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quinta-feira, agosto 09, 2018

TAGORE, LEZAMA, SHOSTAKOVICH, MALEBRANCHE, MILLÔR & FLÁVIO, MARIO CRAVO NETO, O SOL & A LUA


O AMOR DO SOL E DA LUA - Antes não havia nada. A terra era o céu. A manhã vivia no coco de cajubi, guardado pelo urubu-rei que morava num buraco vermelho na Via Láctea. Um susto com a chegada do urubu-branco, sem querer, quebrou-se o coco e surgiu a alvorada. A partir de então reinava o dia e, com ele, Mbud-ti que desceu primeiro a terra e admirou-se com tudo, a seguir muito feliz pelas maravilhas. Dias se passaram e se sentiu sozinho. A noite adormecia no fundo das águas, no coco do tucumã, guardado pela Cobra Grande e Azã gritando tati para acordá-la na vigilância. Mbud-ti queria a noite para dormir e aproveitou-se do cochilo dos vigias e levou-o consigo. O coco fazia um barulhinho: ten, ten, tem - eram os grilos, corujas, rãs, sapinhos, urutaus, morcegos e todos os seres noturnos. Espicaçava a curiosidade, ansiava por libertar a noite daquela prisão. Tomando distância, bateu com o coco numa quina duma pedra e, ao se quebrar, a noite apareceu com seu silêncio e trevas, bichos e coisas. Tudo se transformou na escuridão. Aracuã, Jacupeba, Urutau, antes homens, tornaram-se pássaros noturnos. Foi ali que Mbud-ti viu pela primeira vez a sonâmbula Mbudu-vri-re, a linda e nua Capéi, vagando sem rumo. Saiu a toda carreira na direção dela, mas ela desapareceu repentinamente. Ao acordar Capéi se viu nua e a sua brancura alumiava tudo, regulando as marés e a germinação das sementes, o brilho das pedras, o fluxo das mulheres, o nascimento das crianças e bichos. Ao acordar, de longe ela viu um belo vulto, era Mbud-ti que rondava. Assustada, escondeu-se numa moita. Ele passou tristemente procurando-a, sem que pudesse vê-la escondida. Ela viu melhor aquele por quem seu coração palpitou de amor no primeiro instante. E ao segui-lo, não mais conseguiu encontrá-lo. Havia sumido. O solitário coração de Mbud-ti tremia de paixão, levando-o a vagar por dias e noites no seu encalço. O dela, também, entregue a paixão por aquele que apenas viu passar. Depois de muita busca e espera, deu-se um eclipse, foi quando miraram um ao outro e suspiraram de amor. Apesar da curta duração do evento, ambos logo ansiaram pelo reencontro. Como não conciliavam o tempo e o espaço, abateu-se uma grande tristeza nos enamorados. Durante o dia Mbud-ti perseguia de leste a oeste à procura dela. Por toda noite Capéi sonhava com a chegada do seu amado. Os solitários cumpriam a sua sina. Logo as estrelas apareceram para consolar Capéi que lamentava a dura sorte, sempre cheia ou nova com as lembranças dos momentos com o seu amado, crescente ou minguante quando entristecida com sua ausência. Veio então, muito tempo depois, um novo eclipse e puderam namorar: ele abraçou-a, deitou-se sobre a sua brancura aos beijos, envolvendo-a com sua imensa paixão, e se amaram com êxtase. Nesse momento todas as aves cantaram para alegria deles. No prazer dos corpos, eles foram elevados aos céus, transformando-se no eterno amor entre o Sol e a Lua. PS: Recriação das lendas recolhidas de O selvagem (CEN, 1940), de Couto de Magalhães; Mitos dos índios Tembé do Pará e Maranhão e Os Apinajé (RPHAN, 1986), de Curt Nimendaju Unkel; e Entre os aborígenes do Brasil Central (Cultura, 1940), de Kar von Den Steinen. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975): Pieza para piano e violino & Symphonies nº 5, 7 e 14 & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Tudo que existe pode ou ser concebido por si ou não. Não há intermediário, pois as duas proposições se contradizem. Agora, tudo que pode ser concebido por si e sem se pensar em outro ser – eu digo, pode ser concebido por si como existindo independentemente de outra coisa ou pode ser concebido sem a ideia que representa essa outra coisa – isto é certamente uma substância; e qualquer ser que não possa ser concebido por si ou sem se pensar em outra coisa, tal ser é uma maneira de ser, ou a modificação de uma substância [...] Eu vou deixar assim – pois há muito tempo eu parei de me preocupar com problemas que estão acima de mim [...]. Pensamento extraído das Obras completas (J. Vrin, 1958), do filósofo francês Nicolas Malebranche (1638-1715).

