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quinta-feira, setembro 24, 2020

SCOTT FITZGERALD, EDNA O’BRIEN, LIPOVETSKY, FRANÇOISE SAGAN, ELEANOR CATTON, ELZA COHEN & LUIZ MARINHO


  

DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... ANÁBASE VERTIGINOSA - No meio do caminho, escuridão vertiginosa. Tantos degraus vencidos. Um vulto irreconhecível, encostado num dos cantos, acendeu um cigarro: Subindo? Sim. E me contou que havia descido há tempo, não se sentia bem nem lá em cima, nem cá embaixo, preferia a solidão entre meios. Pude reconhecê-lo com a claridade, era Francis Scott Fitzgerald: A vida é toda um processo de demolição. Existem golpes que vêm de dentro, que só se sentem quando é demasiado tarde para fazer seja o que for, e é quando nos apercebemos definitivamente de que em certa medida nunca mais seremos os mesmos. A vitalidade é demonstrada não apenas pela persistência, mas pela capacidade de começar de novo. Nunca desejei que houvesse um Deus para invocar - desejei frequentemente que houvesse um Deus para agradecer. Ouvi-lhe cada palavra, mais ainda o seu silêncio. Afastou-se sem se despedir. Respirei fundo para retomar minha escalada e uma jovem e bela mulher pousou ao meu lado. Falou-me de sua catábase, apenas por experiência, logo voltaria. Encantado, não consegui identificá-la. Apresentou-se e era a escritora neozelandesa, Eleanor Catton: A terra era apenas para viver e amar. Todos nós queremos ser amados... E precisamos ser amados, eu acho. Sem amor, não podemos ser nós mesmos. A mente acredita no que vê e faz aquilo em que acredita: esse é o segredo da fascinação. Estranhei o tempo verbal da primeira frase, mas não havia tempo para questionar. Ela apressou-se com um beijo, e já se esgueirava na descida, anunciando que logo voltaria, se eu quisesse esperar. Deu-me um aceno de adeus, quase refiz tudo por ela. Era hora de ascender.

 


DUAS PALAVRAS & MUITOS TEXTOS – Da obra da premiada dramaturga e escritora irlandesa Edna O’Brien, conheci a peça teatral Virginia (Theatre Royal, 1981) – muito embora soubesse de uma adaptação de Ifigênia, escrita especialmente para o palco do Crisol em Sheffield em 2003, e de outras mais dum volume reunido -, como também dos romances da trilogia The Country Girls (1960), do livro de memória Mother Ireland (1976), da rumorosa biografia James Joyce: a life (1999) e da aclamada biografia Byron in love (2009). Dela, o belo pensamento: A escuridão é atraída pela luz, mas a luz não o sabe; a luz deve absorver a escuridão e, portanto, encontrar a sua própria extinção. Em nossos momentos mais profundos dizemos as coisas mais inadequadas. Todos nós nos deixamos. Morremos, mudamos - é principalmente mudança - superamos nossos melhores amigos; mas mesmo se eu te deixar, terei passado para você algo de mim mesmo; você será uma pessoa diferente por me conhecer; é inevitável... Leitura em dia, retomo meu percurso, a estrada é longa e fragal.

 


