo no mundo e aprontar, quase me arrebentando no chão. Eis que Carma, providencialmente, me abraça brincando: - Eita, chegou o meu netinho lindo! O sorriso dela me acompanha desde então, porque é o amuleto que me faz um sujeito, de sorte. A paciência daquela que me pariu quase finda num enlouquecimento com minhas presepadas de garoto. Ela não arredava, cuidou de mim todo tempo. E eu um malcriado só queria aconchego com Carma reclamando aos prantos: - Carma, maínha não deixa. Maínha não deixa! Acometido por enfermidades zis por ser mal-ouvido que aproveitava cada mínima piscada de olho dela pras fugas e arteirices, com desobediência às prescrições médicas desde que fora vítima de um derrame nos olhos ainda no primeiro ano de vida, empanzinamento com iguarias condenáveis pelo fígado baqueado dos antibióticos, peraltices de cair do teto da casa numa pia repleta de cascos de garrafas, presepadas de virar armários quebrando todos os utensílios, pisoteios muitos que me levaram a ser tratado como os pés-da-doida por todas da vizinhança. Eu desfazia todas as ordens e na hora das lapadas corria para os braços de Carma que me alentava como ente endeusado. Ah, Carma, sempre no meu coração. Eu podia fazer de tudo, encher a rua de pernas, virar a cidade de cabeça pra baixo, pintar e bordar, chegasse na casa dela: um abraço apertado e um afeto inesquecível; - Esse o meu neto lindo! Quando dava, eu tomava café da manhã, almoçava, jantava, brincava com Marquinho e Marcelo no quintal, virava a noite nós três no último dos tantos quartos da casa – vez ou outra minhas comadres Sônia ou Deínha chegavam lá para repreender a gente que passava da conta nas maloqueragens altas horas da madrugada. O chulé dos três cuecas comia no centro! Um horror! As vítimas que o digam: todos da casa. E a gente ainda fumava trancado de quando abrir a porta sair o maior fumaceiro. Vixe! Bueiro da usina perdia! E Carma se ria. Fosse festa de aniversário, de São João, Natal, Ano Novo, eu lá: Carma sempre trazendo o meu prato farto com um sorriso largo. A hora que fosse, a porta era só no trinco e eu invadia a sala, ia pelo corredor passando pela sala de jantar e, na cozinha, lá estava Carma às gargalhadas com a minha chegada presepeira. E me trazia um lanche e me acarinhava e conversava comigo e se ria às alturas a cada despropósito que eu contava. Quando eu me ajeitava pra ir embora, tinha que dar aquele abraço afetuosamente apertado pra ela me beijar na testa e me abençoar pra meu juízo não virar a doidice que virei: - Vai com Deus, meu neto lindo! Ah, Carma, sempre no meu coração. E pra ela – Dona Carminha, como todos carinhosamente a chamam -, a avó do meu coração, deixo um versinho que fiz: O seu sorriso é a luz da minha vida. (Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagem: arte do pintor e professor Murillo La Greca (1899-1985)

Veja mais: Slavoj Zizek, Pier Paulo Pasolini, Martin Baró, Victor Hugo, Silvana Mangano, Altay Veloso, Agildo Ribeiro, Maria Creuza, Honoré Daumie & muito mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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