LIBERDADE, LIBERDADE - [...] Mas afinal, o que é a liberdade? Apesar de tudo o que já se disse e de tudo o que dissemos sobre a liberdade, muitos dos senhores ainda estão naturalmente convencidos que a liberdade não existe, que é uma figura mitológica criada pela pura imaginação do homem. Mas eu lhes garanto que a liberdade existe. Não só existe, como é feita de concreto e cobre e tem cem metros de altura. A liberdade foi doada aos americanos pelos franceses em 1866 porque naquela época os franceses estavam cheios de liberdades e os americanos não tinham nenhuma. Recebendo a liberdade dos franceses, os americanos a colocaram na ilha de Liberty Island, na entrada do porto de Nova York. Esta é a verdade indiscutível. Até agora a liberdade não penetrou no território americano. Quando Bernard Shaw esteve nos Estados Unidos foi convidado a visitar a liberdade, mas recusou-se afirmando que seu gosto pela ironia não ia tão longe. Aquelas coisas pontudas colocadas na cabeça da liberdade ninguém sabe o que sejam. Parecem previsão de defesa antiaérea. Coroa de louros certamente não é. Antigamente era costume coroar-se heróis e deuses com coroas de louros. Mas quando a liberdade foi doada aos Estados Unidos, nós os brasileiros já tínhamos desmoralizado o louro, usando-o para dar gosto no feijão. A confecção da monumental efígie custou à França trezentos mil dólares. Quando a liberdade chegou aos Estados Unidos, foi-lhe feito um pedestal que, sendo americano, custou muito mais do que o principal: quatrocentos e cinqüenta mil dólares. Assim, a liberdade põe em cheque a afirmativa de alguns amigos nossos, que dizem de boca cheia e frase importada, que o “Preço da Liberdade é a Eterna Vigilância”. Não é. Como acabamos de demonstrar, o preço da liberdade é de setecentos e cinqüenta mil dólares. Isso há quase um século atrás. Porque atualmente o Fundo Monetário Internacional calcula o preço da nossa liberdade em três portos e dezessete jazidas de minerais estratégicos. (Foge.) [...]. Trecho extraído da peça Liberdade, liberdade (L&PM, 1977), do diretor teatral, cenógrafo, jornalista e tradutor Flavio Rangel (1934-1988) em parceria com o desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012), peça teatral que recebeu comentário do New York Times, Espetáculo mistura protesto, humor e música (25 de abril de 1965): Os espetáculos teatrais que elevam a voz com protestos políticos contra o regime semimilitar do Brasil, estão produzindo, no país, bom entretenimento e uma nova visão dramática [...] A peça insinua que os militares, atualmente, têm voz decisiva em muitos assuntos fora de sua competência profissional. Um militar afirma, falando de um problema civil: “Ora, isso pode ser resolvido por qualquer criança de três anos!” E depois de um momento de embaraço, acrescenta: “Tragam-me uma criança de três anos!” [...] “Se o governo continuar deixando os jornais fazerem certos comentários, se o governo continuar deixando este espetáculo ser representado, e se o governo permitir que o Supremo Tribunal continue dando habeas-corpus a três por dois, nós vamos acabar caindo numa democracia!”. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PARADISO - [...] À medida que foram passando os anos, paradoxalmente, essa sensação de morte, que se entrelaçava a seus estados de lassidão, aos começos de toda sonolência, ou à resistência de um fastio que não se dobra, foram-no levando, ao adquirir consciência desses estados de abstemia, a sentir a vida como uma planície, sobre a qual se desenvolve um espesso zumbido, sem começo, sem fim, expressão para esses estados de ânimo que reduziu com os anos, até dizer com simplicidade que a vida era um fardo bem atado, que se desatava ao cair na eternidade [...] Enquanto esperava sua volta, pensava em seu pai e pensava em você, desfiava o rosário e dizia: o que direi a meu filho quando voltasse desse perigo? A passagem de cada conta do rosário, era a súplica de que uma vontade secreta o acompanhasse, ao longo da vida, que seguisse um ponto, uma palavra, que tivesse sempre uma obsessão que o levasse a procurar o que se manifesta e o que se oculta. Uma obsessão que nunca destruísse as coisas, que procurasse no manifestado o oculto, no secreto o que ascende para que a luz o configure [...] Não recuse o perigo, mas tente sempre o mais difícil. Há o perigo que enfrentamos como uma substituição, há também o perigo que tentam os doentes, esse é o perigo que não engendra nenhum nascimento em nós, o perigo sem epifania. Mas quando o homem, através de seus dias tentou o mais difícil, sabe que viveu um perigo, embora sua existência tenha sido silenciosa, embora a sucessão de seu marulhar tenha sido mansa, sabe que esse dia lhe foi designado para sua transfiguração, verá, não os peixes dentro do fluir, lunarejos na mobilidade, mas os peixes na cesta estelar da eternidade [...]. Trechos extraídos da obra Paradiso (Brasiliense, 1987), do escritor cubano Lezama Lima (1910-1976). Veja mais aqui, aquiaqui.

DOIS POEMAS - A MINHA CANÇÃO: Esta minha canção enleará sua música em torno de ti, meu filhinho, como os braços apaixonados do amor. / Esta minha canção tocar-te-á a fronte como um beijo de bênção. / Quando estiveres sozinho, ela se assentará ao teu lado e segredará ao teu ouvido; quando estiveres no meio da multidão, criará uma barreira de distância em torno de ti. / A minha canção será como um par de asas para os teus sonhos. / Transportará teu coração às bordas do desconhecido. / Será como a estrela fiel lá em cima, quando a noite escura tombar sobre a tua estrada. / A minha canção pousará nas pupilas de teus olhos e levará a tua vista até o coração das coisas. / E quando a minha voz emudecer na morte, a minha canção falará no teu coração vivo. LIBERTAÇÃO - Para mim, libertação não está na renúncia. Sinto o abraço da liberdade em milhares de enlaces do deleite. / Você sempre me serve a dose fresca do Teu vinho encorpado e aromático, enchendo esta taça terrena até a borda. / Com Sua chama, meu mundo acenderá centenas de velas diferentes e as depositará no altar de Seu templo. / Não, jamais fecharei as portas dos meus sentidos – os deleites da visão, do tato e da audição revelarão Seu deleite. / Sim, minhas ilusões arderão no regozijo iluminado e a maturidade de meus desejos dará os frutos do amor. Poemas do poeta e músico indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Rabindranath Tagore (1861-1941). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo, escultor e desenhista Mario Cravo Neto (1947-2009).
Veja mais aquiaqui.