TRÊS PASSOS PARA ASCENÇÃO DO AMOR - Imagem: arte da fotógrafa, videógrafa, produtora cultural e curadora musical, Elza Cohen: Fotografar é expressar em forma de imagem a minha paixão pela diversidade humana. É praticar empatia e o ativismo social que me são inerentes. - Aos quatro cantos e ventos minha vida entre sombras, voos e interrogações: emoções indeléveis, pecados e trevas. Padeço de fome e sede, o que há em mim, vem com o apuro de Françoise Sagan: Desejo tanto que respeitem a minha liberdade que sou incapaz de não respeitar a dos outros. Para mim, a felicidade, é acima de tudo sentir-se bem. Amar não é somente querer, é sobretudo compreender. Amei até a loucura. O que chamam de loucura é, para mim, a única forma sensata de amar. Nem bem assimilo suas palavras, do outro, a inesperada consideração de Gilles Lipovetsky: Na verdade, qual idealização é capaz de se manter, qual sonho pode persistir indefinidamente, quando confrontado com a precariedade natural dos seres e a monótona cantilena da eterna repetição das coisas? Quanto mais os indivíduos são informados, mais se encarregam de sua própria existência, mais o Ego é objeto de cuidados, de autossolicitudes, de prevenções. É de se refletir... Não sei de ódio, aminimigos, perplexidades! A despeito de intolerantes, a cada qual, as trevas dos seus próprios desejos. Da minha parte, cabeça a mil e pés na terra, vivo a fonte de todas as coisas. Até mais ver!

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.


CORPO CORPÓREO / A ESTRADA, DE LUIZ MARINHO

[...] Por esta porta foram-se todos os meus bens... eram simples de boa alma! Ah! Esta casa!... esta casa era uma sinfonia perpétua! Sabe?... Depois que Olívia se foi, não mais fiz sexo. O prazer da carne, já não me toca! Minha excitação, é-me absolutamente indiferente! As poluções noturnas, me são odiosas! Manifestam-se sem sonhos nem estímulos, chegam como indesejáveis e repugnantes vômitos. Eu, apenas existo, como existe uma pedra... Um argueiro... Duramos, apenas... Já não saio paraa o mundo... Meus passos limitam-se até aí nessa soleira... Todos os dias vem um mensageiro, trazer o que necessito. Sabe que não pode entrar, nem esquecer o vinho. No recanto dessa porta, fica dinheiro bastante para lhe prover. Nós não nos simpatizamos, mas, somos necessários um ao outro. [...].

O mensageiro, trecho extraído da obra Corpo corpóreo / A estrada (Comunicarte, 1995), do premiado dramaturgo Luiz Marinho (1926-2002). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 



sexta-feira, junho 23, 2017

O VAZIO DE LIPOVETSKY, FERNANDO ARRABAL, A ESCRITORA DE YAZBEK, NAIR BENEDICTO & QUADRILHA DA PAIXÃO

A QUADRILHA DA PAIXÃO – Imagem: arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez - Lá vem ela faceira feito linda roseira a se exibir no jardim. Uma camisa xadrez aberta entre os seios que são do tamanho das minhas mãos. Um nó na cintura sobre o umbigo provocador qual beijo jogado pra mim, uma saia rodada cheia de rendas, laços e fitas, a realçar suas coxas e pernas incendiando a minha libido. Solta aos passos de dama casamenteira, olhos vivos com todo viço e eu enamorado na sua franja ornada com duas tranças laterais, a imprimir-lhe sedução juvenil nas bochechas rosadas. E o batom encarnado nos lábios me convidando ao prazer, a me levar sorridente pra esquentar a carne nas fogueiras juninas, saboreando roletes de cana, milho assado, queijo de coalho, canjica e arroz doce, sorvendo caldo de cana e uma pinga com a fruta vez: caju, manga, ciriguela, jaca ou cajá, carambola, acerola, laranja e limão. Ah, como é bom nela brincar o meu São João. E seus dedos aveludados alisam o meu gibão de vaqueiro, chapéu e colete de couro, a se engraçar com as perneiras e alpercatas que correram mato, pastagens, caatingas do que sou e fui, tudo da cor de ferrugem ao curtimento, pra que sua pele macia me toque como voz entoando meu aboio pra que o gado invisível e todos os bichos dos campos estejam no céu de estrelas que alumiam mais que presentes no nosso festejo. Ah, como é bom nela brincar o meu São João. En avant tous, en arrière, gritaram! Todos respondiam, pra frente pra trás, casais dando as mãos aos passos marcados: ananvantú, anarriê, alavantú, anarriê. Dancê! Balancê! Changê! Autre fois! Dancê! Mão na mão, passo a passo, lá vou eu no cumprimento às damas e cavalheiros, pelos túneis e caminho da roça, olha a cobra! É mentira! Caracol, desviar, coroação de damas e cavalheiros, grande roda, damas ao centro, o passeio. Era o salvo-conduto: na cintura dela eu me agarrei ao seu rebolado, encangado na sua garupa fui mandando direção por atalhos, moitas, grotas e grotões, do que ela não sabia da mata, do litoral, agreste e sertão que sou, alma nordestina na sua pele de sul que vou passageiro porque ela reina em mim, na água, no fogo, na terra e no ar! E me ajoelhei aos seus pés atrás do oitão, descalçando a sua sandalhinha como quem cuida amante do seu bem-querer. E jurei por toadas o amor do coração entre suas pernas e coxas, pra ter sua saia como cobertor pras noites de frio em plena invernada. A chuva ameaça cair, pouco importa, ah, como é bom nela brincar o meu São João. As fogueiras queimam ao chuvisco, o cheiro de comida boa no ar. Um vento frio e me abrigou em seu ventre, a me fazer seu senhor e feitor no seu corpo de todas as montanhas e plantações, como se fosse uma roda gigante a nos embalar no gira girar de céus e paraísos, pra que eu tenha sempre a certeza de que sou o dono na posse do amor. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aquiaqui.

