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segunda-feira, janeiro 06, 2020

CARMA, ILSE LOSA, ANNA FEDOROVA, TANYA SHATSEVA, IZABEL MARQUES & ARTE PERNAMBUCANA



CARMA, PARA SEMPRE – Nasci no seu sorriso: um rio que se fizera mares, oceanos e tudo de infinito. Ela que sempre foi em mim Araci e me ensinou o dia de todas as horas e acontecências; que foi Coaraci e me deu o brilho do Sol de todas as luzes e cores; que foi Tatá-manha para que eu soubesse do fogo, queimares e brilhos; que foi Dandalunda, Iemanjá, a mãe Dandá e Cotaluna, para que eu soubesse das águas nas cuias das mãos de todas as sedes e procederes; que foi Caamanha para que eu soubesse do mato e todos os poderes; que foi Jaci e me ensinou da Lua os frutos de todos sabores da boca e pomares - e o juazeiro que não perde as folhas na seca nem no inverno; que foi Murucututu com todas as cantigas de ninar no céu estrelado e escuridão; que foi Sacu-manha para me aquecer de todos os frios nas geleiras do abandono; que foi Iá-Quererê e me levou para ver o arco-íris beber das águas do rio: carangueijo ao atá quer brincar! Eu era menino, sempre fui e até hoje. E ela ria para me ensinar Caapepena e todas as lições do fio de Cloto, do fuso de Laquesis e do nó de Átropos: tudo para que eu visse a princesa deitada no casco do guajá e me protegesse de mandingas e de tantos quebrantos, do calor extremo – ela dava três assobios longos e logo ventava forte: ora, é só deixar os patos passarem. E eu ria ou chorava. E mais ríamos com as minhas atrapalhadas. Assim me dizia e eu ria, crescendo, maturando. Foi ela ainda eu tabaréu que me fez curado de cobra com ensalmos que curam de amor e com todas as manobras e trajetos; e me disse para não mais olhar para trás e encarar as pelejas, a distinguir o que era coisa feita e o canzuá de quimbe, dos que não se viram no espelho e logo morreram de pecado mortal: do tanto que foi o pote à fonte e um dia se quebrou - quem não pode com ele não pega na rodilha. Aconselhava e sorria, quase nem levava a sério, mas levava e eu nem sabia. Foi dela que soube de Luzia que arrancou os olhos e os deu ao amor, e Obá a orelha para agradar seu senhor. Ela alisava meus cabelos e cafunés me dizia para que eu não vacilasse de olho aberto para as hamadríadas nos carvalhos, o lúgubre agouro do Jucurutu, o não-sei-que-diga escondido e os que mijavam nas covas, enquanto se viam nas quadras de punição; de Priprioca e a casa de Piripiri, o tajá e o tamacoare, valia dela a dendrofilia: o respeito eterno pela Natureza & todas as coisas. É dela o que foi e está em mim, o melhor de tudo, o que era panaceia e o que era espinha de bagre, das riquezas do lago encantado do Grongonzo, dos dias de Logunedé, das jornadas por promessas com quadras decoradas a desatar o que deu nó com dois dedinhos de prosa nas ligeiras: paca, mondé, sururu, porco-do-mato e tatu. Ou dedo-mindinho, seu vizinho... cadê o bolinho daqui? Eu ria. O rato comeu: lá vai o gato atrás do rato e a futucada no sovaco. Esse menino tem cotoco, não para quieto! Eu contava, somava e dividia; e ela sorria com instruções para as redondilhas e o Lunário Perpétuo, até a liberdade do verso livre: o melhor poeta um coco, o melhor vate um papão, tudo para que me tornasse canoeiro patenteado, livre de efifás das que não mostram os panos, enfim, para que eu encontrasse a dama-de-branco e ficasse rico e amado. Não fui, acho que não. Não sei, nem saberia. Ela sabia tudo. Sempre tive mais que o merecido. Dela, a graça divina e o que aprendi. Fiz uma canção para ela e foi pouco. Um poema e mais. Nada me satisfez nem poderia, porque ela era Carma, a Ci, a mãe de todas as mães com as manhecências do seu sorriso que ficou em mim para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] a nostalgia de um passado histórico se cultiva na infância, tal como os usos e os costumes. O estrangeiro, quando muito, pode admirar, gostar, achar curioso, mas não se enternece nem se orgulha. As lutas e glórias dum país que não é o seu permanecem-lhe alheias porque a infância foi-lhe povoada de outras lutas e glórias, e a sua nostalgia é, por consequência, outra também. [...] Um filho é continuação. Ou chegada? Procura chegar, José! Procurei chegar, Nils, procurei deveras. Mas sabes tu o que quer dizer chegar? O amor a outros seres, a continuação em outros seres, a ilusão de segurança e de estabilidade ou somente uma estação intermédia na eterna fuga do homem? Não sei, não sei. [...]. Trechos extraídos da obra O mundo em que vivi (Afrontamento, 1987), da escritora e tradutora portuguesa Ilse Losa (1913-2006), que em outra de suas obras, Sob céus estranhos (Portugália, 1962), assinalou: [...] não se volta tão depressa para uma terra onde por toda a parte ainda há cheiro a crime, sobretudo quando esse crime nos diz respeito. [...] sou estrangeiro, o estrangeiro é tolerado, ai daquele que se atreve a integrar-se!, se ao menos me naturalizassem, diabo!, […] o nosso menino não será estrangeiro, é o que lhe vale, tenho de me deixar ficar por isso… ficar… linda palavra… […] ficar, quem me garante que possa ficar, quem garante seja o que for, quem garante que a Teresa não morra de parto? [...].

