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quinta-feira, novembro 05, 2020

ALDA MERINI, RICARDO MIRÓ, ISAIAH BERLIN, MARCELO GRECO & TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO


  

TRÍPTICO DQC: BLUE GERSHWIN – Curtindo o Piano Concerto in F major (1925), de George Gershwin, com o piano de Yuja Wang & London Symphony Orchestra (2016) – O dia amanhece na janela para celebração da vida. O escarcéu do mundo no povo em polvorosa, nem se dá conta das estatísticas assustadoras, olvidam do genocídio e tudo como se nada acontecesse. Soletro um poema: Agonizo devagar. Não tenho nada a dizer, nada, absoluta catarse. Os meus pedaços se perderam de mim no labirinto da sobriedade de Cage. Devotei meu olhar a reinventar o muro à cabeça. Criei meu tautócrono com meus versos abstrusos. A loucura me cerca, comunhão. Ah! Meu tormento Van Gogh, minha solidão Almafuerte, sempre instigado pela descrença na frivolidade das coisas. Mal terminara de balbuciar meus versos, recepciono a imagem do filósofo letão Isaiah Berlin (1909-1997): Estamos condenados a escolher e toda escolha pode acarretar uma perda irreparável. Tal como aparecera, a sua efígie vai se apagando como se se dissolvesse aos raios solares. Contemplo o horizonte, a vida é a tônica em todos os lugares, ainda é possível viver.

 


A CENA NA COMPLETA ESCURIDÃO - Anoitecia e com a suspensão do fornecimento de energia elétrica. As sombras ocupavam seus espaços, cada vez maior a escuridão. De repente na parede oposta passou a rolar uma cena da comédia em um ato A família e a Festa na Roça (1840), de Martins Pena, quando personagem Juca sapecou: Se sabem que temos só por fortuna um coração amante e sincero, e quanto baste para viverem duas pessoas honestamente, mas sem luxo, adeus, minhas encomendas. Leva tudo o diabo. Batem com as janelas na cara, voltam as costas, não respondem... Ao final da encenação uma voz reiterou: Realmente, estamos fritos! É caso perdido. Procurei nos quatro cantos, era ela sentada como Sarah Bernhardt: A vida engendra vida. Energia cria energia. É gastando-se que se enriquece. Levantou-se e deixou escorrer a cortina na qual estava enrolada e caminhou nua até mim, recitando um poema de Alda Merini: Se eu repouso, no lento devir / dos olhos, me detenho / ao excesso feliz das cores: / aqui não temo mais fugas ou fantasias / mas a "penetração" me anula. / Amo as cores, tempos de um desejo / inquieto, irresolúvel, vital, / explicação humilde e soberana / dos cósmicos "por quês" do meu fôlego. / A luz me impele, mas a cor / me atenua, pregando a impotência / do corpo, belo mas ainda tão terreno. / E é pela cor a que me dou / que de repente me lembro do meu aspecto / e, assim, do meu limite. E com um beijo ela em mim ficou por todas as horas vindouras de nossa afogueada paixão.

 


OS TERRORES DA HORA & OS HORRORES HUMANOS - Imagem da série Helena (2019), do fotógrafo e professor/orientador, Marcelo Greco – No meio da madrugada ela despertou e me assustei com sua desolação. Entre lágrimas, debruçada na cama e sem cobertas, narrou: Era a madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971. Cerco montado, ela foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de Salvador... Liberada no início de novembro, estava profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Internada na clínica Almepe, em Salvador, no dia 4 de novembro. O estado se agravou com a invasão do major Nilton de Albuquerque Cerqueira ao seu quarto de hospital. Na presença da sua mãe, ele ameaçou que parasse com suas frescuras, senão voltaria para o lugar que sabia bem qual era. Ela foi transferida para o sanatório Bahia e morreu em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e trabalhava como bancária na época em que passou para a militância. No seu prontuário, constava que não comia, via pessoas dentro do quarto, sempre homens, soldados, e repetia incessantemente que ia morrer, que estava ficando roxa. A causa da morte nunca foi conhecida. O atestado de óbito diz: edema cerebral a esclarecer. Um ano depois sua mãe Esmeraldina Carvalho Cunha, que denunciou incessantemente a morte da filha como consequências das torturas, foi encontrada morta em sua casa. Fez um silêncio tumular e sem se mexer por alguns instantes. Depois de algum tempo imóvel, virou-se e me disse: Sim, hoje sou Nilda: Nilda Carvalho Cunha (1954-1971), outra entre as filhas da dor: Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri. E me abraçou como nunca, carne trêmula, dores demais. Ao meu ouvido, ela era Malala Yousafzai: Falo não por mim mas por aqueles sem voz... aqueles que lutaram por seus direitos... Seu direito de viver em paz, seu direito de ser tratado com dignidade, seu direito à igualdade de oportunidade, o seu direito de ser educado. E me empurrou para que deitasse sobre mim e lábios rentes aos meus, mencionou uma célebre frase do escritor panamenho Ricardo Miró (1883-1940): O país é a memória… Pedaços de vida envolto em pedaços de amor ou dor; a palma farfalhando, música conhecida, o jardim e sem flores, sem folhas, sem vegetação. Oh tão pequena que você caber toda todo país sob a sombra da nossa bandeira: talvez você era tão jovem para que eu pudesse tomar em toda parte dentro do coração! E com um abraço firme e requisitante se entregou de corpo e alma para que eu pudesse usufruir da glória que é viver contemplado pelo amor de quem ama e é amada. Até mais ver.