O VAZIO DE LIPOVETSKY
[...] Não há como não ver que a indiferença e a desmotivação de massa, a progressão do vazio existencial e a extinção progressiva do riso são fenômenos paralelos: por todo lado surge a mesma desvitalização e a mesma erradicação das espontaneidades pulsionais, a mesma neutralização das emoções, a mesma auto-absorção narcísica [...] A sociedade, cujo valor cardeal passou a ser a felicidade e massa, é inexoravelmente arrastada a produzir e a consumir em grande escala os signos adaptados a esse novo éthos, ou seja, mensagens alegres, felizes, aptas a proporcionar a todo momento, em sua maioria, um prêmio de satisfação direta [...] quanto mais as grandes opções deixam de se opor drasticamente, mais a política se torna uma caricatura com cenas de luta livre a dois ou a quadro; quanto mais a desmotivação política aumenta, mais a cena política parece um strip-tease de boas intenções, de honestidade, de responsabilidade e se metamorfoseia em episódio burlesco [...] A impulsividade extrema e desenfreada dos homens, correlativa das sociedades que precedem o estado absolutista, foi substituída por uma regulamentação de comportamentos, pelo autocontrole do indivíduo, enfim, pelo processo de civilização que acompanha a pacificação do território realizada pelo Estado moderno. [...] Nos nossos dias a violência desaparece maciçamente da paisagem urbana e se torna a maior proibição das nossas sociedades. [...] O indivíduo renuncia à violência não apenas porque apareceram novos bens e novas finalidades particulares mas também porque, no mesmo rastro, o outro se encontra privado de substância, tornando-se um figurante vazio de risco [...]. A violência entra no ciclo de reabsorção dos conteúdos; de acordo com a era narcísica, a violência perde sua substância em uma culminância hiperrealista sem programe sem ilusão. Uma violência hard, desencantada [...].
Trecho da obra A era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo (Relogio D'agua, 1983), do filósofo, professor e teórico da Hipermodernidade Gilles Lipovetsky, tratando sobre o narcisismo e as novas relações sociais, a apatia, indiferença e susbstituição do princípio da sedução ao da convicção, expondo em um prólogo e seis capítulos temas como o enfraquecimento da sociedade,d os costumes, do indivíduo contemporâneo na era do consumo de massa, da emergência de um modo de sociabilização e de individualização inédito, numa ruptura como que foi instituído a partir dos séculos XVII e XVIII. Na obra ele traz o conceito de sociedade pós-moderna, o vazio, a sedução vigente e suas consequências, a indiferença pura, a anemia emocional, suicídio e depressão, homo politicus x homo psychologicus, o corpo reciclado e o teatro discreto, o apocalipse now, os mil watts, a solidão e o vazio. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Quadrilha das paixões mais intensas, Vaqueiros & cantadores de Luís da Câmara Cascudo, Terra de Caruaru de José Condé, A setilha do cantador Serrador, a música da Orquestra Armorial, O casamento da Maria Feia de Rutinaldo Miranda Batista, a xilogravura de J. Miguel & Costa Leite, as gravuras de Roberto Burle Marx, a arte de Vermelho & Severino Borges aqui.