DESTAQUE: NA CURVA DOS QUE NÃO CHEGARAM A IR.... DÁ NISSO.... - Bem que se diz, que os velhos são teimosos e turrões... passei toda a vida só constatando esse fato sem contudo , dá muita atenção ao fato, afinal eu era jovem! Mas as coisas mudam, a vida nos transfigura os traços a cada dia, sem contar com o que sentimos profundamente dentro da gente. Passei esse Dezembro todo me perguntando o que estaria havendo comigo?! Uma tristeza tão grande, uma apatia, um alheamento temporal como se eu estivesse vivendo uma realidade paralela, como alguém, que é forçado vez ou outra, a vigiar fatos como quem assiste a um filme sem envolvimento, sem "raport " com seus atores ou mesmo a história contada ! Quem de tanto assistir a um determinado gênero de ficção, não fica craque em adivinhar como terminam as tramas? O filme assistido por nós esse ano que passou, foi revoltante, foi aviltante, xexelento... aí deu nisso... dizem que hoje a gente entra em 2020, tanta loucura, tantos gastos por uma passagem tão fugaz? Aliás, fugacidade está sendo a palavra de ordem... e não consigo deixar de pensar que nós estamos em uma queda livre, vertiginosa com um conceito de tempo totalmente desvirtuado ou acertado? Sei lá! Esse pra mim é um dia como qualquer outro, vou vivê-lo com a disposição que vivi todos os outros dias de exílio como alguém que chegou nesse local, cheia de entusiasmo pra cumprir uma missão, mas a lembrar por todos os momentos que o Lar está á anos Luz de distância, onde com certeza o meu Amor está, sinto tanta saudade dele e ele com certeza sente muita falta de mim... por isso esse ano ficarei no compasso da minha verdade, quietinha no meu canto, sem nada de especial, pois há muito me falaram abruptamente que Papai Noel não existia e esse ano eu soube de algo bem pior: Essa história de ano tal e qual é só convenção e que aqui a gente está imersa numa grande ficção, com protagonistas do Bem e Vilões do outro lado a sustentarem a trama até o final.... e se há alguma coisa a desejar hoje é um feliz passar de página desse livro pra um novo capítulo desse pastelão, tchin....tchin....Texto da escritora, arteterapeuta e contadora de histórias Izabel Marques. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE ANNA FEDOROVA
Adoro viajar e adoro minha vida como uma pianista de concerto. A vida é sempre cheia de aventuras, novos conhecimentos, novas impressões e emoções. A única coisa com a qual sofro é o constante transporte de malas pesadas… Sim, eu adoro Villa-Lobos! Eu acho que primeiro tive conhecimento dele através de suas obras para violão, há sete ou oito anos.
ANNA FEDOROVA - A arte da pianista ucraniana Anna Fedorova que atua como solista, musicista de câmara e com orquestras sinfônicas por todo planeta. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu gosto muito de ciência e tecnologia, bem como de mitologia e idéias metafísicas. Na verdade, algumas teorias científicas modernas são quase surreais, especialmente na física quântica, parecem ainda mais impressionantes do que qualquer fantasia esotérica inventada. Eu amo misturar a atenção plena do racional e a beleza dos mundos irracionais. Há também um tema de morte digital nas peças, flutua através de códigos, um verdadeiro mundo da vida após a morte.
TANYA SHATSEVA - A arte da artista visual russa Tanya Shatseva que cria pinturas acrílicas e ilustrações no gênero do surrealismo pop. Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A bibliotecária Jessiva Sabino de Oliveira, organizadora da antologia Eu voltarei ao sol da primavera: Ascenso Ferreira (FCCHBF/SEC/DSE/DC, 1985), na imagem do artista plástico José Rodrigues aqui, aqui e aqui.
A arte do artista plástico João Câmara aqui, aqui & aqui.
A música do cantor & compositor Paulo Diniz aqui.
A história dos caetés aqui, aqui, aqui & aqui.
A arte da atriz Geninha da Rosa Borges – a Grande Dama do Teatro Pernambucano aqui.