 

TEATRO DE AMADORES DE PERNAMBUCO (TAP)

Criado em 1941, por Valdemar de Oliveira, o TAP reúne atores ao redor de um teatro de cultura que passou por diversas fases: a primeira, entre 1941-47, correspondentes aos anos de aprendizagem; a segundam, de 1948-58, concernente à renovação da cena; de 1959-1965, compreendendo a consolidação da cena; de 1966-1976, a ordenação do passado; e a partir de 1977, a cena refletida, montando espetáculos, entre eles, Um sábado em 30, de Luiz Marinho, em 1963. Hoje sediado no Teatro Valdemar de Oliveira, na Boa Vista Recife, apresentou ultimamente o espetáculo virtual E assim caminha a terceira idade, de Amanda Moraes, com atuação de Geninha da Rosa Borges. Veja mais aqui e aqui.


 


quinta-feira, setembro 24, 2020

SCOTT FITZGERALD, EDNA O’BRIEN, LIPOVETSKY, FRANÇOISE SAGAN, ELEANOR CATTON, ELZA COHEN & LUIZ MARINHO


  

DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... ANÁBASE VERTIGINOSA - No meio do caminho, escuridão vertiginosa. Tantos degraus vencidos. Um vulto irreconhecível, encostado num dos cantos, acendeu um cigarro: Subindo? Sim. E me contou que havia descido há tempo, não se sentia bem nem lá em cima, nem cá embaixo, preferia a solidão entre meios. Pude reconhecê-lo com a claridade, era Francis Scott Fitzgerald: A vida é toda um processo de demolição. Existem golpes que vêm de dentro, que só se sentem quando é demasiado tarde para fazer seja o que for, e é quando nos apercebemos definitivamente de que em certa medida nunca mais seremos os mesmos. A vitalidade é demonstrada não apenas pela persistência, mas pela capacidade de começar de novo. Nunca desejei que houvesse um Deus para invocar - desejei frequentemente que houvesse um Deus para agradecer. Ouvi-lhe cada palavra, mais ainda o seu silêncio. Afastou-se sem se despedir. Respirei fundo para retomar minha escalada e uma jovem e bela mulher pousou ao meu lado. Falou-me de sua catábase, apenas por experiência, logo voltaria. Encantado, não consegui identificá-la. Apresentou-se e era a escritora neozelandesa, Eleanor Catton: A terra era apenas para viver e amar. Todos nós queremos ser amados... E precisamos ser amados, eu acho. Sem amor, não podemos ser nós mesmos. A mente acredita no que vê e faz aquilo em que acredita: esse é o segredo da fascinação. Estranhei o tempo verbal da primeira frase, mas não havia tempo para questionar. Ela apressou-se com um beijo, e já se esgueirava na descida, anunciando que logo voltaria, se eu quisesse esperar. Deu-me um aceno de adeus, quase refiz tudo por ela. Era hora de ascender.