E mais:
Viva São João, Quadrilha & Nordeste de Ascenso Ferreira, a música de Luis Gonzaga, Tratada da lavação da burra de Ângelo Monteiro, Terra de Caruaru de José Condé, Viva São João de Artur Azevedo, Noite de São João de Sérgio Silva & Dira Paz, a gravura de José Barbosa, Brincarte de Nitolino, a pintura de Rosangela Borges & Valquíria Barros aqui.
Vamos aprumar a conversa, Augusto Matraga de João Guimarães Rosa, Princípios de uma nova ciência de Giambattista Vico, Canto do último encontro de Anna Akhmátova, a música de Rozana Lanzelotte, Devassos no paraíso de João Silvério Trevisan, a arte de Dercy Gonçalves, o cinema de Roberto Santos, o documentário Moacir arte bruta de Walter Carvalho, a pintura de Eliseo d'Angelo & Vilmar Lopes aqui.
O que são as coincidências & outros ditos inauditos, Haverá amor de Anna Akhmatova, Cântico dos cânticos de Salomâo, a música de Carl Reinecke, Chico Buarque & Elza Soares, a arte de Naldinho Freire aqui.
O catecismo de Zéfiro & o rol da paixão aqui.
História & literatura do teatro aqui.
Vamos aprumar a conversa, Divina comédia de Dante Alighieri, Ensaios de Ralf Waldo Emerson, Macunaíma de Mário de Andrade, a música de Mikko Härki, o teatro de Luigi Pirandello, História de O de Guido Crepax & a pintura de Mark Gertler aqui.
Pensando o ritual de Mario Perniola, Entre nós de Emmanuel Lévinas, Teatro em tempo de síntese de Maria Helena Kühner, a música de Sivuca, o cinema de Wolf Maia & Maria Clara Gueiros, a pintura de Emanuel Leutze, a fotografia de Dorothea Lange, Livro das incandescências de Jaci Bezerra & Programa Tataritaritatá aqui.
Brincarte do Nitolino, Parque humano de Peter Sloterdijk, Viagem ao fim da noite de Ferdinand Céline, a pintura de Georges Rouault, a música de Ivete Sangalo, Aprendizagem do autor de Antonio Januzelli – Janô, o cinema de Mark Robson & Barbara Parkins, arte de Sharon Tate & Isadora Duncan aqui.
E lá vou eu noutras voltas, Variações sobre o corpo de Michel Serres, Tarde demais de Antonio Tabucchi, A jangada de Ulisses de Vianna Moog, a música de Mundo Livre S/A, a fotografia de Raoul Hausmann, a pintura de Aja-ann Trier & a arte de Matthew Guarnaccia aqui.
As mulheres mandam ver nas olimpíadas & a arte de Hubert B. W. Ru aqui.
A festa das olimpíadas do Big Shit Bôbras – o Big Bode do Brasil, Sonhos e pesadelos da razão de Oswaldo Giacoia Junior, Gasolina & Lady Vestal de Gregory Corso, Intelectuais à brasileira de Sergio Miceli, a música de Wanda Sá, a pintura de Augusta Stylianou & Nancy L Jolicoeur, a arte de Banksy & Natalia Gal Stabile aqui.
O sonho do amor, As bodas de Fígaro de Beaumarchais, a Psicologia de Afonso Lisboa da Fonseca, a música de Ana Cascardo, a pintura de Sandra Hiromoto, Luciah Lopez, a arte de Ana Viera Pereira & Ana Maia Nobre aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

