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terça-feira, janeiro 22, 2019

PIERRE WEIL, JOSUÉ DE CASTRO, SIDNEY AMARAL, AS PREGAS DE ODETE, HOMENS & CARANGUEJOS NO FESTIVAL CARIRI


AS PREGAS DE ODETE – Odete? Valha-me! Já sabe, né? Se não, deixa só ela aparecer com aquele penteado na marra da peruca desajeitada no quengo, gola feita cacharrel abotoada até o queixo, mangas compridas atacadas nos pulsos, a barra do vestido no meio dos cambitos, galocha velha e fumaça pelas ventas, segure a onda que ela bota moral de tão queixuda. Alguém já ouviu uma risada dela? Mostrar os dentes pelo menos? Só se for de raiva. Basta ela abrir aqueles boticões de olhos que o esparro come no centro: mexe com quem está quieto, desonra valentão, arma o maior barraco e só para quando a trovoada arrasou o quarteirão e redondezas, dela se ver consumida de todas as energias de gasguita rouca. Só assim. Quando dá na veneta ela muda percurso de procissão, horário de festa, enterro, até o que fazer e o escambau, depende só da Lua e ela aos pitís. Haja pantim. Ah, não existe na face da terra quem saiba de tudo mais do que ela: tem a ficha corrida de todo mundo, é dona da razão; o que diz, segundo ela mesma, é tiro e queda; é Deus no céu e ela nesse mundão das coisas mais desmanteladas. Por ela, consertava tudo: fome, miséria, briga de casal, encosto, tempo ruim, violência, o que aparecer, em dois tempos, tome lá. Se fosse prefeita, a sua cidade seria um brinco, assegura batendo o punho fechado; se fosse governadora, o estado tinha moral, brinque não; e se fosse presidente, dava um jeito nesse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada, duvida? Ela bate o pé, esfrega o dedo no seu nariz, bota as mãos nos quartos e arreia o verbo: Aqui está tudo errado, eu dou jeito! E ai de quem pagar pra ver. Católica apostólica romana daquelas papa-hóstia de rosário entre os dedos, vocifera que a praga do mundo é crente, xangô e espírito ruim: Enquanto houver isso o mundo não presta! Diz e está dito. Ela se autoproclama justiceira e ao preparar um despacho na esquina não tem quem desenrole e se botar a mão no exorcismo, nunca mais corre bicho por aí. E não é só isso não: não larga os evangelhos, clama por todos os santos e usa de todo tipo de expediente para dar fim ao que achar por perturbação ou quizília. Se é pra aconselhar, ela não pestaneja: bota tudo na roda, mexe o pirão e ai de quem discordar do que ela diz. Pense numa tabacuda ineivada. Quem procura por seus conselhos ou sai doido comendo merda e rasgando dinheiro, ou nunca mais se apruma na vida, dizem. Ela está sempre ali, em cima da bucha: Êpa! Não precisa convocá-la para nada, pois chega no desaviso, cheira o duvidoso e deixa tudo às claras, segundo seu próprio tino: desmancha o que está certo, desacerta o que já está errado; bota gosto ruim, peitica, mete o bico no alheio, compra fuxico e passa o recibo, esfola a pereba, mete o dedo na ferida e no furico dos outros: Pimenta no cu dos outros é refresco, zomba. Pronto, com ela a cloaca abre e a coisa está feita: se está dando certo, bota tudo a perder. Pense num estrupício medonho. Com ela ou tudo está prestes ou gorou de vez. Chega ao ponto de arengar pelo que está certo porque entendeu tudo errado. Vá explicar. Ela mesma diz: O remédio de um doido é outro na porta. Só duas dela, a primeira, uma coisa é certa: quando o cara quer casar não tem quem demova a ideia. É? Parece que é. Chama Odete pra ver. Ela sozinha já descasou uma tuia e desfez um monte na porta da igreja. E ainda sai se vangloriando por que salvou duas almas, uma era pouca. Taí. Outra? Já viu um suicida voltar atrás? Pois voltou e quase mata Odete. Como não conseguiu seu intento de enforcá-la com as próprias mãos, matou-se assim mesmo jogando-se num tonel cheio de bosta. Como? Ah, Odete está por aí, pra cima e pra baixo. Se não existisse teria de ser inventada, só ela mesmo pra aprumar as conversas desconversadas. Eu, hem? Depois conto mais dela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Existem, segundo as tradições e as recentes pesquisas transpessoais, quatro estados ditos “de consciência”: o estado de vigília, o estado de sonho, o estado de sono sem sonhos e o estado de plena consciência ou vivência holística. As características da plena consciência são conhecidas através das tentativas de descrição dos que a vivenciam: inefabilidade, caráter paradoxal, saída do espaço-tempo, não-projeção da mente sobre os objetos, superação da dualidade sujeito-objeto ou estado não dual, vivência de uma luz radiante que impregna o espaço, vivência da vacuidade plena, vivência de amor indescritível, sentimento de viver a realidade como ela é, perda do medo da morte e descoberta do verdadeiro sentido da existência. Como já afirmamos, componentes fisiológicos caracterizam esse estado que é, neste nível, passível de mensuração através da eletroencefalografia, da avaliação de mudanças circulatórias, respiratórias, eletrocutâneas, etc. A plena consciência é acompanhada também pelo fim do sofrimento psicológico, pelo despertar da verdadeira sabedoria, indissociável do amor, e por uma ilimitada capacidade – ou limitada apenas pelo corpo físico – de aliviar o sofrimento dos outros, aproximando-os da alegria de viver. [...]
Trecho de O que se entende por plena consciência?, extraído da obra Holística: uma nova visão e abordagem do real (Palas Athenas, 1990), do educador e psicólogo francês Pierre Weil (1924-2008). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A ARTE DE SIDNEY AMARAL
A arte do escultor, pintor e fotógrafo Sidney Amaral (1973-2017). Ele é licenciado em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP-SP) e estudou pintura acadêmica e fotografia e foi aluno do Museu Brasileiro de Escultura (Mube-SP). Ele realizou diversas exposições e mostras individuais e coletivas, e seu trabalho consiste na apropriação de objetos cotidianos e prosaicos e na sua recriação em materiais como mármore, resina, porcelana e, principalmente, bronze. Já apresentou sua obra em diversos espaços brasileiros e em países como Angola, Cabo Verde e Moçambique. Veja mais aqui.

