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domingo, agosto 17, 2025

ASTRID ROEMER, AMANDA MONTELL, CRISTINA RIVERA GARZA, CUMADI FULOZINHA & ARTE DA ESCOLA


 Imagem: Acervo ArtLAM.

[...] a questão-chave investigada nesta pesquisa diz respeito a desconstruções estéticas vocais - com foco na movimentação da Vanguarda Paulista - e como isso pode estar associado ao feminino. [...] buscou contribuir para uma extensa gama de pesquisas que relacionam música a questões de gênero, além de apontar a coexistência colaborativa entre diversos métodos para a análise de canção das mídias. [...].

Trechos extraídos da dissertação de mestrado sob a temática Se a obra é a soma das penas: um estudo feminista sobre as cantoras da Vanguarda Paulista (USP, 2018) e ao som do álbum Mulher Bomba (2022), da compositora, pianista, cantora, professora, preparadora vocal e ativista Luísa Toller (Luisa Nemésio Toller), em parceria com a escritora, atriz e slammer Luiza Romão.

 

Heptamerão: até que a morte os separe... - No primeiro dia era janeiro nos olhos estivais de Suzanilza, a sonhar Egipcíaca de Bandeira, como se fosse a rainha de maio da Vita de Sofrônio. Entretida com o que se tornara seu Heptameron de Navarre, mais se embalava com as leituras dos versos adorados da Soror Juana Inés, alentando-se com outras de tantas preces, quando empinava os seios para madurar nas estrelas, no afã de que de lá refletissem aos olhos do bem-amado longínquo, sabia ela não tardaria a chegar. Era o chamado do amor numa espera de séculos e por todas as suas tardes e noites suspirantes. No segundo dia do seu devaneio profundo, o espetáculo do crepúsculo outonal: lá estava ele vencendo as distâncias mais remotas para ancorar seu Pavão Mysterioso na varanda do quarto dela. Iluminada pela recepção, mais se fez bonita lua decotada, pronta pro seu senhor desejado. Ele abraçou-a com suas mãos de Proteu, dela se deixar à mercê de suas investidas por entre saia, a desabotoar seu corpo virginal castiço, com ginga pro rastapé, bate-coxa, um galope à beira-mar. Ele descobria o labirinto da intimidade dela e a cada instante reiniciava e, por azo, fruía do seu inebriante perfume arrebentando o tempo, agitando por dentro para que ela se fizesse dilúvio com seus belos adornos ao seu dispor. E mais se gabava porque o vento trazia a tormenta e tanto lhe foi dado atiçando a lareira dela, para que ela crescesse vultosa e não mais donzela, ocupando-a a instigá-la, de perder as vestes todas e ser só dele, a se queimar com o seu fogo ardente. Ela astuciosa serviu-lhe fagueira, a boca entreaberta e suas águas escorriam. Um talho recíproco em seus polegares selou definitivamente o pacto de sangue. A alvura dela imaculada o fazia claudicar extasiado diante do enlace dos nubentes. E naqueles lábios escarlates ele se lambuzou com o gosto do batom, saboreava nela tantos quantos deliciosos bem-casados. Dali talvez dias mais, ela noivava esponsal de Getulídio, um aplicado bancário de somas e contas, agora dono de seu coração e um calendário repleto de brindes e libações. No terceiro dia de quantos meses a lua de mel se prolongou com a ascensão primaveral no ramalhete diário de bem-aventurados e os dois se engalfinhavam pelos lençóis do tempo e até as horas cúmplices se estiravam pelos colchões de nuvens migratórias, impressionando-o com o Olho de Hórus no trancelim dela. Logo os filhos vieram. O primeiro a nascer foi Ínvio, um primogênito na empáfia de todas as satisfações. Um ano depois, a filha, Maria Lua, coroando o casal. E viviam para si de quase olvidar o crescimento do filho a olhos vistos, enquanto a filha engatinhava sonhos que serviam de folguedos para sua felicidade imorredoura. Definia-se a descendência, de quase não conseguirem segurar o trupé do coração. E um sobressalto repentino, a família e, o que era cor-de-rosa, agora singrava as obrigações e cuidados imprevisíveis com o espelho quase se espatifando inadvertido, trincando o vidro dos festejos. No quarto dia a invernada súbita e a dança dos erros com a morrinha, o grande não, os desacertos, quantos percalços fizeram a barra mais pesada pra eles, a poeira do deserto, puxa vida! Amargurados, sequer notaram os filhos crescidos e tomando o rumo das suas ventas. Um dia ao despertar com a braguilha pelo avesso: um brinco na orelha do filho. Como é? O alarme soava: o rapaz descobriu-se outra que não a sua, era agora Tyrésias. Com o escândalo Maria Lua minguou fazendo coro, não mais aquela porque outro era o seu teimar, João Sol – Maria Joãozinho para íntimas de sua sororidade solidária, luz própria, próprio mando e firmeza de fé. Clamores exacerbados: O que foi que eu fiz, meu Deus? Era o caos nos olhos descabelados em todas as direções: uma heresia nos seus bíblicos poréns, como se não poupasse sua condenação - Maldita androginia! O ridículo, a posteridade, a reputação, tudo revirado aos relâmpagos e trovões. Uma sentença secreta mostrando os dentes na aflição paterna. No quinto dia ensolarado, o verão era enorme como um dia de fome, lágrima alguma evaporava, não havia perdão e era o que mais punia. A notícia da tentativa de suicídio do filho liquidava de vez as forças maternas restantes e não havia como ela resistir. Na sua agonia estertorava com a ameaça de que a filha fugira de casa na madrugada. O pai se vingou: ia enxotá-los de qualquer jeito. Suzanilza estava cônscia que ia morrer, esgotada pelas demandas: era quase uma Fênix deplorada e que se fez cinzas para jamais ressuscitar - uma estrela perdida nas constelações infindas. Quando ele a viu quase uma estátua de pedra, sabia que seria nunca mais: a viuvez, os cravos de cemitérios, os choramingos, nada havia como abrandar a sua dor. O riso preso pela alegria que se fora com o teto que desabou apagando a memória, lugares e palavras. Entre as mãos escondia a face, a morte adiantava a sua parte e não moveu um dedo sequer: ela viva jamais o deixaria morrer. Agora, não mais. Era o sexto dia pluvioso, a desmemória e não podia ignorar o álbum de fotografias. Foi-se a esperança e o que ficou para trás. Naquele momento todos as memórias se esvaíram na escuridão. Tentou reabilitar-se no penúltimo degrau da escada para destruir o sinaxário, como se caçasse quem roubou o segredo de Deus e raptou para si a palavra perdida. Ali sentia e era incapaz de entender seu próprio sentimento. Muitas noites naquela longa travessia soturna com a herança apenas de cada vez contar a sua história e a sensação reiterada de nunca mais. Enfim, no sétimo era dia branco e não sabia. Passou a vida a limpo, lamentou tantas vezes terem se estranhado por coisa de pouca monta, as cenas de ciúmes, ausências punitivas, o descanso, o silêncio valetudinário, esgotava-se. E uma luz nas suas trevas: Quem é ela? Vinha calma, cândida, vestida com seu manto branco reluzente, cocar de penas brancas e, ao peito, a insígnia com um punhal branco afiado e lâmina para baixo. Quem é ela? Vinha carregando o seu bastão celeste feito de pau-brasil banhado pelos raios de Tupã, à cintura o cordão de Iara e o sorriso confortador: Sou Catxuréu: O fim será sempre o início de um novo começo... Não ouvia, nem falava. Sabia apenas que ela viera da primeira morte do mundo para levá-lo pela ponte dos que se perderam, livrando-o de Luison – o deus da morte ruim. E o acompanhou até a sua última gota de vida, era 1º de abril. Até mais ver.

