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segunda-feira, junho 23, 2025

KALIANE BRADLEY, CAROLINA SAMPAOLI, SALLY JOHNSTON & ORIANA DUARTE

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Low End (Live Big Ears Festival 2022), Tornasol (2021), Campos Flotantes (2024), Sinfonía Isleña (2023) e The Place We Are (2014), da performática compositora e muti-instrumentista porto riquenha Angélica Negrón, que integra a banda Balún e é artista residente no National Sawdust trabalhando na ópera de dublagem labial, Chimera, atua como professora no programa Very Young Composers da Filarmônica de Nova York e do Lincoln Center Education.

 

Uma noite longa, solstício de inverno... - Que bom! Salve! De antemão: meu beijabração por recepção. Achegue-se! Pra começo de conversa: se chegou aqui é porque teve alguma indicação. Não acredito em acasos, digo logo. Do contrário, assim mesmo: venha! Sei que a gente nem pode pular o muro alto do vizinho, um cachorro daqueles bem brabo nos espera, né? Um vexame! Muito menos atravessar a porta fechada de quem mora ao lado. Uma barra. Sou da vida conversável do Agostinho: “Magia incandescente do verbo”. E como Descartes: converso com livros. Mas vem cá (só puxando assunto pro maior palratório ou dedinho de prosa que seja), para abrideira pode vir com aranzéis de taramelas, de não parar o badalo, nem fechar a matraca contando hestórias de assombrações ou de petas galrões com a maior prolixidade, viu? Proponho pro bate-papo: como as coisas funcionam ao seu modo de ver? Pode abrir suas experiências, se quiser, estreitando o compadrio com potocas loquazes. Ou levar um lero facundo sobre a papagaiada de gaiatos linguarudos, a lorotagem dos caboetas ou dos que arremedam como os metidos a crisóstomos doctiloquentes, dos chatos de galocha com seus carões homiléticos – cada qual sua certeza inabalável, irredutível! Valho-me daquela do Quinus Horacius: tô só cutucando, sabe? Talvez melhor um colóquio sobre umas e outras, perdão e esgares, o lema do desatino entre os dentes e o despudor de epístolas e pistolas, que venham nas fronteiras da convivência; ou uma confabulação sobre hematomas herdados nos desmentidos fraudulentos, das consequências invertidas no desamparo das subnotificações e estatísticas manipuladas, ou mesmo um diálogo sobre fobias ou síndrome do pânico, psicoses, atrofias, de tudo fora da órbita, coisas assim, fazer o quê? Ou ficar com o fôlego suspenso acaso os detalhes por minúcias nos levem a entender que desde que o mundo é o que é, entre o verossímil e o sofismável, as ressalvas e os remendos, as gambiarras, e não perder o fio da meada, apesar dos pesares, conquanto, se puder relaxe, compareça e mande ver nas patranhas, pilhérias, vanilóquios, vale tudo! Com tanto que se sinta confortável. Querendo pode até se encolher, se estirar, ficar de bruços ou se espreguiçar num pufe ou numa poltrona, deitar na cama, plantar bananeira, ou ficar em pé secando os cambitos ou escorando-se na parede, atrepando-se num muro, cê que sabe! Onde estiver: no ônibus, montando um jegue, no trono do banheiro, de cabelo em pé por soltar uma flatulência inesperada, o crível na escusa e o mundo se desfazendo na incerteza. Taí. Há quem escolha episódios mais notáveis; outros, os mais pungentes, patéticos: ninguém está feliz com sua própria sorte, né? E o tempo volta de vez em quando só pra aumentar a desordem e a gente na indomável obstinação, a solidão insular, as façanhas inglórias, as coisas sempre nesse pé e a gente querendo fazer o melhor que puder. E ter de encarar a espessa poeira da recorrente ameaça de guerra há décadas e a qualquer momento: teibei! Aí é só os que viraram adubo, quem levou a melhor, penitências pro perecível: de mão em mão a última chance. Vírgulas e pontos, pelo menos. Se a barra tiver pesada a gente pode mudar de tema e você contar dos seus tédios, fadigas, angústias, lembranças flutuantes que se espatifaram ao espelho, a fuga dos solilóquios, os monólogos do umbigo, como transpôs seus precipícios, feridas reabertas, túmulos revolvidos, apaziguados, pelo menos. Olhe: não faça careta, vamos comer uma cocada que é bom! Aceita? As hestórias já contam por si, quem sabe, há sempre aquelas lacerações oriundas da pedra sobre o tutano das memórias apagadas de tudo, a felicidade ínfima além das galáxias. Do contrário, pode abordar, por exemplo, o que espera da vida, o descontrole e a impulsividade. Se puder nem tenha papas na língua e ponha a mão no fogo, defenda seu ponto de vista com o curso regular dos acontecimentos duplicados. Sei, segredos ao pé do ouvido, confiar em quem? Assim solte pinoias como quem bebeu água de chocalho, falatório pelos cotovelos, mímicas, onomatopeias, êpa! Ditos impublicáveis, lorotas verbosas, porque desse jeito a gente pode abusar de adágios tagarelas, clichês de boquirrotos e seja lá o que quem quer que seja quiser!!! Dê as caras, a gente pode se empolgar oxigenando no passeio, curtindo uma performance musical da Angélica Negrón ou, se for ao gosto ocasional, a Facilita do Ramalho no balanço do Gonzagão: Tataritaritatá!!!!... Pode balançar o esqueleto enquanto ouvimos sobre as viagens de Chimamanda Ngozi, ou do que procura Barbara Rachko, ou as atitudes de Catherine Millet, uns poemas da Carolina Sampaoli, da leitura que fiz do Mistério do tempo da Kaliane Bradley, ou dos estudos sobre a simbiossexualidade de Sally Johnston, apreciar a arte de Oriana Duarte, que tal? Ou mesmo da minha releitura desta semana: Se um viajante uma noite de inverno... Doidice? Ora! Quem goza de saúde mental nestes tempos, hem? Acertemos: doravante, duma coisa tenha certeza: aqui não tem Amanaci chamando chuva, nem relógio pra determinar calendário. A gente só tem o presente para se livrar das tentações do consumo, impaciente com uma fila que não anda, da depressão com o que passou e da ansiedade pelo que virá. Tudo passa. Aliás, já passou. Vale mesmo a interlocução, afinal uma boa conversa segura o mundo! Acho. E saiba: sua chegada é a maior festa, um prêmio com um rosário de alvíssaras, pelo menos pra mim. Salve! Volte sempre! Até mais ver.