HOMENS & CARANGUEJOS NO FESTIVAL CARIRI
Acontecerá até o dia 26 de janeiro o II Festival Cine Cariri em Nova Olinda, Crato e Juazeiro do Norte, com debates, oficinas e exposições. O destaque fica por conta do documentário ficção Homens e caranguejos, de Paulo de Andrade, baseado na obra homônima do médico, sociólogo, antropólogo e geógrafo Josué de Castro. Veja mais aqui e aqui.
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A obra de Josué de Castro aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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muito mais na Agenda aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

domingo, novembro 01, 2015

ANDERSEN, WEIL, MICHALA, FERGUSSON, AGNÈS, PRAGUER, JURA MAMEDE & BRINCARTE DO NITOLINO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DE DOMINGO A DOMINGO – Todo dia era domingo na minha infância. Chovesse ou fizesse sol, todo dia era domingo. E enquanto para todos era dia de acordar tarde, pra mim, um menino insone e treloso mijão da beira do rio, já me esgueirava com os primeiros raios do sol virando o quintal de cabeça pra baixo, com as novidades inventadas com todos os pés de plantas e nas árvores dos amigos invisíveis, investido do poder de uma capa de nada ao pescoço com meu guarda-chuva mirim, penico na cabeça, nu da cintura pra baixo e a vontade de sair voando por aí feito um super-herói que sempre fui; e de saborear todas as frutas, contando mentiras ou anedotas porque, nesse dia, não apareciam nem Marcelo nem Marquinhos pra gente virar o mundo. Era dia das coleções de gibi, dos brinquedos presentes de Pai Lula e dos os deveres de casa da professora Hilda, com os quais eu me aplicava tanto de compor umas quadrinhas pra ela todo santo dia. Afinal, todo dia era domingo. Com a vida crescendo, passou a ser dia de invadir a casa de Carma pra liberdade de trelas na plateia maior; era dia de fazer carreira no quintal de tia Bia com cataventos, Mané-gostoso, bonecos de barro, cavalo-de-pau, pra saber o sabor de cada fruta adoçando minhas aventuras jamais superadas; e de tomar posse da bodega de vô Arlindo e vó Benita degustando bolo de goma, nego bom e guloseimas de venda regadas a todos os refrigerantes. Mais dias depois, passou a ser o dia de roupa vincada novinha em folha, alinhado e cheio das pregas pra paquerada nas meninas que iam ver o jacaré no tanque da Praça Maurity e dos Caboclinhos de Rabeca pulando nas ruas; ou das matinês do Cine Apolo com Carlito ou Jerry Lewis, ou do São Luiz com Django ou Ringo dos faroestes da pré-adolescência, que me davam a empáfia de ser maior que os ídolos da minha predileção. Era dia de rodar pelas rodovias ao som de Luís Gonzaga e todo cancioneiro da música nordestina no toca-fitas do Fusquinha 59 que virou Fusca 71 e mudou pra Fuscão 72, Brasília 73 e o Passat 74 nas tardes da praia de Barra Grande. Também era chegada a hora de acompanhar a namorada nas missas vespertinas da Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Montes e sonhar com casório antes da hora. Era dia de ver o bicampeonato de Emerson Fitipaldi e os tricampeonatos de Nelson Piquet e Ayrton Senna, de vibrar com o Flamengo de Zico brilhando no Maracanã, dos batizados, dos concursos públicos, das festanças abastadas até descobrir que o final de semana deveria ser maior e que só aquilo apenas não bastava para todas as estripolias. Na adulteza era dia de acordar ouvindo Vivaldi e lá pelas tantas desafinar o violão em batucadas até dormir cheio dos quequéos com o alarme da trilha sonora do Fantástico, avisando que amanhã era dia de branco e o batente esperava pro trampo de mais uma semana. Até que hoje virou dia de juntar lembranças e de que nada fiz, além disso, minha vida toda. E vamos aprumar a conversa aqui

 Imagem: Trionfo della Divina (Cortona Provvidenza - 1633-1639) no Palazzzo Barberini, do pintor e arquiteto italiano Pietro da Cortona (1596-1669).


Curtindo o álbum Bach & Teleman (RCA, 1998), da flautista dinamarquesa Michala Petri com a Berliner Barock Solisten & Rainer Kussmaul.

BRINCARTE DO NITOLINO– Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino para as crianças de todas as idades, a partir das 10hs (no horário de verão), no blog do Projeto MCLAM e com apresentação de Ísis Corrêa Naves. Na programação sempre especial também tem atrações especiais chamando a meninada com Toquinho, Chico Buarque & Milton Nascimento, Ivan Lins & As Chiquititas, A. J. Cardiais, Mundo Bita, A onça Felinda, Meimei Corrêa, Marina, Turma do Balão Màgico, Turminha da Natureza, Nita, Historinha Cantada, Fabio Jr, O Reino Encantado de Todas as Coisas, A criação do mundo & muito mais No reino encantado de todas as coisas. No blog, muitas dicas de Educação, Psicologia, Direito das Crianças e Adolescentes, Teatro, Música e Literatura infantil, com destaque pro Brincar da Criança e as historias em quadrinhos dos Aventureiros do Una. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