 

Nazik Al-Malaika: A noite pergunta quem eu sou. Eu sou sua intimidade insone, profunda e escura. Eu sou sua voz rebelde... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Annie Proulx: Somos todos estranhos por dentro. Aprendemos a disfarçar nossas diferenças à medida que crescemos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Martha Medeiros: Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo... O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

ESCOTOMAS - Espumante: \ Esta área cega do campo visual \ é uma série de \ flashes de luz em movimento. \ O fato de saber \ coisas \ só porque \ o fato de imaginá-los \ a mente vê \ o que quer ver \ claramente. \ A cama. \ A cicatriz.

REENCARNAR - O luto é uma questão de excesso de ordem. \ Luto é a mesma coisa que tristeza? \ Certamente ela já teria se perguntado isso antes. \ Não sei o que ele poderia ter perguntado a si mesmo. \ Se em vez de irem a uma festa \ tivessem ficado sozinhos em casa, sem dúvida teriam chorado. \ Sem dúvida: essa frase me assusta. \ É possível que o homem e a mulher tenham ficado em silêncio em cômodos diferentes da mesma casa. \ Casas grandes acomodam a solidão de seus habitantes. \ Uma frase completa é como uma sala onde uma mulher ou um homem chora sem perceber. \ O céu nunca esteve tão azul. \ A tristeza é frequentemente expressada através do choro. \ Também é comum que a tristeza seja inexprimível. \ Tristeza é a mesma coisa que pesar?

Poemas da premiada escritora, tradutora e crítica mexicana Cristina Rivera Garza, autora de Autobiografía del algodón (2020), El invencible verano de Liliana (2021) e a sua coletânea completa de poesias, Me llamo cuerpo que no está (2023).

 