GUERNICA & LA MUERTE DE FERNANDO ARRABAL
Entre as obras do poeta, dramaturgo, roteirista e diretor de cinema Fernando Arrabal, primeiramente destaco L'arbre de Guernica (1975), drama surreal de guerra, contando a história de um pintor excêntrico que se aloja em um castelo quando começa a guerra, realçando o amor no meio da crueza da Guerra Civil Espanhola, reproduzindo de forma ficticia o conflito geral em toda a Espanha, culminando com a aniquilação da cidade de Guernica. O destaque fica por conta da belíssima atriz italiana Mariangela Melato (1941-2013). O segundo, o drama Viva la Muerte (1971), contando a história de um jovem que teve o pai entregue às autoridade por suspeita de comunista, por sua própria mãe simpatizante fascista. O destaque do filme fica por conta da sequencia de desenhos do artista, ator e romancista francês Roland Topor (1938-1997) e atuação da atriz francesa Anouk Ferjac. Veja mais aqui e aqui.

A ESCRITORA DA ENTREVISTA DE SAMIR YAZBEK
[...] Sinceramente, eu acho que o mundo em si. De repente ficou muito difícil viver, simplesmente isso. E eu me lembro que há pouco tempo não era assim. Antigamente, havia uma crença comum de que nós iríamos melhorar como humanidade, que hoje eu já não encontro mais. Ficou muito pior do que eu imaginava. E do que muita gente imaginava. As pessoas, os lugares, a literatura, a competição entre os colegas, como se fôssemos executivos. Os leitores que não lêem. E se lêem, não têm o que dizer. E se têm o que dizer, normalmente dizem superficialidades. Acho que foi por tudo isso que eu fui me retraindo. E aí, no começo, como forma de entender o que acontecia comigo e com o mundo, eu achei importante falar sobre isso, mas agora eu queria expandir esse horizonte, eu me sinto presa. Parece que eu fui ultrapassada pelos acontecimentos e que não faz mais sentido pensar como eu pensava. Ou seja, ou eu encontro uma nova forma de escrever, ou então eu vou viver esse eterno tormento de estar sempre insatisfeita comigo mesma. [...] Ter medo do silêncio? Como é que eu posso ter medo do único amigo que me acompanha do início ao fim? A diferença é que esse de agora está preenchido de algo. Algo cujo nome eu desconheço, mas existe. Existe porque eu sinto que existe. Que mais eu preciso dizer?
Trechos da peça teatral A entrevista (2004), extraída da coletânea O fingidor, A terra prometida, A entrevista (Cultura/Fundação Padre Anchieta, 2006) do dramaturgo e diretor teatral Samir Yazbek. Veja mais aqui.

O QUARTO DIA DE LUCIAH LOPEZ
Minha vontade era de estar contigo, sem importar-me com interpretações que venham a ser feitas sobre isso -, não me sinto a caminho do Gólgota pelo fato de amar demasiadamente. Basta a realidade mais divertida do que uma completa incredulidade na existência do Amor. E se me olhas resolutamente nos olhos, posso saber onde reside a felicidade, e, contrariando a própria vida e suas maledicências eu me percebo um novo ser, quando em suas mãos vivencio o crescimento da minha alma. Encerra-se a solidão e eu sou capaz de fazer versos...
Quarto dia, poema/arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
[...] Eu queria documentar a realidade da Amazônia naquele momento, o modo como grandes projetos interferiam na vida das aldeias, como, por exemplo, a usina de Tucuruí. Naquela época eu não achava que o caminho certo para difundir esse trabalho seria o livro. O audiovisual funcionava muito melhor para promover a discussão. Uma coisa era ter o livro pronto, outra coisa era mostrar isso diretamente para as pessoas. Eu sempre me interessei muito pela relação da fotografia com a educação. Eu publiquei muita coisa, tanto no Brasil como no exterior, mas nunca achei que uma revista faria a matéria que eu queria. Então encontrei no audiovisual um modo bastante eficiente de fazer essa junção. Dávamos muitas palestras em escolas, por exemplo. [...] O áudio sobre a Amazônia teve trilha sonora do Hermeto Paschoal. Fiz audiovisuais de outros assuntos importantes também: “O Prazer é nosso”, “Não Quero ser a Próxima”, “E agora, Maria”, todos ligados diretamente à questão da mulher. Também fiz outros focados na questão da terra e na ecologia. [...].
Trechos da entrevista concedida pela fotógrafa e fotojornalista Nair Benedicto, à publicação O índio na fotografia brasileira (2012), por ocasião do lançamento do seu Vi ver: fotografias de Nair Benedicto (Brasil Imagem, 2012), dividido em duas partes: Amazônias (imagens do desmatamento promovido pela construção da Transamazônica e o surgimento das cidades abrigando os migrantes) e Desenredos (com imagens das ruínas e lixões urbanos do garimpo em Serra Pelada e nas terras ianomâmis, entre outras). Veja mais aqui.
 