AGENDA
Ela Musa Artista & muito mais na Agenda aqui.
&
Um passo & a vida, a literatura de Luiz Ruffato, Máximas principais de Epicuro, o pensamento de Moshé Feldenkrais, a arte de Walter Crane, a poesia de Admmauro Gommes, Direitos da Mulher & Pesquisa Científica aqui.


terça-feira, janeiro 30, 2018

TAGORE, EMILY DICKINSON, MAFFESOLI, RUBEM ALVES, SILVA MELO, JOÃO BOSCO, NAHUI OLLIN, JÚLIA BOSCO & RAGÚ

VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA QUALQUER - Imagem: arte da pintora e poeta mexicana Nahui Ollin (Carmen Mondragón, 1893-1978). – A chuva esfria a manhã e eu desperto a pensar o sentido da vida humana diante do noticiário às voltas com o lucrativo e o útil, as variáveis econômicas e as decisões políticas. Ah, quantas manchetes, nada mais chato e a me deixar encolhido sob as cobertas. Cá comigo, coisas de quem joga bem a boca de forno e se valem pergíveis pela praticidade do toma lá dá cá, jogos de contas, logro e usura, malogro e embustes, nada mais, círculo visioso de ideias mortas no tempo, como força de lei e não me dizem mais nada, repetições a abusar da tolerância. Tudo é muito frio, meu coração inquieto, é domingo. Ouço o choro das águas já pela tarde chuvosa de janeiro, enquanto vozes e pés molhados pela rua ecoam a fita batida, do ouvido pra língua, a mesma ladainha duma saparia. Ah, não, já passou e ninguém se deu conta, pleno agora com efeito no passado mais remoto, não pode ser, não dá mais. É como se me dissesse do futuro agora e fosse um dialeto a significar saudade de ontem, como aquela paixão arrebatadora da adolescência tida por perene, como aquela idolatria por demais abjurada, ou aquela moda extravagante que ficou bufenta, aqueles arroubos que viraram arrependimento, aquela euforia nas fotos desbotadas, aquele prazer de ápice nem lembrável. Anoitece e revejo a estrela da manhã que mergulhou nas profundezas do mar e ressuscita agora a me dá a sensação de que é outra, sendo ela a mesma que vi quase cedo, eu reconheço e fico feliz na minha solidão. Isso ocorre enquanto contratos celebrados são implantados atravessando o tempo na compensação dos créditos para girar a roda da fortuna, dos valores e papéis, dos ganhos e especulações, e eu aqui a recolher do mel esborrado da abelha tão saboroso pro gosto, do leite que jorra do seio materno e compartilhado pra quem dele necessita, e sou taça cheia que se esvazia e torna a encher e secar, enchida e esvaziada tantas e muitas vezes com minha sede e fome. Não entendo mais nada das calculadoras nas estratégias das fortunas, títulos e rubricas que vão daqui para ali do enriquecimento, a festa da acumulação e do consumo, porque sou um tolo no exercício da loucura pelas encruzilhadas do desconhecido a provar o absurdo do mundo, como quem encontra a sabedoria perdida de brincar com o que não existe. Sou sem gravata, o cinto frouxo segura as calças nas camisas folgadas e me dou o prazer de sonhar por ideias muitas, até as desconexas, a hora da vez senão agora, outra ao desencarnar para reencarnar porque a vida é outra do nada, enquanto eu danço e a deusa comigo no salto para o vazio, a ousadia de sonhar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o cantor, violonista e compositor João Bosco: Obrigado, gente! & Galos de Briga; a cantora e compositora Júlia Bosco: Dance com o inimigo, Pra gozar & Acredite no amor; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAÉ preciso criar um laboratório de ideias focado no imaginário e uma audácia de pensamento para preencher, aos poucos, o fosso que existe entre os que têm a responsabilidade de agir sobre a sociedade e aqueles que simplesmente a vivem. Pensamento do sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: O segredo maior da vida, do sucesso, da felicidade, está no indivíduo atuar, viver, agir de acordo com as tendências íntimas do seu ser, de executar a tarefa para a qual tem verdadeira vocação. Pensamento do ensaísta, médico e professor Antônio da Silva Melo (1886- 1973).