BRANCO QUEBRADO - […] E o vento alísio da tarde trouxe o ar do mar. "Como está a cozinha?", ela disse: "Vai demorar um pouco para tudo ficar bem macio." Um aceno da avó e ela correu para a cozinha para colocar tudo em fogo baixo e finalmente começar a lavar roupa. A avó entrou na cozinha, como se fosse direto para o banheiro. Parou quando ouviu a máquina de lavar funcionando e olhou para ela com curiosidade. [...] Ela continuou convencida de que havia nascido na família errada, no país errado, na época errada. E, no entanto, eles conseguiam ficar lado a lado e recuperar o fôlego na foz do Rio Suriname. [...]. Trechos da obra Gebroken wit (Prometheus, 2019), da escritora e professora surinamesa-holandesa Astrid Roemer (Astrid Heligonda Roemer), no qual conta sobre três gerações de surinameses, a avó Bee, sua filha Louise e seus cinco netos, tentando encontrar seu caminho no mundo, no Suriname e na Holanda, enquanto segredos obscuros de família estão em jogo. Em uma entrevista concedida (Center For The Art Of Translation, 2023), ela expressa que: [...] é um romance que te toca profundamente. É um livro físico. Comer e preparar refeições, beber, pensar e se envolver com a sexualidade são atividades físicas. Esse é o paradigma desses romances, que formarão uma trilogia. [...] Fundamentalmente, eu nunca tinha ido embora. Por volta da virada do século, depois da minha trilogia de 1.000 páginas, Impossible Motherland, a então respeitada revista feminista Opzij chegou a me nomear uma das três mulheres mais importantes dos últimos anos. Eu queria dar ao meu trabalho a chance de se conectar com a sociedade holandesa e alcançar uma geração mais jovem. E enquanto minha carreira estava voando alto em público, eu estava lutando com constantes arrombamentos em meu endereço residencial e com telefonemas ameaçadores de estranhos. Eu havia me libertado de certos laços íntimos. Eu estava pronta para escrever romances como Off-White e Dealer's Daughter, junto com novos poemas que expressariam minha visão de mundo cosmológica. Eu sentia um desejo intenso por um habitat de língua inglesa. Eu me estabeleci na Escócia e em Skye, de onde alguns dos meus ancestrais haviam partido para o Suriname. Eu era tão feliz lá, só eu e minha gata Steffi. Agora estou redescobrindo o lado estadunidense dos meus primeiros anos em antigas canções de amor. [...]. É também autora de On a Woman's Madness (1982).

 

A LINGUAGEM DO FANATISMO - [...] as palavras são o meio pelo qual os sistemas de crenças são fabricados, nutridos e reforçados; seu fanatismo fundamentalmente não poderia existir sem elas. [...] a linguagem não funciona para manipular as pessoas a acreditarem em coisas que não querem acreditar; em vez disso, ela lhes dá a liberdade de acreditar em ideias às quais já estão abertas. A linguagem — tanto literal quanto figurada, bem-intencionada e mal-intencionada, politicamente correta e politicamente incorreta — remodela a realidade de uma pessoa somente se ela estiver em um lugar ideológico onde essa remodelação seja bem-vinda. [...]. Trechos extraídos da obra Cultish: The Language of Fanaticism (Harper, 2021), da escritora e linguista estadunidense Amanda Montell, que noutro livro Wordslut: A Feminist Guide to Taking Back the English Language (Harper, 2019), ela expressou que: […] Um dos conselhos menos úteis da nossa cultura é que as mulheres precisam mudar a maneira como falam para soar menos "como mulheres" (ou que pessoas queer precisam soar mais heterossexuais, ou que pessoas de cor precisam soar mais brancas). A maneira como qualquer uma dessas pessoas fala não é inerentemente mais ou menos digna de respeito. Só soa assim porque reflete uma suposição subjacente sobre quem detém mais poder em nossa cultura. [...] Uma das formas mais sorrateiras pelas quais esses preconceitos se manifestam é que, na nossa linguagem, na nossa cultura, a masculinidade é vista como o padrão. [...] Se você quer insultar uma mulher, chame-a de prostituta. Se você quer insultar um homem, chame-o de mulher. [...] Também vivemos numa época em que vemos veículos de comunicação respeitados e figuras públicas circulando críticas à voz feminina – como a de que elas falam com muita fricção vocal, usam palavras como "literalmente" e "literalmente" em excesso e pedem desculpas em excesso. Eles rotulam julgamentos como esses como conselhos pseudofeministas, visando ajudar as mulheres a falar com "mais autoridade" para que possam ser "levadas mais a sério". O que eles parecem não perceber é que, na verdade, estão mantendo as mulheres em um estado constante de autoquestionamento – mantendo-as quietas – sem nenhuma razão objetivamente lógica, a não ser o fato de que elas não soam como homens brancos de meia-idade. [...].

 

MINHA CUMADI FULOZINHA, DE GIVA SILVA

Somos filhos da Mãe da Mata e tivemos com ela, cada qual, as suas experiências. Justamente por isso mesmo: desde a mais tenra idade a Cumadi Fulozinha faz parte das nossas vidas. E há quem, como eu e o autor desta obra, tenha vivenciado muito e tanto, a ponto de, em si, manter sagrada as marcas ancestrais vivas em sua espiritualidade. Afinal, confesso: até hoje ela vive comigo. Além do mais, outras coisas contadas e cantadas: somos causas e consequências de histórias - todas emergentes a cada dia, a cada ano vivido, em cada momento do presente que passou agorinha mesmo. Eita! Foi. Inventamos estórias por vivermos dos porquês, fatos, fantasias, devires. Vivemos do que vem de dentro: o que é e será sempre. Enfim, somos todos hestórias (LAM).