ONDAS À PROCURA DO MAR – No livro O novo paradigma holístico: ciência, filosofia, arte e mística (Summus, 1991), organizado por Dênis M. S. Brandão e Roberto Crema, encontro o texto O novo paradigma holístico: ondas à procura do mar, do educador e psicólogo francês Pierre Weil (1924-2008), do qual destaco os trechos a seguir: [...] O sentimento de mal-estar generalizado diante dos grandes problemas da atualidade, tais como a violência interindividual, a violência política e internacional sob forma de guerras, o perigo de proliferação nuclear, o desequilíbrio ecológico, entre outros, tem levado à construção de pontes sobre todas as formas de fronteiras criadas em última instancia pela mente humana, entre outros, podemos citar as organizações internacionais, os encontros interdisciplinares e o advento de uma mentalidade de trabalho de equipe em todos os domínios da ciência e da tecnologia o aparecimento de movimentos alternativos à destruição em medicina e em terapia, o conceito de medicina psicossomática e a abordagem holística em terapia e, enfim, os primeiros encontros entre ciência e sabedoria. A palavra holístico está se infiltrando sub-repticiamente na ciência, na filosofia, na educação, na terapia, sem que se tenha feito um esforço para conhecer sua origem e traçar a história da evolução deste conceito. [...] Uma vez que estejam profundamente engajadas na holopraxis, as pessoas podem pensar na aplicação da abordagem holística em determinados ramos profissionais. Assim, pode-se falar em abordagem holística em: epistemologia, educação, psicoterapia, medicina, política, economia, administração de empresas e organizações, paz mundial. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A PASTORA E O LIMPADOR DE CHAMINÉS – O livro A pastora e o limpador de chaminés (Ática, 1996), do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), é uma linda história a qual passo a transcrever: Por acaso você já viu um desses armários antigos, todos negros de velhice, com espirais e flores esculpidas? Pois era exatamente um desses armários que se encontrava no aposento: ele vinha da trisavó e de cima até embaixo era ornado de rosas e tulipas esculpidas. Mas o que havia de mais estranho, eram as espirais, de onde saíam pequenas cabeças de veado com seus grandes chifres. No meio do armário via-se esculpido um homem de singular aparência: fazia uma careta, pois não se podia dizer que ele sorria. Tinha pernas de bode, pequenos chifres na cabeça e uma longa barba. As crianças o chamavam de o Grande-General-Comandante-em-Chefe-Perna-de-Bode, nome que pode parecer longo e difícil, mas um título com o qual poucas pessoas foram honradas até hoje. Enfim, ele estava lá, com os olhos sempre fixos no consolo colocado sob o grande espelho, em cima do qual estava posta uma graciosa pequena pastora de porcelana. Ela usava sapatos dourados, um vestido enfeitado com uma rosa viçosa, um chapéu dourado e um cajado: era encantadora. Ao lado dela estava um pequeno limpador de chaminés, negro como carvão, e de porcelana também. Ele era muito bonito, pois, na realidade, não era senão o retrato de um limpador de chaminés. 0 fabricante de porcelana poderia ter feito dele um príncipe, o que teria sido a mesma coisa. Mantinha graciosamente sua escada sob um braço e seu rosto era vermelho e branco como o de uma moça; o que não deixava de ser um defeito que se poderia ter evitado colocando nele um pouco de preto. Ele quase tocava a pastora: tinham-nos colocado ali e eles ficaram noivos. Assim, um combinava com o outro: eram dois jovens feitos da mesma porcelana e todos dois igualmente fracos e frágeis. Não longe deles havia uma outra figura três vezes maior: era um velho chinês que sabia balançar a cabeça. Também era em porcelana; acreditava ser o avô da pequena pastora, mas nunca pudera prová-lo. Afirmava ter todo o poder sobre ela e foi por isso que respondeu com um amável inclinar de cabeça ao Grande-General-Comandante-em-Chefe-Perna-de-Bode, quando este pediu a mão da pequena pastora. "Que marido você terá ali!", disse o velho chinês, "que marido! Creio mesmo que ele é de acaju. Fará de você a senhora Grande-General-Comandante-em-Chefe-Perna-de--Bode; tem seu armário cheio de pratarias, sem contar o que tem escondido nas gavetas secretas. - Jamais entrarei naquele armário sombrio - disse a pequena pastora - ouvi dizer que ele tem lá dentro onze mulheres de porcelana. - E daí? Você será a décima-segunda disse o chinês. - Esta noite, quando o velho armário começar a estalar, realizaremos o casamento, tão certo como eu ser um chinês. E ao dizer isso ele balançou a cabeça e adormeceu. Mas a pequena pastora chorava fitando ,o seu bem-amado limpador de chaminés. - Por favor - disse ela - ajude-me a fugir pelo mundo, não podemos mais ficar aqui. - Eu desejo tudo o que você deseja --disse o pequeno limpador de chaminés. - Vamos fugir; creio que poderei ajudá-la. - Contanto que nós desçamos do consolo - disse ela – não estarei tranqüila enquanto não nos virmos fora daqui. Ele tranqüilizou-a, mostrando-lhe como ela devia colocar seus pezinhos sobre os rebordos esculpidos e sobre a folhagem dourada. Ajudou-a inclusive com a sua escada e logo eles atingiram o assoalho. Mas ao se voltarem para o velho armário, notaram que tudo estava em revolução. Todos os veados esculpidos alongavam a cabeça e viraram o pescoço. 0 Grande-General-Comandante-em-Chefe-Perna-de-Bode deu um salto e gritou para o velho chinês: "Que fogem! estão fugindo!" Então eles foram refugiar-se na gaveta do armário da janela. Lá se encontravam três ou quatro baralhos incompletos e um teatrinho que tinha sido construído. Representavam ali uma comédia, e todas as damas, que pertenciam à família dos naipes de ouros ou espadas, de copas ou paus, estavam sentadas nos primeiros lugares e se pavoneavam com suas tulipas; e atrás delas estavam todos os valetes, que tinham por sua vez uma cabeça em cima e outra embaixo, como acontece com as cartas de baralho. Tratava-se na peça de um casal que se amava, mas que não podia casar-se. A pastora chorou muito, pois ela pensava tratar-se da sua própria estória. "Isto me faz muito mal", disse ela, "preciso deixar esta gaveta". Mas assim que se puseram no chão novamente e lançaram um olhar para o consolo, perceberam que o velho chinês acordara e que se agitava violentamente. "Aí vem o velho chinês!", gritou a pequena pastora, caindo sobre os seus joelhos de porcelana, totalmente desolada. - Tenho uma idéia - disse o limpador de chaminés. - Vamos nos esconder no fundo do grande cântaro que está lá no canto. Dormiremos sobre as rosas e as lavandas, e, se eles vierem, jogaremos água nos olhos deles. - Não, isso seria inútil - respondeu ela. - Sei que o velho chinês e a jarra já foram noivos e fica sempre um quê de amizade após semelhantes relações, mesmo muito tempo depois. Não, não temos outro recurso senão fugir pelo mundo. - E você tem coragem, realmente? - disse o limpador de chaminés. - já pensou em como o mundo é grande? Talvez nunca mais possamos voltar para cá. - Pensei em tudo - retrucou ela. O limpador de chaminés fitou-a longamente e disse a seguir: "0 melhor caminho para mim é pela chaminé. Você tem mesmo coragem de subir comigo ao longo dos canos? Somente por ali é que poderemos chegar à chaminé e lá eu saberei voltar. Precisamos subir o mais alto possível e bem no alto encontraremos um buraco pelo qual entraremos no mundo. Ele levou-a até a porta do fogão: "Deus! como é negro aqui dentro!", gritou ela. Enquanto isso, ela o seguiu com bravura e sem hesitação e de lá passaram para os canos, onde fazia uma noite negra como breu. "Olha chaminé", disse ele. "Coragem! 0 passo mais difícil foi dado. Não tenha medo. Olhe, olhe lá para cima e veja que estrela maravilhosa está brilhando." Havia realmente no céu uma estrela que, com seu brilho, parecia mostrar-lhes o caminho: e eles subiam, subiam sempre. Era uma estrada perigosa, tão alta! Mas ele a levantava, sustentava-a e mostrava-lhe os melhores lugares em que colocar os seus pezinhos de porcelana. Chegaram assim até o rebordo da chaminé. Ele saiu em primeiro lugar; e ela o seguiu, muito feliz por deixar finalmente aquele caminho sombrio. Sentaram-se para descansar, tão fatigados estavam! E tinham motivos para isso! 0 céu com todas as suas estrelas se estendia acima deles e os tetos da cidade apareciam lá embaixo. Passearam seus olhares bem longe em volta deles, por aquele mundo que eles viam pela primeira vez. A pequena pastora, que vivera até então no consolo, jamais pensara que o mundo fosse assim tão vasto: apoiou a sua cabecinha no ombro do limpador de chaminés e chorou tanto, que suas lágrimas lhe chegaram até a cintura. "E' muito", disse ela; "muito mais do que eu poderia suportar. 0 mundo é muito grande: oh! não estou mais em cima do consolo, perto do espelho! Não seria feliz se não voltasse. Segui-o pelo mundo; agora leve-me novamente para lá, se você me ama verdadeiramente." E o limpador de chaminés falou-lhe sensatamente; lembrou-lhe os dias monótonos que ela passara sobre o consolo, o velho chinês e o Grande-General-Comandante-em-Chefe-Perna-de-Bode. Mas ela não se deixou convencer, queria descer a todo custo e soluçava tão forte, agarrando-se ao seu pequeno limpador de chaminés, que este não pôde fazer mais do que ceder, embora achasse isto insensato. Dizendo adeus ao céu estrelado, eles começ4ram a descer a muito custo pela chaminé; a pequena pastora escorregava a cada passo mas o limpador de chaminés a amparava; chegaram finalmente ao fogão. Não fora por certo uma viagem de prazer e eles pararam na porta do fogareiro sombrio para ouvir o que se passava no aposento. Tudo estava muito tranqüilo: docemente eles puseram a cabeça para fora, a fim de ver o que havia por ali. Ai de mim! o velho chinês jazia no assoalho. Caíra do consolo ao querer persegui-los e se quebrara em três pedaços. As costas tinham-se destacado do restante do corpo e a cabeça rolara para um canto. O Grande-General-Comandante-em-Che-fe-Perna-de-Bode conservava sempre a mesma posição e refletia. "E' terrível", disse a pequena pastora, "o velho avô quebrou-se e nós é que fomos a causa! Oh! não poderei sobreviver a essa infelicidade!" E cheia de desespero em frente ao seu avô partido em três pedaços, ela apertava as suas mãozinhas. "Podemos colá-lo", disse o impador de chaminés; "sim, podemos colá-lo. Vamos, não fique triste; se colarmos as costas dele e pusermos uma boa atadura na nuca, ele ficará tão sólido e parecerá novo e poderá ainda dizer-nos uma série de coisas desagradáveis. Vamos, pare de chorar. Garanto-lhe que nada está perdido; seu estado não é desesperador. - Você acha? - perguntou ela. E eles subiram para o consolo onde viviam há tanto tempo. "Veja onde chegamos disse o limpador de chaminés, que era muito sensato; "por que fizemos tão longa viagem? Poderíamos ter poupado tanto trabalho." - Oh! Ainda se ao menos o velho avo estivesse colado! Que felicidade para mim - disse a pequena pastora. - Acha que essa operação custará muito caro? E o avo foi colado. Chegaram até a colocar-lhe uma atadura no pescoço e ele ficou como novo. Só que não podia mais mexer com a cabeça. "O senhor está muito bem depois da sua enfermidade - disse-lhe o Grande-General-Comandante-em-Chefe-Perna-de-Bode. Parece-me que não tem nenhum motivo para ficar tão abatido; afinal, quer me dar a mão de sua neta ou não?" O limpador de chaminés e a pequena pastora lançaram um olhar terno sobre o velho chinês: sabiam que ele não moveria a cabeça; mas não podia fazê-lo, e teria vergonha de confessar que tinha uma atadura no pescoço. Graças a essa enfermidade, o casal de porcelana pôde continuar junto; renderam graças à atadura no pescoço do avô e se amaram até o dia em que eles mesmos foram quebrados. Veja mais aqui e aqui.