A ALEGRIA DE ENSINAR – [...] a alegria de ser professor, pois o sofrimento de se ser um professor é semelhante ao sofrimento das dores do parto: a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho. [...] Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou avaliar a alegria dos estudantes – mesmo porque não há métodos objetivos para tal. Porqie a alegria é uma condição interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamentos e sentimentos. [...] A verdade se encontra no avesso das coisas [...]. O absurdo é o avesso do mundo. [...]. aquilo por que nossas crianças e jovens são forçados a passar, em nome da educação, me horroriza. [...] As crianças são ensinadas. Aprendem bem. Tão bem que se tornam incapazes de pensar coisas diferentes. Tornam-se incapazes de dizer o diferente. Se existe uma forma certa de pensar as coisas e de fazer as coisas, por que se dar ao trabalho de se meter por caminhos não-explorados? Basta repetir aquilo que a tradição sedimentou e que a escola ensinou. O saber sedimentado nos poupa dos riscos da aventura de pensar. [...] É como nos catecismos religiosos: o mestre diz qual é a perguntar e qual é a resposta certa. O aluno é aprovado quando repete a resposta que o professor ensinou. Pois não é isto que são os vestibulares? Ao final existe o gabarito: o conjunto de respostas certas. Claro que há respostas certas e erradas. O equivoco está em se ensinar ao aluno que é disto que a ciência, o saber, a vida, são feitos. E, com isto, ao aprender as respostas certas, os alunos desaprendem a arte de se aventurar e de errar, sem saber que, para uma resposta certa, milhares de tentativas erradas devem ser feitas. Espero que haverá um dia em que os alunos serão avaliados também pela ousadia de seus voos! [...] Acho que a educação frequentemente cria antas: pessoas que não se atrevem a sair das trilhas aprendidas por medo da onça. [...]. Feitiço é quando uma palavra entra no corpo e o transforma. [...]. Educação é isto: o processo pelo qual os nossos corpos vão ficando iguas às palavras que nos ensinam. Eu não sou eu: eu sou as palavras que os outros plantaram em mim. [...] Meu corpo é um corpo enfeitiçado: porque o meu corpo aprendeu as palavras que lhe foram ditas, ele se esqueceu de outras que, agora permanecem mal... ditas... [...]. A gente fica poeta quando olha para uma coisa e vê outra. É isto que tem o nome de metáfora. [...] E a sociedade não tolera a inutilidade. Tudo tem de ser transformado em lucro. [...] Todas estão transformadas numa pasta homogênea. Estão preparadas para se tornar socialmente úteis. [...] Pois formatura é isto: quando todos ficam iguais, moldados pela mesmo fôrma. Hoje, quando escrevo, os jovens estão indo para os vestibulares. O moedor foi ligado. Dentro de alguns anos estarão formados. Serão profissionais. E o que é um profissional se não um corpo que sonhava e que foi transformado em ferramenta? As ferramentas são úteis. Necessárias. Mas – que pena – não sabem sonhar... [...]. O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro. Como na terra moram adormecidos os campos e suas mil formas de beleza, e também as monótonas e previsíveis monoculturas; como na lagarta mora adormecida uma borboleta [...] Tudo adormecido... O que vai acordar é aquilo que a Palavra vai chamar. As Palavras são entidades mágica, potências feiticeiras, poderes brucos que despertam os mundos que jazem dentro dos nossos corpos, num estado de hibernação, como sonhos. Nossos corpos são feitos de palavras... [...]. A este processo mágico pelo qual a Palavra desperta os mundos adormecidos se dá o nome de educação. [...]. Pensar é voar. Voar com o pensamento é sonhar. [...] Por isto que os adultos práticos e sérios não gostam de brincar. [...] Porque o brinquedo, sem produzir qualquer utilidade, produz alegria. Felicidade é brincar. E sabem por quê? Porque no brinquedo nos encontramos com aquilo que amamos. No brinquedo o corpo faz amor com objetos do seu desejo. [...]. As professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as ideias que moram na cabeça do pintor. São as ideias dançantes na cabeça que fazem as tintas danças sobre a tela. Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres de ideias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. [...] É com as ideias que o mundo é feito. [...]. Trechos extraídos da obra A alegria de ensinar (Ars Poética,1994), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS AMORES E UM RIO - [...] E quando chegou o momento de cortejar a jovem esposa com palavras bonitas, de pôr a coisa em prática, Ramesh descobriu um tanto assustado que os compêndios de Direito nada lhe haviam ensinado a esse respeito. Mas acabou tudo dando certo, como manda o figurino, e Ramesh aprendeu uma lição: erudição é uma coisa, e amar e fazer amor outra bem distinta, e nem sempre as duas combinam. E depois, quem neste mundo resistiria, fosse ele bacharel em direito ou não, a uma criaturinha tão cheia de graça, tão cativante e charmosa como Susila? [...] Como o pintor que engasta no fundo do coração a imagem da bem-amada, como o poeta que canta em versos unicamente a mulher que adora (e ambos empregam todo o seu talento e toda a sua devoção nessa obra) assim se sentia Ramesh. Só faltava mandar construir um altar e ai colocar sua jovem e graciosa companheira, que passar a ser a única razão de sua existência, a doce alegria do seu coração e prosperidade do seu lar. [...]. Trechos extraídos da obra Dois amores e um rio: o naufrágio (Mundo Inteiro, 1975), do poeta e músico indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Rabindranath Tagore (1861-1941). Veja mais aqui.

DOIS POEMASA ALMA ESCOLHE A PROPRIA COMPANHIA: Sempre a alma escolhe a companhia / e fecha a porta / pois a divina maioria / não mais lhe importa. / Imóvel, de sege a parelha / ao portão baixo / imóvel e o imperador se ajoelja / sobre o capacho. / Sei que escolheu na Legião / entre a qual medra / fechou a valva da atenção / como uma pedra. TOMEI A FUNDA NA MÃO: Tomei a funda na mão / parti contra mundo e gente, / Davi mais armado – eu não - / eu duas vezes valente. / Lancei a pedra – caí. / Foi tudo o que aconteceu. / Seria maior Davi / ou muito menor sou eu? Poemas da poeta estadunidense Emily Dickinson (1830-1886). Veja mais aqui.