Texto escrito por mim para a publicação do livro Cumadi Fulozinha (2025), do educador, comunicador e militante indígena Giva Silva (Givanildo M. da Silva), que é o idealizador e coordenador da Tv Imbaú. O livro que se encontra em pré-venda é memorialístico e onírico, mergulhando nas lembranças de um menino guiado pelo avô num universo de descobertas infinitas. No centro dessa jornada, como objeto de fascínio e curiosidade, está uma das figuras mais enigmáticas e fundamentais da cultura indígena e popular do Nordeste: a protetora das matas, Cumadi Fulozinha. Com uma narrativa que oscila entre o real e o imaginário, o texto evoca não apenas as memórias afetivas da infância, mas também a força mítica dessa entidade guardiã, cuja presença transcende as histórias sobre ela para se tornar um símbolo de resistência e mistério. O avô, como narrador e guia, conduz o menino (e o leitor) por um mundo, no qual os limites entre a realidade e o sonho se dissolvem, revelando a profunda conexão entre a cultura ancestral e a formação de um imaginário pessoal. Assim, a obra comemora a tradição oral, o afeto familiar e o poder das histórias que moldam quem somos—ou quem desejamos ser. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

ARTE NA ESCOLA

Arte dos alunos da Escola Municipal Ivonete Ferreira Lins & do Ginásio Municipal Fernando Augusto Pinto Ribeiro, de Palmares – PE. Confira aqui e aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Acontecerá entre os dias 18 e 22 de agosto, na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, em Palmares, a 18ª Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco, com a temática Palmares de todos os saberes: cultura popular na voz do povo. Dentro da programação, no dia 19 de agosto, nos turnos da tarde e noite, realizarei a palestra Cordel, contos & causos de Palmares: Narrativas da Mata Sul pernambucana.

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.


 

quinta-feira, agosto 20, 2020

CORA CORALINA, DÉCIO PIGNATARI, KARL KRAUS, MARTHA MEDEIROS, ROMAN VISHNIAC & ARGEMIRO PASCOAL


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... O EXTRA NO HORROR DE CADA DIA... Passos errantes, de mil em mil, todo dia, conto nos dedos. Sigo na cidade a céu aberto e gente de gelo por ruas e descampados nem sabem dos que morreram desde anteontem, ou melhor, desde o outono, depois das festas do carnaval. As minhas mãos são rios florestais, raios e trovoadas, auroras de mares boreais e geografias inventadas ao deleite, porque a vida está difícil, quase impossível respirar nessa hora de zoadas, indiferenças e aflições. Se colho frutas na estrada, dos galhos não sei envenenados e insetos que nunca vi na fuligem negra do asfalto, enquanto meus pés varrem o mundo na poeira dos ventos e na faixa de pedestre o semáforo apita iminência, para Cora Coralina avisar: O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher. Desço a ladeira de pedras e quebro a redoma, a cidade desaba do céu escuro, com todas as paisagens dissolvidas, como se a amanhã fosse a tarde anoitecida e daí, não sei mais de nada.

DE DOIS PARA MAIS DE MIL A CADA DIA (Imagem: The Last Days of Mankind – A Visual Guide to Karl Kraus’ Great War Epic, Artwork by Deborah Sengl). – Dois mundos saem do labirinto, e daí eu não sei qual deles sobreviverá, talvez nenhum. Qual é. Sou esse trânsito louco engasgado na encruzilhada, aos gritos e buzinas, ninguém se entende, estranhos com ofensas mútuas de desumanos aos esparros, todos aos esculachos recíprocos, a nossa barbárie, quantos selvagens, isso somos afinal, reduzidos a isso – a amígdala cerebral encolhida, tão se encolhendo mais, num estalo, sumiu e não mais Homo sapiens ou faber ou ludens ou Deus de Harari, nem nada mais. O chão é móvel e me leva para longe deles. Do zoadeiro da gente de gelo e dos sorridentes de Arcimboldo, em cada esquina uma medusa atônita com o Grito deMunch repete em eco de Décio Pignatari: Poesia é a arte do anticonsumo, e ele, logo atrás me diz: O que me interessa hoje? Passar da tecnologia para a sabedoria. E passam por mim, e são muitos os vultos e envultados multicores e o riso de cada um deles é um quebra-cabeça cheios de charadas, enigmas de não sei quando, ah esse mundo não é mais o mesmo, eu sei; essa vida a qualquer hora vai parar, eu sei, o mundo já parou e ninguém sabe é se haverá quem esteja vivo depois que tudo isso passar, ou se a espécie humana se salvará da extinção daqui mais algumas décadas, não sei, que o diga Karl Kraus: A guerra, a princípio, é a esperança de que a gente vai se dar bem; em seguida, é a expectativa de que o outro vai se ferrar; depois, a satisfação de ver que o outro não se deu bem; e finalmente, a surpresa de ver que todo mundo se ferrou. Ele sorri e ironicamente arremata: O progresso técnico deixará apenas um problema: a fragilidade da natureza humana. Baixei os olhos diante disso e ele se foi com ar de desencanto. Eu sei, quando não somos os carrascos de nós próprios, somos as vítimas para todos nós. Coisas de humanos.

TRÊS IDAS & QUASE NENHUMA VOLTADiante da ameaça de extermínio que nos ronda há tempos, me bate aquela sensação sentida ao ler as obras do fotógrafo e microbiologista russo Roman Vishniac (1897-1990), famoso por filmar a cultura judia antes do Holocausto: Estes são os rostos de crianças que abracei, beijei e amei. Não posso imaginar que eles estejam mortos, que ninguém sobreviveria... Um milhão e meio de crianças entre os seis milhões... Mas isso eu sabia... Eu queria salvar seus rostos, não suas cinzas. Você pode fazer alguma coisa com isso? Sim, você pode chorar. E chorei muito, tanto até e Martha Medeiros sussurrou na minha desolação: Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande, é a sua sensibilidade sem tamanho. Sim, eu sei. E pude abraçá-la para dizer sim e sou pau-brasil solitário na devastação, em extinção e pronto. Celebro a vida sobre todos os mortos do outono ao inverno, a vida deles para todos viverem. E os levo, pé na estrada, cidade a céu aberto. Gente de gelo nas ruas ermas, passos errantes conto nos dedos. Até mais ver.