segunda-feira, janeiro 07, 2019

RUBEM BRAGA, JOÃO CÂMARA, LÍDIA BAZARIAN & ESCRITOS NA AREIA


ESCRITOS NA AREIA – Para quem sabe ou não, o Sol nasce para todos de uma forma ou de outra: cada um presta atenção como pode ou quer. O que sei é que quando me dei conta de que tudo sabia, parecia nada, apenas um fantasma enredado, um mudo sonhador diante: “A grande senda não possui portões. Milhares de estradas entram nela. Quando alguém atravessa o portal sem portões caminha livremente entre o céu e a terra”. Ora, era tudo muito complicado ao entendimento, sempre. Então, segui a estrada que pude para encontrar a entrada certa: quando não houver portões, para entrar é preciso inventá-los e depois suprimi-los, só assim o verdadeiro portal será atravessado. E me reinventei com a primeira flecha, leve; a segunda, penetrou profundamente. Aí o mundo era outro: tão amplo pra quem vê o som, ouve a luz e nada diz, cheira a vida, digere a tigela com as cascas e sementes de todas as coisas, toca tudo na concha da mão vazia: como é lindo testemunhar os pássaros cantando entre as flores perfumadas de todos os matizes. Quase sabia que pro cego de nariz alto tanto faz a luz ou a escuridão; e mesmo que ele leve uma lanterna, também será pro outro se estiver apagada: ninguém saberá dele. Um pouco mais: pra quem determinado ou pretendente das amenidades, algo pode se abrir a qualquer momento, o ouro do pó ou iluminação: só quem souber será premiado. E eu me vi no embarque do aeroporto pra imensidão do céu, do cais pras profundezas dos oceanos, da porta de casa pra ganhar as ruas e rodovias do fim do mundo. Enfim, a vida é a confluência de todos os caminhos e nenhum. As ilusões perturbam e, quando menos se espera, fenecem e se dissolvem, só assim se sabe do engodo: navios em águas rasas, sandálias na cabeça, o osso da língua - o tolo não sabe qual a primeira ou a última verdade, o erro sai pela boca e a fala tagarela é como o peixe encontra o anzol. Isso sou eu, patético. De outra forma, o drama jamais seria comédia porque não se luta com as armas alheias, não se cavalga com o cavalo de outro. É preciso perdoar e não só pancadas por não se saber digerir a verdade, qualquer que ela seja. Só depois de quinhentos renascimentos, o coração realiza pelas dez partes do mundo, seguindo as pegadas dos 10 Touros para entrar no portal sem portões. Sim, tentei, segui. Procuro escrever cartas legíveis, meus garranchos se escondem aos relâmpagos, as palavras não resistem a um piscar de olhos: ninguém ouve entre o instante e o infinito tempo, meus pés pisam a Terra pura: onde houver lógica não haverá graça, nada faz sentido. Dentro da minha casa os sábios me desconhecem e ninguém, muito menos, sabe do jardim invisível que cultivo iluminando cada uma das minhas vértebras para aprender que o caminho é a vida diária e o outro que continue o poema. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
Ir à praia cedo, como na infância. as ilhas no horizonte ainda estão veladas pela névoa da madrugada. O mar andou bravo esta noite, arrancando algas e mexilhões das pedras, em seu grande assanhamento de lua; respirar seu hálito acre; dar um mergulho na água fria, na praia ainda solitária, levar umas pancadas de onda, voltar para o sol na areia. E andar à toa ao longo da praia, chapinhando na espuma branca. Mas encontro, com surpresa, uma senhora conhecida. [...] Eu me afasto mais; longe, me sento na areia, e fico olhando o quadro. Contra a luz, já não distingo as feições nem ouço a voz da mulher. Assim, com a silhueta cortada contra a luz que se reflete no chão molhado, ela parece estar nua com o seu menino. É apenas uma jovem fêmea que ensina o mar e o mundo à sua cria; transmite-lhe a experiência da espécie e o sentimento dos deuses; na sua graça matinal esse batismo tem uma beleza solene.
Crônica Batismo (Rio, setembro, 1959), extraída da obra Ai de ti, Copacabana (Record, 2006), do escritor Rubem Braga (1913-1990). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DEZ CASOS DE AMOR DE JOÃO CÂMARA
Dez casos de amor e uma pintura de Câmara (1977) é o título de uma série reunida em um caderno de fontes com diversas litografias, um tríptico, pinturas, gravuras, montagens e objetos do premiadíssimo pintor paraibano residente em Olinda – PE, João Câmara. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da pianista e professora Lídia Bazarian: Poemeto, Miragem, Manhã e Segundo Solo para Cortázar. Para conferir é só ligar o som.
E mais:
O Sol nasce paratodos aqui.
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Vale do Una aqui.
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Missiva do Esconjurado, Walter Benjamin, Uma Carta de Miguel Jasseli, A musa sem máscara de Maria Áurea Santa Cruz, Um poema de Lourdes Sarmento aqui
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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segunda-feira, janeiro 16, 2017