sábado, agosto 20, 2016

HOBSBAWM, LIPOVETSKY, GAL COSTA, MARTHA MEDEIROS, NGUYEN TUAN, LIPKING & GISELE LEMOS

ANDEJO DA NOITE E DO DIA - Imagem: The walking man (2011), by Shanna Bruschi – Caminheiro voo, andarilho errante. Não tenho onde cair morto, nem onde encostar a cabeça. Não me foi dado o privilégio de ter nas mãos uma das assinaturas do deus de tudo e todas as coisas nas escrituras pros donos da Terra. Quando cheguei já ocupavam tudo, não me sobrou nem areia nas unhas, andejo suspenso no ar: não tenho como pagar pedágio – pago assim mesmo, quer queira ou não, e pago tudo, até à revelia pela vida, pelo oxigênio, pela água, por ter nascido, por estar vivo – é tudo deles e eu sem, só tenho o que é de mim mesmo e que eu não sei, nem tenho nada, remorsos, dissabores. E se tenho vestes nem eram minhas e foram compradas nas feiras e que também são deles, os meus fazem festa comendo vidro de luzes no luxo dos magazines. Só me resta a carne cansada, os ossos doídos, o coração solitário e o olhar para ver o que enxergo no meio do turbilhão dos dias e das noites. Não posso parar, senão serei crucificado pelos credos dos muitos missionários que fazem a curadoria das cidades doentes e se dizem íntimos e portadores de um deus que não é o meu, nem de ninguém, só deles e que me xingam paranóicos sectários de fazer pichação incrédula por onde passo, mesmo quando Deus está comigo e não querem ver, sequer me fitar com suas exaltadas pregações aviltando tudo e todos. Não fujo de nada, pela justiça dos homens fui estornado, marginal condenado ao desterro; pela Justiça de Deus, pagar meus pecados, viandante pelas rodagens de barro batido por longas distâncias, estrangeiro de sempre. Fui tirado do seio da mãe pra aprender a viver conforme as razões de todos. Fui tirado da escola pro trabalho, o meu dever; a escola é pros que podem, os donos de cursinhos também são donos das universidades públicas, como posso me instruir se sou levado a viver atrepado nas árvores e a viajar na brisa quando meu corpo foi condicionado ao ventilador ou aparelho de refrigeração. E se como da fruta colhida no pé, meu corpo foi educado a saborear temperos, sais e açúcares, cozidos, assados, requentados, tudo envenenado e viro enfermo gemendo estrada afora. E se vou caminhante pensamentos suspensos na paisagem do lugar, é que meu corpo acomodado reclama o conforto de automóveis, aeronaves ou mecanismos de pressas, que nem posso ter a não ser tirando fino pra me desviar o caminho e cambaleio engolindo a poeira do asfalto. A tudo vejo e não me vêem: a vida passa, insone voo, a seguir sem adeus. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

O AMOR 
Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais entrará sorridente
Assim como está na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita. Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá o coração destroçado já pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
Por uma casa, um buraco
Ressuscita-me para que a partir de hoje
A partir de hoje a família se transforme
E o pai seja pelo menos o Universo
E a mãe seja no mínimo a Terra, a Terra, a Terra
(O amor, de Caetano Veloso sobre poema de V. Mayakovsky), no álbum Gal Costa Acústico MTV (BMG, 2001). Veja mais aqui.