RAGÚ
Capas das edições da revista pernambuca de HQ, Ragú, editada por Christiano Mascaro e João Lin. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Os dois mundos de quem vive de um lado só, a arte de Angelo Agostini, a música de Juliette Herlin, a arte de Hannah Wilke, a pintura de Fernando Botero & Nik Helbig aqui.
A mulher na Idade Média, a música de Johann Joachim Quantz & Verena Fischer, a literatura de Naoki Higashida & Teolinda Gersão, Fritz Lang, a pintura de Georges Rouault & Siron Franco, Marie Dumesnil, Anne Baxter, Benita Prieto, Maisa Vibancos, A mulher & a escravidão aqui.
Mahatma Gandhi, Michelangelo Antonioni & Vanessa Redgrave, Educação, Carlos Zéfiro, Phil Collins & Genesis, Jennifer R. Hale & Maria Luísa Mendonça aqui.
Marquinhos Cabral & Poetas do Brasil aqui.
Lev Vigotsky, Jean Piaget, Ausubel & Skinner aqui.
Responsabilidade ambiental aqui.
Teibei, a batida aqui.
Decameron, João Albrecht & Jiddu Saldanha aqui.
Riacho Salgadinho & a arte de Eliezer Setton, Zé Barros, Naldinho, Wilson Miranda & WebRadio Maceió aqui.
Hermilo Borba Filho & Sonia Van Dijck, Teoria da Literatura, Solange Palatinik, Constituição, Psicologia, Dialogicidade & Representações sociais aqui.
Nietzsche e a música, As raízes árabes na tradição poético-musical do sertão nordestino, História da Música de Otto Maria Carpeaux, O carnaval carioca através da música & a História da Música Popular de José Ramos Tinhorão aqui.
A vontade & a arte de Amanda Garruth, Deborah Rosa, Luciana Soler, Bete Sá, Vanessa Morais & Cantora Sol aqui.
O teatro de Augusto Boal aqui.
Poetas do Brasil: Carlos Gildemar Pontes, Sandra Fayad, Paulo Profeta, Gisele Lemos/Diana Balis, Luís Inácio Araújo, Helena Cristina Buarque & Rita Shimada Coelho aqui.
Afetividade & a arte de Lília Diniz, Lucinha Guerra, Thathi, Ezra Mattivi, Jualiana Sinimbu & Anna Ratto aqui.
Quadrinhos, a nona arte aqui.
O catecismo de Carlos Zéfiro aqui.
Doutor Zé Gulu aqui, aqui e aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
Poetas do Brasil aqui, aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora e poeta mexicana Nahui Ollin (Carmen Mondragón, 1893-1978).
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domingo, novembro 09, 2014

ERPENBECK, VONNEGUT, VARDA, HUELVA & IANGAÍ

 


OH, LINDA IANGAÍ!... (Imagem: acervo ArtLAM) Aquela menina caeté sonhava e uma tarde abriu a janela do tempo e viu-se bela moça aos olhos gentis. Ruborizava, contida, mantendo-se nos afazeres domésticos. Ao pôr do sol sentava à beira do rio, contava as estrelas e quantas luas passadas: um dia serei uma delas, jurava. Ali mesmo desvelava os segredos dos poderes do mato e o que a vida reservava a cada ser vivente. No meio do seu devaneio era sempre surpreendida por galantes visitas, das quais escapulia com um mergulho profundo nas águas do rio. Ao ser acossada sempre se evadia aos timbungues e, pela correnteza, aprendeu a liberdade e de como se esquivar de gentilezas indesejáveis. Alcançava a margem do outro lado e seus olhos por todos os morros na imensidão da paisagem, inspirada pelos aromas da terra e do ar. Aos seus ouvidos os silvos das aves e os rugidos de todos os bichos, davam na boca o gosto de todas as raízes e frutos. Às suas mãos o calor de todos os afetos e afazeres. Tornou-se, assim, afeita às águas e, um dia, escorreu abaixo e alcançou o mar. Lá estava Camura, aquele que tocou seu coração e a fez a mulher mais bela do mundo. Dali se fizeram, ele e ela, carne e unha. Onde um, o outro lá estava. Iam e vinham. Ao soar o boré, ela não se esquivou de segui-lo para enfrentar os forasteiros invasores; também foi, teimou. E foram pelas matas de palmira, prontos para o embate. Não demorou muito e o combate das flechas, luta renhida, findaram vencidos. Foram capturados pelos inimigos. Cativos agora, viam-se entre gentes como nunca tinha visto, entre muita gente de pele pálida. Como prisioneiros foram conduzidos à presença do maioral. A punição seria severa, porém, ela não escapou aos olhos cobiçosos do donatário: Oh, linda! Os demais foram escoltados para serem executados. Ela, porém, encaminhada com outras serviçais para dependência exclusiva. E a cada investida dele, oh, linda!, ela recusava, como também rejeitou aos privilégios de escolhida, mantendo-se hostil. Não deu o pulso a torcer, nem se rendeu. Desprezou a comida servida, a hospedagem e ficou sem se alimentar por dias. Certa tarde, enclausurada pelas ameaças, aguçou o ouvido com o tumulto e logo um barulho ensurdecedor. À espreita, chegou à janela. Juntou as ideias e pulou do primeiro andar, saindo às carreiras. Ávida pela presença dos seus, a tragédia: encontrou-os todos mortos, inclusive Camura. Todos os seus foram sacrificados. Ela chorou e gritou insurreta. Levantou-se enfrentando o insulto e seus olhos flagravam o quão terrível era tudo aquilo: o sangue engrossou a saliva. O cheiro fatídico elevou sua coragem e seus braços e pernas mais enrijeceram por resistência. Aos seus ouvidos os ventos traziam maus presságios, seus lábios ao coração maldiziam dos intrépidos algozes. Ecoou no seu peito o toré, havia de ser na marra. Seu corpo era só revolta insubmissa e de si nada mais restava além da fuga. Assim o fez e foi caçada pelos quatro cantos do mundo. Só foi encontrada dias depois, o corpo envolvido por folhas de timbó: honrou sua estirpe, encolhida, libertando sua alma alada. Logo tornou-se uma estrela e toda boquinha da noite ela reaparece brilhante. Dá até para ouvir baixinho, lá longe, a cantiga do seu lamento atravessando nuvens e distâncias. E toda gente ao vê-la: Oh, linda! E assim ficou o nome do lugar: Olinda. (Releitura da lenda homônima da fundação da cidade de Olinda, Pernambuco). Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Seja qual for o seu brilhantismo, o seu pessimismo, os seus pensamentos sobre a existência, a resposta é sempre... Vida. Não é uma ideia dialética, é uma contradição vivida... Sim, qualquer coisa pode ser arte. Qualquer coisa poderia ser bela... E isso é transformar a vida em - você sabe, encontrar não só beleza - diversão, alegria. Encontrar diversão onde às vezes é apenas chato; encontrar diversão quando é um fardo. Você sempre pode fazer algo parecer diferente. O que é uma forma de dizer que estou, de certa forma, protegida de ser infeliz... A felicidade é uma fruta linda que tem gosto de crueldade... Pensamento da cineasta, roteirista, fotógrafa e artista belga Agnès Varda (1928-2019). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Meu desejo vence. Ninguém nos prometeu um amanhã, viva o presente...Pensamento da ativista espanhola Elena Huelva (2002-2023). Veja mais aqui.