HENRICH BÖLL, MÁRIO FICARELLI, JOÃO CÂMARA & A CIDADE UMA HISTÓRIA DE AMOR


AINDA ASSIM É UMA HISTÓRIA DE AMOR - Pela beira do rio lá estava Japaranduba pelas bandas do Riacho dos Cachorros e eu via da ponte lá estava ela bela com seus olhos enormes debruçada como quem espera a minha passagem entre cruzes como estaca no chão de barro batido e o cheiro da cana no massapê, a carniça de quantas manhãs pelas gambiarras do que foi pra existir pelos bairros com tantos nomes de santos, tanto pecados para cometer do que mais cometido, injúrias, luxúrias, agiotagem, quantas promessas para pagar por tantas tardes que se perdiam entre farmácias e movelarias, angustias enfincadas na fotografia de quantas noites o cúmulo do mau gosto nas fachadas e ruas das praças com o ar envenenado por afetos diversos, ódios nas esquinas do perigo com toda sujeira e fuligem, procissão de almas assassinadas e as reputações de areia que viram poeira na gente que quer viver melhor sem saber como e vota e erra e acerta errando e erra acertando tudo sem prever nada e só servem de cobaias para desgovernos e propagandas baratas, tratados como bexigas tontas abandonadas ao próprio destino ou bonecos calungas ocrídios nas façanhas de mané-gostoso, bumerangues do tempo do ronca feito pipas no ar trajados de transeuntes cabeças de vento absortos cai, cai balão, absenteístas constrangidos com todo desdém e desconfiança das conspirações na epidemia da cegueira do sombrio golpe dos interesses entre a vida e a morte ao sabor das misérias a cutucar com inconveniência os desertores de si mesmos a botar o bloco na rua e a quebrar o que pensam que vale e o pau cantou pros heróis salvadores do oitão que enlouqueceram na sua claustrofobia de peitos rasgados e os seios cheios da dona bela debruçada no muro sestrosa com o adeus de quem vai e o alvoroço de quem chega para esquecer de ontem tão hoje e nem dá fé da população descartada de todo jogo tramado no tapetão e não há compaixão por nada nesse mundo a não ser pelas cenas espetacularizadas da televisão. E tudo é habitável apesar de não parecer, tudo padece e eu enlouqueço nesse arrastão a me levar pros olhos da bela debruçada no muro a espera de que eu seja seu príncipe encantado perdido nos sonhos que nunca existiram, acho, a reinventar minha cidade perdida no tempo, como quem fugiu do Alcatraz com meus passos erráticos que não sei pra onde vão nem onde chegar. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui

 Curtindo a Sinfonia nº 2 – Mhatuhabh, do compositor e educador Mário Ficarelli, pela Tonhalle-Orchestrer Zürich, sob regência do maestro Roberto Duarte.

Veja mais sobre:
O culto da rosa na Crônica de amor por ela, As mil e uma noites, Ezra Pound, Almeida Prado, Heráclito de Êfeso, Dermeval Saviani, Vittorio Alfrieri, Washington Maguetas, Gilian Armstrong, Cate Blanchett, Alfred Cheney Johnston & Myrna Araujo aqui.