 

Chimamanda Ngozi Adichie: Acho que você viaja para procurar e volta para casa para se encontrar lá... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Barbara Rachko: As coisas com as quais você se preocupava se foram: algumas são esquecidas, outras são menos urgentes...Veja mais aqui.

Catherine Millet: As atitudes da sociedade em relação ao sexo são moldadas pelo medo e pela ignorância... A liberdade sexual é um direito humano fundamental... A sexualidade é fluida e está em constante evolução... O corpo é um campo de batalha, onde as expectativas sociais entram em conflito com os desejos pessoais... A satisfação sexual é uma necessidade humana básica... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A MENINA NA JANELA - Eu observava sua silhueta atrás da cortina, borrada, ela se contorcia na redoma de vidro da noite. \ Ela cantava, embalando minhas dificuldades. A espuma cobria o esplendor de sua infância. Ela se encolheu diante do meu olhar profundo, suas maçãs do rosto rosadas, sua pele imaculada. Ela continuou cantando como se nada tivesse acontecido. Ela cantou seus versos para mim, me convidando para dançar com ela na água. \ Eu a segui desconfiado; seus olhos verdes poderiam ter sangrado sob aquela intimidação, mas ela se calou. Finalmente, um fluido incolor, a dança continuou embalando nossas línguas, ofegantes, movimentos descendentes, ascendentes, suspiramos em uníssono. \ Meus olhos não conseguiam captar uma paisagem tão deliciosa, a nudez completa de seu corpo escultural, o rugido de seu sexo, sua agitação digna, mas subestimada. \ Nós nos rendemos ao encontro, lambendo os contornos dos corpos um do outro. \ Ela nunca fechou suas luas brilhantes e encantadoras; ela teria ficado tonta neste caso. Ela me observou obscenamente, recomeçando de acordo com todos os seus desejos insensatos, dívidas ainda não quitadas.

OITAVO DIA - Vi, cheirei, toquei, senti a morte perto, muito perto. \ Seu olhar vazio de significado, seu perfume neutro, sua silhueta vazia. \ Elusiva, furtiva, como o suco diáfano que migra enquanto sua pele permanece. \ É o nada imutável, o silêncio absoluto, o esquecimento... \ Tudo o que é descrito é absorvido, toda forma perece, nem mesmo um sussurro de calma... Tudo o que posso nomear é inominável. \ Nada é nada... Ruído, tontura são irrelevantes na falta de memória... \ Desde que ela me beijou, temo os vivos... \ Suas propostas de flerte... \ Seu olhar que me faz evocar a espera das ondas se fundindo com o horizonte cinzento. \ O nascimento da onda perfeita sendo parte da imensidão. \ O surgimento de um ser de aço, pura magnificência, corrompendo meu corpo enquanto me cobre de espuma. \ Equilibro-me em sua força que me arrasta, em seu rugido, na música celestial que a solidão do oceano me dá... \ Renascido entre nós, cessando de reivindicar esta masturbação, \ entrego-me contigo para desfrutar desta vida terrena. \ Não escrevo mais... Vamos aproveitar? \ Dê-me a sua mão, pegue a minha, vamos rabiscar... Estou de volta, aqui.

Poemas da escritora e pintora argentina Carolina Sampaoli (María Carolina López Sampaoli).

 