 


DUAS PALAVRAS & MUITOS TEXTOS – Da obra da premiada dramaturga e escritora irlandesa Edna O’Brien, conheci a peça teatral Virginia (Theatre Royal, 1981) – muito embora soubesse de uma adaptação de Ifigênia, escrita especialmente para o palco do Crisol em Sheffield em 2003, e de outras mais dum volume reunido -, como também dos romances da trilogia The Country Girls (1960), do livro de memória Mother Ireland (1976), da rumorosa biografia James Joyce: a life (1999) e da aclamada biografia Byron in love (2009). Dela, o belo pensamento: A escuridão é atraída pela luz, mas a luz não o sabe; a luz deve absorver a escuridão e, portanto, encontrar a sua própria extinção. Em nossos momentos mais profundos dizemos as coisas mais inadequadas. Todos nós nos deixamos. Morremos, mudamos - é principalmente mudança - superamos nossos melhores amigos; mas mesmo se eu te deixar, terei passado para você algo de mim mesmo; você será uma pessoa diferente por me conhecer; é inevitável... Leitura em dia, retomo meu percurso, a estrada é longa e fragal.

 


TRÊS PASSOS PARA ASCENÇÃO DO AMOR - Imagem: arte da fotógrafa, videógrafa, produtora cultural e curadora musical, Elza Cohen: Fotografar é expressar em forma de imagem a minha paixão pela diversidade humana. É praticar empatia e o ativismo social que me são inerentes. - Aos quatro cantos e ventos minha vida entre sombras, voos e interrogações: emoções indeléveis, pecados e trevas. Padeço de fome e sede, o que há em mim, vem com o apuro de Françoise Sagan: Desejo tanto que respeitem a minha liberdade que sou incapaz de não respeitar a dos outros. Para mim, a felicidade, é acima de tudo sentir-se bem. Amar não é somente querer, é sobretudo compreender. Amei até a loucura. O que chamam de loucura é, para mim, a única forma sensata de amar. Nem bem assimilo suas palavras, do outro, a inesperada consideração de Gilles Lipovetsky: Na verdade, qual idealização é capaz de se manter, qual sonho pode persistir indefinidamente, quando confrontado com a precariedade natural dos seres e a monótona cantilena da eterna repetição das coisas? Quanto mais os indivíduos são informados, mais se encarregam de sua própria existência, mais o Ego é objeto de cuidados, de autossolicitudes, de prevenções. É de se refletir... Não sei de ódio, aminimigos, perplexidades! A despeito de intolerantes, a cada qual, as trevas dos seus próprios desejos. Da minha parte, cabeça a mil e pés na terra, vivo a fonte de todas as coisas. Até mais ver!

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.


CORPO CORPÓREO / A ESTRADA, DE LUIZ MARINHO

[...] Por esta porta foram-se todos os meus bens... eram simples de boa alma! Ah! Esta casa!... esta casa era uma sinfonia perpétua! Sabe?... Depois que Olívia se foi, não mais fiz sexo. O prazer da carne, já não me toca! Minha excitação, é-me absolutamente indiferente! As poluções noturnas, me são odiosas! Manifestam-se sem sonhos nem estímulos, chegam como indesejáveis e repugnantes vômitos. Eu, apenas existo, como existe uma pedra... Um argueiro... Duramos, apenas... Já não saio paraa o mundo... Meus passos limitam-se até aí nessa soleira... Todos os dias vem um mensageiro, trazer o que necessito. Sabe que não pode entrar, nem esquecer o vinho. No recanto dessa porta, fica dinheiro bastante para lhe prover. Nós não nos simpatizamos, mas, somos necessários um ao outro. [...].

O mensageiro, trecho extraído da obra Corpo corpóreo / A estrada (Comunicarte, 1995), do premiado dramaturgo Luiz Marinho (1926-2002). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 