E mais:
Gilles Deleuze, Susan Sontag, Dian Fossey, Sigourney Weaver, Washington Maguetas, João Pinheiro & Padre Bidião aqui.
Big Shit Bôbras, Cícero & Crônicas Palmarenses aqui.
Educação Cidadã: Educação para vida e para o trabalho aqui.
O sonho de Desidério aqui.
As mil faces do disfarce aqui.
A mulher fenícia & os fenícios aqui.
Sonho real amanhecido aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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DESTAQUE: O ANJO SILENCIOSO DE HENRICH BÖLL

[...] Talvez fosse o número de passos que deviam ser dados a partir do cruzamento, ou alguma coisa na disposição do toco das árvores, que antes haviam formado uma alameda alta e bonita: algo o fez parar de repente, olhar para a esquerda e lá estava ela: ele reconheceu os restos do vão da escada, subiu lentamente os escombros: estava em casa. [...] Ele colocou seu braço em torno do ombro dela, atraiu-a para bem perto de si e adormeceu, seu rosto colado ao dela. Durante o sono, trocaram os movimentos quentes de sua respiração como se fossem carícias [...].
Trechos do romance O anjo silencioso (Estação Liberdade, 2004), do escritor alemão, tradutor e autor teatral Nobel de Literatura de 1972, Henrich Böll (1917-1995).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte do artista plástico João Câmara.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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domingo, março 20, 2016

NO PAÍS DO FECAMEPA, ATÉ NO DIA DA FELICIDADE NÃO DÁ PRA SER FELIZ!

NO PAÍS DO FECAMEPA, ATÉ NO DIA DA FELICIDADE NÃO DÁ PRA SER FELIZ! – A coisa no Brasi não está pra brincadeira, muito menos pra se segurar porque tá na hora do cai-cai – os balões estão na doida, sem se saber qual se espatifará. Os envolvidos blefam! Sem cartas nas mangas, ameaçam cartadas – sobra óleo de peroba pra Mandrakes fajutos. É que a única mágica que eles sabem fazer, na verdade, é desaparecer com o erário público, mais nada – é a farra dos gatunildos e ladronácios do serviço público geral! E fabricar trapalhadas como Fabos que promovem o Fecamepa e emporcalham tudo! A Pátriamãe que se lasca! Todos acusam todos, ninguém a favor de nada: corda de guaiamum que engrossa, puxa em todas as direções, como se fosse cama-de-gato pra destronar o primeiro que aparecer metido à besta. Eles só querem um herói e um bode expiatório. Quem vai pagar o pato, na vera, a gente já sabe: o povo! A coisa é tão sem pé nem cabeça, que mais parece enredo de telenovela ditado pelo Ibope. O mocinho: um juiz parcial e cheio das pregas que aplica a lei conforme a sua vontade e simpatia (quem confia no Judiciário brasileiro? Tem até ministro das altas cortes julgando em causa própria, ora! O juiz julga todos e quem julga o juiz? Santa prepotência do absoluto!). Afinal, ele serve pros propósitos da Fiesp que tá bancando tudo com a Grôbo e os interesses da mão invisível nacional e internacional. Nó cego, esse. Ele até já foi eleito o salvador da pátria e, com certeza, já empurrado pela claque financiadora a ser o cara da porratoda e com chapa arrumada com foto de faixa e tudo pra sacudi-lo como futuro presidente do Brasil – qual será o partido dele, hem? Dou um aplauso pra quem adivinhar, hehehehehe! Será que ele sabe que esses patrocinadores são tão volúveis quanto voláteis, feito os partidos da base governista que vão de idas e vindas conforme a bolsa e que, daqui um tempo, novo paladino ou evento será eleito pro foco das atenções, como foi com fulanos, sicranos e beltranos que a gente nem lembra mais o nome – isso se não o suicidarem antes, né? A pergunta que não quer calar: qual partido vai sobrar depois dessa melecada toda? Ah, então vão tampar o boeiro e ficar de pinote de corda em corda, engalobando os bestas que somos nós, né? Ah, do outro lado estão os bandidos: tudo e todos. Até eu, confesso, que não tenho onde cair morto, num tenho um tostão furado pra remédio, nem tenho nada a ver com a pinoia nem com quem pintou a zebra, estou de orelha em pé! Oxe! Tô ligadíssimo: a coisa tá fedendo a catinga de golpe! Ou vai findar numa pizzaria com alguém pagando o pato pra felicidade geral deles. Pois é, no país de todas as anomalias, a regra vira exceção e a exceção grassa com a cara mais lisa de felicidade dos sabidos que se arrumam pra desgraça de nós todos. Só tenho piedade da Constituição Federal – tadinha, quem mandou ser uma monstrenga remendada só pra francês ver? -, logo as primeiras linhas dela são tão desrespeitadas e começa justo nelas a desconsideração, imagine todo o resto. Não me espantaria se ela aparecesse invocada de mordida, gritando: - Não invoquem meu nome em vão, desgraçados! Gente, o que falam de legalidade pra disfarce de inconstitucionalidade, não tá no gibi! No país de tudo que é do contrário – polícia não policia, saúde fica doente, educação deseduca e tudo anda pra trás -, onde ninguém é de ninguém e cada um que se vire como puder, até no Dia Internacional da Felicidade não dá pra ser feliz! E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui


Veja mais se quiser: Nikolai Gógol, Eduardo Giannetti, Ovídio, Xangai, Agostino Carracci, Jean Antoine Houdon, Diana & Theresa Russel aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: A República sonha (1999 - Óleo sobre tela 110 x 160 cm), do pintor João Câmara.
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sexta-feira, fevereiro 12, 2016

A MAGIA DO OLHAR DE QUEM CHEGA



 Imagem: Olhar sensual, de João Câmara

A MAGIA DO OLHAR DE QUEM CHEGA

Há no seu olhar
algo surpreendente
como o viajar da estrela cadente
eu quisera ter tantos anos-luz
quantos fossem precisar pra cruzar o túnel do tempo do seu olhar...
(Gilberto Gil)

Luiz Alberto Machado

Quando o nome que não se pode dizer agora tocava - dlin! dlon! -, a campanhia estridulava e trazia o seu olhar - que olhos pidões, meu Deus! - indigente de quem se encontra na carência de encontrar o meu e eu me dizia Romeu:

"... é minha dama! Oh! ela é o meu amor!
Oh! se ela soubera!
Fala, entretanto, nada diz; mas que importa, falam seus olhos....”

Era um trasgo adusto e a minha lucidez se evaporava. E absorto me deixava ululante a ponto de encher com azáfama meus nervos e à cambalhotas o meu coração desencontrado.

Era, com certeza, uma teopsia, na qual Perséfone se transmudava em zis personagens para protagonizarem minha loucura. Eu sabia e me embevecia, me entregava ao seu olhar como quem se entrega à própria sorte.

De quem vai se entregar
Seja em qualquer lugar
Onde a sorte vier...

O seu olhar se mostrava carregado de ternura e cobiça invadindo todas as minhas entranhas e todas as dependências do meu apartamento, removendo taciturnidades, solidões, monocórdios, varrendo a mesmice, a pasmaceira e a misantropia impregnadas no meu ser e no ar de todo ambiente, trazendo um clima festivo de luzes acesas e alvoroços siderais para a minha acomodação.

Seu olhar me dizia Julieta:

"jura-me somente que me amas... toma-me toda inteira!"...

Era um rebuliço faceiro que sua figura altaneira causava no acorçoo de minha alma, do sol brilhar valorizando sua presença. E eu enamorado recitava com as forças do meu coração:

"com as leves asas do amor transpus estes muros, porque os limites de pedra não servem de empecilho para o amor. E o que o amor pode fazer, o amor ousa tentar... ai! Mais perigos há em teus olhos do que em vinte de suas espadas... amor, que foi o primeiro que me incitou a indagar; ele me deu conselho e eu lhe dei meus olhos...”

Era a trapaça de ver-me rendido no lance, tantalizado com a sua chegada inopinada, acabrunhado com o seu jeito e com o leve toque descompromissado do seu olhar em minha direção a cobrar-me:

"jura pela tua graciosa pessoa que é o deus de minha idolatria... quanto mais te dou, mais tenho..."

E rompia a encruzilhada do prazer, exorcizando meus demônios com seus lábios - aquela boca linda de Liv Tyler, fissurando-me com seus lábios bons de morder, salientes e capazes de seu diâmetro escancarado abarcar meus segredos excitados. Aliás, diga-se de passagem, a sua boca era uma entre tantas outras seduções capazes de me endoidecer, de sonhar com meu sexo duro, túmido, dentro, todinho, engolido por seu paladar - e seus seios de Mathilda May rodopiando na minha saliva, sua pele sedosa eriçada, seu corpo esgalgo, a sua carne de polpa saborosa, seu ventre humoso - aquele ventre estival e sápido -, a taça do seu veneno para beber ensandecido na doação de seu corpo maternal... "o amor corre para o amor"... entoei...