O MISTÉRIO DO TEMPO – [...] Se você se apaixonar, será uma pessoa que estará apaixonada pelo resto da vida [...] O perdão, que te leva de volta à pessoa que você era e te permite redefini-la. A esperança, que existe em um futuro em que você é novo. O perdão e a esperança são milagres. Eles te permitem mudar de vida. Eles são viagem no tempo [...] Não quero parecer pessimista. Só o faço porque vejo o quão erradas foram minhas escolhas. Não faça assim. Não entre acreditando que você é um nó em um grande empreendimento, que seu passado e seu trauma definirão seu futuro, que os indivíduos não importam. A coisa mais radical que já fiz foi amá-lo, e eu nem fui a primeira pessoa nesta história a fazer isso. Mas você pode acertar, se tentar. Você terá esperança e foi perdoado. Perdão, que te leva de volta à pessoa que você era e te permite redefini-la. Esperança, que existe em um futuro no qual você é novo. Perdão e esperança são milagres. Eles permitem que você mude sua vida. Eles são viagem no tempo. [...] A vida é uma série de portas batendo. Tomamos decisões irrevogáveis todos os dias. Um atraso de doze segundos, um deslize, e de repente sua vida toma um novo rumo. [...] Você não pode tornar a vida à prova de traumas, e não pode tornar seus relacionamentos à prova de mágoas. Você tem que aceitar que causará danos a si mesmo e aos outros. Mas você também pode errar feio e não aprender nada com isso, exceto que estragou tudo. O mesmo acontece com a opressão. Você não ganha nenhum conhecimento especial sendo marginalizado. Mas você ganha algo ao sair da sua mágoa e examinar os andaimes da sua opressão. [...] O perdão e a esperança são milagres. Eles permitem que você mude de vida. São viagens no tempo. [...] Tudo o que já aconteceu poderia ter sido evitado, e nada disso aconteceu. A única coisa que você pode consertar é o futuro. [...]. Trechos extraídos da obra The Ministry of Time (Avid Reader Press/Simon & Schuster, 2024), da escritora e editora inglesa Kaliane Bradley (Kaliane Mong Huxham Bradley).

 

SIMBIOSSEXUALIDADE – [...] os participantes deste estudo descreveu um desejo por uma dinâmica, algo maior do que a soma das partes de um casal. [...] a simbiosexualidade oferecerá apoio a esta minoria sexual tanto nas comunidades especificamente formadas para apoiar pessoas - pessoas com orientações sexuais e de relacionamento marginalizadas (como a comunidade poliamorosa) e na comunidade tradicional configurações da comunidade [...] Concepções e suposições dominantes sobre sexualidade e desejo, incluindo mononormatividade, políticas de respeitabilidade em comunidades poliamorosas e concepções atuais de desejo no discurso ocidental, contribuem para a invisibilidade simbiossexual. Essa invisibilidade prejudica diversos grupos de minorias sexuais, especialmente mulheres e minorias de gênero dentro desses grupos. [...] A possibilidade de um poder erótico intensificado advindo da consciência e da abertura a múltiplas fontes de prazer, e até mesmo a múltiplas pessoas, ao mesmo tempo, não é nova no discurso sobre sexualidade [...] a simbiossexualidade permanece não reconhecida nas arenas científicas. Adotar o conceito de simbiossexualidade pode facilitar a expansão de conceituações teóricas sobre desejo e orientação sexual no campo da sexualidade humana. [...] Talvez, para alguns indivíduos, combinar desejos que se complementam ou atender a múltiplos desejos simultaneamente aumente a energia erótica e o prazer. Além disso, assim como as narrativas do Oriente Médio e dos povos indígenas sobre sexualidade e desejo oferecem diferentes concepções de desejo, talvez o reconhecimento do desejo simbiossexual possa facilitar as percepções individuais e acadêmicas de diferentes formas ou qualidades de desejo e atração. [...] Espero que o reconhecimento da simbiosexualidade possa oferecer validação e apoio a essa minoria sexual. [...] As premissas e concepções culturais dominantes sobre desejo e sexualidade funcionam para ignorar, obscurecer e/ou desvalorizar a simbiosexualidade. A mononormatividade (especificamente, a suposição da "correção" da dinâmica sexual e de relacionamento entre duas pessoas) contribui amplamente para o desvalor e o descrédito da simbiosexualidade. [...] Oferecer uma nova linguagem pode promover a autocompreensão e a autorrealização, o que, para alguns, pode incluir a adoção do termo simbiossexual ou a recuperação da identidade de unicórnio como descritiva de uma pessoa empoderada que experimenta desejo simbiossexual e prazer sexual com casais. [...]. Trechos extraídos do estudo Symbiosexual Attraction: An Integrated Mixed-Methods Study (PubMed/National Library of Medicine, 2024), da professora antropóloga e socióloga estadunidense, Sally W. Johnston, do Programa de Estudos sobre Mulheres, Gênero e Sexualidade, da Faculdade de Artes e Ciências daUniversidade de Seattle, que ainda acrescenta: Precisamos repensar a natureza da atração e do desejo humanos como experiências apenas individuais. Também precisamos desafiar o estigma e a discriminação contra essa atração dentro da comunidade poliamorosa. Espero que este trabalho reduza o estigma em comunidades monogâmicas e não monogâmicas e expanda as conceituações de desejo nos estudos sobre sexualidade. Explica a professora que o conceito de simbiosexualidade surgiu de observações em discursos culturais e acadêmicos de que algumas pessoas são atraídas pelos relacionamentos entre outras pessoas, em vez de pelos próprios indivíduos. Apesar disso, o fenômeno permaneceu amplamente inexplorado, com a maioria das discussões sobre atração humana se concentrando na dinâmica individual. Indivíduos que sentem essa atração são às vezes chamados de "unicórnios" — um termo que descreve alguém disposto a se envolver em relacionamentos românticos ou sexuais com casais já estabelecidos.