PESQUISA 
[...] não há como negar que o impacto das atividades humanas sobre a natureza, sobretudo as urbanas e industriais, mas também, como se acabou compreendendo, as agrícolas, aumentou acentuadamente a partir de meados do século. Isso se deveu em grande parte ao enorme aumento no uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural etc.), cujo possível esgotamento vinha preocupando os que pensavam no futuro desde meados do século xix. [...] Os seres humanos só eram essenciais para tal economia num aspecto: como compradores de bens e serviços. Aí estava o seu problema central. [...].
Trecho da obra A era dos extremos: o breve século XX (1914-1991 - Companhia das Letras, 2001), do historiador Eric Hobsbawm, contando em linguagem simples e envolvente, a história da "era das ilusões perdidas". Veja mais aqui.

LEITURA 
O amor já foi uno, concreto e definido. Mas o século mudou e com ele as variantes do amor, que se multiplicaram. Hoje há diversas formatações para vivenciá-lo, são inúmeros os seus significados e ilimitadas as suas maneiras de encantar e transformar. O amor romântico – “eu e você para sempre” – é apenas uma de suas modalidades. O que é o amor, afinal? Impossível resumir num só conceito. Amor é gratidão por alguém ter nos tornado especial. Amor é a realização de um ideal criado ainda na infância. Amor é a possibilidade de repetir o mais importante feito de nossos pais – aquele sem o qual não teríamos nascido. Amor é projetar no outro aquilo que nos falta. Amor é erotismo. Amor é uma experiência sensorial. Amor é carência. Amor é o gatilho para formar uma família. Amor é aquele troço sem razão que bagunça a nossa vida. Que melhora a nossa vida. Que piora a nossa vida. Que justifica a nossa vida. Amor é uma forma de escapar da vulgaridade. Amor é uma mentira que amamos contar. Amor é um álibi para crimes e casamentos. Amor é a vingança contra a objetividade. Amor é divisão de fardo. Amor é um antídoto contra a solidão. Amor é uma invenção do cinema e da literatura. Amor é paz. Amor é a busca de um tormento que torne a vida mais emocionante. Amor é a vitória do cansaço, já que paixões sequenciais exaurem. Amor é o nome que se dá para uma emoção que nos domina e do qual não queremos ser libertados. Amamos pais, irmãos, amigos. Amamos os namorados que tivemos e os que ainda teremos, amamos nosso marido até o dia em que ele não volta para casa, amamos nossos ídolos até que eles nos decepcionem, amamos nossos filhos mesmo que nos decepcionem, amamos nosso cão e nosso gato quase acima de Deus, amamos Deus acima de tudo pois cremos que ele não nos faltará, amamos a nós mesmos apesar de saber que nem tudo é amável em nós. Amor não é uma desculpa esfarrapada. Ela é muito bem costurada. Amor pode brotar de um olhar, de um beijo, de um desejo. Amor é encasquetar. Se alguém lhe faz perguntas a respeito, você, na falta de argumento melhor, responde que é amor, que sempre foi amor, e ninguém espicha a conversa porque contra o amor não há réplica. Como pode alguém ter amado uma pessoa ontem e hoje amar outra, como pode ter amado uma mulher e hoje um homem, como pode amar duas mulheres ao mesmo tempo, como pode já ter vivido com vários, como pode sentir amor por um salafrário, como pode sentir-se inteiro repartindo-se em dois, como pode ser poli, multi, bissexual, bígamo, hetero, homo, fiel, infiel, amoral? Como, diante deste sentimento, ter alguma certeza?  O amor paira acima das classificações. Tem mil jeitos, mil formas, mil dobras. É a nossa maior proeza.