POEMA MEMÓRIA & ÂNCORA DO TÉDIO – Conheci o poetamigo Jura Mamede (Jurandir Mamede de Santana), em 2010, quando ele me presenteou o seu livreto O sol fugitivo (Maceió, 1986). Já conhecia algumas de suas obras e pudemos, ao longo de tardes e noites por três anos seguidos, dialogar e trocar ideias a respeito da sua atividade poética. Na ocasião em que o encontrei, ele estava se abstendo de escrever poesias, alegando não haver mais nenhum sentido para poetar. Logo estranhei, claro, um sujeito como ele em que eu havia recebido referências das mais diversas vertentes poéticas de norte a sul do país, virar um completo avesso ao ato que ele mais prosperara nas mais diversas localidades desse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada, era não menos decepcionante. Mas bastou a primeira talagada na bebericagem e lá estava traindo seu propósito e poetando noite adentro. Assim foi, até quando nos últimos dias recebi a notícia de que ele havia produzido um livro cometendo novíssimos poemas e que está já em andamento de publicá-lo. Fiquei, deveras, animado com o retorno do poetamigo. Tanto é que registro aqui dois dos seus poemas. Primeiro, o Poema Memória, do seu livro Cosmo das Águas (Maceió, 1985): Com aquele que olha o abismo / e não voa, / que sem tristeza chora. / Com o náufrago que não desiste do naufrágio / com os passos afogados na areia. / Com a poesia amorosa, raivosa / uma estrada caminha em si / e não volta do abismo / exceto o poema / que voa anônimo do precipício. Também um outro que ele participou recentemente de um sarau em Maceió, o Âncora do tédio: Partem naus / Do porto do tédio, / Náufragos da cidade. / Ancora, marinheiro, / Toda tristeza em todo cais, / Regressa a pique / Com a despedida do sol e da lua. / O mundo fica por viajar do outro lado das águas. E veja mais aqui e aqui.