 

A ARTE DE ORIANA DUARTE

[...] O trabalho com a escrita de si me levou a perder o preconceito e, mais do que preconceito, eu era muito reativa com o dizer-se, o lançar-se à própria história e às próprias aflições e instigações. Mas, a gente está viva, tá entendendo? Então, vamos olhar um pouco para essa vida, e o que essa vida nos proporciona. Então, eu perdi a vergonha de assumir que a vida é a mola dessas proposições todas. [...] Nesses anos que antecedem minha tensão com o corpo, vivi um luto muito dramático, que foi a perda da minha mãe, muito jovem, vivi o acompanhar do corpo que vai perdendo a vida, numa situação realmente limite, e é algo que é muito chocante. De fato, eu precisava ativar o corpo para poder viver a morte. Por exemplo, a Selvagem Sabedoria mesmo, a experiência de você estar lidando com uma cobra, viver trancada uma semana com a cobra só sentindo medo, sem conseguir fazer nada com essa cobra a não ser sentir medo. E tem uma imagem o tempo inteiro na sua cabeça, que é uma imagem que suscitava uma imagem da arte, um palimpsesto da arte. [...]. Como se só a arte pudesse estar ali convivendo com o medo [...] Uma fala que se posiciona no sistema, seja contra, seja a favor, seja escapando completamente... Eu estou no escape, estou cortando, eu estou transversalizando esse sistema. Que é o que mais incomoda, que é o que eu mais gosto também, que é de incomodar, que é uma atitude política. [...]. 
Trechos da entrevista concedida pela artista e professora Oriana Duarte (Oriana Maria Duarte de Araújo), que realiza suas pesquisas visuais e teóricas com foco principal voltado para o corpo humano, em especial o corpo feminino, investigando seu potencial simbólico e representativo dos pontos de vista de gênero e de modos de vida. A entrevista foi concedida para o estudo O discurso político do autorretrato em Oriana Duarte (Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, 2020), de Ana Carolina Magalhães Salvi. A artista é autora das obras Dos heteróclitos como categoria de ação (Bienal de São Paulo, 2002), Usei meu corpo: das vísceras fiz sopa, dos membros fiz pontes (Congresso ABRASSE, 2008), Salto no Escuro: curadoria de arte como experimento (Funcultura, 2011), Plus Ultra: o corpo no limite da comunicação (PUC-SP, 2012), Nós, errantes: as travessias plus ultra de uma Artista Atleta (EdUFPE, 2913) e O entre arte e filosofia: um pensar sobre estilo de existência e vida de artista (Ecossistemas Artisticos – ANPAP, 2014). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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segunda-feira, maio 09, 2022

CRISTINA PERI ROSSI, CARRASCOZA, RONALDO CORREIA DE BRITO & LUZIA DE LAGOA SANTA

 

 

TRÍPTICO DQP: O projeto do farol... – Imagem: AcervoLAM, ao som do álbum The lighthouse project (Iceland, 2013), do quarteto islandês Amiina. - Segue a vida e quase enclausurado na minha própria fantasia, não há como ser de outro jeito: viver tem se tornado muito difícil. Quantas vezes o sangue quente da memória, qual Gulliver pelas minhas mil e uma noites, como se acusado pelo que não cometera e as vozes familiares repreendendo demoradamente nada mais que um Quixote metido a Perec no Oulipo. Na verdade era ânsia malograda do mágico de Rubião: inventava de dia os sonhos da noite, nada adianta. Quem dera outra fosse a paisagem e nada parecesse com tochas acesas e candeeiros lampejantes sobre andrajos, enquanto sigo atado às comoções e engasgado por ser o personagem de mim mesmo, se não sei mais onde nasci nem onde vou morrer, acho que enganchado num mata-burro intransponível. A quase salvação se dera quando a professora Renata Sant’Anna de Godoy surpreendentemente trouxe a lembrança da minha predileção Kandisnki: A cor é o meio para exercer uma influência direta sobre a alma. A cor é a tecla, o olho é o martelo moderador, a alma é um piano com muitas cordas e o artista representa a mão que, mediante uma tela determinada, faz vibrar a alma humana... Foi daí que entendi: das coisas nascem coisas... Só novas formas de manipulação, como? Se a mão sem jeito, a provocação da tela e um milhão de ideias na cabeça sem saber nem por onde começar. Ah, nem batia os olhos, pois se trata de coisas assim e nunca se sabe, muito menos eu.

 


Misse Stultitiam Consiliis Brevem: Dulce est desipere in loco - Imagem do artista visual italiano Nicolò Canova. - A frase de Horácio martelava no juízo, como se eu quebrasse a caixa entre a Eudaimonia aristotélica e o Epistemicídio do Boaventura, enquanto repetia insistentemente o verbete da paz do Dicionário do diabo de Ambrose Bierce que já quase sabia de cor: é só o período de conversa fiada entre duas guerras. Do outro lado a Harper Lee ecoava O sol é para todos, porque Luzia de Lagoa Santa da Lapa Vermelha queimava outra vez ao meu lado. Espanto maior foi com a poeta uruguaia Cristina Peri Rossi: Quando perdemos a capacidade de rir de nós mesmos, estamos à beira de uma profunda depressão. Eu não queria parar de falar de amor para falar de sobremesas. Eu só queria parar de falar sobre amor para fazer isso. Pois é. Se bem que depois do sim e do não depôs Carrascoza: o mundo é indiferente à nossa sensibilidade. Na verdade, se vou ou se fico, não sei lidar com nada disso, apenas vivo. Um pouco de loucura, talvez, faça mesmo bem à saúde.