quinta-feira, setembro 05, 2019

JOSUÉ DE CASTRO, JOHN CAGE, RADHAKRISHNAN, LUIZ MARINHO, BÁRBARA ANGEL & ZÉ DO MÉ


UMA BANDEJA, APENAS E... - Zé do Mé prosperou. Três meses seguidos de apurados na bodega sortida, além da expectativa e frutos de muito trabalho, noitedia. Olhos dele só cifrão, contando e recontando, polegar no indicador viciado. Fiado? Quem vê morre! Só tome lá, dê cá. Conversa mole? Oxe, tenho mais o que fazer, ora. Lengalenga: Ah, deixa disso e vá arrumar uma lavagem de roupa! Ele lá, juntando o molho da dinheirama embaixo do colchão, moedas e cédulas. Trancou-se no quarto, desconfiado e ficou totalmente ferrolhado brincava de jogo de bafo: Um pra eu, dois pra eu, três pra eu... Refletiu: era hora de mudar de vida. Aí, deu logo um jeito no guarda-roupa bocomoco cheínho de vestes novas, deu um banho de loja na esposa e filhos, pintou a casa, ajeitou o bar, deixou tudo nos trinques. Depois de muito gasto, apurou direitinho e viu que dava para adquirir um carro zero. Não deu, se ajeitou mesmo num carango meio mandú, do tipo de ricaço, com inscrição Diplomata nas portas e na traseira, quatro portas, seis bocas – Oh, bicho bebão da gota! Mas dos bons: basta encarcar o pé que dá mais de cem no mesmo instantinho! É só apertar que ele corre, vrum, de nem botar a língua de fora. Levou para casa e ficou paparicando a aquisição: lavava, cobria com cobertor, alisava, mimava, conversava por horas, como se fosse de estimação. Na hora da folga do final de semana, tirou da garagem, juntou a família com altas recomendações para não sujarem sua posse e, na primeira debreada, o bicho empancou: Ué!?! Desce todo mundo. Rebocou para a oficina, diagnóstico do mecânico sabido: a caixa de marcha está cheia de pó de serra, só uma nova. Eita! Tem jeito não, só outra. Um amigo socorreu com indicação de um ferro velho próximo, que tinha uma da mesminha, seminova, seis cilindros como a dele e por menos da metade do preço. Comprou a vista. Uma semana depois, tudo consertado. Danou-se a passar marcha: Agora, sim! Virou a cabeça e instalou um som incrementado e danou-se a dar volta só para se amostrar e matar os vizinhos de inveja, às risadagens, dentes no quarador. Equipou com pisca-pisca, lameiro, reboque, bagageiro, pneus novos com cinta branca, antena maria-mole para radioamador e bregueços outros. Maior matutagem. Depois de gastar mundos e fundos, juntou a família de novo e aos bregues para controlar a mundiçada: Num vão arranhar nem sujar o carrão, seus porras! Acomodou todo mundo, sentou-se ao volante, a mulher se intrometeu: Liga o ar condicionado pra gente saber como é! Tá doida, é? Se ligar esse bufante num dá pra gente nem sair do canto, o danado bebe demais. Vamos assim mesmo! Mas tá calor! Quando andar, passa. Engatou marcha, saiu da cidade e se mandou pela rodovia. Tá vendo? É, muita frescura mesmo. Acelerou que só, quase voa: Eita, bicho bom, macho todo! E a meninada: Êêêêê! Tira o pé do bolso, motorista! A paisagem passava rápida, a mulher e os filhos cada vez mais pendurados nos pegadores: O bicho corre mesmo! Segura no tabeliê, mulher! Destá. Reta, curva, tudo aprumado, pé fundo, u-huuuu! De repente um estalo na suspensão e era uma vez... capotou sonhos, prosperidade, alegrias e felicidade. Coitados. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A arte não é algo feito por uma única pessoa, mas um processo iniciado por muitos. Os materiais de música são som e silêncio. Integrá-los significa compor. Eu não consigo entender porque as pessoas estão com medo de novas ideias. Estou com medo das antigas. Um erro é simplesmente uma falha no ajustar imediatamente um preconceito para uma realidade. Sou dos que amam apagar a distinção entre arte e vida. Não é necessário renunciar ao passado ao entrar no futuro. Ao mudar as coisas, não é necessário perdê-las. Pensamento do compositor, escritor e teórico musical estadunidense John Cage (1912-1992). Veja mais aqui, aqui & aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] A arte de descobrir é confundida com a lógica do teste e uma simplificação artificial dos movimentos mais profundos dos resultados do pensamento. Esquecemos que inventamos por intuição quando testada pela lógica. [...] A técnica sem inspiração é estéril. [...] No tabuleiro da vida, as diferentes peças têm poderes que variam de acordo com o contexto e as possibilidades de sua combinação são inúmeras e imprevisíveis. O reprodutor de som tem uma sensação de bem e sente que, se você não o seguir, será falso consigo mesmo. Em qualquer situação crítica, o progresso é um ato criativo. [...]. Trechos extraídos da obra Uma Visão Idealista da Vida (1929), do filósofo e estadista indiano Sarvepalli Radhakrishnan (1888-1975).