ARGEMIRO PASCOAL
A arte do dramaturgo Argemiro Pascoal (1948-2012), criador do Teatro Amadores de Caruaru (TAC), em 1957, e do Teatro Experimental de Arte (Arte), em 1962, criador e realizador do Festival de Teatro Estudantil do Agreste (FETEAG), a partir de 1982, e é autor das peças O testamento, Festa de casamento, O bordel, A epopeia do beato, Um canto de amor, País de Caruaru. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


terça-feira, janeiro 16, 2018

BORGES, MARTHA MEDEIROS, CHLOË HANSLIP, TOYNBEE, MUMFORD, JEAN-MICHEL JARRE, JO HOWELL, CANAVIEIROS & EDUCAÇÃO AMBIENTAL

SALVE A VIDA! - Imagem: arte da artista visual e fotógrafa britânica Jo Howell. - Era cedo na vida e escurecia pra todo lado. Desde sempre aprendi com a noite. Já de dia quantas portas eu bati no meu desespero, nenhuma abriu. Um ou outro ombro amigo, vez ou outra, quando em vez. A dor era minha, paredões intransponíveis e o mundo uma caixinha de surpresas, repetia o meu nome muitas e mais de mil vezes, premido nas sombras. Era só o início e eu não sabia de nada, segredos inconfessáveis, gestos insuspeitos de degredo, porque a um só tempo ninguém sabia nada, ninguém entendia nada, ô gente mais desligada e a vida e o que der, conversa fora, lorotas, intrigas, opiniões canhestras senão equivocadas, falam de si e do que são, apenas, mais nada vale a pena, outras escuridades que eu nem sabia. Cada um sonhava mais do que podia e ainda sonham o que não podem, arrogando nobreza pra não dizer de patifarias, expunham santidades e se dizem espada da justiça, na verdade só e tão somente enredamentos malévolos pra rirem sem graça e para mostrarem o ideal do que não são, como se ricos mais abastados na soberba ao invés de miseráveis, pobres de espírito, só sabem de suas ladainhas de unhas encravadas na peleja do jogo pra gastar o tempo, a novela da desgraça alheia, o noticiário sanguinário, a dor de cotovelo, carestia na folga do domingo – aprendi a ver o pretume por trás dos agradáveis sorrisos. Pra mim, uma esfinge dita o enigma, uma cena – o blecaute do humano em nome da razão - e toda vida é só o estalar dos dedos ou basta apertar um botão, pronto, como se num toque de mágica da caligem pro céu azul ensolarado. Isso eu sabia e aprendi com a vida na cara e sei da efigie do embusteiro – pra quem vende gato por lebre, golpes na leseira alheia - e, ao menor aperto, ah, já vi muito e em todo momento cai uma e as tantas máscaras do rei ficar nu e o estupor é pra valer. Nem adianta abanar os olhos paralisados da face desmascarada, remorsos de prontidão, sequer podem levantar a vista, só ao rés do chão. Recorre-se a tudo, nada a mitigar o aturdido, o próprio nem sabe o que faz e fez. Como não tenho do que fugir já elegi a vigília dentro do meu desterro e o que virá depois é previsível por tanto golpe como se nada modificasse agora o de antes, nada deu certo, esforços inúteis, como se apenas nascesse pro arrependimento, todos nós. No mundo mesmo se tudo mudou sem medidas, nada mais que hálito de ontens, pretexto de nada. É nesse pé que as coisas estão, ao cabo de não sei quantas horas ou dias, assim o desconforto. Olho pro amanhã e sei quão grave tudo pode ser e será justo pra mim que perdi a minha mãe dentro de mim mesmo, órfão na interminável tortura e não posso me esquivar por não querer e nem ter do quê, apenas vivo e vou adiante pro que der e vier, direto ao assunto. É possível supor ser melhor agir e calar por enquanto – nem adianta falar, melhor não dizer nada pra não empiorar as coisas tão saturadas de carradas de razões e um abismo no meio entre o que é de lá e o de cá e o dali e o daqui, chegando ao ponto em que não posso mais me demorar em contornar desde já o absurdo abissal de ser eu próprio e outro e muitos que de mim emergem ao paradoxo diante de toda e qualquer rede ortodoxa, toda e qualquer insana heterodoxia. Deus salve a vida! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o instrumentista, compositor e produtor musical francês Jean-Michel Jarre Live in Monaco & The Conection Concert; a violinista britânica Chloë Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - A autocritica e a autocorreção, que são muito raras nos seres humanos e são manifestações de uma maturidade e de uma força espiritual que representam uma garantia de sucesso para o futuro. Pensamento do historiador britânico Arnold Toynbee (1889-1875).