 


Entre sonhos, pesadelos e devires... –Imagem: AcervoLAM. – Não demorou muito e era Joel que chegava. Sabia disso, ouvia de longe suas gargalhadas gratuitas. Bastava olhar pra ele e dele as gaitadas eclodiam assim do nada. O pior foi que ele tentava explicar sobre a diferença das folhas de jaca mole e dura, parecia palavra de doutor sobre o assunto, e eu patavina de entender. No alto da sua soberba, uma distinta senhora corrigiu: É ao contrário, meu senhor: esta é de mole, esta outra é de dura. Ué? E mudou, foi? E caiu nas casquinadas, emendando outra disso e daquilo, resenha sem fim. Para mim era como se fosse coisas saídas daquele As noites e os dias (Bagaço, 1996), do Ronaldo Correia de Brito, tudinho ali se enfileirando feita cenas de novela: a doidice de Maria Caboré pilando arroz no meio dos sonhos com o Príncipe Odilon e Rei-de-Congo, atrapalhada por mãos atrevidas se adiantando entre seus seios e coxas; e a galinha que fez Otacílio ver o sol, e de Dolorida que escorraçou o diabo, e o morto que voltou para salvar Inácia da vingança, e aquela pervertida sensual que não conseguiu escapulir do Rabo-de-burro; e outras se sucediam como se entre uma e outra: ... a casa de três vãos, grande como a alma de um homem que vivera muito. Ninguém sabia quem existira primeiro, se o velho ou a casa. Ele sempre fora visto ali, os cabelos perdendo o preto, como o dia, a luz... Essa a vida daqui, dos que penam e sorriem, dos que se fazem de manha nas pitangas para engalobar os bestas, e todos saúdam e se ofendem mutuamente, dia sim e outro mais. Até mais ver.

 


[...] o educador deve ter vindo de uma formação que lhe possibilite um eficiente aporte teórico e epistemológico, deve ter imaginação e ser criativo e ter capacidade de liderar e enxergar a realidade concreta a ponto de poder influenciá-la. Sendo a Educação Ambiental uma educação para a cidadania, os educadores precisam ultrapassar os limites disciplinares da área em que atuam, interligando o social às suas práticas escolares, fazendo emergir discussões sobre o lugar que o homem ocupa no mundo, refletindo criticamente sobre sua situacionalidade. [...].

Trecho extraído da dissertação de mestrado Educação Ambiental em uma escola agrícola de Campo Grande-MS: que saberes, que práticas e que resultados (UCDB, 2007), da professora e pesquisadora Kely Adriane Brandão Pereira. Veja mais Educação Ambiental & Leitura aqui, aqui e aqui.

 


sexta-feira, novembro 27, 2020

MANUEL SCORZA, RADUAN NASSAR, ANNA KUTERA, EWA PARTUM, FANNY KEMBLE, FLÁVIO GADÊLHA & ANITA LEOCÁDIA PRESTES

 

TRÍPTICO DQC: JANELARIRÁ – Ao som da Freedom Qashoush Symphony, do pianista e compositor sírio-estadunidense Malek Jandali – Sou raiz arrancada de mato varrido e solto aos ventos das mil e uma noites de sonhos à janela. Voos atravessando encruzilhadas de espelhos e pisos falsos, redomas e armadilhas às quedas de errar e o erro constante, as escolhas mais difíceis e nenhum atalho, nenhum desconto. Se há um paradoxo, persigo. Até Kurt Gödel nesta hora: Todo erro se deve a fatores externos (como a emoção e a educação); a razão nunca erra. Logo agora e o que menos precisava era um paradoxo a mais e a incompletude e o que há de inconsistente. Sou peixe e escapei de iscas e redes de lagoas e rios, só tenho o corpo, a força do braço e amor do coração. Encontrei Duília de Melo no meio da noite e era uma estrela iridescente sem poupar minha desolação: É preciso não desistir e continuar um dia atrás do outro que uma hora acontece, a estabilidade chega e cada vez mais a gente vai adicionando conhecimento sobre o universo. Sua voz é um afago na minha resiliência de pés suspenso pelos descampados e ribanceiras, como se fosse P. D. James a me dizer: Não podemos vivenciar nada além do momento presente, viver em nenhum outro segundo de tempo, e entender isso é o mais próximo que podemos chegar da vida eterna. Não simulo os instantes, perdoei tudo e todos, nenhum ressentimento, nenhuma conta nem pendência. Recito o poema Desterrado de Manuel Scorza e a vida larilará.

 


FALANDO SOZINHO – Imagem: arte da videoartista, pintora e artista multimídia performática polonesa Anna Kutera, ao som da Tron Suite (1982), da compositora e musicista estadunidense Wendy Carlos & London Philharmonic Orchestra. - Só tenho paredes, meu abrigo. Da janela, a lonjura de tudo. Em mim dias e noites atravessam telhados e aerovias estelares, e me levo a percorrer o horizonte circundante para além dos limites e me pego como se o que fui de tão distante mundo afora, era lugar algum além daqui onde me encontro. Ouço vozes e alertam e anunciam o que não compreendo, estou atento e são tantas e se confundem com o voo das almas e aves noturnas. Distingo Horácio revelador: Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo. A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas. E uma vez lançada, a palavra voa irrevogável. E o silêncio impera mais uma vez e me perco na escuridão, como se Raduan Nassar me espreitasse: Há mais força no perdão do que na ofensa, há mais força no reparo do que no erro. O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade de um julgamento mais áspero, eu estou louco! Sim, acho que estou mesmo enlouquecendo e não tenho mais que um cubículo retangular para sobreviver e que me priva a oportunidade ser-me para além do outro e algo mais.