O TEATRO DE LUIZ MARINHO: Apenas procuro defender e valorizar o que amo. Que viva o teatro maior, de todas as regiões e pátrias. O premiado dramaturgo Luiz Marinho (1926-2002) é autor teatral que procurou em suas obras o universo cultural e social do nordeste brasileiro. Dos seus 14 textos, destacam-se Um sábado em trinta, Viva o cordão encarnado, A incelença, A família Ratoplan, Corpo corpóreo e As três graças, entre outros, transmitindo um pouco das memórias interioranas, a partir de crendices, violeiros, cangaceiros, vaqueiros e tipos locais. Sua trajetória foi registrada na obra Luiz Marinho: um sábado que não entardece (FCCR, 2004), de Anco Márcio Tenório Vieira. Veja mais aquiaqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Sou amante de interpretações, adoro ser, estar diferente.
A arte da fotógrafa Bárbara Angel. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE JOSUÉ DE CASTRO
A fome é a expressão biológica de males sociológicos. Grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias. Existem 2/3 de pessoas que não dormem porque sentem fome, e 1/3 de pessoas que não dormem por medo dos que sentem fome. Metade da humanidade não come e a outra não dorme com medo da que não come. Fome e guerra não obedecem a qualquer lei natural, são criações humanas. O que falta é vontade política para mobilizar recursos a favor dos que têm fome.
A obra do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, abril 22, 2008

GOULD, BARTHES, KIERKEGAARD, LUIZ MARINHO, FERNANDO CASTELÃO, FECAMEPA & O DESCOBRIMENTO DO BRASIL



“DESCOBRIMENTO” OU INVASÃO????




