sexta-feira, novembro 27, 2020

MANUEL SCORZA, RADUAN NASSAR, ANNA KUTERA, EWA PARTUM, FANNY KEMBLE, FLÁVIO GADÊLHA & ANITA LEOCÁDIA PRESTES

 

TRÍPTICO DQC: JANELARIRÁ – Ao som da Freedom Qashoush Symphony, do pianista e compositor sírio-estadunidense Malek Jandali – Sou raiz arrancada de mato varrido e solto aos ventos das mil e uma noites de sonhos à janela. Voos atravessando encruzilhadas de espelhos e pisos falsos, redomas e armadilhas às quedas de errar e o erro constante, as escolhas mais difíceis e nenhum atalho, nenhum desconto. Se há um paradoxo, persigo. Até Kurt Gödel nesta hora: Todo erro se deve a fatores externos (como a emoção e a educação); a razão nunca erra. Logo agora e o que menos precisava era um paradoxo a mais e a incompletude e o que há de inconsistente. Sou peixe e escapei de iscas e redes de lagoas e rios, só tenho o corpo, a força do braço e amor do coração. Encontrei Duília de Melo no meio da noite e era uma estrela iridescente sem poupar minha desolação: É preciso não desistir e continuar um dia atrás do outro que uma hora acontece, a estabilidade chega e cada vez mais a gente vai adicionando conhecimento sobre o universo. Sua voz é um afago na minha resiliência de pés suspenso pelos descampados e ribanceiras, como se fosse P. D. James a me dizer: Não podemos vivenciar nada além do momento presente, viver em nenhum outro segundo de tempo, e entender isso é o mais próximo que podemos chegar da vida eterna. Não simulo os instantes, perdoei tudo e todos, nenhum ressentimento, nenhuma conta nem pendência. Recito o poema Desterrado de Manuel Scorza e a vida larilará.

 


FALANDO SOZINHO – Imagem: arte da videoartista, pintora e artista multimídia performática polonesa Anna Kutera, ao som da Tron Suite (1982), da compositora e musicista estadunidense Wendy Carlos & London Philharmonic Orchestra. - Só tenho paredes, meu abrigo. Da janela, a lonjura de tudo. Em mim dias e noites atravessam telhados e aerovias estelares, e me levo a percorrer o horizonte circundante para além dos limites e me pego como se o que fui de tão distante mundo afora, era lugar algum além daqui onde me encontro. Ouço vozes e alertam e anunciam o que não compreendo, estou atento e são tantas e se confundem com o voo das almas e aves noturnas. Distingo Horácio revelador: Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo. A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas. E uma vez lançada, a palavra voa irrevogável. E o silêncio impera mais uma vez e me perco na escuridão, como se Raduan Nassar me espreitasse: Há mais força no perdão do que na ofensa, há mais força no reparo do que no erro. O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade de um julgamento mais áspero, eu estou louco! Sim, acho que estou mesmo enlouquecendo e não tenho mais que um cubículo retangular para sobreviver e que me priva a oportunidade ser-me para além do outro e algo mais.

 


POR UM LUGAR ESPECIAL – Imagem: arte da poeta, cineasta, artista conceitual performática polonesa Ewa Partum, ao som da Cantilène pour violon (1990), da compositora suíça Geneviève Calame (1946-1993), na interpretação da violinista suíça Désirée Pousaz. - Desejo o seu desejo e ela está distante, por enquanto. Se ela chega e quando o faz, é festa noitedia. A espera é dolorosa. Subitamente, a porta se abre e ela invade luminescente com ar de Anita Leocádia Prestes: Mobilizar o povo é chave para transformar sociedade. Todas e todos se organizem pelas suas reivindicações. É na organização popular que a gente faz as coisas mudarem rumo a uma sociedade melhor. Está inquieta e me beija apressadamente como quem tem algo de muito importante para fazer. E eu só queria um beijo que fosse para matar a saudade saneando o possível instante de qualquer diferente paisagem, onírica e instantânea, e desse descanso ao meu tormento. Ela caminha pelos quatro cantos como se quisesse dizer algo inexprimível e gesticula buscando as palavras num esforço gigantesco. Logo se transforma na atriz e escritora britânica Fanny Kemble (1809-1893) e passa o texto: Eu quero fazer tudo no mundo que pode ser feito. Simplicidade é um grande elemento de boa criação. Muitas causas tendem a tornar bons senhores e amantes tão raros quanto bons servos. As grandes e rápidas fortunas pelas quais pessoas vulgares e ignorantes se tornam possuidoras de casas esplêndidas, esplendidamente mobiliadas, não lhes dá, é claro, os sentimentos e maneiras de gente gentil, ou de qualquer forma realmente os eleva acima dos criados que empregam, que estão bem cientes desse fato, e que a posse de riqueza é literalmente a única superioridade que seus empregadores têm sobre eles. Sua inquietação me comove e me envolvo na sua trama e somos dois aos motins e barricadas tentando nos salvar de qualquer jeito. Lá fora, tudo horror e ruína. Não temos tempo para enfrentar tantas adversidades. Precisamos viver o que nos resta e a nós a vida a passos largos pela entrega de se amar. Não titubiei, roubei seus lábios e os fiz com ósculos de música duradoura no seu corpo, meu cenário e moradia, tudo nela, o amor é o que vale. Até mais ver.

 

A ARTE DE FLÁVIO GADÊLHA

O retrato, para mim, é uma maneira de entender as pessoas, penetrar a alma, através do olhar, de gestos e posturas. Tem um sentimento que eu quero passar. Assistir às pessoas vendo a pintura, ver o que elas querem passar. Tudo isso eleva a inspiração que eu procuro. Eu gosto de pintar a família, os amigos e também pessoas desconhecidas, que têm características fortes e me inspiram. Quando pinto coisas despercebidas, elas se tornam muito importantes. Queria trazer à luz o descaso, o preconceito e ganância das grandes potências que está levando ao extermínio os povos indígenas.

A arte do pintor, escultor e gravurista Flávio Gadêlha, membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste, formado em artes plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), restaurador do Museu do Estado de Pernambuco e já participou de exposições internacionais, a exemplo do Porto, Barcelona, Buenos Aires, Atlanta e Georgia. Veja mais aqui e aqui.


 

 


MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

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