ENREDO E AÇÃO – No livro Evolução e sentido do teatro (Zahar, 1964), do educador, professor e crítico de teatro e mitologia Francis Fergusson (1904-1986), destaco o trecho Enredo e ação: A distinção entre enredo e ação é fundamental, mas muito difícil de ser feita em termos gerais. Mostrei-a claramente na maioria das peças estudadas, sendo as ações e os enredos dessas peças sempre diferentes entre si. Aristíteles não explica a distinção, mas nos primeiro nove capítulos da Poética, enquanto trata da tragédia em si, antes de estudar os propósitos, ou analisar os tipos de tragédias, ele parece presumir aquela distinção. [...] Aristóteles nos dá uma definição geral de enredo – arranjo, ou síntese, de incidentes – mas não define ação. Para mim, como já disse, ação é um conceito analógico, só compreensível, portanto, com referência ações determinadas. Nesse estudo a palavra se refere à ação que a peça imita; aos atos miméticos do dramaturgo – estruturação de enredo, personagem e falas – que vão constituir a peça; e aos atos miméticos dos atores que reproduzem, por meio de seus próprios seres, as versões individualizadas ou características da ação que o autor tinha em mente. Assim o livro todo é um estudo de ação em algum de seus muitos aspectos; e proponho, pois, deixar os exemplos no lugar de uma definição geral. Se o leitor quiser considerar a dificuldade de uma definição desse termo, é convidado a ler o simpósio intitulado What is action?, realizado em 1938 pela Sociedade Aristotelica Britânica. Macmurray, Franls e Ewing leram comunicados; todos viram a diferença entre ação e os acontecimentos pelos quais é manifestada; e todos concordaram quanto á fundamental importância do conceito. Mas não conseguiram uma definição que nos ajudasse. É interessante notar que nenhum deles mencionou a arte de imitir a ação. Se a ação não pode ser definida abstratamente, de que serve o conceito no estudo das artes dramáticas? Serve para indicar a direção que uma análise da peça deve tomar. A direção do objeto que o dramaturgo tenta mostrar-nos; e precisamos dessa orientação se queremos compreender a arte complexa do autor; estruturação do enredo, dos personagens, da linguagem, do pensamento e a coerência entre eles. Com esse propósito podem ser estabelecidas regras práticas como a famosa do Teatro de Arte de Moscou. Diz ela que a ação de um personagem ou de uma peça deve ser indicada por uma frase definitiva. Em Édipo, por exemplo, seria “achar o réu”. Esse expediente não chega a ser uma definição, mas leva o ator à determinada ação que o autor pretendeu. Assim, para quem se interessa pela arte do dramaturgo ou pela arte do ator, a distinção entre enredo e ação é essencial. Veja mais aqui e aqui.

LE GOÛT DES AUTRES – A comédia Le goût des autres (O gosto dos outros, 2000), dirigido pela cineasta francesa Agnès Jauoi e roteirizado por ela e por Jean-Pierre Bacri, conta a história de um rico empresário acometido de depressão, entediado com a sua esposa, e que para fazer um grande contrato internacional terá de fazer cursos de inglês e que passa a ter um guarda-costas que é um ex-policial, desiludido e amargo. Nesse meio termo, se apaixona pela professora de inglês que também é atriz que vê-lo como um milionário sem graça, mas que depois de certo tempo, o vê como um ser humano e capaz de evoluir acima de tudo. Trata-se, portanto, das confusões amorosas e sociais de um grupo de personagens de diferentes gostos, classes e ambições: desde o industrial novo-rico e sua professora de inglês; o truculento guarda-costas e uma garçonete traficante. Pela comedia igualmente engraçada, inteligente e sedutora sobre esnobismo, tolerância e as cegueiras da paixão. O destaque do filme vai para a diretora Agnès Jauoi que além de atriz que atuou em várias dezenas de filmes e no teatro, também é escritora com vários livros publicados e que dirigiu também Como uma imagem (2004), Tal about the rain (2008) e No final do conto (2013). Veja mais aqui.

CURSO DINÂMICO DE ORATÓRIA – Nos dias 14 e 21 de novembro, no horário das 13 às 18hs, na Escola de Idiomas Wizard, em Três Corações (MG), acontecerá mais um Curso Dinâmico de Oratória – modalidade interativa e muito prática, com duração de 10 horas de curso. Informações & Local de Inscrições: Rede Pizza Pré-Assada (Ao lado do Frigorífico Loha) Rua Cel. Francisco Antonio Pereira, 197 – Centro Telefones: (35) 93232-1039 ou (35) 98814-9720 (Com Meimei Corrêa) & Escola de Idiomas Wizard, Praça Cônego Zeferino Avelar, 26 – Centro Três Corações – MG, Telefone: (35) 93234-1918 Realização: Meimei Corrêa Produções/ Alan Miranda Cursos/ Projeto MCLAM/ Diário do Tataritaritatá/ Escola de Idiomas Wizard. Veja mais detalhes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Todo dia é dia da médica e ativista Francisca Praguer Fróes (1872-1931), uma das primeiras mulHeres formadas em Medicina no Brasil e a defender os direitos da mulher e o divórcio em 1917, preocupando-se com questões de saúde tipicamente femininas. Foi agraciada com um soneto do escritor Euclides da Cunha, Página Vazia: Quem volta da região assustadora / De onde eu venho, revendo inda na mente / Muitas cenas do drama comovente / Da Guerra despiedada e aterradora, / Certo não pode ter uma sonora / Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente, / Que possa figurar dignamente / Em vosso Álbum gentil, minha Senhora. / E quando, com fidalga gentileza, / Cedestes-me esta página, a nobreza / Da vossa alma iludiu-vos, não previstes / Que quem mais tarde nesta folha lesse / Perguntaria: "Que autor é esse / De uns versos tão mal feitos e tão tristes"?!!
Veja mais aqui.

 Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico, a partir do meio dia (horário de verão), com a reapresentação de toda programação da semana e a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .


domingo, novembro 09, 2014

ERPENBECK, VONNEGUT, VARDA, HUELVA & IANGAÍ

 


OH, LINDA IANGAÍ!... (Imagem: acervo ArtLAM) Aquela menina caeté sonhava e uma tarde abriu a janela do tempo e viu-se bela moça aos olhos gentis. Ruborizava, contida, mantendo-se nos afazeres domésticos. Ao pôr do sol sentava à beira do rio, contava as estrelas e quantas luas passadas: um dia serei uma delas, jurava. Ali mesmo desvelava os segredos dos poderes do mato e o que a vida reservava a cada ser vivente. No meio do seu devaneio era sempre surpreendida por galantes visitas, das quais escapulia com um mergulho profundo nas águas do rio. Ao ser acossada sempre se evadia aos timbungues e, pela correnteza, aprendeu a liberdade e de como se esquivar de gentilezas indesejáveis. Alcançava a margem do outro lado e seus olhos por todos os morros na imensidão da paisagem, inspirada pelos aromas da terra e do ar. Aos seus ouvidos os silvos das aves e os rugidos de todos os bichos, davam na boca o gosto de todas as raízes e frutos. Às suas mãos o calor de todos os afetos e afazeres. Tornou-se, assim, afeita às águas e, um dia, escorreu abaixo e alcançou o mar. Lá estava Camura, aquele que tocou seu coração e a fez a mulher mais bela do mundo. Dali se fizeram, ele e ela, carne e unha. Onde um, o outro lá estava. Iam e vinham. Ao soar o boré, ela não se esquivou de segui-lo para enfrentar os forasteiros invasores; também foi, teimou. E foram pelas matas de palmira, prontos para o embate. Não demorou muito e o combate das flechas, luta renhida, findaram vencidos. Foram capturados pelos inimigos. Cativos agora, viam-se entre gentes como nunca tinha visto, entre muita gente de pele pálida. Como prisioneiros foram conduzidos à presença do maioral. A punição seria severa, porém, ela não escapou aos olhos cobiçosos do donatário: Oh, linda! Os demais foram escoltados para serem executados. Ela, porém, encaminhada com outras serviçais para dependência exclusiva. E a cada investida dele, oh, linda!, ela recusava, como também rejeitou aos privilégios de escolhida, mantendo-se hostil. Não deu o pulso a torcer, nem se rendeu. Desprezou a comida servida, a hospedagem e ficou sem se alimentar por dias. Certa tarde, enclausurada pelas ameaças, aguçou o ouvido com o tumulto e logo um barulho ensurdecedor. À espreita, chegou à janela. Juntou as ideias e pulou do primeiro andar, saindo às carreiras. Ávida pela presença dos seus, a tragédia: encontrou-os todos mortos, inclusive Camura. Todos os seus foram sacrificados. Ela chorou e gritou insurreta. Levantou-se enfrentando o insulto e seus olhos flagravam o quão terrível era tudo aquilo: o sangue engrossou a saliva. O cheiro fatídico elevou sua coragem e seus braços e pernas mais enrijeceram por resistência. Aos seus ouvidos os ventos traziam maus presságios, seus lábios ao coração maldiziam dos intrépidos algozes. Ecoou no seu peito o toré, havia de ser na marra. Seu corpo era só revolta insubmissa e de si nada mais restava além da fuga. Assim o fez e foi caçada pelos quatro cantos do mundo. Só foi encontrada dias depois, o corpo envolvido por folhas de timbó: honrou sua estirpe, encolhida, libertando sua alma alada. Logo tornou-se uma estrela e toda boquinha da noite ela reaparece brilhante. Dá até para ouvir baixinho, lá longe, a cantiga do seu lamento atravessando nuvens e distâncias. E toda gente ao vê-la: Oh, linda! E assim ficou o nome do lugar: Olinda. (Releitura da lenda homônima da fundação da cidade de Olinda, Pernambuco). Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Seja qual for o seu brilhantismo, o seu pessimismo, os seus pensamentos sobre a existência, a resposta é sempre... Vida. Não é uma ideia dialética, é uma contradição vivida... Sim, qualquer coisa pode ser arte. Qualquer coisa poderia ser bela... E isso é transformar a vida em - você sabe, encontrar não só beleza - diversão, alegria. Encontrar diversão onde às vezes é apenas chato; encontrar diversão quando é um fardo. Você sempre pode fazer algo parecer diferente. O que é uma forma de dizer que estou, de certa forma, protegida de ser infeliz... A felicidade é uma fruta linda que tem gosto de crueldade... Pensamento da cineasta, roteirista, fotógrafa e artista belga Agnès Varda (1928-2019). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Meu desejo vence. Ninguém nos prometeu um amanhã, viva o presente...Pensamento da ativista espanhola Elena Huelva (2002-2023). Veja mais aqui.

 

O FIM DOS DIAS - [...] Seu corpo é uma cidade. Seu coração é um grande quadrado sombreado, seus dedos são pedestres, seus cabelos são a luz dos postes de luz, seus joelhos são duas fileiras de prédios. Ela tenta dar caminhos às pessoas. Ela tenta abrir suas bochechas e suas torres. Ela não sabia que as ruas doíam tanto, não que houvesse tantas ruas nela, para começar. Ela quer levar o corpo para passear, fora do corpo, mas não sabe onde está a chave. [...] quando ela está dormindo, ele gosta de sentar-se ao lado da cama dela e fazer mais uma tentativa de desvendar o que lhe pareceu o maior enigma de toda a história da humanidade: como processos, circunstâncias ou eventos de natureza geral – como como a guerra, a fome, ou mesmo o salário de um funcionário público que não aumenta juntamente com a inflação galopante – podem infiltrar-se numa face privada. Aqui eles tornam alguns cabelos grisalhos, ali devoram um par de lindas bochechas até que a pele fique esticada sobre mandíbulas singulares; a secessão da Hungria, por exemplo, poderia resultar num par de lábios mordidos no caso de uma mulher em particular, talvez até da sua própria esposa. Por outras palavras, há uma tradução constante entre o exterior e o interior, só que existe um vocabulário diferente para cada um de nós, o que sem dúvida explica porque nunca se percebeu que esta é uma língua em primeiro lugar – e de facto , o único idioma válido em todo o mundo e para todos os tempos. [...] O fim de um dia em que terminou uma vida ainda está longe de ser o fim dos dias. [...]. Trechos extraídos da obra The End of Days (New Directions Publishing Corporation, 2012), da escritora e diretora de ópera alemã Jenny Erpenbeck. Veja mais aqui.