A CIDADE – [...] devemos fortificar-nos para uma tortura: para gozá-la, devemos ficar de olhos abertos, mas aprender a fechar o nariz ao mau cheiro, os ouvidos aos berros de angústia e terror, a goela às convulsões do nosso estômago.  Acima de tudo, devemos ficar com o coração de gelo e conter qualquer impulso de ternura e piedade, com uma verdadeira rigidez romana. Todas as grandezas serão aumentadas: não menos as grandezas da mesquinhez e do mal. Apenas um símbolo pode fazer justiça ao conteúdo daquela vida: uma fossa aberta. E é pela fossa que iremos começar. [...]. Trecho extraído da obra A cidade na História (Martins Fontes, 2008), do historiador, professor, escritor e crítico literário estadunidense Lewis Mumford (1895-1990), apresentado um retrato arrojado e imaginativo do desenvolvimento humano como ser religioso, político, econômico, cultural e sexual.

DELIA ELENA SAN MARCODespedimo-nos numa das esquinas do Onze. Da outra calçada toprnei a olhar; você se tinha virado e dava-me adeus com a mão. Um rio de veículos e de gente corria entre nós; eram as cinco de uma tarde qualquer; como iria eu saber que aquele rio era o triste Aqueronte, o insuperável. Não nos vimos mais, e um ano depois você tinha morrido. E eu, agora, busco essa recordação, e olho-a e penso que era falsa, e que por trás da despedida trivial estava a infinita separação. Na noite passada não saí depois de jantar e reli, para compreender estas coisas, o último ensinamento que Platão põe na boca de seu mestre. Li que a alma pode fugir quando morre a carne. E agora não sei se a verdade está na aziaga interpretação ulterior ou na despedida inocente. Porque se as almas não morrem, é perfeitamente justo que em suas despedidas não haja ênfase. Dizer-se adeus é negar a separação, é dizer: Hoje bricarmos de nos separar, mas amanhã nos veremos. Os homens inventaram o adeus porque se sabem de algum modo imortais, ainda que se julguem contingente e efêmeros. Delia: um dia continuaremos – junto de que rio?  - este diálogo incerto e nos perguntaremos se alguma vez, numa cidade que se perdia numa planície, fomos Borges e Delia. Entraído da obra O fazedor (Bertrand Brasil, 1987), do escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Veja mais aqui.

POEMA 122você pra lá com seus cachorros / sua insônia de madrugada / sua mania de roer as unhas / suas brigas pelo telefone / e seus acessos de fúria e nostalgia / eu pra cá com minhas doses de uísque / meus porta-retratos, meus diários / minha luz acesa até tarde / minha tosse e meus suspiros / meu amor e loucura, minha alergia / você pra lá com seus sonhos de cowboy / com suas entranhas, sua família / eu pra cá com minhas filhas / meus desmaios e suor / você pra lá / eu pra cá / enfim, sós. Poema extraído da Poesia reunida (L&PM, 2011), da poeta gaúcha Martha Medeiros. Veja mais aqui e aqui.

CULTURA CANAVIEIRA & MEIO AMBIENTE
[...] um resgate histórico sobre as formas de introdução da cana-de-açúcar em território nacional a partir de seus interesses mercadológicos, demarcados por uma colonização orientada pela exploração que, organizada aos moldes do plantation – monocultura, exploração e exportação – e com vistas à geração de lucro, rompeu o equilíbrio natural. A instauração da monocultura comprometeu a qualidade ambiental e humana, as quais, há mais de quinhentos anos, ainda repercutem de maneira consolidada em nossa atualidade, indicando que o passar dos anos não deu início a uma nova história. Esta é a realidade que se reflete na pele, nos corpos e nas mentes dos cortadores de cana. Estes se submetem aos limites de suas forças físicas, agora em concorrência com os caprichos da tecnologia via mecanização no campo, e acabam por recorrer, de maneira inédita ou não, à Educação de Jovens e Adultos, como fonte de alimento para novas perspectivas de vida menos degradantes do que as encontradas nos canaviais. Nesse contexto, tendo em vista a relevância de se tomar a realidade cotidiana como ponto de partida, para o desenvolvimento de percepções mais amplas acerca da problemática socioambiental, pudemos entender que a Educação Ambiental crítica e dialógica emerge como elemento primordial na construção de valores éticos, norteados por olhares políticos capazes de promover uma formação pautada no rompimento de relações exploratórias, tanto no convívio social, referente ao ser humano com o seu semelhante, quanto na apropriação desigual dos recursos ambientais. [...]
Trechos extraídos da dissertação de mestrado Educação ambiental e monocultura canavieira: desvendando a compreensão sobre a interação do ser humano com o meio ambiente em alunos da Educação de Jovens e Adultos, apresentada em 2015, pela pedagoga pós-graduada em Ética Valores e Cidadania na Escola pela USP, Simone Franzi, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Unesp. A autora é participante do Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental (Gepea). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja mais:
Ainda assim é uma história de amor, a literatura de Henrich Böll, a música de Mário Ficarelli & a arte de João Câmara aqui.
O culto da rosa na Crônica de amor por ela, As mil e uma noites, Ezra Pound, Almeida Prado, Heráclito de Êfeso, Dermeval Saviani, Vittorio Alfrieri, Washington Maguetas, Gilian Armstrong, Cate Blanchett, Alfred Cheney Johnston & Myrna Araujo aqui.
Gilles Deleuze, Susan Sontag, Dian Fossey, Sigourney Weaver, Washington Maguetas, João Pinheiro & Padre Bidião aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual e fotógrafa britânica Jo Howell.
Veja mais aqui.
 