 


POR UM LUGAR ESPECIAL – Imagem: arte da poeta, cineasta, artista conceitual performática polonesa Ewa Partum, ao som da Cantilène pour violon (1990), da compositora suíça Geneviève Calame (1946-1993), na interpretação da violinista suíça Désirée Pousaz. - Desejo o seu desejo e ela está distante, por enquanto. Se ela chega e quando o faz, é festa noitedia. A espera é dolorosa. Subitamente, a porta se abre e ela invade luminescente com ar de Anita Leocádia Prestes: Mobilizar o povo é chave para transformar sociedade. Todas e todos se organizem pelas suas reivindicações. É na organização popular que a gente faz as coisas mudarem rumo a uma sociedade melhor. Está inquieta e me beija apressadamente como quem tem algo de muito importante para fazer. E eu só queria um beijo que fosse para matar a saudade saneando o possível instante de qualquer diferente paisagem, onírica e instantânea, e desse descanso ao meu tormento. Ela caminha pelos quatro cantos como se quisesse dizer algo inexprimível e gesticula buscando as palavras num esforço gigantesco. Logo se transforma na atriz e escritora britânica Fanny Kemble (1809-1893) e passa o texto: Eu quero fazer tudo no mundo que pode ser feito. Simplicidade é um grande elemento de boa criação. Muitas causas tendem a tornar bons senhores e amantes tão raros quanto bons servos. As grandes e rápidas fortunas pelas quais pessoas vulgares e ignorantes se tornam possuidoras de casas esplêndidas, esplendidamente mobiliadas, não lhes dá, é claro, os sentimentos e maneiras de gente gentil, ou de qualquer forma realmente os eleva acima dos criados que empregam, que estão bem cientes desse fato, e que a posse de riqueza é literalmente a única superioridade que seus empregadores têm sobre eles. Sua inquietação me comove e me envolvo na sua trama e somos dois aos motins e barricadas tentando nos salvar de qualquer jeito. Lá fora, tudo horror e ruína. Não temos tempo para enfrentar tantas adversidades. Precisamos viver o que nos resta e a nós a vida a passos largos pela entrega de se amar. Não titubiei, roubei seus lábios e os fiz com ósculos de música duradoura no seu corpo, meu cenário e moradia, tudo nela, o amor é o que vale. Até mais ver.

 

A ARTE DE FLÁVIO GADÊLHA

O retrato, para mim, é uma maneira de entender as pessoas, penetrar a alma, através do olhar, de gestos e posturas. Tem um sentimento que eu quero passar. Assistir às pessoas vendo a pintura, ver o que elas querem passar. Tudo isso eleva a inspiração que eu procuro. Eu gosto de pintar a família, os amigos e também pessoas desconhecidas, que têm características fortes e me inspiram. Quando pinto coisas despercebidas, elas se tornam muito importantes. Queria trazer à luz o descaso, o preconceito e ganância das grandes potências que está levando ao extermínio os povos indígenas.

A arte do pintor, escultor e gravurista Flávio Gadêlha, membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste, formado em artes plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), restaurador do Museu do Estado de Pernambuco e já participou de exposições internacionais, a exemplo do Porto, Barcelona, Buenos Aires, Atlanta e Georgia. Veja mais aqui e aqui.


 

 


terça-feira, outubro 06, 2020

MARY WOLLSTONECRAFT, JUDITH BUTLER, ANNETE KELLERMAN, ENHEDUANA & MESTRE ZUZA

 


TRÍPTICO DGF – AQUELA DE... DAS CHAMAS ÀS CINZAS, O QUE FOI & NÃO MAIS - A chama e a vida, vela acesa à luz, pacífica: a comunhão cósmica ilumina os umbrais interiores, rumo à senda universal. Outros são reféns das labaredas, ou se rendem na reprodução de faíscas iminentes às inimizades, ou fósforos da devastação: queimam impunes gentes, bichos, coisas, e não há mais ética, espórtula! Não há mais respeito, servidão. Não há mais lei, contravenção, sangue na rótula! Não há mais vida, escravidão. Ouço Enheduana no meio do fogaréu assassino: Sua ira é uma inundação devastadora que ninguém pode suportar. Doutro lado, Horácio alerta: Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo. Valha-me! O meu vizinho atiça, propaga, só quer a ele, ninguém mais. Outro se insurge, contenda. Estou, deveras, alarmado, prefiro a paz. Em meu socorro, a solidária Judith Butler: É crucial que resistamos às forças da censura que prejudicam a possibilidade de viver em uma democracia igualmente comprometida com a liberdade e a igualdade. Sim, nunca será tarde demais, haverá sempre tempo para fazer o que se deve pela paz e pela vida! Vambora.