O FECAMEPA – Festival de Cagadas Melando o País -, tem a honra de apresentar o começo de tudo: mais uma única e verdadeira saga da pinóia do descobrimento do Brasil.
Vamos aprumar a conversa: tudo no Brasil é uma verdadeira cagada! E começa mesmo quando o país entra na história da humanidade: exatamente numa cagada da porra. Isso mesmo, basta ver que foi exatamente depois, mas depois mesmo que fenícios, vikings, celtas, iberos, gauleses, bretões, anglos, saxões, francos, germanos, neerlandeses e o escambau fizeram, pintaram e bordaram por aqui. Foi exatamente quando os lusos resolveram fazer mais uma visitinha às Índias buscar brebotes. Eles ajeitaram tudo, arrumaram os mijados, festejaram que só, fizeram isso e aquilo, passaram giz na mira, desembaçaram as lunetas, desempenaram o pau da venta e se danaram pelo Atlântico meio que entre cambaleantes e ressacados. Seguiram viagem: só céu e mar. No meio do caminho, eis que ocorreu um desalinhamento sideral inexplicável, quando, na verdade, ocorreu o espetáculo da junção dos Cruzeiros do Norte, Leste e Oeste, tudo no do Sul. Quer dizer, eram 4 Cruzeiros, por causa da inflação da época, restou apenas um e no Sul, o que nem hoje nem nunca teve a menor importância. Mas o fato inusitado que passou desapercebido por todos à época e até agora, mudaria o rumo de tudo e de todas as coisas na face da terra. O fato teve conseqüências irreparáveis e até hoje não completamente apuradas, tão drásticas quanto possa conceber vossa vã hipocrisia, pois, mesmo considerando que desculpa de amarelo é comer barro, ao que parece, na conta do provável ou das patranhas todas, foi o responsável pelo erro ocorrido exatemente no caminho às Índias. Eita! Acontece que foi neste exato momento que o Joaquim se vira aborrecido pro Manuel e sapeca injúria por não ter ele virado a bombordo ao invés de estibordo na corredeira lá detrás. Ih. Não se entenderam justo porque, além de bicados, um era canhoto e o outro destro. E para embananar tudo, tinha a biziga do Gageiro que era ambidestro somente tiruléu, léu, léu atiçando tudo! Não havia jeito de conciliação e, por isso, o pau cantou tiruléu da Marieta na Nau Catarineta e comeu numa confusão da peste: - Marinheiros somos! Marujada do Mar! A arenga dos dois permanece até hoje na celeuma entre se erraram o caminho ou se foi sacanagem só para ver a cara injuriada do outro. E tome controvérsia! Se de propósito ou não, a verdade é que o cerca-Lourenço está no maior buruçú, questionando se a tolotada toda não foi ao acaso mesmo ou houve, de mesmo, a intencionalidade de desobstruir a tripa gaiteira deles tomando posse de vez da merdaria toda. Uns pendem prum lado; outros, pro outro. Eu, hem? Pois é, voltando ao assunto que interessa, lá se iam as cobranças: Corre acima Gageiro! Àquele topo real vê se descobres terras de Espanhas, ó tão linda! Ou areias de Portugal! Nisso, à deriva por quaraquaquá dias, veio o primeiro sinal: um rabo-de-asno. Depois, o segundo: o vôo do fura-bucho. Enfim, bosta boiando o que significa: terra. Aí o alívio foi tão, mas tão de tão que deu no que deu. Pra encurtar: os perós chegaram mesmo foi na indiada de Pindorama. Aí, ficaram logo todos de queixo caído: a coisa era tão exótica, tão sórdida, tão escandalosa, tudo tão que não estava nem no gibi. Primeiro não sabiam se era uma ilha, um continente ou raio que o parta. Chegando cada vez mais perto a coisa foi se esclarecendo mais ainda na conta da surpresa: uns índios tudo nu, pintado da cabeça aos pés e virado na breca. E o pior: maior timbungada dentro dos mares e dos rios (coisa escandalosa para eles que não eram muito achegados, né?). Tudo leva a crer que foi aí que descobriram verdadeiramente o carnaval, isso sim, só institucionalizado na vera séculos mais tarde. Mas, além disso, o surpreendente surgia a cada hora. A culinária, por exemplo, nada que fosse identificável ou mesmo aprazível ao paladar. Comer o quê, hem? Logo surgiu a primeira idéia sinistra para, de quando a fome bater, pegar um bugre desse e comer assado. Ih, deu rolo! Passa a borracha, mandaram reescrever essa parte do texto de outra forma. Xá pra lá. Mas era tudo extraordinário demais, inclusive com índias nuas, reboladeiras e safadinhas. E isso mexia com o brio e a fé deles, tremendo na base e carregando na dúvida do ser ou não ser, principalmente porque estava em plena vigência no Velho Continente o combate santo contra a sodomia. Não era para menos no de repente os bigodudos darem de cara com os pintudos aborígenes. Ou com as reboculosas indiazinhas todas oferecidas prum vuque-vuque!!! Aí meu, num teve fé nem lei que segurassem os caras. Findou no pior: os bugres que, se não eram, se tornaram antropófagos no duplo sentido! Não deu outra: maior suruba da paróquia. E foi piorando quando um gajo gritou: - Já me foderam a bunda umas 10 vezes e ainda não comi ninguém!!! Foi aí que começou o vira homem vira vira lobisomem por Oropa, França e Bahia, misturado com “Ó cachopa, se tu queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita”. Indubitavelmente foi desse fuá todo que nasceu aquela idéia de que não existe pecado ao sul do Equador. Isso porque outro refrão também escandalizava na umbigada: tá todo mundo nu, oba! Tá todo mundo nu, oba! Como eles entraram na roda, evidentemente que gostaram: ó que suruba boa, pá! . Foi assim que começou todo fuzuê. Êta brasilzim véio, aberto e sem porteira! Vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.  



DITOS & DESDITOS - O maior perigo de perda da identidade pessoal pode se dar sutilmente, como se nada houvesse; qualquer outra perda, como a perda de um braço ou de uma perna, cinco dólares, etc., certamente será notada. Pensamento do filósofo, poeta e crítico social dinamarquês, Søren Kierkegaard (1813-1855). Veja mais aqui e aqui.

AS LEIS & A TERRA - [...] A trajetória da vida certamente inclui muitas características previsíveis com base nas leis da Natureza, mas esses aspectos são muito amplos e gerais para fornecer a “justiça” que buscamos a fim de validar os resultados particulares da evolução – rosas, cogumelos, pessoas e assim por diante. [...] Leis ecológicas previsíveis governam a estruturação das comunidades por princípios de fluxo de energia e termodinâmica [...]. As tendências evolutivas, uma vez iniciadas, podem ter previsibilidade local [...]. Mas as leis da Natureza não nos contam por que existem caranguejos e caramujos, por que os insetos dominam o mundo multicelular e por que os vertebrados, e não as persistentes algas, existem como a forma de vida mais complexa da Terra. [...]. Trechos extraídos de A evolução da vida na terra (Scientific American, 1994), do paleontólogo e biólogo evolucionista estadunidense Stephen Jay Gould (1941-2002).