 

O FIM DOS DIAS - [...] Seu corpo é uma cidade. Seu coração é um grande quadrado sombreado, seus dedos são pedestres, seus cabelos são a luz dos postes de luz, seus joelhos são duas fileiras de prédios. Ela tenta dar caminhos às pessoas. Ela tenta abrir suas bochechas e suas torres. Ela não sabia que as ruas doíam tanto, não que houvesse tantas ruas nela, para começar. Ela quer levar o corpo para passear, fora do corpo, mas não sabe onde está a chave. [...] quando ela está dormindo, ele gosta de sentar-se ao lado da cama dela e fazer mais uma tentativa de desvendar o que lhe pareceu o maior enigma de toda a história da humanidade: como processos, circunstâncias ou eventos de natureza geral – como como a guerra, a fome, ou mesmo o salário de um funcionário público que não aumenta juntamente com a inflação galopante – podem infiltrar-se numa face privada. Aqui eles tornam alguns cabelos grisalhos, ali devoram um par de lindas bochechas até que a pele fique esticada sobre mandíbulas singulares; a secessão da Hungria, por exemplo, poderia resultar num par de lábios mordidos no caso de uma mulher em particular, talvez até da sua própria esposa. Por outras palavras, há uma tradução constante entre o exterior e o interior, só que existe um vocabulário diferente para cada um de nós, o que sem dúvida explica porque nunca se percebeu que esta é uma língua em primeiro lugar – e de facto , o único idioma válido em todo o mundo e para todos os tempos. [...] O fim de um dia em que terminou uma vida ainda está longe de ser o fim dos dias. [...]. Trechos extraídos da obra The End of Days (New Directions Publishing Corporation, 2012), da escritora e diretora de ópera alemã Jenny Erpenbeck. Veja mais aqui.

 

UM POEMA DO CAIXA DE RAPÉ BAGOMBO - [...] Agora é a hora do doce adeus \ Ao que nunca poderia ser, \ Às promessas que nunca poderíamos cumprir, \ À magia que você e eu. \ Se tentássemos provar o nosso amor, \ o nosso amor estaria em perigo. \ Vamos colocar nosso amor além de qualquer dano. \ Adeus, doce e gentil estranho. [...]. Poema extraído da obra Bagombo Snuff Box (1999), do escritor alemão Kurt Vonnegut (1922-2007), que traz, também, dicas para escritores: Você vai fazer um completo estranho gastar horas com a sua história. Faça com que ele ou ela não sintam que foi uma perda de tempo. Dê ao leitor ao menos um personagem por quem ele possa torcer. Todo personagem deve querer alguma coisa, nem que seja apenas um copo d`água. Toda frase deve fazer ao menos uma de duas coisas: revelar mais sobre um personagem ou fazer a ação se desenrolar. Comece o mais próximo possível do final. Seja sádico. Não importa o quão doces e inocentes sejam os seus personagens principais, faça com que coisas terríveis aconteçam com eles – para que o leitor sinta do que eles são capazes. Escreva para agradar apenas uma pessoa. Não abra a janela e tente abraçar o mundo – os seus personagens vão pegar pneumonia. Dê aos seus leitores o máximo de informação possível, o mais rápido possível. Que se dane o suspense. Os leitores devem ter um entendimento tão completo (do que está acontecendo, onde e por quê) que eles poderiam terminar a história por si mesmos, mesmo que baratas comessem as últimas páginas. Como um romance é tão longo, lê-lo é como estar casado para sempre com alguém que ninguém conhece ou com quem ninguém se importa... todos ainda estariam cometendo o mesmo erro terrível: ser bons uns com os outros. Veja mais aqui e aqui.