 


DUAS VEZES A FILHA DOS DEUSES, A SEREIA DO MAR - A solidão e o meu quarto é um forno, calor nas paredes. Para minha sobrevivência ela emerge pela fresta deusa nua, Vênus dos Mares do Sul. E injeta vida nas minhas veias porque estou mortificado e logo me conta da tragédia da Noiva de Lammemoor, com seu jeito canceriano de enfeitiçatriz no palco, Rainha do Mar atravessando o canal da Mancha a nado, uma tentativa malograda que me faz rir de seu destempero e retoma e ganhou a corrida do Nado em Paris através do Sena, derrotando homens, e venceu no Danúbio de Tuin até Viena, viva! E fala pelos cotovelos para que eu ria muito mais e não saiba do que há lá fora. Ora me falava do Dom da Juventude, ou das filhas de Netuno e dos Deuses, feliz Mulher Perfeitamente Formada, triste quando Filha de Jephtah, dançando nas águas de Sydney, chapinhando para me molhar também e a me contar que foi nadadora e mergulhadora premiada para defender os direitos das mulheres e criar os maiôres que a levariam à prisão acusada de indecência e atentado ao pudor. Rimos muitos, quantos desequilíbrios, lá se vão, sobe-desce, é preciso rir-se de tudo. Aos nossos prazeres, beijojes, beijagoras, gozoras e mais. E me falava de seus livros How To Swim (1918), e o Physical Beauty: How to Keep It (1919), e os infantis do Fairy Tales of the South Seas (1926) e My History, a autobiografia jamais publicada, só nos desenhos Les Culottées (Destemidas, 2016), de Pénélope Bagieu ou no documentário The original Mermaid (2002), ou mesmo no acervo do Powerhouse Museum e nas cinzas na Grande Barreira de Corais. Era ela nualua no escuro do meu quarto, Annete Kellerman divinamente bela no meu coração para me dizer que vale a pena viver.

 


UM, DOIS, TRÊS: O AMOR À VIDA SUPERA A MORTE - Imagem: arte da escultora estadunidense Anna Vaughn Hyatt Huntington (1876-1973). - Lá estava elagora Polímnia com sua túnica e véus transparentes, feita poesia na minha vida e carne, a me fazer dançar na geometria do universo, entre beijentregas. À sesta me ensinou a meditação para alcançar o Olimpo e noutra tarde a agricultura para que eu semeasse os campos. Quando era noite ela fugia e só voltava altas horas como Mary Wollstonecraft depois de duas tentativas suicidas e passionais, a me chamar de William para acasalarmos à poesia em paixão. Em mim ela filosofou, poetou e renasceu com a reinvindicação dos direitos da mulher. Escreveu-me cartas que não me deixava lê-las e que eu havia lhe trazido vida para afugentar a melancolia e arrependimentos, e me beijava com ternura e me afagava a face para se desnudar no The Polygon na nossa festa diária em que nada mais existisse além de nós, nossos quereres, nossos prazeres, nossa paixão. Na última noite, ao se despedir: Eu não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens; mas sobre si mesmas. Nenhum homem escolhe o mal por ser o mal; mas apenas por confundi-lo com felicidade. Deixe a mulher compartilhar dos direitos e ela emulará as virtudes do homem. E comungamos das mesmas ideias e defendemos os mesmos ideais, solidários e reais até nos diluirmos em nós mesmos e em todas as coisas. Até mais ver.

 

MESTRE ZUZA

A riqueza da gente é saber fazer a arte. Não tem coisa melhor do que você saber fazer alguma coisa e não precisar estar empregado pra sobreviver. Consegui trabalhar com artesanato a vida toda, muita gente não acredita que isso é possível.

A arte do artesão, ceramista, artista plástico, escultor, compositor e professor historiador Mestre Zuza – José Edvaldo Batista, que é pós-graduado em História pela UPE, sócio da Cooperata e instrutor no Sernar-PE. Veja mais aqui & aqui.


 

 


sexta-feira, fevereiro 21, 2020

ELENA ARNEDO SORIANO, LYDIA KOIDULA, TINA MARIA ELENA, HERMILO & MUITO MAIS!