 

UM POEMA DO CAIXA DE RAPÉ BAGOMBO - [...] Agora é a hora do doce adeus \ Ao que nunca poderia ser, \ Às promessas que nunca poderíamos cumprir, \ À magia que você e eu. \ Se tentássemos provar o nosso amor, \ o nosso amor estaria em perigo. \ Vamos colocar nosso amor além de qualquer dano. \ Adeus, doce e gentil estranho. [...]. Poema extraído da obra Bagombo Snuff Box (1999), do escritor alemão Kurt Vonnegut (1922-2007), que traz, também, dicas para escritores: Você vai fazer um completo estranho gastar horas com a sua história. Faça com que ele ou ela não sintam que foi uma perda de tempo. Dê ao leitor ao menos um personagem por quem ele possa torcer. Todo personagem deve querer alguma coisa, nem que seja apenas um copo d`água. Toda frase deve fazer ao menos uma de duas coisas: revelar mais sobre um personagem ou fazer a ação se desenrolar. Comece o mais próximo possível do final. Seja sádico. Não importa o quão doces e inocentes sejam os seus personagens principais, faça com que coisas terríveis aconteçam com eles – para que o leitor sinta do que eles são capazes. Escreva para agradar apenas uma pessoa. Não abra a janela e tente abraçar o mundo – os seus personagens vão pegar pneumonia. Dê aos seus leitores o máximo de informação possível, o mais rápido possível. Que se dane o suspense. Os leitores devem ter um entendimento tão completo (do que está acontecendo, onde e por quê) que eles poderiam terminar a história por si mesmos, mesmo que baratas comessem as últimas páginas. Como um romance é tão longo, lê-lo é como estar casado para sempre com alguém que ninguém conhece ou com quem ninguém se importa... todos ainda estariam cometendo o mesmo erro terrível: ser bons uns com os outros. Veja mais aqui e aqui.

 

OUTRAS SACADAS

 

DECEPÇÃO POLÍTICA – Passado alguns dias do embate eleitoral deste ano, no qual apesar dos reclamos e protestos da população contra a violência, a falta de educação e de saúde, enfim, dos problemas que grassam o Brasil, o resultado foi o mesmo de sempre com extremismos que chegaram às raias da mediocridade: reeleição de fichas sujas e outros facínoras da sociedade, os mesmos de sempre de volta, aqui, ali, acolá, em todo o nosso Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada. Afinal, parece mais que não se mesmo sabe mesmo o que se diz nem o que se faz. Teve até um ensaio de separatismo que não engrossou o coro porque se engasgou no equívoco de sempre e, no final, todo mundo colocou o rabinho entre as pernas porque a culpa é toda nossa mesmo (nossa que digo é de nós mesmos, o povo brasileiro). Nessa hora, acho apropriadas as palavras do educador e psicólogo francês Pierre Wiel (1924=2008): “Na política [...] predomina um reducionismo em torno de conceitos tecnológicos de produtividade e de consumismo, sem consideração pelo meio ambiente. O homem é na maioria das vezes considerado um cidadão cumpridor de leis e regulamentos. O sistema de valor reinante é a luta pelo poder; beleza, verdade e amor são considerados meras fantasias ou, no melhor dos casos, bons argumentos para conseguir prestigio e votos. Em todos os países, a decepção do público com a política aumenta constantemente. Resulta disto uma situação de descrença das populações em seus próprios dirigentes”. (Pierre Weil, O novo paradigma holístico: ondas à procura do mar). Veja mais aqui e aqui.

NUM DIA DE DOMINGO – Toda vez que ouço a música A minha alma (a paz que eu não quero), do Rappa na maravilhosa interpretação de Maria Rita, logo me vem à cabeça o pensamento do poeta, músico e dramaturgo bengali, Rabindranath Tagore (1861-1941), a respeito das raízes de nossa mania de redomas domiciliares: Na longínqua Grécia a civilização amadureceu entre as muralhas de duas cidades; nas civilizações modernas, a cultura também foi confinada entre muralhas. Esta defesa material deixou marca profunda na alma dos homens, introduzindo na nossa inteligência a formula dividir para reinar, isto é, o costume de cercar o terreno conquistado com muros protetores que o separe do resto do mundo”. Veja mais aqui, aqui e aqui.