O POVO – […] Fala-se cada vez mais em nome do povo, hoje. Esse povo [...] tem sobre ele uma nuvem de bons advogados que lhe emprestam generosamente palavras, motivos, poderes, e retiram assim, de seu cliente, uma caução fácil de moralidade. Regimes, partidos, imprensa, literaturas, estéticas, quem não se diz popular? O vento virou de um século para cá, e a consciência está visivelmente desse lado. [...]. Trechos extraídos da obra Escritos sobre Teatro (Martins Fontes, 2007), do escritor, sociólogo, filósofo, semiólogo e crítico literário francês, Roland Barthes (1915-1980). Veja mais aqui.

A FAMÍLIA PEQUENA - Luiza sempre foi uma bela mulher. Além do que era recatada, de educação fina, sendo um exemplo para a família. [...] Seu esposo que também era dedicado e um homem de bem, apareceu com fortes dores no toráx, sendo levado ao hospital, constantando-se enfarto fulminante, vindo a falecer. [...] E foi nessas circunstâncias que Vicente um solteirão empedernido, com os seus quarentas anos, avistou Luiza e procurou aproximar-se, conseguindo tirá-la para dançar. [...] Luiza entregou-se completamente, saciando o seu desejo incontido, descarregando toda a sua ânsia de prazer, nos braços do seu novo namorado. [...] Mas o inesperado aconteceu, mais uma vez para a nossa saciada viuvinha, Vicente não apareceu. Os dias foram passando Luiz esperando e Vicente desaparecido. [...] Corria o mes de dezembro, de tantas festas comemorativas, quando finalmente Luiza, indo a um coquetel de comemoração de fim de ano, deu de cara com Vicente, que procurou escapar do cerco sem conseguir. E Luiza na presença de algumas pessoas, encarou o namorado desertor e entrou de sola em cima dele: - Boa noite, senhor Vicente. – Boa noite, dona Luiza. – O senhor Vicente, eu gostaria de receber uma explicação de sua parte, sobre a casa que o senhor estava para alugar. [...] – Dona Luiza o problema é que achei a grama do jardim muito alta, a casa estava um pouco suja e, também, muito grande. – Ora, senhor Vicente. Quanto a grama o senhor deveria me avisar que eu mandaria aparar. Quanto suja é possivel, pois estava já muito tempo desabitada, agora a casa ser grande, eu não concordo. Eu acho é que a sua mobilia é que é pequena. Trechos do conto extraído da obra Deixa que eu conto (Bagaço, 2001), do escritor, radioalista e publicitário Fernando Castelão (1924-2005).

A INCELENÇA – [...] 1º Filho – Mãe... pra quem o pai deixou o relógio? D. Sindá Ele não deixou nada determinado! Vai com ele no caixão! 2º Filho No caixão? Não, mãe! Eu sou o filho mais velho! Estou na vez!1º FilhoE pra que tu queres? Tu nem sabes ver a hora!2º Filho E tu pensas que és poeta, é?! [...] Miranda A rez é minha! Ele ia ferrar em meu nome! Ainda ontem ele disse!1º Filho Mas que coisa! Ele ia ferrar pra tu? E como ninguém nunca escutou essa história? Miranda Foi seu peste! Tu queres bem dizer que vai ser tua! 2º Filho Aquela rez é filha de uma vaca que eu tenho parte nela! Pois é minha! D. Sindá Não! Não é de ninguém! 2º Filho Vai no caixão também, é?!!! [...]. Trechos da peça teatral A Incelença (Nordeste, 1968), do premiado dramaturgo Luiz Marinho (1926- 2002).




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O caso de Tomé & Vitalina, Hannah Arendt, Stanislaw Ponte Preta, Edward Estlin Cummings, Paul Simon e Art Garfunkel, Irene Ravache, Marcus Vinicius Cesar, Cecília Kerche & Benedito Calixto de Jesus aqui.

E mais:
Fecamepa: quando o furacão dá no suspiro do bandido, de uma coisa fique certa: a gente não vale nada aqui.
Tolinho & Bestinha: Quando Bestinha emputecido prestou depoimento arrepiado aqui.
Onde não tem mata-burro a gente manda ver no trupé & Maíra Dvorek aqui.
Neuroeducação aqui.
Segure a onda & tataritaritatá aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora parabenizando o Tataritaritatá.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.
 

ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...