PERSEVERAR MESMO QUE TUDO DÊ COM BURROS N’ÁGUA – UMA, DE PRIMEIRA: NA PELE DE EINSTEIN: Sabe aquela de pelejar que só e nada dar certo? Haja boa vontade para levar na caixa dos peitos e, no meio do caminho, ser empurrado pras quedas do fracasso. Logo aprendi que o inferno está topado e esborrando de boas intenções. Contudo, persisto; quanto mais persevero, nenhum êxito na parada. Parece mais: um passo pra frente, não sei quantos para trás. Vôte! Acordo no maior pique, é hoje! De tarde, aos escombros. Todo dia, recomeço do zero. Eu na pele de Einstein: Se minha Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará um cidadão do mundo. Mas, se não estiver, a França dirá que sou alemão e os alemães dirão que sou judeu. Pois é, a dele deu; a minha, ainda hoje pulo das pechas condenado ao osso do mucumbu, ou melhor, ao períneo: imprestável por ninguém aguentar a catinga do mijo e da bosta. É, sou eu. Quem sabe um dia, hem? DUAS: AB IMO PECTORE - A vida de Chaucer, como a de muitos gênios e célebres, não foi lá essas coisas todas. Apesar de ser o poeta do rei e o conselheiro das intrigas, não teve muito lá muito espaço para manter o fôlego na boa, pelos altos e baixos. Ao se apaixonar pela bela Phillippa de Roet (1346-1387), o coração dele bateu forte e pediu: Abre-te, gergelim! Ela não teve dúvidas: abriu as comportas e com elas a glutoneria e a extravagância. Quando deu fé, viu-se em apuros entre os fungados e tonel sem fundo dos desejos dela. Lá foi, uma peiada e quantas despesas, a fortuna se esvaía e não dava vencimento. Quase morreu do coração antes da hora, porque ela delirava insaciável com enfeites e presentes caríssimos. Para ele, todo dia era sucumbir à morte consecutiva: abotoava o paletó com as contas, esticava as canelas com as contrapartidas dela e batia as botas toda vez que ela dizia querer disso ou daquilo. Assim, quase embarcou para melhor antes mesmo da hora: A paciência é uma virtude que se conquista. O que vem fácil, vai fácil. Envergou-se todo do empeno quase quebrá-lo, mas não torou. Meio de lá para cá, balançava inseguro. Quando escapulia, vagava solitário por gestas para uma musa outra do seu sonho irreal, não essa. Entre uma piscada e outra, balbuciava: Siga sua lenda, não perca tempo. Vai lá, enquanto pode. E LÁ VAI OUTRA, TRÊS: AB OVO USQUE AD MALA – Como não desisto nunca, sou dos que não abrem nem prum trem, mantenho-me entusiasta, nem tanto assertivo, reconheço: planejo tudo, do começo ao fim. Só que uma circunstância extrovengada se atravessa no meio e findo com uma topada no catabi, juntando os cacos na queda. Ou errei na dose, ou sei lá o que deu, ora! Não me dou por vencido, nem desanimo. Levanto, multipotencial, valho-me dos conselhos de Horácio: Quem começou, tem metade da obra executada. A duração breve da nossa vida proíbe-nos de alimentar uma esperança longa. E uma vez lançada, a palavra voa irrevogável. Aproveite o dia de hoje e nada espere do dia seguinte. É isso aí, o nariz empinado no vento e no amanhã, eu voo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Enquanto os homens não assumirem profundamente o respeito pelas mulheres e não considerarem realmente o mesmo, enquanto as próprias mulheres não acreditarem que são insubstituíveis no privado e se assustarem com o público, não será assumido que a distribuição de funções é extremamente injusta e é baseada em princípios ancestrais, que não têm razão de ser nos dias de hoje. [...]. Trecho extraído da obra El gran libro de la mujer: salud, psicología, sexualidad, nutrición, derechos (Temas de Hoy, 1997), da escritora, ginecologista e ativista espanhola Elena Arnedo Soriano (1941-2015), um compêndio sobre a vida da mulher por uma cientista da fala e oradora do universo feminino. Em outra de suas obras, La picadura del tábano: La mujer frente a los cambios de la edad. (Aguilar, 2003), ela expressa que: [...] a saúde da mulher sempre foi excessivamente medicalizada e comercializada, e a nova preocupação com a pré-menopausa é uma amostra disso [...] Não ter amigos íntimos ou confidentes pode ser tão prejudicial para a nossa saúde como excesso de peso e o tabaco [...].

A POESIA DE LYDIA KOIDULA
Minha pátria é meu amor
Meu país é meu amor.
Eu dou meu coração inteiramente
e para ela é a canção da minha felicidade,
Minha Estônia em flor!
Sua dor é a dor da minha alma,
Sua alegria é a alegria que me acalma
Oh meu país!
Meu país é meu amor.
Eu não vou abandoná-la
embora mil vezes para ela
se for necessário eu vou morrer!
Nada importa trotes ciumentos.
Você viverá para sempre no meu intestino,
Oh meu país!
Meu país é meu amor.
Eu gostaria de encontrar descanso
Me colocando para dormir no seu colo
Oh chão reverenciado!
Que seus rouxinóis cantem para mim,
das minhas cinzas que nascem suas flores,
Oh meu país!
LYDIA KOIDULA – Poema da poeta estoniana Lydia Koidula (Lydia Emilie Florentine Jannsen 0 1843-1886). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Sempre desenhei e pintei, mas principalmente com tinta acrílica. Por alguns anos, fiz apenas colagens e não senti vontade de pintar, até encontrar uma maneira de fazer peças cortadas à mão com casais fazendo amor. Depois disso, comecei a pintar imagens de fazer amor com aquarelas e, de tempos em tempos, criava peças cortadas à mão. Quando publiquei minha primeira pintura em aquarela, recebi uma resposta muito impressionante de meus seguidores e de outras pessoas, e definitivamente senti que muitas pessoas gostavam da sensação sensual e da fluidez que a aquarela poderia proporcionar.
TINA MARIA ELENA - A arte a aquarelista e artista visual dinamarquesa Tina Maria Elena Baunsgaard Bak-Nielsen, que por meio de sua expressão em colagens, pintura em acrílico e aquarelas, revela revela camadas intensas do erotismo e daquilo que provoca dessa suave contradição entre a fragilidade de suas pinturas e a força do tema. Veja mais aqui & aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
Agá de Hermilo Borba Filho (1917-1976) aqui.
Horas inúteis de Edwiges de Sá Pereira (1884-1958) aqui.
O cordel de Antônio Pereira (1891-1982) aqui.
A obra de Arnaldo Tobias (1939-2002) aqui.
A música de Ayrton Montarroyo aqui.
A cabra cabriola aqui.
O jegue de Paul aqui, aqui, aqui & aqui.
O município de Tamandaré aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...