Quero que você me venha de manhã
Plantar a luz do sol
Com sua fonte a minar
E em mim se escorrer...

E me contornava inóspita, toda exata com sua blusinha de alça, deixando prevalecer todos os seus atributos, a proeminência dos seios latentes, as vestes coladas no corpo realçando a sua vitalidade e seus dotes corpóreos aliciando a fogueira ardente do meu corpo sedento por tostar a alma agradável, sussurrando em sonho ao meu ouvido...

"e como o amor é cego, combina melhor com a noite!... vem, tu, dia da noite, pois sobre as asas da noite parecerás mais branco do que a neve recém-pousada sobre um corvo!... vem, noite gentil!... vem, amorosa noite morena... Dá-me meu Romeu!..."

E aguando esta ternura
Na gente dê vontade de nascer
Beijar-lhe o ventre
E ver a vida a rolar... vai ser demais!

E ela caminhava citígrada na noite da minha solidão, pesunhando minha alma, e eu a seguir seus passos insones, ah! pequena aljôfar de olhos súplices fitando-me compenetrada enquanto chupava sorvete só para me provocar; deixando-me antever a textura de sua língua exuberante e aveludada naquele rostinho lindo, semiangelical, de uma beleza ostensiva tripudiando meus quereres decíduos e arruinados pela sua supremacia toda acanhada, silente, sonsa, excitante, solaçosa, enxuta, fermentosa, édule, usurpando minha quietude com a sua blusa a mostrar-me o rego dos seios generosos, onde eu já via na minha ilusão instantânea a sua manifestação de naja com seu capuz estufado para me devorar e premida pela sua necessidade, a suavidade de suas curvas desafiando minha perícia para um test-drive por seus traços angulosos, suas formas assombrosamente sedutoras. - parece que se vestia assim para mim, na provocação vindicativa do seu olhar imantando o meu gândulo, não se desgrudando imbrífera dos meus segredos mais remotos.

O tempo vai ruir pra nós
Desexistir
Incendiar o corpo, a voz
A sede saciar na foz
Assim, sedento
A diluir-se em flor pelos confins...

Não havia jeito de me desvencilhar de sua imagem onímoda e deslumbrante, provocando um redemoinho em todas as minhas certezas defenestradas dali, deixando-me débil com seu ar brizomante, parece que adivinhando os meus sonhos de vê-la estirada na minha bandeja, nua esurina, trincadeira.

Onde está o que sou eu?
Será renúncia de querer você?
Amor, que vai ser de mim
Se um dia esta vontade de viver
Perder o amor de vista e esquecer
Angústia de não ter raiz
E o ar desvencilhar-se do nariz...
Será de mim?
O que será do meu coração?

A sua voz arrastada, manhosa, mais parecia Nelli Sampaio sussurrando versos luxuriosos na minha alucinação, sotaque que mais acrescentava a minha filoginia e nos dava a urgência de nos estreitar mais convergindo ao centro da minha paixão desnudada.

Não forcei a barra, fui manso, deixei a coisa rolar. Eu estava a fim, ela, ao que parece, idem, mas afastada. Ela dava bandeira, mas se resguardava quando eu me insinuava, podando-me a iniciativa. Ela bateu forte, fundo, aguçando a minha imaginação para peripécias zis. Eu sabia que dali sairia um bom caldo. Saquei seu timing, o seu jeito guerreira, altiva e cosmopolita, um tanto animalesca, dando-lhe um trato terno na geografia curvilínea, não poupando um centímetro de sua graça corporal que evocava sabores, brincando com o meu apetite. Eu a desejava da ponta dos pés ao último fio de cabelo e quando exaltada na minha cobiça, seus olhos pareciam mais um pelotão de fuzilamento. Eu recuava, cedia, certo de que haveria ocasião melhor para a minha investida amorançada.

Para puxar assunto inquiri sua data de nascimento, ao que me respondeu e caí logo numa sessão horoscopeta, puxando-lhe pela intimidade, descobrindo que "da mesma forma que damos e fazemos pelos outros, dessa mesma forma receberemos e teremos sucesso na vida", revelando o sentido da troca do amor, da permuta do querer e que, por sua natureza bondosa e muitas vezes desprendida, carecia de se soltar, cobrando-lhe uma reciprocidade clara aos meus intentos.

