quinta-feira, novembro 05, 2020

ALDA MERINI, RICARDO MIRÓ, ISAIAH BERLIN, MARCELO GRECO & TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO


  

TRÍPTICO DQC: BLUE GERSHWIN – Curtindo o Piano Concerto in F major (1925), de George Gershwin, com o piano de Yuja Wang & London Symphony Orchestra (2016) – O dia amanhece na janela para celebração da vida. O escarcéu do mundo no povo em polvorosa, nem se dá conta das estatísticas assustadoras, olvidam do genocídio e tudo como se nada acontecesse. Soletro um poema: Agonizo devagar. Não tenho nada a dizer, nada, absoluta catarse. Os meus pedaços se perderam de mim no labirinto da sobriedade de Cage. Devotei meu olhar a reinventar o muro à cabeça. Criei meu tautócrono com meus versos abstrusos. A loucura me cerca, comunhão. Ah! Meu tormento Van Gogh, minha solidão Almafuerte, sempre instigado pela descrença na frivolidade das coisas. Mal terminara de balbuciar meus versos, recepciono a imagem do filósofo letão Isaiah Berlin (1909-1997): Estamos condenados a escolher e toda escolha pode acarretar uma perda irreparável. Tal como aparecera, a sua efígie vai se apagando como se se dissolvesse aos raios solares. Contemplo o horizonte, a vida é a tônica em todos os lugares, ainda é possível viver.

 


A CENA NA COMPLETA ESCURIDÃO - Anoitecia e com a suspensão do fornecimento de energia elétrica. As sombras ocupavam seus espaços, cada vez maior a escuridão. De repente na parede oposta passou a rolar uma cena da comédia em um ato A família e a Festa na Roça (1840), de Martins Pena, quando personagem Juca sapecou: Se sabem que temos só por fortuna um coração amante e sincero, e quanto baste para viverem duas pessoas honestamente, mas sem luxo, adeus, minhas encomendas. Leva tudo o diabo. Batem com as janelas na cara, voltam as costas, não respondem... Ao final da encenação uma voz reiterou: Realmente, estamos fritos! É caso perdido. Procurei nos quatro cantos, era ela sentada como Sarah Bernhardt: A vida engendra vida. Energia cria energia. É gastando-se que se enriquece. Levantou-se e deixou escorrer a cortina na qual estava enrolada e caminhou nua até mim, recitando um poema de Alda Merini: Se eu repouso, no lento devir / dos olhos, me detenho / ao excesso feliz das cores: / aqui não temo mais fugas ou fantasias / mas a "penetração" me anula. / Amo as cores, tempos de um desejo / inquieto, irresolúvel, vital, / explicação humilde e soberana / dos cósmicos "por quês" do meu fôlego. / A luz me impele, mas a cor / me atenua, pregando a impotência / do corpo, belo mas ainda tão terreno. / E é pela cor a que me dou / que de repente me lembro do meu aspecto / e, assim, do meu limite. E com um beijo ela em mim ficou por todas as horas vindouras de nossa afogueada paixão.

 


OS TERRORES DA HORA & OS HORRORES HUMANOS - Imagem da série Helena (2019), do fotógrafo e professor/orientador, Marcelo Greco – No meio da madrugada ela despertou e me assustei com sua desolação. Entre lágrimas, debruçada na cama e sem cobertas, narrou: Era a madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971. Cerco montado, ela foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de Salvador... Liberada no início de novembro, estava profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Internada na clínica Almepe, em Salvador, no dia 4 de novembro. O estado se agravou com a invasão do major Nilton de Albuquerque Cerqueira ao seu quarto de hospital. Na presença da sua mãe, ele ameaçou que parasse com suas frescuras, senão voltaria para o lugar que sabia bem qual era. Ela foi transferida para o sanatório Bahia e morreu em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e trabalhava como bancária na época em que passou para a militância. No seu prontuário, constava que não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, e repetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foi conhecida. O atestado de óbito diz: edema cerebral a esclarecer. Um ano depois sua mãe Esmeraldina Carvalho Cunha, que denunciou incessantemente a morte da filha como consequências das torturas, foi encontrada morta em sua casa. Fez um silêncio tumular e sem se mexer por alguns instantes. Depois de algum tempo imóvel, virou-se e me disse: Sim, hoje sou Nilda: Nilda Carvalho Cunha (1954-1971), outra entre as filhas da dor: Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri. E me abraçou como nunca, carne trêmula, dores demais. Ao meu ouvido, ela era Malala Yousafzai: Falo não por mim mas por aqueles sem voz... aqueles que lutaram por seus direitos... Seu direito de viver em paz, seu direito de ser tratado com dignidade, seu direito à igualdade de oportunidade, o seu direito de ser educado. E me empurrou para que deitasse sobre mim e lábios rentes aos meus, mencionou uma célebre frase do escritor panamenho Ricardo Miró (1883-1940): O país é a memória… Pedaços de vida envolto em pedaços de amor ou dor; a palma farfalhando, música conhecida, o jardim e sem flores, sem folhas, sem vegetação. Oh tão pequena que você caber toda todo país sob a sombra da nossa bandeira: talvez você era tão jovem para que eu pudesse tomar em toda parte dentro do coração! E com um abraço firme e requisitante se entregou de corpo e alma para que eu pudesse usufruir da glória que é viver contemplado pelo amor de quem ama e é amada. Até mais ver.

 

TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO (TAP)

Criado em 1941, por Valdemar de Oliveira, o TAP reúne atores ao redor de um teatro de cultura que passou por diversas fases: a primeira, entre 1941-47, correspondentes aos anos de aprendizagem; a segundam, de 1948-58, concernente à renovação da cena; de 1959-1965, compreendendo a consolidação da cena; de 1966-1976, a ordenação do passado; e a partir de 1977, a cena refletida, montando espetáculos, entre eles, Um sábado em 30, de Luiz Marinho, em 1963. Hoje sediado no Teatro Valdemar de Oliveira, na Boa Vista Recife, apresentou ultimamente o espetáculo virtual E assim caminha a terceira idade, de Amanda Moraes, com atuação de Geninha da Rosa Borges. Veja mais aqui e aqui.


 


ADA LIMÓN, MÓNICA BUSTOS, LETÍCIA CESARINO, ANUNA DE WEVER & O RECIFE DE CESAR LEAL

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Olho D'água (1979), Revivência (1983), Rio Acima (1986), Ihu - Todos Os Sons (1996),...