sábado, agosto 20, 2016

HOBSBAWM, LIPOVETSKY, GAL COSTA, MARTHA MEDEIROS, NGUYEN TUAN, LIPKING & GISELE LEMOS

ANDEJO DA NOITE E DO DIA - Imagem: The walking man (2011), by Shanna Bruschi – Caminheiro voo, andarilho errante. Não tenho onde cair morto, nem onde encostar a cabeça. Não me foi dado o privilégio de ter nas mãos uma das assinaturas do deus de tudo e todas as coisas nas escrituras pros donos da Terra. Quando cheguei já ocupavam tudo, não me sobrou nem areia nas unhas, andejo suspenso no ar: não tenho como pagar pedágio – pago assim mesmo, quer queira ou não, e pago tudo, até à revelia pela vida, pelo oxigênio, pela água, por ter nascido, por estar vivo – é tudo deles e eu sem, só tenho o que é de mim mesmo e que eu não sei, nem tenho nada, remorsos, dissabores. E se tenho vestes nem eram minhas e foram compradas nas feiras e que também são deles, os meus fazem festa comendo vidro de luzes no luxo dos magazines. Só me resta a carne cansada, os ossos doídos, o coração solitário e o olhar para ver o que enxergo no meio do turbilhão dos dias e das noites. Não posso parar, senão serei crucificado pelos credos dos muitos missionários que fazem a curadoria das cidades doentes e se dizem íntimos e portadores de um deus que não é o meu, nem de ninguém, só deles e que me xingam paranóicos sectários de fazer pichação incrédula por onde passo, mesmo quando Deus está comigo e não querem ver, sequer me fitar com suas exaltadas pregações aviltando tudo e todos. Não fujo de nada, pela justiça dos homens fui estornado, marginal condenado ao desterro; pela Justiça de Deus, pagar meus pecados, viandante pelas rodagens de barro batido por longas distâncias, estrangeiro de sempre. Fui tirado do seio da mãe pra aprender a viver conforme as razões de todos. Fui tirado da escola pro trabalho, o meu dever; a escola é pros que podem, os donos de cursinhos também são donos das universidades públicas, como posso me instruir se sou levado a viver atrepado nas árvores e a viajar na brisa quando meu corpo foi condicionado ao ventilador ou aparelho de refrigeração. E se como da fruta colhida no pé, meu corpo foi educado a saborear temperos, sais e açúcares, cozidos, assados, requentados, tudo envenenado e viro enfermo gemendo estrada afora. E se vou caminhante pensamentos suspensos na paisagem do lugar, é que meu corpo acomodado reclama o conforto de automóveis, aeronaves ou mecanismos de pressas, que nem posso ter a não ser tirando fino pra me desviar o caminho e cambaleio engolindo a poeira do asfalto. A tudo vejo e não me vêem: a vida passa, insone voo, a seguir sem adeus. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

O AMOR 
Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais entrará sorridente
Assim como está na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita. Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá o coração destroçado já pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
Por uma casa, um buraco
Ressuscita-me para que a partir de hoje
A partir de hoje a família se transforme
E o pai seja pelo menos o Universo
E a mãe seja no mínimo a Terra, a Terra, a Terra
(O amor, de Caetano Veloso sobre poema de V. Mayakovsky), no álbum Gal Costa Acústico MTV (BMG, 2001). Veja mais aqui.

PESQUISA 
[...] não há como negar que o impacto das atividades humanas sobre a natureza, sobretudo as urbanas e industriais, mas também, como se acabou compreendendo, as agrícolas, aumentou acentuadamente a partir de meados do século. Isso se deveu em grande parte ao enorme aumento no uso de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural etc.), cujo possível esgotamento vinha preocupando os que pensavam no futuro desde meados do século xix. [...] Os seres humanos só eram essenciais para tal economia num aspecto: como compradores de bens e serviços. Aí estava o seu problema central. [...].
Trecho da obra A era dos extremos: o breve século XX (1914-1991 - Companhia das Letras, 2001), do historiador Eric Hobsbawm, contando em linguagem simples e envolvente, a história da "era das ilusões perdidas". Veja mais aqui.