O amor e tudo que ele é, da escritora poeta gaúcha Martha Medeiros. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Uma nova modernidade nasceu: ela coincide com a "civilização do desejo" que foi construída ao longo da segunda metade do século XX. Essa revolução é inseparável das novas orientações do capitalismo posto no caminho da estimulação perpétua da demanda, da mercantilização e da multiplicação indefinida das necessidades: o capitalismo de consumo tomou o lugar das economias de produção. [...] Daí a condição profundamente paradoxal do hiperconsumidor. De um lado, este se afirma como um "consumator", informado e "livre", que vê seu leque de escolhas ampliar-se, que consulta portais e comparadores de custo, aproveita as pechinchas do low-cost, age procurando otimizar a relação qualidade/preço. Do outro, os modos de vida, os prazeres e os gostos mostram-se cada vez mais sob a dependência do sistema mercantil. Quanto mais o hiperconsumidor detém um poder que lhe era desconhecido até então, mais o mercado estende sua força tentacular; quanto mais o comprador está em situação de auto-administração, mais existe extrodeterminação ligada à ordem comercial. O hiperconsumidor não está mais apenas ávido de bem-estar material, ele aparece como um solicitante exponencial de conforto psíquico, de harmonia interior e de desabrochamento subjetivo, demonstrados pelo florescimento das técnicas derivadas do desenvolvimento pessoal bem como pelo sucesso das sabedorias orientais, das novas espiritualidades, dos guias da felicidade e da sabedoria. O materialismo da primeira sociedade de consumo passou de moda: assistimos à expansão do mercado da alma e de sua transformação, do equilíbrio e da auto-estima, enquanto proliferam as farmácias da felicidade. Numa época em que o sofrimento é desprovido de todo sentido, em que os grandes referenciais tradicionais e históricos estão esgotados, a questão da felicidade interior "volta à tona", tornando-se um segmento comercial, um objeto de marketing que o hiperconsumidor quer poder ter em mãos, sem esforço, imediatamente e por todos os meios. A crença moderna segundo a qual a abundância é a condição necessária e suficiente da felicidade do homem deixou de ser evidente: resta saber se a reabilitação da sabedoria não recompõe por sua vez uma ilusão de outro gênero. Reinvestindo na dimensão do "ser" ou da espiritualidade, o neoconsumidor está mais bem inserido no caminho da felicidade que seus predecessores? A civilização consumista distingue-se pelo lugar central ocupado pelas aspirações de bem-estar e pela busca de uma vida melhor para si mesmo e os seus. [...] O descarte dos artigos já não é provocado pela mediocridade da fabricação, mas pela economia da velocidade, por produtos novos, mais eficientes ou que respondam a outras necessidades. [...].
Trecho extraído da obra A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo (Companhia das Letras, 2007), do filósofo, professor e teórico da Hipermodernidade Gilles Lipovetsky, investigando a a felicidade, o bem-estar, a produção de sentidos, idéias e necessidades em torno da contemporaneidade do hiperconsumo, da hiperindividualização e do hiperdesejo. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do escultor vietnamita Nguyen Tuan.

Veja mais sobre o projeto de extensão Infância, Imagem e Literatura, Direito & Psicanálise, Décio Pignatari, Cora Coralina, Agostino Carracci, Led Zeppelin, Antunes Filho, Gênero & Sexualidade, Vera Fisher & Mariana Nogueira aqui.

DESTAQUE
A arte da psicóloga, professora de música e diretora do grupo Conto&Cena, Gisele Sant'Ana Lemos, editora dos blogs Biologia do Amor e Diana Balis, e coordenadora da Revista Poesia Legal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nude, do artista plástico estadunidense Jeremy Lipking.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...