OS EQUÍVOCOS DESDE ANTANHO – Quem se der ao trabalho e tiver o topete de analisar a História desde as mais remotas eras até os momentos atuais, poderá fazer a verificação de que a humanidade sempre optou pelo equívoco. Talvez essa opção equivocada se deva sempre por encolerizadas imposições, talvez por comodismo de alguns tantos adeptos que adoram a via da facilidade e reproduzem impositivamente sobre os demais, talvez porque talvez seja menos dispendioso seguir a manada do que trilhar o árduo caminho da verdade. Quando tal desencanto sonda minhas ideias, as palavras salvadoras do psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung (1875-1961), me levam para uma maior compreensão: “[...] O conceito que formamos a respeito do mundo é a imagem daquilo que chamamos mundo. E é por esta imagem que orientamos a adaptação de nós mesmos à realidade”. (Carl Gustav Jung, A dinâmica do inconsciente, Vozes/1984). A PSICOLOGIA ANALÍTICA – O psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Gustav Jung (1875-1981) desenvolveu a psicologia analítica em oposição à grande parte do trabalho de Freud. Por meio desse modelo ele desenvolveu uma teoria da personalidade resultado dos estudos das forças inconscientes enterradas bem abaixo da superfície da mente. Essa teoria definia como a fase mais importante do desenvolvimento da personalidade é a meia-idade, contrariando Freud que defendia ser a fase da infância a mais importante para tal. A psicologia analítica foi influencia pelos estudos do seu autor sobre mitologia e expedições para estudos dos processos cognitivos de indivíduos pré-alfabetizados. Com isso, reconhecia que o sexo desempenhava um papel pequeno na motivação humana, enfocando o crescimento interior em lugar do cultivo das relações sociais. Em vista disso se referia à libido como uma energia de vida generalizada da qual o sexo apenas fazia parte. Essa energia básica expressava-se no crescimento, na reprodução e em outras atividades, dependendo do que o indivíduo considerava crucial em determinado período. Ele acreditava na pessoal moldada não apenas pelos acontecimentos do passado, como também pelas próprias metas, esperanças e aspirações futuras. Por essa razão, para ele a personalidade não era totalmente determinada pelas experiências vividas os primeiros anos de vida, mas que podia ser modificada ao longo da vida. O INCONSCIENTE: PESSOAL E COLETIVO – O inconsciente pessoal continha as lembranças, impulsos, desejos, percepções indistintas e outras experiências da vida do individuo suprimidas ou esquecidas. As experiências do inconsciente pessoal são agrupadas em complexos que são padrões de emoções e de lembranças com temas comuns. O complexo consiste basicamente em uma personalidade menor na personalidade total. O inconsciente coletivo é formado pelas experiências herdadas das espécies humanas e de seus ancestrais animais. Nesse inconsciente estão armazenadas as experiências acumuladas das gerações anteriores, inclusive os ancestrais animais, sendo pois universais e evolutivas que formam a base da personalidade e que são inconscientes. OS ARQUÉTIPOS – Consistem em determinantes inatos da vida mental, que levam o individuo a comportar-se de modo semelhante aos ancestrais que enfrentaram situações similares. A experiência do arquétipo normalmente se concretiza na forma de emoções associadas aos acontecimentos importantes da vida, tais como o nascimento,  adolescência, o casamento e a morte, ou às reações diante de um perigo extremo. São, portanto, tendências herdadas contidas no inconsciente coletivo que levam o individuo a comportar-se de forma semelhante aos ancestrais que passaram por situações similares. Os arquétipos ocorrem com mais frequência são a persona, a anima e o animus, a sombra e o self. A persona seria a mascara que o individuo usa quando está em contato com outra pessoa, para representá-lo na forma como ele deseja parecer aos olhos da sociedade. A noção de persona é semelhante ao conceito sociológico do desempenho de papel, em que a pessoa atua da forma como crê que as outras pessoas esperam que ela atue nas diferentes situações. Os arquétipos da anima e do animus refletem a noção de que cada individuo exibe algumas características do sexo oposto. A anima refere-se às características femininas presentes no homem, e o animus denota as características masculinas observadas na mulher. A sombra é o self mais sombrio, consite na parte animalesca da personalidade. É herdada das formas inferiores de vida, contendo as atividades e os desejos imorais, violentos e inaceitáveis, comportamentos que não nos permitiríamos ter. por isso, a sombra é a parte mais primitiva da natureza do individuo. Ela pode ser positiva, quando responsável pela espontaneidade, criatividade, insight e pela emoção profunda, características necessárias para o total desenvolvimento humano. O self é o principal arquétipo integrando e equilibrando todos os aspectos do inconsciente e proporcionando unidade e estabilidade à personalidade. É um impulso de autorrealização, para a harmonização, a completude e o total desenvolvimento das habilidades individuais. Para ele a autorreliazação é atingida na meia idade, entre os 30 e 40 anos de idade, sendo, portanto, essa a fase mais importante para o desenvolvimento da personalidade. A INTROVERSÃO E A EXTROVERSÃO – Para Jung o individuo extrovertido libera energia de vida que é a libido dentro dele, direcionando-a aos acontecimentos e às pessoas do mundo exterior. O introvertido direciona a libido para o seu interior. Esse tipo de pessoa é pensativo, introspectivo e resistente às influências externas. O introvertido é mais inseguro do que o extrovertido ao lidar com pessoas e situações, porém nenhum individuo é completamente extrovertido ou introvertido. Dessa forma ele distingue as diferenças de personalidade pela expressão além das atitudes introvertidas ou extrovertidas, como também por meio das quatro funções: o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição. Essas funções consistem em formas de orientação seguidas pelo individuo para se comportar tanto diante do universo exterior objetivo, como diante do universo interior subjetivo. O pensamento é o processo conceitual que proporciona o significado e a compreensão. O sentimento é o processo subjetivo de ponderação e avaliação. A sensação é a percepção consciente dos objetos físicos. E a intuição envolve a percepção de maneira inconsciente. O pensamento e o sentimento são modos racionais de reação que envolvem processos cognitivos e de raciocínio e julgamento. A sensação e a intuição são consideradas irracionais, por não envolvem o uso da razão. Dentro dessas funções, apenas uma função é dominante porque é a combinação dessas funções dominantes com a atitude dominante de extroversão e introversão que produzem os oito tipos psicológicos. O TESTE DE ASSOCIAÇÃO DE PALAVRAS – Foi desenvolvido por Jung ao usar uma lista de 100 palavras como estimulo. Ele acreditava que essas palavras eram capazes de provocar emoções, medindo o tempo que levava para o paciente responder a cada palavra, bem como às reações fisiológicas da pessoa, para determinar a intensidade emocional das palavras de estimulo. Esse teste influenciou o teste de personalidade indicador de tipo Myers-Briggs, bem como a fórmula introversão-extroversão influenciou o teste de inventário de personalidade maudsley, de Hans Eysenc. A PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE – A obra Psicologia do inconsciente, de Carl Gustav Jung, traduzido por Maria Luiza Appy, trata de temas que abordam a psicanálise, a teoria do Eros, a vontade de poder, os problemas dos tipos de atitude, o inconsciente pessoal e o inconsciente suprapessoal ou coletivo, o método sintético ou construtivo, os arquétipos do inconsciente coletivo, a interpretação do inconsciente, as noções gerais da terapia, os novos caminhos da psicologia, os primórdios da psicanálise e a teoria sexual, entre outros temas. Veja mais aqui, aqui e aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
ATKINSON, Richard; HILGARD, Ernest; ATKINSON, Rita; BEM, Daryl; HOEKSENA, Susan. Introdução à Psicologia. São Paulo: Cengage, 2011.
DAVIDOFF, Linda. Introdução à Psicologia. São Paulo: Pearson Makron Books, 2001.
FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Teorias da personalidade. São Paulo: Harbra, 2002.
GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.
JUNG, Carl. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1980.
MORRIS, Charles; MAISTO, Alberto. Introdução à psicologia. São Paulo: Pretence Hall, 2004.
MYERS, David. Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
SCHULTZ, Duane; SCHULTZ, Sydney. Historia da psicologia moderna.São Paulo: Cengage Learning, 2012.


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