LEITURA 
O amor já foi uno, concreto e definido. Mas o século mudou e com ele as variantes do amor, que se multiplicaram. Hoje há diversas formatações para vivenciá-lo, são inúmeros os seus significados e ilimitadas as suas maneiras de encantar e transformar. O amor romântico – “eu e você para sempre” – é apenas uma de suas modalidades. O que é o amor, afinal? Impossível resumir num só conceito. Amor é gratidão por alguém ter nos tornado especial. Amor é a realização de um ideal criado ainda na infância. Amor é a possibilidade de repetir o mais importante feito de nossos pais – aquele sem o qual não teríamos nascido. Amor é projetar no outro aquilo que nos falta. Amor é erotismo. Amor é uma experiência sensorial. Amor é carência. Amor é o gatilho para formar uma família. Amor é aquele troço sem razão que bagunça a nossa vida. Que melhora a nossa vida. Que piora a nossa vida. Que justifica a nossa vida. Amor é uma forma de escapar da vulgaridade. Amor é uma mentira que amamos contar. Amor é um álibi para crimes e casamentos. Amor é a vingança contra a objetividade. Amor é divisão de fardo. Amor é um antídoto contra a solidão. Amor é uma invenção do cinema e da literatura. Amor é paz. Amor é a busca de um tormento que torne a vida mais emocionante. Amor é a vitória do cansaço, já que paixões sequenciais exaurem. Amor é o nome que se dá para uma emoção que nos domina e do qual não queremos ser libertados. Amamos pais, irmãos, amigos. Amamos os namorados que tivemos e os que ainda teremos, amamos nosso marido até o dia em que ele não volta para casa, amamos nossos ídolos até que eles nos decepcionem, amamos nossos filhos mesmo que nos decepcionem, amamos nosso cão e nosso gato quase acima de Deus, amamos Deus acima de tudo pois cremos que ele não nos faltará, amamos a nós mesmos apesar de saber que nem tudo é amável em nós. Amor não é uma desculpa esfarrapada. Ela é muito bem costurada. Amor pode brotar de um olhar, de um beijo, de um desejo. Amor é encasquetar. Se alguém lhe faz perguntas a respeito, você, na falta de argumento melhor, responde que é amor, que sempre foi amor, e ninguém espicha a conversa porque contra o amor não há réplica. Como pode alguém ter amado uma pessoa ontem e hoje amar outra, como pode ter amado uma mulher e hoje um homem, como pode amar duas mulheres ao mesmo tempo, como pode já ter vivido com vários, como pode sentir amor por um salafrário, como pode sentir-se inteiro repartindo-se em dois, como pode ser poli, multi, bissexual, bígamo, hetero, homo, fiel, infiel, amoral? Como, diante deste sentimento, ter alguma certeza?  O amor paira acima das classificações. Tem mil jeitos, mil formas, mil dobras. É a nossa maior proeza.
O amor e tudo que ele é, da escritora poeta gaúcha Martha Medeiros. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Uma nova modernidade nasceu: ela coincide com a "civilização do desejo" que foi construída ao longo da segunda metade do século XX. Essa revolução é inseparável das novas orientações do capitalismo posto no caminho da estimulação perpétua da demanda, da mercantilização e da multiplicação indefinida das necessidades: o capitalismo de consumo tomou o lugar das economias de produção. [...] Daí a condição profundamente paradoxal do hiperconsumidor. De um lado, este se afirma como um "consumator", informado e "livre", que vê seu leque de escolhas ampliar-se, que consulta portais e comparadores de custo, aproveita as pechinchas do low-cost, age procurando otimizar a relação qualidade/preço. Do outro, os modos de vida, os prazeres e os gostos mostram-se cada vez mais sob a dependência do sistema mercantil. Quanto mais o hiperconsumidor detém um poder que lhe era desconhecido até então, mais o mercado estende sua força tentacular; quanto mais o comprador está em situação de auto-administração, mais existe extrodeterminação ligada à ordem comercial. O hiperconsumidor não está mais apenas ávido de bem-estar material, ele aparece como um solicitante exponencial de conforto psíquico, de harmonia interior e de desabrochamento subjetivo, demonstrados pelo florescimento das técnicas derivadas do desenvolvimento pessoal bem como pelo sucesso das sabedorias orientais, das novas espiritualidades, dos guias da felicidade e da sabedoria. O materialismo da primeira sociedade de consumo passou de moda: assistimos à expansão do mercado da alma e de sua transformação, do equilíbrio e da auto-estima, enquanto proliferam as farmácias da felicidade. Numa época em que o sofrimento é desprovido de todo sentido, em que os grandes referenciais tradicionais e históricos estão esgotados, a questão da felicidade interior "volta à tona", tornando-se um segmento comercial, um objeto de marketing que o hiperconsumidor quer poder ter em mãos, sem esforço, imediatamente e por todos os meios. A crença moderna segundo a qual a abundância é a condição necessária e suficiente da felicidade do homem deixou de ser evidente: resta saber se a reabilitação da sabedoria não recompõe por sua vez uma ilusão de outro gênero. Reinvestindo na dimensão do "ser" ou da espiritualidade, o neoconsumidor está mais bem inserido no caminho da felicidade que seus predecessores? A civilização consumista distingue-se pelo lugar central ocupado pelas aspirações de bem-estar e pela busca de uma vida melhor para si mesmo e os seus. [...] O descarte dos artigos já não é provocado pela mediocridade da fabricação, mas pela economia da velocidade, por produtos novos, mais eficientes ou que respondam a outras necessidades. [...].
Trecho extraído da obra A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo (Companhia das Letras, 2007), do filósofo, professor e teórico da Hipermodernidade Gilles Lipovetsky, investigando a a felicidade, o bem-estar, a produção de sentidos, idéias e necessidades em torno da contemporaneidade do hiperconsumo, da hiperindividualização e do hiperdesejo. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do escultor vietnamita Nguyen Tuan.

Veja mais sobre o projeto de extensão Infância, Imagem e Literatura, Direito & Psicanálise, Décio Pignatari, Cora Coralina, Agostino Carracci, Led Zeppelin, Antunes Filho, Gênero & Sexualidade, Vera Fisher & Mariana Nogueira aqui.

DESTAQUE
A arte da psicóloga, professora de música e diretora do grupo Conto&Cena, Gisele Sant'Ana Lemos, editora dos blogs Biologia do Amor e Diana Balis, e coordenadora da Revista Poesia Legal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nude, do artista plástico estadunidense Jeremy Lipking.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

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