Nenhuma atitude esboçara, impassível. Por ser uma pessoa liberal, franca, honesta, desprezando o enganoso e o ilícito, fixei minha retórica valorizando lugares como a Babilônia, a Pérsia, o Egito, a Palestina e as veredas estranhas do Oriente, onde sabia que se desmanchava por curiosidade, estendendo-se por países como o Egito, China e Japão.

Ela estava hipnotizada com minha falácia e eu sabia disso, aguçando ainda mais seu êxtase pelo que eu discorria.

Parece que eu adivinhava e ela se desnudava por inteiro perante minhas considerações. Ela me fitava a ponto de me engolir por inteiro. Estava receptiva, ao que acertei em cheio os seus mistérios. Repentinamente, escapulira pela porta afora, deixando-me a falar sozinho. Com isso perdi a noção de ser feliz. Fiquei por horas e dias a esperar-lhe a presença à minha porta, tocando a campainha para realizar-me os desejos desenfreados que me afligiam. Sumira. A campainha calara. E de repente é como se ela passasse a povoar os meus sonhos, abrindo a porta do coração e entrando com sua nudez ao som do Concierto de Aranjuez, rompendo o abandono e o sacrifício da existência. E me chegasse como a ânsia do meninote embalado pelos seios da professora do primário, Ilmena, peituda, reboculosa, linda de morrer e me enveredando pelos caminhos do amor impossível. E me visse mais taludo já, bigodinho ralo, como uma professora de Ciências, Lidinalda, ah! A que arrebatara todas as minhas atenções a deixar-me quase morrer onanista feita a coleguinha Chumbinho, miudinha, troncuda, do ginasial, a me extasiar na adolescência e, ao mesmo tempo transformada em Livânia, uma varapau maravilhosa, quase duas de mim na altura, que ao encontrar-me absorto apaixonado, virava o rosto para o céu como a pedir clemência entre escanteios e desencontros de musas mil que se enviesavam em meus caminhos, como Perséfone amada que me afligia no centro da das mais paixões construindo castelos de invenções para ser a Malésia que me falava com seu jeito Leila Diniz: "sou uma mulher meiga, adoro amar. Quero mesmo é fazer amor sem parar". E cantarolava: "... Brigam Espanha e Holanda, pelos direitos do mar... porque não sabem que o mar é de quem o sabe amar...". E dela se formando um panteão com Pomona simpática, com Maristela que vivia de peitica com a minha timidez a mostrar-me seu derrière, atrepando-se a qualquer saliência a me provocar como naquela cena antológica de Sonia Braga no telhado quando Gabriela; com o riso ao vivo de Marina Lima, que teimava em se manter colorindo meu cérebro; com a altiva presença de Luciana Ávila ou Mônica Waldvogel atualizando-me com o noticiário nacional, enquanto eu morria de paixonite aguda; como Leila sacando no volei ou Isabel paramentada com a mais estonteante torcida do Flamengo; como Débora Rodrigues, uma sem-terra sedutora que arrepiava numa direção da Fórmula Truck; como a nudez de Carolina Ferraz no Pantanal; como a meiguice de Fátima Guedes, cantando as coisas mais mansas de sua feminilidade; como uma altaneira Vera Fischer, o vinho mais nobre da minha cobiça; como a viúva Thereza, a residente mais contumaz do meu imaginário; com a pele trigueira de Suzy Rego, sedutora feiticeira; com a magnífica expressão de Kátia Maranhão a me convidar para todas as traquinagens do amor; com o jeito manso de Adriana Calcanhoto encantando minha alma, com o lindo enleio de Leila Pinheiro aformoseando minha vida, enquanto eu ruminava paixões alucinadas e desmedia de mim, do meu próprio tamanho, crescendo, dilatando com meu prazer no vórtice das emoções mais arraigadas para invadir suas ruas e becos e voar no seu íntimo e crescer na sua carne e ser-me probo condutor de suas mais agudas premências de gozo, enquanto eu lhe ouvia gemendo Clarice Lispector no centro da maior das minhas loucuras e me desencontrando ao encontra-la nua e inteira ao meu dispor para todas as explosões da minha catarse. O amor sempre apronta: “O amor quando acontece a gente esquece que sofreu um dia...”. Veja mais aquiaqui, aqui, aquiaqui .

Imagem: Marabá, de Rodolpho Amoedo.

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