 

OUTRAS SACADAS

 

DECEPÇÃO POLÍTICA – Passado alguns dias do embate eleitoral deste ano, no qual apesar dos reclamos e protestos da população contra a violência, a falta de educação e de saúde, enfim, dos problemas que grassam o Brasil, o resultado foi o mesmo de sempre com extremismos que chegaram às raias da mediocridade: reeleição de fichas sujas e outros facínoras da sociedade, os mesmos de sempre de volta, aqui, ali, acolá, em todo o nosso Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada. Afinal, parece mais que não se mesmo sabe mesmo o que se diz nem o que se faz. Teve até um ensaio de separatismo que não engrossou o coro porque se engasgou no equívoco de sempre e, no final, todo mundo colocou o rabinho entre as pernas porque a culpa é toda nossa mesmo (nossa que digo é de nós mesmos, o povo brasileiro). Nessa hora, acho apropriadas as palavras do educador e psicólogo francês Pierre Wiel (1924=2008): “Na política [...] predomina um reducionismo em torno de conceitos tecnológicos de produtividade e de consumismo, sem consideração pelo meio ambiente. O homem é na maioria das vezes considerado um cidadão cumpridor de leis e regulamentos. O sistema de valor reinante é a luta pelo poder; beleza, verdade e amor são considerados meras fantasias ou, no melhor dos casos, bons argumentos para conseguir prestigio e votos. Em todos os países, a decepção do público com a política aumenta constantemente. Resulta disto uma situação de descrença das populações em seus próprios dirigentes”. (Pierre Weil, O novo paradigma holístico: ondas à procura do mar). Veja mais aqui e aqui.

NUM DIA DE DOMINGO – Toda vez que ouço a música A minha alma (a paz que eu não quero), do Rappa na maravilhosa interpretação de Maria Rita, logo me vem à cabeça o pensamento do poeta, músico e dramaturgo bengali, Rabindranath Tagore (1861-1941), a respeito das raízes de nossa mania de redomas domiciliares: Na longínqua Grécia a civilização amadureceu entre as muralhas de duas cidades; nas civilizações modernas, a cultura também foi confinada entre muralhas. Esta defesa material deixou marca profunda na alma dos homens, introduzindo na nossa inteligência a formula dividir para reinar, isto é, o costume de cercar o terreno conquistado com muros protetores que o separe do resto do mundo”. Veja mais aqui, aqui e aqui.

OS EQUÍVOCOS DESDE ANTANHO – Quem se der ao trabalho e tiver o topete de analisar a História desde as mais remotas eras até os momentos atuais, poderá fazer a verificação de que a humanidade sempre optou pelo equívoco. Talvez essa opção equivocada se deva sempre por encolerizadas imposições, talvez por comodismo de alguns tantos adeptos que adoram a via da facilidade e reproduzem impositivamente sobre os demais, talvez porque talvez seja menos dispendioso seguir a manada do que trilhar o árduo caminho da verdade. Quando tal desencanto sonda minhas ideias, as palavras salvadoras do psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung (1875-1961), me levam para uma maior compreensão: “[...] O conceito que formamos a respeito do mundo é a imagem daquilo que chamamos mundo. E é por esta imagem que orientamos a adaptação de nós mesmos à realidade”. (Carl Gustav Jung, A dinâmica do inconsciente, Vozes/1984). A PSICOLOGIA ANALÍTICA – O psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung (1875-1981) desenvolveu a psicologia analítica em oposição à grande parte do trabalho de Freud. Por meio desse modelo ele desenvolveu uma teoria da personalidade resultado dos estudos das forças inconscientes enterradas bem abaixo da superfície da mente. Essa teoria definia como a fase mais importante do desenvolvimento da personalidade é a meia-idade, contrariando Freud que defendia ser a fase da infância a mais importante para tal. A psicologia analítica foi influencia pelos estudos do seu autor sobre mitologia e expedições para estudos dos processos cognitivos de indivíduos pré-alfabetizados. Com isso, reconhecia que o sexo desempenhava um papel pequeno na motivação humana, enfocando o crescimento interior em lugar do cultivo das relações sociais. Em vista disso se referia à libido como uma energia de vida generalizada da qual o sexo apenas fazia parte. Essa energia básica expressava-se no crescimento, na reprodução e em outras atividades, dependendo do que o indivíduo considerava crucial em determinado período. Ele acreditava na pessoal moldada não apenas pelos acontecimentos do passado, como também pelas próprias metas, esperanças e aspirações futuras. Por essa razão, para ele a personalidade não era totalmente determinada pelas experiências vividas os primeiros anos de vida, mas que podia ser modificada ao longo da vida. O INCONSCIENTE: PESSOAL E COLETIVO – O inconsciente pessoal continha as lembranças, impulsos, desejos, percepções indistintas e outras experiências da vida do individuo suprimidas ou esquecidas. As experiências do inconsciente pessoal são agrupadas em complexos que são padrões de emoções e de lembranças com temas comuns. O complexo consiste basicamente em uma personalidade menor na personalidade total. O inconsciente coletivo é formado pelas experiências herdadas das espécies humanas e de seus ancestrais animais. Nesse inconsciente estão armazenadas as experiências acumuladas das gerações anteriores, inclusive os ancestrais animais, sendo pois universais e evolutivas que formam a base da personalidade e que são inconscientes. OS ARQUÉTIPOS – Consistem em determinantes inatos da vida mental, que levam o individuo a comportar-se de modo semelhante aos ancestrais que enfrentaram situações similares. A experiência do arquétipo normalmente se concretiza na forma de emoções associadas aos acontecimentos importantes da vida, tais como o nascimento,  adolescência, o casamento e a morte, ou às reações diante de um perigo extremo. São, portanto, tendências herdadas contidas no inconsciente coletivo que levam o individuo a comportar-se de forma semelhante aos ancestrais que passaram por situações similares. Os arquétipos ocorrem com mais frequência são a persona, a anima e o animus, a sombra e o self. A persona seria a mascara que o individuo usa quando está em contato com outra pessoa, para representá-lo na forma como ele deseja parecer aos olhos da sociedade. A noção de persona é semelhante ao conceito sociológico do desempenho de papel, em que a pessoa atua da forma como crê que as outras pessoas esperam que ela atue nas diferentes situações. Os arquétipos da anima e do animus refletem a noção de que cada individuo exibe algumas características do sexo oposto. A anima refere-se às características femininas presentes no homem, e o animus denota as características masculinas observadas na mulher. A sombra é o self mais sombrio, consite na parte animalesca da personalidade. É herdada das formas inferiores de vida, contendo as atividades e os desejos imorais, violentos e inaceitáveis, comportamentos que não nos permitiríamos ter. por isso, a sombra é a parte mais primitiva da natureza do individuo. Ela pode ser positiva, quando responsável pela espontaneidade, criatividade, insight e pela emoção profunda, características necessárias para o total desenvolvimento humano. O self é o principal arquétipo integrando e equilibrando todos os aspectos do inconsciente e proporcionando unidade e estabilidade à personalidade. É um impulso de autorrealização, para a harmonização, a completude e o total desenvolvimento das habilidades individuais. Para ele a autorreliazação é atingida na meia idade, entre os 30 e 40 anos de idade, sendo, portanto, essa a fase mais importante para o desenvolvimento da personalidade. A INTROVERSÃO E A EXTROVERSÃO – Para Jung o individuo extrovertido libera energia de vida que é a libido dentro dele, direcionando-a aos acontecimentos e às pessoas do mundo exterior. O introvertido direciona a libido para o seu interior. Esse tipo de pessoa é pensativo, introspectivo e resistente às influências externas. O introvertido é mais inseguro do que o extrovertido ao lidar com pessoas e situações, porém nenhum individuo é completamente extrovertido ou introvertido. Dessa forma ele distingue as diferenças de personalidade pela expressão além das atitudes introvertidas ou extrovertidas, como também por meio das quatro funções: o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição. Essas funções consistem em formas de orientação seguidas pelo individuo para se comportar tanto diante do universo exterior objetivo, como diante do universo interior subjetivo. O pensamento é o processo conceitual que proporciona o significado e a compreensão. O sentimento é o processo subjetivo de ponderação e avaliação. A sensação é a percepção consciente dos objetos físicos. E a intuição envolve a percepção de maneira inconsciente. O pensamento e o sentimento são modos racionais de reação que envolvem processos cognitivos e de raciocínio e julgamento. A sensação e a intuição são consideradas irracionais, por não envolvem o uso da razão. Dentro dessas funções, apenas uma função é dominante porque é a combinação dessas funções dominantes com a atitude dominante de extroversão e introversão que produzem os oito tipos psicológicos. O TESTE DE ASSOCIAÇÃO DE PALAVRAS – Foi desenvolvido por Jung ao usar uma lista de 100 palavras como estimulo. Ele acreditava que essas palavras eram capazes de provocar emoções, medindo o tempo que levava para o paciente responder a cada palavra, bem como às reações fisiológicas da pessoa, para determinar a intensidade emocional das palavras de estimulo. Esse teste influenciou o teste de personalidade indicador de tipo Myers-Briggs, bem como a fórmula introversão-extroversão influenciou o teste de inventário de personalidade maudsley, de Hans Eysenc. A PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE – A obra Psicologia do inconsciente, de Carl Gustav Jung, traduzido por Maria Luiza Appy, trata de temas que abordam a psicanálise, a teoria do Eros, a vontade de poder, os problemas dos tipos de atitude, o inconsciente pessoal e o inconsciente suprapessoal ou coletivo, o método sintético ou construtivo, os arquétipos do inconsciente coletivo, a interpretação do inconsciente, as noções gerais da terapia, os novos caminhos da psicologia, os primórdios da psicanálise e a teoria sexual, entre outros temas. Veja mais aqui, aqui e aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
ATKINSON, Richard; HILGARD, Ernest; ATKINSON, Rita; BEM, Daryl; HOEKSENA, Susan. Introdução à Psicologia. São Paulo: Cengage, 2011.
DAVIDOFF, Linda. Introdução à Psicologia. São Paulo: Pearson Makron Books, 2001.
FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Teorias da personalidade. São Paulo: Harbra, 2002.
GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.
JUNG, Carl. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1980.
MORRIS, Charles; MAISTO, Alberto. Introdução à psicologia. São Paulo: Pretence Hall, 2004.
MYERS, David. Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
SCHULTZ, Duane; SCHULTZ, Sydney. Historia da psicologia moderna.São Paulo: Cengage Learning, 2012.


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